Poemas neste tema
Vida e Existência
Eugénio de Andrade
Deixa a mão
Deixa a mão
caminhar
perder o alento
até onde se não respira.
Deixa a mão
errar
sobre a cintura
apenas conivente
com nácar da língua.
Só um grito desde o chão
pode fulminá-la.
A morte
não é um segredo
não é em nós um jardim de areia.
De noite
no silêncio baço dos espelhos
um homem
pode trazer a morte pela mão.
Vou ensinar-te como se reconhece
repara
é ainda um rapaz
não acaba de crescer
nos ombros
a luz
desatada
a fulva
lucidez dos flancos.
A boca sobre a boca nevava.
caminhar
perder o alento
até onde se não respira.
Deixa a mão
errar
sobre a cintura
apenas conivente
com nácar da língua.
Só um grito desde o chão
pode fulminá-la.
A morte
não é um segredo
não é em nós um jardim de areia.
De noite
no silêncio baço dos espelhos
um homem
pode trazer a morte pela mão.
Vou ensinar-te como se reconhece
repara
é ainda um rapaz
não acaba de crescer
nos ombros
a luz
desatada
a fulva
lucidez dos flancos.
A boca sobre a boca nevava.
6 826
1
Eugénio de Andrade
Deixa a mão
Deixa a mão
caminhar
perder o alento
até onde se não respira.
Deixa a mão
errar
sobre a cintura
apenas conivente
com nácar da língua.
Só um grito desde o chão
pode fulminá-la.
A morte
não é um segredo
não é em nós um jardim de areia.
De noite
no silêncio baço dos espelhos
um homem
pode trazer a morte pela mão.
Vou ensinar-te como se reconhece
repara
é ainda um rapaz
não acaba de crescer
nos ombros
a luz
desatada
a fulva
lucidez dos flancos.
A boca sobre a boca nevava.
caminhar
perder o alento
até onde se não respira.
Deixa a mão
errar
sobre a cintura
apenas conivente
com nácar da língua.
Só um grito desde o chão
pode fulminá-la.
A morte
não é um segredo
não é em nós um jardim de areia.
De noite
no silêncio baço dos espelhos
um homem
pode trazer a morte pela mão.
Vou ensinar-te como se reconhece
repara
é ainda um rapaz
não acaba de crescer
nos ombros
a luz
desatada
a fulva
lucidez dos flancos.
A boca sobre a boca nevava.
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1
Bruna Lombardi
Uma mulher
Uma mulher caminha nua pelo quarto
é lenta como a luz daquela estrela
é tão secreta uma mulher que ao vê-la
nua no quarto pouco se sabe dela
a cor da pele, dos pêlos, o cabelo
o modo de pisar, algumas marcas
a curva arredondada de suas ancas
a parte onde a carne é mais branca
uma mulher é feita de mistérios
tudo se esconde: os sonhos, as axilas,
a vagina
ela envelhece e esconde uma menina
que permanece onde ela está agora
o homem que descobre uma mulher
será sempre o primeiro a ver a aurora.
é lenta como a luz daquela estrela
é tão secreta uma mulher que ao vê-la
nua no quarto pouco se sabe dela
a cor da pele, dos pêlos, o cabelo
o modo de pisar, algumas marcas
a curva arredondada de suas ancas
a parte onde a carne é mais branca
uma mulher é feita de mistérios
tudo se esconde: os sonhos, as axilas,
a vagina
ela envelhece e esconde uma menina
que permanece onde ela está agora
o homem que descobre uma mulher
será sempre o primeiro a ver a aurora.
3 973
1
Bruna Lombardi
Uma mulher
Uma mulher caminha nua pelo quarto
é lenta como a luz daquela estrela
é tão secreta uma mulher que ao vê-la
nua no quarto pouco se sabe dela
a cor da pele, dos pêlos, o cabelo
o modo de pisar, algumas marcas
a curva arredondada de suas ancas
a parte onde a carne é mais branca
uma mulher é feita de mistérios
tudo se esconde: os sonhos, as axilas,
a vagina
ela envelhece e esconde uma menina
que permanece onde ela está agora
o homem que descobre uma mulher
será sempre o primeiro a ver a aurora.
é lenta como a luz daquela estrela
é tão secreta uma mulher que ao vê-la
nua no quarto pouco se sabe dela
a cor da pele, dos pêlos, o cabelo
o modo de pisar, algumas marcas
a curva arredondada de suas ancas
a parte onde a carne é mais branca
uma mulher é feita de mistérios
tudo se esconde: os sonhos, as axilas,
a vagina
ela envelhece e esconde uma menina
que permanece onde ela está agora
o homem que descobre uma mulher
será sempre o primeiro a ver a aurora.
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1
António Botto
Ouve, meu anjo
Ouve, meu anjo:
Se eu beijasse a tua pele?
Se eu beijasse a tua boca
Onde a saliva é mel?
Tentou, severo, afastar-se
Num sorriso desdenhoso;
Mas aí!,
A carne do assasssino
É como a do virtuoso.
Numa atitude elegante,
Misterioso, gentil,
Deu-me o seu corpo doirado
Que eu beijei quase febril.
Na vidraça da janela,
A chuva, leve, tinia...
Ele apertou-me cerrando
Os olhos para sonhar -
E eu lentamente morria
Como um perfume no ar!
Se eu beijasse a tua pele?
Se eu beijasse a tua boca
Onde a saliva é mel?
Tentou, severo, afastar-se
Num sorriso desdenhoso;
Mas aí!,
A carne do assasssino
É como a do virtuoso.
Numa atitude elegante,
Misterioso, gentil,
Deu-me o seu corpo doirado
Que eu beijei quase febril.
Na vidraça da janela,
A chuva, leve, tinia...
Ele apertou-me cerrando
Os olhos para sonhar -
E eu lentamente morria
Como um perfume no ar!
3 166
1
Vitorino Nemésio
O recorte de um cão,na areia,ao luar,
Seu passo imprime
O cuidado miúdo e honesto de passar.
Mas que tristeza oprime
Tanto cão que vai uivar a tanta eira?
Que longo e liso,o fio da noite!
-E amar,esperar desta maneira!
Numa cidade deserta
(Talvez outra,ou Nínive)
Encontrei um anel,uma oferta,
Da vértebra de um cão,
Para uma mulher que já não vive.
Mas tudo isso foi em vão,
E até nem sei se esse osso tive.
de Eu,Comovido A
Oeste
O cuidado miúdo e honesto de passar.
Mas que tristeza oprime
Tanto cão que vai uivar a tanta eira?
Que longo e liso,o fio da noite!
-E amar,esperar desta maneira!
Numa cidade deserta
(Talvez outra,ou Nínive)
Encontrei um anel,uma oferta,
Da vértebra de um cão,
Para uma mulher que já não vive.
Mas tudo isso foi em vão,
E até nem sei se esse osso tive.
de Eu,Comovido A
Oeste
1 758
1
Cláudia Marczak
O sexo é sagrado
O sexo é sagrado,
como salgadas são as gotas de suor
que brotam dos meus poros
e encharcam nossas peles.
A noite é meu templo
onde me torno uma deusa enlouquecida
sentindo teus pelos sobre a minha pele.
Neste instante já não sou nada,
somente corpo,
boca,
pele,
pêlos,
línguas,
bocas.
E a vida brota da semente,
dos poucos segundos de êxtase.
Tuas mãos como um brinquedo
passeiam pelo meu corpo.
Não revelam segredos
desvendam apenas o pudor do mundo,
descobrem a febre dos animais.
Então nos tornamos um
ao mesmo tempo em que
a escuridão explode em festa.
A noite amanhece sem versos,
com a música do seu hálito ofegante.
O sol brota de dentro de mim.
Breves segundos.
Por alguns instantes dispo-me do sofrimento.
Eu fui feliz.
como salgadas são as gotas de suor
que brotam dos meus poros
e encharcam nossas peles.
A noite é meu templo
onde me torno uma deusa enlouquecida
sentindo teus pelos sobre a minha pele.
Neste instante já não sou nada,
somente corpo,
boca,
pele,
pêlos,
línguas,
bocas.
E a vida brota da semente,
dos poucos segundos de êxtase.
Tuas mãos como um brinquedo
passeiam pelo meu corpo.
Não revelam segredos
desvendam apenas o pudor do mundo,
descobrem a febre dos animais.
Então nos tornamos um
ao mesmo tempo em que
a escuridão explode em festa.
A noite amanhece sem versos,
com a música do seu hálito ofegante.
O sol brota de dentro de mim.
Breves segundos.
Por alguns instantes dispo-me do sofrimento.
Eu fui feliz.
1 896
1
Luiza Neto Jorge
SO-NETO JORGE,Luiza
A silabar que o poema é estulto
o amado abre os dentes e eu deslizo;
sismos,orgasmos tremem-lhe no olhar
enquanto eu,quase a rimar,exulto.
Conheço toda a terra só de amar:
sem nós e sem desvãos,um corpo liso.
Tenho o mênstruo escondido num reduto
onde teoricamente chega o mar.
Nos desertos-íntimos,insuspeitos-
já caem com a calma as avestruzes
-ou a distância,com os oásis,finda;
à medida que nos arcaicos leitos
se vão molhando vozes e alcatruzes
ao descerem ao fundo pego,e à vinda.
de O Amor e o Ócio
o amado abre os dentes e eu deslizo;
sismos,orgasmos tremem-lhe no olhar
enquanto eu,quase a rimar,exulto.
Conheço toda a terra só de amar:
sem nós e sem desvãos,um corpo liso.
Tenho o mênstruo escondido num reduto
onde teoricamente chega o mar.
Nos desertos-íntimos,insuspeitos-
já caem com a calma as avestruzes
-ou a distância,com os oásis,finda;
à medida que nos arcaicos leitos
se vão molhando vozes e alcatruzes
ao descerem ao fundo pego,e à vinda.
de O Amor e o Ócio
2 035
1
Luís Miguel Nava
O abismo
Com a sua pele de poço,
pele comprometida com o medo que no fundo fede e a que,
digamos,toda ela adere de uma forma resoluta,
dir-se-ia que se engancha, se pendura,
o branco da memória a alastrar pelo corpo,
um branco tão branco como o das noites em branco
e sobre o qual a idade, exorbitada, hiante, se insinua,
pensos, ligaduras, impregnados de memória,
uma memória onde fulgura a lava dos sentidos que entram
em actividade e lhe disputam os dias idos,
assim ergue a balança,onde sustém o abismo.
pele comprometida com o medo que no fundo fede e a que,
digamos,toda ela adere de uma forma resoluta,
dir-se-ia que se engancha, se pendura,
o branco da memória a alastrar pelo corpo,
um branco tão branco como o das noites em branco
e sobre o qual a idade, exorbitada, hiante, se insinua,
pensos, ligaduras, impregnados de memória,
uma memória onde fulgura a lava dos sentidos que entram
em actividade e lhe disputam os dias idos,
assim ergue a balança,onde sustém o abismo.
1 936
1
Luís Miguel Nava
O abismo
Com a sua pele de poço,
pele comprometida com o medo que no fundo fede e a que,
digamos,toda ela adere de uma forma resoluta,
dir-se-ia que se engancha, se pendura,
o branco da memória a alastrar pelo corpo,
um branco tão branco como o das noites em branco
e sobre o qual a idade, exorbitada, hiante, se insinua,
pensos, ligaduras, impregnados de memória,
uma memória onde fulgura a lava dos sentidos que entram
em actividade e lhe disputam os dias idos,
assim ergue a balança,onde sustém o abismo.
pele comprometida com o medo que no fundo fede e a que,
digamos,toda ela adere de uma forma resoluta,
dir-se-ia que se engancha, se pendura,
o branco da memória a alastrar pelo corpo,
um branco tão branco como o das noites em branco
e sobre o qual a idade, exorbitada, hiante, se insinua,
pensos, ligaduras, impregnados de memória,
uma memória onde fulgura a lava dos sentidos que entram
em actividade e lhe disputam os dias idos,
assim ergue a balança,onde sustém o abismo.
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Luís Miguel Nava
O abismo
Com a sua pele de poço,
pele comprometida com o medo que no fundo fede e a que,
digamos,toda ela adere de uma forma resoluta,
dir-se-ia que se engancha, se pendura,
o branco da memória a alastrar pelo corpo,
um branco tão branco como o das noites em branco
e sobre o qual a idade, exorbitada, hiante, se insinua,
pensos, ligaduras, impregnados de memória,
uma memória onde fulgura a lava dos sentidos que entram
em actividade e lhe disputam os dias idos,
assim ergue a balança,onde sustém o abismo.
pele comprometida com o medo que no fundo fede e a que,
digamos,toda ela adere de uma forma resoluta,
dir-se-ia que se engancha, se pendura,
o branco da memória a alastrar pelo corpo,
um branco tão branco como o das noites em branco
e sobre o qual a idade, exorbitada, hiante, se insinua,
pensos, ligaduras, impregnados de memória,
uma memória onde fulgura a lava dos sentidos que entram
em actividade e lhe disputam os dias idos,
assim ergue a balança,onde sustém o abismo.
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Octavio Paz
El Sediento
Por buscarme,poesía,
en ti me busqué:
deshecha estrella de agua
se anegó mi ser.
Por buscarte,poesía,
en mí naufragué.
Después sólo te buscaba
por huir de mí:
!espesura de reflejos
en que me perdí!
Mas lueho de tanta vuelta
otra vez me vi:
el mismo rostro anegado
en la misma desnudez;
la misma aguas de espejo
en las que no he de beber;
y en ele borde de esas aguas
el mismo muerto de sed.
en ti me busqué:
deshecha estrella de agua
se anegó mi ser.
Por buscarte,poesía,
en mí naufragué.
Después sólo te buscaba
por huir de mí:
!espesura de reflejos
en que me perdí!
Mas lueho de tanta vuelta
otra vez me vi:
el mismo rostro anegado
en la misma desnudez;
la misma aguas de espejo
en las que no he de beber;
y en ele borde de esas aguas
el mismo muerto de sed.
6 189
1
José Tolentino Mendonça
Mercado velho, Machico
Uma paisagem muito ao longe
quando se regressa
continuamos a vê-la no escuro
fechamos os olhos,sentimo-nos vivos
na sucessão dos séculos
falamos de súbito
daquilo que nos assusta
um segredo demasiado intenso
o malogro dos códigos
qualquer ideia extrema
que destrói o mundo e não queríamos
mas estamos tão pouco
onde estamos
quando se regressa
continuamos a vê-la no escuro
fechamos os olhos,sentimo-nos vivos
na sucessão dos séculos
falamos de súbito
daquilo que nos assusta
um segredo demasiado intenso
o malogro dos códigos
qualquer ideia extrema
que destrói o mundo e não queríamos
mas estamos tão pouco
onde estamos
1 997
1
José Tolentino Mendonça
Mercado velho, Machico
Uma paisagem muito ao longe
quando se regressa
continuamos a vê-la no escuro
fechamos os olhos,sentimo-nos vivos
na sucessão dos séculos
falamos de súbito
daquilo que nos assusta
um segredo demasiado intenso
o malogro dos códigos
qualquer ideia extrema
que destrói o mundo e não queríamos
mas estamos tão pouco
onde estamos
quando se regressa
continuamos a vê-la no escuro
fechamos os olhos,sentimo-nos vivos
na sucessão dos séculos
falamos de súbito
daquilo que nos assusta
um segredo demasiado intenso
o malogro dos códigos
qualquer ideia extrema
que destrói o mundo e não queríamos
mas estamos tão pouco
onde estamos
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1
Ernesto de Melo e Castro
Autobiografia fenómeno-F(re)udiana
fui chulo dancei a chula
fui lira dancei o vira
fui drogas comi doutoras
fui tinta mijei tinteiro
só não fui é paneleiro
fui minas chupei meninas
consumi os 3 de vez
entortei cornos que fiz
ganhei e perdi dinheiro
só não fui é paneleiro
fui língua cantei o tango
fui fraco fodi o frango
fui marido fui comido
no mastro do meu veleiro
só não fui é paneleiro
fui punho bati punheta
fui alho chupei alheira
fui corno toquei corneta
fui vivo virei viveiro
só não fui é paneleiro
trinquei as mamas às amas
toquei árias às canárias
virei as telhas às velhas
comi putas sem dinheiro
só não fui é paneleiro
e de tudo o que já fui
a pena me dá no cu
de prazer tão verdadeiro
só não sou é paneleiro.
fui lira dancei o vira
fui drogas comi doutoras
fui tinta mijei tinteiro
só não fui é paneleiro
fui minas chupei meninas
consumi os 3 de vez
entortei cornos que fiz
ganhei e perdi dinheiro
só não fui é paneleiro
fui língua cantei o tango
fui fraco fodi o frango
fui marido fui comido
no mastro do meu veleiro
só não fui é paneleiro
fui punho bati punheta
fui alho chupei alheira
fui corno toquei corneta
fui vivo virei viveiro
só não fui é paneleiro
trinquei as mamas às amas
toquei árias às canárias
virei as telhas às velhas
comi putas sem dinheiro
só não fui é paneleiro
e de tudo o que já fui
a pena me dá no cu
de prazer tão verdadeiro
só não sou é paneleiro.
1 310
1
Ernesto de Melo e Castro
Autobiografia fenómeno-F(re)udiana
fui chulo dancei a chula
fui lira dancei o vira
fui drogas comi doutoras
fui tinta mijei tinteiro
só não fui é paneleiro
fui minas chupei meninas
consumi os 3 de vez
entortei cornos que fiz
ganhei e perdi dinheiro
só não fui é paneleiro
fui língua cantei o tango
fui fraco fodi o frango
fui marido fui comido
no mastro do meu veleiro
só não fui é paneleiro
fui punho bati punheta
fui alho chupei alheira
fui corno toquei corneta
fui vivo virei viveiro
só não fui é paneleiro
trinquei as mamas às amas
toquei árias às canárias
virei as telhas às velhas
comi putas sem dinheiro
só não fui é paneleiro
e de tudo o que já fui
a pena me dá no cu
de prazer tão verdadeiro
só não sou é paneleiro.
fui lira dancei o vira
fui drogas comi doutoras
fui tinta mijei tinteiro
só não fui é paneleiro
fui minas chupei meninas
consumi os 3 de vez
entortei cornos que fiz
ganhei e perdi dinheiro
só não fui é paneleiro
fui língua cantei o tango
fui fraco fodi o frango
fui marido fui comido
no mastro do meu veleiro
só não fui é paneleiro
fui punho bati punheta
fui alho chupei alheira
fui corno toquei corneta
fui vivo virei viveiro
só não fui é paneleiro
trinquei as mamas às amas
toquei árias às canárias
virei as telhas às velhas
comi putas sem dinheiro
só não fui é paneleiro
e de tudo o que já fui
a pena me dá no cu
de prazer tão verdadeiro
só não sou é paneleiro.
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Desconhecido
Poesia da menina tesuda
Já tenho quinze anos
Acho que estou crescendo
E quando tiver dezoito
Já quero estar fudendo
Já está chegando o tempo
Estou ficando coxuda
Meus seios estão crescendo
E minha buceta peluda
O rapaz com quem me casar
Não quero que seja broxa
Quero mesmo que ele tenha
Uma pica comprida e grossa
E quando estiver atrasado
Conte com esta buceta
Não fica bem um marmanjão
Se acabando na punheta
E prá quem não sabe
Punheta é a maior ilusão
Você pensa que está fudendo
Mas tá com o caralho na mão
E agora eu me despeço
Fazendo bilú-bilú
Com três dedos na buceta
E dois dedos no cu.
Acho que estou crescendo
E quando tiver dezoito
Já quero estar fudendo
Já está chegando o tempo
Estou ficando coxuda
Meus seios estão crescendo
E minha buceta peluda
O rapaz com quem me casar
Não quero que seja broxa
Quero mesmo que ele tenha
Uma pica comprida e grossa
E quando estiver atrasado
Conte com esta buceta
Não fica bem um marmanjão
Se acabando na punheta
E prá quem não sabe
Punheta é a maior ilusão
Você pensa que está fudendo
Mas tá com o caralho na mão
E agora eu me despeço
Fazendo bilú-bilú
Com três dedos na buceta
E dois dedos no cu.
4 518
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Desconhecido
Poesia da menina tesuda
Já tenho quinze anos
Acho que estou crescendo
E quando tiver dezoito
Já quero estar fudendo
Já está chegando o tempo
Estou ficando coxuda
Meus seios estão crescendo
E minha buceta peluda
O rapaz com quem me casar
Não quero que seja broxa
Quero mesmo que ele tenha
Uma pica comprida e grossa
E quando estiver atrasado
Conte com esta buceta
Não fica bem um marmanjão
Se acabando na punheta
E prá quem não sabe
Punheta é a maior ilusão
Você pensa que está fudendo
Mas tá com o caralho na mão
E agora eu me despeço
Fazendo bilú-bilú
Com três dedos na buceta
E dois dedos no cu.
Acho que estou crescendo
E quando tiver dezoito
Já quero estar fudendo
Já está chegando o tempo
Estou ficando coxuda
Meus seios estão crescendo
E minha buceta peluda
O rapaz com quem me casar
Não quero que seja broxa
Quero mesmo que ele tenha
Uma pica comprida e grossa
E quando estiver atrasado
Conte com esta buceta
Não fica bem um marmanjão
Se acabando na punheta
E prá quem não sabe
Punheta é a maior ilusão
Você pensa que está fudendo
Mas tá com o caralho na mão
E agora eu me despeço
Fazendo bilú-bilú
Com três dedos na buceta
E dois dedos no cu.
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1
Anna Akhmatova
A sentença
A sentença
A palavra
caiu pétrea
no meu seio ainda vivo.
Não importa, eu já esperava,
de certo modo eu sabia.
Tenho muito
a fazer hoje:
matar memórias de vez,
para a alma ser de pedra
a viver mais aprender.
Ou ... o estralejar
do ardente Estio
como, além da janela, um feriado.
Há muito tempo já que vinham vindo
o luminoso dia e a vazia casa.
E não
me consentirá
que leve nada comigo
(por mais que eu peça e suplique,
por mais que a moa a rezar):
não
os olhos do meu filho,
sofrimento como pedra,
o dia de tempestade,
nem a hora da visita,
o suave frio
das mãos,
o rugir de sombras de árvore,
nem o distante som leve -
consolação das últimas palavras.
A palavra
caiu pétrea
no meu seio ainda vivo.
Não importa, eu já esperava,
de certo modo eu sabia.
Tenho muito
a fazer hoje:
matar memórias de vez,
para a alma ser de pedra
a viver mais aprender.
Ou ... o estralejar
do ardente Estio
como, além da janela, um feriado.
Há muito tempo já que vinham vindo
o luminoso dia e a vazia casa.
E não
me consentirá
que leve nada comigo
(por mais que eu peça e suplique,
por mais que a moa a rezar):
não
os olhos do meu filho,
sofrimento como pedra,
o dia de tempestade,
nem a hora da visita,
o suave frio
das mãos,
o rugir de sombras de árvore,
nem o distante som leve -
consolação das últimas palavras.
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1
Stela Fonseca
Prazer e êxtase
O prazer se
faz em êxtase:
quando o
meu corpo,
feito água,
descobre
todos os
caminhos
do seu.
E deixa-se
ficar
onde você
mergulha em
mim.
faz em êxtase:
quando o
meu corpo,
feito água,
descobre
todos os
caminhos
do seu.
E deixa-se
ficar
onde você
mergulha em
mim.
1 328
1
Adélia Prado
Moça Na Sua Cama
Papai tosse, dando aviso de si,
vem examinar as tramelas, uma a uma.
A cumeeira da casa é de peroba-do-campo,
posso dormir sossegada. Mamãe vem me cobrir,
tomo a bênção e fujo atrás dos homens,
me contendo por usura, fazendo render o bom.
Se me tocar, desencadeio as chusmas,
os peixezinhos cardumes.
Os topázios me ardem onde mamãe sabe,
por isso ela me diz com ciúmes:
dorme logo, que é tarde.
Sim, mamãe, já vou:
passear na praça sem ninguém me ralhar.
Adeus, que me cuido, vou campear nos becos,
moa de moços no bar, violão e olhos
difíceis de sair de mim.
Quando esta nossa cidade ressonar em neblina,
os moços marianos vão me esperar na matriz.
O céu é aqui, mamãe.
Que bom não ser livro inspirado
o catecismo da doutrina cristã,
posso adiar meus escrúpulos
e cavalgar no torpor
dos monsenhores podados.
Posso sofrer amanhã
a linda nódoa de vinho
das flores murchas no chão.
As fábricas têm os seus pátios,
os muros têm seu atrás.
No quartel são gentis comigo.
Não quero chá, minha mãe,
quero a mão do frei Crisóstomo
me ungindo com óleo santo.
Da vida quero a paixão.
E quero escravos, sou lassa.
Com amor de zanga e momo
quero minha cama de catre,
o santo anjo do Senhor,
meu zeloso guardador.
Mas descansa, que ele é eunuco, mamãe.
vem examinar as tramelas, uma a uma.
A cumeeira da casa é de peroba-do-campo,
posso dormir sossegada. Mamãe vem me cobrir,
tomo a bênção e fujo atrás dos homens,
me contendo por usura, fazendo render o bom.
Se me tocar, desencadeio as chusmas,
os peixezinhos cardumes.
Os topázios me ardem onde mamãe sabe,
por isso ela me diz com ciúmes:
dorme logo, que é tarde.
Sim, mamãe, já vou:
passear na praça sem ninguém me ralhar.
Adeus, que me cuido, vou campear nos becos,
moa de moços no bar, violão e olhos
difíceis de sair de mim.
Quando esta nossa cidade ressonar em neblina,
os moços marianos vão me esperar na matriz.
O céu é aqui, mamãe.
Que bom não ser livro inspirado
o catecismo da doutrina cristã,
posso adiar meus escrúpulos
e cavalgar no torpor
dos monsenhores podados.
Posso sofrer amanhã
a linda nódoa de vinho
das flores murchas no chão.
As fábricas têm os seus pátios,
os muros têm seu atrás.
No quartel são gentis comigo.
Não quero chá, minha mãe,
quero a mão do frei Crisóstomo
me ungindo com óleo santo.
Da vida quero a paixão.
E quero escravos, sou lassa.
Com amor de zanga e momo
quero minha cama de catre,
o santo anjo do Senhor,
meu zeloso guardador.
Mas descansa, que ele é eunuco, mamãe.
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1
Adélia Prado
Moça Na Sua Cama
Papai tosse, dando aviso de si,
vem examinar as tramelas, uma a uma.
A cumeeira da casa é de peroba-do-campo,
posso dormir sossegada. Mamãe vem me cobrir,
tomo a bênção e fujo atrás dos homens,
me contendo por usura, fazendo render o bom.
Se me tocar, desencadeio as chusmas,
os peixezinhos cardumes.
Os topázios me ardem onde mamãe sabe,
por isso ela me diz com ciúmes:
dorme logo, que é tarde.
Sim, mamãe, já vou:
passear na praça sem ninguém me ralhar.
Adeus, que me cuido, vou campear nos becos,
moa de moços no bar, violão e olhos
difíceis de sair de mim.
Quando esta nossa cidade ressonar em neblina,
os moços marianos vão me esperar na matriz.
O céu é aqui, mamãe.
Que bom não ser livro inspirado
o catecismo da doutrina cristã,
posso adiar meus escrúpulos
e cavalgar no torpor
dos monsenhores podados.
Posso sofrer amanhã
a linda nódoa de vinho
das flores murchas no chão.
As fábricas têm os seus pátios,
os muros têm seu atrás.
No quartel são gentis comigo.
Não quero chá, minha mãe,
quero a mão do frei Crisóstomo
me ungindo com óleo santo.
Da vida quero a paixão.
E quero escravos, sou lassa.
Com amor de zanga e momo
quero minha cama de catre,
o santo anjo do Senhor,
meu zeloso guardador.
Mas descansa, que ele é eunuco, mamãe.
vem examinar as tramelas, uma a uma.
A cumeeira da casa é de peroba-do-campo,
posso dormir sossegada. Mamãe vem me cobrir,
tomo a bênção e fujo atrás dos homens,
me contendo por usura, fazendo render o bom.
Se me tocar, desencadeio as chusmas,
os peixezinhos cardumes.
Os topázios me ardem onde mamãe sabe,
por isso ela me diz com ciúmes:
dorme logo, que é tarde.
Sim, mamãe, já vou:
passear na praça sem ninguém me ralhar.
Adeus, que me cuido, vou campear nos becos,
moa de moços no bar, violão e olhos
difíceis de sair de mim.
Quando esta nossa cidade ressonar em neblina,
os moços marianos vão me esperar na matriz.
O céu é aqui, mamãe.
Que bom não ser livro inspirado
o catecismo da doutrina cristã,
posso adiar meus escrúpulos
e cavalgar no torpor
dos monsenhores podados.
Posso sofrer amanhã
a linda nódoa de vinho
das flores murchas no chão.
As fábricas têm os seus pátios,
os muros têm seu atrás.
No quartel são gentis comigo.
Não quero chá, minha mãe,
quero a mão do frei Crisóstomo
me ungindo com óleo santo.
Da vida quero a paixão.
E quero escravos, sou lassa.
Com amor de zanga e momo
quero minha cama de catre,
o santo anjo do Senhor,
meu zeloso guardador.
Mas descansa, que ele é eunuco, mamãe.
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Georges Brassens
O malandro arrependido
Ela tinha uma cintura bem torneada
cadeiras cheias
e caçava os machos nos arredores da Madeleine.
pelo seu jeito de me dizer: Meu anjo
te apeteço?
eu vi logo que se tratava de uma debutante.
Ela tinha talento, é verdade, eu o confesso.
Ela tinha gênio,
mas sem técnica um dom não é nada.
Certamente não é tão fácil ser puta como ser freira,
pelo menos é o que se reza em latim na Sorbonne.
Sentindo-me cheio de piedade pela donzela
ensinei-lhe os pequenos truques de sua profissão
e ensinei-lhe os meios para fazer logo fortuna
rebolando o lugar onde as costas se assemelham à lua,
Porque na arte de fazer o trottoir, confesso,
o difícil é saber mexer bem a bunda.
Não se mexe a bunda da mesma maneira
para um farmacêutico, um sacristão, um funcionário.
Rapidamente instruída por meus bons ofícios
ela cedeu-me uma parte de seus benefícios.
Ajudavamo-nos mutuamente, como diz o poeta:
ela era o corpo, naturalmente, e eu a cabeça.
Quando a coitada voltava para casa sem nada
dava-lhe umas porradas mais do que com razão.
Será que ela se lembra ainda do bidê com
que lhe rachei o crânio?
Uma noite, por causa de manobras duvidosas
ela caiu vítima de uma doença vergonhosa,
então, amigavelmente, como uma moça honesta
passou-me a metade de seus micróbios.
Depois de dolorosas injeções de antibióticos
desisti da profissão de cornudo sistemático.
Não adiantou que ela chorasse e gritasse feita louca
e, como eu era apenas um canalha, fiz-me honesto.
Privado logo de minha tutela, minha pobre amiga,
correu a suportar as infâmias do bordel.
Dizem que ela se vendeu até aos tiras!
Que decadência!
Já não existe mais moralidade pública
na nossa França!
cadeiras cheias
e caçava os machos nos arredores da Madeleine.
pelo seu jeito de me dizer: Meu anjo
te apeteço?
eu vi logo que se tratava de uma debutante.
Ela tinha talento, é verdade, eu o confesso.
Ela tinha gênio,
mas sem técnica um dom não é nada.
Certamente não é tão fácil ser puta como ser freira,
pelo menos é o que se reza em latim na Sorbonne.
Sentindo-me cheio de piedade pela donzela
ensinei-lhe os pequenos truques de sua profissão
e ensinei-lhe os meios para fazer logo fortuna
rebolando o lugar onde as costas se assemelham à lua,
Porque na arte de fazer o trottoir, confesso,
o difícil é saber mexer bem a bunda.
Não se mexe a bunda da mesma maneira
para um farmacêutico, um sacristão, um funcionário.
Rapidamente instruída por meus bons ofícios
ela cedeu-me uma parte de seus benefícios.
Ajudavamo-nos mutuamente, como diz o poeta:
ela era o corpo, naturalmente, e eu a cabeça.
Quando a coitada voltava para casa sem nada
dava-lhe umas porradas mais do que com razão.
Será que ela se lembra ainda do bidê com
que lhe rachei o crânio?
Uma noite, por causa de manobras duvidosas
ela caiu vítima de uma doença vergonhosa,
então, amigavelmente, como uma moça honesta
passou-me a metade de seus micróbios.
Depois de dolorosas injeções de antibióticos
desisti da profissão de cornudo sistemático.
Não adiantou que ela chorasse e gritasse feita louca
e, como eu era apenas um canalha, fiz-me honesto.
Privado logo de minha tutela, minha pobre amiga,
correu a suportar as infâmias do bordel.
Dizem que ela se vendeu até aos tiras!
Que decadência!
Já não existe mais moralidade pública
na nossa França!
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Marina Tsvetaeva
Poetas
Poetas
O poeta – começa a falar de longe.
Ao poeta – a fala leva-o longe.
Por planetas,agoiros, buracos de fábulas
Sinuosas Entre sim e não, mesmo
Ao lançar-se do campanário fará
Um rodeio Porque a roda dos cometas –
É a rota dos poetas. Com os elos dispersos
Da causalidade– se liga! Com a fronte
Virada ao alto – te desespera! Não constam
Do calendário os eclipses do poeta.
É aquele que baralha as cartas, ilude
O peso e a medida, o que faz perguntas
Interrompendo a professora, é aquele
Que desbarata o Kant.
É ele quem, no pétreo caixão das Bastilhas,
Se ergue como árvore em toda a sua beleza.
Aquele de quem se perdem sempre as pegadas,
É aquele comboio que toda a gente
Perde -
Porque a rota dos cometas
É a rota dos poetas: queimando sem calor,
Arrancando sem semear – explodir, romper –
O teu rumo, a tua curva de crinas,
Não consta do calendário!
8 de
Abril de 1923
(tradução
de Nina Guerra e Filipe Guerra)
O poeta – começa a falar de longe.
Ao poeta – a fala leva-o longe.
Por planetas,agoiros, buracos de fábulas
Sinuosas Entre sim e não, mesmo
Ao lançar-se do campanário fará
Um rodeio Porque a roda dos cometas –
É a rota dos poetas. Com os elos dispersos
Da causalidade– se liga! Com a fronte
Virada ao alto – te desespera! Não constam
Do calendário os eclipses do poeta.
É aquele que baralha as cartas, ilude
O peso e a medida, o que faz perguntas
Interrompendo a professora, é aquele
Que desbarata o Kant.
É ele quem, no pétreo caixão das Bastilhas,
Se ergue como árvore em toda a sua beleza.
Aquele de quem se perdem sempre as pegadas,
É aquele comboio que toda a gente
Perde -
Porque a rota dos cometas
É a rota dos poetas: queimando sem calor,
Arrancando sem semear – explodir, romper –
O teu rumo, a tua curva de crinas,
Não consta do calendário!
8 de
Abril de 1923
(tradução
de Nina Guerra e Filipe Guerra)
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