Poemas neste tema
Vida e Existência
Sérgio Medeiros
O que flutua
– a folha no chão é tal
qual a casca de uma banana
muito madura de
um marrom-escuro
mas de repente é
empurrada pelo vento
e flutua rente ao chão
indo embora loucamente
qual a casca de uma banana
muito madura de
um marrom-escuro
mas de repente é
empurrada pelo vento
e flutua rente ao chão
indo embora loucamente
782
Mário-Henrique Leiria
RIFÃO QUOTIDIANO
Uma nêspera
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia
chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a
é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece
estava na cama
deitada
muito calada
a ver
o que acontecia
chegou a Velha
e disse
olha uma nêspera
e zás comeu-a
é o que acontece
às nêsperas
que ficam deitadas
caladas
a esperar
o que acontece
1 353
Francesca Angiolillo
Uma carta não enviada de Teerã
Tendo que me haver
com a dor
pergunto-me se existiria
a dor
em Teerã
existiria
em Teerã
a dor da sua perda
a dor dos dias azuis
que se foram
– tão azuis sobre
a rua vazia
tão vazia
a não ser por
você e eu
você a quem
dirijo estas palavras
viverá para sempre
quem a gente ama
não cessa nunca
de viver aqui
ou em Teerã
existiria em Teerã
a melodia confusa
do idioma farsi
a falar de ogivas
de reatores
de urânio
de água pesada
de minas escondidas
de explosões
nas montanhas
há montanhas em Teerã
e picos nevados
há inverno em Teerã
e há carros
muitos carros
que pronunciam sua pressa
sobre viadutos
ao redor de monumentos
através de túneis enormes
em Teerã
igualmente poderia falar
de um doce de
mel de
rosas
de gazelas
tudo seria indistinto
em Teerã
o vendedor diria
laranjas
e não saberíamos como se diz
laranjas
diria nozes melões tangerinas
diria cerejas pêssegos uvas
diria romãs de Teerã
e nada disso saberíamos dizer
ouviríamos nomes
terminados em
i
e em nenhum deles caberia
a redondilha menor
do seu nome
as ascendentes e descendentes
do seu nome
não marcariam página alguma
em Teerã
quiçá
não existisse
a marca que é
a falta do meu pai
em Teerã
imersa estaria eu
no balbucio
murmurejante
no acalanto
do sem sentido
em Teerã
até que me viesse pescar
um nítido
um claro
mérci
recordando o gesto
importado
de outra civilização tomado
de empréstimo
pela diplomacia persa
aquela que
fere
com um elogio
tão discretamente como quem
toma devagar seu café
num café da manhã
em Teerã
com a dor
pergunto-me se existiria
a dor
em Teerã
existiria
em Teerã
a dor da sua perda
a dor dos dias azuis
que se foram
– tão azuis sobre
a rua vazia
tão vazia
a não ser por
você e eu
você a quem
dirijo estas palavras
viverá para sempre
quem a gente ama
não cessa nunca
de viver aqui
ou em Teerã
existiria em Teerã
a melodia confusa
do idioma farsi
a falar de ogivas
de reatores
de urânio
de água pesada
de minas escondidas
de explosões
nas montanhas
há montanhas em Teerã
e picos nevados
há inverno em Teerã
e há carros
muitos carros
que pronunciam sua pressa
sobre viadutos
ao redor de monumentos
através de túneis enormes
em Teerã
igualmente poderia falar
de um doce de
mel de
rosas
de gazelas
tudo seria indistinto
em Teerã
o vendedor diria
laranjas
e não saberíamos como se diz
laranjas
diria nozes melões tangerinas
diria cerejas pêssegos uvas
diria romãs de Teerã
e nada disso saberíamos dizer
ouviríamos nomes
terminados em
i
e em nenhum deles caberia
a redondilha menor
do seu nome
as ascendentes e descendentes
do seu nome
não marcariam página alguma
em Teerã
quiçá
não existisse
a marca que é
a falta do meu pai
em Teerã
imersa estaria eu
no balbucio
murmurejante
no acalanto
do sem sentido
em Teerã
até que me viesse pescar
um nítido
um claro
mérci
recordando o gesto
importado
de outra civilização tomado
de empréstimo
pela diplomacia persa
aquela que
fere
com um elogio
tão discretamente como quem
toma devagar seu café
num café da manhã
em Teerã
636
Antônio Olinto
O crime da máquina
A máquina rodou só
nos trilhos limpos,
foi matar a menina de vermelho.
Bastou um grito para o espanto
fixar-se na tarde.
Desceu gente de longe,
homens pisaram pedras,
mulheres jogaram noites na pressa,
os pais surgiram de súbito.
Um sangue ungia rodas e trilhos,
pedaço de vestido repousava em dormente.
Lanternas acesas na lida em vôo,
foram examinar a máquina,
o freio intacto,
as peças nuas,
a chaminé parada em pânico.
Rodara só
nos trilhos limpos.
Em desvio de falas,
colheram saudades da menina,
assistiram ao desfile das pausas,
contaram casos de nascimento.
A manhã parou na máquina,
os homens trouxeram cadeiras,
fizeram um círculo de vozes,
ergueram pedaços do crime.
Depois, tomaram café,
deram seus votos
e fitaram, em rápida apreensão,
a máquina condenada.
Levaram-na para um desvio,
destruíram os trilhos de um lado e de outro,
fundaram cerca de arame ao redor,
deixaram placa de madeira
com letras em quase cruz.
Quando as outras máquinas passam
nos trilhos mais longe
apitam avisos,
rodam mandadas,
contemplam a cela tênue,
plantas agora buscando as fendas
da quieta locomotiva.
nos trilhos limpos,
foi matar a menina de vermelho.
Bastou um grito para o espanto
fixar-se na tarde.
Desceu gente de longe,
homens pisaram pedras,
mulheres jogaram noites na pressa,
os pais surgiram de súbito.
Um sangue ungia rodas e trilhos,
pedaço de vestido repousava em dormente.
Lanternas acesas na lida em vôo,
foram examinar a máquina,
o freio intacto,
as peças nuas,
a chaminé parada em pânico.
Rodara só
nos trilhos limpos.
Em desvio de falas,
colheram saudades da menina,
assistiram ao desfile das pausas,
contaram casos de nascimento.
A manhã parou na máquina,
os homens trouxeram cadeiras,
fizeram um círculo de vozes,
ergueram pedaços do crime.
Depois, tomaram café,
deram seus votos
e fitaram, em rápida apreensão,
a máquina condenada.
Levaram-na para um desvio,
destruíram os trilhos de um lado e de outro,
fundaram cerca de arame ao redor,
deixaram placa de madeira
com letras em quase cruz.
Quando as outras máquinas passam
nos trilhos mais longe
apitam avisos,
rodam mandadas,
contemplam a cela tênue,
plantas agora buscando as fendas
da quieta locomotiva.
579
Francesca Angiolillo
As jóias da coroa
Como quase toda menina eu queria
ser princesa eu já não era
loura como Cinderela
minha irmã sim e espevitada
chegara ao mundo resolvida
eu não sabia o que fazer
daquela massa castanha
nem lisa nem crespa sobre a cabeça
e acreditava que talvez a cobiçada coroa
de strass
de miss
operasse um pequeno milagre ao encimar
minhas incertezas infantis
então a cada carnaval a cada ida
às lojas de fantasias no centro da cidade
dava-se uma renovada decepção
a diminuta coroa ficava ali
na mesa envidraçada
com seu brilho de mentira
Um dia
numa celebração de aniversário talvez
meu pai nos fez umas coroas
eram de papel cartão preto
adornadas com purpurina no lugar
das pedras e com volutas douradas
feitas a caneta
A caneta era especial
importada só ele usava
e tudo na coroa traía o traço
que era dele totalmente
que era o mesmo
de seus quadros nas paredes
era a marca de sua mão
Eu não sabia quanto aquela coroa
que levei tristemente à minha
cabeça castanha
era real
tão mais real que o diadema prateado
com pequeninas pedras
esquecido na vitrina
No círculo de papel preto
se encerrava o futuro
não o lar imaculado mas a aranha
pequenina se escondendo
num canto do armário
as meias cobrindo os pés
na hora de dormir numa casa
não aquecida
em mais um inverno austral
ao lado de um homem
o herdeiro
mais legítimo
daquela ideia
de príncipe
que fora possível encontrar
e que me dera um descendente
louro de olhos azuis
repetindo no rosto
seus traços castanhos
O cartão escuro era o que fazia
as joias da coroa luzirem mais
ser princesa eu já não era
loura como Cinderela
minha irmã sim e espevitada
chegara ao mundo resolvida
eu não sabia o que fazer
daquela massa castanha
nem lisa nem crespa sobre a cabeça
e acreditava que talvez a cobiçada coroa
de strass
de miss
operasse um pequeno milagre ao encimar
minhas incertezas infantis
então a cada carnaval a cada ida
às lojas de fantasias no centro da cidade
dava-se uma renovada decepção
a diminuta coroa ficava ali
na mesa envidraçada
com seu brilho de mentira
Um dia
numa celebração de aniversário talvez
meu pai nos fez umas coroas
eram de papel cartão preto
adornadas com purpurina no lugar
das pedras e com volutas douradas
feitas a caneta
A caneta era especial
importada só ele usava
e tudo na coroa traía o traço
que era dele totalmente
que era o mesmo
de seus quadros nas paredes
era a marca de sua mão
Eu não sabia quanto aquela coroa
que levei tristemente à minha
cabeça castanha
era real
tão mais real que o diadema prateado
com pequeninas pedras
esquecido na vitrina
No círculo de papel preto
se encerrava o futuro
não o lar imaculado mas a aranha
pequenina se escondendo
num canto do armário
as meias cobrindo os pés
na hora de dormir numa casa
não aquecida
em mais um inverno austral
ao lado de um homem
o herdeiro
mais legítimo
daquela ideia
de príncipe
que fora possível encontrar
e que me dera um descendente
louro de olhos azuis
repetindo no rosto
seus traços castanhos
O cartão escuro era o que fazia
as joias da coroa luzirem mais
552
Francesca Angiolillo
As jóias da coroa
Como quase toda menina eu queria
ser princesa eu já não era
loura como Cinderela
minha irmã sim e espevitada
chegara ao mundo resolvida
eu não sabia o que fazer
daquela massa castanha
nem lisa nem crespa sobre a cabeça
e acreditava que talvez a cobiçada coroa
de strass
de miss
operasse um pequeno milagre ao encimar
minhas incertezas infantis
então a cada carnaval a cada ida
às lojas de fantasias no centro da cidade
dava-se uma renovada decepção
a diminuta coroa ficava ali
na mesa envidraçada
com seu brilho de mentira
Um dia
numa celebração de aniversário talvez
meu pai nos fez umas coroas
eram de papel cartão preto
adornadas com purpurina no lugar
das pedras e com volutas douradas
feitas a caneta
A caneta era especial
importada só ele usava
e tudo na coroa traía o traço
que era dele totalmente
que era o mesmo
de seus quadros nas paredes
era a marca de sua mão
Eu não sabia quanto aquela coroa
que levei tristemente à minha
cabeça castanha
era real
tão mais real que o diadema prateado
com pequeninas pedras
esquecido na vitrina
No círculo de papel preto
se encerrava o futuro
não o lar imaculado mas a aranha
pequenina se escondendo
num canto do armário
as meias cobrindo os pés
na hora de dormir numa casa
não aquecida
em mais um inverno austral
ao lado de um homem
o herdeiro
mais legítimo
daquela ideia
de príncipe
que fora possível encontrar
e que me dera um descendente
louro de olhos azuis
repetindo no rosto
seus traços castanhos
O cartão escuro era o que fazia
as joias da coroa luzirem mais
ser princesa eu já não era
loura como Cinderela
minha irmã sim e espevitada
chegara ao mundo resolvida
eu não sabia o que fazer
daquela massa castanha
nem lisa nem crespa sobre a cabeça
e acreditava que talvez a cobiçada coroa
de strass
de miss
operasse um pequeno milagre ao encimar
minhas incertezas infantis
então a cada carnaval a cada ida
às lojas de fantasias no centro da cidade
dava-se uma renovada decepção
a diminuta coroa ficava ali
na mesa envidraçada
com seu brilho de mentira
Um dia
numa celebração de aniversário talvez
meu pai nos fez umas coroas
eram de papel cartão preto
adornadas com purpurina no lugar
das pedras e com volutas douradas
feitas a caneta
A caneta era especial
importada só ele usava
e tudo na coroa traía o traço
que era dele totalmente
que era o mesmo
de seus quadros nas paredes
era a marca de sua mão
Eu não sabia quanto aquela coroa
que levei tristemente à minha
cabeça castanha
era real
tão mais real que o diadema prateado
com pequeninas pedras
esquecido na vitrina
No círculo de papel preto
se encerrava o futuro
não o lar imaculado mas a aranha
pequenina se escondendo
num canto do armário
as meias cobrindo os pés
na hora de dormir numa casa
não aquecida
em mais um inverno austral
ao lado de um homem
o herdeiro
mais legítimo
daquela ideia
de príncipe
que fora possível encontrar
e que me dera um descendente
louro de olhos azuis
repetindo no rosto
seus traços castanhos
O cartão escuro era o que fazia
as joias da coroa luzirem mais
552
Antônio Olinto
VI
Trago-te os rios
umedecidos de infância.
Não digas que há esquivanças
neste gesto doado.
Venho com passos naturais,
com piedade, sacrifício,
entregar-te a colheita dos olhos,
o fardo dos claros fracassos.
A pluma capturada
nas realidades sem mistura,
o tenteio do vento
no corpo oferecido as notícias,
a flor presa na mão branca,
o espanto da esposa iniciada,
o passeio exato no jardim —
estão comigo, estas coisas,
nesta verdade do canto,
na quietude dos átrios acalmados.
Trago-te os beijos da criança,
a paisagem ao redor da fazenda,
os brinquedos de barro já com sangue,
os lençóis do justo nascimento.
a mão pousada na madeira,
o sorriso apenas formulado,
a aceitação do gosto recebido,
a alegria das brasas extintas.
Venho dar-te notícias das coisas
esparzidas nos campos lá fora,
entregar-te o resíduo das datas,
o sinal de uma face marcada
para o largo consumo do amor.
umedecidos de infância.
Não digas que há esquivanças
neste gesto doado.
Venho com passos naturais,
com piedade, sacrifício,
entregar-te a colheita dos olhos,
o fardo dos claros fracassos.
A pluma capturada
nas realidades sem mistura,
o tenteio do vento
no corpo oferecido as notícias,
a flor presa na mão branca,
o espanto da esposa iniciada,
o passeio exato no jardim —
estão comigo, estas coisas,
nesta verdade do canto,
na quietude dos átrios acalmados.
Trago-te os beijos da criança,
a paisagem ao redor da fazenda,
os brinquedos de barro já com sangue,
os lençóis do justo nascimento.
a mão pousada na madeira,
o sorriso apenas formulado,
a aceitação do gosto recebido,
a alegria das brasas extintas.
Venho dar-te notícias das coisas
esparzidas nos campos lá fora,
entregar-te o resíduo das datas,
o sinal de uma face marcada
para o largo consumo do amor.
726
Antônio Olinto
VI
Trago-te os rios
umedecidos de infância.
Não digas que há esquivanças
neste gesto doado.
Venho com passos naturais,
com piedade, sacrifício,
entregar-te a colheita dos olhos,
o fardo dos claros fracassos.
A pluma capturada
nas realidades sem mistura,
o tenteio do vento
no corpo oferecido as notícias,
a flor presa na mão branca,
o espanto da esposa iniciada,
o passeio exato no jardim —
estão comigo, estas coisas,
nesta verdade do canto,
na quietude dos átrios acalmados.
Trago-te os beijos da criança,
a paisagem ao redor da fazenda,
os brinquedos de barro já com sangue,
os lençóis do justo nascimento.
a mão pousada na madeira,
o sorriso apenas formulado,
a aceitação do gosto recebido,
a alegria das brasas extintas.
Venho dar-te notícias das coisas
esparzidas nos campos lá fora,
entregar-te o resíduo das datas,
o sinal de uma face marcada
para o largo consumo do amor.
umedecidos de infância.
Não digas que há esquivanças
neste gesto doado.
Venho com passos naturais,
com piedade, sacrifício,
entregar-te a colheita dos olhos,
o fardo dos claros fracassos.
A pluma capturada
nas realidades sem mistura,
o tenteio do vento
no corpo oferecido as notícias,
a flor presa na mão branca,
o espanto da esposa iniciada,
o passeio exato no jardim —
estão comigo, estas coisas,
nesta verdade do canto,
na quietude dos átrios acalmados.
Trago-te os beijos da criança,
a paisagem ao redor da fazenda,
os brinquedos de barro já com sangue,
os lençóis do justo nascimento.
a mão pousada na madeira,
o sorriso apenas formulado,
a aceitação do gosto recebido,
a alegria das brasas extintas.
Venho dar-te notícias das coisas
esparzidas nos campos lá fora,
entregar-te o resíduo das datas,
o sinal de uma face marcada
para o largo consumo do amor.
726
Antônio Olinto
VI
Trago-te os rios
umedecidos de infância.
Não digas que há esquivanças
neste gesto doado.
Venho com passos naturais,
com piedade, sacrifício,
entregar-te a colheita dos olhos,
o fardo dos claros fracassos.
A pluma capturada
nas realidades sem mistura,
o tenteio do vento
no corpo oferecido as notícias,
a flor presa na mão branca,
o espanto da esposa iniciada,
o passeio exato no jardim —
estão comigo, estas coisas,
nesta verdade do canto,
na quietude dos átrios acalmados.
Trago-te os beijos da criança,
a paisagem ao redor da fazenda,
os brinquedos de barro já com sangue,
os lençóis do justo nascimento.
a mão pousada na madeira,
o sorriso apenas formulado,
a aceitação do gosto recebido,
a alegria das brasas extintas.
Venho dar-te notícias das coisas
esparzidas nos campos lá fora,
entregar-te o resíduo das datas,
o sinal de uma face marcada
para o largo consumo do amor.
umedecidos de infância.
Não digas que há esquivanças
neste gesto doado.
Venho com passos naturais,
com piedade, sacrifício,
entregar-te a colheita dos olhos,
o fardo dos claros fracassos.
A pluma capturada
nas realidades sem mistura,
o tenteio do vento
no corpo oferecido as notícias,
a flor presa na mão branca,
o espanto da esposa iniciada,
o passeio exato no jardim —
estão comigo, estas coisas,
nesta verdade do canto,
na quietude dos átrios acalmados.
Trago-te os beijos da criança,
a paisagem ao redor da fazenda,
os brinquedos de barro já com sangue,
os lençóis do justo nascimento.
a mão pousada na madeira,
o sorriso apenas formulado,
a aceitação do gosto recebido,
a alegria das brasas extintas.
Venho dar-te notícias das coisas
esparzidas nos campos lá fora,
entregar-te o resíduo das datas,
o sinal de uma face marcada
para o largo consumo do amor.
726
José Manuel Mendes
não voltarás
não voltarás
olhando as ruas
na vidraça nua os zimbros
da terra ocre
moras secreta nestes barros
tua flauta canta nas montanhas
pedras e trepadeiras se enroscam
perto do teu rosto
e são de
água
sabes plantar o odor
dos frutos
tangerina limão
pássaras orvalho
a nervura das manhãs
e o lume dos poemas
quente metalurgia
das palavras
como ontem (tu eras morta)
prolonga-te nestas mãos
no maio das rotas
de abril
tecidas
olhando as ruas
na vidraça nua os zimbros
da terra ocre
moras secreta nestes barros
tua flauta canta nas montanhas
pedras e trepadeiras se enroscam
perto do teu rosto
e são de
água
sabes plantar o odor
dos frutos
tangerina limão
pássaras orvalho
a nervura das manhãs
e o lume dos poemas
quente metalurgia
das palavras
como ontem (tu eras morta)
prolonga-te nestas mãos
no maio das rotas
de abril
tecidas
533
Samarone Lima de Oliveira
Resiliente
Resiliente.
Assim me chamou nas dobras
A antiga amiga.
No corpo que torceu e retorceu
Ao seu centro noturno
E desigual.
M espantalho sem biografia
Aguando as quimeras de si.
A ruminação como defesa
Ou como certeza.
As brasas que ardem
No tempo da espera.
O quase dono de si.
O vaqueiro cego
Buscando um cão
Brincando com os espinhos.
Capaz de um destino lógico
De amarrar narcisos
Aos vasos inconclusos
Do jardim devastado.
De cerzir o passado
Sem álbuns, sem a matéria dos homens.
Como quem escreve segredos
Com aspas imaginárias.
Assim me chamou nas dobras
A antiga amiga.
No corpo que torceu e retorceu
Ao seu centro noturno
E desigual.
M espantalho sem biografia
Aguando as quimeras de si.
A ruminação como defesa
Ou como certeza.
As brasas que ardem
No tempo da espera.
O quase dono de si.
O vaqueiro cego
Buscando um cão
Brincando com os espinhos.
Capaz de um destino lógico
De amarrar narcisos
Aos vasos inconclusos
Do jardim devastado.
De cerzir o passado
Sem álbuns, sem a matéria dos homens.
Como quem escreve segredos
Com aspas imaginárias.
643
Samarone Lima de Oliveira
Resiliente
Resiliente.
Assim me chamou nas dobras
A antiga amiga.
No corpo que torceu e retorceu
Ao seu centro noturno
E desigual.
M espantalho sem biografia
Aguando as quimeras de si.
A ruminação como defesa
Ou como certeza.
As brasas que ardem
No tempo da espera.
O quase dono de si.
O vaqueiro cego
Buscando um cão
Brincando com os espinhos.
Capaz de um destino lógico
De amarrar narcisos
Aos vasos inconclusos
Do jardim devastado.
De cerzir o passado
Sem álbuns, sem a matéria dos homens.
Como quem escreve segredos
Com aspas imaginárias.
Assim me chamou nas dobras
A antiga amiga.
No corpo que torceu e retorceu
Ao seu centro noturno
E desigual.
M espantalho sem biografia
Aguando as quimeras de si.
A ruminação como defesa
Ou como certeza.
As brasas que ardem
No tempo da espera.
O quase dono de si.
O vaqueiro cego
Buscando um cão
Brincando com os espinhos.
Capaz de um destino lógico
De amarrar narcisos
Aos vasos inconclusos
Do jardim devastado.
De cerzir o passado
Sem álbuns, sem a matéria dos homens.
Como quem escreve segredos
Com aspas imaginárias.
643
Samarone Lima de Oliveira
Resiliente
Resiliente.
Assim me chamou nas dobras
A antiga amiga.
No corpo que torceu e retorceu
Ao seu centro noturno
E desigual.
M espantalho sem biografia
Aguando as quimeras de si.
A ruminação como defesa
Ou como certeza.
As brasas que ardem
No tempo da espera.
O quase dono de si.
O vaqueiro cego
Buscando um cão
Brincando com os espinhos.
Capaz de um destino lógico
De amarrar narcisos
Aos vasos inconclusos
Do jardim devastado.
De cerzir o passado
Sem álbuns, sem a matéria dos homens.
Como quem escreve segredos
Com aspas imaginárias.
Assim me chamou nas dobras
A antiga amiga.
No corpo que torceu e retorceu
Ao seu centro noturno
E desigual.
M espantalho sem biografia
Aguando as quimeras de si.
A ruminação como defesa
Ou como certeza.
As brasas que ardem
No tempo da espera.
O quase dono de si.
O vaqueiro cego
Buscando um cão
Brincando com os espinhos.
Capaz de um destino lógico
De amarrar narcisos
Aos vasos inconclusos
Do jardim devastado.
De cerzir o passado
Sem álbuns, sem a matéria dos homens.
Como quem escreve segredos
Com aspas imaginárias.
643
Samarone Lima de Oliveira
Resiliente
Resiliente.
Assim me chamou nas dobras
A antiga amiga.
No corpo que torceu e retorceu
Ao seu centro noturno
E desigual.
M espantalho sem biografia
Aguando as quimeras de si.
A ruminação como defesa
Ou como certeza.
As brasas que ardem
No tempo da espera.
O quase dono de si.
O vaqueiro cego
Buscando um cão
Brincando com os espinhos.
Capaz de um destino lógico
De amarrar narcisos
Aos vasos inconclusos
Do jardim devastado.
De cerzir o passado
Sem álbuns, sem a matéria dos homens.
Como quem escreve segredos
Com aspas imaginárias.
Assim me chamou nas dobras
A antiga amiga.
No corpo que torceu e retorceu
Ao seu centro noturno
E desigual.
M espantalho sem biografia
Aguando as quimeras de si.
A ruminação como defesa
Ou como certeza.
As brasas que ardem
No tempo da espera.
O quase dono de si.
O vaqueiro cego
Buscando um cão
Brincando com os espinhos.
Capaz de um destino lógico
De amarrar narcisos
Aos vasos inconclusos
Do jardim devastado.
De cerzir o passado
Sem álbuns, sem a matéria dos homens.
Como quem escreve segredos
Com aspas imaginárias.
643
Mário-Henrique Leiria
UMA DAS LIBERDADES
Um pequeno coelho
a correr
com o desespero
entre as pernas
e a erva a crescer
um cão babando
a correr
com a obediência
entre as pernas
e a erva a passar
um caçador rindo
a correr
com a espingarda
entre a morte
e a erva a fugir
um tiro gritando
a parar
com o caçador
entre o estômago
e a erva a esperar
um pequeno coelho
a correr
com a liberdade
entre as pernas
e a erva a sorrir
a correr
com o desespero
entre as pernas
e a erva a crescer
um cão babando
a correr
com a obediência
entre as pernas
e a erva a passar
um caçador rindo
a correr
com a espingarda
entre a morte
e a erva a fugir
um tiro gritando
a parar
com o caçador
entre o estômago
e a erva a esperar
um pequeno coelho
a correr
com a liberdade
entre as pernas
e a erva a sorrir
717
Sérgio Medeiros
O passeio dos bichos
– então o piolho se foi
saltando
– um sapo o engoliu
e se foi pulando
– uma cobra os etc.
e se foi coleando
– um falcão os etc.
e se foi voando
– até o final da viagem
ou do passeio…
saltando
– um sapo o engoliu
e se foi pulando
– uma cobra os etc.
e se foi coleando
– um falcão os etc.
e se foi voando
– até o final da viagem
ou do passeio…
696
Sérgio Medeiros
O passeio dos bichos
– então o piolho se foi
saltando
– um sapo o engoliu
e se foi pulando
– uma cobra os etc.
e se foi coleando
– um falcão os etc.
e se foi voando
– até o final da viagem
ou do passeio…
saltando
– um sapo o engoliu
e se foi pulando
– uma cobra os etc.
e se foi coleando
– um falcão os etc.
e se foi voando
– até o final da viagem
ou do passeio…
696
Francesca Angiolillo
Problema existencial
Como esperar que você compreenda
o milagre da carne
abrindo espaço, fibra a fibra
a partir de meio centímetro de vida?
A vida,
meu filho,
é mesmo uma ferida.
(No flanco de um ciclo
ela se abre
para nos dar
e receber.)
Por que a caveira tem dente?
Mamãe, a caveira foi gente?
O olho da caveira, cadê?
A terra comeu.
A terra comeu.
A terra comeu.
o milagre da carne
abrindo espaço, fibra a fibra
a partir de meio centímetro de vida?
A vida,
meu filho,
é mesmo uma ferida.
(No flanco de um ciclo
ela se abre
para nos dar
e receber.)
Por que a caveira tem dente?
Mamãe, a caveira foi gente?
O olho da caveira, cadê?
A terra comeu.
A terra comeu.
A terra comeu.
736
Francesca Angiolillo
Problema existencial
Como esperar que você compreenda
o milagre da carne
abrindo espaço, fibra a fibra
a partir de meio centímetro de vida?
A vida,
meu filho,
é mesmo uma ferida.
(No flanco de um ciclo
ela se abre
para nos dar
e receber.)
Por que a caveira tem dente?
Mamãe, a caveira foi gente?
O olho da caveira, cadê?
A terra comeu.
A terra comeu.
A terra comeu.
o milagre da carne
abrindo espaço, fibra a fibra
a partir de meio centímetro de vida?
A vida,
meu filho,
é mesmo uma ferida.
(No flanco de um ciclo
ela se abre
para nos dar
e receber.)
Por que a caveira tem dente?
Mamãe, a caveira foi gente?
O olho da caveira, cadê?
A terra comeu.
A terra comeu.
A terra comeu.
736
Francesca Angiolillo
Balada
Era outono quando ele nasceu
quando ele nasceu era outono
e seu pai já havia morrido
quando ele nasceu
sua mãe morreu
quando ele nasceu
sua mãe e seu pai estavam mortos
quando ele nasceu estava órfão
era dia de mortos quando ele nasceu
e ele foi chamado Ferdinando
era novembro então
quando ele nasceu
não um novembro qualquer
era novembro de um ano
e dezoito anos depois havia guerra
Ferdinando foi à guerra
Ferdinando foi ferido
Ferdinando foi levado no colo por um colega até a trincheira
o colega voltou
o colega buscou
outro ferido
e com ele no colo pisou numa mina
era dia de São Fernando
e ele nasceu
era dois de dezembro quando seu filho nasceu
era um mês depois do dia de mortos
quando seu filho nasceu
era um dia de outono, era um dia de vivos
lá fora nevava quando seu filho nasceu
Ferdinando brincava
nasci um mês antes de meu filho
nasci no dia de mortos
nasci no dia do santo
era dia de mortos
era um dia de outono
era novembro de um ano
era São Fernando
era um dia de outono
era dois de dezembro
era um dia de outono
era seis de janeiro
quando Antonio morreu
quando Antonio morreu
seu pai já havia morrido
quando Antonio morreu
era dia de reis
era dia de reis
quando ele nasceu era outono
e seu pai já havia morrido
quando ele nasceu
sua mãe morreu
quando ele nasceu
sua mãe e seu pai estavam mortos
quando ele nasceu estava órfão
era dia de mortos quando ele nasceu
e ele foi chamado Ferdinando
era novembro então
quando ele nasceu
não um novembro qualquer
era novembro de um ano
e dezoito anos depois havia guerra
Ferdinando foi à guerra
Ferdinando foi ferido
Ferdinando foi levado no colo por um colega até a trincheira
o colega voltou
o colega buscou
outro ferido
e com ele no colo pisou numa mina
era dia de São Fernando
e ele nasceu
era dois de dezembro quando seu filho nasceu
era um mês depois do dia de mortos
quando seu filho nasceu
era um dia de outono, era um dia de vivos
lá fora nevava quando seu filho nasceu
Ferdinando brincava
nasci um mês antes de meu filho
nasci no dia de mortos
nasci no dia do santo
era dia de mortos
era um dia de outono
era novembro de um ano
era São Fernando
era um dia de outono
era dois de dezembro
era um dia de outono
era seis de janeiro
quando Antonio morreu
quando Antonio morreu
seu pai já havia morrido
quando Antonio morreu
era dia de reis
era dia de reis
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Francesca Angiolillo
Balada
Era outono quando ele nasceu
quando ele nasceu era outono
e seu pai já havia morrido
quando ele nasceu
sua mãe morreu
quando ele nasceu
sua mãe e seu pai estavam mortos
quando ele nasceu estava órfão
era dia de mortos quando ele nasceu
e ele foi chamado Ferdinando
era novembro então
quando ele nasceu
não um novembro qualquer
era novembro de um ano
e dezoito anos depois havia guerra
Ferdinando foi à guerra
Ferdinando foi ferido
Ferdinando foi levado no colo por um colega até a trincheira
o colega voltou
o colega buscou
outro ferido
e com ele no colo pisou numa mina
era dia de São Fernando
e ele nasceu
era dois de dezembro quando seu filho nasceu
era um mês depois do dia de mortos
quando seu filho nasceu
era um dia de outono, era um dia de vivos
lá fora nevava quando seu filho nasceu
Ferdinando brincava
nasci um mês antes de meu filho
nasci no dia de mortos
nasci no dia do santo
era dia de mortos
era um dia de outono
era novembro de um ano
era São Fernando
era um dia de outono
era dois de dezembro
era um dia de outono
era seis de janeiro
quando Antonio morreu
quando Antonio morreu
seu pai já havia morrido
quando Antonio morreu
era dia de reis
era dia de reis
quando ele nasceu era outono
e seu pai já havia morrido
quando ele nasceu
sua mãe morreu
quando ele nasceu
sua mãe e seu pai estavam mortos
quando ele nasceu estava órfão
era dia de mortos quando ele nasceu
e ele foi chamado Ferdinando
era novembro então
quando ele nasceu
não um novembro qualquer
era novembro de um ano
e dezoito anos depois havia guerra
Ferdinando foi à guerra
Ferdinando foi ferido
Ferdinando foi levado no colo por um colega até a trincheira
o colega voltou
o colega buscou
outro ferido
e com ele no colo pisou numa mina
era dia de São Fernando
e ele nasceu
era dois de dezembro quando seu filho nasceu
era um mês depois do dia de mortos
quando seu filho nasceu
era um dia de outono, era um dia de vivos
lá fora nevava quando seu filho nasceu
Ferdinando brincava
nasci um mês antes de meu filho
nasci no dia de mortos
nasci no dia do santo
era dia de mortos
era um dia de outono
era novembro de um ano
era São Fernando
era um dia de outono
era dois de dezembro
era um dia de outono
era seis de janeiro
quando Antonio morreu
quando Antonio morreu
seu pai já havia morrido
quando Antonio morreu
era dia de reis
era dia de reis
709
Samarone Lima de Oliveira
Formas do dia
Às vezes, ao escolher os sapatos
Erramos o dia.
E a cor, a forma,
Nos levam ao ponto primordial:
Como saímos de casa.
Às vezes, a falta de uma bênção
Nos leva ao segundo erro:
Saímos de casa desassistidos
E nos perdemos do próprio dia.
Às vezes, a falta de um aviso
De um recado
De um aceno
Nos faz seguir sem os pequenos gestos
Que nos salvam o dia.
Quase sempre
Voltamos para casa
Tão vivos
E nem sabemos
Que sapatos, bênçãos, avisos
Nos salvam a vida.
Erramos o dia.
E a cor, a forma,
Nos levam ao ponto primordial:
Como saímos de casa.
Às vezes, a falta de uma bênção
Nos leva ao segundo erro:
Saímos de casa desassistidos
E nos perdemos do próprio dia.
Às vezes, a falta de um aviso
De um recado
De um aceno
Nos faz seguir sem os pequenos gestos
Que nos salvam o dia.
Quase sempre
Voltamos para casa
Tão vivos
E nem sabemos
Que sapatos, bênçãos, avisos
Nos salvam a vida.
706
Mário-Henrique Leiria
Eu vos afirmo
Eu vos afirmo
Eu sou o maldito
o único que conhece
a maldição de não existir
existindo
o único único
que é acompanhado
por outro que conhece a maldição
que é também maldito
que é também o único
eu sou
eu sou
porque somos
o único vários só
solitário de ser acompanhado
solitários de sermos verdadeiros
talvez sabendo
talvez conhecendo
a solidão que formo
formamos
só único
sós únicos.
Eu sou o maldito
o único que conhece
a maldição de não existir
existindo
o único único
que é acompanhado
por outro que conhece a maldição
que é também maldito
que é também o único
eu sou
eu sou
porque somos
o único vários só
solitário de ser acompanhado
solitários de sermos verdadeiros
talvez sabendo
talvez conhecendo
a solidão que formo
formamos
só único
sós únicos.
699
Mário-Henrique Leiria
Eu vos afirmo
Eu vos afirmo
Eu sou o maldito
o único que conhece
a maldição de não existir
existindo
o único único
que é acompanhado
por outro que conhece a maldição
que é também maldito
que é também o único
eu sou
eu sou
porque somos
o único vários só
solitário de ser acompanhado
solitários de sermos verdadeiros
talvez sabendo
talvez conhecendo
a solidão que formo
formamos
só único
sós únicos.
Eu sou o maldito
o único que conhece
a maldição de não existir
existindo
o único único
que é acompanhado
por outro que conhece a maldição
que é também maldito
que é também o único
eu sou
eu sou
porque somos
o único vários só
solitário de ser acompanhado
solitários de sermos verdadeiros
talvez sabendo
talvez conhecendo
a solidão que formo
formamos
só único
sós únicos.
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