Toni Montesinos Gilbert
Autor do dia

Toni Montesinos Gilbert

Toni Montesinos é um poeta espanhol cuja obra explora as complexidades da existência humana com uma linguagem lírica e reflexiva. A sua poesia frequentemente aborda temas como a memória, o tempo, a identidade e a busca por significado num mundo em constante mudança. Com uma sensibilidade aguçada para as nuances da experiência quotidiana, Montesinos constrói versos que ressoam pela sua profundidade emocional e pela sua capacidade de capturar a essência das emoções humanas. O seu estilo caracteriz…

Poema do dia

Eu sei, mas não devia

Marina Colasanti
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não seja as janelas ao redor.
E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma acender mais cedo a luz.
E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.
A tomar café correndo porque está atrasado.
A ler jornal no ônibus porque não pode perder tempo da viagem.
A comer sanduíche porque não dá pra almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra.
E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja número para os mortos.
E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.
E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.
E a ganhar menos do que precisa.
E a fazer filas para pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e a ver cartazes.
A abrir as revistas e a ver anúncios.
A ligar a televisão e a ver comerciais.
A ir ao cinema e engolir publicidade.
A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição.
As salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.
À luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias da água potável.
À contaminação da água do mar.
À lenta morte dos rios.
Se acostuma a não ouvir o passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer.
Em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá.
Se o cinema está cheio a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se a praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do corpo.
Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que gasta, de tanto acostumar, se perde de si mesma.

1972
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Nasceram neste dia

9
Marcolino Candeias

Marcolino Candeias é um poeta cuja obra se distingue pela sua profunda ligação à terra e às raízes culturais. A sua poesia celebra a vida simples, a natureza e as tradições, expressas através de uma linguagem autêntica e acessível. Candeias constrói um universo lírico onde a memória e a identidade se entrelaçam, oferecendo um olhar sensível sobre a condição humana e a beleza do quotidiano.

Breve Discurso aos Meus Amigos
Rafael Días Icaza

Rafael Días Icaza foi um poeta cuja obra se destacou pela exploração de temas existenciais e pela sua capacidade de transfigurar o quotidiano em arte poética. A sua escrita é marcada por uma profunda sensibilidade e por um olhar aguçado sobre as complexidades da alma humana, refletindo sobre a efemeridade da vida e a busca por sentido. Poeta de uma geração que procurava novas formas de expressão, Días Icaza contribuiu para a renovação da linguagem poética, aliando a tradição a uma visão contemporânea. A sua obra, embora por vezes discreta, ressoa pela sua autenticidade e pela força das suas imagens, convidando à reflexão sobre a condição humana.

Insônia
Péricles Eugênio da Silva Ramos

Péricles Eugênio da Silva Ramos foi um poeta, ensaísta, crítico literário e tradutor brasileiro, figura proeminente da Geração de 45. Sua obra poética é marcada por um tom reflexivo e social, explorando temas como a identidade nacional, a história do Brasil e a condição humana. Sua escrita é conhecida pela erudição, pelo rigor formal e por um lirismo contido, mas profundo. Além de sua vasta produção poética, Silva Ramos dedicou-se à crítica literária e à tradução, contribuindo significativamente para a difusão da literatura em língua portuguesa e para o estudo de autores clássicos e modernos. Sua atuação cultural foi diversificada e influente.

Cabelos, os Meus Cabelos
August Graf von Platen

August Graf von Platen (1796-1835) foi um poeta e dramaturgo alemão, conhecido por seus sonetos e sátiras. Sua obra é marcada por um estilo clássico e um forte senso crítico, abordando temas como a sociedade, a política e a condição humana com agudeza e elegância.

António José Maldonado

António José Maldonado foi um poeta português do século XVIII, cuja obra se insere no período do Arcadismo. Conhecido por um lirismo delicado e por uma forte inclinação para a poesia de ocasião e de caráter mais sentimental, Maldonado refletiu em seus versos os ideais estéticos e temáticos da sua época. Explorou temas como o amor, a natureza e a fugacidade do tempo, com uma linguagem que buscava a clareza e a elegância, características do movimento árcade. Sua produção poética contribui para a compreensão da lírica portuguesa deste período.

Delmira Agustini

Delmira Agustini foi uma poeta uruguaia, figura de destaque do modernismo literário na Hispano-América. A sua obra caracteriza-se por uma profunda exploração da sensualidade, do erotismo e da subjetividade feminina, frequentemente enquadrada num contexto de repressão social e moral para as mulheres da sua época. Agustini é reconhecida pela sua audácia temática e pela sua linguagem inovadora, que desafiou as convenções literárias e sociais do início do século XX. Apesar da sua curta vida, a sua poesia deixou uma marca indelével na literatura do seu país e do continente, sendo considerada uma precursora do feminismo literário.

Porfirio Barba Jacob

Porfirio Barba Jacob foi um poeta colombiano conhecido pela sua obra lírica profunda e muitas vezes melancólica. A sua poesia caracteriza-se por uma introspeção intensa, a exploração de temas como a solidão, o amor não correspondido e a fugacidade do tempo. Apesar de uma vida marcada pela instabilidade e pelas dificuldades, a sua pena soube capturar a beleza e a dor da existência com uma sensibilidade excecional. A sua obra, embora não muito extensa, deixou uma marca indelével na poesia hispano-americana do século XX. Barba Jacob é recordado como um poeta de profunda ligação às suas emoções, cuja voz ressoa com uma autenticidade dilacerante, convidando à reflexão sobre a condição humana e a procura de sentido num mundo muitas vezes adverso.

Morreram neste dia

8
João Manuel Simões

João Manuel Simões é um poeta contemporâneo cujo trabalho se destaca pela exploração da linguagem e pela reflexão sobre a existência. Sua obra poética aborda temas universais através de uma perspetiva introspectiva e, por vezes, enigmática, convidando o leitor a um mergulho nas profundezas da condição humana.

Diálogo Comigo
Dolores Duran

Dolores Duran foi uma cantora e compositora brasileira, conhecida por sua voz melancólica e suas canções que abordavam temas como o amor, a saudade e as desilusões. Sua obra é marcada por uma profunda sensibilidade e uma escrita poética que a tornou uma das vozes mais importantes da música popular brasileira em meados do século XX. Ela deixou um legado de canções que continuam a ser interpretadas e admiradas por sua autenticidade e força emocional, consolidando seu lugar como um ícone da música e da poesia brasileira.

A noite do meu bem
Amadeu Amaral

Amadeu Amaral foi um poeta, dramaturgo e crítico literário português, figura proeminente do grupo Orpheu e do movimento modernista em Portugal. A sua obra poética é marcada pela inovação formal, pela exploração de temas urbanos e pela busca de uma linguagem mais livre e expressiva. Como crítico e teórico, Amaral desempenhou um papel crucial na definição e divulgação das estéticas modernistas, defendendo a renovação da literatura portuguesa face às tradições anteriores.

Jamais
Ernesto Ennes

Ernesto Ennes foi um poeta e jornalista português, cuja obra se insere no contexto do final do século XIX e início do século XX. A sua poesia, frequentemente ligada ao saudosismo e a uma forte identidade nacional, reflete as preocupações sociais e culturais da sua época, com um estilo que oscila entre a tradição e os primeiros ventos da modernidade literária.

Francisco Luis Bernárdez

Francisco Luis Bernárdez foi um poeta argentino cuja obra se caracteriza por uma lírica profunda, espiritual e reflexiva, muitas vezes marcada pela influência da filosofia e da teologia. Sua poesia explora temas como a fé, a dúvida, o mistério da existência, a transcendência e a busca de Deus. Com um estilo cuidado e uma linguagem carregada de simbolismo, Bernárdez conseguiu criar uma obra poética de grande profundidade espiritual. Sua figura é relevante dentro da poesia argentina do século XX, destacando-se pela originalidade e pela sua investigação das grandes questões do ser humano.

Carlos Bousoño

Carlos Bousoño foi um destacado poeta e crítico literário espanhol, uma figura central na poesia espanhola do pós-guerra e um dos maiores conhecedores da obra de Juan Ramón Jiménez. A sua obra poética, marcada por uma profunda reflexão sobre o ser, o tempo e a realidade, caracteriza-se pelo seu rigor formal, pela sua linguagem cuidada e pela sua constante busca pela verdade e pela beleza. Como crítico, a sua análise da poesia contemporânea e a sua erudição consagraram-no como uma autoridade indiscutível no âmbito literário espanhol.

Luis Rosales

Luis Rosales foi um poeta espanhol cuja obra está associada à Geração de 27, embora o seu estilo tenha desenvolvido uma voz própria e uma profunda reflexão sobre a condição humana e a beleza. A sua poesia caracteriza-se por um lirismo depurado, uma linguagem precisa e uma constante busca pela harmonia e pela transcendência. Rosales explorou temas como o amor, a morte, o tempo, a natureza e a memória, muitas vezes com uma perspetiva existencial e metafísica. É reconhecido pela sua mestria formal, pelo seu equilíbrio entre a tradição e a modernidade, e pela sua capacidade de evocar emoções profundas através de imagens sugestivas e um ritmo musical. A sua obra representa um valioso legado na poesia espanhola do século XX, marcada pela intensidade lírica e pela nobreza da sua expressão.

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