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Poemas neste tema

Vida e Existência

Simone Brantes

Simone Brantes

O pau do doidinho

I
O doidinho me encontrou
uma vez sobre a ponte
O doidinho era só um pouco mais
velho que eu
irmão mais novo
de um menino com quem
eu jogava bola
O doidinho tirou
o pau de dentro
da calça
e me mostrou
Eu pedalei minha bicicleta
para longe
enquanto ele aflito
perguntava
– quer, quer, quer?
Me disseram que
até a morte do doidinho
ele tinha um medo
pânico e inexplicável
do meu pai
que ninguém sabia
por que
Hoje eu queria
poder dizer pro doidinho
que por muitos
anos eu me masturbei
pensando naquele
seu pau
que eu vi num relance
mas com a maior nitidez
um pau
roxo e cheio de veias
Que depois nenhum pau
pôde ser para mim O PAU
o arqui-pau
o pau do
doidinho

II
Tenho
um pau
acordo de noite
dentro de um sonho
e lá está ele
como sempre
incipiente
Não por ser pequeno
Não por ser disforme
Ele não é pequeno
não é disforme
É um pau quase igual a
qualquer outro
pau
É incipiente porque frágil
algo denso mas feito de
uma carne
orgânica e a desordenada
envolta por uma camada
de pele tão fina
tão à flor da pele
que penso que ele
vai romper
e seu conteúdo
estranho
vai se tornar visível
uma pele tão fina
tão rosa
tão transparente
fico com meu pau
na mão diante
do espelho
Me prometo que não
vou dormir
mas examiná-lo
em todos os seus detalhes
Talvez dar a ele uma duração
que prove a viabilidade
de um ser tão frágil
e dolorido
que ousa assim mostrar-se
pedir com delicadeza
um lugar no mundo
Tocam a campainha
e vou despachar quem bate
para voltar para junto
dele
Mas na volta
entre minhas
mãos
ele também se
foi
deixando como resto
um simples fio
 
III
O meu pau
sob uma pele
fina
frágil
rosa
uma carne
sem liga
uma carne amontoada
ali dentro
algo doce
e ao mesmo tempo
terrível
Agora sim é disforme
porque algo estranho
alguma entranha
vai sair dali
Me mantenho desperta
para olhar o pau
a sua cabeça
que é roxa
que é rosa

IV
Diante de um espelho
mas alguém bate na porta
eu vou atender
e despachar quem bate
Mas na volta
procuro o pau
e não há mais
só algo que míngua
entre as mãos
dentro do pijama
até se tornar
um fio

V
Há uma ponte no tempo
como há uma ponte
entre os sonhos
Agora sei que foi nessa ponte
que um dia encontrei o doidinho
o pau do doidinho
é o meu pau
Eu e o doidinho
o meu pau e o dele
no qual naquele
dia me amarrei
estão ligados
envoltos
na pele
de um cordão
umbilical
 
VI
Frágil
fino
rosa
roxo
dolorido
e
doce
terráqueo
e extraplanetário
como eu e o doidinho
como eu, o doidinho e você
680 1
Simone Brantes

Simone Brantes

O pau do doidinho

I
O doidinho me encontrou
uma vez sobre a ponte
O doidinho era só um pouco mais
velho que eu
irmão mais novo
de um menino com quem
eu jogava bola
O doidinho tirou
o pau de dentro
da calça
e me mostrou
Eu pedalei minha bicicleta
para longe
enquanto ele aflito
perguntava
– quer, quer, quer?
Me disseram que
até a morte do doidinho
ele tinha um medo
pânico e inexplicável
do meu pai
que ninguém sabia
por que
Hoje eu queria
poder dizer pro doidinho
que por muitos
anos eu me masturbei
pensando naquele
seu pau
que eu vi num relance
mas com a maior nitidez
um pau
roxo e cheio de veias
Que depois nenhum pau
pôde ser para mim O PAU
o arqui-pau
o pau do
doidinho

II
Tenho
um pau
acordo de noite
dentro de um sonho
e lá está ele
como sempre
incipiente
Não por ser pequeno
Não por ser disforme
Ele não é pequeno
não é disforme
É um pau quase igual a
qualquer outro
pau
É incipiente porque frágil
algo denso mas feito de
uma carne
orgânica e a desordenada
envolta por uma camada
de pele tão fina
tão à flor da pele
que penso que ele
vai romper
e seu conteúdo
estranho
vai se tornar visível
uma pele tão fina
tão rosa
tão transparente
fico com meu pau
na mão diante
do espelho
Me prometo que não
vou dormir
mas examiná-lo
em todos os seus detalhes
Talvez dar a ele uma duração
que prove a viabilidade
de um ser tão frágil
e dolorido
que ousa assim mostrar-se
pedir com delicadeza
um lugar no mundo
Tocam a campainha
e vou despachar quem bate
para voltar para junto
dele
Mas na volta
entre minhas
mãos
ele também se
foi
deixando como resto
um simples fio
 
III
O meu pau
sob uma pele
fina
frágil
rosa
uma carne
sem liga
uma carne amontoada
ali dentro
algo doce
e ao mesmo tempo
terrível
Agora sim é disforme
porque algo estranho
alguma entranha
vai sair dali
Me mantenho desperta
para olhar o pau
a sua cabeça
que é roxa
que é rosa

IV
Diante de um espelho
mas alguém bate na porta
eu vou atender
e despachar quem bate
Mas na volta
procuro o pau
e não há mais
só algo que míngua
entre as mãos
dentro do pijama
até se tornar
um fio

V
Há uma ponte no tempo
como há uma ponte
entre os sonhos
Agora sei que foi nessa ponte
que um dia encontrei o doidinho
o pau do doidinho
é o meu pau
Eu e o doidinho
o meu pau e o dele
no qual naquele
dia me amarrei
estão ligados
envoltos
na pele
de um cordão
umbilical
 
VI
Frágil
fino
rosa
roxo
dolorido
e
doce
terráqueo
e extraplanetário
como eu e o doidinho
como eu, o doidinho e você
680 1
Simone Brantes

Simone Brantes

O pau do doidinho

I
O doidinho me encontrou
uma vez sobre a ponte
O doidinho era só um pouco mais
velho que eu
irmão mais novo
de um menino com quem
eu jogava bola
O doidinho tirou
o pau de dentro
da calça
e me mostrou
Eu pedalei minha bicicleta
para longe
enquanto ele aflito
perguntava
– quer, quer, quer?
Me disseram que
até a morte do doidinho
ele tinha um medo
pânico e inexplicável
do meu pai
que ninguém sabia
por que
Hoje eu queria
poder dizer pro doidinho
que por muitos
anos eu me masturbei
pensando naquele
seu pau
que eu vi num relance
mas com a maior nitidez
um pau
roxo e cheio de veias
Que depois nenhum pau
pôde ser para mim O PAU
o arqui-pau
o pau do
doidinho

II
Tenho
um pau
acordo de noite
dentro de um sonho
e lá está ele
como sempre
incipiente
Não por ser pequeno
Não por ser disforme
Ele não é pequeno
não é disforme
É um pau quase igual a
qualquer outro
pau
É incipiente porque frágil
algo denso mas feito de
uma carne
orgânica e a desordenada
envolta por uma camada
de pele tão fina
tão à flor da pele
que penso que ele
vai romper
e seu conteúdo
estranho
vai se tornar visível
uma pele tão fina
tão rosa
tão transparente
fico com meu pau
na mão diante
do espelho
Me prometo que não
vou dormir
mas examiná-lo
em todos os seus detalhes
Talvez dar a ele uma duração
que prove a viabilidade
de um ser tão frágil
e dolorido
que ousa assim mostrar-se
pedir com delicadeza
um lugar no mundo
Tocam a campainha
e vou despachar quem bate
para voltar para junto
dele
Mas na volta
entre minhas
mãos
ele também se
foi
deixando como resto
um simples fio
 
III
O meu pau
sob uma pele
fina
frágil
rosa
uma carne
sem liga
uma carne amontoada
ali dentro
algo doce
e ao mesmo tempo
terrível
Agora sim é disforme
porque algo estranho
alguma entranha
vai sair dali
Me mantenho desperta
para olhar o pau
a sua cabeça
que é roxa
que é rosa

IV
Diante de um espelho
mas alguém bate na porta
eu vou atender
e despachar quem bate
Mas na volta
procuro o pau
e não há mais
só algo que míngua
entre as mãos
dentro do pijama
até se tornar
um fio

V
Há uma ponte no tempo
como há uma ponte
entre os sonhos
Agora sei que foi nessa ponte
que um dia encontrei o doidinho
o pau do doidinho
é o meu pau
Eu e o doidinho
o meu pau e o dele
no qual naquele
dia me amarrei
estão ligados
envoltos
na pele
de um cordão
umbilical
 
VI
Frágil
fino
rosa
roxo
dolorido
e
doce
terráqueo
e extraplanetário
como eu e o doidinho
como eu, o doidinho e você
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Marília Garcia

Marília Garcia

ESTRELAS DESCEM À TERRA

começo do começo,
que foi quando me pediram
os poemas que leria no encontro
“a voz do escritor”:
ainda faltava 1 mês
para este encontro
e eu não tinha ideia do que aconteceria
entre o dia do convite e o dia
de estar aqui hoje

assim,
esta voz que fala aqui
é a voz de uma marília de um mês atrás
é a minha voz falando a partir do passado,
é a minha voz,
mas sem controle.

há um mês eu não tinha
como prever o que aconteceria
e eu pensei que se este mês
seguisse o ritmo acelerado
e catastrófico do último ano
tanta coisa já teria
acontecido hoje,
que me dava medo
imaginar.
e eu fiquei me
perguntando:
— com quem estou falando aqui hoje?
e eu fiquei me perguntando:
— como fazer para essas palavras escritas
no passado dizerem algo
sobre estar aqui
agora?
e eu não soube responder.

então, fiquei me perguntando
se hoje faria frio ou não,
e se haveria poeira no ar.
eu sempre me surpreendo
com a poeira que turva a vista:
de repente no meio do dia
uma poeira que se ergue,
uma nuvem
de poeira,
pode ser a poeira vinda das coisas quebradas
todos os dias na vida das pessoas
e eu pensei que talvez a gente pudesse
fazer silêncio
e deixar a escuta aberta
para ouvir.

talvez a gente pudesse fazer silêncio
e de repente neste silêncio
acontecer de ouvir algo por detrás
dos ruídos das máquinas que
cruzam o céu.

talvez não desse para ouvir as máquinas voadoras
neste dia,
foi o que pensei,
mas eu me enganei
porque hoje
desde cedo
os helicópteros estão voando.
— vocês estão ouvindo?
um som infernal
estrelas caindo do céu
em cima da cabeça
o som está cada vez mais perto,
posso encostar a mão
se me viro vejo a sombra
em câmera lenta
sobre a cabeça.

imaginem que isso aqui é um quadrado
com drones volantes,
ou uma cena congelada
com o céu cheio de zepelins,
mas o som é um só:
barulho de máquinas
voadoras
pelo céu.

se a gente prestar atenção e fizer silêncio
— se a gente prestar atenção e fizer
silêncio —
pode ser que ouça
alguma mensagem
perdida no ar.
717 1
Marília Garcia

Marília Garcia

ESTRELAS DESCEM À TERRA

começo do começo,
que foi quando me pediram
os poemas que leria no encontro
“a voz do escritor”:
ainda faltava 1 mês
para este encontro
e eu não tinha ideia do que aconteceria
entre o dia do convite e o dia
de estar aqui hoje

assim,
esta voz que fala aqui
é a voz de uma marília de um mês atrás
é a minha voz falando a partir do passado,
é a minha voz,
mas sem controle.

há um mês eu não tinha
como prever o que aconteceria
e eu pensei que se este mês
seguisse o ritmo acelerado
e catastrófico do último ano
tanta coisa já teria
acontecido hoje,
que me dava medo
imaginar.
e eu fiquei me
perguntando:
— com quem estou falando aqui hoje?
e eu fiquei me perguntando:
— como fazer para essas palavras escritas
no passado dizerem algo
sobre estar aqui
agora?
e eu não soube responder.

então, fiquei me perguntando
se hoje faria frio ou não,
e se haveria poeira no ar.
eu sempre me surpreendo
com a poeira que turva a vista:
de repente no meio do dia
uma poeira que se ergue,
uma nuvem
de poeira,
pode ser a poeira vinda das coisas quebradas
todos os dias na vida das pessoas
e eu pensei que talvez a gente pudesse
fazer silêncio
e deixar a escuta aberta
para ouvir.

talvez a gente pudesse fazer silêncio
e de repente neste silêncio
acontecer de ouvir algo por detrás
dos ruídos das máquinas que
cruzam o céu.

talvez não desse para ouvir as máquinas voadoras
neste dia,
foi o que pensei,
mas eu me enganei
porque hoje
desde cedo
os helicópteros estão voando.
— vocês estão ouvindo?
um som infernal
estrelas caindo do céu
em cima da cabeça
o som está cada vez mais perto,
posso encostar a mão
se me viro vejo a sombra
em câmera lenta
sobre a cabeça.

imaginem que isso aqui é um quadrado
com drones volantes,
ou uma cena congelada
com o céu cheio de zepelins,
mas o som é um só:
barulho de máquinas
voadoras
pelo céu.

se a gente prestar atenção e fizer silêncio
— se a gente prestar atenção e fizer
silêncio —
pode ser que ouça
alguma mensagem
perdida no ar.
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