Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Pierre Albert-Birot
Fox Film
Ele vem a cavalo dos primórdios do mundo e enfim chega até nós
Seu sorriso brilhante como uma prata nova aparece antes de tudo
Abril antecede maio logo dois sorrisos que se olham formam uma ogiva
Zimmm... ele cruza as cidades atravessa a vida como um golpe de címbalos
Quatro sóis o iluminam por isso não há sombra que o persiga por detrás
Tudo se torna transparente o diabo é triste e gostaria de se matar
Todas as pequenas idéias se tornaram monumentos depois ele as esquece
O Mundo é grátis para os Poetas esses pais do Espaço e do Tempo
A gente deixa pra lá essa figura animal esse uniforme fashion que nos disfarça
E nos tornamos puros como um O os outros os outros estão fazendo fotos
Em nome do Pai eles que se entendam os que não têm nada a perder
Oh oh oh oh oh oh não se meta entre meus versos se você tem medo do fogo
Eles não servem para os que precisam que os dias se interliguem pelas noites
Os nomes que vestem as coisas ficaram no dicionário e tudo surgiu
As coisas então eram apenas nomes é inútil aprender a geografia
Antigamente havia cidades que se chamavam Moscou Melbourne ou Paris
(tradução de Marília Garcia, publicada no número impresso de estreia daModo de Usar & Co.)
670
Vasko Popa
- Sob a lua
O que é isso agora
É como se uma carne uma carne de neve
Me envolvesse
Não sei o que é
É como se essa medula me varasse
Essa medula gelada
Nem eu sei o que é
Como se tudo recomeçasse
Com um começo mais terrível
Sabes o quê?
Será que ousas ladrar
697
Vasko Popa
- Sob a lua
O que é isso agora
É como se uma carne uma carne de neve
Me envolvesse
Não sei o que é
É como se essa medula me varasse
Essa medula gelada
Nem eu sei o que é
Como se tudo recomeçasse
Com um começo mais terrível
Sabes o quê?
Será que ousas ladrar
697
Itamar Assumpção
Abobrinhas não
Cansei de ouvir abobrinhas
vou consultar escarolas
prefiro escutar salsinhas
pedir consolo às papoulas
e às carambolas
pedir um help ao repolho
indagar umas espigas
aprender com pés de alho
sobre bugalhos
ouvir dicas das urtigas
e dessas tulipas
um toque pro miosótis
um palpite pro alpiste
uma luz da flor de lótus
pedir alento ao cipreste
e pra dama da noite
pedir conselho à serralha
sugestão pro almeirão
idéias para azaléias
opinião para o limão, pimentão
abobrinhas não
913
Nizâr Qabbânî
sobre o amor marinho
sou o teu mar, senhora minha,
e não me perguntes da viagem
nem do tempo da partida e da chegada:
só tens de
esquecer os impulsos da terra
e obedecer às leis do mar
e entrar-me como peixe enfurecido;
racha o navio em dois pedaços
e o horizonte em dois pedaços
e a minha vida em dois pedaços
Nizâr Qabbânî
(tradução de André Simões)
1 005
Nizâr Qabbânî
sobre o amor marinho
sou o teu mar, senhora minha,
e não me perguntes da viagem
nem do tempo da partida e da chegada:
só tens de
esquecer os impulsos da terra
e obedecer às leis do mar
e entrar-me como peixe enfurecido;
racha o navio em dois pedaços
e o horizonte em dois pedaços
e a minha vida em dois pedaços
Nizâr Qabbânî
(tradução de André Simões)
1 005
Pierre Albert-Birot
Décimo-Sétimo Poema
O tempo do mau tempo está entre nós
Tempo corcunda age em caretas e tudo em garras e longos urros
O inverno ao grande carniçal que nos engole
Bola idiota em buraco
Que fazer no estômago do inverno
Onde não florescem os canteiros de heliotrópios
Tu meu claro outro eu que não te deixas engolir
Envia um pouco de verão no inverno
A fim de anunciar-me a primavera
Deita-me
Nina-me sobre o passado mole em veludo
Onde eu acreditarei ouvir ver e tomar
Tudo o que me prometeste
Ou talvez tudo o que me prometi
Ou tudo o que me deste
Ou tudo o que tomei
No tempo loiro quando acreditamos
Tudo o que dizia
Decalcomania
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Dix-Septième Poème
Pierre Albert-Birot
Le temps du mauvais temps est avec nous
Temps bossu fait en grimaces et tout à griffes et longues hurles
L´hiver à grande goule qui nous avale
Stupide boule au troup
Que faire dans l´estomac de l´hiver
Où ne fleurissent pas les massifs d´héliotropes
Toi mon clair autre moi qui ne te laisses pas avaler
Envoie un peu d´été dans l´hiver
Afin de m´annoncer le printemps
Couche-moi
Berce-moi sur le passé mou velouté
Où je croirai entendre voir et prendre
Tout ce que tu m´as promis
Ou tout ce que tu m´as donné
Ou tout ce que j´ai pris
Dans les temps blond où l´on croit
Tout ce que l´on dit
Décalcomanie
792
Vasko Popa
- No Final
Osso eu osso tu
Por que me engoliste
Não me vejo mais
O que tens
Tu é que me engoliste
Não me vejo a mim também
Onde estou agora
Agora não se sabe
Quem está onde quem é quem
Tudo é sonho horrível da poeira
Será que me ouves
Ouço a ti e a mim
O canto do galo canta em nós
662
Marina Tsvetaeva
Ensaio de ciúme
Como vai indo com a outra?
Tão fácil, não? — basta um impulso
no remo — com a orla, a minha
imagem se borra, se afasta,
vira ilha flutuante (no céu,
— na água, não!). Alma e alma,
irmãs, sim — mas, amantes, não!
Uma é destino; outra — sem fim!
Que tal viver com tal pessoa
comum — vida sem divindades?
Jogou do trono-olimpo a deusa-
rainha, abdicou — e a coroa
de sua vida, como fica?
Ao despertar, como pagar
o preço de imortal banal-
idade — como? Menos rica?
"Chega de susto e suspeita!
Quero um lar!". Mas... e a vida
só — com uma mulher qualquer —
Você — eleito de uma eleita?
Ah... E a comida? Apetitosa?
Você se queixa quando enjoa?
Depois do topo do Sinai,
Ir conviver com uma à-toa
da parte baixa da cidade,
uma coitada? Gostou da anca?
O açoite-vergonha de Zeus
ainda não vincou-lhe a estampa?
Entre viver e ser, dá para
contar? E como encara
o caro amigo a cicatriz
da consciência-meretriz?
Viver como boneca de gesso
—de feira!? Você me acha cara?
depois de um busto de Carrara,
um susto de papier-mâché?
(O deus que escavei de um bloco
só me deixou os ocos). Enleva
viver com uma igual a mil,
quem já teve a Lilit primeva?
Não lhe matou a fome a boa
bisca, que atendeu aos pedidos?
Como viver com a simplória
que só possui cinco sentidos?
Enfim, por fim...: você é feliz,
no sem-fundo dessa mulher?
Pior, melhor, igual a mim,
nos braços de um outro qualquer?
(tradução de Décio Pignatari)
.
.
.
Nota: agradecemos a Márcio Renato Pinheiro da Silva por disponibilizar estas duas traduções.
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Tão fácil, não? — basta um impulso
no remo — com a orla, a minha
imagem se borra, se afasta,
vira ilha flutuante (no céu,
— na água, não!). Alma e alma,
irmãs, sim — mas, amantes, não!
Uma é destino; outra — sem fim!
Que tal viver com tal pessoa
comum — vida sem divindades?
Jogou do trono-olimpo a deusa-
rainha, abdicou — e a coroa
de sua vida, como fica?
Ao despertar, como pagar
o preço de imortal banal-
idade — como? Menos rica?
"Chega de susto e suspeita!
Quero um lar!". Mas... e a vida
só — com uma mulher qualquer —
Você — eleito de uma eleita?
Ah... E a comida? Apetitosa?
Você se queixa quando enjoa?
Depois do topo do Sinai,
Ir conviver com uma à-toa
da parte baixa da cidade,
uma coitada? Gostou da anca?
O açoite-vergonha de Zeus
ainda não vincou-lhe a estampa?
Entre viver e ser, dá para
contar? E como encara
o caro amigo a cicatriz
da consciência-meretriz?
Viver como boneca de gesso
—de feira!? Você me acha cara?
depois de um busto de Carrara,
um susto de papier-mâché?
(O deus que escavei de um bloco
só me deixou os ocos). Enleva
viver com uma igual a mil,
quem já teve a Lilit primeva?
Não lhe matou a fome a boa
bisca, que atendeu aos pedidos?
Como viver com a simplória
que só possui cinco sentidos?
Enfim, por fim...: você é feliz,
no sem-fundo dessa mulher?
Pior, melhor, igual a mim,
nos braços de um outro qualquer?
(tradução de Décio Pignatari)
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Nota: agradecemos a Márcio Renato Pinheiro da Silva por disponibilizar estas duas traduções.
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1 593
Blanca Varela
Talvez sejas tu mesmo o trem que apita e se mete debaixo
Talvez sejas tu mesmo o trem que apita e se mete debaixo
da terra rumo ao inferno ou à estrela de sucata que te
leva diante de outro muro cheio de espelhos e de gestos,
endiabrados gestos sem dono e tu atrás deles, só, feliz
proprietário de uma boca escarlate que muge.
Cola o ouvido à terra que insiste em se levantar e respirar.
Acaricia-a como se fosse carne, pele humana capaz de
te comover, capaz de te rejeitar.
Aceita a espera que nem sempre há lugar no caos.
Aceita a porta fechada, o muro cada vez mais alto, o
pulinho, a imagem que te mostra a língua.
Não subas sobre os ombros dos fantasmas que é
ridículo cair de bunda with music in your soul.
tradução de Angélica Freitas
695
Blanca Varela
Talvez sejas tu mesmo o trem que apita e se mete debaixo
Talvez sejas tu mesmo o trem que apita e se mete debaixo
da terra rumo ao inferno ou à estrela de sucata que te
leva diante de outro muro cheio de espelhos e de gestos,
endiabrados gestos sem dono e tu atrás deles, só, feliz
proprietário de uma boca escarlate que muge.
Cola o ouvido à terra que insiste em se levantar e respirar.
Acaricia-a como se fosse carne, pele humana capaz de
te comover, capaz de te rejeitar.
Aceita a espera que nem sempre há lugar no caos.
Aceita a porta fechada, o muro cada vez mais alto, o
pulinho, a imagem que te mostra a língua.
Não subas sobre os ombros dos fantasmas que é
ridículo cair de bunda with music in your soul.
tradução de Angélica Freitas
695
Haroldo Maranhão
O peixe de ouro
De borracha é a cintura do peixe de ouro, uma curva infinita cavada na carne. E são deletéreas as pernas do peixe de ouro, que se locomove como se fosse o corpo acionado por molas. O andar é elástico, o andar do peixe de ouro, e balança a cabeleira cor de charuto no dorso lisíssimo, tapando a nuca. Não vejo a cara do peixe de ouro, sigo-lhe os passos, vejo-lhe as ancas, de potranca, a roupa é rubra, a carne, de ouro, a carne do peixe de ouro. De repente o peixe inclina a cabeça e percebo, não há quem não perceba, um perfil de penugens que o sol divulga, nítido. Segue o peixe, segue, todo um rio o segue, rio de bichos, somos todos bichos, mordemos com vigor o músculo das ancas, arrancamos pedaços da anca, da melhor anca, da melhor. Guardo no meu casaco o nobre fragmento da anca do peixe de ouro, e quero ao menos um fio, um fio ao menos dos cabelos, mas já a cabeleira foi roubada à força, quando voava descobrindo o pescoço. Cravo meus dentes na nuca do peixe de ouro e bebo-lhe um mel, sugo aflito, como a uma fruta, meus lábios ficam encharcados, escorre o mel, caem gotas na pedra, minha camisa ensopa-se de baba e mel, um mel raro. Desoladamente constato que trepida a epiderme desgarrada de seu recheio, em mantas, fiava pele há pouco distendida em curvas, ora couro plissado, de gelhas. Peixe de ouro perde aos poucos seu revestimento muscular, sangra, ossos despontam, interligados por tendões, cartilagens, restos de carne. Com enorme rudez puxo um nervo longo e de bom calibre para encordoar determinada viola d'amore. Desloco, e com delicadeza removo uma vértebra do peixe, como quem se serve de um doce, sorvo o creme vertebral e trituro a fina peça mal calcificada. A meu lado, alguém empunha uma das tíbias como dava, e é milagre a sobrevida do peixe de ouro, que não obstante prossegue sustentado não sei por que espécie de fundamento. Poucos ossos, quase nenhum, raros tendões, nenhuma carne. Agarro para mim a fossa ilíaca; luto por ela, ela me dilacera as mãos, mas é minha, conquistei-a, será o prato real onde comerei. Sigo, seguimos, impulsionados pelo mero costume, pois a unidade se partiu em blocos, o que era peixe não é, senão partículas, pó, aura, microtalco, microtalco de ouro.
1 754
Vasko Popa
- Sob o sol
É maravilhoso tomar sol nu
Nunca liguei para a carne
Esses trapos tampouco me envolveram
Enlouqueço por ti assim nu
Não deixes que o sol te acaricie
É melhor que nós nos amemos
Não aqui não aqui sob o sol
Aqui tudo se vê osso querido
747
Frank O'Hara
Ao capitão do porto
Quis certificar-me que eu chegaria a você;
embora minha nau estivesse a caminho, embaraçou-se
em certas amarras. Estou sempre a ancorar-me
e então decidindo partir. Em tormentas e
no ocaso, com as bobinas metálicas da maré
cercando meus braços abissais, sou incapaz
de entender as formas de minha vaidade
ou mal estou a sotavento com o leme
à mão e o sol a se por. A você
ofereço meu casco e o cordame esfarrapado
de meu querer. Os canais aterradores onde
o vento me lança contra os lábios barrentos
dos juncos ainda não ficaram para trás. Mesmo
assim, confio na sanidade de minha embarcação;
e se naufragar, tanto poderá ser em resposta
ao raciocínio das vozes eternas,
as ondas que me impediram de chegar a você.
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
To the harbormaster
Frank O´Hara
I wanted to be sure to reach you;
though my ship was on the way it got caught
in some moorings. I am always tying up
and then deciding to depart. In storms and
at sunset, with the metallic coils of the tide
around my fathomless arms, I am unable
to understand the forms of my vanity
or I am hard alee with my Polish rudder
in my hand and the sun sinking. To
you I offer my hull and the tattered cordage
of my will. The terrible channels where
the wind drives me against the brown lips
of the reeds are not all behind me. Yet
I trust the sanity of my vessel; and
if it sinks, it may well be in answer
to the reasoning of the eternal voices,
the waves which have kept me from reaching you.
embora minha nau estivesse a caminho, embaraçou-se
em certas amarras. Estou sempre a ancorar-me
e então decidindo partir. Em tormentas e
no ocaso, com as bobinas metálicas da maré
cercando meus braços abissais, sou incapaz
de entender as formas de minha vaidade
ou mal estou a sotavento com o leme
à mão e o sol a se por. A você
ofereço meu casco e o cordame esfarrapado
de meu querer. Os canais aterradores onde
o vento me lança contra os lábios barrentos
dos juncos ainda não ficaram para trás. Mesmo
assim, confio na sanidade de minha embarcação;
e se naufragar, tanto poderá ser em resposta
ao raciocínio das vozes eternas,
as ondas que me impediram de chegar a você.
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
To the harbormaster
Frank O´Hara
I wanted to be sure to reach you;
though my ship was on the way it got caught
in some moorings. I am always tying up
and then deciding to depart. In storms and
at sunset, with the metallic coils of the tide
around my fathomless arms, I am unable
to understand the forms of my vanity
or I am hard alee with my Polish rudder
in my hand and the sun sinking. To
you I offer my hull and the tattered cordage
of my will. The terrible channels where
the wind drives me against the brown lips
of the reeds are not all behind me. Yet
I trust the sanity of my vessel; and
if it sinks, it may well be in answer
to the reasoning of the eternal voices,
the waves which have kept me from reaching you.
1 258
Frank O'Hara
Ao capitão do porto
Quis certificar-me que eu chegaria a você;
embora minha nau estivesse a caminho, embaraçou-se
em certas amarras. Estou sempre a ancorar-me
e então decidindo partir. Em tormentas e
no ocaso, com as bobinas metálicas da maré
cercando meus braços abissais, sou incapaz
de entender as formas de minha vaidade
ou mal estou a sotavento com o leme
à mão e o sol a se por. A você
ofereço meu casco e o cordame esfarrapado
de meu querer. Os canais aterradores onde
o vento me lança contra os lábios barrentos
dos juncos ainda não ficaram para trás. Mesmo
assim, confio na sanidade de minha embarcação;
e se naufragar, tanto poderá ser em resposta
ao raciocínio das vozes eternas,
as ondas que me impediram de chegar a você.
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
To the harbormaster
Frank O´Hara
I wanted to be sure to reach you;
though my ship was on the way it got caught
in some moorings. I am always tying up
and then deciding to depart. In storms and
at sunset, with the metallic coils of the tide
around my fathomless arms, I am unable
to understand the forms of my vanity
or I am hard alee with my Polish rudder
in my hand and the sun sinking. To
you I offer my hull and the tattered cordage
of my will. The terrible channels where
the wind drives me against the brown lips
of the reeds are not all behind me. Yet
I trust the sanity of my vessel; and
if it sinks, it may well be in answer
to the reasoning of the eternal voices,
the waves which have kept me from reaching you.
embora minha nau estivesse a caminho, embaraçou-se
em certas amarras. Estou sempre a ancorar-me
e então decidindo partir. Em tormentas e
no ocaso, com as bobinas metálicas da maré
cercando meus braços abissais, sou incapaz
de entender as formas de minha vaidade
ou mal estou a sotavento com o leme
à mão e o sol a se por. A você
ofereço meu casco e o cordame esfarrapado
de meu querer. Os canais aterradores onde
o vento me lança contra os lábios barrentos
dos juncos ainda não ficaram para trás. Mesmo
assim, confio na sanidade de minha embarcação;
e se naufragar, tanto poderá ser em resposta
ao raciocínio das vozes eternas,
as ondas que me impediram de chegar a você.
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
To the harbormaster
Frank O´Hara
I wanted to be sure to reach you;
though my ship was on the way it got caught
in some moorings. I am always tying up
and then deciding to depart. In storms and
at sunset, with the metallic coils of the tide
around my fathomless arms, I am unable
to understand the forms of my vanity
or I am hard alee with my Polish rudder
in my hand and the sun sinking. To
you I offer my hull and the tattered cordage
of my will. The terrible channels where
the wind drives me against the brown lips
of the reeds are not all behind me. Yet
I trust the sanity of my vessel; and
if it sinks, it may well be in answer
to the reasoning of the eternal voices,
the waves which have kept me from reaching you.
1 258
Irene Lisboa
Jeito de escrever
Não sei que diga.
E a quem o dizer?
Não sei que pense.
Nada jamais soube.
Nem de mim, nem dos outros.
Nem do tempo, do céu e da terra, das coisas...
Seja do que for ou do que fosse.
Não sei que diga, não sei que pense.
Oiço os ralos queixosos, arrastados.
Ralos serão?
Horas da noite.
Noite começada ou adiantada, noite.
Como é bonito escrever!
Com este longo aparo, bonitas as letras e o gesto - o jeito.
Ao acaso, sem âncora, vago no tempo.
No tempo vago...
Ele vago e eu sem amparo.
Piam pássaros, trespassam o luto do espaço, este sereno
[ luto das horas.
Mortas!
E por mais não ter que relatar me cerro.
Expressão antiga, epistolar: me cerro.
Tão grato é o velho, inopinado e novo.
Me cerro!
Assim: uma das mãos no papel, dedos fincados,
solta a outra, de pena expectante.
Uma que agarra, a outra que espera...
Ó ilusão!
E tudo acabou, acaba.
Para quê a busca das coisas novas, à toa e à roda?
Silêncio.
Nem pássaros já, noite morta.
Me cerro.
Ó minha derradeira composição! Do não, do nem, do nada,
[ da ausência e solidão.
Da indiferença.
Quero eu que o seja! da indiferença ilimitada.
Noite vasta e contínua, caminha, caminha.
Alonga-te.
A ribeira acordou.
998
Irene Lisboa
Jeito de escrever
Não sei que diga.
E a quem o dizer?
Não sei que pense.
Nada jamais soube.
Nem de mim, nem dos outros.
Nem do tempo, do céu e da terra, das coisas...
Seja do que for ou do que fosse.
Não sei que diga, não sei que pense.
Oiço os ralos queixosos, arrastados.
Ralos serão?
Horas da noite.
Noite começada ou adiantada, noite.
Como é bonito escrever!
Com este longo aparo, bonitas as letras e o gesto - o jeito.
Ao acaso, sem âncora, vago no tempo.
No tempo vago...
Ele vago e eu sem amparo.
Piam pássaros, trespassam o luto do espaço, este sereno
[ luto das horas.
Mortas!
E por mais não ter que relatar me cerro.
Expressão antiga, epistolar: me cerro.
Tão grato é o velho, inopinado e novo.
Me cerro!
Assim: uma das mãos no papel, dedos fincados,
solta a outra, de pena expectante.
Uma que agarra, a outra que espera...
Ó ilusão!
E tudo acabou, acaba.
Para quê a busca das coisas novas, à toa e à roda?
Silêncio.
Nem pássaros já, noite morta.
Me cerro.
Ó minha derradeira composição! Do não, do nem, do nada,
[ da ausência e solidão.
Da indiferença.
Quero eu que o seja! da indiferença ilimitada.
Noite vasta e contínua, caminha, caminha.
Alonga-te.
A ribeira acordou.
998
Hilda Hilst
O Poeta Inventa Viagem, Retorno e Morre de Saudade (I)
Se for possível, manda-me dizer:
- É lua cheia. A casa está vazia -
Manda-me dizer, e o paraíso
Há de ficar mais perto, e mais recente
Me há de parecer teu rosto incerto.
Manda-me buscar se tens o dia
Tão longo como a noite. Se é verdade
Que sem mim só vês monotonia.
E se te lembras do brilho das marés
De alguns peixes rosados
Numas águas
E dos meus pés molhados, manda-me dizer:
- É lua nova -
E revestida de luz te volto a ver.
in Júbilo Memória Noviciado da Paixão (1974)
1 200
Hilda Hilst
O Poeta Inventa Viagem, Retorno e Morre de Saudade (I)
Se for possível, manda-me dizer:
- É lua cheia. A casa está vazia -
Manda-me dizer, e o paraíso
Há de ficar mais perto, e mais recente
Me há de parecer teu rosto incerto.
Manda-me buscar se tens o dia
Tão longo como a noite. Se é verdade
Que sem mim só vês monotonia.
E se te lembras do brilho das marés
De alguns peixes rosados
Numas águas
E dos meus pés molhados, manda-me dizer:
- É lua nova -
E revestida de luz te volto a ver.
in Júbilo Memória Noviciado da Paixão (1974)
1 200
Gabriel Ferrater
Ócio
Ela dorme. A hora em que os homens
já estão despertos, e pouca luz
entra por ora a feri-los.
Com tão pouco temos tanto. Apenas
o sentimento de duas coisas:
a terra gira, mulheres dormem.
Reconciliados, seguimos
direto ao fim do mundo, que não
requer nossa ajuda.
(tradução de Ricardo Domeneck)
442
Walter de la Mare
Napoleão
O que é o mundo, ah! soldados?
.......Sou eu:
Eu, esta neve inextinguível,
Este norte, este céu;
Soldados, esta saudade
Que nos cerca como túnel
.......Sou eu.
(tradução de Ricardo Domeneck)
607
Frank O'Hara
Para Lígia, após uma festa
Você nem sempre sabe o que estou sentindo.
Ontem à noite no ar morno de setembro enquanto
eu brandia uma invectiva contra alguém que não me interessa
era amor por você que me inflamava,
e não é esquisito? pois em salas cheias de
estranhos minhas emoções mais tenras
contorcem-se e
dão à luz o grito.
Estenda sua mão, não há
um cinzeiro, de repente, ali? Ao lado
da cama? E alguém que você ama adentra o quarto
e diz você não
quer os ovos um pouco
diferentes hoje? E quando eles chegam são
apenas ovos mexidos comuns e o ar morno
permanece.
899
Helmut Heissenbüttel
Na chuva da noite de outubro
na chuva da noite de outubro de 1954 espera imóvel a fachada
.......do nuncamaisver
sobre os rostos desfolhados flutuam sequências fotográficas
.......das janelas dos trens como nuvens
não houve retorno
sinais de pontuação do sol posto
como uma lanterna infantil sumida na escuridão brilha
.......o tempo
e mesmo as histórias passíveis de narração
.......faleceram
não houve retorno
im Regen der Oktobernacht 1954 wartet regungslos die
.......Fassade des Nimmerwiedersehens
über den abblätternden Gesichtern schweben die Bilderserien
.......der Eisenbahnfenster wie Wolken
es ist nicht wiedergekommen
Satzzeichen der untergegangenen Sonne
wie eine im Dunkeln verschwundene Kinderlaterne leuchtet
.......die Zeit
und auch die Geschichten die erzählt werden können sind
.......gestorben
es ist nicht wiedergekommen
.......do nuncamaisver
sobre os rostos desfolhados flutuam sequências fotográficas
.......das janelas dos trens como nuvens
não houve retorno
sinais de pontuação do sol posto
como uma lanterna infantil sumida na escuridão brilha
.......o tempo
e mesmo as histórias passíveis de narração
.......faleceram
não houve retorno
im Regen der Oktobernacht 1954 wartet regungslos die
.......Fassade des Nimmerwiedersehens
über den abblätternden Gesichtern schweben die Bilderserien
.......der Eisenbahnfenster wie Wolken
es ist nicht wiedergekommen
Satzzeichen der untergegangenen Sonne
wie eine im Dunkeln verschwundene Kinderlaterne leuchtet
.......die Zeit
und auch die Geschichten die erzählt werden können sind
.......gestorben
es ist nicht wiedergekommen
737
Helmut Heissenbüttel
Minha história bíblica começa com o cheiro do campo
minha história bíblica começa com o cheiro do campo
.......em agosto
meu paleolítico chega apenas até minha própria infância
prosódia dos vagões ferroviários
do correr descontínuo do tempo
ontem foi há três semanas
cachos de dias penduram-se fora no passado
meu desassossego é a vista das águas que são
.......partidas pelos remos das canoas
meu desassossego é o barulho dos dados
.......que rolam sobre a tábua da mesa
Ângulos dobram-se tortos sobre minha cara
718