Relações e Família
Manuel Bandeira
Maísa
Um dia pensei um poema para Maísa
"Maísa não é isso
Maísa não é aquilo
Como é então que Maísa me comove me sacode me buleversa me hipnotiza?
Muito simplesmente
Maísa não é isso mas Maísa tem aquilo
Maísa não é aquilo mas Maísa tem isto
Os olhos de Maísa são dois não sei quê dois não sei como diga dois Oceanos Não-Pacíficos
A boca de Maísa é isto isso e aquilo
Quem fala mais em Maísa a boca ou os olhos?
Os olhos e a boca de Maísa se entendem os olhos dizem uma coisa e a boca de Maísa se condói se contrai se contorce como a ostra viva em que se pingou uma gota de limão.
A boca de Maísa escanteia e os olhos de Maísa ficam sérios meu Deus como os olhos de Maísa podem ser sérios e como a boca de Maísa pode ser amarga!
Boca da noite (mas de repente alvorece num sorriso infantil inefável)"
Cacei imagens delirantes
Maísa podia não gostar
Cassei o poema.
Maísa reapareceu depois de longa ausência
Maísa emagreceu
Está melhor assim?
Nem melhor nem pior
Maísa não é um corpo
Maísa são dois olhos e uma boca
Essa é a Maísa da televisão
A Maísa que canta
A outra eu não conheço não
Não conheço de todo
Mas mando um beijo para ela.
"Maísa não é isso
Maísa não é aquilo
Como é então que Maísa me comove me sacode me buleversa me hipnotiza?
Muito simplesmente
Maísa não é isso mas Maísa tem aquilo
Maísa não é aquilo mas Maísa tem isto
Os olhos de Maísa são dois não sei quê dois não sei como diga dois Oceanos Não-Pacíficos
A boca de Maísa é isto isso e aquilo
Quem fala mais em Maísa a boca ou os olhos?
Os olhos e a boca de Maísa se entendem os olhos dizem uma coisa e a boca de Maísa se condói se contrai se contorce como a ostra viva em que se pingou uma gota de limão.
A boca de Maísa escanteia e os olhos de Maísa ficam sérios meu Deus como os olhos de Maísa podem ser sérios e como a boca de Maísa pode ser amarga!
Boca da noite (mas de repente alvorece num sorriso infantil inefável)"
Cacei imagens delirantes
Maísa podia não gostar
Cassei o poema.
Maísa reapareceu depois de longa ausência
Maísa emagreceu
Está melhor assim?
Nem melhor nem pior
Maísa não é um corpo
Maísa são dois olhos e uma boca
Essa é a Maísa da televisão
A Maísa que canta
A outra eu não conheço não
Não conheço de todo
Mas mando um beijo para ela.
1 202
1
Pedro Oom
Poema
Há um ar de espanto
no teu rosto em silêncio pequenas pausas
entre nós e as palavras
que desfiamos
Quando o silêncio (pausa mais longa
que nos contrai o peito)
cai bruscamente
duas mãos agitam-se meigamente as nossas
e os mendigos, todos os mendigos
espreitam ao postigo do teu pequeno apartamento
coroados de rosas e crisântemos
É o momento
em que afirmamos a realidade das coisas
não a que vemos na rua
e que sabemos fictícia
mas a outra
aurora cintilante
que põe estrelas no teu sorriso
quando acordas de manhã
com um sol de angústia na garganta
acredita
nada nos distingue
entre a multidão anónima a que pertencemos
embora
o fotógrafo teime sempre
em nos oferecer uma esperança
- fluido imaterial que nem mil anos
poderão condensar -
O nosso rasto
mal se apercebe na areia
condenados ao fracasso
pequena glória dos pequenos heróis deste tempo
ainda aspiramos
no entanto
a ser o índice deste século
único sinal humano, florescente e salubre
de contrário
seremos apenas
um halo de vento
arco-íris de luto
ou estrada para sedentários
É ocioso
preparar a objectiva
que nos vai condenar a um número
nesta cidade onde cada homem
é escravo de uma arma
Ocioso
avivar as flores do cenário
encher de luar o jardim do nosso afecto
Só um acaso
nos poderá revelar
por isso
fechemos o rosto
meu amor
1 186
1
Manuel Bandeira
Rondó de Colombina
De Colombina o infantil borzeguim
Pierrot aperta a chorar de saudade.
O sonho passou. Traz magoado o rim,
Magoada a cabeça exposta à umidade.
Lavou o orvalho o alvaiade e o carmim.
A alva desponta. Dói-lhe a claridade
Nos olhos tristes. Que é dela?... Arlequim
Levou-a! e dobra o desejo à maldade
De Colombina.
O seu desencanto não tem um fim.
Pobre Pierrot! Não lhe queiras assim.
Que são teus amores?... — Ingenuidade
E o gosto de buscar a própria dor.
Ela é de dois?... Pois aceita a metade!
Que essa metade é talvez todo o amor
De Colombina...
1913
Pierrot aperta a chorar de saudade.
O sonho passou. Traz magoado o rim,
Magoada a cabeça exposta à umidade.
Lavou o orvalho o alvaiade e o carmim.
A alva desponta. Dói-lhe a claridade
Nos olhos tristes. Que é dela?... Arlequim
Levou-a! e dobra o desejo à maldade
De Colombina.
O seu desencanto não tem um fim.
Pobre Pierrot! Não lhe queiras assim.
Que são teus amores?... — Ingenuidade
E o gosto de buscar a própria dor.
Ela é de dois?... Pois aceita a metade!
Que essa metade é talvez todo o amor
De Colombina...
1913
1 204
1
Nuno Júdice
Um poema de amor, ainda
Um trabalho sonâmbulo corrói a vegetação. O vento
assombra o mutismo das suas folhas. Incham com a chuva,
grávidas de uma febre cinzenta. Arranco-lhes esse fruto
com mãos de crepúsculo.
Ponho-o na mesa onde me sentei contigo. Colho
o teu olhar triste; espalho-o no prato onde a vida
arrefece. Comemos devagar cada sílaba do amor que
nenhum de nós prenuncia.
E um coral de silêncio brota dos teus
dedos, enquanto te afastas.
Nuno Júdice | "Poesia Reunida", 2001
assombra o mutismo das suas folhas. Incham com a chuva,
grávidas de uma febre cinzenta. Arranco-lhes esse fruto
com mãos de crepúsculo.
Ponho-o na mesa onde me sentei contigo. Colho
o teu olhar triste; espalho-o no prato onde a vida
arrefece. Comemos devagar cada sílaba do amor que
nenhum de nós prenuncia.
E um coral de silêncio brota dos teus
dedos, enquanto te afastas.
Nuno Júdice | "Poesia Reunida", 2001
1 190
1
Geraldo Carneiro
nevermore
fizemos piqueniques em Pasárgada
tramamos romances rocambolescos
nas praias mais improváveis.
cifras grifos dragões dalém mar
cuspiam fogo em nossa eros-dicção
você era mais luz: eu era mais treva
fomos quase felizes para sempre
antes que você escolhesse o dia
a hora o grand-finale do espetáculo
(ou não escolhesse: a morte é sempre
um pas-de-deux com o deus do acaso)
tramamos romances rocambolescos
nas praias mais improváveis.
cifras grifos dragões dalém mar
cuspiam fogo em nossa eros-dicção
você era mais luz: eu era mais treva
fomos quase felizes para sempre
antes que você escolhesse o dia
a hora o grand-finale do espetáculo
(ou não escolhesse: a morte é sempre
um pas-de-deux com o deus do acaso)
1 193
1
Tatiana V. Mattos
Eternamente sua
Serei eternamente sua pois,
só tu conheces meu cheiro,
meu gosto e meu corpo.
Tu podes me magoar,
me fazer calar e,
ainda assim serei eternamente sua.
Deixarei que beijes outras bocas,
que toques outros corpos,
que sintas o prazer de outros gemidos
e que conheças o íntimo de outros seres.
Deixarei.
Para ter a certeza de que
voltarás e que entenderás que
quando beijaste outra boca
– era a minha que tu querias,
que quando tocaste outro corpo
– era o meu que querias tocar,
que quando sentiste o prazer de outro gemido
– era o meu que querias sentir e, que,
finalmente, quando conheceste
o interior de outro ser
– era o meu interior que tu buscavas
em tuas infinitas procuras.
Deixarei-te livre, para teres a certeza
de que és meu e, assim voltar
com a certeza de que ficarás.
E então, depois de tantas buscas infindas suas,
revelarei-te que estava a sua espera,
assim como sempre estive.
E seremos eternamente nós.
só tu conheces meu cheiro,
meu gosto e meu corpo.
Tu podes me magoar,
me fazer calar e,
ainda assim serei eternamente sua.
Deixarei que beijes outras bocas,
que toques outros corpos,
que sintas o prazer de outros gemidos
e que conheças o íntimo de outros seres.
Deixarei.
Para ter a certeza de que
voltarás e que entenderás que
quando beijaste outra boca
– era a minha que tu querias,
que quando tocaste outro corpo
– era o meu que querias tocar,
que quando sentiste o prazer de outro gemido
– era o meu que querias sentir e, que,
finalmente, quando conheceste
o interior de outro ser
– era o meu interior que tu buscavas
em tuas infinitas procuras.
Deixarei-te livre, para teres a certeza
de que és meu e, assim voltar
com a certeza de que ficarás.
E então, depois de tantas buscas infindas suas,
revelarei-te que estava a sua espera,
assim como sempre estive.
E seremos eternamente nós.
1 159
1
Afonso Lopes de Almeida
Vida
Mal nasce a filha, eis morre o pai...
E ouviu, do leito, o teu ouvido,
Num mesmo som da que nascia
O flébil, trêmulo vagido,
Bem como o último gemido
Da agonia
Do que morria...
Vida que vem, vida que vai.
Tu eras o traço de união
Daquelas vidas,
Dentro em ti mesma reunidas
No coração.
Eras o Mar. Eles, as ondas:
Uma onda a filha, outra onda o pai.
Onda que vem, onda que vai...
E outras virão, e outras irão,
E umas das outras surgirão...
Na mesma força indefinida,
Túrgidas, grossas e redondas,
Hão de crescer, hão de acabar.
Mas a água é a mesma, é o mesmo o Mar,
É o mesmo o amor, é a mesma a Vida...
A onda que desapareceu
Fez surgir
A que nasceu
Desta, cem outras hão de vir,
Em que mil outras se contenham
E estas farão com que outras venham ...
Onda que vem, onda que vai,
Esta se apruma, aquela cái,
Água do Mar, que agora flui,
Logo reflui...
O pai não viu a filha sua.
E a filha não verá seu pai.
É a vida, enfim, que continua:
Vida que vem... Vida que vai.
E ouviu, do leito, o teu ouvido,
Num mesmo som da que nascia
O flébil, trêmulo vagido,
Bem como o último gemido
Da agonia
Do que morria...
Vida que vem, vida que vai.
Tu eras o traço de união
Daquelas vidas,
Dentro em ti mesma reunidas
No coração.
Eras o Mar. Eles, as ondas:
Uma onda a filha, outra onda o pai.
Onda que vem, onda que vai...
E outras virão, e outras irão,
E umas das outras surgirão...
Na mesma força indefinida,
Túrgidas, grossas e redondas,
Hão de crescer, hão de acabar.
Mas a água é a mesma, é o mesmo o Mar,
É o mesmo o amor, é a mesma a Vida...
A onda que desapareceu
Fez surgir
A que nasceu
Desta, cem outras hão de vir,
Em que mil outras se contenham
E estas farão com que outras venham ...
Onda que vem, onda que vai,
Esta se apruma, aquela cái,
Água do Mar, que agora flui,
Logo reflui...
O pai não viu a filha sua.
E a filha não verá seu pai.
É a vida, enfim, que continua:
Vida que vem... Vida que vai.
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1
Marcia Agrau
Total
Eu te amo
Tanto amo teu olhar doce e inocente
como amo teu olhar insolente.
Amo tuas mãos suaves no afago
como amo aborrecidas no gesto de enfado.
Eu amo tua boca que geme de prazer
e amo tua boca xingando semquerer.
Eu amo teu muxoxo e amo o teu sorriso.
Tuas loucuras, teu sonho,teu juizo...
Amo teus braços me enlaçando carinhosos
e amo teus braços bradando furiosos.
Amo teus ombros fortes,protetores
onde chorei tanto minhas dores
e onde a tensão vejo acumular.
Amo tuas pernas fortes e pesadas
que cabelos escuros fazem amorenadas.
Amo teus pés de suave textura,
a marca do calção,tua eterna brancura
e amo,sobretudo, abaixo da cintura
teu falo imponente, fingindo-se inocente
que penetrando em mim,me transporta às alturas.
Eu te amo inteiramente todo,da cabeça aos pés.
E amo cá por fora e por dentro quem és
com as muitas qualidades e os defeitos teus
Que os limites que traço
vão de onde começa o desejo do abraço
até onde termina a alma, sabe Deus...
Tanto amo teu olhar doce e inocente
como amo teu olhar insolente.
Amo tuas mãos suaves no afago
como amo aborrecidas no gesto de enfado.
Eu amo tua boca que geme de prazer
e amo tua boca xingando semquerer.
Eu amo teu muxoxo e amo o teu sorriso.
Tuas loucuras, teu sonho,teu juizo...
Amo teus braços me enlaçando carinhosos
e amo teus braços bradando furiosos.
Amo teus ombros fortes,protetores
onde chorei tanto minhas dores
e onde a tensão vejo acumular.
Amo tuas pernas fortes e pesadas
que cabelos escuros fazem amorenadas.
Amo teus pés de suave textura,
a marca do calção,tua eterna brancura
e amo,sobretudo, abaixo da cintura
teu falo imponente, fingindo-se inocente
que penetrando em mim,me transporta às alturas.
Eu te amo inteiramente todo,da cabeça aos pés.
E amo cá por fora e por dentro quem és
com as muitas qualidades e os defeitos teus
Que os limites que traço
vão de onde começa o desejo do abraço
até onde termina a alma, sabe Deus...
1 155
1
Helena Ortiz
Poesia Viva
precisou que te fosses
para que a poesia
renascesse em mim
enquanto estiveste ao meu lado
ela existia
tinha um corpo que dançava
olhos que abraçavam
mãos que me erguiam
e chamava-se Alice
para que a poesia
renascesse em mim
enquanto estiveste ao meu lado
ela existia
tinha um corpo que dançava
olhos que abraçavam
mãos que me erguiam
e chamava-se Alice
1 151
1
Angela Santos
O Beijo
aberta,
entreaberta
um risco só que seja,
a boca,
desenhando desejo
lábios, língua
sopro, saliva…..
vermelha
túrgida
húmida
a tua na minha
boca
desagua.
entreaberta
um risco só que seja,
a boca,
desenhando desejo
lábios, língua
sopro, saliva…..
vermelha
túrgida
húmida
a tua na minha
boca
desagua.
1 147
1
Amândio César
Flor
Eu te sei pura, casta e meiga!
Eu te sei toda feita de pureza,
Branca como o leite fresco
Que se põe na mesa.
Eu te sei toda feita de castidade,
Num vago receio, perfume de alecrim,
Que se percebe quando não há claridade.
Eu te sei, terna e meiga,
Como as flores silvestres, naturais,
Que nascem nas margens duma veiga.
Eu te sei — isso tudo — para mim! ...
Eu te sei toda feita de pureza,
Branca como o leite fresco
Que se põe na mesa.
Eu te sei toda feita de castidade,
Num vago receio, perfume de alecrim,
Que se percebe quando não há claridade.
Eu te sei, terna e meiga,
Como as flores silvestres, naturais,
Que nascem nas margens duma veiga.
Eu te sei — isso tudo — para mim! ...
1 165
1
Eugenio Montale
VENTO NO CRESCENTE
A grande ponte não levava a ti.
Procurar-te-ia mesmo navegando
pelos esgotos a uma ordem tua.
Mas com o sol nos vidros das varandas
a minha força declinava já.
Um homem que prègava no Crescente
pergunta: Sabe onde está Deus? Sabia,
logo lhe disse. Abanou a cabeça,
mas foi no turbilhão que homens e casas
levava e levantava no negrume.
Procurar-te-ia mesmo navegando
pelos esgotos a uma ordem tua.
Mas com o sol nos vidros das varandas
a minha força declinava já.
Um homem que prègava no Crescente
pergunta: Sabe onde está Deus? Sabia,
logo lhe disse. Abanou a cabeça,
mas foi no turbilhão que homens e casas
levava e levantava no negrume.
1 149
1
Gláucia Lemos
Poema Para o Atormentado Silêncio
Que rei me colherá deste silêncio
depois que escondi dentro dos meus cofres
as chagas que se pejam de mostrar?
Que sons comoverão os meus ouvidos
depois que cortei as falas aos pastores
e recuei minha melhor orquestra?
Que lábios semearão na minha boca
sementes mentirosas como as tuas
sabores de groselha e de absinto?
Que espinhos forrarão mais outra estrada
pra quem neste silêncio atormentado
não poderá jamais deixar de ir?
Ah.. quem guardará minhas respostas
depois que me neguei a procurá-las?...
23.06.96
depois que escondi dentro dos meus cofres
as chagas que se pejam de mostrar?
Que sons comoverão os meus ouvidos
depois que cortei as falas aos pastores
e recuei minha melhor orquestra?
Que lábios semearão na minha boca
sementes mentirosas como as tuas
sabores de groselha e de absinto?
Que espinhos forrarão mais outra estrada
pra quem neste silêncio atormentado
não poderá jamais deixar de ir?
Ah.. quem guardará minhas respostas
depois que me neguei a procurá-las?...
23.06.96
1 148
1
Afonso Duarte
Ode Sputnika
Vulneráveis Satélites
Percorrem o Espaço
Onde quis haver Deuses!
E choro (Netuno e Vênus, Mercúrio e Marte).
— O meu mundo infantil
Acabou hoje.
Tremei! Desferirei dos céus ímpias setas,
Minha faixa de Arco-íris como um Rei
Que reine entre os Planetas.
Percorrem o Espaço
Onde quis haver Deuses!
E choro (Netuno e Vênus, Mercúrio e Marte).
— O meu mundo infantil
Acabou hoje.
Tremei! Desferirei dos céus ímpias setas,
Minha faixa de Arco-íris como um Rei
Que reine entre os Planetas.
1 149
1
António Ramos Rosa
Aliança
Na folhagem de um quarto um ovo azul murmura
a aliança da noite com as mãos
nas tuas veias acende-se de uma só vez a seda
és um bosque inerte e vivo no meu abraço
um só perfume de água nos cabelos
Sossego a tua nuca uma haste desliza no tapete
o teu dorso completa-se à volta do teu colo
e eu oiço-te sobre os olhos oiço-te sobre os ombros
a vertente que desce ao silêncio de um lago
a sombra de um barco no último muro da cidade
Nas tuas faces vejo duas linhas
uma de fogo outra de cinza
um verde cimo de música negro e congelado
um nome suave de chama e de sussurro
Ó longa meia-noite em que oscilo nó fluido
equilíbrio tão alto sobre um rosto tão límpido!
a aliança da noite com as mãos
nas tuas veias acende-se de uma só vez a seda
és um bosque inerte e vivo no meu abraço
um só perfume de água nos cabelos
Sossego a tua nuca uma haste desliza no tapete
o teu dorso completa-se à volta do teu colo
e eu oiço-te sobre os olhos oiço-te sobre os ombros
a vertente que desce ao silêncio de um lago
a sombra de um barco no último muro da cidade
Nas tuas faces vejo duas linhas
uma de fogo outra de cinza
um verde cimo de música negro e congelado
um nome suave de chama e de sussurro
Ó longa meia-noite em que oscilo nó fluido
equilíbrio tão alto sobre um rosto tão límpido!
1 172
1
Geraldo Carneiro
os fogos da fala
a fala aflora à flor da boca
às vezes como fogos de artifício
fulguração contra os terrores do silêncio
só espada espavento espelho
ou pedra ficção arremessada
ou canção para cantar as graças
as virilhas as maravilhas da amada
a deusa idolatrada do amor:
essa outra voz quase jazz
que subjaz ventríloqua de si mesma
às vezes como fogos de artifício
fulguração contra os terrores do silêncio
só espada espavento espelho
ou pedra ficção arremessada
ou canção para cantar as graças
as virilhas as maravilhas da amada
a deusa idolatrada do amor:
essa outra voz quase jazz
que subjaz ventríloqua de si mesma
1 170
1
Marcial
EPIGRAMAS
I, 24 - A COTA
Com quem te não banhaste, não convidas nunca,
E só nos balneários teus convivas buscas.
A mim me perguntava como nunca o fora:
E agora sei que, nu, não pude encher-te os olhos.
Com quem te não banhaste, não convidas nunca,
E só nos balneários teus convivas buscas.
A mim me perguntava como nunca o fora:
E agora sei que, nu, não pude encher-te os olhos.
1 150
1
Mário-Henrique Leiria
NOIVADO
Estendeu os braços carinhosamente
e avançou, de mãos abertas
e cheias de ternura.
- És tu Ernesto, meu amor?
Não era. Era o Bernardo.
Isso não os impediu
de terem muitos meninos
e não serem felizes.
É o que faz a miopia.
e avançou, de mãos abertas
e cheias de ternura.
- És tu Ernesto, meu amor?
Não era. Era o Bernardo.
Isso não os impediu
de terem muitos meninos
e não serem felizes.
É o que faz a miopia.
1 152
1
Yehuda Amichai
Judeus na terra de Israel
Nós nos esquecemos de onde viemos. Nossos nomes
judaicos do Exílio nos denunciam,
trazem de volta a memória de flores e frutos, vilas medievais,
metais, cavaleiros que viraram pedra, rosas,
temperos cujo perfume dissipou-se, pedras preciosas, muito rubro,
artesanatos já extintos no mundo
(as mãos também extintas).
A circuncisão causa-nos isso,
como no relato bíblico de Siquém e os filhos de Jacó,
para que sigamos com dor pelo resto de nossas vidas.
O que estamos fazendo, voltando a esta terra com tal dor?
Nossos desejos foram drenados junto com os pântanos,
o deserto se nos floresce, e nossos filhos são lindos.
Mesmo os destroços de navios que afundaram a caminho
chegam a estas praias,
mesmo ventos chegaram. Mas não todas as velas.
O que estamos fazendo
nesta terra escura com suas
sombras amarelas que perfuram os olhos?
(De vez quando alguém diz, mesmo após quarenta
ou cinquenta anos: "Este sol está me matando.")
O que estamos fazendo com estas almas de névoa, com estes nomes,
com nossos olhos de floresta, com nossos filhos lindos,
com nosso sangue veloz?
Sangue derramado não serve de raiz para árvores
mas é o mais próximo que temos
por raízes.
judaicos do Exílio nos denunciam,
trazem de volta a memória de flores e frutos, vilas medievais,
metais, cavaleiros que viraram pedra, rosas,
temperos cujo perfume dissipou-se, pedras preciosas, muito rubro,
artesanatos já extintos no mundo
(as mãos também extintas).
A circuncisão causa-nos isso,
como no relato bíblico de Siquém e os filhos de Jacó,
para que sigamos com dor pelo resto de nossas vidas.
O que estamos fazendo, voltando a esta terra com tal dor?
Nossos desejos foram drenados junto com os pântanos,
o deserto se nos floresce, e nossos filhos são lindos.
Mesmo os destroços de navios que afundaram a caminho
chegam a estas praias,
mesmo ventos chegaram. Mas não todas as velas.
O que estamos fazendo
nesta terra escura com suas
sombras amarelas que perfuram os olhos?
(De vez quando alguém diz, mesmo após quarenta
ou cinquenta anos: "Este sol está me matando.")
O que estamos fazendo com estas almas de névoa, com estes nomes,
com nossos olhos de floresta, com nossos filhos lindos,
com nosso sangue veloz?
Sangue derramado não serve de raiz para árvores
mas é o mais próximo que temos
por raízes.
1 159
1
Beatriz de Diá
Vou cantar tudo que eu não gostaria
Vou cantar tudo que eu não gostaria,
tanto este amigo só me contraria,
pois amo mais do que a maior poesia;
mas ele não vê charme ou cortesia,
quando sou linda, honrada, inteligente;
já ele que me enganava e me traía,
que eu merecia se te fosse ausente.
Vem, me conforta com a tua presença,
amigo, pois eu nunca fiz ofensa:
te amo mais que Seguis amou Valença,
e adoro que de amor só eu te vença,
pois meu amigo é sempre o mais valente:
me deu orgulho em fala e benquerença,
e é mais querido do que toda a gente.
Me assombro se o teu coração se orgulha
comigo, amigo, e isso mais me embrulha:
injusto é que te roube uma fagulha
que tanto fala até que te debulha;
mas lembre bem que já não é recente
o nosso amor. E que eu não seja a pulha,
por Deus, que definhou o amor crescente.
O valor que em teu peito assim se aninha,
com tua honra mais me desalinha,
não sei de alguém distante ou mais vizinha
que quer amar contigo e não definha,
meu amigo, você bem sabe e sente
quem delas é mais fina e mais certinha,
e lembre o nosso pacto penitente.
Tenho valor por honra e por linhagem
pela beleza e ainda por coragem;
por isso, envio até tua paragem
esta canção que serve de mensagem;
pergunto, belo amigo e boa gente,
por que você comigo é tão selvagem,
tão orgulhoso, ou tão indiferente.
Mas pode lhe dizer, minha mensagem,
que muito orgulho é mágoa a muita gente
Português antigo
A chantar m'er de co qu'eu no volria,
Tant me rancur de lui cui sui amia
Car eu l'am mais que nulha ren que sia:
Vas lui no-m val Merces ni Cortezia
Ni ma beltatz ni mos pretz ni mos sens:
Qu'atressi-m sui enganad' e trahia
Com degr' esser, s'eu fos desavinens.
D'aissò-m conòrt, car anc non fi falhensa,
Amics, vas vos per nulha captenensa;
Ans vos am mais non fetz Seguìs Valensa,
E platz mi mout que eu d'amar vos vensa;
Lo meus amics, car ètz lo plus valens;
Mi faitz orgòlh en ditz et en parvensa
E si ètz francs vas totas autras gens.
Meravelh me com vòstre còrs s'orgòlha,
Amics, vas me, per qu'ai razon que-m dòlha;
Non es ges dreitz qu'autr'amors vos mi tòlha,
Per nulha ren que-us diga ni acòlha.
E membre vos quals fo-l comensamens
De nòstr'amor! Ja Dòmnedeus non vòlha,
Qu'en ma colpa sia-l departimens.
Proeza grans, qu'el vòstre còrs s'aizina
E lo rics prètz qu'avètz m'en ataïma;
Qu'una non sai, lonhdana ni vezina,
Si vòl amar, vas vos no si' aclina;
Mas vos, amics, ètz ben tant conoissens
Que ben devètz conòisser la plus fina:
E membre vos de nòstre covinens.
Valer mi deu mos prètz e mos paratges
E ma beutatz, e plus mos fins coratges;
Per qu'eu vos man, lai on es vòstr'estatges,
Esta chanson, que me sia messatges,
E vòlh saber, lo meus bèls amics gens,
Per que vos m'ètz tant fèrs ni tant salvatges;
No sai si s'es orgòlhs o mals talents.
Mas aitan plus vòlh li digas, messatges
Qu'en tròp d'orgòlh an gran dan maintas gens.
tanto este amigo só me contraria,
pois amo mais do que a maior poesia;
mas ele não vê charme ou cortesia,
quando sou linda, honrada, inteligente;
já ele que me enganava e me traía,
que eu merecia se te fosse ausente.
Vem, me conforta com a tua presença,
amigo, pois eu nunca fiz ofensa:
te amo mais que Seguis amou Valença,
e adoro que de amor só eu te vença,
pois meu amigo é sempre o mais valente:
me deu orgulho em fala e benquerença,
e é mais querido do que toda a gente.
Me assombro se o teu coração se orgulha
comigo, amigo, e isso mais me embrulha:
injusto é que te roube uma fagulha
que tanto fala até que te debulha;
mas lembre bem que já não é recente
o nosso amor. E que eu não seja a pulha,
por Deus, que definhou o amor crescente.
O valor que em teu peito assim se aninha,
com tua honra mais me desalinha,
não sei de alguém distante ou mais vizinha
que quer amar contigo e não definha,
meu amigo, você bem sabe e sente
quem delas é mais fina e mais certinha,
e lembre o nosso pacto penitente.
Tenho valor por honra e por linhagem
pela beleza e ainda por coragem;
por isso, envio até tua paragem
esta canção que serve de mensagem;
pergunto, belo amigo e boa gente,
por que você comigo é tão selvagem,
tão orgulhoso, ou tão indiferente.
Mas pode lhe dizer, minha mensagem,
que muito orgulho é mágoa a muita gente
Português antigo
A chantar m'er de co qu'eu no volria,
Tant me rancur de lui cui sui amia
Car eu l'am mais que nulha ren que sia:
Vas lui no-m val Merces ni Cortezia
Ni ma beltatz ni mos pretz ni mos sens:
Qu'atressi-m sui enganad' e trahia
Com degr' esser, s'eu fos desavinens.
D'aissò-m conòrt, car anc non fi falhensa,
Amics, vas vos per nulha captenensa;
Ans vos am mais non fetz Seguìs Valensa,
E platz mi mout que eu d'amar vos vensa;
Lo meus amics, car ètz lo plus valens;
Mi faitz orgòlh en ditz et en parvensa
E si ètz francs vas totas autras gens.
Meravelh me com vòstre còrs s'orgòlha,
Amics, vas me, per qu'ai razon que-m dòlha;
Non es ges dreitz qu'autr'amors vos mi tòlha,
Per nulha ren que-us diga ni acòlha.
E membre vos quals fo-l comensamens
De nòstr'amor! Ja Dòmnedeus non vòlha,
Qu'en ma colpa sia-l departimens.
Proeza grans, qu'el vòstre còrs s'aizina
E lo rics prètz qu'avètz m'en ataïma;
Qu'una non sai, lonhdana ni vezina,
Si vòl amar, vas vos no si' aclina;
Mas vos, amics, ètz ben tant conoissens
Que ben devètz conòisser la plus fina:
E membre vos de nòstre covinens.
Valer mi deu mos prètz e mos paratges
E ma beutatz, e plus mos fins coratges;
Per qu'eu vos man, lai on es vòstr'estatges,
Esta chanson, que me sia messatges,
E vòlh saber, lo meus bèls amics gens,
Per que vos m'ètz tant fèrs ni tant salvatges;
No sai si s'es orgòlhs o mals talents.
Mas aitan plus vòlh li digas, messatges
Qu'en tròp d'orgòlh an gran dan maintas gens.
1 171
1
Georges Brassens
O malandro arrependido
Ela tinha uma cintura bem torneada
cadeiras cheias
e caçava os machos nos arredores da Madeleine.
pelo seu jeito de me dizer: Meu anjo
te apeteço?
eu vi logo que se tratava de uma debutante.
Ela tinha talento, é verdade, eu o confesso.
Ela tinha gênio,
mas sem técnica um dom não é nada.
Certamente não é tão fácil ser puta como ser freira,
pelo menos é o que se reza em latim na Sorbonne.
Sentindo-me cheio de piedade pela donzela
ensinei-lhe os pequenos truques de sua profissão
e ensinei-lhe os meios para fazer logo fortuna
rebolando o lugar onde as costas se assemelham à lua,
Porque na arte de fazer o trottoir, confesso,
o difícil é saber mexer bem a bunda.
Não se mexe a bunda da mesma maneira
para um farmacêutico, um sacristão, um funcionário.
Rapidamente instruída por meus bons ofícios
ela cedeu-me uma parte de seus benefícios.
Ajudavamo-nos mutuamente, como diz o poeta:
ela era o corpo, naturalmente, e eu a cabeça.
Quando a coitada voltava para casa sem nada
dava-lhe umas porradas mais do que com razão.
Será que ela se lembra ainda do bidê com
que lhe rachei o crânio?
Uma noite, por causa de manobras duvidosas
ela caiu vítima de uma doença vergonhosa,
então, amigavelmente, como uma moça honesta
passou-me a metade de seus micróbios.
Depois de dolorosas injeções de antibióticos
desisti da profissão de cornudo sistemático.
Não adiantou que ela chorasse e gritasse feita louca
e, como eu era apenas um canalha, fiz-me honesto.
Privado logo de minha tutela, minha pobre amiga,
correu a suportar as infâmias do bordel.
Dizem que ela se vendeu até aos tiras!
Que decadência!
Já não existe mais moralidade pública
na nossa França!
cadeiras cheias
e caçava os machos nos arredores da Madeleine.
pelo seu jeito de me dizer: Meu anjo
te apeteço?
eu vi logo que se tratava de uma debutante.
Ela tinha talento, é verdade, eu o confesso.
Ela tinha gênio,
mas sem técnica um dom não é nada.
Certamente não é tão fácil ser puta como ser freira,
pelo menos é o que se reza em latim na Sorbonne.
Sentindo-me cheio de piedade pela donzela
ensinei-lhe os pequenos truques de sua profissão
e ensinei-lhe os meios para fazer logo fortuna
rebolando o lugar onde as costas se assemelham à lua,
Porque na arte de fazer o trottoir, confesso,
o difícil é saber mexer bem a bunda.
Não se mexe a bunda da mesma maneira
para um farmacêutico, um sacristão, um funcionário.
Rapidamente instruída por meus bons ofícios
ela cedeu-me uma parte de seus benefícios.
Ajudavamo-nos mutuamente, como diz o poeta:
ela era o corpo, naturalmente, e eu a cabeça.
Quando a coitada voltava para casa sem nada
dava-lhe umas porradas mais do que com razão.
Será que ela se lembra ainda do bidê com
que lhe rachei o crânio?
Uma noite, por causa de manobras duvidosas
ela caiu vítima de uma doença vergonhosa,
então, amigavelmente, como uma moça honesta
passou-me a metade de seus micróbios.
Depois de dolorosas injeções de antibióticos
desisti da profissão de cornudo sistemático.
Não adiantou que ela chorasse e gritasse feita louca
e, como eu era apenas um canalha, fiz-me honesto.
Privado logo de minha tutela, minha pobre amiga,
correu a suportar as infâmias do bordel.
Dizem que ela se vendeu até aos tiras!
Que decadência!
Já não existe mais moralidade pública
na nossa França!
1 147
1
Corrêa de Araújo
Cinema
O peso quente do escuro,
a certeza de um braço amaciando
o encosto desconfortável,
a sensação de estar viva,
nos olhos, nos suspiros, nas mãos furiosas,
um gemido dilacerando
o seio imaculado do silêncio.
E o amor subiu escalando desejos,
exagerado como folhas de árvores,
e eu tive de despejá-lo em outra boca.
Depois uma bala de coco apagou
o gosto da violência na penumbra
e a luz me entregou a impressão
azul da derrota,
da pureza inútil das ruas desabitadas.
In: ARAÚJO, Laís Corrêa de. Caderno de poesia. Sel. e org. Affonso Ávila e Wilson de Figueiredo. Il. Washington Junior. Belo Horizonte: Santelmo Poesia, 1951
a certeza de um braço amaciando
o encosto desconfortável,
a sensação de estar viva,
nos olhos, nos suspiros, nas mãos furiosas,
um gemido dilacerando
o seio imaculado do silêncio.
E o amor subiu escalando desejos,
exagerado como folhas de árvores,
e eu tive de despejá-lo em outra boca.
Depois uma bala de coco apagou
o gosto da violência na penumbra
e a luz me entregou a impressão
azul da derrota,
da pureza inútil das ruas desabitadas.
In: ARAÚJO, Laís Corrêa de. Caderno de poesia. Sel. e org. Affonso Ávila e Wilson de Figueiredo. Il. Washington Junior. Belo Horizonte: Santelmo Poesia, 1951
1 162
1
Eudoro Augusto
Talvez em Outro Cinema
A Luciana
Subitamente no último verão,
bem no avesso do verão passado,
eu quis você. Estar em você. Amar você sobre todas
as coisas, sobre as cascas e os ossos
de um solitário momento,
belo e maldito como o último verão.
Depois todo aquele fogo cai no sono.
Faço passeios anestésicos pela região dos lagos,
pratico os mais orientais exercícios de paciência,
pela serra, pelo cerrado, mas é a mesma bruma.
a mesma espuma, névoa, nebulosa estação.
Sempre esperando a deixa pra entrar em cena
acendendo clift um ar de enigma cool,
entre bogart e brando,
ao riscar o fósforo e abrir teus olhos mansos
à beleza sem rastro de um novo cometa azul.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Ventura
Subitamente no último verão,
bem no avesso do verão passado,
eu quis você. Estar em você. Amar você sobre todas
as coisas, sobre as cascas e os ossos
de um solitário momento,
belo e maldito como o último verão.
Depois todo aquele fogo cai no sono.
Faço passeios anestésicos pela região dos lagos,
pratico os mais orientais exercícios de paciência,
pela serra, pelo cerrado, mas é a mesma bruma.
a mesma espuma, névoa, nebulosa estação.
Sempre esperando a deixa pra entrar em cena
acendendo clift um ar de enigma cool,
entre bogart e brando,
ao riscar o fósforo e abrir teus olhos mansos
à beleza sem rastro de um novo cometa azul.
In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Ventura
1 174
1
Pablo Neruda
Diálogo Amoroso
Voz de Murieta:
Tudo o que me deste já era meu
e a ti minha livre condição submeto.
Sou um homem sem pão nem poderio:
só tenho uma faca e meu esqueleto.
Cresci sem rumo, fui meu próprio dono
e começo a saber que fui teu
desde que comecei com este sonho:
antes não fui senão um monte de orgulho.
Voz de Tereza:
Sou camponesa de lá de Coiheuco,
cheguei à nave para conhecer-te:
te entregarei minha vida enquanto viver
e quando morrer te darei minha morte.
Voz de Murieta:
Teus braços são como alelis
de Carampangue e por tua boca arisca
me chama a aveleira e os raulíes.
Teu cabelo tem cheiro de montanhas.
Deita-te outra vez a meu lado
como água do riacho puro e frio
e deixarás meu peito perfumado
à madeira com sol e com rocio.
Voz de Tereza:
É verdade que o amor queima e separa?
É verdade que se apaga com um beijo?
Voz de Murieta:
Perguntar ao amor é coisa rara,
é perguntar cerejas à cerejeira.
Eu conheci os trigos de Rancágua,
vivi como uma figueira em Melipilla.
O que conheço aprendi da água,
do vento, das coisas mais singelas.
Por isso a ti, sem aprender a ciência,
te vi, te amei e te amo, bem-amada.
Tens sido, amor, minha única impaciência,
antes de ti eu não quis ter nada, nada.
Agora quero o ouro para o muro
que deve defender tua beleza:
por ti será dourado e será duro
meu coração como uma fortaleza.
Voz de Tereza:
Só quero o baluarte de tua altura
e só quero o ouro de teu arado,
somente a proteção de tua ternura:
meu amor é um castelo delicado
e minha alma tem em ti suas armaduras:
resguarda-a teu amor enamorado.
Voz de Murieta:
Gosto de ouvir tua voz que corre pura
como a voz da água em movimento
e agora há só tu e a noite escura.
Dá-me um beijo, meu amor, estou contente.
Beijo minha terra quando a ti te beijo.
Voz de Tereza:
Voltaremos à nossa pátria dura
alguma vez.
Voz de Murieta:
O ouro é o regresso.
Esquadrinhando a terra estrangeira da alba escura
até que rolou na planura a noite na fogueira
Murieta fareja o veio escondido galopa e regressa
e toca em segredo a pedra partida rompe-a ou beija-a
e é sua decisão celestial encontrar o metal e tornar-se imortal
e buscando o tesouro sofre angústia mortal e se deita coberto de lodo
com areia nos olhos, com mãos sangrantes espreita a glória do ouro
e não há na terra distante tão valente e atroz caminhante:
nem sede nem serpente espreitante detêm seus passos,
bebeu febre em seu copo e não pôde a noite nevada
cortar sua pisada nem penas nem feridas puderam com ele
e quando caiu sete vezes sacou sete vidas
e seguiu de noite e de dia o chileno montado em seu claro corcel.
Para! diz-lhe a sombra mas o homem tinha sua esposa
esperando na choça e seguia pela Califórnia dourada
furando a rocha e o barro com a chamarada
de sua alma enlutada que busca no ouro encontrar a alegria
que Joaquín Murieta queria para reparti-lo voltando à sua terra,
mas esperou-o a agonia e se achou de repente coberto de ouro e de guerra.
Ferveu com o ouro encontrado a fúria e subiu pelos montes,
o ódio encheu o horizonte com manchas de sangue e luxúria
e o vento delgado mudou sua veste ligeira e sua voz transparente
e o ianque vestido de couro e capuz buscou ao forasteiro.
Os duros chilenos dormiam cuidando o tesouro cansados do ouro e da luta,
dormiam e em sonhos voltavam a ser lavradores,
marinheiros, mineiros,
dormiam os descobridores e envoltos em sombras os encapuzados vieram,
chegaram de noite os lobos armados buscando o dinheiro
e nos acampamentos morreu a picota porque em desamparo
ouvia-se um disparo e caía um chileno morrendo no sonho,
ladravam os cães, a morte mudava o desterro
e os assassinos em sua cavalgada mataram a bela esposa
de meu compatriota Joaquín e a canta por isso o poeta.
Saiu da sombra Joaquín Murieta sem ver que uma rosa de sangue tinha
em seu seio sua amada e jazia na terra estrangeira seu amor destroçado,
mas ao tropeçar em seu corpo tremeu aquele soldado
e beijando seu corpo caído, fechando os olhos daquela que foi sua roseira e sua estrela
jurou comovido matar e morrer perseguindo o injusto, protegendo o caído,
e é assim que nasce um bandido que o amor e a honra conduziram um dia
a encontrar a dor e perder a alegria e perder muito mais ainda,
a se arriscar, a morrer, combatendo e vingando uma ferida
e deixar sobre o pó do ouro perdido sua vida e seu sangue vertido.
Onde está este ginete atrevido vingando seu povo, sua raça, sua gente?
Onde está o solitário rebelde, que névoa ocultou seu vestuário?
Onde estão seu cavalo e seu raio, seus olhos ardentes?
Inflamou-se intermitente, em trevas espreita sua fronte,
e no dia das desventuras percorre um corcel, a vingança vai em sua montaria:
galopa lhe diz a areia que engoliu o sangue dos desgraçados
e alguma chilena prepara um churrasco escondido para um foragido que chega coberto de pó e de morte.
“Entrega esta flor ao bandido e beija suas mãos e que tenha sorte.”
“Dá-lhe, se podes, esta galinhazinha”, sussurra uma velha de Angol de cabeça murcha,
“e tu dá-lhe o rifle”, diz outra, “de meu assassinado marido, ainda está manchado com o sangue de meu bem-amado”,
e este menino lhe dá seu brinquedo, um cavalo de pau, e lhe diz: “Ginete,
galopa para vingar meu irmão que um gringo matou pelas costas” e Murieta levanta a mão
e se afasta violento com o cavalinho do menino nas mãos do vento.
Galopa Murieta! O sangue caído decreta que um ser solitário
recolha em sua rota a honra do planeta e o sol solidário
desperta na escura planura e a terra sacode nos passos errantes
dos que recordam amantes caídos e irmãos feridos
e pela pradaria se estende uma estranha quimera, um fulgor, é a fúria da primavera
e a ameaçante alegria que lança porque crê que são uma coisa vitória e vingança.
Se apertaram em seus cinturões, saltaram varões na noite escura
ao relampagueio de cavalgaduras e marcha Joaquín adiante,
com duro semblante dirige a hoste dos vingadores
e caem cabeças distantes e o faiscar
do rifle e a luz do punhal terminaram com tantas tristezas:
vestido de luto e de prata Joaquín Murieta caminha constante
e não dá descanso este caminhante aos que incendiaram os povoados com lava queimante,
aos que arrasaram envoltos em ódio e pisotearam
bandeiras de povos errantes.
Oh novos guerreiros, que surja na terra outro deus além do dinheiro,
que morra quem mata o pulsar da primavera e coroa com sangue o berço do recém-nascido,
que viva o bandido Joaquín Murieta, o chileno de estirpe profeta
que quis cortar o caminho dos iracundos guerreiros grosseiros
que tudo têm e tudo querem e tudo maltratam e matam.
Adeus companheiro bandido, se acerca tua hora, teu fim está claro e escuro,
sabe-se que tu não conheces como o meteoro o caminho seguro,
sabe-se que tu te desviaste na cólera como um vendaval solitário,
mas aqui te canto porque debulhaste o racimo de ira e se acerca a aurora,
se acerca a hora em que o iracundo não tenha já lugar no mundo
e uma sombra secreta não foi tua façanha, Joaquín Murieta.
E diz a mãe: “Eu sou uma espiga sem grão e sem ouro,
não existe o tesouro que minha alma adorava, pendurado na viga
meu Pedro, filho meu, morreu assassinado e o choro
e agora minhas lágrimas Murieta secou com sua valentia”.
E a outra enlutada e bravia mostrando o retrato de seu irmão morto
levanta os braços eretos e beija a terra que pisa o cavalo de Joaquín Murieta.
Pergunta o poeta: “Não é digno este estranho soldado de luto
que os ultrajados lhe outorguem o fruto do padecimento?”
Não sei, mas sinto tão longe daquele compatriota longínquo
que através do tempo merece meu canto e minha mão
porque defendeu mostrando a cara, os punhos, a fronte,
a pobre alegria da pobre gente saqueada pelo invasor
inclemente e amargo
e sai do longo letargo na sombra um luzeiro
e o povo adormecido acorda ligeiro seguindo o rastro
escarlate daquele guerrilheiro,
do homem que mata e que morre seguindo uma estrela.
Por isso pergunta o poeta se alguma cantata requeira
aquele cavaleiro bandido que deu ao ofendido uma rosa concreta:
justiça se chama a ira de meu compatriota Joaquín Murieta.
Tudo o que me deste já era meu
e a ti minha livre condição submeto.
Sou um homem sem pão nem poderio:
só tenho uma faca e meu esqueleto.
Cresci sem rumo, fui meu próprio dono
e começo a saber que fui teu
desde que comecei com este sonho:
antes não fui senão um monte de orgulho.
Voz de Tereza:
Sou camponesa de lá de Coiheuco,
cheguei à nave para conhecer-te:
te entregarei minha vida enquanto viver
e quando morrer te darei minha morte.
Voz de Murieta:
Teus braços são como alelis
de Carampangue e por tua boca arisca
me chama a aveleira e os raulíes.
Teu cabelo tem cheiro de montanhas.
Deita-te outra vez a meu lado
como água do riacho puro e frio
e deixarás meu peito perfumado
à madeira com sol e com rocio.
Voz de Tereza:
É verdade que o amor queima e separa?
É verdade que se apaga com um beijo?
Voz de Murieta:
Perguntar ao amor é coisa rara,
é perguntar cerejas à cerejeira.
Eu conheci os trigos de Rancágua,
vivi como uma figueira em Melipilla.
O que conheço aprendi da água,
do vento, das coisas mais singelas.
Por isso a ti, sem aprender a ciência,
te vi, te amei e te amo, bem-amada.
Tens sido, amor, minha única impaciência,
antes de ti eu não quis ter nada, nada.
Agora quero o ouro para o muro
que deve defender tua beleza:
por ti será dourado e será duro
meu coração como uma fortaleza.
Voz de Tereza:
Só quero o baluarte de tua altura
e só quero o ouro de teu arado,
somente a proteção de tua ternura:
meu amor é um castelo delicado
e minha alma tem em ti suas armaduras:
resguarda-a teu amor enamorado.
Voz de Murieta:
Gosto de ouvir tua voz que corre pura
como a voz da água em movimento
e agora há só tu e a noite escura.
Dá-me um beijo, meu amor, estou contente.
Beijo minha terra quando a ti te beijo.
Voz de Tereza:
Voltaremos à nossa pátria dura
alguma vez.
Voz de Murieta:
O ouro é o regresso.
Esquadrinhando a terra estrangeira da alba escura
até que rolou na planura a noite na fogueira
Murieta fareja o veio escondido galopa e regressa
e toca em segredo a pedra partida rompe-a ou beija-a
e é sua decisão celestial encontrar o metal e tornar-se imortal
e buscando o tesouro sofre angústia mortal e se deita coberto de lodo
com areia nos olhos, com mãos sangrantes espreita a glória do ouro
e não há na terra distante tão valente e atroz caminhante:
nem sede nem serpente espreitante detêm seus passos,
bebeu febre em seu copo e não pôde a noite nevada
cortar sua pisada nem penas nem feridas puderam com ele
e quando caiu sete vezes sacou sete vidas
e seguiu de noite e de dia o chileno montado em seu claro corcel.
Para! diz-lhe a sombra mas o homem tinha sua esposa
esperando na choça e seguia pela Califórnia dourada
furando a rocha e o barro com a chamarada
de sua alma enlutada que busca no ouro encontrar a alegria
que Joaquín Murieta queria para reparti-lo voltando à sua terra,
mas esperou-o a agonia e se achou de repente coberto de ouro e de guerra.
Ferveu com o ouro encontrado a fúria e subiu pelos montes,
o ódio encheu o horizonte com manchas de sangue e luxúria
e o vento delgado mudou sua veste ligeira e sua voz transparente
e o ianque vestido de couro e capuz buscou ao forasteiro.
Os duros chilenos dormiam cuidando o tesouro cansados do ouro e da luta,
dormiam e em sonhos voltavam a ser lavradores,
marinheiros, mineiros,
dormiam os descobridores e envoltos em sombras os encapuzados vieram,
chegaram de noite os lobos armados buscando o dinheiro
e nos acampamentos morreu a picota porque em desamparo
ouvia-se um disparo e caía um chileno morrendo no sonho,
ladravam os cães, a morte mudava o desterro
e os assassinos em sua cavalgada mataram a bela esposa
de meu compatriota Joaquín e a canta por isso o poeta.
Saiu da sombra Joaquín Murieta sem ver que uma rosa de sangue tinha
em seu seio sua amada e jazia na terra estrangeira seu amor destroçado,
mas ao tropeçar em seu corpo tremeu aquele soldado
e beijando seu corpo caído, fechando os olhos daquela que foi sua roseira e sua estrela
jurou comovido matar e morrer perseguindo o injusto, protegendo o caído,
e é assim que nasce um bandido que o amor e a honra conduziram um dia
a encontrar a dor e perder a alegria e perder muito mais ainda,
a se arriscar, a morrer, combatendo e vingando uma ferida
e deixar sobre o pó do ouro perdido sua vida e seu sangue vertido.
Onde está este ginete atrevido vingando seu povo, sua raça, sua gente?
Onde está o solitário rebelde, que névoa ocultou seu vestuário?
Onde estão seu cavalo e seu raio, seus olhos ardentes?
Inflamou-se intermitente, em trevas espreita sua fronte,
e no dia das desventuras percorre um corcel, a vingança vai em sua montaria:
galopa lhe diz a areia que engoliu o sangue dos desgraçados
e alguma chilena prepara um churrasco escondido para um foragido que chega coberto de pó e de morte.
“Entrega esta flor ao bandido e beija suas mãos e que tenha sorte.”
“Dá-lhe, se podes, esta galinhazinha”, sussurra uma velha de Angol de cabeça murcha,
“e tu dá-lhe o rifle”, diz outra, “de meu assassinado marido, ainda está manchado com o sangue de meu bem-amado”,
e este menino lhe dá seu brinquedo, um cavalo de pau, e lhe diz: “Ginete,
galopa para vingar meu irmão que um gringo matou pelas costas” e Murieta levanta a mão
e se afasta violento com o cavalinho do menino nas mãos do vento.
Galopa Murieta! O sangue caído decreta que um ser solitário
recolha em sua rota a honra do planeta e o sol solidário
desperta na escura planura e a terra sacode nos passos errantes
dos que recordam amantes caídos e irmãos feridos
e pela pradaria se estende uma estranha quimera, um fulgor, é a fúria da primavera
e a ameaçante alegria que lança porque crê que são uma coisa vitória e vingança.
Se apertaram em seus cinturões, saltaram varões na noite escura
ao relampagueio de cavalgaduras e marcha Joaquín adiante,
com duro semblante dirige a hoste dos vingadores
e caem cabeças distantes e o faiscar
do rifle e a luz do punhal terminaram com tantas tristezas:
vestido de luto e de prata Joaquín Murieta caminha constante
e não dá descanso este caminhante aos que incendiaram os povoados com lava queimante,
aos que arrasaram envoltos em ódio e pisotearam
bandeiras de povos errantes.
Oh novos guerreiros, que surja na terra outro deus além do dinheiro,
que morra quem mata o pulsar da primavera e coroa com sangue o berço do recém-nascido,
que viva o bandido Joaquín Murieta, o chileno de estirpe profeta
que quis cortar o caminho dos iracundos guerreiros grosseiros
que tudo têm e tudo querem e tudo maltratam e matam.
Adeus companheiro bandido, se acerca tua hora, teu fim está claro e escuro,
sabe-se que tu não conheces como o meteoro o caminho seguro,
sabe-se que tu te desviaste na cólera como um vendaval solitário,
mas aqui te canto porque debulhaste o racimo de ira e se acerca a aurora,
se acerca a hora em que o iracundo não tenha já lugar no mundo
e uma sombra secreta não foi tua façanha, Joaquín Murieta.
E diz a mãe: “Eu sou uma espiga sem grão e sem ouro,
não existe o tesouro que minha alma adorava, pendurado na viga
meu Pedro, filho meu, morreu assassinado e o choro
e agora minhas lágrimas Murieta secou com sua valentia”.
E a outra enlutada e bravia mostrando o retrato de seu irmão morto
levanta os braços eretos e beija a terra que pisa o cavalo de Joaquín Murieta.
Pergunta o poeta: “Não é digno este estranho soldado de luto
que os ultrajados lhe outorguem o fruto do padecimento?”
Não sei, mas sinto tão longe daquele compatriota longínquo
que através do tempo merece meu canto e minha mão
porque defendeu mostrando a cara, os punhos, a fronte,
a pobre alegria da pobre gente saqueada pelo invasor
inclemente e amargo
e sai do longo letargo na sombra um luzeiro
e o povo adormecido acorda ligeiro seguindo o rastro
escarlate daquele guerrilheiro,
do homem que mata e que morre seguindo uma estrela.
Por isso pergunta o poeta se alguma cantata requeira
aquele cavaleiro bandido que deu ao ofendido uma rosa concreta:
justiça se chama a ira de meu compatriota Joaquín Murieta.
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