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Poemas neste tema

Emoções e Sentimentos

Herberto Helder

Herberto Helder

A Bicicleta Pela Lua Dentro - Mãe, Mãe -

A bicicleta pela lua dentro — mãe, mãe —
ouvi dizer toda a neve.
As árvores crescem nos satélites.
Que hei-de fazer senão sonhar
ao contrário quando novembro empunha —
mãe, mãe — as telhas dos seus frutos?
As nuvens, aviões, mercúrio.
Novembro — mãe — com as suas praças
descascadas.

A neve sobre os frutos — filho, filho.
Janeiro com outono sonha então.
Canta nesse espanto — meu filho — os satélites
sonham pela lua dentro na sua bicicleta.
Ouvi dizer novembro.
As praças estão resplendentes.
As grandes letras descascadas: é novo o alfabeto.
Aviões passam no teu nome —
minha mãe, minha máquina —
mercúrio (ouvi dizer) está cheio de neve.

Avança, memória, com a tua bicicleta.
Sonhando, as árvores crescem ao contrário.
Apresento-te novembro: avião
limpo como um alfabeto. E as praças
dão a sua neve descascada.
Mãe, mãe — como janeiro resplende
nos satélites. Filho — é a tua memória.

E as letras estão em ti, abertas
pela neve dentro. Como árvores, aviões
sonham ao contrário.
As estátuas, de polvos na cabeça,
florescem com mercúrio.
Mãe — é o teu enxofre do mês de novembro,
é a neve avançando na sua bicicleta.

O alfabeto, a lua.

Começo a lembrar-me: eu peguei na paisagem.
Era pesada, ao colo, cheia de neve.
Ia dizendo o teu nome de janeiro.
Enxofre — mãe — era o teu nome.
As letras cresciam em torno da terra,
as telhas vergavam ao peso
do que me lembro. Começo a lembrar-me:
era o atum negro do teu nome,
nos meus braços como neve de janeiro.

Novembro — meu filho — quando se atira a flecha,
e as praças se descascam,
e os satélites avançam,
e na lua floresce o enxofre. Pegaste na paisagem
(eu vi): era pesada.
O meu nome, o alfabeto, enchia-a de laranjas.
Laranjas de pedra—mãe. Resplendentes,
as estátuas negras no teu nome,
no meu colo.
Era a neve que nunca mais acabava.

Começo a lembrar mc: a bicicleta
vergava ao peso desse grande atum negro.
A praça descascava-se.
E eis o teu nome resplendente com as letras
ao contrário, sonhando
dentro de mim sem nunca mais acabar.
Eu vi. Os aviões abriam-se quando a lua
batia pelo ar fora.
Falávamos baixo. Os teus braços estavam cheios
do meu nome negro, e nunca mais
acabava de nevar.

Era novembro.

Janeiro: começo a lembrar-me. O mercúrio
crescendo com toda a força em volta
da terra. Mãe — se morreste, porque fazes
tanta força com os pés contra o teu nome,
no meu colo?
Eu ia lembrar-me: os satélites todos
resplendentes na praça. Era a neve.
Era o tempo descascado
sonhando com tanto peso no meu colo.
O mãe, atum negro —
ao contrário, ao contrário, com tanta força.

Era tudo uma máquina com as letras
lá dentro. E eu vinha cantando
com a minha paisagem negra pela neve.
E isso não acabava nunca mais peio tempo
fora. Começo a lembrar-me.
Esqueci-te as barbatanas, teus olhos
de peixe, tua coluna
vertebral de peixe, tuas escamas. E vinha
cantando na neve que nunca mais
acabava.

O teu nome negro com tanta força —
minha mãe.
Os satélites e as praças. E novembro
avançando em janeiro com seus frutos
destelhados ao colo. As
estátuas, e eu sonhando, sonhando.
Ao contrário tão morta — minha mãe —
com tanta força, e nunca

— mãe — nunca mais acabava pelo tempo fora.
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Lobo da Costa

Lobo da Costa

VINGANÇA

Que sinto eu! Desejos de vingança!
De um crime horrível ela tornou-se ré;
e o ídolo que adorei reduzo as cinzas
e sobre as cinzas me coloco em pé.
Mas isso amor será? inda em meu peito
de amor a chama se conserva acesa?
Se acaso a flor que o verme envenenou
conserva ainda a natural beleza?
Mas isso amor será, me atormentando
o cancro da mais bárbara traição?!..
Diz-me a razão: "despreza-a"... porventura
surdo serei às vozes da razão?!!
Mas isso amor não é! Já no meu peito
não há vestígio da flor dessa esperança!
É ódio! É só desprezo!.. indiferença!
Desprezo, indiferença e só vingança!
Vingança eterna do poeta altivo
que já não pode na mulher ter fé!
Que o ídolo que adorou reduz as cinzas
e sobre as cinzas se coloca em pé!
Vingança eterna do poeta atraiçoado,
que não sabe nutrir falsa traição,
mas que sabe punir com indiferença
a mulher que pratica a ingratidão.
Que não sabe, à traição, cravar no peito
ponteagudo punhal envenenado,
mas que sabe dizer perante a ingrata:
Mulher! Eu te desprezo!... estou vingado!
Quem sabe amante ajoelhar-se escravo
a luz dos olhos da mulher que adora,
também sabe, traído, desprezá-la,
te mesmo quando arrependida chora.
Quem sabe, amante, ajoelhar-se escravo,
mas que sabe também perdida a fé.
O ídolo falso reduzir as cinzas
e sobre as cinzas colocar-se em pé!
Mulher! sagrei-te meus cantos
n"aurora da mocidade;
curti amarga saudade
no peito, de crenças nu;
hoje o fado transmudou-se,
e ódio apenas te of"reço
do meu orgulho não desço
ao lodo que vives tu.
Como a estrela que se apaga,
astro sem brilho que morre,
dos meus olhos já não corre
uma lágrima se quer;
julguei-te um anjo da vida,
elevei-te a um céu ridente,
mas, hoje, vejo, impudente
que não passas de mulher!
Esqueceste-me! Que importa!
Serás também esquecida,
mas um dia arrependida
chorarás por mim em vão:
a vida dura bem pouco!
A fortuna também finda!
Espero encontrar-te ainda
rojada ao lodo do chão.
As faces já cadavéricas,
os olhos quase apagados,
e esses lábios desbotados
pelos beijos da traição!
E, ao certo, nem por piedade,
hei de a mão te oferecer!
Estátua - fria mulher
que não tinhas coração!
E decaída e rojada
no precipício dos anos,
verás teus ledos enganos
calçados como uma flor!
Então - múmia ressequida
ao lembrar-te do passado,
verás que negro é teu fado,
quanto vil foi teu amor!
Mas, não! não! Deus te perdoe!
a loucura é que cegou-te!
O ódio que a rir-me dou-te,
lembra o crime que fizeste!
Vive, donzela vaidosa,
vive e espera que o destino
te faça ver quão ferino,
foi o golpe que me deste!
Deus te perdoe!... e amanhã,
quando apagar-se meu nome,
e tu tremeres de fome
nos albergues do sertão:
Se um fantasma seguir-te
e a porta der-te um gemido,
será teu bardo traído,
que morto esquece a traição.
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Lobo da Costa

Lobo da Costa

VINGANÇA

Que sinto eu! Desejos de vingança!
De um crime horrível ela tornou-se ré;
e o ídolo que adorei reduzo as cinzas
e sobre as cinzas me coloco em pé.
Mas isso amor será? inda em meu peito
de amor a chama se conserva acesa?
Se acaso a flor que o verme envenenou
conserva ainda a natural beleza?
Mas isso amor será, me atormentando
o cancro da mais bárbara traição?!..
Diz-me a razão: "despreza-a"... porventura
surdo serei às vozes da razão?!!
Mas isso amor não é! Já no meu peito
não há vestígio da flor dessa esperança!
É ódio! É só desprezo!.. indiferença!
Desprezo, indiferença e só vingança!
Vingança eterna do poeta altivo
que já não pode na mulher ter fé!
Que o ídolo que adorou reduz as cinzas
e sobre as cinzas se coloca em pé!
Vingança eterna do poeta atraiçoado,
que não sabe nutrir falsa traição,
mas que sabe punir com indiferença
a mulher que pratica a ingratidão.
Que não sabe, à traição, cravar no peito
ponteagudo punhal envenenado,
mas que sabe dizer perante a ingrata:
Mulher! Eu te desprezo!... estou vingado!
Quem sabe amante ajoelhar-se escravo
a luz dos olhos da mulher que adora,
também sabe, traído, desprezá-la,
te mesmo quando arrependida chora.
Quem sabe, amante, ajoelhar-se escravo,
mas que sabe também perdida a fé.
O ídolo falso reduzir as cinzas
e sobre as cinzas colocar-se em pé!
Mulher! sagrei-te meus cantos
n"aurora da mocidade;
curti amarga saudade
no peito, de crenças nu;
hoje o fado transmudou-se,
e ódio apenas te of"reço
do meu orgulho não desço
ao lodo que vives tu.
Como a estrela que se apaga,
astro sem brilho que morre,
dos meus olhos já não corre
uma lágrima se quer;
julguei-te um anjo da vida,
elevei-te a um céu ridente,
mas, hoje, vejo, impudente
que não passas de mulher!
Esqueceste-me! Que importa!
Serás também esquecida,
mas um dia arrependida
chorarás por mim em vão:
a vida dura bem pouco!
A fortuna também finda!
Espero encontrar-te ainda
rojada ao lodo do chão.
As faces já cadavéricas,
os olhos quase apagados,
e esses lábios desbotados
pelos beijos da traição!
E, ao certo, nem por piedade,
hei de a mão te oferecer!
Estátua - fria mulher
que não tinhas coração!
E decaída e rojada
no precipício dos anos,
verás teus ledos enganos
calçados como uma flor!
Então - múmia ressequida
ao lembrar-te do passado,
verás que negro é teu fado,
quanto vil foi teu amor!
Mas, não! não! Deus te perdoe!
a loucura é que cegou-te!
O ódio que a rir-me dou-te,
lembra o crime que fizeste!
Vive, donzela vaidosa,
vive e espera que o destino
te faça ver quão ferino,
foi o golpe que me deste!
Deus te perdoe!... e amanhã,
quando apagar-se meu nome,
e tu tremeres de fome
nos albergues do sertão:
Se um fantasma seguir-te
e a porta der-te um gemido,
será teu bardo traído,
que morto esquece a traição.
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Ruy Belo

Ruy Belo

Tu estás aqui

Estás aqui comigo à sombra do sol
escrevo e oiço certos ruídos domésticos
e a luz chega-me humildemente pela janela
e dói-me um braço e sei que sou o pior aspecto do que sou
Estás aqui comigo e sou sumamente quotidiano
e tudo o que faço ou sinto como que me veste de um pijama
que uso para ser também isto este bicho
de hábitos manias segredos defeitos quase todos desfeitos
quando depois lá fora na vida profissional ou social só sou um nome e sabem
o que sei o
que faço ou então sou eu que julgo que o sabem
e sou amável selecciono cuidadosamente os gestos e escolho as palavras
e sei que afinal posso ser isso talvez porque aqui sentado dentro de casa sou
outra coisa
esta coisa que escreve e tem uma nódoa na camisa e só tem de exterior
a manifestação desta dor neste braço que afecta tudo o que faço
bem entendido o que faço com este braço
Estás aqui comigo e à volta são as paredes
e posso passar de sala para sala a pensar noutra coisa
e dizer aqui é a sala de estar aqui é o quarto aqui é a casa de banho
e no fundo escolher cada uma das divisões segundo o que tenho a fazer
Estás aqui comigo e sei que só sou este corpo castigado
passado nas pernas de sala em sala. Sou só estas salas estas paredes
esta profunda vergonha de o ser e não ser apenas a outra coisa
essa coisa que sou na estrada onde não estou à sombra do sol
Estás aqui e sinto-me absolutamente indefeso
diante dos dias. Que ninguém conheça este meu nome
este meu verdadeiro nome depois talvez encoberto noutro
nome embora no mesmo nome este nome
de terra de dor de paredes este nome doméstico
Afinal fui isto nada mais do que isto
as outras coisas que fiz fi-Ias para não ser isto ou dissimular isto
a que somente não chamo merda porque ao nascer me deram outro nome
que não merda
e em princípio o nome de cada coisa serve para distinguir uma coisa das
outras coisas
Estás aqui comigo e tenho pena acredita de ser só isto
pena até mesmo de dizer que sou só isto como se fosse também outra coisa
uma coisa para além disto que não isto
Estás aqui comigo deixa-te estar aqui comigo
é das tuas mãos que saem alguns destes ruídos domésticos
mas até nos teus gestos domésticos tu és mais que os teus gestos domésticos
tu és em cada gesto todos os teus gestos
e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que significam certas palavras como
a palavra paz
Deixa-te estar aqui perdoa que o tempo te fique na face na forma de rugas
perdoa pagares tão alto preço por estar aqui
perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui
prossegue nos gestos não pares procura permanecer sempre presente
deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias
e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer
sou isto é certo mas sei que tu estás aqui
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Herberto Helder

Herberto Helder

As Musas Cegas - Viii

Ignoro quem dorme, a minha boca ressoa.
Despedir-se dos meses é uma nova tarefa, um ofício
inquieto. Às vezes na noite
vejo as casas pequenas, as rosas que se voltam
para o subterrâneo e subtil
ruído da seiva. Penso nas mulheres
de pálpebras descidas, no seu espírito
expansivo que repousa. Nas crianças que enlouquecem
silenciosamente dentro da sua inocência.
Às vezes na noite ainda jovem, mas
que principia a engolfar-se no seu doce
hermetismo — tantas vezes
penso na chuva, e nos corpos, e nas pontes onde
se encontra alguém
com as cegas mãos escorrendo para o fundo
o sangue de uma imensa
inspiração. Eu sei: despedir-se dos meses
é um ofício inquieto.

As luzes, as mesas, as armas antigas, os jardins debruçados
nas violas paradas. Não sei o que há
Ião veloz e tão firme
na base de um homem. Às vezes vejo
que é uma invencível doçura, um espanto
colorido em redor de uma casa, uma raiva
generosa nas mãos iluminadas.
Mas no fundo, no fundo,
é a boca desmanchada que sangra devagar.
Ignoro quem dorme, é um ofício novo e louco,
uma tarefa perene do coração
sobre quanto se ignora. Minha boca ressoa.
Os próprios meses ressoam como espelhos ardentes,
como telhados, cúpulas, livros,
como objectos ardentes.

Sobre um rosto eu diria: é um rosto? Sobre
uma vida eu perguntaria se era
a força de uma vida. Porque os ossos e as veias
vão de corpo para corpo,
e despedir-se de tudo é um ofício inquieto.
Tudo isto é uma musa, um poder, uma pungente
sabedoria. As rosas que há
nas palavras, as palavras que estão
no alto como fungos luminosos, as palavras
que gravitam em baixo
no instável momento que avança e recua
ao pé da eternidade — as mãos
rodeando uma lâmpada, essas mãos
docemente cobertas de sangue — tudo isso
disposto para a inquietação de um ofício.

Eu sei: as vigas da cabeça estremecem um pouco.
Partem-se, aqui e ali,
alguns arcos secundários. Uma vida pode tremer
do princípio ao fim. E instantâneo,
eterno. Mas é o homem
que recebe a inspiração violenta.
Ignoro quem dorme, a minha boca está no fundo,
móvel, coberta de sangue, a minha
boca ressoa como as cavernas de um barco,
a minha boca da minha vida
é um ofício. O meu ofício de despedir-me
um pouco engolfado na loucura.
A minha tarefa inquieta de pôr a vida
na sua oculta loucura.

Tudo isso canta nas galerias dos meses
ornados de delgados mastros
acesos. E despedir-se dia a dia
desta torrente de pequenas imagens alucinadas e mansas
é um mester ainda jovem,
algo que se aprende lentamente com as mãos
e a garganta e a testa
e o marulho das águas que correm profundamente
em lugares inacessíveis,
sem nomes nem janelas por onde surja a cabeça
coroada de violinos.
E um violento ofício, e no fundo desse ofício
violento e puro,
a boca está coberta de um perturbado sangue
masculino.
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Lobo da Costa

Lobo da Costa

AQUELE RANCHINHO (Ranchinho do Sertão)

Tu me perguntas a história
daquele triste ranchinho,
que abandonado encontramos,
coberto por negros ramos
de pessegueiro maninho;
aquele rancho de palha,
aquele triste ranchinho!...

Ai foi um drama de sangue
que aqui se deu...pois não vês!
Repara para as janelas...
o fogo passou por elas!
- Há quantos anos! - Há três.
Contou-me o velho moleiro
há pouco menos de um mês.

Ali morava um velhinho
e mais, um anjo de amor;
criança bela morena
mais formosa que a açucena...
Maria, - a pálida flor,
cujo perfume recende
ainda aos pés do Senhor.

Maria e Vito se amaram
iam seus fados unir,
quando a trombeta da guerra
plangente ecoou na serra
convocando a reunir:
Parte o audaz cavalariano,
porém antes de partir...

Porém antes...entre beijos
juraram constância enfim:
"Se eu morrer numa batalha,
nesta casinha de palha
tu viverás só por mim!..."
A moça beijou-lhe a fronte
e respondeu-lhe: "Pois sim."

Os anos voam! Há tempo
que ela não ri como sói...
chora a triste sertaneja,
quando por fim lhe negreja
uma notícia que dói!
Morrera Vito em combate...
morrera como um herói.

Vestiu luto a pobrezinha,
o velho também vestiu...
Cede por fim a ternura,
e pouco a pouco a tristura
no peito se lhe extinguiu;
se ele morreu foi destino
foi a sorte que o feriu!

Depois correu pela riba
uma nova singular:
Que a bela flor do posteiro
c'o filho de um fazendeiro
já de pronto ia casar;
causou abalo a notícia,
sem que ousassem duvidar.

Uma noite a tempestade
batia pelos cipós,
gemia o vento nos montes
e as águas frias das fontes
desciam com rouca voz...
e no rancho do posteiro
dois noivos dormiam sós.

De repente pela encosta
um cavaleiro desceu;
molhado o poncho brilhava
ao resplendor da saraiva
que resvalava do céu...
era um vulto negro...negro...
trazia enorme chapéu!
Soltando a rédea ao cavalo,
ao rancho foi espreitar...
o vento rugia ao longe
e o bosque sombrio monge
estava como a rezar...
À luz de um raio
Soltando a rédea ao cavalo,
ao rancho foi espreitar...
o vento rugia ao longe
e o bosque sombrio monge
estava como a rezar...

À luz de um raio se abre
a porta de par em par!

Sobre o leito precipita-se
o camponês sem temor!
No punho a adaga flutua
e nas mãos aperta a sua
primeira sombra de amor!
Uma luta então se trava,
sendo Vito o vencedor.

"Pérfida! brada o gaúcho,
Vês o teu noivo? Morreu!
Morrerás também ingrata!"
E a fria adaga de prata
bem nos ares suspendeu.

Baixou a mão e três vezes
no alvo seio a embebeu.
No outro dia os destroços
de um rancho via-se então.

O incêndio levara tudo
e fora cúmplice mudo,
fora cúmplice o trovão!
- Aí tens a história que pedes
do ranchinho do sertão.

Poema escrito em Pelotas, sua terra natal, no ano de 1875 e dedicado (como ele mesmo comentou) ao inspirado poeta riograndense Bernardo Taveira.
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