Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
José Saramago
Antes Calados
E se os ossos rangessem quando os gritos
Dentro no sangue negro se amordaçam?
E se os olhos uivassem quando a lágrima
Grossa de sal amargo rasga a pele?
E se as unhas mudadas em navalhas
Abrissem dez caminhos de desforra?
E se os versos doessem mastigados
Entre dentes que mordem o vazio?
(Mais perguntas, amor? Antes calados.)
Dentro no sangue negro se amordaçam?
E se os olhos uivassem quando a lágrima
Grossa de sal amargo rasga a pele?
E se as unhas mudadas em navalhas
Abrissem dez caminhos de desforra?
E se os versos doessem mastigados
Entre dentes que mordem o vazio?
(Mais perguntas, amor? Antes calados.)
1 113
1
Vinicius de Moraes
A Estrela Polar
Eu vi a estrela polar
Chorando em cima do mar
Eu vi a estrela polar
Nas costas de Portugal!
Desde então não seja Vênus
A mais pura das estrelas
A estrela polar não brilha
Se humilha no firmamento
Parece uma criancinha
Enjeitada pelo frio
Estrelinha franciscana
Teresinha, mariana
Perdida no Pólo Norte
De toda a tristeza humana.
Chorando em cima do mar
Eu vi a estrela polar
Nas costas de Portugal!
Desde então não seja Vênus
A mais pura das estrelas
A estrela polar não brilha
Se humilha no firmamento
Parece uma criancinha
Enjeitada pelo frio
Estrelinha franciscana
Teresinha, mariana
Perdida no Pólo Norte
De toda a tristeza humana.
1 451
1
Vinicius de Moraes
A Estrela Polar
Eu vi a estrela polar
Chorando em cima do mar
Eu vi a estrela polar
Nas costas de Portugal!
Desde então não seja Vênus
A mais pura das estrelas
A estrela polar não brilha
Se humilha no firmamento
Parece uma criancinha
Enjeitada pelo frio
Estrelinha franciscana
Teresinha, mariana
Perdida no Pólo Norte
De toda a tristeza humana.
Chorando em cima do mar
Eu vi a estrela polar
Nas costas de Portugal!
Desde então não seja Vênus
A mais pura das estrelas
A estrela polar não brilha
Se humilha no firmamento
Parece uma criancinha
Enjeitada pelo frio
Estrelinha franciscana
Teresinha, mariana
Perdida no Pólo Norte
De toda a tristeza humana.
1 451
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Goesa
Tudo era atravessado por um rio de memórias
E brisas subtis e lentas se cruzavam
E enquanto lá fora baloiçavam
Os grandes leques verdes das palmeiras
Uma rapariga descalça como bailarina sagrada
Atravessou o quarto leve e lenta
Num silêncio de guitarra dedilhada
E brisas subtis e lentas se cruzavam
E enquanto lá fora baloiçavam
Os grandes leques verdes das palmeiras
Uma rapariga descalça como bailarina sagrada
Atravessou o quarto leve e lenta
Num silêncio de guitarra dedilhada
1 065
1
Vinicius de Moraes
Soneto do Amigo
Enfim, depois de tanto erro passado
Tantas retaliações, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.
É bom sentá-lo novamente ao lado
Com olhos que contêm o olhar antigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo.
Um bicho igual a mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com o meu próprio engano.
O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica...
Los Angeles, 1946.
Tantas retaliações, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.
É bom sentá-lo novamente ao lado
Com olhos que contêm o olhar antigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo.
Um bicho igual a mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com o meu próprio engano.
O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica...
Los Angeles, 1946.
4 389
1
Pablo Neruda
Se Me Esqueceres
Quero que saibas
uma coisa.
Sabes como é:
se olho
a lua de cristal, o ramo vermelho
do lento outono à minha janela,
se toco
junto do lume
a impalpável cinza
ou o enrugado corpo da lenha,
tudo me leva para ti,
como se tudo o que existe,
aromas, luz, metais,
fossem pequenos barcos que navegam
até às tuas ilhas que me esperam.
Mas agora,
se pouco a pouco me deixas de amar
deixarei de te amar pouco a pouco.
Se de súbito
me esqueceres
não me procures,
porque já te terei esquecido.
Se julgas que é vasto e louco
o vento de bandeiras
que passa pela minha vida
e te resolves
a deixar-me na margem
do coração em que tenho raízes,
pensa
que nesse dia,
a essa hora
levantarei os braços
e as minhas raízes sairão
em busca de outra terra.
Porém
se todos os dias,
a toda a hora,
te sentes destinada a mim
com doçura implacável,
se todos os dias uma flor
uma flor te sobe aos lábios à minha procura,
ai meu amor, ai minha amada,
em mim todo esse fogo se repete,
em mim nada se apaga nem se esquece,
o meu amor alimenta-se do teu amor,
e enquanto viveres estará nos teus braços
sem sair dos meus.
uma coisa.
Sabes como é:
se olho
a lua de cristal, o ramo vermelho
do lento outono à minha janela,
se toco
junto do lume
a impalpável cinza
ou o enrugado corpo da lenha,
tudo me leva para ti,
como se tudo o que existe,
aromas, luz, metais,
fossem pequenos barcos que navegam
até às tuas ilhas que me esperam.
Mas agora,
se pouco a pouco me deixas de amar
deixarei de te amar pouco a pouco.
Se de súbito
me esqueceres
não me procures,
porque já te terei esquecido.
Se julgas que é vasto e louco
o vento de bandeiras
que passa pela minha vida
e te resolves
a deixar-me na margem
do coração em que tenho raízes,
pensa
que nesse dia,
a essa hora
levantarei os braços
e as minhas raízes sairão
em busca de outra terra.
Porém
se todos os dias,
a toda a hora,
te sentes destinada a mim
com doçura implacável,
se todos os dias uma flor
uma flor te sobe aos lábios à minha procura,
ai meu amor, ai minha amada,
em mim todo esse fogo se repete,
em mim nada se apaga nem se esquece,
o meu amor alimenta-se do teu amor,
e enquanto viveres estará nos teus braços
sem sair dos meus.
1 277
1
Pablo Neruda
Se Me Esqueceres
Quero que saibas
uma coisa.
Sabes como é:
se olho
a lua de cristal, o ramo vermelho
do lento outono à minha janela,
se toco
junto do lume
a impalpável cinza
ou o enrugado corpo da lenha,
tudo me leva para ti,
como se tudo o que existe,
aromas, luz, metais,
fossem pequenos barcos que navegam
até às tuas ilhas que me esperam.
Mas agora,
se pouco a pouco me deixas de amar
deixarei de te amar pouco a pouco.
Se de súbito
me esqueceres
não me procures,
porque já te terei esquecido.
Se julgas que é vasto e louco
o vento de bandeiras
que passa pela minha vida
e te resolves
a deixar-me na margem
do coração em que tenho raízes,
pensa
que nesse dia,
a essa hora
levantarei os braços
e as minhas raízes sairão
em busca de outra terra.
Porém
se todos os dias,
a toda a hora,
te sentes destinada a mim
com doçura implacável,
se todos os dias uma flor
uma flor te sobe aos lábios à minha procura,
ai meu amor, ai minha amada,
em mim todo esse fogo se repete,
em mim nada se apaga nem se esquece,
o meu amor alimenta-se do teu amor,
e enquanto viveres estará nos teus braços
sem sair dos meus.
uma coisa.
Sabes como é:
se olho
a lua de cristal, o ramo vermelho
do lento outono à minha janela,
se toco
junto do lume
a impalpável cinza
ou o enrugado corpo da lenha,
tudo me leva para ti,
como se tudo o que existe,
aromas, luz, metais,
fossem pequenos barcos que navegam
até às tuas ilhas que me esperam.
Mas agora,
se pouco a pouco me deixas de amar
deixarei de te amar pouco a pouco.
Se de súbito
me esqueceres
não me procures,
porque já te terei esquecido.
Se julgas que é vasto e louco
o vento de bandeiras
que passa pela minha vida
e te resolves
a deixar-me na margem
do coração em que tenho raízes,
pensa
que nesse dia,
a essa hora
levantarei os braços
e as minhas raízes sairão
em busca de outra terra.
Porém
se todos os dias,
a toda a hora,
te sentes destinada a mim
com doçura implacável,
se todos os dias uma flor
uma flor te sobe aos lábios à minha procura,
ai meu amor, ai minha amada,
em mim todo esse fogo se repete,
em mim nada se apaga nem se esquece,
o meu amor alimenta-se do teu amor,
e enquanto viveres estará nos teus braços
sem sair dos meus.
1 277
1
José Saramago
Parábola
Num caroço de mentira
Trouxe a verdade escondida
Pus o caroço na terra
Nasceu verdade fingida
Não faltou água dos olhos
Ao viço desta palmeira
Que frutos daria o ramo
Da maligna sementeira
Se do sal que nela morde
Um sabor amargo sobra
É coisa que vai no rasto
Que ficou depois da cobra
Lá em cima onde a verdade
Tem a franqueza do vento
Negam ninhos as raízes
Porque é outro o seu sustento
E o tronco tão levantado
Sobre o caroço partido
Não é tronco mas é homem
Alto firme e decidido
Trouxe a verdade escondida
Pus o caroço na terra
Nasceu verdade fingida
Não faltou água dos olhos
Ao viço desta palmeira
Que frutos daria o ramo
Da maligna sementeira
Se do sal que nela morde
Um sabor amargo sobra
É coisa que vai no rasto
Que ficou depois da cobra
Lá em cima onde a verdade
Tem a franqueza do vento
Negam ninhos as raízes
Porque é outro o seu sustento
E o tronco tão levantado
Sobre o caroço partido
Não é tronco mas é homem
Alto firme e decidido
1 444
1
José Saramago
Aprendamos, Amor
Aprendamos, amor, com estes montes
Que, tão longe do mar, sabem o jeito
De banhar no azul dos horizontes.
Façamos o que é certo e de direito:
Dos desejos ocultos outras fontes
E desçamos ao mar do nosso leito.
Que, tão longe do mar, sabem o jeito
De banhar no azul dos horizontes.
Façamos o que é certo e de direito:
Dos desejos ocultos outras fontes
E desçamos ao mar do nosso leito.
1 447
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
O Búzio de Cós
Este búzio não o encontrei eu própria numa praia
Mas na mediterrânica noite azul e preta
Comprei-o em Cós numa venda junto ao cais
Rente aos mastros baloiçantes dos navios
E comigo trouxe o ressoar dos temporais
Porém nele não oiço
Nem o marulho de Cós nem o de Egina
Mas sim o cântico da longa vasta praia
Atlântica e sagrada
Onde para sempre minha alma foi criada
Junho de 1995
Mas na mediterrânica noite azul e preta
Comprei-o em Cós numa venda junto ao cais
Rente aos mastros baloiçantes dos navios
E comigo trouxe o ressoar dos temporais
Porém nele não oiço
Nem o marulho de Cós nem o de Egina
Mas sim o cântico da longa vasta praia
Atlântica e sagrada
Onde para sempre minha alma foi criada
Junho de 1995
4 583
1
Ana Martins Marques
Um café com a Medusa
Ou será então que você acredita, teria ela, escreve Beyle, ainda acrescentado, que Petrarca foi infeliz só porque nunca pôde tomar um café?
W. G. Sebald, Vertigem
Tudo o que com os olhos toco
ela diz
transformo em pedra
mas tudo é já
desde sempre pedra
pó futuro
seus pais eram filhos do mar e da terra
cetáceos de um mundo arcaico
informe ainda
mas ela é mortal
destinada, como nós, ao pó
Ovídio diz ter sido justo e merecido
o castigo que lhe impingiu Atenas
transformando seus cabelos em serpentes
porque ela se deitara com Poseidon
são desde sempre as mulheres, ela diz,
condenadas pelo que fazem no leito
desde sempre amputadas
de suas terríveis cabeças
mas hoje estamos velhas
ela e eu
cansadas de refletir o tempo
como um escudo
só queremos tomar nosso café
cada serpente que lhe adorna a cabeça
fala em uma língua
e a traduz
mas na realidade
falamos pouco
enquanto olhamos o porto
e ela ajeita as asas
na cadeira
cúmplices
ela e eu
(embora eu evite
confesso
olhá-la nos olhos)
tomamos nosso café quase
em silêncio
ela diz que agora sonha apenas com o mar
que seus cabelos são algas e não serpentes
e que dançam lentamente no fundo de um oceano
cheio de monstros, como são os oceanos,
lagostas enormes e águas-vivas
e outras incongruências marinhas
corais e conchas que são
como estojos
e baleias que vivem até duzentos anos
o que para ela é nada, alguns segundos
como de fato é
e rimos as duas
que duas velhas sonhem ainda
e sempre o sexo
é talvez o que há no desejo de mais cruel
quando nele há tanto de cruel:
que ele dure, continue
e às vezes seja só desejo
do desejo
e seja móvel e mesmo
como o mar
aos que não têm mais pátria
seja porque se exilaram
seja porque o país se exilou de nós
e toma a forma dos nossos pesadelos
seja porque na realidade não há países
mas extensões variáveis de terra
que as nuvens sem passaporte
atravessam
resta só a memória do mar
ela diz
batendo inutilmente
o mar e o café
ela diz
e, a cada qual,
suas serpentes
W. G. Sebald, Vertigem
Tudo o que com os olhos toco
ela diz
transformo em pedra
mas tudo é já
desde sempre pedra
pó futuro
seus pais eram filhos do mar e da terra
cetáceos de um mundo arcaico
informe ainda
mas ela é mortal
destinada, como nós, ao pó
Ovídio diz ter sido justo e merecido
o castigo que lhe impingiu Atenas
transformando seus cabelos em serpentes
porque ela se deitara com Poseidon
são desde sempre as mulheres, ela diz,
condenadas pelo que fazem no leito
desde sempre amputadas
de suas terríveis cabeças
mas hoje estamos velhas
ela e eu
cansadas de refletir o tempo
como um escudo
só queremos tomar nosso café
cada serpente que lhe adorna a cabeça
fala em uma língua
e a traduz
mas na realidade
falamos pouco
enquanto olhamos o porto
e ela ajeita as asas
na cadeira
cúmplices
ela e eu
(embora eu evite
confesso
olhá-la nos olhos)
tomamos nosso café quase
em silêncio
ela diz que agora sonha apenas com o mar
que seus cabelos são algas e não serpentes
e que dançam lentamente no fundo de um oceano
cheio de monstros, como são os oceanos,
lagostas enormes e águas-vivas
e outras incongruências marinhas
corais e conchas que são
como estojos
e baleias que vivem até duzentos anos
o que para ela é nada, alguns segundos
como de fato é
e rimos as duas
que duas velhas sonhem ainda
e sempre o sexo
é talvez o que há no desejo de mais cruel
quando nele há tanto de cruel:
que ele dure, continue
e às vezes seja só desejo
do desejo
e seja móvel e mesmo
como o mar
aos que não têm mais pátria
seja porque se exilaram
seja porque o país se exilou de nós
e toma a forma dos nossos pesadelos
seja porque na realidade não há países
mas extensões variáveis de terra
que as nuvens sem passaporte
atravessam
resta só a memória do mar
ela diz
batendo inutilmente
o mar e o café
ela diz
e, a cada qual,
suas serpentes
1 844
1
Ana Martins Marques
Um café com a Medusa
Ou será então que você acredita, teria ela, escreve Beyle, ainda acrescentado, que Petrarca foi infeliz só porque nunca pôde tomar um café?
W. G. Sebald, Vertigem
Tudo o que com os olhos toco
ela diz
transformo em pedra
mas tudo é já
desde sempre pedra
pó futuro
seus pais eram filhos do mar e da terra
cetáceos de um mundo arcaico
informe ainda
mas ela é mortal
destinada, como nós, ao pó
Ovídio diz ter sido justo e merecido
o castigo que lhe impingiu Atenas
transformando seus cabelos em serpentes
porque ela se deitara com Poseidon
são desde sempre as mulheres, ela diz,
condenadas pelo que fazem no leito
desde sempre amputadas
de suas terríveis cabeças
mas hoje estamos velhas
ela e eu
cansadas de refletir o tempo
como um escudo
só queremos tomar nosso café
cada serpente que lhe adorna a cabeça
fala em uma língua
e a traduz
mas na realidade
falamos pouco
enquanto olhamos o porto
e ela ajeita as asas
na cadeira
cúmplices
ela e eu
(embora eu evite
confesso
olhá-la nos olhos)
tomamos nosso café quase
em silêncio
ela diz que agora sonha apenas com o mar
que seus cabelos são algas e não serpentes
e que dançam lentamente no fundo de um oceano
cheio de monstros, como são os oceanos,
lagostas enormes e águas-vivas
e outras incongruências marinhas
corais e conchas que são
como estojos
e baleias que vivem até duzentos anos
o que para ela é nada, alguns segundos
como de fato é
e rimos as duas
que duas velhas sonhem ainda
e sempre o sexo
é talvez o que há no desejo de mais cruel
quando nele há tanto de cruel:
que ele dure, continue
e às vezes seja só desejo
do desejo
e seja móvel e mesmo
como o mar
aos que não têm mais pátria
seja porque se exilaram
seja porque o país se exilou de nós
e toma a forma dos nossos pesadelos
seja porque na realidade não há países
mas extensões variáveis de terra
que as nuvens sem passaporte
atravessam
resta só a memória do mar
ela diz
batendo inutilmente
o mar e o café
ela diz
e, a cada qual,
suas serpentes
W. G. Sebald, Vertigem
Tudo o que com os olhos toco
ela diz
transformo em pedra
mas tudo é já
desde sempre pedra
pó futuro
seus pais eram filhos do mar e da terra
cetáceos de um mundo arcaico
informe ainda
mas ela é mortal
destinada, como nós, ao pó
Ovídio diz ter sido justo e merecido
o castigo que lhe impingiu Atenas
transformando seus cabelos em serpentes
porque ela se deitara com Poseidon
são desde sempre as mulheres, ela diz,
condenadas pelo que fazem no leito
desde sempre amputadas
de suas terríveis cabeças
mas hoje estamos velhas
ela e eu
cansadas de refletir o tempo
como um escudo
só queremos tomar nosso café
cada serpente que lhe adorna a cabeça
fala em uma língua
e a traduz
mas na realidade
falamos pouco
enquanto olhamos o porto
e ela ajeita as asas
na cadeira
cúmplices
ela e eu
(embora eu evite
confesso
olhá-la nos olhos)
tomamos nosso café quase
em silêncio
ela diz que agora sonha apenas com o mar
que seus cabelos são algas e não serpentes
e que dançam lentamente no fundo de um oceano
cheio de monstros, como são os oceanos,
lagostas enormes e águas-vivas
e outras incongruências marinhas
corais e conchas que são
como estojos
e baleias que vivem até duzentos anos
o que para ela é nada, alguns segundos
como de fato é
e rimos as duas
que duas velhas sonhem ainda
e sempre o sexo
é talvez o que há no desejo de mais cruel
quando nele há tanto de cruel:
que ele dure, continue
e às vezes seja só desejo
do desejo
e seja móvel e mesmo
como o mar
aos que não têm mais pátria
seja porque se exilaram
seja porque o país se exilou de nós
e toma a forma dos nossos pesadelos
seja porque na realidade não há países
mas extensões variáveis de terra
que as nuvens sem passaporte
atravessam
resta só a memória do mar
ela diz
batendo inutilmente
o mar e o café
ela diz
e, a cada qual,
suas serpentes
1 844
1
Pablo Neruda
A canção desesperada
Emerge tua lembrança desta noite em que estou.
O rio deságua no mar seu lamento obstinado.
Abandonado como as docas à hora da aurora.
É hora de partir, ó abandonado!
Em meu pobre coração chovem frias corolas.
Ó sentina de escombros, feroz cova de náufragos!
Em ti se acumularam as guerras e os voos.
De ti alçaram asas os pássaros do canto.
A tudo tu tragaste, como a longa distância.
Como o mar, como o tempo. Tudo em ti foi naufrágio!
Eram alegres as horas do assalto e do beijo.
As horas de torpor que ardiam como um farol.
Ansiedade de piloto, peixe cego de ira,
turva embriaguez de amor,tudo em ti foi naufrágio!
Na infância de névoa minha alma alada e ferida.
Descobridor perdido, tudo em ti foi naufrágio!
Fiz retroceder a alta muralha de sombra,
caminhei para longe do desejo e do ato.
Ó carne, minha carne, mulher que amei e perdi,
a ti nesta hora úmida, evoco e elevo o canto.
Como um vaso abrigaste a infinita ternura,
e o infinito olvido te trincou como a um vaso.
Era a negra, negra a solitude das ilhas,
e lá, mulher de amor, me acolheram os teus braços.
Era a sede e era a fome, e tu foste a fruta.
Era o duelo e as ruínas, e tu foste o milagre.
Ah mulher, não sei como me pudeste conter
na terra de tua alma, e na cruz de teus braços!
Meu desejo por ti foi o mais tenso e curto,
o mais revolto e ébrio, o mais terrível e ávido.
Cemitério de beijos, ainda há fogo em tuas tumbas,
e ainda ardem os cachos bicados pelos pássaros.
Ó a boca mordida, ó os membros beijados,
ó os dentes famintos, ó os corpos trançados.
Ó, a cópula louca de esperança e de esforço
em que nos enlaçamos e nos desesperamos.
E a ternura, leve como a água e a farinha.
E a palavra somente balbuciada nos lábios.
Esse foi meu destino, nele viajou meu anelo, e
nele caiu meu anelo, tudo em ti foi naufrágio!
De queda em queda ainda flamejaste e cantaste.
De pé como um marujo na proa de um navio.
Ainda floriste em cantos, e rompeste em correntes.
Ó sentina de escombros, poço aberto e amargo.
Pálido búzio cego, mergulhão desditoso,
descobridor perdido, tudo em ti foi naufrágio!
É a hora de partir, a dura e fria hora
que esta noite sujeita a todos os horários.
O cinturão ruidoso do mar limita a costa.
Surgem frias estrelas, e migram negros pássaros.
Abandonado como as docas à hora da aurora.
Só a sombra trêmula se retorce em minhas mãos.
Ah pra longe de tudo. Ah pra longe de tudo.
É hora de partir. Ó abandonado!
O rio deságua no mar seu lamento obstinado.
Abandonado como as docas à hora da aurora.
É hora de partir, ó abandonado!
Em meu pobre coração chovem frias corolas.
Ó sentina de escombros, feroz cova de náufragos!
Em ti se acumularam as guerras e os voos.
De ti alçaram asas os pássaros do canto.
A tudo tu tragaste, como a longa distância.
Como o mar, como o tempo. Tudo em ti foi naufrágio!
Eram alegres as horas do assalto e do beijo.
As horas de torpor que ardiam como um farol.
Ansiedade de piloto, peixe cego de ira,
turva embriaguez de amor,tudo em ti foi naufrágio!
Na infância de névoa minha alma alada e ferida.
Descobridor perdido, tudo em ti foi naufrágio!
Fiz retroceder a alta muralha de sombra,
caminhei para longe do desejo e do ato.
Ó carne, minha carne, mulher que amei e perdi,
a ti nesta hora úmida, evoco e elevo o canto.
Como um vaso abrigaste a infinita ternura,
e o infinito olvido te trincou como a um vaso.
Era a negra, negra a solitude das ilhas,
e lá, mulher de amor, me acolheram os teus braços.
Era a sede e era a fome, e tu foste a fruta.
Era o duelo e as ruínas, e tu foste o milagre.
Ah mulher, não sei como me pudeste conter
na terra de tua alma, e na cruz de teus braços!
Meu desejo por ti foi o mais tenso e curto,
o mais revolto e ébrio, o mais terrível e ávido.
Cemitério de beijos, ainda há fogo em tuas tumbas,
e ainda ardem os cachos bicados pelos pássaros.
Ó a boca mordida, ó os membros beijados,
ó os dentes famintos, ó os corpos trançados.
Ó, a cópula louca de esperança e de esforço
em que nos enlaçamos e nos desesperamos.
E a ternura, leve como a água e a farinha.
E a palavra somente balbuciada nos lábios.
Esse foi meu destino, nele viajou meu anelo, e
nele caiu meu anelo, tudo em ti foi naufrágio!
De queda em queda ainda flamejaste e cantaste.
De pé como um marujo na proa de um navio.
Ainda floriste em cantos, e rompeste em correntes.
Ó sentina de escombros, poço aberto e amargo.
Pálido búzio cego, mergulhão desditoso,
descobridor perdido, tudo em ti foi naufrágio!
É a hora de partir, a dura e fria hora
que esta noite sujeita a todos os horários.
O cinturão ruidoso do mar limita a costa.
Surgem frias estrelas, e migram negros pássaros.
Abandonado como as docas à hora da aurora.
Só a sombra trêmula se retorce em minhas mãos.
Ah pra longe de tudo. Ah pra longe de tudo.
É hora de partir. Ó abandonado!
4 190
1
Pablo Neruda
A canção desesperada
Emerge tua lembrança desta noite em que estou.
O rio deságua no mar seu lamento obstinado.
Abandonado como as docas à hora da aurora.
É hora de partir, ó abandonado!
Em meu pobre coração chovem frias corolas.
Ó sentina de escombros, feroz cova de náufragos!
Em ti se acumularam as guerras e os voos.
De ti alçaram asas os pássaros do canto.
A tudo tu tragaste, como a longa distância.
Como o mar, como o tempo. Tudo em ti foi naufrágio!
Eram alegres as horas do assalto e do beijo.
As horas de torpor que ardiam como um farol.
Ansiedade de piloto, peixe cego de ira,
turva embriaguez de amor,tudo em ti foi naufrágio!
Na infância de névoa minha alma alada e ferida.
Descobridor perdido, tudo em ti foi naufrágio!
Fiz retroceder a alta muralha de sombra,
caminhei para longe do desejo e do ato.
Ó carne, minha carne, mulher que amei e perdi,
a ti nesta hora úmida, evoco e elevo o canto.
Como um vaso abrigaste a infinita ternura,
e o infinito olvido te trincou como a um vaso.
Era a negra, negra a solitude das ilhas,
e lá, mulher de amor, me acolheram os teus braços.
Era a sede e era a fome, e tu foste a fruta.
Era o duelo e as ruínas, e tu foste o milagre.
Ah mulher, não sei como me pudeste conter
na terra de tua alma, e na cruz de teus braços!
Meu desejo por ti foi o mais tenso e curto,
o mais revolto e ébrio, o mais terrível e ávido.
Cemitério de beijos, ainda há fogo em tuas tumbas,
e ainda ardem os cachos bicados pelos pássaros.
Ó a boca mordida, ó os membros beijados,
ó os dentes famintos, ó os corpos trançados.
Ó, a cópula louca de esperança e de esforço
em que nos enlaçamos e nos desesperamos.
E a ternura, leve como a água e a farinha.
E a palavra somente balbuciada nos lábios.
Esse foi meu destino, nele viajou meu anelo, e
nele caiu meu anelo, tudo em ti foi naufrágio!
De queda em queda ainda flamejaste e cantaste.
De pé como um marujo na proa de um navio.
Ainda floriste em cantos, e rompeste em correntes.
Ó sentina de escombros, poço aberto e amargo.
Pálido búzio cego, mergulhão desditoso,
descobridor perdido, tudo em ti foi naufrágio!
É a hora de partir, a dura e fria hora
que esta noite sujeita a todos os horários.
O cinturão ruidoso do mar limita a costa.
Surgem frias estrelas, e migram negros pássaros.
Abandonado como as docas à hora da aurora.
Só a sombra trêmula se retorce em minhas mãos.
Ah pra longe de tudo. Ah pra longe de tudo.
É hora de partir. Ó abandonado!
O rio deságua no mar seu lamento obstinado.
Abandonado como as docas à hora da aurora.
É hora de partir, ó abandonado!
Em meu pobre coração chovem frias corolas.
Ó sentina de escombros, feroz cova de náufragos!
Em ti se acumularam as guerras e os voos.
De ti alçaram asas os pássaros do canto.
A tudo tu tragaste, como a longa distância.
Como o mar, como o tempo. Tudo em ti foi naufrágio!
Eram alegres as horas do assalto e do beijo.
As horas de torpor que ardiam como um farol.
Ansiedade de piloto, peixe cego de ira,
turva embriaguez de amor,tudo em ti foi naufrágio!
Na infância de névoa minha alma alada e ferida.
Descobridor perdido, tudo em ti foi naufrágio!
Fiz retroceder a alta muralha de sombra,
caminhei para longe do desejo e do ato.
Ó carne, minha carne, mulher que amei e perdi,
a ti nesta hora úmida, evoco e elevo o canto.
Como um vaso abrigaste a infinita ternura,
e o infinito olvido te trincou como a um vaso.
Era a negra, negra a solitude das ilhas,
e lá, mulher de amor, me acolheram os teus braços.
Era a sede e era a fome, e tu foste a fruta.
Era o duelo e as ruínas, e tu foste o milagre.
Ah mulher, não sei como me pudeste conter
na terra de tua alma, e na cruz de teus braços!
Meu desejo por ti foi o mais tenso e curto,
o mais revolto e ébrio, o mais terrível e ávido.
Cemitério de beijos, ainda há fogo em tuas tumbas,
e ainda ardem os cachos bicados pelos pássaros.
Ó a boca mordida, ó os membros beijados,
ó os dentes famintos, ó os corpos trançados.
Ó, a cópula louca de esperança e de esforço
em que nos enlaçamos e nos desesperamos.
E a ternura, leve como a água e a farinha.
E a palavra somente balbuciada nos lábios.
Esse foi meu destino, nele viajou meu anelo, e
nele caiu meu anelo, tudo em ti foi naufrágio!
De queda em queda ainda flamejaste e cantaste.
De pé como um marujo na proa de um navio.
Ainda floriste em cantos, e rompeste em correntes.
Ó sentina de escombros, poço aberto e amargo.
Pálido búzio cego, mergulhão desditoso,
descobridor perdido, tudo em ti foi naufrágio!
É a hora de partir, a dura e fria hora
que esta noite sujeita a todos os horários.
O cinturão ruidoso do mar limita a costa.
Surgem frias estrelas, e migram negros pássaros.
Abandonado como as docas à hora da aurora.
Só a sombra trêmula se retorce em minhas mãos.
Ah pra longe de tudo. Ah pra longe de tudo.
É hora de partir. Ó abandonado!
4 190
1
Pablo Neruda
A canção desesperada
Emerge tua lembrança desta noite em que estou.
O rio deságua no mar seu lamento obstinado.
Abandonado como as docas à hora da aurora.
É hora de partir, ó abandonado!
Em meu pobre coração chovem frias corolas.
Ó sentina de escombros, feroz cova de náufragos!
Em ti se acumularam as guerras e os voos.
De ti alçaram asas os pássaros do canto.
A tudo tu tragaste, como a longa distância.
Como o mar, como o tempo. Tudo em ti foi naufrágio!
Eram alegres as horas do assalto e do beijo.
As horas de torpor que ardiam como um farol.
Ansiedade de piloto, peixe cego de ira,
turva embriaguez de amor,tudo em ti foi naufrágio!
Na infância de névoa minha alma alada e ferida.
Descobridor perdido, tudo em ti foi naufrágio!
Fiz retroceder a alta muralha de sombra,
caminhei para longe do desejo e do ato.
Ó carne, minha carne, mulher que amei e perdi,
a ti nesta hora úmida, evoco e elevo o canto.
Como um vaso abrigaste a infinita ternura,
e o infinito olvido te trincou como a um vaso.
Era a negra, negra a solitude das ilhas,
e lá, mulher de amor, me acolheram os teus braços.
Era a sede e era a fome, e tu foste a fruta.
Era o duelo e as ruínas, e tu foste o milagre.
Ah mulher, não sei como me pudeste conter
na terra de tua alma, e na cruz de teus braços!
Meu desejo por ti foi o mais tenso e curto,
o mais revolto e ébrio, o mais terrível e ávido.
Cemitério de beijos, ainda há fogo em tuas tumbas,
e ainda ardem os cachos bicados pelos pássaros.
Ó a boca mordida, ó os membros beijados,
ó os dentes famintos, ó os corpos trançados.
Ó, a cópula louca de esperança e de esforço
em que nos enlaçamos e nos desesperamos.
E a ternura, leve como a água e a farinha.
E a palavra somente balbuciada nos lábios.
Esse foi meu destino, nele viajou meu anelo, e
nele caiu meu anelo, tudo em ti foi naufrágio!
De queda em queda ainda flamejaste e cantaste.
De pé como um marujo na proa de um navio.
Ainda floriste em cantos, e rompeste em correntes.
Ó sentina de escombros, poço aberto e amargo.
Pálido búzio cego, mergulhão desditoso,
descobridor perdido, tudo em ti foi naufrágio!
É a hora de partir, a dura e fria hora
que esta noite sujeita a todos os horários.
O cinturão ruidoso do mar limita a costa.
Surgem frias estrelas, e migram negros pássaros.
Abandonado como as docas à hora da aurora.
Só a sombra trêmula se retorce em minhas mãos.
Ah pra longe de tudo. Ah pra longe de tudo.
É hora de partir. Ó abandonado!
O rio deságua no mar seu lamento obstinado.
Abandonado como as docas à hora da aurora.
É hora de partir, ó abandonado!
Em meu pobre coração chovem frias corolas.
Ó sentina de escombros, feroz cova de náufragos!
Em ti se acumularam as guerras e os voos.
De ti alçaram asas os pássaros do canto.
A tudo tu tragaste, como a longa distância.
Como o mar, como o tempo. Tudo em ti foi naufrágio!
Eram alegres as horas do assalto e do beijo.
As horas de torpor que ardiam como um farol.
Ansiedade de piloto, peixe cego de ira,
turva embriaguez de amor,tudo em ti foi naufrágio!
Na infância de névoa minha alma alada e ferida.
Descobridor perdido, tudo em ti foi naufrágio!
Fiz retroceder a alta muralha de sombra,
caminhei para longe do desejo e do ato.
Ó carne, minha carne, mulher que amei e perdi,
a ti nesta hora úmida, evoco e elevo o canto.
Como um vaso abrigaste a infinita ternura,
e o infinito olvido te trincou como a um vaso.
Era a negra, negra a solitude das ilhas,
e lá, mulher de amor, me acolheram os teus braços.
Era a sede e era a fome, e tu foste a fruta.
Era o duelo e as ruínas, e tu foste o milagre.
Ah mulher, não sei como me pudeste conter
na terra de tua alma, e na cruz de teus braços!
Meu desejo por ti foi o mais tenso e curto,
o mais revolto e ébrio, o mais terrível e ávido.
Cemitério de beijos, ainda há fogo em tuas tumbas,
e ainda ardem os cachos bicados pelos pássaros.
Ó a boca mordida, ó os membros beijados,
ó os dentes famintos, ó os corpos trançados.
Ó, a cópula louca de esperança e de esforço
em que nos enlaçamos e nos desesperamos.
E a ternura, leve como a água e a farinha.
E a palavra somente balbuciada nos lábios.
Esse foi meu destino, nele viajou meu anelo, e
nele caiu meu anelo, tudo em ti foi naufrágio!
De queda em queda ainda flamejaste e cantaste.
De pé como um marujo na proa de um navio.
Ainda floriste em cantos, e rompeste em correntes.
Ó sentina de escombros, poço aberto e amargo.
Pálido búzio cego, mergulhão desditoso,
descobridor perdido, tudo em ti foi naufrágio!
É a hora de partir, a dura e fria hora
que esta noite sujeita a todos os horários.
O cinturão ruidoso do mar limita a costa.
Surgem frias estrelas, e migram negros pássaros.
Abandonado como as docas à hora da aurora.
Só a sombra trêmula se retorce em minhas mãos.
Ah pra longe de tudo. Ah pra longe de tudo.
É hora de partir. Ó abandonado!
4 190
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
São Francisco de Assis
Poeta do Redentor
Poeta do Criador
Procuraste
A inocência primeira que a Redenção reergue
Amaste o Criador não apenas em sua Transfiguração e Palavra
Mas também no temporal jardim das coisas criadas
Saudaste o emergir e a frescura do visível
O teu poema celebra o inaugural
Para lá da morte da lacuna da perca e do desastre
O teu poema saúda a verdade primeira de toda a criatura
A inteireza do dia inicial
E o mar se vê em seu primeiro espelho
Poeta do Criador
Procuraste
A inocência primeira que a Redenção reergue
Amaste o Criador não apenas em sua Transfiguração e Palavra
Mas também no temporal jardim das coisas criadas
Saudaste o emergir e a frescura do visível
O teu poema celebra o inaugural
Para lá da morte da lacuna da perca e do desastre
O teu poema saúda a verdade primeira de toda a criatura
A inteireza do dia inicial
E o mar se vê em seu primeiro espelho
1 196
1
Vinicius de Moraes
Soneto À Lua
Por que tens, por que tens olhos escuros
E mãos lânguidas, loucas e sem fim
Quem és, quem és tu, não eu, e estás em mim
Impuro, como o bem que está nos puros?
Que paixão fez-te os lábios tão maduros
Num rosto como o teu criança assim
Quem te criou tão boa para o ruim
E tão fatal para os meus versos duros?
Fugaz, com que direito tens-me presa
A alma que por ti soluça nua
E não és Tatiana e nem Teresa:
E és tampouco a mulher que anda na rua
Vagabunda, patética, indefesa
Ó minha branca e pequenina lua!
Rio, 1938
E mãos lânguidas, loucas e sem fim
Quem és, quem és tu, não eu, e estás em mim
Impuro, como o bem que está nos puros?
Que paixão fez-te os lábios tão maduros
Num rosto como o teu criança assim
Quem te criou tão boa para o ruim
E tão fatal para os meus versos duros?
Fugaz, com que direito tens-me presa
A alma que por ti soluça nua
E não és Tatiana e nem Teresa:
E és tampouco a mulher que anda na rua
Vagabunda, patética, indefesa
Ó minha branca e pequenina lua!
Rio, 1938
1 244
1
Vinicius de Moraes
Soneto À Lua
Por que tens, por que tens olhos escuros
E mãos lânguidas, loucas e sem fim
Quem és, quem és tu, não eu, e estás em mim
Impuro, como o bem que está nos puros?
Que paixão fez-te os lábios tão maduros
Num rosto como o teu criança assim
Quem te criou tão boa para o ruim
E tão fatal para os meus versos duros?
Fugaz, com que direito tens-me presa
A alma que por ti soluça nua
E não és Tatiana e nem Teresa:
E és tampouco a mulher que anda na rua
Vagabunda, patética, indefesa
Ó minha branca e pequenina lua!
Rio, 1938
E mãos lânguidas, loucas e sem fim
Quem és, quem és tu, não eu, e estás em mim
Impuro, como o bem que está nos puros?
Que paixão fez-te os lábios tão maduros
Num rosto como o teu criança assim
Quem te criou tão boa para o ruim
E tão fatal para os meus versos duros?
Fugaz, com que direito tens-me presa
A alma que por ti soluça nua
E não és Tatiana e nem Teresa:
E és tampouco a mulher que anda na rua
Vagabunda, patética, indefesa
Ó minha branca e pequenina lua!
Rio, 1938
1 244
1
Vinicius de Moraes
História Passional, Hollywood, Califórnia
Preliminarmente, telegrafar-te-ei uma dúzia de rosas
Depois te levarei a comer um shop-suey
Se a tarde também for loura abriremos a capota
Teus cabelos ao vento marcarão oitenta milhas.
Dar-me-ás um beijo com batom marca indelével
E eu pegarei tua coxa rija como a madeira
Sorrirás para mim e eu porei óculos escuros
Ante o brilho de teus dois mil dentes de esmalte.
Mascaremos cada um uma caixa de goma
E iremos ao Chinese cheirando a hortelã-pimenta
A cabeça no meu ombro sonharás duas horas
Enquanto eu me divirto no teu seio de arame.
De novo no automóvel perguntarei se queres
Me dirás que tem tempo e me darás um abraço
Tua fome reclama uma salada mista
Verei teu rosto através do suco de tomate.
Te ajudarei cavalheiro com o abrigo de chinchila
Na saída constatarei tuas nylon 57
Ao andares, algo em ti range em dó sustenido
Pelo andar em que vais sei que queres dançar rumba.
Beberás vinte uísques e ficarás mais terna
Dançando sentirei tuas pernas entre as minhas
Cheirarás levemente a cachorro lavado
Possuis cem rotações de quadris por minuto.
De novo no automóvel perguntarei se queres
Me dirás que hoje não, amanhã tens filmagem
Fazes a cigarreira num clube de má fama
E há uma cena em que vendes um maço a George Raft.
Telegrafar-te-ei então uma orquídea sexuada
No escritório esperarei que tomes sal de frutas
Vem-te um súbito desejo de comida italiana
Mas queres deitar cedo, tens uma dor de cabeça!
À porta de tua casa perguntarei se queres
Me dirás que hoje não, vais ficar dodói mais tarde
De longe acenarás um adeus sutilíssimo
Ao constatares que estou com a bateria gasta.
Dia seguinte esperarei com o rádio do carro aberto
Te chamando mentalmente de galinha e outros nomes
Virás então dizer que tens comida em casa
De avental abrirei latas e enxugarei pratos.
Tua mãe perguntará se há muito que sou casado
Direi que há cinco anos e ela fica calada
Mas como somos moços, precisamos divertir-nos
Sairemos de automóvel para uma volta rápida.
No alto de uma colina perguntar-te-ei se queres
Me dirás que nada feito, estás com uma dor do lado
Nervoso meus cigarros se fumarão sozinhos
E acabo machucando os dedos na tua cinta.
Dia seguinte vens com um suéter elástico
Sapatos mocassim e meia curta vermelha
Te levo pra dançar um ligeiro jitterbug
Teus vinte deixam os meus trinta e pouco cansados.
Na saída te vem um desejo de boliche
Jogas na perfeição, flertando o moço ao lado
Dás o telefone a ele e perguntas se me importo
Finjo que não me importo e dou saída no carro.
Estás louca para tomar uma coca gelada
Debruças-te sobre mim e me mordes o pescoço
Passo de leve a mão no teu joelho ossudo
Perdido de repente numa grande piedade.
Depois pergunto se queres ir ao meu apartamento
Me matas a pergunta com um beijo apaixonado
Dou um soco na perna e aperto o acelerador
Finges-te de assustada e falas que dirijo bem.
Que é daquele perfume que eu te tinha prometido?
Compro o Chanel 5 e acrescento um bilhete gentil
“Hoje vou lhe pagar um jantar de vinte dólares
E se ela não quiser, juro que não me responsabilizo...”
Vens cheirando a lilás e com saltos, meu Deus, tão altos
Que eu fico lá embaixo e com um ar avacalhado
Dás ordens ao garçom de caviar e champanha
Depois arrotas de leve me dizendo I beg your pardon.
No carro distraído deixo a mão na tua perna
Depois vou te levando para o alto de um morro
Em cima tiro o anel, quero casar contigo
Dizes que só acedes depois do meu divórcio.
Balbucio palavras desconexas e esdrúxulas
Quero romper-te a blusa e mastigar-te a cara
Não tens medo nenhum dos meus loucos arroubos
E me destroncas o dedo com um golpe de jiu-jítsu.
Depois tiras da bolsa uma caixa de goma
E mascas furiosamente dizendo barbaridades
Que é que eu penso que és, se não tenho vergonha
De fazer tais propostas a uma moça solteira.
Balbucio uma desculpa e digo que estava pensando...
Falas que eu pense menos e me fazes um agrado
Me pedes um cigarro e riscas o fósforo com a unha
E eu fico boquiaberto diante de tanta habilidade.
Me pedes para te levar a comer uma salada
Mas de súbito me vem uma consciência estranha
Vejo-te como uma cabra pastando sobre mim
E odeio-te de ruminares assim a minha carne.
Então fico possesso, dou-te um murro na cara
Destruo-te a carótida a violentas dentadas
Ordenho-te até o sangue escorrer entre meu dedos
E te possuo assim, morta e desfigurada.
Depois arrependido choro sobre o teu corpo
E te enterro numa vala, minha pobre namorada...
Fujo mas me descobrem por um fio de cabelo
E seis meses depois morro na câmara de gás.
Depois te levarei a comer um shop-suey
Se a tarde também for loura abriremos a capota
Teus cabelos ao vento marcarão oitenta milhas.
Dar-me-ás um beijo com batom marca indelével
E eu pegarei tua coxa rija como a madeira
Sorrirás para mim e eu porei óculos escuros
Ante o brilho de teus dois mil dentes de esmalte.
Mascaremos cada um uma caixa de goma
E iremos ao Chinese cheirando a hortelã-pimenta
A cabeça no meu ombro sonharás duas horas
Enquanto eu me divirto no teu seio de arame.
De novo no automóvel perguntarei se queres
Me dirás que tem tempo e me darás um abraço
Tua fome reclama uma salada mista
Verei teu rosto através do suco de tomate.
Te ajudarei cavalheiro com o abrigo de chinchila
Na saída constatarei tuas nylon 57
Ao andares, algo em ti range em dó sustenido
Pelo andar em que vais sei que queres dançar rumba.
Beberás vinte uísques e ficarás mais terna
Dançando sentirei tuas pernas entre as minhas
Cheirarás levemente a cachorro lavado
Possuis cem rotações de quadris por minuto.
De novo no automóvel perguntarei se queres
Me dirás que hoje não, amanhã tens filmagem
Fazes a cigarreira num clube de má fama
E há uma cena em que vendes um maço a George Raft.
Telegrafar-te-ei então uma orquídea sexuada
No escritório esperarei que tomes sal de frutas
Vem-te um súbito desejo de comida italiana
Mas queres deitar cedo, tens uma dor de cabeça!
À porta de tua casa perguntarei se queres
Me dirás que hoje não, vais ficar dodói mais tarde
De longe acenarás um adeus sutilíssimo
Ao constatares que estou com a bateria gasta.
Dia seguinte esperarei com o rádio do carro aberto
Te chamando mentalmente de galinha e outros nomes
Virás então dizer que tens comida em casa
De avental abrirei latas e enxugarei pratos.
Tua mãe perguntará se há muito que sou casado
Direi que há cinco anos e ela fica calada
Mas como somos moços, precisamos divertir-nos
Sairemos de automóvel para uma volta rápida.
No alto de uma colina perguntar-te-ei se queres
Me dirás que nada feito, estás com uma dor do lado
Nervoso meus cigarros se fumarão sozinhos
E acabo machucando os dedos na tua cinta.
Dia seguinte vens com um suéter elástico
Sapatos mocassim e meia curta vermelha
Te levo pra dançar um ligeiro jitterbug
Teus vinte deixam os meus trinta e pouco cansados.
Na saída te vem um desejo de boliche
Jogas na perfeição, flertando o moço ao lado
Dás o telefone a ele e perguntas se me importo
Finjo que não me importo e dou saída no carro.
Estás louca para tomar uma coca gelada
Debruças-te sobre mim e me mordes o pescoço
Passo de leve a mão no teu joelho ossudo
Perdido de repente numa grande piedade.
Depois pergunto se queres ir ao meu apartamento
Me matas a pergunta com um beijo apaixonado
Dou um soco na perna e aperto o acelerador
Finges-te de assustada e falas que dirijo bem.
Que é daquele perfume que eu te tinha prometido?
Compro o Chanel 5 e acrescento um bilhete gentil
“Hoje vou lhe pagar um jantar de vinte dólares
E se ela não quiser, juro que não me responsabilizo...”
Vens cheirando a lilás e com saltos, meu Deus, tão altos
Que eu fico lá embaixo e com um ar avacalhado
Dás ordens ao garçom de caviar e champanha
Depois arrotas de leve me dizendo I beg your pardon.
No carro distraído deixo a mão na tua perna
Depois vou te levando para o alto de um morro
Em cima tiro o anel, quero casar contigo
Dizes que só acedes depois do meu divórcio.
Balbucio palavras desconexas e esdrúxulas
Quero romper-te a blusa e mastigar-te a cara
Não tens medo nenhum dos meus loucos arroubos
E me destroncas o dedo com um golpe de jiu-jítsu.
Depois tiras da bolsa uma caixa de goma
E mascas furiosamente dizendo barbaridades
Que é que eu penso que és, se não tenho vergonha
De fazer tais propostas a uma moça solteira.
Balbucio uma desculpa e digo que estava pensando...
Falas que eu pense menos e me fazes um agrado
Me pedes um cigarro e riscas o fósforo com a unha
E eu fico boquiaberto diante de tanta habilidade.
Me pedes para te levar a comer uma salada
Mas de súbito me vem uma consciência estranha
Vejo-te como uma cabra pastando sobre mim
E odeio-te de ruminares assim a minha carne.
Então fico possesso, dou-te um murro na cara
Destruo-te a carótida a violentas dentadas
Ordenho-te até o sangue escorrer entre meu dedos
E te possuo assim, morta e desfigurada.
Depois arrependido choro sobre o teu corpo
E te enterro numa vala, minha pobre namorada...
Fujo mas me descobrem por um fio de cabelo
E seis meses depois morro na câmara de gás.
1 384
1
Vinicius de Moraes
História Passional, Hollywood, Califórnia
Preliminarmente, telegrafar-te-ei uma dúzia de rosas
Depois te levarei a comer um shop-suey
Se a tarde também for loura abriremos a capota
Teus cabelos ao vento marcarão oitenta milhas.
Dar-me-ás um beijo com batom marca indelével
E eu pegarei tua coxa rija como a madeira
Sorrirás para mim e eu porei óculos escuros
Ante o brilho de teus dois mil dentes de esmalte.
Mascaremos cada um uma caixa de goma
E iremos ao Chinese cheirando a hortelã-pimenta
A cabeça no meu ombro sonharás duas horas
Enquanto eu me divirto no teu seio de arame.
De novo no automóvel perguntarei se queres
Me dirás que tem tempo e me darás um abraço
Tua fome reclama uma salada mista
Verei teu rosto através do suco de tomate.
Te ajudarei cavalheiro com o abrigo de chinchila
Na saída constatarei tuas nylon 57
Ao andares, algo em ti range em dó sustenido
Pelo andar em que vais sei que queres dançar rumba.
Beberás vinte uísques e ficarás mais terna
Dançando sentirei tuas pernas entre as minhas
Cheirarás levemente a cachorro lavado
Possuis cem rotações de quadris por minuto.
De novo no automóvel perguntarei se queres
Me dirás que hoje não, amanhã tens filmagem
Fazes a cigarreira num clube de má fama
E há uma cena em que vendes um maço a George Raft.
Telegrafar-te-ei então uma orquídea sexuada
No escritório esperarei que tomes sal de frutas
Vem-te um súbito desejo de comida italiana
Mas queres deitar cedo, tens uma dor de cabeça!
À porta de tua casa perguntarei se queres
Me dirás que hoje não, vais ficar dodói mais tarde
De longe acenarás um adeus sutilíssimo
Ao constatares que estou com a bateria gasta.
Dia seguinte esperarei com o rádio do carro aberto
Te chamando mentalmente de galinha e outros nomes
Virás então dizer que tens comida em casa
De avental abrirei latas e enxugarei pratos.
Tua mãe perguntará se há muito que sou casado
Direi que há cinco anos e ela fica calada
Mas como somos moços, precisamos divertir-nos
Sairemos de automóvel para uma volta rápida.
No alto de uma colina perguntar-te-ei se queres
Me dirás que nada feito, estás com uma dor do lado
Nervoso meus cigarros se fumarão sozinhos
E acabo machucando os dedos na tua cinta.
Dia seguinte vens com um suéter elástico
Sapatos mocassim e meia curta vermelha
Te levo pra dançar um ligeiro jitterbug
Teus vinte deixam os meus trinta e pouco cansados.
Na saída te vem um desejo de boliche
Jogas na perfeição, flertando o moço ao lado
Dás o telefone a ele e perguntas se me importo
Finjo que não me importo e dou saída no carro.
Estás louca para tomar uma coca gelada
Debruças-te sobre mim e me mordes o pescoço
Passo de leve a mão no teu joelho ossudo
Perdido de repente numa grande piedade.
Depois pergunto se queres ir ao meu apartamento
Me matas a pergunta com um beijo apaixonado
Dou um soco na perna e aperto o acelerador
Finges-te de assustada e falas que dirijo bem.
Que é daquele perfume que eu te tinha prometido?
Compro o Chanel 5 e acrescento um bilhete gentil
“Hoje vou lhe pagar um jantar de vinte dólares
E se ela não quiser, juro que não me responsabilizo...”
Vens cheirando a lilás e com saltos, meu Deus, tão altos
Que eu fico lá embaixo e com um ar avacalhado
Dás ordens ao garçom de caviar e champanha
Depois arrotas de leve me dizendo I beg your pardon.
No carro distraído deixo a mão na tua perna
Depois vou te levando para o alto de um morro
Em cima tiro o anel, quero casar contigo
Dizes que só acedes depois do meu divórcio.
Balbucio palavras desconexas e esdrúxulas
Quero romper-te a blusa e mastigar-te a cara
Não tens medo nenhum dos meus loucos arroubos
E me destroncas o dedo com um golpe de jiu-jítsu.
Depois tiras da bolsa uma caixa de goma
E mascas furiosamente dizendo barbaridades
Que é que eu penso que és, se não tenho vergonha
De fazer tais propostas a uma moça solteira.
Balbucio uma desculpa e digo que estava pensando...
Falas que eu pense menos e me fazes um agrado
Me pedes um cigarro e riscas o fósforo com a unha
E eu fico boquiaberto diante de tanta habilidade.
Me pedes para te levar a comer uma salada
Mas de súbito me vem uma consciência estranha
Vejo-te como uma cabra pastando sobre mim
E odeio-te de ruminares assim a minha carne.
Então fico possesso, dou-te um murro na cara
Destruo-te a carótida a violentas dentadas
Ordenho-te até o sangue escorrer entre meu dedos
E te possuo assim, morta e desfigurada.
Depois arrependido choro sobre o teu corpo
E te enterro numa vala, minha pobre namorada...
Fujo mas me descobrem por um fio de cabelo
E seis meses depois morro na câmara de gás.
Depois te levarei a comer um shop-suey
Se a tarde também for loura abriremos a capota
Teus cabelos ao vento marcarão oitenta milhas.
Dar-me-ás um beijo com batom marca indelével
E eu pegarei tua coxa rija como a madeira
Sorrirás para mim e eu porei óculos escuros
Ante o brilho de teus dois mil dentes de esmalte.
Mascaremos cada um uma caixa de goma
E iremos ao Chinese cheirando a hortelã-pimenta
A cabeça no meu ombro sonharás duas horas
Enquanto eu me divirto no teu seio de arame.
De novo no automóvel perguntarei se queres
Me dirás que tem tempo e me darás um abraço
Tua fome reclama uma salada mista
Verei teu rosto através do suco de tomate.
Te ajudarei cavalheiro com o abrigo de chinchila
Na saída constatarei tuas nylon 57
Ao andares, algo em ti range em dó sustenido
Pelo andar em que vais sei que queres dançar rumba.
Beberás vinte uísques e ficarás mais terna
Dançando sentirei tuas pernas entre as minhas
Cheirarás levemente a cachorro lavado
Possuis cem rotações de quadris por minuto.
De novo no automóvel perguntarei se queres
Me dirás que hoje não, amanhã tens filmagem
Fazes a cigarreira num clube de má fama
E há uma cena em que vendes um maço a George Raft.
Telegrafar-te-ei então uma orquídea sexuada
No escritório esperarei que tomes sal de frutas
Vem-te um súbito desejo de comida italiana
Mas queres deitar cedo, tens uma dor de cabeça!
À porta de tua casa perguntarei se queres
Me dirás que hoje não, vais ficar dodói mais tarde
De longe acenarás um adeus sutilíssimo
Ao constatares que estou com a bateria gasta.
Dia seguinte esperarei com o rádio do carro aberto
Te chamando mentalmente de galinha e outros nomes
Virás então dizer que tens comida em casa
De avental abrirei latas e enxugarei pratos.
Tua mãe perguntará se há muito que sou casado
Direi que há cinco anos e ela fica calada
Mas como somos moços, precisamos divertir-nos
Sairemos de automóvel para uma volta rápida.
No alto de uma colina perguntar-te-ei se queres
Me dirás que nada feito, estás com uma dor do lado
Nervoso meus cigarros se fumarão sozinhos
E acabo machucando os dedos na tua cinta.
Dia seguinte vens com um suéter elástico
Sapatos mocassim e meia curta vermelha
Te levo pra dançar um ligeiro jitterbug
Teus vinte deixam os meus trinta e pouco cansados.
Na saída te vem um desejo de boliche
Jogas na perfeição, flertando o moço ao lado
Dás o telefone a ele e perguntas se me importo
Finjo que não me importo e dou saída no carro.
Estás louca para tomar uma coca gelada
Debruças-te sobre mim e me mordes o pescoço
Passo de leve a mão no teu joelho ossudo
Perdido de repente numa grande piedade.
Depois pergunto se queres ir ao meu apartamento
Me matas a pergunta com um beijo apaixonado
Dou um soco na perna e aperto o acelerador
Finges-te de assustada e falas que dirijo bem.
Que é daquele perfume que eu te tinha prometido?
Compro o Chanel 5 e acrescento um bilhete gentil
“Hoje vou lhe pagar um jantar de vinte dólares
E se ela não quiser, juro que não me responsabilizo...”
Vens cheirando a lilás e com saltos, meu Deus, tão altos
Que eu fico lá embaixo e com um ar avacalhado
Dás ordens ao garçom de caviar e champanha
Depois arrotas de leve me dizendo I beg your pardon.
No carro distraído deixo a mão na tua perna
Depois vou te levando para o alto de um morro
Em cima tiro o anel, quero casar contigo
Dizes que só acedes depois do meu divórcio.
Balbucio palavras desconexas e esdrúxulas
Quero romper-te a blusa e mastigar-te a cara
Não tens medo nenhum dos meus loucos arroubos
E me destroncas o dedo com um golpe de jiu-jítsu.
Depois tiras da bolsa uma caixa de goma
E mascas furiosamente dizendo barbaridades
Que é que eu penso que és, se não tenho vergonha
De fazer tais propostas a uma moça solteira.
Balbucio uma desculpa e digo que estava pensando...
Falas que eu pense menos e me fazes um agrado
Me pedes um cigarro e riscas o fósforo com a unha
E eu fico boquiaberto diante de tanta habilidade.
Me pedes para te levar a comer uma salada
Mas de súbito me vem uma consciência estranha
Vejo-te como uma cabra pastando sobre mim
E odeio-te de ruminares assim a minha carne.
Então fico possesso, dou-te um murro na cara
Destruo-te a carótida a violentas dentadas
Ordenho-te até o sangue escorrer entre meu dedos
E te possuo assim, morta e desfigurada.
Depois arrependido choro sobre o teu corpo
E te enterro numa vala, minha pobre namorada...
Fujo mas me descobrem por um fio de cabelo
E seis meses depois morro na câmara de gás.
1 384
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Vii. Difícil É Saber de Frente a Tua Morte
Difícil é saber de frente a tua morte
E não te esperar nunca mais nos espelhos da bruma
1979
E não te esperar nunca mais nos espelhos da bruma
1979
1 246
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Naquele Tempo
Sob o caramanchão de glicínia lilás
As abelhas e eu
Tontas de perfume
Lá no alto as abelhas
Doiradas e pequenas
Não se ocupavam de mim
Iam de flor em flor
E cá em baixo eu
Sentada no banco de azulejos
Entre penumbra e luz
Flor e perfume
Tão ávida como as abelhas
Abril de 98
As abelhas e eu
Tontas de perfume
Lá no alto as abelhas
Doiradas e pequenas
Não se ocupavam de mim
Iam de flor em flor
E cá em baixo eu
Sentada no banco de azulejos
Entre penumbra e luz
Flor e perfume
Tão ávida como as abelhas
Abril de 98
1 661
1
Pablo Neruda
Manhã - XI
Tenho fome de tua boca, de tua voz, de teu pelo,
e pelas ruas vou sem nutrir-me, calado,
não me sustenta o pão, a aurora me desequilibra,
busco o som líquido de teus pés no dia.
Estou faminto de teu riso resvalado,
de tuas mãos cor de furioso celeiro,
tenho fome da pálida pedra de tuas unhas,
quero comer tua pele como uma intacta amêndoa.
Quero comer o raio queimado em tua beleza,
o nariz soberano do arrogante rosto,
quero comer a sombra fugaz de tuas pestanas
e faminto venho e vou olfateando o crepúsculo
buscando-te, buscando teu coração ardente
como um puma na solidão de Quitratúe.
e pelas ruas vou sem nutrir-me, calado,
não me sustenta o pão, a aurora me desequilibra,
busco o som líquido de teus pés no dia.
Estou faminto de teu riso resvalado,
de tuas mãos cor de furioso celeiro,
tenho fome da pálida pedra de tuas unhas,
quero comer tua pele como uma intacta amêndoa.
Quero comer o raio queimado em tua beleza,
o nariz soberano do arrogante rosto,
quero comer a sombra fugaz de tuas pestanas
e faminto venho e vou olfateando o crepúsculo
buscando-te, buscando teu coração ardente
como um puma na solidão de Quitratúe.
1 335
1
Pablo Neruda
Manhã - XI
Tenho fome de tua boca, de tua voz, de teu pelo,
e pelas ruas vou sem nutrir-me, calado,
não me sustenta o pão, a aurora me desequilibra,
busco o som líquido de teus pés no dia.
Estou faminto de teu riso resvalado,
de tuas mãos cor de furioso celeiro,
tenho fome da pálida pedra de tuas unhas,
quero comer tua pele como uma intacta amêndoa.
Quero comer o raio queimado em tua beleza,
o nariz soberano do arrogante rosto,
quero comer a sombra fugaz de tuas pestanas
e faminto venho e vou olfateando o crepúsculo
buscando-te, buscando teu coração ardente
como um puma na solidão de Quitratúe.
e pelas ruas vou sem nutrir-me, calado,
não me sustenta o pão, a aurora me desequilibra,
busco o som líquido de teus pés no dia.
Estou faminto de teu riso resvalado,
de tuas mãos cor de furioso celeiro,
tenho fome da pálida pedra de tuas unhas,
quero comer tua pele como uma intacta amêndoa.
Quero comer o raio queimado em tua beleza,
o nariz soberano do arrogante rosto,
quero comer a sombra fugaz de tuas pestanas
e faminto venho e vou olfateando o crepúsculo
buscando-te, buscando teu coração ardente
como um puma na solidão de Quitratúe.
1 335
1