Poemas neste tema
Emoções e Sentimentos
Amadeu Amaral
A um Adolescente
A Júlio Mesquita Filho
III
Basta crer na Beleza. Ama-a no Cosmos, fora
de ti, e ama-a em ti mesmo. É a suprema pesquisa!
Busca-a. E esculpe teu ser, juntando, hora por hora,
à mente que concebe o escopro que realiza.
Perguntas: — Onde o metro, a norma, a arte precisa
para rasgar no bloco a forma que se ignora?
— Quem ao leão deu o ardor com que os desertos pisa?
E quem à águia ensinou a ser do azul senhora?
Tens o instinto voador de quem nasceu com asa.
Ama o que é forte e puro, odeia o que é perverso,
o que é baixo, o que é vil, tudo que anda de rastros.
E põe-te em comunhão, no entusiasmo que abrasa,
com a Beleza, esplendor da Vida e do Universo,
com a poesia, os heróis, os abismos e os astros.
IV
Falta o preceito firme a que a ação se conforme?
Falta uma diretriz certa e definitiva?
— Quem a teve jamais? O bom ideal é informe,
e a Certeza, ai de nós! de todo o encanto o priva.
A torrente que corre e espadana, áurea e viva,
sem parar nem recuar no itinerário enorme,
busca um sonho que além, sob a névoa, se esquiva...
e ai! dela, se desvenda o sonho azul que dorme!
Sê tu como a caudal: foge ao remanso e ao charco.
A água pura é a que ferve e cintila entre abrolhos.
O miasma e o lodaçal moram nas águas mansas.
Avança, seja o sol resplandecente ou parco;
— e se a meta surgir, algum dia a teus olhos,
impele-a para além à proporção que avanças!
Publicado no livro Espumas: versos (1917).
In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.152-153. (Obras de Amadeu Amaral
III
Basta crer na Beleza. Ama-a no Cosmos, fora
de ti, e ama-a em ti mesmo. É a suprema pesquisa!
Busca-a. E esculpe teu ser, juntando, hora por hora,
à mente que concebe o escopro que realiza.
Perguntas: — Onde o metro, a norma, a arte precisa
para rasgar no bloco a forma que se ignora?
— Quem ao leão deu o ardor com que os desertos pisa?
E quem à águia ensinou a ser do azul senhora?
Tens o instinto voador de quem nasceu com asa.
Ama o que é forte e puro, odeia o que é perverso,
o que é baixo, o que é vil, tudo que anda de rastros.
E põe-te em comunhão, no entusiasmo que abrasa,
com a Beleza, esplendor da Vida e do Universo,
com a poesia, os heróis, os abismos e os astros.
IV
Falta o preceito firme a que a ação se conforme?
Falta uma diretriz certa e definitiva?
— Quem a teve jamais? O bom ideal é informe,
e a Certeza, ai de nós! de todo o encanto o priva.
A torrente que corre e espadana, áurea e viva,
sem parar nem recuar no itinerário enorme,
busca um sonho que além, sob a névoa, se esquiva...
e ai! dela, se desvenda o sonho azul que dorme!
Sê tu como a caudal: foge ao remanso e ao charco.
A água pura é a que ferve e cintila entre abrolhos.
O miasma e o lodaçal moram nas águas mansas.
Avança, seja o sol resplandecente ou parco;
— e se a meta surgir, algum dia a teus olhos,
impele-a para além à proporção que avanças!
Publicado no livro Espumas: versos (1917).
In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.152-153. (Obras de Amadeu Amaral
1 534
Henriqueta Lisboa
Caboclo-d'Água
Caboclo-d'água Ô
caboclo-d'água.
Caboclo-d'água
vem de noite
— assombração.
Caboclo-d'água
molengão
tocando viola.
Caboclo-d'água
vá-se embora
vá-se embora
caboclo-d'àgua
não me chame
não!
A chuva é muita
sobe o rio
no barranco.
O vento chora
mais que reza
uma oração.
Acende a vela
minha gente,
eu tenho medo.
Eu tenho medo
de afogar
na escuridão.
Publicado no livro O Menino Poeta (1943).
In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 1985. p.87-8
caboclo-d'água.
Caboclo-d'água
vem de noite
— assombração.
Caboclo-d'água
molengão
tocando viola.
Caboclo-d'água
vá-se embora
vá-se embora
caboclo-d'àgua
não me chame
não!
A chuva é muita
sobe o rio
no barranco.
O vento chora
mais que reza
uma oração.
Acende a vela
minha gente,
eu tenho medo.
Eu tenho medo
de afogar
na escuridão.
Publicado no livro O Menino Poeta (1943).
In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 1985. p.87-8
2 395
Ribeiro Couto
Monólogo da Noite
Esta noite estou triste e não sei a razão.
Vou, para espairecer minha melancolia,
Ouvir o mar, que o mar é uma consolação.
Paro junto do cais olhando a água sombria.
Intermitente, sob o véu da cerração,
Vejo uma luz vermelha a acenar-me... "Confia!"
Obrigado, farol que és como um coração...
A água negra, noturna, a bater contra o cais,
Ilude a minha dor fútil de vagabundo.
E o farol a acenar de longe... "Espera mais!"
Recordo... "Antônio, que o paquete fosse ao fundo!"
Depois, fico a pensar nos que foram leais,
Nos que tiveram a coragem de ir do mundo
E numa noite assim se atiraram do cais.
Água eterna... água terrível... água imortal...
Apavora-me a sua aparência sombria.
Se eu pudesse acabar de uma vez o meu mal!
Mas tenho medo. "Não... A água está muito fria.
Além de fria é funda e tem gosto de sal."
E surpreendo-me, a chorar de covardia,
Dizendo ao vento esse monólogo banal.
Publicado no livro Poemetos de Ternura e de Melancolia, 1920/1922 (1924).
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.8
Vou, para espairecer minha melancolia,
Ouvir o mar, que o mar é uma consolação.
Paro junto do cais olhando a água sombria.
Intermitente, sob o véu da cerração,
Vejo uma luz vermelha a acenar-me... "Confia!"
Obrigado, farol que és como um coração...
A água negra, noturna, a bater contra o cais,
Ilude a minha dor fútil de vagabundo.
E o farol a acenar de longe... "Espera mais!"
Recordo... "Antônio, que o paquete fosse ao fundo!"
Depois, fico a pensar nos que foram leais,
Nos que tiveram a coragem de ir do mundo
E numa noite assim se atiraram do cais.
Água eterna... água terrível... água imortal...
Apavora-me a sua aparência sombria.
Se eu pudesse acabar de uma vez o meu mal!
Mas tenho medo. "Não... A água está muito fria.
Além de fria é funda e tem gosto de sal."
E surpreendo-me, a chorar de covardia,
Dizendo ao vento esse monólogo banal.
Publicado no livro Poemetos de Ternura e de Melancolia, 1920/1922 (1924).
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.8
1 549
Ribeiro Couto
Monólogo da Noite
Esta noite estou triste e não sei a razão.
Vou, para espairecer minha melancolia,
Ouvir o mar, que o mar é uma consolação.
Paro junto do cais olhando a água sombria.
Intermitente, sob o véu da cerração,
Vejo uma luz vermelha a acenar-me... "Confia!"
Obrigado, farol que és como um coração...
A água negra, noturna, a bater contra o cais,
Ilude a minha dor fútil de vagabundo.
E o farol a acenar de longe... "Espera mais!"
Recordo... "Antônio, que o paquete fosse ao fundo!"
Depois, fico a pensar nos que foram leais,
Nos que tiveram a coragem de ir do mundo
E numa noite assim se atiraram do cais.
Água eterna... água terrível... água imortal...
Apavora-me a sua aparência sombria.
Se eu pudesse acabar de uma vez o meu mal!
Mas tenho medo. "Não... A água está muito fria.
Além de fria é funda e tem gosto de sal."
E surpreendo-me, a chorar de covardia,
Dizendo ao vento esse monólogo banal.
Publicado no livro Poemetos de Ternura e de Melancolia, 1920/1922 (1924).
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.8
Vou, para espairecer minha melancolia,
Ouvir o mar, que o mar é uma consolação.
Paro junto do cais olhando a água sombria.
Intermitente, sob o véu da cerração,
Vejo uma luz vermelha a acenar-me... "Confia!"
Obrigado, farol que és como um coração...
A água negra, noturna, a bater contra o cais,
Ilude a minha dor fútil de vagabundo.
E o farol a acenar de longe... "Espera mais!"
Recordo... "Antônio, que o paquete fosse ao fundo!"
Depois, fico a pensar nos que foram leais,
Nos que tiveram a coragem de ir do mundo
E numa noite assim se atiraram do cais.
Água eterna... água terrível... água imortal...
Apavora-me a sua aparência sombria.
Se eu pudesse acabar de uma vez o meu mal!
Mas tenho medo. "Não... A água está muito fria.
Além de fria é funda e tem gosto de sal."
E surpreendo-me, a chorar de covardia,
Dizendo ao vento esse monólogo banal.
Publicado no livro Poemetos de Ternura e de Melancolia, 1920/1922 (1924).
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.8
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Ribeiro Couto
Monólogo da Noite
Esta noite estou triste e não sei a razão.
Vou, para espairecer minha melancolia,
Ouvir o mar, que o mar é uma consolação.
Paro junto do cais olhando a água sombria.
Intermitente, sob o véu da cerração,
Vejo uma luz vermelha a acenar-me... "Confia!"
Obrigado, farol que és como um coração...
A água negra, noturna, a bater contra o cais,
Ilude a minha dor fútil de vagabundo.
E o farol a acenar de longe... "Espera mais!"
Recordo... "Antônio, que o paquete fosse ao fundo!"
Depois, fico a pensar nos que foram leais,
Nos que tiveram a coragem de ir do mundo
E numa noite assim se atiraram do cais.
Água eterna... água terrível... água imortal...
Apavora-me a sua aparência sombria.
Se eu pudesse acabar de uma vez o meu mal!
Mas tenho medo. "Não... A água está muito fria.
Além de fria é funda e tem gosto de sal."
E surpreendo-me, a chorar de covardia,
Dizendo ao vento esse monólogo banal.
Publicado no livro Poemetos de Ternura e de Melancolia, 1920/1922 (1924).
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.8
Vou, para espairecer minha melancolia,
Ouvir o mar, que o mar é uma consolação.
Paro junto do cais olhando a água sombria.
Intermitente, sob o véu da cerração,
Vejo uma luz vermelha a acenar-me... "Confia!"
Obrigado, farol que és como um coração...
A água negra, noturna, a bater contra o cais,
Ilude a minha dor fútil de vagabundo.
E o farol a acenar de longe... "Espera mais!"
Recordo... "Antônio, que o paquete fosse ao fundo!"
Depois, fico a pensar nos que foram leais,
Nos que tiveram a coragem de ir do mundo
E numa noite assim se atiraram do cais.
Água eterna... água terrível... água imortal...
Apavora-me a sua aparência sombria.
Se eu pudesse acabar de uma vez o meu mal!
Mas tenho medo. "Não... A água está muito fria.
Além de fria é funda e tem gosto de sal."
E surpreendo-me, a chorar de covardia,
Dizendo ao vento esse monólogo banal.
Publicado no livro Poemetos de Ternura e de Melancolia, 1920/1922 (1924).
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.8
1 549
Gilka Machado
Aos Heróis do Futebol Brasileiro
Eu vos saúdo
heróis do dia
que vos fizestes compreender
numa linguagem muda,
escrevendo com os pés
magnéticos e alados
uma epopéia internacional!
As almas dos brasileiros
distantes
vencem os espaços,
misturam-se com as vossas,
caminham nos vossos passos
para o arremesso da pelota
para o chute decisivo
da glória da Pátria.
Que obra de arte ou de ciência,
de sentimento ou de imaginação
teve a penetração
dos gols de Leônidas
que, transpondo balizas
e antipatias,
souberam se insinuar
no coração
do Mundo!
Que obra de arte ou de ciência
conteve a idéia e a emotividade
de vossos improvisos
em vôos e saltos,
ó bailarinos espontâneos
ó poetas repentistas
que sorrindo oferecestes vosso sangue
à sede de glória
de um povo
novo?
Ha milhões de pensamentos
impulsionando vossos movimentos.
Na esportiva expressão
que qualquer raça entende
longe de nossa decantada natureza
os Leônidas e os Domingos
fixaram na retina do estrangeiro
a milagrosa realidade
que é o homem do Brasil.
Eia
atletas franzinos
gigantes débeis
que com astúcia e audácia,
tenacidade e energia
transfigurai-vos,
traçando aos olhos surpresos
da Europa
um debuxo maravilhoso
do nosso desconhecido país.
Publicado no livro Sublimação (1938).
In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Apres. Eros Volúsia Machado. Rio de Janeiro: L. Christiano: FUNARJ, 199
heróis do dia
que vos fizestes compreender
numa linguagem muda,
escrevendo com os pés
magnéticos e alados
uma epopéia internacional!
As almas dos brasileiros
distantes
vencem os espaços,
misturam-se com as vossas,
caminham nos vossos passos
para o arremesso da pelota
para o chute decisivo
da glória da Pátria.
Que obra de arte ou de ciência,
de sentimento ou de imaginação
teve a penetração
dos gols de Leônidas
que, transpondo balizas
e antipatias,
souberam se insinuar
no coração
do Mundo!
Que obra de arte ou de ciência
conteve a idéia e a emotividade
de vossos improvisos
em vôos e saltos,
ó bailarinos espontâneos
ó poetas repentistas
que sorrindo oferecestes vosso sangue
à sede de glória
de um povo
novo?
Ha milhões de pensamentos
impulsionando vossos movimentos.
Na esportiva expressão
que qualquer raça entende
longe de nossa decantada natureza
os Leônidas e os Domingos
fixaram na retina do estrangeiro
a milagrosa realidade
que é o homem do Brasil.
Eia
atletas franzinos
gigantes débeis
que com astúcia e audácia,
tenacidade e energia
transfigurai-vos,
traçando aos olhos surpresos
da Europa
um debuxo maravilhoso
do nosso desconhecido país.
Publicado no livro Sublimação (1938).
In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Apres. Eros Volúsia Machado. Rio de Janeiro: L. Christiano: FUNARJ, 199
2 191
Glauco Mattoso
Enfim um Poeta Profissional, 1980
alexandrinos a metro
RIMAS RICAS A PREÇOS POPULARES
chaves de ouro em cinco minutos
enjambements sem quebrar o pé
CESURA INVISÍVEL
elegias para plataformas
ACRÓSTICOS PARA PARTIDOS
Hai-Kais para Militares
QUADRINHAS - REDONDILHAS - CUBISMOS
GLAUCO (LIBERAL) MATTOSO
In: MATTOSO, Glauco. Línguas na papa: uma salada dos mais insípidos aos mais picantes poemas de Glauco Mattoso. São Paulo: Pindaiba, 1982
RIMAS RICAS A PREÇOS POPULARES
chaves de ouro em cinco minutos
enjambements sem quebrar o pé
CESURA INVISÍVEL
elegias para plataformas
ACRÓSTICOS PARA PARTIDOS
Hai-Kais para Militares
QUADRINHAS - REDONDILHAS - CUBISMOS
GLAUCO (LIBERAL) MATTOSO
In: MATTOSO, Glauco. Línguas na papa: uma salada dos mais insípidos aos mais picantes poemas de Glauco Mattoso. São Paulo: Pindaiba, 1982
1 416
Armando Freitas Filho
Micro
Boca de rato. Morte.
Não há saída viva da vida.
Murmúrio de rádio através dos muros.
Vozes miúdas
roendo por dentro
no dia-a-dia
de mordidas mínimas e minuciosas.
16 nov. 89
In: FREITAS FILHO, Armando. Cabeça de homem, 1987/1990. Pref. Luiz Costa Lima. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991. (Poesia brasileira)
Não há saída viva da vida.
Murmúrio de rádio através dos muros.
Vozes miúdas
roendo por dentro
no dia-a-dia
de mordidas mínimas e minuciosas.
16 nov. 89
In: FREITAS FILHO, Armando. Cabeça de homem, 1987/1990. Pref. Luiz Costa Lima. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991. (Poesia brasileira)
1 343
Glauco Mattoso
Hino Patriótico do Prisioneiro Político, 1977
para ser recitado em tom marcial,
com acompanhamento de castanholas,
trote de cascos (equinos) sobre paralelepípedos
ou tilintar de ossos (humanos)
independen
te
men
te
de quem
te
men
te
tens o de
ver
de
outra ver
dade de
fender
In: MATTOSO, Glauco. Memórias de um pueteiro: as melhores gozações de Glauco Mattoso. Rio de Janeiro: Ed. Trote, 1982. Poema integrante da série Sonettos Intalianos & Sonetos Ingreses.
NOTA DO AUTOR: "saiu na 13a. folha do JORNAL DOBRABIL. Um 'divertissement' pra satirizar o artificialismo dos sonetos monossilábicos e quejandos, e também pra mexer com a turma da poesia 'engagée'. Não fica gozadíssimo juntar o panfletarismo ao construtivismo? No entanto e no fundo, é tudo farinha do mesmo cossaco, né
com acompanhamento de castanholas,
trote de cascos (equinos) sobre paralelepípedos
ou tilintar de ossos (humanos)
independen
te
men
te
de quem
te
men
te
tens o de
ver
de
outra ver
dade de
fender
In: MATTOSO, Glauco. Memórias de um pueteiro: as melhores gozações de Glauco Mattoso. Rio de Janeiro: Ed. Trote, 1982. Poema integrante da série Sonettos Intalianos & Sonetos Ingreses.
NOTA DO AUTOR: "saiu na 13a. folha do JORNAL DOBRABIL. Um 'divertissement' pra satirizar o artificialismo dos sonetos monossilábicos e quejandos, e também pra mexer com a turma da poesia 'engagée'. Não fica gozadíssimo juntar o panfletarismo ao construtivismo? No entanto e no fundo, é tudo farinha do mesmo cossaco, né
1 545
Mário Faustino
Sextina: Altaforte
Loquitur: En Bertrans de Born
Dante Alighieri pôs este homem no inferno por
tratar-se de um provocador de desordens.
Eccovi!
Julgai-o vós!
Será que o desenterrei de novo?
A cena é em seu castelo, Altaforte. "Papiols" é seu jongleur.
"O Leopardo", a device de Ricardo Coeur de Lion.
I
Tudo prós diabos! Todo este Sul já fede a paz.
Anda cachorro bastardo, Papiols! À música!
Só sei que vivo se ouço espadas que ressoam.
Mas ah! Com os estandartes ouro e roxo e vair se opondo
Por cima de amplos campos encharcados de carmim
— Uiva meu peito então doido de júbilo.
II
Se é verão quente, encho-me então de júbilo
Quando a tormenta mata a horrenda paz,
E do negro os relâmpagos reboam seu carmim,
E os tremendos trovões rugindo-me, que música!
Doidos ventos e nuvens ululando e se opondo
Céu rachando e teus gládios, Deus, ressoam.
III
Praza aos diabos de novo que ressoem!
E os corcéis na batalha relinchando de júbilo,
De espigão na peitarra às peitarras se opondo:
Melhor o tremor de uma hora do que meses de paz
Mesa gorda, fêmeas, vinho, débil música!
Não há vinho como o sangue e seu carmim!
IV
E adoro ver o sol subir sangue-e-carmim.
E contemplo-lhe as lanças que no escuro ressoam
E transborda meu peito, dilatado de júbilo,
E rasgo minha boca de ágil música
Quando o vejo zombar, desafiando a paz,
Seu poder solitário contra o escuro se opondo.
V
Esse que teme a guerra e se acocora opondo-
Se ao que digo, não tem sangue carmim,
Só serve pra feder em feminina paz
Longe donde as aspadas trazem glória e ressoam
— Vossa morte, cadelas, recrudesce-me o júbilo
E por isso encho o ar com minha música.
VI
Papiols! papiols! Música, música!
Não há som como espadas às espadas se opondo,
Não há grito como na batalha o júbilo,
Cotovelos e espadas gotejando carmim,
Quando contra "O Leopardo" nossas cargas ressoam.
Deus maldiga quem quer que grite "Paz!"
VII
Que a música da espada os cubra de carmim!
Praza ao diabo, de novo, espadas que ressoam!
Praza ao diabo apagar o pensamento "Paz!"
Imagem - 00950001
Poema integrante da série Fontes e Correntes da Poesia Contemporânea: 13. Ezra Pound.
In: FAUSTINO, Mário. Poesia-experiência. Introd. Benedito Nunes. São Paulo: Perspectiva, 1977. (Debates, 136).
NOTA: Tradução de poema de Ezra Poun
Dante Alighieri pôs este homem no inferno por
tratar-se de um provocador de desordens.
Eccovi!
Julgai-o vós!
Será que o desenterrei de novo?
A cena é em seu castelo, Altaforte. "Papiols" é seu jongleur.
"O Leopardo", a device de Ricardo Coeur de Lion.
I
Tudo prós diabos! Todo este Sul já fede a paz.
Anda cachorro bastardo, Papiols! À música!
Só sei que vivo se ouço espadas que ressoam.
Mas ah! Com os estandartes ouro e roxo e vair se opondo
Por cima de amplos campos encharcados de carmim
— Uiva meu peito então doido de júbilo.
II
Se é verão quente, encho-me então de júbilo
Quando a tormenta mata a horrenda paz,
E do negro os relâmpagos reboam seu carmim,
E os tremendos trovões rugindo-me, que música!
Doidos ventos e nuvens ululando e se opondo
Céu rachando e teus gládios, Deus, ressoam.
III
Praza aos diabos de novo que ressoem!
E os corcéis na batalha relinchando de júbilo,
De espigão na peitarra às peitarras se opondo:
Melhor o tremor de uma hora do que meses de paz
Mesa gorda, fêmeas, vinho, débil música!
Não há vinho como o sangue e seu carmim!
IV
E adoro ver o sol subir sangue-e-carmim.
E contemplo-lhe as lanças que no escuro ressoam
E transborda meu peito, dilatado de júbilo,
E rasgo minha boca de ágil música
Quando o vejo zombar, desafiando a paz,
Seu poder solitário contra o escuro se opondo.
V
Esse que teme a guerra e se acocora opondo-
Se ao que digo, não tem sangue carmim,
Só serve pra feder em feminina paz
Longe donde as aspadas trazem glória e ressoam
— Vossa morte, cadelas, recrudesce-me o júbilo
E por isso encho o ar com minha música.
VI
Papiols! papiols! Música, música!
Não há som como espadas às espadas se opondo,
Não há grito como na batalha o júbilo,
Cotovelos e espadas gotejando carmim,
Quando contra "O Leopardo" nossas cargas ressoam.
Deus maldiga quem quer que grite "Paz!"
VII
Que a música da espada os cubra de carmim!
Praza ao diabo, de novo, espadas que ressoam!
Praza ao diabo apagar o pensamento "Paz!"
Imagem - 00950001
Poema integrante da série Fontes e Correntes da Poesia Contemporânea: 13. Ezra Pound.
In: FAUSTINO, Mário. Poesia-experiência. Introd. Benedito Nunes. São Paulo: Perspectiva, 1977. (Debates, 136).
NOTA: Tradução de poema de Ezra Poun
1 967
Mário Faustino
Sextina: Altaforte
Loquitur: En Bertrans de Born
Dante Alighieri pôs este homem no inferno por
tratar-se de um provocador de desordens.
Eccovi!
Julgai-o vós!
Será que o desenterrei de novo?
A cena é em seu castelo, Altaforte. "Papiols" é seu jongleur.
"O Leopardo", a device de Ricardo Coeur de Lion.
I
Tudo prós diabos! Todo este Sul já fede a paz.
Anda cachorro bastardo, Papiols! À música!
Só sei que vivo se ouço espadas que ressoam.
Mas ah! Com os estandartes ouro e roxo e vair se opondo
Por cima de amplos campos encharcados de carmim
— Uiva meu peito então doido de júbilo.
II
Se é verão quente, encho-me então de júbilo
Quando a tormenta mata a horrenda paz,
E do negro os relâmpagos reboam seu carmim,
E os tremendos trovões rugindo-me, que música!
Doidos ventos e nuvens ululando e se opondo
Céu rachando e teus gládios, Deus, ressoam.
III
Praza aos diabos de novo que ressoem!
E os corcéis na batalha relinchando de júbilo,
De espigão na peitarra às peitarras se opondo:
Melhor o tremor de uma hora do que meses de paz
Mesa gorda, fêmeas, vinho, débil música!
Não há vinho como o sangue e seu carmim!
IV
E adoro ver o sol subir sangue-e-carmim.
E contemplo-lhe as lanças que no escuro ressoam
E transborda meu peito, dilatado de júbilo,
E rasgo minha boca de ágil música
Quando o vejo zombar, desafiando a paz,
Seu poder solitário contra o escuro se opondo.
V
Esse que teme a guerra e se acocora opondo-
Se ao que digo, não tem sangue carmim,
Só serve pra feder em feminina paz
Longe donde as aspadas trazem glória e ressoam
— Vossa morte, cadelas, recrudesce-me o júbilo
E por isso encho o ar com minha música.
VI
Papiols! papiols! Música, música!
Não há som como espadas às espadas se opondo,
Não há grito como na batalha o júbilo,
Cotovelos e espadas gotejando carmim,
Quando contra "O Leopardo" nossas cargas ressoam.
Deus maldiga quem quer que grite "Paz!"
VII
Que a música da espada os cubra de carmim!
Praza ao diabo, de novo, espadas que ressoam!
Praza ao diabo apagar o pensamento "Paz!"
Imagem - 00950001
Poema integrante da série Fontes e Correntes da Poesia Contemporânea: 13. Ezra Pound.
In: FAUSTINO, Mário. Poesia-experiência. Introd. Benedito Nunes. São Paulo: Perspectiva, 1977. (Debates, 136).
NOTA: Tradução de poema de Ezra Poun
Dante Alighieri pôs este homem no inferno por
tratar-se de um provocador de desordens.
Eccovi!
Julgai-o vós!
Será que o desenterrei de novo?
A cena é em seu castelo, Altaforte. "Papiols" é seu jongleur.
"O Leopardo", a device de Ricardo Coeur de Lion.
I
Tudo prós diabos! Todo este Sul já fede a paz.
Anda cachorro bastardo, Papiols! À música!
Só sei que vivo se ouço espadas que ressoam.
Mas ah! Com os estandartes ouro e roxo e vair se opondo
Por cima de amplos campos encharcados de carmim
— Uiva meu peito então doido de júbilo.
II
Se é verão quente, encho-me então de júbilo
Quando a tormenta mata a horrenda paz,
E do negro os relâmpagos reboam seu carmim,
E os tremendos trovões rugindo-me, que música!
Doidos ventos e nuvens ululando e se opondo
Céu rachando e teus gládios, Deus, ressoam.
III
Praza aos diabos de novo que ressoem!
E os corcéis na batalha relinchando de júbilo,
De espigão na peitarra às peitarras se opondo:
Melhor o tremor de uma hora do que meses de paz
Mesa gorda, fêmeas, vinho, débil música!
Não há vinho como o sangue e seu carmim!
IV
E adoro ver o sol subir sangue-e-carmim.
E contemplo-lhe as lanças que no escuro ressoam
E transborda meu peito, dilatado de júbilo,
E rasgo minha boca de ágil música
Quando o vejo zombar, desafiando a paz,
Seu poder solitário contra o escuro se opondo.
V
Esse que teme a guerra e se acocora opondo-
Se ao que digo, não tem sangue carmim,
Só serve pra feder em feminina paz
Longe donde as aspadas trazem glória e ressoam
— Vossa morte, cadelas, recrudesce-me o júbilo
E por isso encho o ar com minha música.
VI
Papiols! papiols! Música, música!
Não há som como espadas às espadas se opondo,
Não há grito como na batalha o júbilo,
Cotovelos e espadas gotejando carmim,
Quando contra "O Leopardo" nossas cargas ressoam.
Deus maldiga quem quer que grite "Paz!"
VII
Que a música da espada os cubra de carmim!
Praza ao diabo, de novo, espadas que ressoam!
Praza ao diabo apagar o pensamento "Paz!"
Imagem - 00950001
Poema integrante da série Fontes e Correntes da Poesia Contemporânea: 13. Ezra Pound.
In: FAUSTINO, Mário. Poesia-experiência. Introd. Benedito Nunes. São Paulo: Perspectiva, 1977. (Debates, 136).
NOTA: Tradução de poema de Ezra Poun
1 967
Guilherme de Almeida
Cubismo
Um Arlequim feito de cubos
equilibrados:
trinta losangos arranjados
sobre dois tubos.
— Ele talvez
jogue xadrez...
No halo, que a lâmpada tranquila
rasga, de cima,
esse Arlequim de pantomima
oscila, oscila,
e vem... e vai...
e quase cai...
Mas entra alguém: é uma silhueta
que espia e passa.
Seu riso é um fruto sob a graça
da mosca preta
— É uma mulher
como qualquer...
Um gesto só lânguido e doce:
e, num instante,
Dom Arlequim, o petulante,
esfarelou-se...
— Todo Arlequim
é mesmo assim...
Publicado no livro Encantamento (1925). Poema integrante da série I - O Reino Encantado: Sugerir.
In: ALMEIDA, Guilherme de. Toda a poesia. 2.ed. São Paulo: Livr. Martins, 1955. v.
equilibrados:
trinta losangos arranjados
sobre dois tubos.
— Ele talvez
jogue xadrez...
No halo, que a lâmpada tranquila
rasga, de cima,
esse Arlequim de pantomima
oscila, oscila,
e vem... e vai...
e quase cai...
Mas entra alguém: é uma silhueta
que espia e passa.
Seu riso é um fruto sob a graça
da mosca preta
— É uma mulher
como qualquer...
Um gesto só lânguido e doce:
e, num instante,
Dom Arlequim, o petulante,
esfarelou-se...
— Todo Arlequim
é mesmo assim...
Publicado no livro Encantamento (1925). Poema integrante da série I - O Reino Encantado: Sugerir.
In: ALMEIDA, Guilherme de. Toda a poesia. 2.ed. São Paulo: Livr. Martins, 1955. v.
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Guilherme de Almeida
Cubismo
Um Arlequim feito de cubos
equilibrados:
trinta losangos arranjados
sobre dois tubos.
— Ele talvez
jogue xadrez...
No halo, que a lâmpada tranquila
rasga, de cima,
esse Arlequim de pantomima
oscila, oscila,
e vem... e vai...
e quase cai...
Mas entra alguém: é uma silhueta
que espia e passa.
Seu riso é um fruto sob a graça
da mosca preta
— É uma mulher
como qualquer...
Um gesto só lânguido e doce:
e, num instante,
Dom Arlequim, o petulante,
esfarelou-se...
— Todo Arlequim
é mesmo assim...
Publicado no livro Encantamento (1925). Poema integrante da série I - O Reino Encantado: Sugerir.
In: ALMEIDA, Guilherme de. Toda a poesia. 2.ed. São Paulo: Livr. Martins, 1955. v.
equilibrados:
trinta losangos arranjados
sobre dois tubos.
— Ele talvez
jogue xadrez...
No halo, que a lâmpada tranquila
rasga, de cima,
esse Arlequim de pantomima
oscila, oscila,
e vem... e vai...
e quase cai...
Mas entra alguém: é uma silhueta
que espia e passa.
Seu riso é um fruto sob a graça
da mosca preta
— É uma mulher
como qualquer...
Um gesto só lânguido e doce:
e, num instante,
Dom Arlequim, o petulante,
esfarelou-se...
— Todo Arlequim
é mesmo assim...
Publicado no livro Encantamento (1925). Poema integrante da série I - O Reino Encantado: Sugerir.
In: ALMEIDA, Guilherme de. Toda a poesia. 2.ed. São Paulo: Livr. Martins, 1955. v.
10 363
Ribeiro Couto
Viola Caipira no Sítio Vista Alegre
A casa de palha
À beira do rio.
A noite se orvalha
De estrelas remotas.
É noite de frio,
Geada nas grotas,
Café no fogão.
Café, aguardente
E fumo de rolo
Picado na mão.
Viola plangente...
Lá fora o monjolo
Batendo no chão.
Bem-querer ingrato
Que a negra candonga
Deixou no mulato.
Noite longa, longa,
A noite do mato.
Publicado no livro Cancioneiro do Ausente (1943).
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.37
À beira do rio.
A noite se orvalha
De estrelas remotas.
É noite de frio,
Geada nas grotas,
Café no fogão.
Café, aguardente
E fumo de rolo
Picado na mão.
Viola plangente...
Lá fora o monjolo
Batendo no chão.
Bem-querer ingrato
Que a negra candonga
Deixou no mulato.
Noite longa, longa,
A noite do mato.
Publicado no livro Cancioneiro do Ausente (1943).
In: COUTO, Ribeiro. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1960. p.37
1 114
Glauco Mattoso
Paz Há Séculos ou Piece de Résistance, 1975
Terrorismo com torresmo,
Represália a alho e óleo,
Militante à milanesa
E tortilha de guerrilha.
Ciranda, cirandinha,
Vamos todos cirandar;
Vamos dar a meia volta,
Volta e meia vamos dar.
Molho pardo de massacre de combate,
Passeata com cassata de mandato,
Gabinetes com tortura ao molho tártaro,
Putsch com Ketchup, croquetes de sequestro.
O anel que tu me deste
Era vidro e se quebrou;
O amor que tu me tinhas
Era pouco e se acabou.
Salada mista extremista com vinho de Greves,
Trincheiras trinchadas com ilegumes partidos,
Comício com cominho, caudilho de baunilha,
Regimes e Dietas à la Magna Carta.
magna
che te fà bene!
Valentim, tim, tim,
Valentim, meu bem,
Quem tiver inveja
Faça assim também.
In: MATTOSO, Glauco. Memórias de um pueteiro: as melhores gozações de Glauco Mattoso. Rio de Janeiro: Ed. Trote, 1982. Poema integrante da série Autoelogiáveis & Antoelogiáveis
Represália a alho e óleo,
Militante à milanesa
E tortilha de guerrilha.
Ciranda, cirandinha,
Vamos todos cirandar;
Vamos dar a meia volta,
Volta e meia vamos dar.
Molho pardo de massacre de combate,
Passeata com cassata de mandato,
Gabinetes com tortura ao molho tártaro,
Putsch com Ketchup, croquetes de sequestro.
O anel que tu me deste
Era vidro e se quebrou;
O amor que tu me tinhas
Era pouco e se acabou.
Salada mista extremista com vinho de Greves,
Trincheiras trinchadas com ilegumes partidos,
Comício com cominho, caudilho de baunilha,
Regimes e Dietas à la Magna Carta.
magna
che te fà bene!
Valentim, tim, tim,
Valentim, meu bem,
Quem tiver inveja
Faça assim também.
In: MATTOSO, Glauco. Memórias de um pueteiro: as melhores gozações de Glauco Mattoso. Rio de Janeiro: Ed. Trote, 1982. Poema integrante da série Autoelogiáveis & Antoelogiáveis
1 501
Lara de Lemos
Anticanção para o Negrinho do Pastoreio
Não. Não quero a vela
para encontrar o inencontrável.
Nem quero achar gordos cavalos
que não pertencem
a nenhum só
de nossa gente.
Perca-se tudo
(menos coragem)
no perecível
das mãos que punem
homem indefeso
nas invernias.
Não quero a vela
nem teu segredo
menino-morto-assassinado
para encontrar campo
roubado
gado engordado
com tua pobreza
multiplicada.
Poupa teu choro menino-cristo
poupa teu medo, cresce
pra luta
preto com branco
branco com preto
no mesmo campo
no mesmo lado
no mesmo canto.
Poema integrante da série Do Mundo.
In: LEMOS, Lara de. Aura amara. Brasília: Coordenada Ed. de Brasília, 1969. (Poesia especial)
para encontrar o inencontrável.
Nem quero achar gordos cavalos
que não pertencem
a nenhum só
de nossa gente.
Perca-se tudo
(menos coragem)
no perecível
das mãos que punem
homem indefeso
nas invernias.
Não quero a vela
nem teu segredo
menino-morto-assassinado
para encontrar campo
roubado
gado engordado
com tua pobreza
multiplicada.
Poupa teu choro menino-cristo
poupa teu medo, cresce
pra luta
preto com branco
branco com preto
no mesmo campo
no mesmo lado
no mesmo canto.
Poema integrante da série Do Mundo.
In: LEMOS, Lara de. Aura amara. Brasília: Coordenada Ed. de Brasília, 1969. (Poesia especial)
1 571
Mário Faustino
A Reconstrução
(...)
E nos irados olhos das bacantes
Finalmente descubro quem procuro.
Não eras tu, Poesia, meras armas,
Pura consolação de minha luta.
Nem eras tu, Amor, meu camarada,
Às costas me levando, após a luta.
Procurava-me a mim, e ora me encontro
Em meu reflexo, nos olhares duros
De ébrios que me fuzilam contra o muro
E o perdão de meu canto. Sobre as nuvens
Defronte mãos escrevem numa estranha,
Antiquíssima língua estas palavras
Que afinal compreendo: toda vida
É perfeita. E pungente, e raro, e breve
É o tempo que me dão para viver-me,
Achado e precioso. Mas saúdo
Em mim a minha paz final. Metade
Infame de homem beija os pés da outra
Diva metade, enquanto esta se curva
E retribui, humilde, a reverência.
A serpente tritura a própria cauda,
O círculo de fogo se devora,
Arrasta-se o cadáver bem ferido
Para fora do palco:
este cevado
Bezerro justifica minha vida.
In: FAUSTINO, Mário. Os melhores poemas. 2.ed. São Paulo: Global, 1988. (Os Melhores poemas, 14
E nos irados olhos das bacantes
Finalmente descubro quem procuro.
Não eras tu, Poesia, meras armas,
Pura consolação de minha luta.
Nem eras tu, Amor, meu camarada,
Às costas me levando, após a luta.
Procurava-me a mim, e ora me encontro
Em meu reflexo, nos olhares duros
De ébrios que me fuzilam contra o muro
E o perdão de meu canto. Sobre as nuvens
Defronte mãos escrevem numa estranha,
Antiquíssima língua estas palavras
Que afinal compreendo: toda vida
É perfeita. E pungente, e raro, e breve
É o tempo que me dão para viver-me,
Achado e precioso. Mas saúdo
Em mim a minha paz final. Metade
Infame de homem beija os pés da outra
Diva metade, enquanto esta se curva
E retribui, humilde, a reverência.
A serpente tritura a própria cauda,
O círculo de fogo se devora,
Arrasta-se o cadáver bem ferido
Para fora do palco:
este cevado
Bezerro justifica minha vida.
In: FAUSTINO, Mário. Os melhores poemas. 2.ed. São Paulo: Global, 1988. (Os Melhores poemas, 14
2 541
Gilka Machado
Encantamento
A Francisco Alves
- O perfeito intérprete da canção brasileira
Canta,
que tua voz
ardente e moça
faz com que eu sinta a meiguice
das palavras que a vida não me disse.
Para te ouvir melhor
abro as janelas
e fico a sós
com tua voz
sonhando
que a noite está cantando
pelos lábios de fogo das estrelas.
Canta,
boca febril que não conheço,
que nunca me falaste e que me dizes tudo!...
Ave estranha
de garras de veludo,
entoa para mim
uma canção sem fim!
Canta,
que ao teu canto vejo
em tudo
quietude atroz
de insatisfeito desejo
Canta,
— em cada ouvido há um beijo
para tua linda voz.
(...)
Publicado no livro Sublimação (1938).
In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Apres. Eros Volúsia Machado. Rio de Janeiro: L. Christiano: FUNARJ, 1991, p. 335
- O perfeito intérprete da canção brasileira
Canta,
que tua voz
ardente e moça
faz com que eu sinta a meiguice
das palavras que a vida não me disse.
Para te ouvir melhor
abro as janelas
e fico a sós
com tua voz
sonhando
que a noite está cantando
pelos lábios de fogo das estrelas.
Canta,
boca febril que não conheço,
que nunca me falaste e que me dizes tudo!...
Ave estranha
de garras de veludo,
entoa para mim
uma canção sem fim!
Canta,
que ao teu canto vejo
em tudo
quietude atroz
de insatisfeito desejo
Canta,
— em cada ouvido há um beijo
para tua linda voz.
(...)
Publicado no livro Sublimação (1938).
In: MACHADO, Gilka. Poesias completas. Apres. Eros Volúsia Machado. Rio de Janeiro: L. Christiano: FUNARJ, 1991, p. 335
2 355
Carlos Nejar
O Poder Está Solto
O poder está solto
É um louco nas ruas
um louco maneiroso
nos palácios
e governamental
perto da aurora
Mas esta é de jardins
impressões digitais cárceres
sujos violências
no arame de secar
e secretos rancores
América da aurora
onde colhi
o cravo de teu nome
E te guardo
em sobressalto
e corro amedrontado
pelo peito
O poder está solto
casa a casa
ou nas armas
de um reino precavido
Está no telefone
ouvindo o amor
e o suspeitoso ar
de quem vigia
pelas telhas
subornos de vontade
ou de fé silenciosa
América era um pátio
onde retive
meu amor
nos lábios
O poder nos julgou
e o desvendado mundo
em nós
Está solto o poder
— é um animal
América semeada
no relincho
de um cavalo
Como prender o mar
senão na praia?
América do mar
que me banhava
O poder só se prende
quando morde
ou alastra seu recado
América eu escavo
outra América
eu escavo
as florestas
este medo
eu escavo
os remendos
da história
escavo escavo
o escravo
que mói
a palma
de meus sonhos
eu escavo
o teu abismo
e o ritmo
do que te chama
Não há coração
igual ao teu
E te escavo
Não há poder
Apenas cúmplices
Publicado no livro Um país o coração (1980).
In: NEJAR, Carlos. A genealogia da palavra. Introd. Eduardo Portella. São Paulo: Iluminuras, 1989. p.65-6
É um louco nas ruas
um louco maneiroso
nos palácios
e governamental
perto da aurora
Mas esta é de jardins
impressões digitais cárceres
sujos violências
no arame de secar
e secretos rancores
América da aurora
onde colhi
o cravo de teu nome
E te guardo
em sobressalto
e corro amedrontado
pelo peito
O poder está solto
casa a casa
ou nas armas
de um reino precavido
Está no telefone
ouvindo o amor
e o suspeitoso ar
de quem vigia
pelas telhas
subornos de vontade
ou de fé silenciosa
América era um pátio
onde retive
meu amor
nos lábios
O poder nos julgou
e o desvendado mundo
em nós
Está solto o poder
— é um animal
América semeada
no relincho
de um cavalo
Como prender o mar
senão na praia?
América do mar
que me banhava
O poder só se prende
quando morde
ou alastra seu recado
América eu escavo
outra América
eu escavo
as florestas
este medo
eu escavo
os remendos
da história
escavo escavo
o escravo
que mói
a palma
de meus sonhos
eu escavo
o teu abismo
e o ritmo
do que te chama
Não há coração
igual ao teu
E te escavo
Não há poder
Apenas cúmplices
Publicado no livro Um país o coração (1980).
In: NEJAR, Carlos. A genealogia da palavra. Introd. Eduardo Portella. São Paulo: Iluminuras, 1989. p.65-6
953
Colombina
Banco de Jardim
Amo os céus iluminados
pelos astros infinitos;
mas, por mal dos meus pecados,
teus olhos são mais bonitos.
Em teus braços aninhada,
tenho ao alcance da mão
toda uma noite estrelada,
todo o sol no coração.
Amar — verbo transcendente
que a gente conjuga a dois...
É um sorriso no presente
e são lágrimas, depois.
Penso em ti se estás ausente,
penso em ti se perto estás:
longe — quero-te presente,
perto — que embora não vás!
Apesar dos desenganos,
de tanta desilusão,
nós sempre temos vinte anos
num canto do coração.
Publicado no livro Cantares de bem-querer (1956). Poema integrante da série Trovas.
In: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Colombina e sua poesia romântica e erótica: esboço biográfico e seleção de poemas. São Paulo: J. Scortecci, 1987. p.33-10
pelos astros infinitos;
mas, por mal dos meus pecados,
teus olhos são mais bonitos.
Em teus braços aninhada,
tenho ao alcance da mão
toda uma noite estrelada,
todo o sol no coração.
Amar — verbo transcendente
que a gente conjuga a dois...
É um sorriso no presente
e são lágrimas, depois.
Penso em ti se estás ausente,
penso em ti se perto estás:
longe — quero-te presente,
perto — que embora não vás!
Apesar dos desenganos,
de tanta desilusão,
nós sempre temos vinte anos
num canto do coração.
Publicado no livro Cantares de bem-querer (1956). Poema integrante da série Trovas.
In: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Colombina e sua poesia romântica e erótica: esboço biográfico e seleção de poemas. São Paulo: J. Scortecci, 1987. p.33-10
1 960
Ricardo Gonçalves
O Batuque
Vagas constelações de pirilampos
Ponteiam de oiro a densa noite escura.
Há um trágico silêncio na espessura
Dos matagais e na amplidão dos campos.
O batuque dos negros apavora.
Anda o saci nas moitas, vagabundo,
E almas penadas, almas do outro mundo,
Passam gemendo pela noite em fora.
Só, no ranchinho de sapé coberto,
Encosto o ouvido à taipa esburacada,
E ouço um curiango que soluça, perto...
Lambe a fogueira os últimos gravetos,
E pela noite rola, magoada,
A cantiga nostálgica dos pretos.
In: GONÇALVES, Ricardo. Ipês: versos. Pref. Monteiro Lobato. São Paulo: Monteiro Lobato, 1922
Ponteiam de oiro a densa noite escura.
Há um trágico silêncio na espessura
Dos matagais e na amplidão dos campos.
O batuque dos negros apavora.
Anda o saci nas moitas, vagabundo,
E almas penadas, almas do outro mundo,
Passam gemendo pela noite em fora.
Só, no ranchinho de sapé coberto,
Encosto o ouvido à taipa esburacada,
E ouço um curiango que soluça, perto...
Lambe a fogueira os últimos gravetos,
E pela noite rola, magoada,
A cantiga nostálgica dos pretos.
In: GONÇALVES, Ricardo. Ipês: versos. Pref. Monteiro Lobato. São Paulo: Monteiro Lobato, 1922
1 035
Maria Helena Nery Garcez
Tess
Que cortejo é este que avança com sanfonas pela estrada?
De morte é,
certamente,
embora toque e dance.
Se, desesperadamente, sei o final,
por que é que então,
desesperadamente,
o miolo me obceca?
Se Romeu perde Julieta
e por ela é igualmente perdido,
se,
ao fim e ao cabo,
Hamlet tomba ao fio da espada,
o que é que me leva a torcer?
a sofrer?
a vibrar?
O que, como Abraão,
a esperar contra toda a esperança?
a desejar uma posteridade mais numerosa que os grãos de areia
e as estrelas do céu?
Que cortejo é este, Deus meu,
que avança com sanfonas de morte e dança pela estrada?
In: GARCEZ, Maria Helena Nery. Conta gotas. São Paulo: J. Scortecci, 1987
De morte é,
certamente,
embora toque e dance.
Se, desesperadamente, sei o final,
por que é que então,
desesperadamente,
o miolo me obceca?
Se Romeu perde Julieta
e por ela é igualmente perdido,
se,
ao fim e ao cabo,
Hamlet tomba ao fio da espada,
o que é que me leva a torcer?
a sofrer?
a vibrar?
O que, como Abraão,
a esperar contra toda a esperança?
a desejar uma posteridade mais numerosa que os grãos de areia
e as estrelas do céu?
Que cortejo é este, Deus meu,
que avança com sanfonas de morte e dança pela estrada?
In: GARCEZ, Maria Helena Nery. Conta gotas. São Paulo: J. Scortecci, 1987
948
Colombina
Exaltação
Olhas nos olhos meus. E eu vejo nesse instante
toda a terra subir a um céu que desconheço
Olho nos olhos teus, e fica tão distante
o mundo: e todo o fel que ele contém, esqueço.
Sorris...E, contemplando o teu lindo semblante,
o ideal de minha vida, enfim, eu reconheço.
Falas...ouço-te a voz, e, impetuosa, radiante,
num gesto de ternura, os lábios te ofereço.
Beijas a minha boca. E, nesse beijo grande
— como uma flor que ao sol desabrocha e se expande—,
todo o meu ser palpita e freme e vibra e estua.
Tudo é um sonho, no entanto; o teu beijo...o meu crime.
Mentirosa ilusão! Pobre ilusão que exprime
somente o meu desejo imenso de ser tua!
Publicado no livro Versos em lá menor (1930). Poema integrante da série Raletando...
In: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Colombina e sua poesia romântica e erótica: esboço biográfico e seleção de poemas. São Paulo: J. Scortecci, 1987. p.33-10
toda a terra subir a um céu que desconheço
Olho nos olhos teus, e fica tão distante
o mundo: e todo o fel que ele contém, esqueço.
Sorris...E, contemplando o teu lindo semblante,
o ideal de minha vida, enfim, eu reconheço.
Falas...ouço-te a voz, e, impetuosa, radiante,
num gesto de ternura, os lábios te ofereço.
Beijas a minha boca. E, nesse beijo grande
— como uma flor que ao sol desabrocha e se expande—,
todo o meu ser palpita e freme e vibra e estua.
Tudo é um sonho, no entanto; o teu beijo...o meu crime.
Mentirosa ilusão! Pobre ilusão que exprime
somente o meu desejo imenso de ser tua!
Publicado no livro Versos em lá menor (1930). Poema integrante da série Raletando...
In: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Colombina e sua poesia romântica e erótica: esboço biográfico e seleção de poemas. São Paulo: J. Scortecci, 1987. p.33-10
1 460
Colombina
Exaltação
Olhas nos olhos meus. E eu vejo nesse instante
toda a terra subir a um céu que desconheço
Olho nos olhos teus, e fica tão distante
o mundo: e todo o fel que ele contém, esqueço.
Sorris...E, contemplando o teu lindo semblante,
o ideal de minha vida, enfim, eu reconheço.
Falas...ouço-te a voz, e, impetuosa, radiante,
num gesto de ternura, os lábios te ofereço.
Beijas a minha boca. E, nesse beijo grande
— como uma flor que ao sol desabrocha e se expande—,
todo o meu ser palpita e freme e vibra e estua.
Tudo é um sonho, no entanto; o teu beijo...o meu crime.
Mentirosa ilusão! Pobre ilusão que exprime
somente o meu desejo imenso de ser tua!
Publicado no livro Versos em lá menor (1930). Poema integrante da série Raletando...
In: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Colombina e sua poesia romântica e erótica: esboço biográfico e seleção de poemas. São Paulo: J. Scortecci, 1987. p.33-10
toda a terra subir a um céu que desconheço
Olho nos olhos teus, e fica tão distante
o mundo: e todo o fel que ele contém, esqueço.
Sorris...E, contemplando o teu lindo semblante,
o ideal de minha vida, enfim, eu reconheço.
Falas...ouço-te a voz, e, impetuosa, radiante,
num gesto de ternura, os lábios te ofereço.
Beijas a minha boca. E, nesse beijo grande
— como uma flor que ao sol desabrocha e se expande—,
todo o meu ser palpita e freme e vibra e estua.
Tudo é um sonho, no entanto; o teu beijo...o meu crime.
Mentirosa ilusão! Pobre ilusão que exprime
somente o meu desejo imenso de ser tua!
Publicado no livro Versos em lá menor (1930). Poema integrante da série Raletando...
In: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Colombina e sua poesia romântica e erótica: esboço biográfico e seleção de poemas. São Paulo: J. Scortecci, 1987. p.33-10
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