Poemas neste tema
Vida e Existência
Renato Rezende
[Flores]
Só nos libertamos à medida que não somos esmagados.
Desde que morri, não tenho vontade de fazer nada.
Que eu saiba, não há nenhum caso na família.
Não tenho que ser: Sou.
Fui longe demais para voltar.
Se você espera, você espera para sempre.
É preciso estar presente, mas não apegado.
É preciso que a linguagem não agarre.
Vou repetindo: espaço, espaço chamado sala, espaço chamado quarto, objeto no espaço chamado cama, objeto no espaço chamado cortina, objeto sobre objeto no espaço chamado livro, livro sobre mesa que esta mão (minha) levanta...
Há em mim uma zona de cegueira, de cansaço, de descaso.
minha mão—minha—meu, mão
eu sou eu mesmo sem minha mão?
Deve ser muito doido ser gente.
Tem gente que demora muito para nascer.
Já é hora de me tornar quem realmente sou.
Dei de dormir com a luz acesa.
Assim, enquanto durmo, minha mente parece acesa.
É minha a luz acesa.
Desconfio que seja.
Eu sou você?
Preencher completamente a minha forma—viver ao máximo.
Melhor perder todos os medos.
A poesia está além do dia.
O homem não nasce, passa a vida nascendo.
Há flores que desabrocham no outono, no inverno.
Palavras dão corpo.
Desde que morri, não tenho vontade de fazer nada.
Que eu saiba, não há nenhum caso na família.
Não tenho que ser: Sou.
Fui longe demais para voltar.
Se você espera, você espera para sempre.
É preciso estar presente, mas não apegado.
É preciso que a linguagem não agarre.
Vou repetindo: espaço, espaço chamado sala, espaço chamado quarto, objeto no espaço chamado cama, objeto no espaço chamado cortina, objeto sobre objeto no espaço chamado livro, livro sobre mesa que esta mão (minha) levanta...
Há em mim uma zona de cegueira, de cansaço, de descaso.
minha mão—minha—meu, mão
eu sou eu mesmo sem minha mão?
Deve ser muito doido ser gente.
Tem gente que demora muito para nascer.
Já é hora de me tornar quem realmente sou.
Dei de dormir com a luz acesa.
Assim, enquanto durmo, minha mente parece acesa.
É minha a luz acesa.
Desconfio que seja.
Eu sou você?
Preencher completamente a minha forma—viver ao máximo.
Melhor perder todos os medos.
A poesia está além do dia.
O homem não nasce, passa a vida nascendo.
Há flores que desabrocham no outono, no inverno.
Palavras dão corpo.
996
Renato Rezende
[Flores]
Só nos libertamos à medida que não somos esmagados.
Desde que morri, não tenho vontade de fazer nada.
Que eu saiba, não há nenhum caso na família.
Não tenho que ser: Sou.
Fui longe demais para voltar.
Se você espera, você espera para sempre.
É preciso estar presente, mas não apegado.
É preciso que a linguagem não agarre.
Vou repetindo: espaço, espaço chamado sala, espaço chamado quarto, objeto no espaço chamado cama, objeto no espaço chamado cortina, objeto sobre objeto no espaço chamado livro, livro sobre mesa que esta mão (minha) levanta...
Há em mim uma zona de cegueira, de cansaço, de descaso.
minha mão—minha—meu, mão
eu sou eu mesmo sem minha mão?
Deve ser muito doido ser gente.
Tem gente que demora muito para nascer.
Já é hora de me tornar quem realmente sou.
Dei de dormir com a luz acesa.
Assim, enquanto durmo, minha mente parece acesa.
É minha a luz acesa.
Desconfio que seja.
Eu sou você?
Preencher completamente a minha forma—viver ao máximo.
Melhor perder todos os medos.
A poesia está além do dia.
O homem não nasce, passa a vida nascendo.
Há flores que desabrocham no outono, no inverno.
Palavras dão corpo.
Desde que morri, não tenho vontade de fazer nada.
Que eu saiba, não há nenhum caso na família.
Não tenho que ser: Sou.
Fui longe demais para voltar.
Se você espera, você espera para sempre.
É preciso estar presente, mas não apegado.
É preciso que a linguagem não agarre.
Vou repetindo: espaço, espaço chamado sala, espaço chamado quarto, objeto no espaço chamado cama, objeto no espaço chamado cortina, objeto sobre objeto no espaço chamado livro, livro sobre mesa que esta mão (minha) levanta...
Há em mim uma zona de cegueira, de cansaço, de descaso.
minha mão—minha—meu, mão
eu sou eu mesmo sem minha mão?
Deve ser muito doido ser gente.
Tem gente que demora muito para nascer.
Já é hora de me tornar quem realmente sou.
Dei de dormir com a luz acesa.
Assim, enquanto durmo, minha mente parece acesa.
É minha a luz acesa.
Desconfio que seja.
Eu sou você?
Preencher completamente a minha forma—viver ao máximo.
Melhor perder todos os medos.
A poesia está além do dia.
O homem não nasce, passa a vida nascendo.
Há flores que desabrocham no outono, no inverno.
Palavras dão corpo.
996
Renato Rezende
[Flores]
Só nos libertamos à medida que não somos esmagados.
Desde que morri, não tenho vontade de fazer nada.
Que eu saiba, não há nenhum caso na família.
Não tenho que ser: Sou.
Fui longe demais para voltar.
Se você espera, você espera para sempre.
É preciso estar presente, mas não apegado.
É preciso que a linguagem não agarre.
Vou repetindo: espaço, espaço chamado sala, espaço chamado quarto, objeto no espaço chamado cama, objeto no espaço chamado cortina, objeto sobre objeto no espaço chamado livro, livro sobre mesa que esta mão (minha) levanta...
Há em mim uma zona de cegueira, de cansaço, de descaso.
minha mão—minha—meu, mão
eu sou eu mesmo sem minha mão?
Deve ser muito doido ser gente.
Tem gente que demora muito para nascer.
Já é hora de me tornar quem realmente sou.
Dei de dormir com a luz acesa.
Assim, enquanto durmo, minha mente parece acesa.
É minha a luz acesa.
Desconfio que seja.
Eu sou você?
Preencher completamente a minha forma—viver ao máximo.
Melhor perder todos os medos.
A poesia está além do dia.
O homem não nasce, passa a vida nascendo.
Há flores que desabrocham no outono, no inverno.
Palavras dão corpo.
Desde que morri, não tenho vontade de fazer nada.
Que eu saiba, não há nenhum caso na família.
Não tenho que ser: Sou.
Fui longe demais para voltar.
Se você espera, você espera para sempre.
É preciso estar presente, mas não apegado.
É preciso que a linguagem não agarre.
Vou repetindo: espaço, espaço chamado sala, espaço chamado quarto, objeto no espaço chamado cama, objeto no espaço chamado cortina, objeto sobre objeto no espaço chamado livro, livro sobre mesa que esta mão (minha) levanta...
Há em mim uma zona de cegueira, de cansaço, de descaso.
minha mão—minha—meu, mão
eu sou eu mesmo sem minha mão?
Deve ser muito doido ser gente.
Tem gente que demora muito para nascer.
Já é hora de me tornar quem realmente sou.
Dei de dormir com a luz acesa.
Assim, enquanto durmo, minha mente parece acesa.
É minha a luz acesa.
Desconfio que seja.
Eu sou você?
Preencher completamente a minha forma—viver ao máximo.
Melhor perder todos os medos.
A poesia está além do dia.
O homem não nasce, passa a vida nascendo.
Há flores que desabrocham no outono, no inverno.
Palavras dão corpo.
996
Renato Rezende
[Flores]
Só nos libertamos à medida que não somos esmagados.
Desde que morri, não tenho vontade de fazer nada.
Que eu saiba, não há nenhum caso na família.
Não tenho que ser: Sou.
Fui longe demais para voltar.
Se você espera, você espera para sempre.
É preciso estar presente, mas não apegado.
É preciso que a linguagem não agarre.
Vou repetindo: espaço, espaço chamado sala, espaço chamado quarto, objeto no espaço chamado cama, objeto no espaço chamado cortina, objeto sobre objeto no espaço chamado livro, livro sobre mesa que esta mão (minha) levanta...
Há em mim uma zona de cegueira, de cansaço, de descaso.
minha mão—minha—meu, mão
eu sou eu mesmo sem minha mão?
Deve ser muito doido ser gente.
Tem gente que demora muito para nascer.
Já é hora de me tornar quem realmente sou.
Dei de dormir com a luz acesa.
Assim, enquanto durmo, minha mente parece acesa.
É minha a luz acesa.
Desconfio que seja.
Eu sou você?
Preencher completamente a minha forma—viver ao máximo.
Melhor perder todos os medos.
A poesia está além do dia.
O homem não nasce, passa a vida nascendo.
Há flores que desabrocham no outono, no inverno.
Palavras dão corpo.
Desde que morri, não tenho vontade de fazer nada.
Que eu saiba, não há nenhum caso na família.
Não tenho que ser: Sou.
Fui longe demais para voltar.
Se você espera, você espera para sempre.
É preciso estar presente, mas não apegado.
É preciso que a linguagem não agarre.
Vou repetindo: espaço, espaço chamado sala, espaço chamado quarto, objeto no espaço chamado cama, objeto no espaço chamado cortina, objeto sobre objeto no espaço chamado livro, livro sobre mesa que esta mão (minha) levanta...
Há em mim uma zona de cegueira, de cansaço, de descaso.
minha mão—minha—meu, mão
eu sou eu mesmo sem minha mão?
Deve ser muito doido ser gente.
Tem gente que demora muito para nascer.
Já é hora de me tornar quem realmente sou.
Dei de dormir com a luz acesa.
Assim, enquanto durmo, minha mente parece acesa.
É minha a luz acesa.
Desconfio que seja.
Eu sou você?
Preencher completamente a minha forma—viver ao máximo.
Melhor perder todos os medos.
A poesia está além do dia.
O homem não nasce, passa a vida nascendo.
Há flores que desabrocham no outono, no inverno.
Palavras dão corpo.
996
Renato Rezende
[Troll]
Da importância de não se ter amigos
O saber é uma superstição,
um vício.
Quando me perco em pensamentos, me perco na linguagem.
A linguagem se tornando a grande inimiga. Quero esquecer.
Mas como eu me coloco? Não sei, às vezes na beira do precipício, às vezes no próprio precipício, e às vezes sustentado por um amor divino.
O amor sustenta o artista.
Vou ficar quieto, não quero falar mais nada. Não há nada para ser dito. Mania de conversar com os outros. Vou manter silêncio. Também, não vou pensar nada. Não vou pensar mais.
Grau Zero.
Pego meu chapéu e saio da minha mente.
Vou carregar a cabeça nos braços, como um Troll.
A língua destrói constantemente
[a possibilidade de se dizer]
Oh, é apenas minha mente, pensando de novo.
O que acontece na vida não importa.
Totalmente presente e totalmente ausente ao mesmo tempo.
Eu me transformei num monstro, aparentemente num monstro. Numa mão, solta, no alto, eu levo o meu rosto, como se fosse uma máscara, um balão. Essa própria mão, e o braço, estão deslocados e descolados do tronco, o corpo todo desengonçado e solto. O que parece unir todas as partes é uma estranha luminosidade: e isso é muito mais eu do que o eu concentrado, preso no corpo.
Como se estivesse preste a arrancar fora o corpo e a vida como se fossem uma mera camisa.
Solto
Não tenho interesse
em minhas próprias opiniões
Já não acredito
em que eu penso—
sou o que penso
eu era pensamento
mas não sou
mais
Nada é onde há palavra
Máscaras
O saber é uma superstição,
um vício.
Quando me perco em pensamentos, me perco na linguagem.
A linguagem se tornando a grande inimiga. Quero esquecer.
Mas como eu me coloco? Não sei, às vezes na beira do precipício, às vezes no próprio precipício, e às vezes sustentado por um amor divino.
O amor sustenta o artista.
Vou ficar quieto, não quero falar mais nada. Não há nada para ser dito. Mania de conversar com os outros. Vou manter silêncio. Também, não vou pensar nada. Não vou pensar mais.
Grau Zero.
Pego meu chapéu e saio da minha mente.
Vou carregar a cabeça nos braços, como um Troll.
A língua destrói constantemente
[a possibilidade de se dizer]
Oh, é apenas minha mente, pensando de novo.
O que acontece na vida não importa.
Totalmente presente e totalmente ausente ao mesmo tempo.
Eu me transformei num monstro, aparentemente num monstro. Numa mão, solta, no alto, eu levo o meu rosto, como se fosse uma máscara, um balão. Essa própria mão, e o braço, estão deslocados e descolados do tronco, o corpo todo desengonçado e solto. O que parece unir todas as partes é uma estranha luminosidade: e isso é muito mais eu do que o eu concentrado, preso no corpo.
Como se estivesse preste a arrancar fora o corpo e a vida como se fossem uma mera camisa.
Solto
Não tenho interesse
em minhas próprias opiniões
Já não acredito
em que eu penso—
sou o que penso
eu era pensamento
mas não sou
mais
Nada é onde há palavra
Máscaras
1 079
Renato Rezende
[Troll]
Da importância de não se ter amigos
O saber é uma superstição,
um vício.
Quando me perco em pensamentos, me perco na linguagem.
A linguagem se tornando a grande inimiga. Quero esquecer.
Mas como eu me coloco? Não sei, às vezes na beira do precipício, às vezes no próprio precipício, e às vezes sustentado por um amor divino.
O amor sustenta o artista.
Vou ficar quieto, não quero falar mais nada. Não há nada para ser dito. Mania de conversar com os outros. Vou manter silêncio. Também, não vou pensar nada. Não vou pensar mais.
Grau Zero.
Pego meu chapéu e saio da minha mente.
Vou carregar a cabeça nos braços, como um Troll.
A língua destrói constantemente
[a possibilidade de se dizer]
Oh, é apenas minha mente, pensando de novo.
O que acontece na vida não importa.
Totalmente presente e totalmente ausente ao mesmo tempo.
Eu me transformei num monstro, aparentemente num monstro. Numa mão, solta, no alto, eu levo o meu rosto, como se fosse uma máscara, um balão. Essa própria mão, e o braço, estão deslocados e descolados do tronco, o corpo todo desengonçado e solto. O que parece unir todas as partes é uma estranha luminosidade: e isso é muito mais eu do que o eu concentrado, preso no corpo.
Como se estivesse preste a arrancar fora o corpo e a vida como se fossem uma mera camisa.
Solto
Não tenho interesse
em minhas próprias opiniões
Já não acredito
em que eu penso—
sou o que penso
eu era pensamento
mas não sou
mais
Nada é onde há palavra
Máscaras
O saber é uma superstição,
um vício.
Quando me perco em pensamentos, me perco na linguagem.
A linguagem se tornando a grande inimiga. Quero esquecer.
Mas como eu me coloco? Não sei, às vezes na beira do precipício, às vezes no próprio precipício, e às vezes sustentado por um amor divino.
O amor sustenta o artista.
Vou ficar quieto, não quero falar mais nada. Não há nada para ser dito. Mania de conversar com os outros. Vou manter silêncio. Também, não vou pensar nada. Não vou pensar mais.
Grau Zero.
Pego meu chapéu e saio da minha mente.
Vou carregar a cabeça nos braços, como um Troll.
A língua destrói constantemente
[a possibilidade de se dizer]
Oh, é apenas minha mente, pensando de novo.
O que acontece na vida não importa.
Totalmente presente e totalmente ausente ao mesmo tempo.
Eu me transformei num monstro, aparentemente num monstro. Numa mão, solta, no alto, eu levo o meu rosto, como se fosse uma máscara, um balão. Essa própria mão, e o braço, estão deslocados e descolados do tronco, o corpo todo desengonçado e solto. O que parece unir todas as partes é uma estranha luminosidade: e isso é muito mais eu do que o eu concentrado, preso no corpo.
Como se estivesse preste a arrancar fora o corpo e a vida como se fossem uma mera camisa.
Solto
Não tenho interesse
em minhas próprias opiniões
Já não acredito
em que eu penso—
sou o que penso
eu era pensamento
mas não sou
mais
Nada é onde há palavra
Máscaras
1 079
Renato Rezende
[Santo]
—é essa a humanidade que pulsa agora.
Numa livraria, ler poemas para uma moça jovem: Pessoa, Maiakóvski e Rumi—a juventude é esse querer aberto.
Buscar a menina na escola; o pátio da escola; a algazarra e doçura das crianças: todo dia uma nova (a mesma) lição de amor.
Minha querida devoradora de corações,
Como se faz para se ter um orgasmo que não seja físico, que seja um penetrar, um fundir místico de corações, um orgasmo de coração explodindo? É assim que eu te amo.
Erotismo: a catapulta para a transcendência do corpo.
A palavra do erotismo é o espírito! O salto.
(Por isso, é bacana saber que uma amiga sua me achou bonito. Tomara que sonhe comigo, que suspire. Tomara que goze pensando em mim. É assim que somos poesia uns para os outros).
Tigre,
Eu sei que não sou, que nunca poderei ser
o homem da sua vida
Então posso ser o homem
da sua morte?
E como é morte, e na morte
tudo pode
serei a mulher da sua morte.
Por todo o sempre sua garota.
Posso?
Se o Amor não vem por conta própria – então é preciso buscá-lo.
Sim, a matéria salva.
É como se meu amor, histérico e aflito, não conseguisse assentar-se, colocar-se em algo humilde, feito com afinco, e essa incapacidade criasse agitação e ansiedade. Aprender a amar todas as coisas que se apresentam sem julgamento de valor, doado a cada situação: colocar os dois pés no chão.
Eu não estou escrevendo isso.
Eu não estou sentado nessa sala.
Eu estou aqui
(para vocês),
mas eu não estou aqui.
O coração é meu órgão sexual.
Quero gozar o tempo todo.
Amor divino: castidade absoluta.
Eu sou o homem e eu sou a mulher.
Toda essa ambiguidade não vai se resolver nunca. A única saída é o salto. O único jeito é saltando para: a Santidade.
Quanto mais santo mais no mundo?
Numa livraria, ler poemas para uma moça jovem: Pessoa, Maiakóvski e Rumi—a juventude é esse querer aberto.
Buscar a menina na escola; o pátio da escola; a algazarra e doçura das crianças: todo dia uma nova (a mesma) lição de amor.
Minha querida devoradora de corações,
Como se faz para se ter um orgasmo que não seja físico, que seja um penetrar, um fundir místico de corações, um orgasmo de coração explodindo? É assim que eu te amo.
Erotismo: a catapulta para a transcendência do corpo.
A palavra do erotismo é o espírito! O salto.
(Por isso, é bacana saber que uma amiga sua me achou bonito. Tomara que sonhe comigo, que suspire. Tomara que goze pensando em mim. É assim que somos poesia uns para os outros).
Tigre,
Eu sei que não sou, que nunca poderei ser
o homem da sua vida
Então posso ser o homem
da sua morte?
E como é morte, e na morte
tudo pode
serei a mulher da sua morte.
Por todo o sempre sua garota.
Posso?
Se o Amor não vem por conta própria – então é preciso buscá-lo.
Sim, a matéria salva.
É como se meu amor, histérico e aflito, não conseguisse assentar-se, colocar-se em algo humilde, feito com afinco, e essa incapacidade criasse agitação e ansiedade. Aprender a amar todas as coisas que se apresentam sem julgamento de valor, doado a cada situação: colocar os dois pés no chão.
Eu não estou escrevendo isso.
Eu não estou sentado nessa sala.
Eu estou aqui
(para vocês),
mas eu não estou aqui.
O coração é meu órgão sexual.
Quero gozar o tempo todo.
Amor divino: castidade absoluta.
Eu sou o homem e eu sou a mulher.
Toda essa ambiguidade não vai se resolver nunca. A única saída é o salto. O único jeito é saltando para: a Santidade.
Quanto mais santo mais no mundo?
1 135
Renato Rezende
[Santo]
—é essa a humanidade que pulsa agora.
Numa livraria, ler poemas para uma moça jovem: Pessoa, Maiakóvski e Rumi—a juventude é esse querer aberto.
Buscar a menina na escola; o pátio da escola; a algazarra e doçura das crianças: todo dia uma nova (a mesma) lição de amor.
Minha querida devoradora de corações,
Como se faz para se ter um orgasmo que não seja físico, que seja um penetrar, um fundir místico de corações, um orgasmo de coração explodindo? É assim que eu te amo.
Erotismo: a catapulta para a transcendência do corpo.
A palavra do erotismo é o espírito! O salto.
(Por isso, é bacana saber que uma amiga sua me achou bonito. Tomara que sonhe comigo, que suspire. Tomara que goze pensando em mim. É assim que somos poesia uns para os outros).
Tigre,
Eu sei que não sou, que nunca poderei ser
o homem da sua vida
Então posso ser o homem
da sua morte?
E como é morte, e na morte
tudo pode
serei a mulher da sua morte.
Por todo o sempre sua garota.
Posso?
Se o Amor não vem por conta própria – então é preciso buscá-lo.
Sim, a matéria salva.
É como se meu amor, histérico e aflito, não conseguisse assentar-se, colocar-se em algo humilde, feito com afinco, e essa incapacidade criasse agitação e ansiedade. Aprender a amar todas as coisas que se apresentam sem julgamento de valor, doado a cada situação: colocar os dois pés no chão.
Eu não estou escrevendo isso.
Eu não estou sentado nessa sala.
Eu estou aqui
(para vocês),
mas eu não estou aqui.
O coração é meu órgão sexual.
Quero gozar o tempo todo.
Amor divino: castidade absoluta.
Eu sou o homem e eu sou a mulher.
Toda essa ambiguidade não vai se resolver nunca. A única saída é o salto. O único jeito é saltando para: a Santidade.
Quanto mais santo mais no mundo?
Numa livraria, ler poemas para uma moça jovem: Pessoa, Maiakóvski e Rumi—a juventude é esse querer aberto.
Buscar a menina na escola; o pátio da escola; a algazarra e doçura das crianças: todo dia uma nova (a mesma) lição de amor.
Minha querida devoradora de corações,
Como se faz para se ter um orgasmo que não seja físico, que seja um penetrar, um fundir místico de corações, um orgasmo de coração explodindo? É assim que eu te amo.
Erotismo: a catapulta para a transcendência do corpo.
A palavra do erotismo é o espírito! O salto.
(Por isso, é bacana saber que uma amiga sua me achou bonito. Tomara que sonhe comigo, que suspire. Tomara que goze pensando em mim. É assim que somos poesia uns para os outros).
Tigre,
Eu sei que não sou, que nunca poderei ser
o homem da sua vida
Então posso ser o homem
da sua morte?
E como é morte, e na morte
tudo pode
serei a mulher da sua morte.
Por todo o sempre sua garota.
Posso?
Se o Amor não vem por conta própria – então é preciso buscá-lo.
Sim, a matéria salva.
É como se meu amor, histérico e aflito, não conseguisse assentar-se, colocar-se em algo humilde, feito com afinco, e essa incapacidade criasse agitação e ansiedade. Aprender a amar todas as coisas que se apresentam sem julgamento de valor, doado a cada situação: colocar os dois pés no chão.
Eu não estou escrevendo isso.
Eu não estou sentado nessa sala.
Eu estou aqui
(para vocês),
mas eu não estou aqui.
O coração é meu órgão sexual.
Quero gozar o tempo todo.
Amor divino: castidade absoluta.
Eu sou o homem e eu sou a mulher.
Toda essa ambiguidade não vai se resolver nunca. A única saída é o salto. O único jeito é saltando para: a Santidade.
Quanto mais santo mais no mundo?
1 135
Renato Rezende
[O Dia]
Somos todos iguais, é preciso ter compaixão pelas limitações dos outros e pelas minhas também. Preciso de mais compaixão por mim mesmo. Vou deixar rolar o que está acontecendo. Por que essa agonia? Está tudo bem. Sim, existe um grande esforço interno para chegar ao ponto de encontro entre o Ser e o não-Ser, e me sinto confuso.
Tentar colocar o mínimo de estresse possível nesse esforço, nessa confusão.
Eu, que sempre levanto tarde, acordei mais cedo (é sempre bom ver as pessoas na rua, saindo de casa, começando o dia, no frescor da manhã, isso deve acontecer todos os dias, enquanto eu durmo) para buscar um cheque derradeiro. Depois pensei em dar uma volta na cidade, no bairro, visitar uma exposição... mas voltei para casa. Já não sou o flanêur que era. Já não vejo sentido em caminhar a esmo.
Já não quero ver mais nada. Mas tampouco logro ficar parado dentro de mim mesmo.
Tranquila/ No centro de sua maravilha.
Ontem à noite, antes de dormir, senti nitidamente a pulsação, o limite entre o êxtase e um esvaziamento depressivo—era uma questão de um pequeno esforço para fixar-me no êxtase. Mas ambos não
pareciam estar em mim.
Se é para morrer, melhor morrer logo.
Começo a trabalhar sem ânimo numa pequena tradução—sintome encurralado, pressionado, com tudo atrasado. Mesmo com quase nada para fazer.
Não quero fazer nada.
Dai-me um corpo, uma voz, uma função.
O que fazer com meu desejo? Onde está o meu desejo? Eu que não soube escolher entre ser homem ou mulher. De tanto não saber o que fazer com o desejo, perdi-o de vista.
Mais uma vez, deixo o trabalho e deito-me na cama, no meio do dia.
Felicidade. Angústia.
Fique tranqüila/ No centro de sua maravilha.
Tentar colocar o mínimo de estresse possível nesse esforço, nessa confusão.
Eu, que sempre levanto tarde, acordei mais cedo (é sempre bom ver as pessoas na rua, saindo de casa, começando o dia, no frescor da manhã, isso deve acontecer todos os dias, enquanto eu durmo) para buscar um cheque derradeiro. Depois pensei em dar uma volta na cidade, no bairro, visitar uma exposição... mas voltei para casa. Já não sou o flanêur que era. Já não vejo sentido em caminhar a esmo.
Já não quero ver mais nada. Mas tampouco logro ficar parado dentro de mim mesmo.
Tranquila/ No centro de sua maravilha.
Ontem à noite, antes de dormir, senti nitidamente a pulsação, o limite entre o êxtase e um esvaziamento depressivo—era uma questão de um pequeno esforço para fixar-me no êxtase. Mas ambos não
pareciam estar em mim.
Se é para morrer, melhor morrer logo.
Começo a trabalhar sem ânimo numa pequena tradução—sintome encurralado, pressionado, com tudo atrasado. Mesmo com quase nada para fazer.
Não quero fazer nada.
Dai-me um corpo, uma voz, uma função.
O que fazer com meu desejo? Onde está o meu desejo? Eu que não soube escolher entre ser homem ou mulher. De tanto não saber o que fazer com o desejo, perdi-o de vista.
Mais uma vez, deixo o trabalho e deito-me na cama, no meio do dia.
Felicidade. Angústia.
Fique tranqüila/ No centro de sua maravilha.
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Renato Rezende
[O Dia]
Somos todos iguais, é preciso ter compaixão pelas limitações dos outros e pelas minhas também. Preciso de mais compaixão por mim mesmo. Vou deixar rolar o que está acontecendo. Por que essa agonia? Está tudo bem. Sim, existe um grande esforço interno para chegar ao ponto de encontro entre o Ser e o não-Ser, e me sinto confuso.
Tentar colocar o mínimo de estresse possível nesse esforço, nessa confusão.
Eu, que sempre levanto tarde, acordei mais cedo (é sempre bom ver as pessoas na rua, saindo de casa, começando o dia, no frescor da manhã, isso deve acontecer todos os dias, enquanto eu durmo) para buscar um cheque derradeiro. Depois pensei em dar uma volta na cidade, no bairro, visitar uma exposição... mas voltei para casa. Já não sou o flanêur que era. Já não vejo sentido em caminhar a esmo.
Já não quero ver mais nada. Mas tampouco logro ficar parado dentro de mim mesmo.
Tranquila/ No centro de sua maravilha.
Ontem à noite, antes de dormir, senti nitidamente a pulsação, o limite entre o êxtase e um esvaziamento depressivo—era uma questão de um pequeno esforço para fixar-me no êxtase. Mas ambos não
pareciam estar em mim.
Se é para morrer, melhor morrer logo.
Começo a trabalhar sem ânimo numa pequena tradução—sintome encurralado, pressionado, com tudo atrasado. Mesmo com quase nada para fazer.
Não quero fazer nada.
Dai-me um corpo, uma voz, uma função.
O que fazer com meu desejo? Onde está o meu desejo? Eu que não soube escolher entre ser homem ou mulher. De tanto não saber o que fazer com o desejo, perdi-o de vista.
Mais uma vez, deixo o trabalho e deito-me na cama, no meio do dia.
Felicidade. Angústia.
Fique tranqüila/ No centro de sua maravilha.
Tentar colocar o mínimo de estresse possível nesse esforço, nessa confusão.
Eu, que sempre levanto tarde, acordei mais cedo (é sempre bom ver as pessoas na rua, saindo de casa, começando o dia, no frescor da manhã, isso deve acontecer todos os dias, enquanto eu durmo) para buscar um cheque derradeiro. Depois pensei em dar uma volta na cidade, no bairro, visitar uma exposição... mas voltei para casa. Já não sou o flanêur que era. Já não vejo sentido em caminhar a esmo.
Já não quero ver mais nada. Mas tampouco logro ficar parado dentro de mim mesmo.
Tranquila/ No centro de sua maravilha.
Ontem à noite, antes de dormir, senti nitidamente a pulsação, o limite entre o êxtase e um esvaziamento depressivo—era uma questão de um pequeno esforço para fixar-me no êxtase. Mas ambos não
pareciam estar em mim.
Se é para morrer, melhor morrer logo.
Começo a trabalhar sem ânimo numa pequena tradução—sintome encurralado, pressionado, com tudo atrasado. Mesmo com quase nada para fazer.
Não quero fazer nada.
Dai-me um corpo, uma voz, uma função.
O que fazer com meu desejo? Onde está o meu desejo? Eu que não soube escolher entre ser homem ou mulher. De tanto não saber o que fazer com o desejo, perdi-o de vista.
Mais uma vez, deixo o trabalho e deito-me na cama, no meio do dia.
Felicidade. Angústia.
Fique tranqüila/ No centro de sua maravilha.
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Renato Rezende
Luz
quero sangue, sangue, de ouro
quero bosta, bosta, de ouro
quero porra, porra, de ouro
quero corpo, corpo, de ouro
sangue bosta porra corpo
corpo corpo corpo corpo
corpo ouro corpo ouro
ouro ouro ouro ouro
ouro ouro ouro ouro
quero bosta, bosta, de ouro
quero porra, porra, de ouro
quero corpo, corpo, de ouro
sangue bosta porra corpo
corpo corpo corpo corpo
corpo ouro corpo ouro
ouro ouro ouro ouro
ouro ouro ouro ouro
1 190
Daniel Lima
Eu sou a metáfora de mim
Eu sou a metáfora de mim.
Por isto,quando eu morrer
morrerá meu poema.
Restarão apenas palavras sem sentido,
formas tornadas vãs de um mistério
Cuja chave perdida para sempre
No silêncio de morte
Ninguém encontrará.
Por isto,quando eu morrer
morrerá meu poema.
Restarão apenas palavras sem sentido,
formas tornadas vãs de um mistério
Cuja chave perdida para sempre
No silêncio de morte
Ninguém encontrará.
662
Daniel Lima
Eu sou a metáfora de mim
Eu sou a metáfora de mim.
Por isto,quando eu morrer
morrerá meu poema.
Restarão apenas palavras sem sentido,
formas tornadas vãs de um mistério
Cuja chave perdida para sempre
No silêncio de morte
Ninguém encontrará.
Por isto,quando eu morrer
morrerá meu poema.
Restarão apenas palavras sem sentido,
formas tornadas vãs de um mistério
Cuja chave perdida para sempre
No silêncio de morte
Ninguém encontrará.
662
Renato Rezende
] Corpo [
Partindo do princípio, eu desisto
dos meus pés, e subindo
eu desisto das minhas pernas.
Elas latejam e me fazem sentir vivo,
mas eu não quero mais sentir-me vivo.
Ao cortar o pau, prender nele uma pedra
até que penda para sempre, eu só penso
nos olhos de todas aquelas mulheres.
Eu entrego
ao fogo o mel dos olhos.
As emoções,
eu desisto delas todas, o coração limpo
ou não, eu desisto do coração, do umbigo
que me ligou à minha mãe, eu desisto da minha mãe
e de todas as palavras que usei
quando compreendi que era alguém, desisto de ser alguém
para ser oco, novo, fogo, ouro:
UM CORPO DEVORA O OUTRO
dos meus pés, e subindo
eu desisto das minhas pernas.
Elas latejam e me fazem sentir vivo,
mas eu não quero mais sentir-me vivo.
Ao cortar o pau, prender nele uma pedra
até que penda para sempre, eu só penso
nos olhos de todas aquelas mulheres.
Eu entrego
ao fogo o mel dos olhos.
As emoções,
eu desisto delas todas, o coração limpo
ou não, eu desisto do coração, do umbigo
que me ligou à minha mãe, eu desisto da minha mãe
e de todas as palavras que usei
quando compreendi que era alguém, desisto de ser alguém
para ser oco, novo, fogo, ouro:
UM CORPO DEVORA O OUTRO
1 024
Renato Rezende
] Corpo [
Partindo do princípio, eu desisto
dos meus pés, e subindo
eu desisto das minhas pernas.
Elas latejam e me fazem sentir vivo,
mas eu não quero mais sentir-me vivo.
Ao cortar o pau, prender nele uma pedra
até que penda para sempre, eu só penso
nos olhos de todas aquelas mulheres.
Eu entrego
ao fogo o mel dos olhos.
As emoções,
eu desisto delas todas, o coração limpo
ou não, eu desisto do coração, do umbigo
que me ligou à minha mãe, eu desisto da minha mãe
e de todas as palavras que usei
quando compreendi que era alguém, desisto de ser alguém
para ser oco, novo, fogo, ouro:
UM CORPO DEVORA O OUTRO
dos meus pés, e subindo
eu desisto das minhas pernas.
Elas latejam e me fazem sentir vivo,
mas eu não quero mais sentir-me vivo.
Ao cortar o pau, prender nele uma pedra
até que penda para sempre, eu só penso
nos olhos de todas aquelas mulheres.
Eu entrego
ao fogo o mel dos olhos.
As emoções,
eu desisto delas todas, o coração limpo
ou não, eu desisto do coração, do umbigo
que me ligou à minha mãe, eu desisto da minha mãe
e de todas as palavras que usei
quando compreendi que era alguém, desisto de ser alguém
para ser oco, novo, fogo, ouro:
UM CORPO DEVORA O OUTRO
1 024
Renato Rezende
] Corpo [
Partindo do princípio, eu desisto
dos meus pés, e subindo
eu desisto das minhas pernas.
Elas latejam e me fazem sentir vivo,
mas eu não quero mais sentir-me vivo.
Ao cortar o pau, prender nele uma pedra
até que penda para sempre, eu só penso
nos olhos de todas aquelas mulheres.
Eu entrego
ao fogo o mel dos olhos.
As emoções,
eu desisto delas todas, o coração limpo
ou não, eu desisto do coração, do umbigo
que me ligou à minha mãe, eu desisto da minha mãe
e de todas as palavras que usei
quando compreendi que era alguém, desisto de ser alguém
para ser oco, novo, fogo, ouro:
UM CORPO DEVORA O OUTRO
dos meus pés, e subindo
eu desisto das minhas pernas.
Elas latejam e me fazem sentir vivo,
mas eu não quero mais sentir-me vivo.
Ao cortar o pau, prender nele uma pedra
até que penda para sempre, eu só penso
nos olhos de todas aquelas mulheres.
Eu entrego
ao fogo o mel dos olhos.
As emoções,
eu desisto delas todas, o coração limpo
ou não, eu desisto do coração, do umbigo
que me ligou à minha mãe, eu desisto da minha mãe
e de todas as palavras que usei
quando compreendi que era alguém, desisto de ser alguém
para ser oco, novo, fogo, ouro:
UM CORPO DEVORA O OUTRO
1 024
Renato Rezende
[Irisar]
É como se o chão tivesse se aberto sob os meus pés, como se estivesse tudo no ar, tudo sem sentido, sem nexo—o que me faz sentir-me desencontrado, confuso. No entanto, quando olho à volta, vejo que está tudo aí, no lugar, como sempre esteve, e nada está sendo ameaçado, tudo dentro da normalidade. Para tentar escapar desse sentimento de desconforto, às vezes me entusiasmo por uma ou outra coisa, mas nenhum desses ânimos se sustenta, e eu logo caio novamente no vazio. Da mesma forma, tenho as reações mais chãs, na tentativa de reconhecerme. Percebo, no entanto, que essas identidades já não estão funcionando mais para mim, já não me reconheço nelas. O desafio é aprender a ocupar todo o espaço que se abriu dentro de mim, a me ver desde um outro ponto de vista, a ganhar uma nova identidade. Não sou mais homem nem poeta, sou Deus, com todos os seus atributos. Mas como se faz isso? Coragem—
Vi um templo belíssimo, com um longo jardim e passarela (um homem ou uma serpente ao lado, sentado), tudo muito limpo e sublime (os homens podem/ poderiam transformar o mundo inteiro em locais sagrados), e, lá no fundo, no santuário, a Deusa, a DEUSA VIVA, dançando, dançando freneticamente em meio a um fogo de horror e gozo—a Deusa dançando em gozo, e ali era a própria morada iluminada do Tempo crepitando.
Constante crepitar
Areia que se desloca
A Deusa parece dançar com mais vigor agora, a experiência do tempo parece intensificar-se: aproxima-se o momento do GRANDE GOZO.
Meu caro, isso é possível, eu conheço alguém assim. Alguém sem o peso da memória, alguém totalmente explodido no momento.
É isso, não sei explicar. Fui morrendo, morrendo.
Há anos que venho morrendo.
Há anos caminho nesse deserto.
Cada vez mais deserto. Cada vez mais claro e luminoso.
Areia e céu se fundem.
Não está na hora de chegar?
Não é aqui a chegada?
Disse luminoso? E essas sombras
que vivem em mim
e toda essa umidade
empoçada em mim?
Por que eu sou tão habitado pela morte?
Por que meu corpo parece dissolver-se?
A vida é o aceno da morte.
É pela vida que a morte se revela.
Irisar
É um saco esse negócio de ‘minha vida’
Esse troço de ter uma vida.
Quando começarei a desmontar o circo?
Tem gente que habita o corpo.
Tem gente que é o corpo.
Nenhum prazer vale nada—só o Amor é precioso.
O Amor é
Amor
Luminoso, sim. Luminoso e seco, o deserto.
Nuvens:
Essa umidade toda mais parece uma mulher.
Acho que sou uma mulher. Há mulher demais em mim.
essas mulheres agora deram
para gostar de apanhar
de cinta com nó
nas nádegas
de deixar vermelhão,
de escorrer sangue
escorrer sangue. essa mulher de quatro
essa mulher amarrada
Desejo ser castrada, circuncisada, mutilada.
Essa mulher de burka.
Não há nada mais belo que uma moça gargalhando.
E essa de cócoras, nua, irreverente, inocente, cândida, essa fenda
essa entrada no corpo.
E essa entrada, sou eu ou sou o outro?
Estou prenhe de morte.
Como, no entanto, ainda vivo?
Como, no entanto, ainda amo?
Estou cansada da morte.
Estou com medo da morte.
E essas luzes douradas, o que são?
Esta vida estabanada. Como se vive?
Como se vive a vida de um homem? Como
Se morre?
A questão é que nunca me sei suficientemente morto.
Esta é a vida que pedi a Deus.
Vi um templo belíssimo, com um longo jardim e passarela (um homem ou uma serpente ao lado, sentado), tudo muito limpo e sublime (os homens podem/ poderiam transformar o mundo inteiro em locais sagrados), e, lá no fundo, no santuário, a Deusa, a DEUSA VIVA, dançando, dançando freneticamente em meio a um fogo de horror e gozo—a Deusa dançando em gozo, e ali era a própria morada iluminada do Tempo crepitando.
Constante crepitar
Areia que se desloca
A Deusa parece dançar com mais vigor agora, a experiência do tempo parece intensificar-se: aproxima-se o momento do GRANDE GOZO.
Meu caro, isso é possível, eu conheço alguém assim. Alguém sem o peso da memória, alguém totalmente explodido no momento.
É isso, não sei explicar. Fui morrendo, morrendo.
Há anos que venho morrendo.
Há anos caminho nesse deserto.
Cada vez mais deserto. Cada vez mais claro e luminoso.
Areia e céu se fundem.
Não está na hora de chegar?
Não é aqui a chegada?
Disse luminoso? E essas sombras
que vivem em mim
e toda essa umidade
empoçada em mim?
Por que eu sou tão habitado pela morte?
Por que meu corpo parece dissolver-se?
A vida é o aceno da morte.
É pela vida que a morte se revela.
Irisar
É um saco esse negócio de ‘minha vida’
Esse troço de ter uma vida.
Quando começarei a desmontar o circo?
Tem gente que habita o corpo.
Tem gente que é o corpo.
Nenhum prazer vale nada—só o Amor é precioso.
O Amor é
Amor
Luminoso, sim. Luminoso e seco, o deserto.
Nuvens:
Essa umidade toda mais parece uma mulher.
Acho que sou uma mulher. Há mulher demais em mim.
essas mulheres agora deram
para gostar de apanhar
de cinta com nó
nas nádegas
de deixar vermelhão,
de escorrer sangue
escorrer sangue. essa mulher de quatro
essa mulher amarrada
Desejo ser castrada, circuncisada, mutilada.
Essa mulher de burka.
Não há nada mais belo que uma moça gargalhando.
E essa de cócoras, nua, irreverente, inocente, cândida, essa fenda
essa entrada no corpo.
E essa entrada, sou eu ou sou o outro?
Estou prenhe de morte.
Como, no entanto, ainda vivo?
Como, no entanto, ainda amo?
Estou cansada da morte.
Estou com medo da morte.
E essas luzes douradas, o que são?
Esta vida estabanada. Como se vive?
Como se vive a vida de um homem? Como
Se morre?
A questão é que nunca me sei suficientemente morto.
Esta é a vida que pedi a Deus.
1 018
Renato Rezende
[Irisar]
É como se o chão tivesse se aberto sob os meus pés, como se estivesse tudo no ar, tudo sem sentido, sem nexo—o que me faz sentir-me desencontrado, confuso. No entanto, quando olho à volta, vejo que está tudo aí, no lugar, como sempre esteve, e nada está sendo ameaçado, tudo dentro da normalidade. Para tentar escapar desse sentimento de desconforto, às vezes me entusiasmo por uma ou outra coisa, mas nenhum desses ânimos se sustenta, e eu logo caio novamente no vazio. Da mesma forma, tenho as reações mais chãs, na tentativa de reconhecerme. Percebo, no entanto, que essas identidades já não estão funcionando mais para mim, já não me reconheço nelas. O desafio é aprender a ocupar todo o espaço que se abriu dentro de mim, a me ver desde um outro ponto de vista, a ganhar uma nova identidade. Não sou mais homem nem poeta, sou Deus, com todos os seus atributos. Mas como se faz isso? Coragem—
Vi um templo belíssimo, com um longo jardim e passarela (um homem ou uma serpente ao lado, sentado), tudo muito limpo e sublime (os homens podem/ poderiam transformar o mundo inteiro em locais sagrados), e, lá no fundo, no santuário, a Deusa, a DEUSA VIVA, dançando, dançando freneticamente em meio a um fogo de horror e gozo—a Deusa dançando em gozo, e ali era a própria morada iluminada do Tempo crepitando.
Constante crepitar
Areia que se desloca
A Deusa parece dançar com mais vigor agora, a experiência do tempo parece intensificar-se: aproxima-se o momento do GRANDE GOZO.
Meu caro, isso é possível, eu conheço alguém assim. Alguém sem o peso da memória, alguém totalmente explodido no momento.
É isso, não sei explicar. Fui morrendo, morrendo.
Há anos que venho morrendo.
Há anos caminho nesse deserto.
Cada vez mais deserto. Cada vez mais claro e luminoso.
Areia e céu se fundem.
Não está na hora de chegar?
Não é aqui a chegada?
Disse luminoso? E essas sombras
que vivem em mim
e toda essa umidade
empoçada em mim?
Por que eu sou tão habitado pela morte?
Por que meu corpo parece dissolver-se?
A vida é o aceno da morte.
É pela vida que a morte se revela.
Irisar
É um saco esse negócio de ‘minha vida’
Esse troço de ter uma vida.
Quando começarei a desmontar o circo?
Tem gente que habita o corpo.
Tem gente que é o corpo.
Nenhum prazer vale nada—só o Amor é precioso.
O Amor é
Amor
Luminoso, sim. Luminoso e seco, o deserto.
Nuvens:
Essa umidade toda mais parece uma mulher.
Acho que sou uma mulher. Há mulher demais em mim.
essas mulheres agora deram
para gostar de apanhar
de cinta com nó
nas nádegas
de deixar vermelhão,
de escorrer sangue
escorrer sangue. essa mulher de quatro
essa mulher amarrada
Desejo ser castrada, circuncisada, mutilada.
Essa mulher de burka.
Não há nada mais belo que uma moça gargalhando.
E essa de cócoras, nua, irreverente, inocente, cândida, essa fenda
essa entrada no corpo.
E essa entrada, sou eu ou sou o outro?
Estou prenhe de morte.
Como, no entanto, ainda vivo?
Como, no entanto, ainda amo?
Estou cansada da morte.
Estou com medo da morte.
E essas luzes douradas, o que são?
Esta vida estabanada. Como se vive?
Como se vive a vida de um homem? Como
Se morre?
A questão é que nunca me sei suficientemente morto.
Esta é a vida que pedi a Deus.
Vi um templo belíssimo, com um longo jardim e passarela (um homem ou uma serpente ao lado, sentado), tudo muito limpo e sublime (os homens podem/ poderiam transformar o mundo inteiro em locais sagrados), e, lá no fundo, no santuário, a Deusa, a DEUSA VIVA, dançando, dançando freneticamente em meio a um fogo de horror e gozo—a Deusa dançando em gozo, e ali era a própria morada iluminada do Tempo crepitando.
Constante crepitar
Areia que se desloca
A Deusa parece dançar com mais vigor agora, a experiência do tempo parece intensificar-se: aproxima-se o momento do GRANDE GOZO.
Meu caro, isso é possível, eu conheço alguém assim. Alguém sem o peso da memória, alguém totalmente explodido no momento.
É isso, não sei explicar. Fui morrendo, morrendo.
Há anos que venho morrendo.
Há anos caminho nesse deserto.
Cada vez mais deserto. Cada vez mais claro e luminoso.
Areia e céu se fundem.
Não está na hora de chegar?
Não é aqui a chegada?
Disse luminoso? E essas sombras
que vivem em mim
e toda essa umidade
empoçada em mim?
Por que eu sou tão habitado pela morte?
Por que meu corpo parece dissolver-se?
A vida é o aceno da morte.
É pela vida que a morte se revela.
Irisar
É um saco esse negócio de ‘minha vida’
Esse troço de ter uma vida.
Quando começarei a desmontar o circo?
Tem gente que habita o corpo.
Tem gente que é o corpo.
Nenhum prazer vale nada—só o Amor é precioso.
O Amor é
Amor
Luminoso, sim. Luminoso e seco, o deserto.
Nuvens:
Essa umidade toda mais parece uma mulher.
Acho que sou uma mulher. Há mulher demais em mim.
essas mulheres agora deram
para gostar de apanhar
de cinta com nó
nas nádegas
de deixar vermelhão,
de escorrer sangue
escorrer sangue. essa mulher de quatro
essa mulher amarrada
Desejo ser castrada, circuncisada, mutilada.
Essa mulher de burka.
Não há nada mais belo que uma moça gargalhando.
E essa de cócoras, nua, irreverente, inocente, cândida, essa fenda
essa entrada no corpo.
E essa entrada, sou eu ou sou o outro?
Estou prenhe de morte.
Como, no entanto, ainda vivo?
Como, no entanto, ainda amo?
Estou cansada da morte.
Estou com medo da morte.
E essas luzes douradas, o que são?
Esta vida estabanada. Como se vive?
Como se vive a vida de um homem? Como
Se morre?
A questão é que nunca me sei suficientemente morto.
Esta é a vida que pedi a Deus.
1 018
Renato Rezende
[Irisar]
É como se o chão tivesse se aberto sob os meus pés, como se estivesse tudo no ar, tudo sem sentido, sem nexo—o que me faz sentir-me desencontrado, confuso. No entanto, quando olho à volta, vejo que está tudo aí, no lugar, como sempre esteve, e nada está sendo ameaçado, tudo dentro da normalidade. Para tentar escapar desse sentimento de desconforto, às vezes me entusiasmo por uma ou outra coisa, mas nenhum desses ânimos se sustenta, e eu logo caio novamente no vazio. Da mesma forma, tenho as reações mais chãs, na tentativa de reconhecerme. Percebo, no entanto, que essas identidades já não estão funcionando mais para mim, já não me reconheço nelas. O desafio é aprender a ocupar todo o espaço que se abriu dentro de mim, a me ver desde um outro ponto de vista, a ganhar uma nova identidade. Não sou mais homem nem poeta, sou Deus, com todos os seus atributos. Mas como se faz isso? Coragem—
Vi um templo belíssimo, com um longo jardim e passarela (um homem ou uma serpente ao lado, sentado), tudo muito limpo e sublime (os homens podem/ poderiam transformar o mundo inteiro em locais sagrados), e, lá no fundo, no santuário, a Deusa, a DEUSA VIVA, dançando, dançando freneticamente em meio a um fogo de horror e gozo—a Deusa dançando em gozo, e ali era a própria morada iluminada do Tempo crepitando.
Constante crepitar
Areia que se desloca
A Deusa parece dançar com mais vigor agora, a experiência do tempo parece intensificar-se: aproxima-se o momento do GRANDE GOZO.
Meu caro, isso é possível, eu conheço alguém assim. Alguém sem o peso da memória, alguém totalmente explodido no momento.
É isso, não sei explicar. Fui morrendo, morrendo.
Há anos que venho morrendo.
Há anos caminho nesse deserto.
Cada vez mais deserto. Cada vez mais claro e luminoso.
Areia e céu se fundem.
Não está na hora de chegar?
Não é aqui a chegada?
Disse luminoso? E essas sombras
que vivem em mim
e toda essa umidade
empoçada em mim?
Por que eu sou tão habitado pela morte?
Por que meu corpo parece dissolver-se?
A vida é o aceno da morte.
É pela vida que a morte se revela.
Irisar
É um saco esse negócio de ‘minha vida’
Esse troço de ter uma vida.
Quando começarei a desmontar o circo?
Tem gente que habita o corpo.
Tem gente que é o corpo.
Nenhum prazer vale nada—só o Amor é precioso.
O Amor é
Amor
Luminoso, sim. Luminoso e seco, o deserto.
Nuvens:
Essa umidade toda mais parece uma mulher.
Acho que sou uma mulher. Há mulher demais em mim.
essas mulheres agora deram
para gostar de apanhar
de cinta com nó
nas nádegas
de deixar vermelhão,
de escorrer sangue
escorrer sangue. essa mulher de quatro
essa mulher amarrada
Desejo ser castrada, circuncisada, mutilada.
Essa mulher de burka.
Não há nada mais belo que uma moça gargalhando.
E essa de cócoras, nua, irreverente, inocente, cândida, essa fenda
essa entrada no corpo.
E essa entrada, sou eu ou sou o outro?
Estou prenhe de morte.
Como, no entanto, ainda vivo?
Como, no entanto, ainda amo?
Estou cansada da morte.
Estou com medo da morte.
E essas luzes douradas, o que são?
Esta vida estabanada. Como se vive?
Como se vive a vida de um homem? Como
Se morre?
A questão é que nunca me sei suficientemente morto.
Esta é a vida que pedi a Deus.
Vi um templo belíssimo, com um longo jardim e passarela (um homem ou uma serpente ao lado, sentado), tudo muito limpo e sublime (os homens podem/ poderiam transformar o mundo inteiro em locais sagrados), e, lá no fundo, no santuário, a Deusa, a DEUSA VIVA, dançando, dançando freneticamente em meio a um fogo de horror e gozo—a Deusa dançando em gozo, e ali era a própria morada iluminada do Tempo crepitando.
Constante crepitar
Areia que se desloca
A Deusa parece dançar com mais vigor agora, a experiência do tempo parece intensificar-se: aproxima-se o momento do GRANDE GOZO.
Meu caro, isso é possível, eu conheço alguém assim. Alguém sem o peso da memória, alguém totalmente explodido no momento.
É isso, não sei explicar. Fui morrendo, morrendo.
Há anos que venho morrendo.
Há anos caminho nesse deserto.
Cada vez mais deserto. Cada vez mais claro e luminoso.
Areia e céu se fundem.
Não está na hora de chegar?
Não é aqui a chegada?
Disse luminoso? E essas sombras
que vivem em mim
e toda essa umidade
empoçada em mim?
Por que eu sou tão habitado pela morte?
Por que meu corpo parece dissolver-se?
A vida é o aceno da morte.
É pela vida que a morte se revela.
Irisar
É um saco esse negócio de ‘minha vida’
Esse troço de ter uma vida.
Quando começarei a desmontar o circo?
Tem gente que habita o corpo.
Tem gente que é o corpo.
Nenhum prazer vale nada—só o Amor é precioso.
O Amor é
Amor
Luminoso, sim. Luminoso e seco, o deserto.
Nuvens:
Essa umidade toda mais parece uma mulher.
Acho que sou uma mulher. Há mulher demais em mim.
essas mulheres agora deram
para gostar de apanhar
de cinta com nó
nas nádegas
de deixar vermelhão,
de escorrer sangue
escorrer sangue. essa mulher de quatro
essa mulher amarrada
Desejo ser castrada, circuncisada, mutilada.
Essa mulher de burka.
Não há nada mais belo que uma moça gargalhando.
E essa de cócoras, nua, irreverente, inocente, cândida, essa fenda
essa entrada no corpo.
E essa entrada, sou eu ou sou o outro?
Estou prenhe de morte.
Como, no entanto, ainda vivo?
Como, no entanto, ainda amo?
Estou cansada da morte.
Estou com medo da morte.
E essas luzes douradas, o que são?
Esta vida estabanada. Como se vive?
Como se vive a vida de um homem? Como
Se morre?
A questão é que nunca me sei suficientemente morto.
Esta é a vida que pedi a Deus.
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Renato Rezende
[Irisar]
É como se o chão tivesse se aberto sob os meus pés, como se estivesse tudo no ar, tudo sem sentido, sem nexo—o que me faz sentir-me desencontrado, confuso. No entanto, quando olho à volta, vejo que está tudo aí, no lugar, como sempre esteve, e nada está sendo ameaçado, tudo dentro da normalidade. Para tentar escapar desse sentimento de desconforto, às vezes me entusiasmo por uma ou outra coisa, mas nenhum desses ânimos se sustenta, e eu logo caio novamente no vazio. Da mesma forma, tenho as reações mais chãs, na tentativa de reconhecerme. Percebo, no entanto, que essas identidades já não estão funcionando mais para mim, já não me reconheço nelas. O desafio é aprender a ocupar todo o espaço que se abriu dentro de mim, a me ver desde um outro ponto de vista, a ganhar uma nova identidade. Não sou mais homem nem poeta, sou Deus, com todos os seus atributos. Mas como se faz isso? Coragem—
Vi um templo belíssimo, com um longo jardim e passarela (um homem ou uma serpente ao lado, sentado), tudo muito limpo e sublime (os homens podem/ poderiam transformar o mundo inteiro em locais sagrados), e, lá no fundo, no santuário, a Deusa, a DEUSA VIVA, dançando, dançando freneticamente em meio a um fogo de horror e gozo—a Deusa dançando em gozo, e ali era a própria morada iluminada do Tempo crepitando.
Constante crepitar
Areia que se desloca
A Deusa parece dançar com mais vigor agora, a experiência do tempo parece intensificar-se: aproxima-se o momento do GRANDE GOZO.
Meu caro, isso é possível, eu conheço alguém assim. Alguém sem o peso da memória, alguém totalmente explodido no momento.
É isso, não sei explicar. Fui morrendo, morrendo.
Há anos que venho morrendo.
Há anos caminho nesse deserto.
Cada vez mais deserto. Cada vez mais claro e luminoso.
Areia e céu se fundem.
Não está na hora de chegar?
Não é aqui a chegada?
Disse luminoso? E essas sombras
que vivem em mim
e toda essa umidade
empoçada em mim?
Por que eu sou tão habitado pela morte?
Por que meu corpo parece dissolver-se?
A vida é o aceno da morte.
É pela vida que a morte se revela.
Irisar
É um saco esse negócio de ‘minha vida’
Esse troço de ter uma vida.
Quando começarei a desmontar o circo?
Tem gente que habita o corpo.
Tem gente que é o corpo.
Nenhum prazer vale nada—só o Amor é precioso.
O Amor é
Amor
Luminoso, sim. Luminoso e seco, o deserto.
Nuvens:
Essa umidade toda mais parece uma mulher.
Acho que sou uma mulher. Há mulher demais em mim.
essas mulheres agora deram
para gostar de apanhar
de cinta com nó
nas nádegas
de deixar vermelhão,
de escorrer sangue
escorrer sangue. essa mulher de quatro
essa mulher amarrada
Desejo ser castrada, circuncisada, mutilada.
Essa mulher de burka.
Não há nada mais belo que uma moça gargalhando.
E essa de cócoras, nua, irreverente, inocente, cândida, essa fenda
essa entrada no corpo.
E essa entrada, sou eu ou sou o outro?
Estou prenhe de morte.
Como, no entanto, ainda vivo?
Como, no entanto, ainda amo?
Estou cansada da morte.
Estou com medo da morte.
E essas luzes douradas, o que são?
Esta vida estabanada. Como se vive?
Como se vive a vida de um homem? Como
Se morre?
A questão é que nunca me sei suficientemente morto.
Esta é a vida que pedi a Deus.
Vi um templo belíssimo, com um longo jardim e passarela (um homem ou uma serpente ao lado, sentado), tudo muito limpo e sublime (os homens podem/ poderiam transformar o mundo inteiro em locais sagrados), e, lá no fundo, no santuário, a Deusa, a DEUSA VIVA, dançando, dançando freneticamente em meio a um fogo de horror e gozo—a Deusa dançando em gozo, e ali era a própria morada iluminada do Tempo crepitando.
Constante crepitar
Areia que se desloca
A Deusa parece dançar com mais vigor agora, a experiência do tempo parece intensificar-se: aproxima-se o momento do GRANDE GOZO.
Meu caro, isso é possível, eu conheço alguém assim. Alguém sem o peso da memória, alguém totalmente explodido no momento.
É isso, não sei explicar. Fui morrendo, morrendo.
Há anos que venho morrendo.
Há anos caminho nesse deserto.
Cada vez mais deserto. Cada vez mais claro e luminoso.
Areia e céu se fundem.
Não está na hora de chegar?
Não é aqui a chegada?
Disse luminoso? E essas sombras
que vivem em mim
e toda essa umidade
empoçada em mim?
Por que eu sou tão habitado pela morte?
Por que meu corpo parece dissolver-se?
A vida é o aceno da morte.
É pela vida que a morte se revela.
Irisar
É um saco esse negócio de ‘minha vida’
Esse troço de ter uma vida.
Quando começarei a desmontar o circo?
Tem gente que habita o corpo.
Tem gente que é o corpo.
Nenhum prazer vale nada—só o Amor é precioso.
O Amor é
Amor
Luminoso, sim. Luminoso e seco, o deserto.
Nuvens:
Essa umidade toda mais parece uma mulher.
Acho que sou uma mulher. Há mulher demais em mim.
essas mulheres agora deram
para gostar de apanhar
de cinta com nó
nas nádegas
de deixar vermelhão,
de escorrer sangue
escorrer sangue. essa mulher de quatro
essa mulher amarrada
Desejo ser castrada, circuncisada, mutilada.
Essa mulher de burka.
Não há nada mais belo que uma moça gargalhando.
E essa de cócoras, nua, irreverente, inocente, cândida, essa fenda
essa entrada no corpo.
E essa entrada, sou eu ou sou o outro?
Estou prenhe de morte.
Como, no entanto, ainda vivo?
Como, no entanto, ainda amo?
Estou cansada da morte.
Estou com medo da morte.
E essas luzes douradas, o que são?
Esta vida estabanada. Como se vive?
Como se vive a vida de um homem? Como
Se morre?
A questão é que nunca me sei suficientemente morto.
Esta é a vida que pedi a Deus.
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Renato Rezende
Dasein 04.02.05
Acordo durante a noite para mijar e envolto em manchas de luz azul percebo que a alegria
constante, livre de qualquer dor ou preocupação é possível e, na verdade, a verdadeira realidade.
Volto para a cama me perguntando quando vou despertar deste sonho, deste nível de existência
diversificada, e enfim penetrar na realidade real, a realidade azul do Ser—quando atravessarei a
fronteira e começarei a existir de fato?
constante, livre de qualquer dor ou preocupação é possível e, na verdade, a verdadeira realidade.
Volto para a cama me perguntando quando vou despertar deste sonho, deste nível de existência
diversificada, e enfim penetrar na realidade real, a realidade azul do Ser—quando atravessarei a
fronteira e começarei a existir de fato?
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Renato Rezende
Dasein 04.02.05
Acordo durante a noite para mijar e envolto em manchas de luz azul percebo que a alegria
constante, livre de qualquer dor ou preocupação é possível e, na verdade, a verdadeira realidade.
Volto para a cama me perguntando quando vou despertar deste sonho, deste nível de existência
diversificada, e enfim penetrar na realidade real, a realidade azul do Ser—quando atravessarei a
fronteira e começarei a existir de fato?
constante, livre de qualquer dor ou preocupação é possível e, na verdade, a verdadeira realidade.
Volto para a cama me perguntando quando vou despertar deste sonho, deste nível de existência
diversificada, e enfim penetrar na realidade real, a realidade azul do Ser—quando atravessarei a
fronteira e começarei a existir de fato?
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Renato Rezende
Lápis-Lazúli
Uma pergunta insiste no fundo da mente, até que, uma manhã, ele tem coragem de olhá-la
de frente. Assim, como quem não quer nada, ele volta-se para si mesmo:
POR QUÊ A VIDA VALE A PENA SER VIVIDA?
Durante uma semana inteira, a pergunta vomitada do lado de fora, como se fosse um lápislazúli no meio do asfalto.
Ele foi se acostumando com a pedra. Ela não mordia, não queimava.
E a resposta veio sem dor:
A vida não vale a pena ser vivida. A vida não é. A Morte vale a pena ser vivida; a Morte,
que mora dentro, AGORA – cons-tan-te-pul-sar-de-êx-ta-se. Não existe nada, lugar nenhum,
pessoa alguma, que de fato exista.
de frente. Assim, como quem não quer nada, ele volta-se para si mesmo:
POR QUÊ A VIDA VALE A PENA SER VIVIDA?
Durante uma semana inteira, a pergunta vomitada do lado de fora, como se fosse um lápislazúli no meio do asfalto.
Ele foi se acostumando com a pedra. Ela não mordia, não queimava.
E a resposta veio sem dor:
A vida não vale a pena ser vivida. A vida não é. A Morte vale a pena ser vivida; a Morte,
que mora dentro, AGORA – cons-tan-te-pul-sar-de-êx-ta-se. Não existe nada, lugar nenhum,
pessoa alguma, que de fato exista.
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Renato Rezende
Lápis-Lazúli
Uma pergunta insiste no fundo da mente, até que, uma manhã, ele tem coragem de olhá-la
de frente. Assim, como quem não quer nada, ele volta-se para si mesmo:
POR QUÊ A VIDA VALE A PENA SER VIVIDA?
Durante uma semana inteira, a pergunta vomitada do lado de fora, como se fosse um lápislazúli no meio do asfalto.
Ele foi se acostumando com a pedra. Ela não mordia, não queimava.
E a resposta veio sem dor:
A vida não vale a pena ser vivida. A vida não é. A Morte vale a pena ser vivida; a Morte,
que mora dentro, AGORA – cons-tan-te-pul-sar-de-êx-ta-se. Não existe nada, lugar nenhum,
pessoa alguma, que de fato exista.
de frente. Assim, como quem não quer nada, ele volta-se para si mesmo:
POR QUÊ A VIDA VALE A PENA SER VIVIDA?
Durante uma semana inteira, a pergunta vomitada do lado de fora, como se fosse um lápislazúli no meio do asfalto.
Ele foi se acostumando com a pedra. Ela não mordia, não queimava.
E a resposta veio sem dor:
A vida não vale a pena ser vivida. A vida não é. A Morte vale a pena ser vivida; a Morte,
que mora dentro, AGORA – cons-tan-te-pul-sar-de-êx-ta-se. Não existe nada, lugar nenhum,
pessoa alguma, que de fato exista.
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