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Poemas neste tema

Vida e Existência

Raimundo Bento Sotero

Raimundo Bento Sotero

Os Bastardos

Alta noite e eu andava descontente
Pela cidade horrivelmente feia;
Meia noite ou meia noite e meia
Um relógio bateu sinistramente.

Os meus passos rebeldes pela rua,
Assim como se fosse de animal,
Reboavam num silêncio sepulcral,
Enquanto lá no céu surgia a lua,

Que mais se parecia uma caveira
Amortalhando com a luz mortiça
Em cada escura esquina uma carniça
Que apodrecia até virar poeira.

Exalava na podre madrugada
Um bafio a cortar o meu pulmão
Do lixo revirado por um cão,
Que farejava à beira da calçada.

A cidade dormia convulsiva,
E só eu, como um verme solitário,
Ia seguindo meu itinerário
Com uma ansiedade compulsiva.

A rua parecia um cemitério,
E toda casa era uma sepultura
Onde jazia cada criatura
Amortalhada num mortal mistério;

Mas eu seguia pela rua torta,
Escutando as pancadas do meu peito
Que de tudo pulsava insatisfeito
Por entre as casas da cidade morta.

De repente, porém, um burburinho:
Era uma casa de carnal comércio,
Que me deixou mais triste que Propércio,
E eu não pude seguir o meu caminho.

Era de ser o foco, com certeza,
De toda podridão da vil cidade
Onde os homens em animalidade,
No cio, como um bicho atrás da presa,

Vinham à tentação de tais pecados
E assim como um bando de possessos,
Na fúria mais lasciva dos excessos,
Contorciam-se como invertebrados.

E cada um era um pai irresponsável
Que outro filho gerava ao desconforto,
E eu que observava tudo aquilo torto,
Achava aquilo tudo abominável.

Uma calça esquecida pelo dono
Sobre a saia da moça quase virgem
Provava todo mal que dava origem
À criança que vive no abandono.

E na fornicação de tal orgia,
Quem sabe um deles cometesse incesto
E fosse ao leito, sem nenhum protesto,
Da própria filha que desconhecia.

Cantava o galo pela noite afora;
Mas na luxúria de Sardanapalo
Não respeitavam o cantar do galo,
Nem davam conta do romper da Aurora.

E às pancadas do sino da matriz,
Lembraram-se de ir a santa missa,
E cada qual com a consciência omissa
De ter gerado mais um infeliz.

Era quase manhã e a contragosto
Um tardio que vinha à socapa,
Tentava se esconder atrás da capa;
Mas era tarde pra cobrir o rosto.

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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

ANIVERSÁRIO

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa como uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar pela vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim mesmo,
O que fui de coração e parentesco,
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui – ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas – doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado –,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...


15/10/1929 (publicado na Presença, nº 27, Junho-Julho de 1930)
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