Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Nelly Sachs
Em vão
queimam as epístolas
na noite das noites
na fogueira da fuga
porque o amor se liberta de seu arbusto de espinhos
flagelado em martírio
e começa já com línguas de fogo
a beijar seu céu invisível
quando a vigília lança sombras sobre o muro
e o vento
trêmulo de presságios
com o nó de forca do perseguidor soprado ao vento
reza:
Espera
até que as letras retornem para casa
do deserto chamejante
e sejam alimento de santas bocas
Espera
até que a geologia espiritual do amor
se rache
e que seu tempo arda
e que incandescendo de bem-aventurados sinais
torne a encontrar seu verbo de criação:
lá sobre o papel
que canta a morrer:
Era
no princípio
Era
Amado
Era –
na noite das noites
na fogueira da fuga
porque o amor se liberta de seu arbusto de espinhos
flagelado em martírio
e começa já com línguas de fogo
a beijar seu céu invisível
quando a vigília lança sombras sobre o muro
e o vento
trêmulo de presságios
com o nó de forca do perseguidor soprado ao vento
reza:
Espera
até que as letras retornem para casa
do deserto chamejante
e sejam alimento de santas bocas
Espera
até que a geologia espiritual do amor
se rache
e que seu tempo arda
e que incandescendo de bem-aventurados sinais
torne a encontrar seu verbo de criação:
lá sobre o papel
que canta a morrer:
Era
no princípio
Era
Amado
Era –
794
Tomas Tranströmer
Nocturno
Conduzo por uma aldeia à noite, casas que saltam
diante das luzes – acordaram agora, querem beber um copo.
Casas, celeiros, placas de indicação, caminhos sem ninguém
regressam à vida. Seres humanos dormem:
alguns podem dormir em paz, outros têm rostos tensos
como num treino duro para a eternidade.
Não ousam deixar-se ir mesmo em sono solto.
Como cancelas baixas esperam enquanto o mistério vai desfilando.
A estrada passa uma longa temporada fora da cidade pela
floresta.
Árvores, árvores silentes num pacto entre elas.
Têm uma cor melodramática, como um incêndio.
Como é nítida cada uma das folhas. Seguem-me no caminho para casa.
Deito-me por ali para dormir, vejo imagens desconhecidas
e sinais esboçando-se atrás das pálpebras
no muro da escuridão. Pela ranhura entre a vigília e o sono
uma enorme letra esforça-se por entrar sem grande sucesso.
diante das luzes – acordaram agora, querem beber um copo.
Casas, celeiros, placas de indicação, caminhos sem ninguém
regressam à vida. Seres humanos dormem:
alguns podem dormir em paz, outros têm rostos tensos
como num treino duro para a eternidade.
Não ousam deixar-se ir mesmo em sono solto.
Como cancelas baixas esperam enquanto o mistério vai desfilando.
A estrada passa uma longa temporada fora da cidade pela
floresta.
Árvores, árvores silentes num pacto entre elas.
Têm uma cor melodramática, como um incêndio.
Como é nítida cada uma das folhas. Seguem-me no caminho para casa.
Deito-me por ali para dormir, vejo imagens desconhecidas
e sinais esboçando-se atrás das pálpebras
no muro da escuridão. Pela ranhura entre a vigília e o sono
uma enorme letra esforça-se por entrar sem grande sucesso.
775
Harry Martinson
Ajuste de contas
A folhagem vespertina do final do verão se
escurece, o vento caminha
com mocassins de nuvens pela ramagem do tempo.
Aproveites.
Se afugentas a melancolia, o tempo a entrega
em seu copo de plástico,
um cálice irreconhecível,
nova amargura sem sabor,
um frio desespero que se cola furtivamente
às tardes de tranquilizantes.
Devia ter ido a um balneário, tu dizes.
Devias ter fugido de ti mesmo a outro
homem, distinto.
Palavras vãs. Ainda que te apresses e saias
rapidamente,
perderás todos os teus trens,
cai o crepúsculo sem encanto, simplesmente
anoitece.
Por que abandonaste as dores que, no entanto,
tinham rostos próprios?
Não, querias ter coisas novas de todo
jei-to,
também os cadáveres deveriam ser novos,
mortos recém mortos.
Quando agora andas perdido, nem sequer sabes o
que é andar perdido,
teu vazio pesa
até ao ponto em que o avião tem
dificuldades para decolar.
Tu simplesmente segues perseguindo uma alegria
que desejas sem sombra.
Mas sem dores não há eixo ao qual ser fiel,
sem dores que lhe deem profundidade não há
verdadeiro mar,
só há uma borrifante prolongação até
o nada,
onde tu estás fazendo a cama vazia no
vazio.
Oh, se nos libertássemos de ti, vazio, que sempre
apareces abrindo caminho às cotoveladas,
de ti, coração do vazio, duro como uma pedra,
que unicamente comes alegria e com alegria
a consomes,
depois nada mais.
escurece, o vento caminha
com mocassins de nuvens pela ramagem do tempo.
Aproveites.
Se afugentas a melancolia, o tempo a entrega
em seu copo de plástico,
um cálice irreconhecível,
nova amargura sem sabor,
um frio desespero que se cola furtivamente
às tardes de tranquilizantes.
Devia ter ido a um balneário, tu dizes.
Devias ter fugido de ti mesmo a outro
homem, distinto.
Palavras vãs. Ainda que te apresses e saias
rapidamente,
perderás todos os teus trens,
cai o crepúsculo sem encanto, simplesmente
anoitece.
Por que abandonaste as dores que, no entanto,
tinham rostos próprios?
Não, querias ter coisas novas de todo
jei-to,
também os cadáveres deveriam ser novos,
mortos recém mortos.
Quando agora andas perdido, nem sequer sabes o
que é andar perdido,
teu vazio pesa
até ao ponto em que o avião tem
dificuldades para decolar.
Tu simplesmente segues perseguindo uma alegria
que desejas sem sombra.
Mas sem dores não há eixo ao qual ser fiel,
sem dores que lhe deem profundidade não há
verdadeiro mar,
só há uma borrifante prolongação até
o nada,
onde tu estás fazendo a cama vazia no
vazio.
Oh, se nos libertássemos de ti, vazio, que sempre
apareces abrindo caminho às cotoveladas,
de ti, coração do vazio, duro como uma pedra,
que unicamente comes alegria e com alegria
a consomes,
depois nada mais.
739
Harry Martinson
Ajuste de contas
A folhagem vespertina do final do verão se
escurece, o vento caminha
com mocassins de nuvens pela ramagem do tempo.
Aproveites.
Se afugentas a melancolia, o tempo a entrega
em seu copo de plástico,
um cálice irreconhecível,
nova amargura sem sabor,
um frio desespero que se cola furtivamente
às tardes de tranquilizantes.
Devia ter ido a um balneário, tu dizes.
Devias ter fugido de ti mesmo a outro
homem, distinto.
Palavras vãs. Ainda que te apresses e saias
rapidamente,
perderás todos os teus trens,
cai o crepúsculo sem encanto, simplesmente
anoitece.
Por que abandonaste as dores que, no entanto,
tinham rostos próprios?
Não, querias ter coisas novas de todo
jei-to,
também os cadáveres deveriam ser novos,
mortos recém mortos.
Quando agora andas perdido, nem sequer sabes o
que é andar perdido,
teu vazio pesa
até ao ponto em que o avião tem
dificuldades para decolar.
Tu simplesmente segues perseguindo uma alegria
que desejas sem sombra.
Mas sem dores não há eixo ao qual ser fiel,
sem dores que lhe deem profundidade não há
verdadeiro mar,
só há uma borrifante prolongação até
o nada,
onde tu estás fazendo a cama vazia no
vazio.
Oh, se nos libertássemos de ti, vazio, que sempre
apareces abrindo caminho às cotoveladas,
de ti, coração do vazio, duro como uma pedra,
que unicamente comes alegria e com alegria
a consomes,
depois nada mais.
escurece, o vento caminha
com mocassins de nuvens pela ramagem do tempo.
Aproveites.
Se afugentas a melancolia, o tempo a entrega
em seu copo de plástico,
um cálice irreconhecível,
nova amargura sem sabor,
um frio desespero que se cola furtivamente
às tardes de tranquilizantes.
Devia ter ido a um balneário, tu dizes.
Devias ter fugido de ti mesmo a outro
homem, distinto.
Palavras vãs. Ainda que te apresses e saias
rapidamente,
perderás todos os teus trens,
cai o crepúsculo sem encanto, simplesmente
anoitece.
Por que abandonaste as dores que, no entanto,
tinham rostos próprios?
Não, querias ter coisas novas de todo
jei-to,
também os cadáveres deveriam ser novos,
mortos recém mortos.
Quando agora andas perdido, nem sequer sabes o
que é andar perdido,
teu vazio pesa
até ao ponto em que o avião tem
dificuldades para decolar.
Tu simplesmente segues perseguindo uma alegria
que desejas sem sombra.
Mas sem dores não há eixo ao qual ser fiel,
sem dores que lhe deem profundidade não há
verdadeiro mar,
só há uma borrifante prolongação até
o nada,
onde tu estás fazendo a cama vazia no
vazio.
Oh, se nos libertássemos de ti, vazio, que sempre
apareces abrindo caminho às cotoveladas,
de ti, coração do vazio, duro como uma pedra,
que unicamente comes alegria e com alegria
a consomes,
depois nada mais.
739
Tomas Tranströmer
ELEGIA
Abro a primeira porta.
É uma sala enorme, repleta de sol.
Um camião passa na rua,
faz estremecer a porcelana.
Abro a segunda porta.
Amigos! bebestes da escuridão
e tornaste-vos visíveis.
Terceira porta. Um quarto estreito de hotel.
Vista sobre um beco.
Uma lanterna que brilha no asfalto.
Experiências: belas escórias.
É uma sala enorme, repleta de sol.
Um camião passa na rua,
faz estremecer a porcelana.
Abro a segunda porta.
Amigos! bebestes da escuridão
e tornaste-vos visíveis.
Terceira porta. Um quarto estreito de hotel.
Vista sobre um beco.
Uma lanterna que brilha no asfalto.
Experiências: belas escórias.
761
Nelly Sachs
QUANTOS MARES
Quantos mares se apagam na areia,
Quanta areia sedimentada na pedra,
Quanto tempo pranteado na concha sussurrante dos caracóis,
Quanta desolação mortal
Nos olhos de pérola dos peixes,
Quantas trombetas matinais no coral,
Quantos padrões estelares no cristal,
Quantos embriões de hilaridade na garganta da gaivota,
Quantos fios de saudade
Percorreram as noturnas rotas constelares
Quanta terra fecunda
Para a raiz da palavra
Tu –
Por detrás de todas as grades dos mistérios
que vão sendo derrubadas
Tu –
Quanta areia sedimentada na pedra,
Quanto tempo pranteado na concha sussurrante dos caracóis,
Quanta desolação mortal
Nos olhos de pérola dos peixes,
Quantas trombetas matinais no coral,
Quantos padrões estelares no cristal,
Quantos embriões de hilaridade na garganta da gaivota,
Quantos fios de saudade
Percorreram as noturnas rotas constelares
Quanta terra fecunda
Para a raiz da palavra
Tu –
Por detrás de todas as grades dos mistérios
que vão sendo derrubadas
Tu –
760
Giorgos Seferis
De Esboços para um verão
A cada manhã me lembra a água morna
que não tenho junto a mim nada mais vivo.
que não tenho junto a mim nada mais vivo.
612
Nelly Sachs
A VÓS, QUE CONSTRUÍS A NOVA MORADA
Quando levantares de novo tuas paredes –
Fogão, catre, mesa e cadeira –
Não os enfeites com tuas lágrimas, os que partiram
Que não mais habitarão contigo
Na pedra
Nem na madeira –
Senão haverá choro no teu sono
No curto sono que ainda tens de dormir.
Não suspires ao estenderes teu lençol –
Senão misturam-se teus sonhos
Com o suor dos mortos.
Ah, paredes e utensílios
São sensíveis como harpas eólicas
E como um campo onde viceja tua dor,
E sentem o que em ti é parente do pó.
Constrói enquanto escorre a clepsidra
Mas não chores os minutos que correm
Junto com o pó
Que encobre a luz.
Fogão, catre, mesa e cadeira –
Não os enfeites com tuas lágrimas, os que partiram
Que não mais habitarão contigo
Na pedra
Nem na madeira –
Senão haverá choro no teu sono
No curto sono que ainda tens de dormir.
Não suspires ao estenderes teu lençol –
Senão misturam-se teus sonhos
Com o suor dos mortos.
Ah, paredes e utensílios
São sensíveis como harpas eólicas
E como um campo onde viceja tua dor,
E sentem o que em ti é parente do pó.
Constrói enquanto escorre a clepsidra
Mas não chores os minutos que correm
Junto com o pó
Que encobre a luz.
790
Nelly Sachs
ESTOU NO ESTRANGEIRO
Estou no estrangeiro
que é protegido pelo 8
o santo anjo do laço
Que está sempre a caminho
através de nossa carne
semeando a inquietude
e deixando o pó maduro para voar –
que é protegido pelo 8
o santo anjo do laço
Que está sempre a caminho
através de nossa carne
semeando a inquietude
e deixando o pó maduro para voar –
601
Nelly Sachs
É UM ESCURO COMO
É um escuro como
caos antes do verbo
Leonardo procurou esse escuro
por detrás do escuro
Jó estava envolto
no corpo materno dos astros
Alguém sacode a escuridão
até que a maçã Terra caia
madura no fim
Um suspiro
será isso a alma – ?
caos antes do verbo
Leonardo procurou esse escuro
por detrás do escuro
Jó estava envolto
no corpo materno dos astros
Alguém sacode a escuridão
até que a maçã Terra caia
madura no fim
Um suspiro
será isso a alma – ?
772
Nelly Sachs
EU O VI SAIR DE CASA
Eu o vi sair de casa
o fogo o havia chamuscado
mas não o queimara
Trazia uma pasta de sono
sob o braço
lá dentro o peso de letras e números
toda uma matemática
Em seu braço estava marcado a ferro
7337 o número-guia
Esses números conspiraram entre si
O homem media os espaços
Logo seus pés se elevaram da terra
Alguém o aguardava lá em cima
Para erguer um novo paraíso
“Mas espera só – em breve descansarás também –”
o fogo o havia chamuscado
mas não o queimara
Trazia uma pasta de sono
sob o braço
lá dentro o peso de letras e números
toda uma matemática
Em seu braço estava marcado a ferro
7337 o número-guia
Esses números conspiraram entre si
O homem media os espaços
Logo seus pés se elevaram da terra
Alguém o aguardava lá em cima
Para erguer um novo paraíso
“Mas espera só – em breve descansarás também –”
923
Tomas Tranströmer
Allegro
Toco Haydn depois de um dia negro
e sinto um calor simples nas mãos.
O teclado está ansioso. Os martelos soam temperados.
O som é verde, vivíssimo, tranquilo.
O som diz que a liberdade existe,
que alguém não paga o imposto de César.
Meto as mãos nos meus bolsos de Haydn
e finjo deitar um olhar frio ao mundo.
Faço içar a bandeira de Haydn – ela indica:
“Não nos renderemos. Mas queremos paz.”
A música é uma casa de vidro na encosta
onde voam pedras, se quebram pedras.
E as pedras quebram-se pelos vidros adentro
mas a casa continua de pé, inteira.
e sinto um calor simples nas mãos.
O teclado está ansioso. Os martelos soam temperados.
O som é verde, vivíssimo, tranquilo.
O som diz que a liberdade existe,
que alguém não paga o imposto de César.
Meto as mãos nos meus bolsos de Haydn
e finjo deitar um olhar frio ao mundo.
Faço içar a bandeira de Haydn – ela indica:
“Não nos renderemos. Mas queremos paz.”
A música é uma casa de vidro na encosta
onde voam pedras, se quebram pedras.
E as pedras quebram-se pelos vidros adentro
mas a casa continua de pé, inteira.
725
Tomas Tranströmer
Allegro
Toco Haydn depois de um dia negro
e sinto um calor simples nas mãos.
O teclado está ansioso. Os martelos soam temperados.
O som é verde, vivíssimo, tranquilo.
O som diz que a liberdade existe,
que alguém não paga o imposto de César.
Meto as mãos nos meus bolsos de Haydn
e finjo deitar um olhar frio ao mundo.
Faço içar a bandeira de Haydn – ela indica:
“Não nos renderemos. Mas queremos paz.”
A música é uma casa de vidro na encosta
onde voam pedras, se quebram pedras.
E as pedras quebram-se pelos vidros adentro
mas a casa continua de pé, inteira.
e sinto um calor simples nas mãos.
O teclado está ansioso. Os martelos soam temperados.
O som é verde, vivíssimo, tranquilo.
O som diz que a liberdade existe,
que alguém não paga o imposto de César.
Meto as mãos nos meus bolsos de Haydn
e finjo deitar um olhar frio ao mundo.
Faço içar a bandeira de Haydn – ela indica:
“Não nos renderemos. Mas queremos paz.”
A música é uma casa de vidro na encosta
onde voam pedras, se quebram pedras.
E as pedras quebram-se pelos vidros adentro
mas a casa continua de pé, inteira.
725
Nelly Sachs
OH, NOITE DAS CRIANÇAS QUE CHORAM!
Oh, noite das crianças que choram!
Noite das crianças marcadas para a morte!
O sono já não consegue entrar.
Vigias medonhas
Ocuparam o lugar das mães,
Premeram a morte errada nos músculos de suas mãos,
semeiam-na pelas paredes e pelas vigas –
Por toda parte chocam os ovos nos ninhos do terror.
Medo amamenta os pequeninos em lugar do leite da mãe.
Ainda ontem a mãe chamava
O sono, como uma lua branca,
A boneca, com o carmim das faces lavado de beijos,
Vinha num dos braços,
O bicho de pelúcia, tornado
Já vivo por força do amor,
Vinha no outro, –
Sopra agora o vento do morrer,
Arrebata as camisas por sobre os cabelos
que ninguém mais penteará.
Noite das crianças marcadas para a morte!
O sono já não consegue entrar.
Vigias medonhas
Ocuparam o lugar das mães,
Premeram a morte errada nos músculos de suas mãos,
semeiam-na pelas paredes e pelas vigas –
Por toda parte chocam os ovos nos ninhos do terror.
Medo amamenta os pequeninos em lugar do leite da mãe.
Ainda ontem a mãe chamava
O sono, como uma lua branca,
A boneca, com o carmim das faces lavado de beijos,
Vinha num dos braços,
O bicho de pelúcia, tornado
Já vivo por força do amor,
Vinha no outro, –
Sopra agora o vento do morrer,
Arrebata as camisas por sobre os cabelos
que ninguém mais penteará.
786
Nelly Sachs
OH, NOITE DAS CRIANÇAS QUE CHORAM!
Oh, noite das crianças que choram!
Noite das crianças marcadas para a morte!
O sono já não consegue entrar.
Vigias medonhas
Ocuparam o lugar das mães,
Premeram a morte errada nos músculos de suas mãos,
semeiam-na pelas paredes e pelas vigas –
Por toda parte chocam os ovos nos ninhos do terror.
Medo amamenta os pequeninos em lugar do leite da mãe.
Ainda ontem a mãe chamava
O sono, como uma lua branca,
A boneca, com o carmim das faces lavado de beijos,
Vinha num dos braços,
O bicho de pelúcia, tornado
Já vivo por força do amor,
Vinha no outro, –
Sopra agora o vento do morrer,
Arrebata as camisas por sobre os cabelos
que ninguém mais penteará.
Noite das crianças marcadas para a morte!
O sono já não consegue entrar.
Vigias medonhas
Ocuparam o lugar das mães,
Premeram a morte errada nos músculos de suas mãos,
semeiam-na pelas paredes e pelas vigas –
Por toda parte chocam os ovos nos ninhos do terror.
Medo amamenta os pequeninos em lugar do leite da mãe.
Ainda ontem a mãe chamava
O sono, como uma lua branca,
A boneca, com o carmim das faces lavado de beijos,
Vinha num dos braços,
O bicho de pelúcia, tornado
Já vivo por força do amor,
Vinha no outro, –
Sopra agora o vento do morrer,
Arrebata as camisas por sobre os cabelos
que ninguém mais penteará.
786
Osman Lins
Visões do Movietone
Epígrafe
Viajantes de cristal,
as lentes nos contarão suas visões.
E logo,
tal um vendedor ansioso,
estende a nossos olhos
seu mostruário de imagens
colhido nas retinas transparentes.
Queremos de misérias e alegrias.
Aqui estamos.
§
Os caminhantes ociosos
Na estrada lívida,
multidões caminhavam.
Um violoncelo invisível lembra um cachorro cego,
vagando, à procura de um anjo.
Não o encontrará.
A multidão caminha, estonteada,
e para eles não existem más estradas.
São as solteironas dos caminhos:
não podem mais escolher.
e realizam entre nós aquelas núpcias tristes
Vão e vão
Itinerantes,
nada levam em suas mãos
— até as suas almas deixaram,
na urgência de partir,
em suas terras natais.
Nada levam, nada fazem,
senão vir, silenciosos,
pelos lívidos caminhos.
Nada fazem, os ociosos.
§
Conferência à Beira Mar
Quatro figurões descem do avião
e são conduzidos em automóveis hermeticamente fechados para negociar a paz.
Trazem os bolsos cheios de preocupações e um menino morto no coração parado.
Vão de negro e lúgubres:
os respectivos consulados não concederam passaportes aos seus sorrisos.
— e um clandestino,
foi confiscado pela Guarda Aduaneira
e vendido em leilão a um agente de seguros.
As lâmpadas fotográficas reluzem à sua passagem,
como relâmpagos sem voz
(Oh! Como são breves
e mais inconstantes que os refletores antiaéreos!)
Os figurões se encontram
e três deles erguem os braços
quando o representante norte-americano lhes apresenta a estrela de xerife.
Mas estão junto ao mar,
à sombra de um para-sol cujos gomos são feitos com retalhos de bandeiras
e o xerife joga às ondas seu distintivo astral
que se transforma em estrela do mar
— quem sabe se futura Estrela Dalva?
Cada um fala uma língua e o intérprete é mudo.
Mas de manso,
inofensivo réptil,
crescente luz,
canção que se aproxima,
o mar avança, cresce, envolve-os.
E as quatro cabeças sob a barraca de praia
lembram a Rosa dos Ventos e os quatro pontos cardiais.
E a paz?
Afogou-se.
§
As Bestas Messiânicas
Domingo de sinos presumíveis
e explorações mirins nos arrabaldes do sonho.
Crianças tornam aos portões do Paraíso Perdido
e agora outra vez reconquistado.
Jardim Zoológico —
selva gentil, deserto ameno, polos temperados
A larga piscina é um mar ameninado.
Latitudes se encontram como as varetas de um leque,
como, num bar, marinheiros que não se entendem,
cada um contando a sua lembrança e a sua canção.
As focas zombadoras brilham como nuvens de aurora
e, para as gazelas,
a planície perdida deve ter um gosto pungente
. . . . . . . . . . . [e irrecuperável de infância morta.
Os coelhos, mesmo vivos, já parecem vítimas.
Os elefantes são pausas.
Esplende forte, sacra,
a majestade dos tigres e leões,
e na tranquilidade de uns e outros há um displicente
como se as grades fossem mitos.
São todos sós, são todos exilados.
E das jaulas, do mar ameninado,
de seus exílios, de suas nostalgias,
gritam as bestas,
apostólicas,
sem que ninguém as ouça:
“Deixai vir a mim as criancinhas
e com elas o seu deslumbramento.”
§
A Experiência Ardente
Pássaro sem cântico.
esquife desabitado,
que apreensões de vivos
não ligam a terra,
o avião sem piloto
segue.
Logo mais o atingirão,
matarão o que está morto.
Cálculos matemáticos sopesam as possibilidades da morte,
com precisão infinitesimal
como se buscassem o peso de uma pétala.
Seguros como um deus,
as equações preparam o tiro
e os diagramas fixam o desenrolar da emboscada.
E o tiro embarca
vai ao encontro do pássaro sem cântico.
Fulgem os céus,
choram as asas partidas,
imobiliza-se a hélice com um tremor de criança baleada.
E flor de chamas,
tomba em silencio o morto assassinado.,
com lentidão de túnica vazia.
§
A Moda Sempre Vária
Com um ar de bonecas mecânicas
modelos parisienses condescendem em ostentar as últimas criações da Primavera.
Aos olhos de colegiais, costureiras de subúrbio,
. . . . . . . [mães de família deficitárias e criaturas neutras para quem
. . . . . . . [a moda encalhou no último figurino comprado a já esgarço,
desfilam vestidos que mais parecem ironias.
E ninguém olha os manequins.
Todos contemplam os vestidos,
do mesmo modo que um menino,
há muitos anos,
contemplava as nuvens,
sempre alheias, sempre várias,
além das torres da igreja,
onde os vitrais sorriam nas missas do domingo
e onde as meninas, em maio, eram arcanjos de fitas no cabelo.
Viajantes de cristal,
as lentes nos contarão suas visões.
E logo,
tal um vendedor ansioso,
estende a nossos olhos
seu mostruário de imagens
colhido nas retinas transparentes.
Queremos de misérias e alegrias.
Aqui estamos.
§
Os caminhantes ociosos
Na estrada lívida,
multidões caminhavam.
Um violoncelo invisível lembra um cachorro cego,
vagando, à procura de um anjo.
Não o encontrará.
A multidão caminha, estonteada,
e para eles não existem más estradas.
São as solteironas dos caminhos:
não podem mais escolher.
e realizam entre nós aquelas núpcias tristes
Vão e vão
Itinerantes,
nada levam em suas mãos
— até as suas almas deixaram,
na urgência de partir,
em suas terras natais.
Nada levam, nada fazem,
senão vir, silenciosos,
pelos lívidos caminhos.
Nada fazem, os ociosos.
§
Conferência à Beira Mar
Quatro figurões descem do avião
e são conduzidos em automóveis hermeticamente fechados para negociar a paz.
Trazem os bolsos cheios de preocupações e um menino morto no coração parado.
Vão de negro e lúgubres:
os respectivos consulados não concederam passaportes aos seus sorrisos.
— e um clandestino,
foi confiscado pela Guarda Aduaneira
e vendido em leilão a um agente de seguros.
As lâmpadas fotográficas reluzem à sua passagem,
como relâmpagos sem voz
(Oh! Como são breves
e mais inconstantes que os refletores antiaéreos!)
Os figurões se encontram
e três deles erguem os braços
quando o representante norte-americano lhes apresenta a estrela de xerife.
Mas estão junto ao mar,
à sombra de um para-sol cujos gomos são feitos com retalhos de bandeiras
e o xerife joga às ondas seu distintivo astral
que se transforma em estrela do mar
— quem sabe se futura Estrela Dalva?
Cada um fala uma língua e o intérprete é mudo.
Mas de manso,
inofensivo réptil,
crescente luz,
canção que se aproxima,
o mar avança, cresce, envolve-os.
E as quatro cabeças sob a barraca de praia
lembram a Rosa dos Ventos e os quatro pontos cardiais.
E a paz?
Afogou-se.
§
As Bestas Messiânicas
Domingo de sinos presumíveis
e explorações mirins nos arrabaldes do sonho.
Crianças tornam aos portões do Paraíso Perdido
e agora outra vez reconquistado.
Jardim Zoológico —
selva gentil, deserto ameno, polos temperados
A larga piscina é um mar ameninado.
Latitudes se encontram como as varetas de um leque,
como, num bar, marinheiros que não se entendem,
cada um contando a sua lembrança e a sua canção.
As focas zombadoras brilham como nuvens de aurora
e, para as gazelas,
a planície perdida deve ter um gosto pungente
. . . . . . . . . . . [e irrecuperável de infância morta.
Os coelhos, mesmo vivos, já parecem vítimas.
Os elefantes são pausas.
Esplende forte, sacra,
a majestade dos tigres e leões,
e na tranquilidade de uns e outros há um displicente
como se as grades fossem mitos.
São todos sós, são todos exilados.
E das jaulas, do mar ameninado,
de seus exílios, de suas nostalgias,
gritam as bestas,
apostólicas,
sem que ninguém as ouça:
“Deixai vir a mim as criancinhas
e com elas o seu deslumbramento.”
§
A Experiência Ardente
Pássaro sem cântico.
esquife desabitado,
que apreensões de vivos
não ligam a terra,
o avião sem piloto
segue.
Logo mais o atingirão,
matarão o que está morto.
Cálculos matemáticos sopesam as possibilidades da morte,
com precisão infinitesimal
como se buscassem o peso de uma pétala.
Seguros como um deus,
as equações preparam o tiro
e os diagramas fixam o desenrolar da emboscada.
E o tiro embarca
vai ao encontro do pássaro sem cântico.
Fulgem os céus,
choram as asas partidas,
imobiliza-se a hélice com um tremor de criança baleada.
E flor de chamas,
tomba em silencio o morto assassinado.,
com lentidão de túnica vazia.
§
A Moda Sempre Vária
Com um ar de bonecas mecânicas
modelos parisienses condescendem em ostentar as últimas criações da Primavera.
Aos olhos de colegiais, costureiras de subúrbio,
. . . . . . . [mães de família deficitárias e criaturas neutras para quem
. . . . . . . [a moda encalhou no último figurino comprado a já esgarço,
desfilam vestidos que mais parecem ironias.
E ninguém olha os manequins.
Todos contemplam os vestidos,
do mesmo modo que um menino,
há muitos anos,
contemplava as nuvens,
sempre alheias, sempre várias,
além das torres da igreja,
onde os vitrais sorriam nas missas do domingo
e onde as meninas, em maio, eram arcanjos de fitas no cabelo.
507
Soares de Passos
A Camões
Ai do que a sorte assinalou no berço
Inspirado cantor, rei da harmonia!
Ai do que Deus às gerações envia
Dizendo – vai, padece, é teu fadário;
Como um astro brilhante o mundo o admira,
Mas não vê que essa chama abrasadora
Que o cerca d'esplendor, também devora
Seu peito solitário.
Pairar nos céus em alteroso adejo,
Buscando amor, e vida, e luz, e glórias;
E ver passar, quais sombras ilusórias,
Essas imagens de fulgor divino:
Tais s o vossos destinos, ó poetas,
Almas de fogo, que um vil mundo encerra;
Tal foi, grande Camões, tal foi na terra
Teu mísero destino.
A cruz levaste desde o berço à campa:
Esgotaste a amargura ate às fezes:
Parece que a fortuna em seus revezes
Te mediu pelo génio a desventura.
Combateste com ela como o cedro
Que provoca o rancor da tempestade,
Mas cuja inabalável majestade
Lhe resiste segura.
Foste grande na dor como na lira!
Quem soube mais sofrer, quem sofreu tanto?
Um anjo viste de celeste encanto,
E aos pés caíste da visão querida...
Engano! foi um astro passageiro,
Foi uma flor de perfumado alento
Que ao longe te sorriu, mas que sedento
Jamais colheste em vida.
Sob a couraça que cingiste ao peito
Do peito ansioso sufocaste a chama,
E foste ao longe procurar a fama,
Talvez, quem sabe? procurar a morte.
Mas, qual onda que o náufrago arremessa
Sobre inóspita praia sem guarida,
A morte crua te arrojou a vida,
E as injúrias da sorte.
De praia em praia divagando incerto
Tuas desditas ensinaste ao mundo:
A terra, os homens, 'té o mar profundo
Conspirados achavas em teu dano.
Ave canora em solidão gemendo,
Tiveste o génio por algoz ferino:
Teu alento imortal era divino,
Perdeste em ser humano:
Índicos vales, solidões do Ganges,
E tu, ó gruta de Macau, sombria,
Vós lhe ouvistes as queixas, e a harmonia
Desses hinos que o tempo não consome.
Foi lá, nessa rocha solitária,
Que o vate desterrado e perseguido,
À pátria, ingrata, que lhe dera o olvido,
Deu eterno renome.
"Cantemos!" disse, e triunfou da sorte.
"Cantemos!" disse, e recordando glórias,
Sobre o mesmo teatro das vitórias,
Bardo guerreiro, levantou seus hinos.
Os desastres da pátria, a sua queda,
Temendo já no meditar profundo,
Quis dar-lhe a voz do cisne moribundo
Em seus cantos divinos.
E que sentidos cantos! d'Inês triste
Se ouve mais triste o derradeiro alento,
Ensinando o que pode o sentimento
Quando um seio que amou d'amores canta:
No brado heróico da guerreira tuba
O valor português soa tremendo,
E o fero Adamastor com gesto horrendo
Inda hoje o mundo espanta!
Mas ai! a pátria não lhe ouvia o canto!
Da pátria e do cantor findava a sorte:
Aos dois juraram perdição e morte,
E os dois juntaram na mansão funérea...
Ingratos! ao que, alçando a voz do génio
Além dos astros nos erguera um sólio,
Decretaram por louro e capitólio
O leito da miséria!
Ninguém o pranto lhe enxugou piedoso...
Valeu-lhe o seu escravo, o seu amigo:
"Dai esmola a Camões, dai-lhe um abrigo!"
Dizia o triste a mendigar confuso!
Homero, Ovídio, Tasso, estranhos cisnes,
Vós, que sorvestes do infortúnio a taça,
Vinde depor as c'roas da desgraça
Aos pés do cisne luso!
Mas não tardava o derradeiro instante...
O raio ardente, que fulmina a rocha,
Também a flor que nela desabrocha,
Cresta, passando, coas etéreas lavas!
Que cena! enquanto ao longe a pátria exangue
Aos alfanges mouriscos dava o peito,
De mísero hospital num pobre leito,
Camões, tu expiravas!
Oh! quem me dera desse leito à beira
Sondar teu grande espírito nessa hora,
Por saber, quando a mágoa nos devora,
Que dor pode conter um peito humano;
Palpar teu seio, e nesse estreito espaço
Sentir a imensidade do tormento,
Combatendo-te n'alma, como o vento,
Nas ondas do Oceano!
O amor da pátria, a ingratidão dos homens,
Natércia, a glória, as ilusões passadas,
Entre as sombras da morte debuxadas,
Em teu pálido rosto já pendido;
E a pátria, oh! e a pátria que exaltaras
Nessas canções d'inspiração profunda,
Exalando contigo moribunda
Seu último gemido!
Expirou! como o nauta destemido,
Vendo a procela que o navio alaga,
E ouvindo em roda no bramir da vaga
D'horrenda morte o funeral presságio,
Aos entes corre que adorou na vida,
Em seguro baixel os põe a nado,
E esquecido de si morre abraçado
Aos restos do naufrágio:
Assim, da pátria que baixava à tumba,
Em cantos imortais salvando a pátria,
E entregando-a dos tempos à memória,
Como em gigante pedestal segura:
"Pátria querida, morreremos juntos!"
Murmurou em acento funerário,
E envolvido da pátria no sudário
Baixou à sepultura.
Quebrando a lousa do feral jazigo,
Portugal ressurgiu, vingando a afronta,
E inda hoje ao mundo sua glória aponta
Dos cantos de Camões no eterno brado;
Mas do vate imortal as frias cinzas
Esquecidas deixou na sepultura,
E o estrangeiro que passa, em vão procura
Seu túmulo ignorado.
Nenhuma pedra ou inscrição ligeira
Recorda o grã cantor... porém calemos!
Silêncio! do imortal não profanemos
Com tributos mortais a alta memória.
Camões, grande Camões; foste poeta!
Eu sei que tua sombra nos perdoa:
Que valem mausoléus antes a coroa
De tua eterna glória?
Inspirado cantor, rei da harmonia!
Ai do que Deus às gerações envia
Dizendo – vai, padece, é teu fadário;
Como um astro brilhante o mundo o admira,
Mas não vê que essa chama abrasadora
Que o cerca d'esplendor, também devora
Seu peito solitário.
Pairar nos céus em alteroso adejo,
Buscando amor, e vida, e luz, e glórias;
E ver passar, quais sombras ilusórias,
Essas imagens de fulgor divino:
Tais s o vossos destinos, ó poetas,
Almas de fogo, que um vil mundo encerra;
Tal foi, grande Camões, tal foi na terra
Teu mísero destino.
A cruz levaste desde o berço à campa:
Esgotaste a amargura ate às fezes:
Parece que a fortuna em seus revezes
Te mediu pelo génio a desventura.
Combateste com ela como o cedro
Que provoca o rancor da tempestade,
Mas cuja inabalável majestade
Lhe resiste segura.
Foste grande na dor como na lira!
Quem soube mais sofrer, quem sofreu tanto?
Um anjo viste de celeste encanto,
E aos pés caíste da visão querida...
Engano! foi um astro passageiro,
Foi uma flor de perfumado alento
Que ao longe te sorriu, mas que sedento
Jamais colheste em vida.
Sob a couraça que cingiste ao peito
Do peito ansioso sufocaste a chama,
E foste ao longe procurar a fama,
Talvez, quem sabe? procurar a morte.
Mas, qual onda que o náufrago arremessa
Sobre inóspita praia sem guarida,
A morte crua te arrojou a vida,
E as injúrias da sorte.
De praia em praia divagando incerto
Tuas desditas ensinaste ao mundo:
A terra, os homens, 'té o mar profundo
Conspirados achavas em teu dano.
Ave canora em solidão gemendo,
Tiveste o génio por algoz ferino:
Teu alento imortal era divino,
Perdeste em ser humano:
Índicos vales, solidões do Ganges,
E tu, ó gruta de Macau, sombria,
Vós lhe ouvistes as queixas, e a harmonia
Desses hinos que o tempo não consome.
Foi lá, nessa rocha solitária,
Que o vate desterrado e perseguido,
À pátria, ingrata, que lhe dera o olvido,
Deu eterno renome.
"Cantemos!" disse, e triunfou da sorte.
"Cantemos!" disse, e recordando glórias,
Sobre o mesmo teatro das vitórias,
Bardo guerreiro, levantou seus hinos.
Os desastres da pátria, a sua queda,
Temendo já no meditar profundo,
Quis dar-lhe a voz do cisne moribundo
Em seus cantos divinos.
E que sentidos cantos! d'Inês triste
Se ouve mais triste o derradeiro alento,
Ensinando o que pode o sentimento
Quando um seio que amou d'amores canta:
No brado heróico da guerreira tuba
O valor português soa tremendo,
E o fero Adamastor com gesto horrendo
Inda hoje o mundo espanta!
Mas ai! a pátria não lhe ouvia o canto!
Da pátria e do cantor findava a sorte:
Aos dois juraram perdição e morte,
E os dois juntaram na mansão funérea...
Ingratos! ao que, alçando a voz do génio
Além dos astros nos erguera um sólio,
Decretaram por louro e capitólio
O leito da miséria!
Ninguém o pranto lhe enxugou piedoso...
Valeu-lhe o seu escravo, o seu amigo:
"Dai esmola a Camões, dai-lhe um abrigo!"
Dizia o triste a mendigar confuso!
Homero, Ovídio, Tasso, estranhos cisnes,
Vós, que sorvestes do infortúnio a taça,
Vinde depor as c'roas da desgraça
Aos pés do cisne luso!
Mas não tardava o derradeiro instante...
O raio ardente, que fulmina a rocha,
Também a flor que nela desabrocha,
Cresta, passando, coas etéreas lavas!
Que cena! enquanto ao longe a pátria exangue
Aos alfanges mouriscos dava o peito,
De mísero hospital num pobre leito,
Camões, tu expiravas!
Oh! quem me dera desse leito à beira
Sondar teu grande espírito nessa hora,
Por saber, quando a mágoa nos devora,
Que dor pode conter um peito humano;
Palpar teu seio, e nesse estreito espaço
Sentir a imensidade do tormento,
Combatendo-te n'alma, como o vento,
Nas ondas do Oceano!
O amor da pátria, a ingratidão dos homens,
Natércia, a glória, as ilusões passadas,
Entre as sombras da morte debuxadas,
Em teu pálido rosto já pendido;
E a pátria, oh! e a pátria que exaltaras
Nessas canções d'inspiração profunda,
Exalando contigo moribunda
Seu último gemido!
Expirou! como o nauta destemido,
Vendo a procela que o navio alaga,
E ouvindo em roda no bramir da vaga
D'horrenda morte o funeral presságio,
Aos entes corre que adorou na vida,
Em seguro baixel os põe a nado,
E esquecido de si morre abraçado
Aos restos do naufrágio:
Assim, da pátria que baixava à tumba,
Em cantos imortais salvando a pátria,
E entregando-a dos tempos à memória,
Como em gigante pedestal segura:
"Pátria querida, morreremos juntos!"
Murmurou em acento funerário,
E envolvido da pátria no sudário
Baixou à sepultura.
Quebrando a lousa do feral jazigo,
Portugal ressurgiu, vingando a afronta,
E inda hoje ao mundo sua glória aponta
Dos cantos de Camões no eterno brado;
Mas do vate imortal as frias cinzas
Esquecidas deixou na sepultura,
E o estrangeiro que passa, em vão procura
Seu túmulo ignorado.
Nenhuma pedra ou inscrição ligeira
Recorda o grã cantor... porém calemos!
Silêncio! do imortal não profanemos
Com tributos mortais a alta memória.
Camões, grande Camões; foste poeta!
Eu sei que tua sombra nos perdoa:
Que valem mausoléus antes a coroa
De tua eterna glória?
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Soares de Passos
A Camões
Ai do que a sorte assinalou no berço
Inspirado cantor, rei da harmonia!
Ai do que Deus às gerações envia
Dizendo – vai, padece, é teu fadário;
Como um astro brilhante o mundo o admira,
Mas não vê que essa chama abrasadora
Que o cerca d'esplendor, também devora
Seu peito solitário.
Pairar nos céus em alteroso adejo,
Buscando amor, e vida, e luz, e glórias;
E ver passar, quais sombras ilusórias,
Essas imagens de fulgor divino:
Tais s o vossos destinos, ó poetas,
Almas de fogo, que um vil mundo encerra;
Tal foi, grande Camões, tal foi na terra
Teu mísero destino.
A cruz levaste desde o berço à campa:
Esgotaste a amargura ate às fezes:
Parece que a fortuna em seus revezes
Te mediu pelo génio a desventura.
Combateste com ela como o cedro
Que provoca o rancor da tempestade,
Mas cuja inabalável majestade
Lhe resiste segura.
Foste grande na dor como na lira!
Quem soube mais sofrer, quem sofreu tanto?
Um anjo viste de celeste encanto,
E aos pés caíste da visão querida...
Engano! foi um astro passageiro,
Foi uma flor de perfumado alento
Que ao longe te sorriu, mas que sedento
Jamais colheste em vida.
Sob a couraça que cingiste ao peito
Do peito ansioso sufocaste a chama,
E foste ao longe procurar a fama,
Talvez, quem sabe? procurar a morte.
Mas, qual onda que o náufrago arremessa
Sobre inóspita praia sem guarida,
A morte crua te arrojou a vida,
E as injúrias da sorte.
De praia em praia divagando incerto
Tuas desditas ensinaste ao mundo:
A terra, os homens, 'té o mar profundo
Conspirados achavas em teu dano.
Ave canora em solidão gemendo,
Tiveste o génio por algoz ferino:
Teu alento imortal era divino,
Perdeste em ser humano:
Índicos vales, solidões do Ganges,
E tu, ó gruta de Macau, sombria,
Vós lhe ouvistes as queixas, e a harmonia
Desses hinos que o tempo não consome.
Foi lá, nessa rocha solitária,
Que o vate desterrado e perseguido,
À pátria, ingrata, que lhe dera o olvido,
Deu eterno renome.
"Cantemos!" disse, e triunfou da sorte.
"Cantemos!" disse, e recordando glórias,
Sobre o mesmo teatro das vitórias,
Bardo guerreiro, levantou seus hinos.
Os desastres da pátria, a sua queda,
Temendo já no meditar profundo,
Quis dar-lhe a voz do cisne moribundo
Em seus cantos divinos.
E que sentidos cantos! d'Inês triste
Se ouve mais triste o derradeiro alento,
Ensinando o que pode o sentimento
Quando um seio que amou d'amores canta:
No brado heróico da guerreira tuba
O valor português soa tremendo,
E o fero Adamastor com gesto horrendo
Inda hoje o mundo espanta!
Mas ai! a pátria não lhe ouvia o canto!
Da pátria e do cantor findava a sorte:
Aos dois juraram perdição e morte,
E os dois juntaram na mansão funérea...
Ingratos! ao que, alçando a voz do génio
Além dos astros nos erguera um sólio,
Decretaram por louro e capitólio
O leito da miséria!
Ninguém o pranto lhe enxugou piedoso...
Valeu-lhe o seu escravo, o seu amigo:
"Dai esmola a Camões, dai-lhe um abrigo!"
Dizia o triste a mendigar confuso!
Homero, Ovídio, Tasso, estranhos cisnes,
Vós, que sorvestes do infortúnio a taça,
Vinde depor as c'roas da desgraça
Aos pés do cisne luso!
Mas não tardava o derradeiro instante...
O raio ardente, que fulmina a rocha,
Também a flor que nela desabrocha,
Cresta, passando, coas etéreas lavas!
Que cena! enquanto ao longe a pátria exangue
Aos alfanges mouriscos dava o peito,
De mísero hospital num pobre leito,
Camões, tu expiravas!
Oh! quem me dera desse leito à beira
Sondar teu grande espírito nessa hora,
Por saber, quando a mágoa nos devora,
Que dor pode conter um peito humano;
Palpar teu seio, e nesse estreito espaço
Sentir a imensidade do tormento,
Combatendo-te n'alma, como o vento,
Nas ondas do Oceano!
O amor da pátria, a ingratidão dos homens,
Natércia, a glória, as ilusões passadas,
Entre as sombras da morte debuxadas,
Em teu pálido rosto já pendido;
E a pátria, oh! e a pátria que exaltaras
Nessas canções d'inspiração profunda,
Exalando contigo moribunda
Seu último gemido!
Expirou! como o nauta destemido,
Vendo a procela que o navio alaga,
E ouvindo em roda no bramir da vaga
D'horrenda morte o funeral presságio,
Aos entes corre que adorou na vida,
Em seguro baixel os põe a nado,
E esquecido de si morre abraçado
Aos restos do naufrágio:
Assim, da pátria que baixava à tumba,
Em cantos imortais salvando a pátria,
E entregando-a dos tempos à memória,
Como em gigante pedestal segura:
"Pátria querida, morreremos juntos!"
Murmurou em acento funerário,
E envolvido da pátria no sudário
Baixou à sepultura.
Quebrando a lousa do feral jazigo,
Portugal ressurgiu, vingando a afronta,
E inda hoje ao mundo sua glória aponta
Dos cantos de Camões no eterno brado;
Mas do vate imortal as frias cinzas
Esquecidas deixou na sepultura,
E o estrangeiro que passa, em vão procura
Seu túmulo ignorado.
Nenhuma pedra ou inscrição ligeira
Recorda o grã cantor... porém calemos!
Silêncio! do imortal não profanemos
Com tributos mortais a alta memória.
Camões, grande Camões; foste poeta!
Eu sei que tua sombra nos perdoa:
Que valem mausoléus antes a coroa
De tua eterna glória?
Inspirado cantor, rei da harmonia!
Ai do que Deus às gerações envia
Dizendo – vai, padece, é teu fadário;
Como um astro brilhante o mundo o admira,
Mas não vê que essa chama abrasadora
Que o cerca d'esplendor, também devora
Seu peito solitário.
Pairar nos céus em alteroso adejo,
Buscando amor, e vida, e luz, e glórias;
E ver passar, quais sombras ilusórias,
Essas imagens de fulgor divino:
Tais s o vossos destinos, ó poetas,
Almas de fogo, que um vil mundo encerra;
Tal foi, grande Camões, tal foi na terra
Teu mísero destino.
A cruz levaste desde o berço à campa:
Esgotaste a amargura ate às fezes:
Parece que a fortuna em seus revezes
Te mediu pelo génio a desventura.
Combateste com ela como o cedro
Que provoca o rancor da tempestade,
Mas cuja inabalável majestade
Lhe resiste segura.
Foste grande na dor como na lira!
Quem soube mais sofrer, quem sofreu tanto?
Um anjo viste de celeste encanto,
E aos pés caíste da visão querida...
Engano! foi um astro passageiro,
Foi uma flor de perfumado alento
Que ao longe te sorriu, mas que sedento
Jamais colheste em vida.
Sob a couraça que cingiste ao peito
Do peito ansioso sufocaste a chama,
E foste ao longe procurar a fama,
Talvez, quem sabe? procurar a morte.
Mas, qual onda que o náufrago arremessa
Sobre inóspita praia sem guarida,
A morte crua te arrojou a vida,
E as injúrias da sorte.
De praia em praia divagando incerto
Tuas desditas ensinaste ao mundo:
A terra, os homens, 'té o mar profundo
Conspirados achavas em teu dano.
Ave canora em solidão gemendo,
Tiveste o génio por algoz ferino:
Teu alento imortal era divino,
Perdeste em ser humano:
Índicos vales, solidões do Ganges,
E tu, ó gruta de Macau, sombria,
Vós lhe ouvistes as queixas, e a harmonia
Desses hinos que o tempo não consome.
Foi lá, nessa rocha solitária,
Que o vate desterrado e perseguido,
À pátria, ingrata, que lhe dera o olvido,
Deu eterno renome.
"Cantemos!" disse, e triunfou da sorte.
"Cantemos!" disse, e recordando glórias,
Sobre o mesmo teatro das vitórias,
Bardo guerreiro, levantou seus hinos.
Os desastres da pátria, a sua queda,
Temendo já no meditar profundo,
Quis dar-lhe a voz do cisne moribundo
Em seus cantos divinos.
E que sentidos cantos! d'Inês triste
Se ouve mais triste o derradeiro alento,
Ensinando o que pode o sentimento
Quando um seio que amou d'amores canta:
No brado heróico da guerreira tuba
O valor português soa tremendo,
E o fero Adamastor com gesto horrendo
Inda hoje o mundo espanta!
Mas ai! a pátria não lhe ouvia o canto!
Da pátria e do cantor findava a sorte:
Aos dois juraram perdição e morte,
E os dois juntaram na mansão funérea...
Ingratos! ao que, alçando a voz do génio
Além dos astros nos erguera um sólio,
Decretaram por louro e capitólio
O leito da miséria!
Ninguém o pranto lhe enxugou piedoso...
Valeu-lhe o seu escravo, o seu amigo:
"Dai esmola a Camões, dai-lhe um abrigo!"
Dizia o triste a mendigar confuso!
Homero, Ovídio, Tasso, estranhos cisnes,
Vós, que sorvestes do infortúnio a taça,
Vinde depor as c'roas da desgraça
Aos pés do cisne luso!
Mas não tardava o derradeiro instante...
O raio ardente, que fulmina a rocha,
Também a flor que nela desabrocha,
Cresta, passando, coas etéreas lavas!
Que cena! enquanto ao longe a pátria exangue
Aos alfanges mouriscos dava o peito,
De mísero hospital num pobre leito,
Camões, tu expiravas!
Oh! quem me dera desse leito à beira
Sondar teu grande espírito nessa hora,
Por saber, quando a mágoa nos devora,
Que dor pode conter um peito humano;
Palpar teu seio, e nesse estreito espaço
Sentir a imensidade do tormento,
Combatendo-te n'alma, como o vento,
Nas ondas do Oceano!
O amor da pátria, a ingratidão dos homens,
Natércia, a glória, as ilusões passadas,
Entre as sombras da morte debuxadas,
Em teu pálido rosto já pendido;
E a pátria, oh! e a pátria que exaltaras
Nessas canções d'inspiração profunda,
Exalando contigo moribunda
Seu último gemido!
Expirou! como o nauta destemido,
Vendo a procela que o navio alaga,
E ouvindo em roda no bramir da vaga
D'horrenda morte o funeral presságio,
Aos entes corre que adorou na vida,
Em seguro baixel os põe a nado,
E esquecido de si morre abraçado
Aos restos do naufrágio:
Assim, da pátria que baixava à tumba,
Em cantos imortais salvando a pátria,
E entregando-a dos tempos à memória,
Como em gigante pedestal segura:
"Pátria querida, morreremos juntos!"
Murmurou em acento funerário,
E envolvido da pátria no sudário
Baixou à sepultura.
Quebrando a lousa do feral jazigo,
Portugal ressurgiu, vingando a afronta,
E inda hoje ao mundo sua glória aponta
Dos cantos de Camões no eterno brado;
Mas do vate imortal as frias cinzas
Esquecidas deixou na sepultura,
E o estrangeiro que passa, em vão procura
Seu túmulo ignorado.
Nenhuma pedra ou inscrição ligeira
Recorda o grã cantor... porém calemos!
Silêncio! do imortal não profanemos
Com tributos mortais a alta memória.
Camões, grande Camões; foste poeta!
Eu sei que tua sombra nos perdoa:
Que valem mausoléus antes a coroa
De tua eterna glória?
1 030
Mauro Mota
Sonambulismo
Falam tanto de ti, pobre cigarro:
“Veneno que entorpece e que asfixia!”
No entanto, o teu aspecto bizarro
traz-me, à memória, uma filosofia.
Nessa ânsia de viver tão destemida
vieste ao mundo deixando a carteirinha.
O fósforo aceso transmitiu-te a vida
e a tua vida foi igual à minha…
Começaste a viver entre os meus dedos.
Levei-te aos lábios. Trêmulas volutas
de fumo azul fiando mil segredos
desprenderam-se no ar bailando astutas…
Fumo! Sonho! Ideal da mocidade!
Tu formas tudo quanto a gente quer:
ora uma sombra vaga de saudade,
ora um perfil querido de mulher!…
Ó meu cigarro! ó fumo azul amigo,
quantas vezes — mistério singular! —
minh’alma não bailou contigo
apaixonadamente pelo ar?!
Ai! quem me dera o fumo azul de outrora!…
Cigarro! dei-te o trago derradeiro!
De ti, amigo, só me resta, agora,
Uma saudade e a cinza no cinzeiro!
“Veneno que entorpece e que asfixia!”
No entanto, o teu aspecto bizarro
traz-me, à memória, uma filosofia.
Nessa ânsia de viver tão destemida
vieste ao mundo deixando a carteirinha.
O fósforo aceso transmitiu-te a vida
e a tua vida foi igual à minha…
Começaste a viver entre os meus dedos.
Levei-te aos lábios. Trêmulas volutas
de fumo azul fiando mil segredos
desprenderam-se no ar bailando astutas…
Fumo! Sonho! Ideal da mocidade!
Tu formas tudo quanto a gente quer:
ora uma sombra vaga de saudade,
ora um perfil querido de mulher!…
Ó meu cigarro! ó fumo azul amigo,
quantas vezes — mistério singular! —
minh’alma não bailou contigo
apaixonadamente pelo ar?!
Ai! quem me dera o fumo azul de outrora!…
Cigarro! dei-te o trago derradeiro!
De ti, amigo, só me resta, agora,
Uma saudade e a cinza no cinzeiro!
814
Inger Christensen
A minha casa é um bosque
A minha casa é um bosque de bétulas na tempestade
mantém a terra firme
a minha casa é o vidro da janela sob a saraivada de granizo
mantém a parede firme
a minha casa é uma dor na pelve
mantém o corpo firme
Frágil é a minha casa
segura firme no ar rarefeito do amor
mantém a terra firme
a minha casa é o vidro da janela sob a saraivada de granizo
mantém a parede firme
a minha casa é uma dor na pelve
mantém o corpo firme
Frágil é a minha casa
segura firme no ar rarefeito do amor
755
Yi Sáng
Poema n. 14
Há um gra ma do em fren te ao ve lho cas te lo e so bre es te gra
ma do des can so o meu cha péu. Do to po do cas te lo a mar ro u
ma pe dra bem pe sa da à mi nha me mó ria e a lan ço a té on de
al can ça a dis tân cia da mi nha for ça. Ou ço o cho ro tris te da
his tó ria que re tro ce de so bre su a tra je tó ria pa ra bó li ca.
Num da do mo men to, ve jo a bai xo um men di go pos ta do ao
la do do meu cha péu co mo um guar di ão de pe dra. A in da que
lá em bai xo o men di go es tá a ci ma de mim. Ou se rá a al ma e
xâ ni me do so ma tó rio da his tó ria? A fun du ra do meu cha
péu a ber to em di re ção ao es pa ço in vo ca o céu i mi nen te.
Su bi ta men te, o men di go en cur va o seu ar tre me tre men te
e jo ga u ma pe dra pa ra den tro do meu cha péu. Eu já des mai
ei. Ve jo um ma pa em que o co ra ção se trans la da pa ra den
tro do crâ nio. U ma gé li da mão se en cos ta à mi nha tes ta. Na
mi nha tes ta a gé li da mão dei xa su a mar ca que nun ca mais
se a pa gou.
ma do des can so o meu cha péu. Do to po do cas te lo a mar ro u
ma pe dra bem pe sa da à mi nha me mó ria e a lan ço a té on de
al can ça a dis tân cia da mi nha for ça. Ou ço o cho ro tris te da
his tó ria que re tro ce de so bre su a tra je tó ria pa ra bó li ca.
Num da do mo men to, ve jo a bai xo um men di go pos ta do ao
la do do meu cha péu co mo um guar di ão de pe dra. A in da que
lá em bai xo o men di go es tá a ci ma de mim. Ou se rá a al ma e
xâ ni me do so ma tó rio da his tó ria? A fun du ra do meu cha
péu a ber to em di re ção ao es pa ço in vo ca o céu i mi nen te.
Su bi ta men te, o men di go en cur va o seu ar tre me tre men te
e jo ga u ma pe dra pa ra den tro do meu cha péu. Eu já des mai
ei. Ve jo um ma pa em que o co ra ção se trans la da pa ra den
tro do crâ nio. U ma gé li da mão se en cos ta à mi nha tes ta. Na
mi nha tes ta a gé li da mão dei xa su a mar ca que nun ca mais
se a pa gou.
604
Mauro Mota
Se ela viesse
Se ela viesse aqui, como eu desejo,
e me encontrasse triste, a pensar nela…
E si quebrasse, com o rumor dum beijo,
o silêncio claustral de minha cela…
Se ela viesse ouvir tudo o que eu digo
neste momento de saudade e dor…
E se ficasse a conversar comigo
e me lançasse o olhar cheio de amor…
Se ela viesse…
Ai! se ela pudesse
Sorver o pranto que minh’alma chora…
Eu não sei que faria! Até parece
que nem a amava tanto como agora!…
e me encontrasse triste, a pensar nela…
E si quebrasse, com o rumor dum beijo,
o silêncio claustral de minha cela…
Se ela viesse ouvir tudo o que eu digo
neste momento de saudade e dor…
E se ficasse a conversar comigo
e me lançasse o olhar cheio de amor…
Se ela viesse…
Ai! se ela pudesse
Sorver o pranto que minh’alma chora…
Eu não sei que faria! Até parece
que nem a amava tanto como agora!…
749
Mauro Mota
Se ela viesse
Se ela viesse aqui, como eu desejo,
e me encontrasse triste, a pensar nela…
E si quebrasse, com o rumor dum beijo,
o silêncio claustral de minha cela…
Se ela viesse ouvir tudo o que eu digo
neste momento de saudade e dor…
E se ficasse a conversar comigo
e me lançasse o olhar cheio de amor…
Se ela viesse…
Ai! se ela pudesse
Sorver o pranto que minh’alma chora…
Eu não sei que faria! Até parece
que nem a amava tanto como agora!…
e me encontrasse triste, a pensar nela…
E si quebrasse, com o rumor dum beijo,
o silêncio claustral de minha cela…
Se ela viesse ouvir tudo o que eu digo
neste momento de saudade e dor…
E se ficasse a conversar comigo
e me lançasse o olhar cheio de amor…
Se ela viesse…
Ai! se ela pudesse
Sorver o pranto que minh’alma chora…
Eu não sei que faria! Até parece
que nem a amava tanto como agora!…
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Mauro Mota
Se ela viesse
Se ela viesse aqui, como eu desejo,
e me encontrasse triste, a pensar nela…
E si quebrasse, com o rumor dum beijo,
o silêncio claustral de minha cela…
Se ela viesse ouvir tudo o que eu digo
neste momento de saudade e dor…
E se ficasse a conversar comigo
e me lançasse o olhar cheio de amor…
Se ela viesse…
Ai! se ela pudesse
Sorver o pranto que minh’alma chora…
Eu não sei que faria! Até parece
que nem a amava tanto como agora!…
e me encontrasse triste, a pensar nela…
E si quebrasse, com o rumor dum beijo,
o silêncio claustral de minha cela…
Se ela viesse ouvir tudo o que eu digo
neste momento de saudade e dor…
E se ficasse a conversar comigo
e me lançasse o olhar cheio de amor…
Se ela viesse…
Ai! se ela pudesse
Sorver o pranto que minh’alma chora…
Eu não sei que faria! Até parece
que nem a amava tanto como agora!…
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