António Manuel Pires Cabral
Autor do dia

António Manuel Pires Cabral

António Manuel Pires Cabral é um poeta, ensaísta e investigador português, cuja obra se distingue pela reflexão sobre a identidade, a memória e a condição humana, frequentemente enraizada na paisagem e na cultura do Alentejo. A sua poesia é marcada por uma linguagem cuidada, um tom por vezes melancólico e uma profunda sensibilidade para com as pequenas coisas da vida e a passagem do tempo. Como ensaísta e investigador, Pires Cabral tem contribuído para o estudo da literatura e da cultura portug…

Poema do dia

O Desespero da Piedade

Vinicius de Moraes
Meu Senhor, tende piedade dos que andam de bonde
E sonham no longo percurso com automóveis, apartamentos...
Mas tende piedade também dos que andam de automóvel
Quantos enfrentam a cidade movediça de sonâmbulos, na direção.

Tende piedade das pequenas famílias suburbanas
E em particular dos adolescentes que se embebedam de domingos
Mas tende mais piedade ainda de dois elegantes que passam
E sem saber inventam a doutrina do pão e da guilhotina

Tende muita piedade do mocinho franzino, três cruzes, poeta
Que só tem de seu as costeletas e a namorada pequenina
Mas tende mais piedade ainda do impávido forte colosso do esporte
E que se encaminha lutando, remando, nadando para a morte.

Tende imensa piedade dos músicos de cafés e de casas de chá
Que são virtuoses da própria tristeza e solidão
Mas tende piedade também dos que buscam o silêncio
E súbito se abate sobre eles uma ária da Tosca.

Não esqueçais também em vossa piedade os pobres que enriqueceram
E para quem o suicídio ainda é a mais doce solução
Mas tende realmente piedade dos ricos que empobreceram
E tornam-se heróicos e à santa pobreza dão um ar de grandeza.

Tende infinita piedade dos vendedores de passarinhos
Quem em suas alminhas claras deixam a lágrima e a incompreensão
E tende piedade também, menor embora, dos vendedores de balcão
Que amam as freguesas e saem de noite, quem sabe onde vão...

Tende piedade dos barbeiros em geral, e dos cabeleireiros
Que se efeminam por profissão mas são humildes nas suas carícias
Mas tende maior piedade ainda dos que cortam o cabelo:
Que espera, que angústia, que indigno, meu Deus!

Tende piedade dos sapateiros e caixeiros de sapataria
Quem lembram madalenas arrependidas pedindo piedade pelos sapatos
Mas lembrai-vos também dos que se calçam de novo
Nada pior que um sapato apertado, Senhor Deus.

Tende piedade dos homens úteis como os dentistas
Que sofrem de utilidade e vivem para fazer sofrer
Mas tente mais piedade dos veterinários e práticos de farmácia
Que muito eles gostariam de ser médicos, Senhor.

Tende piedade dos homens públicos e em particular dos políticos
Pela sua fala fácil, olhar brilhante e segurança dos gestos de mão
Mas tende mais piedade ainda dos seus criados, próximos e parentes
Fazei, Senhor, com que deles não saiam políticos também.

E no longo capítulo das mulheres, Senhor, tenha piedade das mulheres
Castigai minha alma, mas tende piedade das mulheres
Enlouquecei meu espírito, mas tende piedade das mulheres
Ulcerai minha carne, mas tende piedade das mulheres!

Tende piedade da moça feia que serve na vida
De casa, comida e roupa lavada da moça bonita
Mas tende mais piedade ainda da moça bonita
Que o homem molesta — que o homem não presta, não presta, meu Deus!

Tende piedade das moças pequenas das ruas transversais
Que de apoio na vida só têm Santa Janela da Consolação
E sonham exaltadas nos quartos humildes
Os olhos perdidos e o seio na mão.

Tende piedade da mulher no primeiro coito
Onde se cria a primeira alegria da Criação
E onde se consuma a tragédia dos anjos
E onde a morte encontra a vida em desintegração.

Tende piedade da mulher no instante do parto
Onde ela é como a água explodindo em convulsão
Onde ela é como a terra vomitando cólera
Onde ela é como a lua parindo desilusão.

Tende piedade das mulheres chamadas desquitadas
Porque nelas se refaz misteriosamente a virgindade
Mas tende piedade também das mulheres casadas
Que se sacrificam e se simplificam a troco de nada.

Tende piedade, Senhor, das mulheres chamadas vagabundas
Que são desgraçadas e são exploradas e são infecundas
Mas que vendem barato muito instante de esquecimento
E em paga o homem mata com a navalha, com o fogo, com o veneno.

Tende piedade, Senhor, das primeiras namoradas
De corpo hermético e coração patético
Que saem à rua felizes mas que sempre entram desgraçadas
Que se crêem vestidas mas que em verdade vivem nuas.

Tende piedade, Senhor, de todas as mulheres
Que ninguém mais merece tanto amor e amizade
Que ninguém mais deseja tanto poesia e sinceridade
Que ninguém mais precisa tanto alegria e serenidade.

Tende infinita piedade delas, Senhor, que são puras
Que são crianças e são trágicas e são belas
Que caminham ao sopro dos ventos e que pecam
E que têm a única emoção da vida nelas.

Tende piedade delas, Senhor, que uma me disse
Ter piedade de si mesma e da sua louca mocidade
E outra, à simples emoção do amor piedoso
Delirava e se desfazia em gozos de amor de carne.

Tende piedade delas, Senhor, que dentro delas
A vida fere mais fundo e mais fecundo
E o sexo está nelas, e o mundo está nelas
E a loucura reside nesse mundo.

Tende piedade, Senhor, das santas mulheres
Dos meninos velhos, dos homens humilhados — sede enfim
Piedoso com todos, que tudo merece piedade
E se piedade vos sobrar, Senhor, tende piedade de mim!
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Nasceram neste dia

14
Virgílio Fernandes Almeida

Virgílio Fernandes Almeida é um poeta cuja obra se distingue pela sua profundidade lírica e pela exploração de temas universais. A sua poesia aborda a condição humana, a efemeridade do tempo, a beleza da natureza e a complexidade das emoções, com uma linguagem cuidada e uma sensibilidade apurada. Almeida constrói um universo poético rico em imagens e metáforas, convidando o leitor a uma jornada de introspeção e contemplação. A sua voz poética ressoa com uma autenticidade que lhe confere um lugar de destaque na poesia contemporânea.

O poeta, o temor e o computador
Viriato da Cruz

Viriato da Cruz foi um poeta, jornalista e político angolano, figura central na luta pela independência de Angola. A sua obra poética, marcada pela força expressiva, pelo lirismo engajado e pela denúncia social, reflete as aspirações do povo angolano e a sua luta contra o colonialismo. Foi um dos fundadores do MPLA.

Serão de Menino
V. de Araújo

V. de Araújo é um nome associado à produção poética em língua portuguesa. A sua obra, embora possa não ter alcançado uma ampla notoriedade, contribui para o mosaico da expressão lírica, explorando, possivelmente, os temas recorrentes da condição humana, da natureza ou da subjetividade. A sua poesia representa um testemunho singular no panorama literário.

Reminiscências
Ana Blandiana

Ana Blandiana é uma poeta, ensaísta e ativista política romena, reconhecida por sua poesia lírica e engajada, que frequentemente aborda temas como liberdade, memória e a condição humana sob regimes autoritários. Sua obra é um reflexo de suas experiências e de seu compromisso com os direitos civis e a democracia.

António Mega Ferreira

António Mega Ferreira foi um escritor, poeta e ensaísta português cuja obra abordou com profundidade a identidade, a memória e a condição humana, num diálogo constante com a história e a cultura. A sua poesia, marcada por uma linguagem rigorosa e uma forte carga reflexiva, explorou temas como o tempo, a relação entre o indivíduo e a sociedade, e a busca por sentido num mundo em constante transformação. Como ensaísta e crítico, Mega Ferreira contribuiu significativamente para a análise da literatura e da cultura portuguesa, deixando um legado de pensamento crítico e uma obra literária de valor inestimável.

Uma nota só
Marie-Jeanne Durry

Marie-Jeanne Durry foi uma proeminente crítica literária e professora francesa, especializada na obra de poetas do século XX. Sua carreira foi dedicada ao estudo aprofundado da poesia moderna, com particular interesse em autores como Paul Valéry. Ela contribuiu significativamente para a academia e para a crítica literária, trazendo uma perspectiva analítica e erudita para a interpretação de textos poéticos.

Samir Delgado

Samir Delgado é um poeta e escritor espanhol contemporâneo, cuja obra se insere na linha da poesia social e da reflexão sobre a condição humana. As suas composições poéticas exploram a realidade quotidiana, as inquietações existenciais e as relações interpessoais com uma linguagem clara e direta. O seu trabalho tem sido reconhecido pela capacidade de conectar com os leitores através de temas relevantes e de uma sensibilidade que aborda as complexidades da vida moderna. Delgado é uma voz a ter em conta na poesia atual.

José de Espronceda

José de Espronceda foi um poeta e dramaturgo espanhol, figura cimeira do Romantismo no seu país. A sua vida, marcada pela rebeldia, pelo exílio e pelas paixões desmedidas, reflete-se numa obra carregada de lirismo, melancolia e um profundo espírito de liberdade. Espronceda é conhecido pelos seus poemas narrativos, sonetos apaixonados e dramas históricos, consolidando-se como um símbolo da insatisfação e da busca romântica.

Jaime Sabines

Jaime Sabines foi um poeta mexicano cuja obra se distingue pela sua linguagem direta, coloquial e apaixonada. Através dos seus versos, abordou temas universais como o amor, a morte, a solidão e a injustiça social com uma intensidade comovedora. A sua poesia, afastada das correntes vanguardistas e da retórica academicista, conectou profundamente com o sentir popular, tornando-se um dos poetas mais lidos e queridos do México. Sabines explorou a condição humana a partir de uma perspetiva íntima e, ao mesmo tempo, socialmente comprometida, deixando um legado de poemas que ressoam com força na alma do leitor.

Morreram neste dia

7
Novalis

Novalis foi um poeta e filósofo alemão, figura proeminente do Romantismo. A sua obra, marcada pela subjetividade e pela busca do absoluto, explora temas como a noite, o sonho, a morte e a religião. A sua produção poética, embora reduzida, é considerada fundamental para a compreensão do movimento romântico alemão, influenciando gerações posteriores de escritores e pensadores.

Toda a descida em nós
Pedro Kilkerry

Pedro Kilkerry foi um poeta, dramaturgo e jornalista português, conhecido pela sua obra satírica e anticlerical. Foi uma figura proeminente da boémia literária lisboeta do final do século XIX e início do século XX, associado a movimentos de contestação social e política. A sua escrita reflete um espírito irreverente e um agudo senso crítico, marcando a sua passagem pela literatura portuguesa com um estilo inconfundível.

É o Silêncio
Frédéric Mistral

Frédéric Mistral foi um poeta e lexicógrafo francês, figura central do movimento Félibrige, que visava a revitalização e promoção da língua e cultura provençal. Sua obra poética, escrita em provençal, celebrou a terra, as tradições e o modo de vida do sul da França, ganhando reconhecimento internacional, inclusive o Prêmio Nobel de Literatura. Mistral dedicou sua vida à defesa do occitano, compilando um vocabulário monumental e incentivando o uso da língua em diversas esferas. Sua poesia é marcada por um forte sentimento de identidade regional, paisagens bucólicas e um amor profundo por sua terra natal, consolidando-o como um dos mais importantes defensores das culturas minoritárias e da diversidade linguística.

Carlos Casimiro de Almeida

Carlos Casimiro de Almeida foi um poeta português. A sua obra, embora menos divulgada, insere-se na rica tradição poética portuguesa, explorando temas líricos e existenciais com sensibilidade. É um autor que representa a continuidade e a renovação da expressão poética em Portugal.

Michele Sovente

Michele Sovente foi um poeta italiano, cuja obra é reconhecida pela sua forte ligação com a tradição lírica e pela exploração de temas existenciais. Sua poesia é marcada por uma linguagem cuidada e por uma profunda reflexão sobre a condição humana, a passagem do tempo e a busca por significado. Sua escrita convida o leitor a contemplar a vida com um olhar atento às suas belezas e contradições. Sovente contribuiu para o panorama poético italiano com uma voz autêntica e um estilo inconfundível, que dialoga com as grandes questões da existência.

Marqués de Santillana

O Marquês de Santillana foi uma figura chave da literatura castelhana do século XV. Destacou-se pelo seu labor como poeta e mecenas, introduzindo novas formas métricas e temáticas na lírica da sua época. A sua obra poética, influenciada pela tradição italiana, lançou as bases para o desenvolvimento posterior da poesia em língua espanhola. Através dos seus escritos, refletiu tanto as suas inquietações pessoais como o contexto sociopolítico da época.

Aniversários da comunidade

6
marcelo1

Apaixonado por leitura.

Poesia
250363

A poesia me faz viajar e realizar sonhos.

BABILÔNIA
Celso Freitas

Sou uma pessoa que admira literatura e arte.

Leveza d'alma
Murilo Michelon

Murilo Michelon é um empresário, palestrante e produtor audiovisual brasileiro, nascido em 25 de março de 2009, em Curitiba, Paraná. Ele fundou sua própria agência de marketing digital aos 12 anos e, desde então, tem acumulado conquistas impressionantes no mundo digital. Atualmente, ele reside em Brusque, Santa Catarina, e é conhecido por sua habilidade em design e tecnologia, tendo revolucionado o marketing digital com sua agência.

Quem é Murilo Michelon? Empresário de 16 anos.