Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Fernando Py
Sextina 2
A Cyro Pimentel
A vida me anoitece
de sofrê-la no açoite
e vivê-la vazio
da beleza que a tece
— mudo me faço e noite
cego surdo e sombrio.
O futuro é sombrio
quando a alma anoitece
e me engolfo na noite
e me entrego ao açoite
— voltas que a vida tece
nesse abismo vazio.
De coração vazio
escondo-me em sombrio
casulo que me tece
a vida que anoitece
a alma ao pleno açoite
que me oferece a noite.
Faço-me a própria noite
e em minhalma o vazio
silêncio lembra o açoite
latejante sombrio
da idade que anoitece
— fiação que me tece.
Pois tudo que me tece
lembra a pedra da noite
no peito que anoitece
— a alma sente o vazio
desse peso sombrio
à maneira de açoite.
Claro nítido açoite
é o que a vida me tece
extraindo o sombrio
refugo dessa noite
— deixa na alma o vazio
do corpo que anoitece.
Este açoite anoitece
e me tece vazio
no sombrio da noite.
A vida me anoitece
de sofrê-la no açoite
e vivê-la vazio
da beleza que a tece
— mudo me faço e noite
cego surdo e sombrio.
O futuro é sombrio
quando a alma anoitece
e me engolfo na noite
e me entrego ao açoite
— voltas que a vida tece
nesse abismo vazio.
De coração vazio
escondo-me em sombrio
casulo que me tece
a vida que anoitece
a alma ao pleno açoite
que me oferece a noite.
Faço-me a própria noite
e em minhalma o vazio
silêncio lembra o açoite
latejante sombrio
da idade que anoitece
— fiação que me tece.
Pois tudo que me tece
lembra a pedra da noite
no peito que anoitece
— a alma sente o vazio
desse peso sombrio
à maneira de açoite.
Claro nítido açoite
é o que a vida me tece
extraindo o sombrio
refugo dessa noite
— deixa na alma o vazio
do corpo que anoitece.
Este açoite anoitece
e me tece vazio
no sombrio da noite.
1 078
1
Júlio Maria dos Reis Pereira
Álcool, Fumo e Café
Não mais o álcool,
não mais o fumo,
de azulado rumo, nem o café.
Resta-me a fé
num áureo aprumo.
Não me consumo.
Sei como é.
Os nervos cansam
e vão partir-se.
A voz de Circe
ouço-a ainda...
E, mais mais linda,
ainda me chama
e, embora lama,
quero-lhe ainda.
Mas quero quietos
os meus sentidos,
comprometidos
em ascensões.
As sensações
hei de chamá-las,
purificá-las
com comunhões.
Resto sedento,
desalentado...
Quem a meu lado
no funeral?
Negro portal
hei de quebrá-lo.
Cantar o galo
sobre o covalo.
(As mãos daquela
que se dizia
tão minha amiga
já se sumiram
Vagas sorriram
outras derrotas
Ignotas rotas
as poluíram
E as tardes brancas
hei de esposá-las.
Não quero galas
na minha boda.
Bailem em roda
só as crianças
ingênuas danças
à sua moda.
Se um homem cumpre
o seu destino,
não vão sem tino
mexer na obra.
É como a cobra
que fere o seio
quem, de permeio,
altera a nota.
De qualquer forma
siga o meu rumo,
num áureo aprumo,
cheio de fé.
Sem o café,
sem o tabaco,
cortar o opaco
sei como é.
não mais o fumo,
de azulado rumo, nem o café.
Resta-me a fé
num áureo aprumo.
Não me consumo.
Sei como é.
Os nervos cansam
e vão partir-se.
A voz de Circe
ouço-a ainda...
E, mais mais linda,
ainda me chama
e, embora lama,
quero-lhe ainda.
Mas quero quietos
os meus sentidos,
comprometidos
em ascensões.
As sensações
hei de chamá-las,
purificá-las
com comunhões.
Resto sedento,
desalentado...
Quem a meu lado
no funeral?
Negro portal
hei de quebrá-lo.
Cantar o galo
sobre o covalo.
(As mãos daquela
que se dizia
tão minha amiga
já se sumiram
Vagas sorriram
outras derrotas
Ignotas rotas
as poluíram
E as tardes brancas
hei de esposá-las.
Não quero galas
na minha boda.
Bailem em roda
só as crianças
ingênuas danças
à sua moda.
Se um homem cumpre
o seu destino,
não vão sem tino
mexer na obra.
É como a cobra
que fere o seio
quem, de permeio,
altera a nota.
De qualquer forma
siga o meu rumo,
num áureo aprumo,
cheio de fé.
Sem o café,
sem o tabaco,
cortar o opaco
sei como é.
1 249
1
Roberval Pereyr
Nenhum e Seis
sou da noite minhas unhas crescem
na noite, inventei um destino
na noite:
uma banda do ser interditada
a outra na festa,
às vezers pergunto: quem sou?
trago manchas de enigmas na pele,
dou um salto mortal dentro de mim
e não sei se escapo:
pois há os que caem.
há os que não levantam.
há os que perdem em complicado jogo
a terra natal.
a minha terra era eu mesmo:
hoje, sou uma dívida.
a quem me hei de pagar?
na noite, inventei um destino
na noite:
uma banda do ser interditada
a outra na festa,
às vezers pergunto: quem sou?
trago manchas de enigmas na pele,
dou um salto mortal dentro de mim
e não sei se escapo:
pois há os que caem.
há os que não levantam.
há os que perdem em complicado jogo
a terra natal.
a minha terra era eu mesmo:
hoje, sou uma dívida.
a quem me hei de pagar?
1 053
1
Roberval Pereyr
Nenhum e Seis
sou da noite minhas unhas crescem
na noite, inventei um destino
na noite:
uma banda do ser interditada
a outra na festa,
às vezers pergunto: quem sou?
trago manchas de enigmas na pele,
dou um salto mortal dentro de mim
e não sei se escapo:
pois há os que caem.
há os que não levantam.
há os que perdem em complicado jogo
a terra natal.
a minha terra era eu mesmo:
hoje, sou uma dívida.
a quem me hei de pagar?
na noite, inventei um destino
na noite:
uma banda do ser interditada
a outra na festa,
às vezers pergunto: quem sou?
trago manchas de enigmas na pele,
dou um salto mortal dentro de mim
e não sei se escapo:
pois há os que caem.
há os que não levantam.
há os que perdem em complicado jogo
a terra natal.
a minha terra era eu mesmo:
hoje, sou uma dívida.
a quem me hei de pagar?
1 053
1
Maria Manuela Margarido
Memória da Ilha do Príncipe
Mãe, tu pegavas charroco
nas águas das ribeiras
a caminho da praia.
Teus cabelos eram lembas-lembas,
agora distantes e saudosas,
mas teu rosto escuro
desce sobre mim.
Teu rosto, liliácea
irrompendo entre o cacau,
perfumando com a sua sombra
o instante em que te descubro
no fundo das bocas graves.
Tua mão cor-de-laranja
oscila no céu de zinco
e fixa a saudade
com uns grandes olhos taciturnos.
(No sonho do Pico as mangas percorrem a órbita lenta
das orações dos ocãs e todas as feiticeiras desertam
a caminho do mal, entre a doçura das palmas).
Na varanda de marapião
os veios da madeira guardam
a marca dos teus pés leves
e lentos e suaves e próximos.
E ambas nos lançamos
nas grandes flores de ébano
que crescem na água cálida
das vozes clarividentes.
nas águas das ribeiras
a caminho da praia.
Teus cabelos eram lembas-lembas,
agora distantes e saudosas,
mas teu rosto escuro
desce sobre mim.
Teu rosto, liliácea
irrompendo entre o cacau,
perfumando com a sua sombra
o instante em que te descubro
no fundo das bocas graves.
Tua mão cor-de-laranja
oscila no céu de zinco
e fixa a saudade
com uns grandes olhos taciturnos.
(No sonho do Pico as mangas percorrem a órbita lenta
das orações dos ocãs e todas as feiticeiras desertam
a caminho do mal, entre a doçura das palmas).
Na varanda de marapião
os veios da madeira guardam
a marca dos teus pés leves
e lentos e suaves e próximos.
E ambas nos lançamos
nas grandes flores de ébano
que crescem na água cálida
das vozes clarividentes.
3 814
1
Marly Vasconcelos
Silêncio
Atenta para a água que ressoa nos aquários,
o caminhar de passos harmoniosos,
pálpebras que baixam lentamente.
Tudo prenuncia o silêncio.
o caminhar de passos harmoniosos,
pálpebras que baixam lentamente.
Tudo prenuncia o silêncio.
1 035
1
Orlando Teixeira
Paisagem Espiritual
Abro as portas do Sonho, alvas de mármore, e entro.
Entro o páramo azul do meu sonho bendito:
Um misticismo bom e suave como um rito,
Avesso ao mundo, avesso ao mal, paira lá dentro.
Ela em tudo, Ela em toda a parte, ansioso fito,
Em cima, em baixo, além, adiante, atrás, no centro;
Essa em quem todos os meus afetos concentro,
Nossa Senhora do meu amor infinito.
Ela e este grande amor com que os dias iludo,
Tudo vive no quadro assombroso, onde a imagem
Do estranho deus avulta e os fiéis ao culto chama;
Tudo de luz se inunda, e, dominando tudo,
Cheio da própria luz, sobressai na paisagem,
O correto perfil dessa que me não ama.
Entro o páramo azul do meu sonho bendito:
Um misticismo bom e suave como um rito,
Avesso ao mundo, avesso ao mal, paira lá dentro.
Ela em tudo, Ela em toda a parte, ansioso fito,
Em cima, em baixo, além, adiante, atrás, no centro;
Essa em quem todos os meus afetos concentro,
Nossa Senhora do meu amor infinito.
Ela e este grande amor com que os dias iludo,
Tudo vive no quadro assombroso, onde a imagem
Do estranho deus avulta e os fiéis ao culto chama;
Tudo de luz se inunda, e, dominando tudo,
Cheio da própria luz, sobressai na paisagem,
O correto perfil dessa que me não ama.
1 177
1
Natalício Barroso
Mais um Poema de Amor para a Mulher Novamente Amada
A mulher amada tinha cabelos longos que desciam pela vertente dos ombros;
escorriam rápidos a tortuosos até a ponta dos seios
e se espalhavam ao redor da ansiedade.
Estes eram os cabelos da mulher amada.
Eles ficavam volumosos, quando se enchiam de amor,
e caíam como uma ducha sobre os corpos cansados.
Mas onde está a mulher amada?
Para onde a levaram? E porque a esconderam de mim?
Eu a tinha visto com os seios nuns
e os olhos tão ferozes quanto os de uma loba no cio.
As unhas eram longas, como se ela quisesse dilacerar alguém,
mas o púbis, deliciosamente acarinhado, se umedecia de
compaixão.
Mas para onde levaram a mulher amada?
Para que tipo de vida, mais apaixonante do que a minha, a levaram?
E porque a levaram?
As minhas horas estão vazias
como as noites solitárias num quarto de dormir.
Elas parecem as mesmas
mas o homem não é mais o mesmo.
Ele é apenas a janela do quarto aberta
para um pátio onde a lua brilha para seus olhos fechados.
Nada mais.
escorriam rápidos a tortuosos até a ponta dos seios
e se espalhavam ao redor da ansiedade.
Estes eram os cabelos da mulher amada.
Eles ficavam volumosos, quando se enchiam de amor,
e caíam como uma ducha sobre os corpos cansados.
Mas onde está a mulher amada?
Para onde a levaram? E porque a esconderam de mim?
Eu a tinha visto com os seios nuns
e os olhos tão ferozes quanto os de uma loba no cio.
As unhas eram longas, como se ela quisesse dilacerar alguém,
mas o púbis, deliciosamente acarinhado, se umedecia de
compaixão.
Mas para onde levaram a mulher amada?
Para que tipo de vida, mais apaixonante do que a minha, a levaram?
E porque a levaram?
As minhas horas estão vazias
como as noites solitárias num quarto de dormir.
Elas parecem as mesmas
mas o homem não é mais o mesmo.
Ele é apenas a janela do quarto aberta
para um pátio onde a lua brilha para seus olhos fechados.
Nada mais.
1 693
1
Natalício Barroso
Mais um Poema de Amor para a Mulher Novamente Amada
A mulher amada tinha cabelos longos que desciam pela vertente dos ombros;
escorriam rápidos a tortuosos até a ponta dos seios
e se espalhavam ao redor da ansiedade.
Estes eram os cabelos da mulher amada.
Eles ficavam volumosos, quando se enchiam de amor,
e caíam como uma ducha sobre os corpos cansados.
Mas onde está a mulher amada?
Para onde a levaram? E porque a esconderam de mim?
Eu a tinha visto com os seios nuns
e os olhos tão ferozes quanto os de uma loba no cio.
As unhas eram longas, como se ela quisesse dilacerar alguém,
mas o púbis, deliciosamente acarinhado, se umedecia de
compaixão.
Mas para onde levaram a mulher amada?
Para que tipo de vida, mais apaixonante do que a minha, a levaram?
E porque a levaram?
As minhas horas estão vazias
como as noites solitárias num quarto de dormir.
Elas parecem as mesmas
mas o homem não é mais o mesmo.
Ele é apenas a janela do quarto aberta
para um pátio onde a lua brilha para seus olhos fechados.
Nada mais.
escorriam rápidos a tortuosos até a ponta dos seios
e se espalhavam ao redor da ansiedade.
Estes eram os cabelos da mulher amada.
Eles ficavam volumosos, quando se enchiam de amor,
e caíam como uma ducha sobre os corpos cansados.
Mas onde está a mulher amada?
Para onde a levaram? E porque a esconderam de mim?
Eu a tinha visto com os seios nuns
e os olhos tão ferozes quanto os de uma loba no cio.
As unhas eram longas, como se ela quisesse dilacerar alguém,
mas o púbis, deliciosamente acarinhado, se umedecia de
compaixão.
Mas para onde levaram a mulher amada?
Para que tipo de vida, mais apaixonante do que a minha, a levaram?
E porque a levaram?
As minhas horas estão vazias
como as noites solitárias num quarto de dormir.
Elas parecem as mesmas
mas o homem não é mais o mesmo.
Ele é apenas a janela do quarto aberta
para um pátio onde a lua brilha para seus olhos fechados.
Nada mais.
1 693
1
Natalício Barroso
Mais um Poema de Amor para a Mulher Novamente Amada
A mulher amada tinha cabelos longos que desciam pela vertente dos ombros;
escorriam rápidos a tortuosos até a ponta dos seios
e se espalhavam ao redor da ansiedade.
Estes eram os cabelos da mulher amada.
Eles ficavam volumosos, quando se enchiam de amor,
e caíam como uma ducha sobre os corpos cansados.
Mas onde está a mulher amada?
Para onde a levaram? E porque a esconderam de mim?
Eu a tinha visto com os seios nuns
e os olhos tão ferozes quanto os de uma loba no cio.
As unhas eram longas, como se ela quisesse dilacerar alguém,
mas o púbis, deliciosamente acarinhado, se umedecia de
compaixão.
Mas para onde levaram a mulher amada?
Para que tipo de vida, mais apaixonante do que a minha, a levaram?
E porque a levaram?
As minhas horas estão vazias
como as noites solitárias num quarto de dormir.
Elas parecem as mesmas
mas o homem não é mais o mesmo.
Ele é apenas a janela do quarto aberta
para um pátio onde a lua brilha para seus olhos fechados.
Nada mais.
escorriam rápidos a tortuosos até a ponta dos seios
e se espalhavam ao redor da ansiedade.
Estes eram os cabelos da mulher amada.
Eles ficavam volumosos, quando se enchiam de amor,
e caíam como uma ducha sobre os corpos cansados.
Mas onde está a mulher amada?
Para onde a levaram? E porque a esconderam de mim?
Eu a tinha visto com os seios nuns
e os olhos tão ferozes quanto os de uma loba no cio.
As unhas eram longas, como se ela quisesse dilacerar alguém,
mas o púbis, deliciosamente acarinhado, se umedecia de
compaixão.
Mas para onde levaram a mulher amada?
Para que tipo de vida, mais apaixonante do que a minha, a levaram?
E porque a levaram?
As minhas horas estão vazias
como as noites solitárias num quarto de dormir.
Elas parecem as mesmas
mas o homem não é mais o mesmo.
Ele é apenas a janela do quarto aberta
para um pátio onde a lua brilha para seus olhos fechados.
Nada mais.
1 693
1
Osvaldo Alcântara
Ressaca
Venham todas as vozes, todos os ruídos e todos os gritos
venham os silêncios compadecidos e também os silêncios satisfeitos;
venham todas as coisas que não consigo ver na superfície da sociedade dos homens;
venham todas as areias, lodos, fragmentos de rocha
que a sonda recolhe nos oceanos navegáveis;
venham os sermões daqueles que não têm medo do destino das suas palavras
venha a resposta captada por aqueles que dispõem de aparelhos detetores apropriados;
volte tudo ao ponto de partida,
e venham as odes dos poetas,
casem-se os poetas com a respiração do mundo;
venham todos de braço dado na ronda dos pecadores,
que as criaturas se façam criadores
venha tudo o que sinto que é verdade
além do círculo embaciado da vidraça...
Eu estarei de mãos postas, à espera do tesouro que me vem na onda do mar...
A minha principal certeza é o chão em que se amachucam os meus joelhos doloridos,
mas todos os que vierem me encontrarão agitando a minha lanterna de todas as cores
na linha de todas as batalhas.
venham os silêncios compadecidos e também os silêncios satisfeitos;
venham todas as coisas que não consigo ver na superfície da sociedade dos homens;
venham todas as areias, lodos, fragmentos de rocha
que a sonda recolhe nos oceanos navegáveis;
venham os sermões daqueles que não têm medo do destino das suas palavras
venha a resposta captada por aqueles que dispõem de aparelhos detetores apropriados;
volte tudo ao ponto de partida,
e venham as odes dos poetas,
casem-se os poetas com a respiração do mundo;
venham todos de braço dado na ronda dos pecadores,
que as criaturas se façam criadores
venha tudo o que sinto que é verdade
além do círculo embaciado da vidraça...
Eu estarei de mãos postas, à espera do tesouro que me vem na onda do mar...
A minha principal certeza é o chão em que se amachucam os meus joelhos doloridos,
mas todos os que vierem me encontrarão agitando a minha lanterna de todas as cores
na linha de todas as batalhas.
3 529
1
Joaquim Namorado
Cantar de Amigo
Eu e tu: milhões!…
Entre nós — perto ou longe!
— entre nós rios e mares
montanhas e cordilheiras…
Eu e tu perdidos
nesta distância sem fim do desconhecido.
Eu e tu unidos
para além das cordilheiras
por sobre mares de diferença
na comunhão de nossos destinos confundidos
— a minha e a tua vida
correndo para a confluência
num mesmo Norte.
Eu e tu amassados
nesta angútia que é de nós,
minha e tua,
e mais do que de nós…
Eu e tu
carne do mesmo corpo
amor do mesmo amor
sangue do mesmo sacrificio!
Eu e tu
elos da mesma cadeia
grãos da mesma seara
pedras da mesma muralha!
Eu e tu, que não sei quem és.
Que não sabes quem sou:
— Eu e tu: Amigo! Milhões…
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
Entre nós — perto ou longe!
— entre nós rios e mares
montanhas e cordilheiras…
Eu e tu perdidos
nesta distância sem fim do desconhecido.
Eu e tu unidos
para além das cordilheiras
por sobre mares de diferença
na comunhão de nossos destinos confundidos
— a minha e a tua vida
correndo para a confluência
num mesmo Norte.
Eu e tu amassados
nesta angútia que é de nós,
minha e tua,
e mais do que de nós…
Eu e tu
carne do mesmo corpo
amor do mesmo amor
sangue do mesmo sacrificio!
Eu e tu
elos da mesma cadeia
grãos da mesma seara
pedras da mesma muralha!
Eu e tu, que não sei quem és.
Que não sabes quem sou:
— Eu e tu: Amigo! Milhões…
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
2 635
1
Oliveira Neto
O Parnaíba
Águas turvas, imenso, vagaroso,
O Parnaíba desce para o mar.
Qual um molusco, lerdo, preguiçoso,
parece sem vontade de chegar!
Sereno, vai andando, majestoso,
o aguaceiro barrento a deslizar...
E nas margens um bando vaporoso
de garças cor de neve a esvoaçar...
Ó velho Parnaíba dos poetas!
O progresso mudou o teu destino
e te deu novas e importantes metas!
És portador de um mundo de esperanças
E o povo do Nordeste canta o hino
do sonhado futuro de bonanças...
O Parnaíba desce para o mar.
Qual um molusco, lerdo, preguiçoso,
parece sem vontade de chegar!
Sereno, vai andando, majestoso,
o aguaceiro barrento a deslizar...
E nas margens um bando vaporoso
de garças cor de neve a esvoaçar...
Ó velho Parnaíba dos poetas!
O progresso mudou o teu destino
e te deu novas e importantes metas!
És portador de um mundo de esperanças
E o povo do Nordeste canta o hino
do sonhado futuro de bonanças...
1 911
1
Milena Azevedo
Tributo aos 4 rapazes de Liverpool
Apenas os quatro
pintados num retrato
que pela vida tocaram
e deixaram seu rastro.
Canções que falam de paz e amor
foram um furor
fizeram a cabeça de multidões
e corações de várias gerações.
Foram simples rapazes
que com sua sagacidade
e força de vontade
conquistaram a humanidade.
Foi um João, um Paulo,
um George e um Ringo.
Foram simples jovens que cantaram
em uma só voz e mostraram
que vale a pena sonhar!
pintados num retrato
que pela vida tocaram
e deixaram seu rastro.
Canções que falam de paz e amor
foram um furor
fizeram a cabeça de multidões
e corações de várias gerações.
Foram simples rapazes
que com sua sagacidade
e força de vontade
conquistaram a humanidade.
Foi um João, um Paulo,
um George e um Ringo.
Foram simples jovens que cantaram
em uma só voz e mostraram
que vale a pena sonhar!
774
1
Manuel Sérgio
Senhor
Senhor
Quando eu morrer
(De tanto viver)
Coloca-me
Entre os que não
Te conheceram
E Te procuraram
De olhos magoados
Como pedaços da tarde
Entre os náufragos perdidos
Na cerração
Da vida
Coloca-me
Ao lado dos que foram pisados
Como as pedras da rua
E desprezados
No meio de armas e silêncios
E mesmo assim
Junto às margens de um cais
Foram esperando
Com marcas de certezas na alma
Como rastos de pés na areia
Senhor
Eu que abraço
Como quem Te comunga
Que não sei bater
A não ser
Com látegos feitos da luz da lua
Que mantenho os mesmos olhos de criança
Para ver diferente
Senhor
Sou por certo dos Teus
Senhor
Eu que em espaços úmidos
De ternura incorrupta
Beijei seios túmidos
E lábios
Que eram flores vermelhas ofegantes
Que me desfiz em mil acenos
A chamar
Senhor
Sou por certo dos Teus
Mas nem assim hesites um só instante
Em colocar-me
Ao lado dos que não Te conheceram
E Te procuraram
E deixa-me continuar
O mensageiro inquieto
Da Esperança perseguida
Inventada
E por uma grande coragem
Fecundada
Quando eu morrer
(De tanto viver)
Coloca-me
Entre os que não
Te conheceram
E Te procuraram
De olhos magoados
Como pedaços da tarde
Entre os náufragos perdidos
Na cerração
Da vida
Coloca-me
Ao lado dos que foram pisados
Como as pedras da rua
E desprezados
No meio de armas e silêncios
E mesmo assim
Junto às margens de um cais
Foram esperando
Com marcas de certezas na alma
Como rastos de pés na areia
Senhor
Eu que abraço
Como quem Te comunga
Que não sei bater
A não ser
Com látegos feitos da luz da lua
Que mantenho os mesmos olhos de criança
Para ver diferente
Senhor
Sou por certo dos Teus
Senhor
Eu que em espaços úmidos
De ternura incorrupta
Beijei seios túmidos
E lábios
Que eram flores vermelhas ofegantes
Que me desfiz em mil acenos
A chamar
Senhor
Sou por certo dos Teus
Mas nem assim hesites um só instante
Em colocar-me
Ao lado dos que não Te conheceram
E Te procuraram
E deixa-me continuar
O mensageiro inquieto
Da Esperança perseguida
Inventada
E por uma grande coragem
Fecundada
885
1
Manuel Sérgio
Senhor
Senhor
Quando eu morrer
(De tanto viver)
Coloca-me
Entre os que não
Te conheceram
E Te procuraram
De olhos magoados
Como pedaços da tarde
Entre os náufragos perdidos
Na cerração
Da vida
Coloca-me
Ao lado dos que foram pisados
Como as pedras da rua
E desprezados
No meio de armas e silêncios
E mesmo assim
Junto às margens de um cais
Foram esperando
Com marcas de certezas na alma
Como rastos de pés na areia
Senhor
Eu que abraço
Como quem Te comunga
Que não sei bater
A não ser
Com látegos feitos da luz da lua
Que mantenho os mesmos olhos de criança
Para ver diferente
Senhor
Sou por certo dos Teus
Senhor
Eu que em espaços úmidos
De ternura incorrupta
Beijei seios túmidos
E lábios
Que eram flores vermelhas ofegantes
Que me desfiz em mil acenos
A chamar
Senhor
Sou por certo dos Teus
Mas nem assim hesites um só instante
Em colocar-me
Ao lado dos que não Te conheceram
E Te procuraram
E deixa-me continuar
O mensageiro inquieto
Da Esperança perseguida
Inventada
E por uma grande coragem
Fecundada
Quando eu morrer
(De tanto viver)
Coloca-me
Entre os que não
Te conheceram
E Te procuraram
De olhos magoados
Como pedaços da tarde
Entre os náufragos perdidos
Na cerração
Da vida
Coloca-me
Ao lado dos que foram pisados
Como as pedras da rua
E desprezados
No meio de armas e silêncios
E mesmo assim
Junto às margens de um cais
Foram esperando
Com marcas de certezas na alma
Como rastos de pés na areia
Senhor
Eu que abraço
Como quem Te comunga
Que não sei bater
A não ser
Com látegos feitos da luz da lua
Que mantenho os mesmos olhos de criança
Para ver diferente
Senhor
Sou por certo dos Teus
Senhor
Eu que em espaços úmidos
De ternura incorrupta
Beijei seios túmidos
E lábios
Que eram flores vermelhas ofegantes
Que me desfiz em mil acenos
A chamar
Senhor
Sou por certo dos Teus
Mas nem assim hesites um só instante
Em colocar-me
Ao lado dos que não Te conheceram
E Te procuraram
E deixa-me continuar
O mensageiro inquieto
Da Esperança perseguida
Inventada
E por uma grande coragem
Fecundada
885
1
Marly de Oliveira
Pior que o cão é sua fúria
Pior que o cão é sua fúria,
pior que o gato é sua garra,
pior que a sanha de ferir
a que se esconde
sob feição de amor.
Pior que a vida é a não-vida
do que se faz espectador;
nem mergulha, nem nada, nem conhece
o mar fundo:
está sempre à beira da estrada.
pior que o gato é sua garra,
pior que a sanha de ferir
a que se esconde
sob feição de amor.
Pior que a vida é a não-vida
do que se faz espectador;
nem mergulha, nem nada, nem conhece
o mar fundo:
está sempre à beira da estrada.
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Mario Ribeiro Martins
Qual o Teu Nome?
Qual seria teu nome, por ventura?
Margarida? Nely? Linda? Consuelo?
Não sei. Porém, eu sei que em ti fulgura,
a expressão do melhor e do mais belo.
Oh! como tu estás formosa e pura,
dentro deste vestido tão singelo,
que mostra tua esplêndida cintura,
ao viajor, ao jovem do castelo.
Não me dizes, por certo, qual teu nome.
Por acaso, não te chamas Farida?
Não dizes? Também não te chamas Isis.
Neste meu peito existe uma ferida,
provocada por ti que não me dizes,
se tu és, de verdade, a MARGARIDA.
Margarida? Nely? Linda? Consuelo?
Não sei. Porém, eu sei que em ti fulgura,
a expressão do melhor e do mais belo.
Oh! como tu estás formosa e pura,
dentro deste vestido tão singelo,
que mostra tua esplêndida cintura,
ao viajor, ao jovem do castelo.
Não me dizes, por certo, qual teu nome.
Por acaso, não te chamas Farida?
Não dizes? Também não te chamas Isis.
Neste meu peito existe uma ferida,
provocada por ti que não me dizes,
se tu és, de verdade, a MARGARIDA.
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Marly de Oliveira
Parecia um pássaro
Parecia um pássaro, um frêmito
de folha, uma líbélula,
uma coisa evanescente
e volátil:
não era nada, um pensamento / de amor? /
que se ensaiou na sombra
e desapareceu qual rã.
de folha, uma líbélula,
uma coisa evanescente
e volátil:
não era nada, um pensamento / de amor? /
que se ensaiou na sombra
e desapareceu qual rã.
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Moreira Campos
Bruma
Chovia.
A pequena estação.
Meu acanhamento adolescente
diante do mal que consumia meu pai.
Quase como se pedisse desculpas,
me escusasse diante dos olhos curiosos
que lhe surpreendiam e seguiam a ruína.
Os grandes ossos a furar-lhe o paletó de brim,
a devastação da face,
o brilho febril de suas órbitas profundas.
O acesso de tosse,
a sua ânsia,
o lenço,
possivelmente manchado de vermelho.
A lembrança sobretudo do seu pobre e inútil guarda-chuva.
Deixava-o ali para a tentativa impossível de uma cura na serra.
Talvez sua mão (sua descarnada mão)
tivesse pousado de leve sobre a minha cabeça.
Sua última imagem se dilui
nas gotas dágua que caíam lentas do beiral da estação
(da pequena estação).
Restou-me de tudo, e para sempre,
a mágoa daquele acanhamento adolescente,
do meu vexame,
do meu quase pedido de desculpas aos curiosos.
Quando chegam as primeiras águas,
fragmento-me no tempo,
e sou bruma.
A pequena estação.
Meu acanhamento adolescente
diante do mal que consumia meu pai.
Quase como se pedisse desculpas,
me escusasse diante dos olhos curiosos
que lhe surpreendiam e seguiam a ruína.
Os grandes ossos a furar-lhe o paletó de brim,
a devastação da face,
o brilho febril de suas órbitas profundas.
O acesso de tosse,
a sua ânsia,
o lenço,
possivelmente manchado de vermelho.
A lembrança sobretudo do seu pobre e inútil guarda-chuva.
Deixava-o ali para a tentativa impossível de uma cura na serra.
Talvez sua mão (sua descarnada mão)
tivesse pousado de leve sobre a minha cabeça.
Sua última imagem se dilui
nas gotas dágua que caíam lentas do beiral da estação
(da pequena estação).
Restou-me de tudo, e para sempre,
a mágoa daquele acanhamento adolescente,
do meu vexame,
do meu quase pedido de desculpas aos curiosos.
Quando chegam as primeiras águas,
fragmento-me no tempo,
e sou bruma.
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Natércia Freire
Regresso
Quem é? Quem vem?
A porta não estacou
e todos pela mesa olham pasmados.
Só eu amimo a voz:
— Olhem quem vem! Reparem quem voltou!
Rolam silêncios fundos e pesados.
Imóvel no meu barco de luar,
os meus olhos venceram as ramadas.
Música longa... Um sino a palpitar.
Calçadas e calçadas...
Presépios com pastores de palmo e meio.
Velas que são faróis... Cresceu a bruma.
Deitem-me assim, num jeito de menina,
e envolvam-me de espuma.
— Olhem quem vem! Reparem quem voltou,
que tem os braços que eu gritei além!
— Vou com ele, não volto, minha Mãe!
Vou com ele nos uivos da tormenta,
com ele vou pregada na paixão.
Medo de quê? Oceanos azulados...
Medo de quê? Neblinas e canções...
— Dentro do Espaço adoçam-se pecados
e morrem solidões.
Sem braços me tomou na posse enorme.
Roçou-me os lábios, simples sem ter boca.
Ele é quem diz: — Sossega, dorme, dorme...
E nunca mais me toca!
As tardes, mesmo ao longo dos casais,
cegos: falas de gestos a ninguém...
Quem é? Quem vem?
Para sempre me tomou ...
— Vou com ele, não volto, minha Mãe!
A porta não estacou
e todos pela mesa olham pasmados.
Só eu amimo a voz:
— Olhem quem vem! Reparem quem voltou!
Rolam silêncios fundos e pesados.
Imóvel no meu barco de luar,
os meus olhos venceram as ramadas.
Música longa... Um sino a palpitar.
Calçadas e calçadas...
Presépios com pastores de palmo e meio.
Velas que são faróis... Cresceu a bruma.
Deitem-me assim, num jeito de menina,
e envolvam-me de espuma.
— Olhem quem vem! Reparem quem voltou,
que tem os braços que eu gritei além!
— Vou com ele, não volto, minha Mãe!
Vou com ele nos uivos da tormenta,
com ele vou pregada na paixão.
Medo de quê? Oceanos azulados...
Medo de quê? Neblinas e canções...
— Dentro do Espaço adoçam-se pecados
e morrem solidões.
Sem braços me tomou na posse enorme.
Roçou-me os lábios, simples sem ter boca.
Ele é quem diz: — Sossega, dorme, dorme...
E nunca mais me toca!
As tardes, mesmo ao longo dos casais,
cegos: falas de gestos a ninguém...
Quem é? Quem vem?
Para sempre me tomou ...
— Vou com ele, não volto, minha Mãe!
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Marly Vasconcelos
Medusa
Estamos ligados pelo tédio.
O parentesco que pode mais que a sensibilidade dos felinos,
o vento, o grito das flores,
a engrenagem dos algarismos.
Estamos ligados pelo tédio.
A terrível e impiedosa epidemia que se apossa da alma,
encurva a sombra dos meninos,
cega os que bordam as palavras.
O parentesco que pode mais que a sensibilidade dos felinos,
o vento, o grito das flores,
a engrenagem dos algarismos.
Estamos ligados pelo tédio.
A terrível e impiedosa epidemia que se apossa da alma,
encurva a sombra dos meninos,
cega os que bordam as palavras.
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Marly Vasconcelos
Medusa
Estamos ligados pelo tédio.
O parentesco que pode mais que a sensibilidade dos felinos,
o vento, o grito das flores,
a engrenagem dos algarismos.
Estamos ligados pelo tédio.
A terrível e impiedosa epidemia que se apossa da alma,
encurva a sombra dos meninos,
cega os que bordam as palavras.
O parentesco que pode mais que a sensibilidade dos felinos,
o vento, o grito das flores,
a engrenagem dos algarismos.
Estamos ligados pelo tédio.
A terrível e impiedosa epidemia que se apossa da alma,
encurva a sombra dos meninos,
cega os que bordam as palavras.
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