David Mourão-Ferreira
Autor do dia

David Mourão-Ferreira

David Mourão-Ferreira foi um proeminente poeta, escritor e crítico literário português. A sua obra poética, marcada por uma profunda sensibilidade lírica e um rigor formal apurado, explorou temas como o amor, o tempo e a efemeridade da existência, muitas vezes com uma linguagem depurada e musicalidade ímpar. Além da sua vasta produção literária, David Mourão-Ferreira dedicou-se ativamente à crítica e à promoção da cultura, deixando um legado significativo no panorama literário português.

Poema do dia

Eu sei, mas não devia

Marina Colasanti
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não seja as janelas ao redor.
E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma acender mais cedo a luz.
E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.
A tomar café correndo porque está atrasado.
A ler jornal no ônibus porque não pode perder tempo da viagem.
A comer sanduíche porque não dá pra almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra.
E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja número para os mortos.
E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.
E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.
E a ganhar menos do que precisa.
E a fazer filas para pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e a ver cartazes.
A abrir as revistas e a ver anúncios.
A ligar a televisão e a ver comerciais.
A ir ao cinema e engolir publicidade.
A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição.
As salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.
À luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias da água potável.
À contaminação da água do mar.
À lenta morte dos rios.
Se acostuma a não ouvir o passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer.
Em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá.
Se o cinema está cheio a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se a praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do corpo.
Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que gasta, de tanto acostumar, se perde de si mesma.

1972
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Nasceram neste dia

10
Firmino Rodrigues da Silva

Firmino Rodrigues da Silva foi um poeta português cujas obras exploram as profundezas da alma humana, com particular ênfase na condição humana e na transcendência. A sua poesia é frequentemente marcada por uma profunda reflexão sobre o amor, a fé e a busca por sentido, utilizando uma linguagem elaborada e uma estrutura formal cuidada. A sua obra, embora talvez menos conhecida do grande público, constitui um valioso testemunho da poesia portuguesa do seu tempo, revelando um espírito lírico e pensativo.

Nénia
Juvenal Bucuane

Juvenal Bucuane é um nome associado à poesia moçambicana contemporânea, com uma obra que se destaca pela reflexão sobre a identidade, a condição humana e as realidades sociais. A sua escrita explora a sonoridade da língua e a profundidade das emoções, convidando o leitor a uma imersão em universos de grande sensibilidade. A poesia de Bucuane é reconhecida pela sua capacidade de transitar entre o pessoal e o universal, utilizando uma linguagem acessível mas carregada de significado. As suas composições poéticas abordam, frequentemente, temas como o amor, a saudade, a esperança e a busca por um sentido maior na existência, marcando a sua presença no panorama literário de Moçambique.

O minuto que vem
Leonardo de Leo Gama

Leonardo de Leo Gama é um poeta cuja produção se insere no contexto da poesia contemporânea, explorando a complexidade da linguagem e as nuances da experiência humana. Sua obra é marcada por uma sensibilidade particular para a observação do mundo e para a reflexão sobre temas como a identidade, a memória e a efemeridade da vida. Com um estilo que alia rigor formal a uma expressividade lírica, Gama constrói poemas que convidam o leitor a uma imersão em universos íntimos e reflexivos, questionando percepções e despertando novas sensibilidades. Sua poesia busca, assim, um diálogo profundo com o leitor sobre a condição humana.

Saudação a Afrodite
Loyola Rodrigues

Loyola Rodrigues foi um poeta cuja obra se destacou pela exploração da condição humana, com um lirismo que mesclava o pessoal com o universal. A sua poesia é marcada por uma profunda reflexão sobre o tempo, a memória e a efemeridade da vida, expressa através de uma linguagem cuidada e de uma sensibilidade ímpar. Com uma voz poética introspectiva, Rodrigues abordou temas como o amor, a perda e a busca por sentido, muitas vezes utilizando a natureza como pano de fundo para as suas meditações existenciais. A sua obra, embora por vezes discreta em termos de reconhecimento mediático, ocupa um lugar valioso no panorama da poesia contemporânea, pela sua autenticidade e profundidade.

Menino no Mundo
Manuel da Silva Mendes

Manuel da Silva Mendes é um poeta cuja obra se caracteriza pela profundidade lírica e pela exploração de temas como a natureza, a passagem do tempo e a experiência humana. A sua escrita distingue-se pela musicalidade e pela capacidade de evocar imagens vívidas, refletindo uma sensibilidade apurada para as nuances do mundo natural e interior. É uma voz reconhecida na poesia contemporânea de língua portuguesa.

Marco Reynolds

Marco Reynolds é um poeta contemporâneo cuja obra explora a complexidade das emoções humanas e a interligação entre o indivíduo e o cosmos. Sua escrita é marcada por uma linguagem evocativa e uma profunda reflexão sobre temas como o tempo, a memória e a busca por significado em um mundo em constante transformação. Reynolds frequentemente emprega imagens oníricas e uma musicalidade singular para criar poemas que ressoam com sensibilidade e profundidade existencial.

Maria do Carmo de Almeida

Maria do Carmo de Almeida é uma figura associada à escrita, com contribuições que podem abranger diversos géneros literários. A sua obra tende a explorar a complexidade das emoções humanas e as relações interpessoais, utilizando uma linguagem que procura a clareza e a expressividade.

Douglas Dunn

Douglas Dunn é um poeta escocês aclamado, conhecido por sua poesia que frequentemente reflete sobre a vida na Escócia, a classe trabalhadora e a experiência humana em suas diversas facetas. Sua obra combina uma linguagem coloquial com momentos de profunda reflexão lírica, abordando temas como trabalho, família, perda e a passagem do tempo com autenticidade e empatia.

Howard Buck

Howard Buck é um autor conhecido por suas contribuições para a literatura. Sua obra explora temas diversos, muitas vezes com um olhar profundo sobre a condição humana e as relações interpessoais. Ele se destaca pela sua prosa envolvente e pela capacidade de criar personagens memoráveis que ressoam com os leitores.

Morreram neste dia

4
Alves Coelho

Alves Coelho foi um poeta de relevo, cuja obra se distingue pela profundidade lírica e pela reflexão sobre temas existenciais. A sua poesia, marcada por uma linguagem apurada e sensível, abordou frequentemente a condição humana e as suas complexidades. O seu contributo para a literatura é notável, deixando um acervo poético que continua a ser valorizado pela sua qualidade estética e pela sua capacidade de tocar o leitor.

Olhos Castanhos
Théophile Gautier

Théophile Gautier foi um poeta, escritor, crítico e jornalista francês, figura proeminente do Romantismo e um dos defensores da doutrina da "arte pela arte". A sua obra abrange poesia, prosa e crítica literária e artística, destacando-se pela sua prosa elegante e pelas suas descrições vívidas. Conhecido pela sua paixão pela arte, pela beleza e pelo exótico, Gautier deixou um legado significativo na literatura francesa, influenciando gerações de escritores com o seu rigor formal e a sua busca incessante pela perfeição estética.

Moralidade
Antonio Cicero

Antonio Cicero foi um poeta, professor universitário e crítico literário brasileiro. Sua obra poética é marcada por uma profunda reflexão sobre a linguagem, o tempo e a condição humana, aliada a um rigor formal e a uma inteligência aguçada. Sua poesia explora as ambiguidades da experiência moderna, o cotidiano e a busca por sentido em um mundo complexo. Foi também um intelectual influente, conhecido por seus ensaios sobre cultura, literatura e filosofia, além de sua atuação como professor.

Guardar
António Cabral

António Cabral foi um poeta português cuja obra se insere no panorama literário do século XX. A sua poesia é marcada por um lirismo introspectivo e uma profunda reflexão sobre a condição humana, a passagem do tempo e a busca por sentido. A sua escrita, embora talvez menos divulgada que a de outros contemporâneos, é notável pela sua sensibilidade e pela forma como explora a complexidade das emoções e das experiências vividas, utilizando uma linguagem cuidadosamente elaborada e evocativa.

Aniversários da comunidade

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