Poemas neste tema
Vida e Existência
Renato Rezende
Lápis-Lazúli
Uma pergunta insiste no fundo da mente, até que, uma manhã, ele tem coragem de olhá-la
de frente. Assim, como quem não quer nada, ele volta-se para si mesmo:
POR QUÊ A VIDA VALE A PENA SER VIVIDA?
Durante uma semana inteira, a pergunta vomitada do lado de fora, como se fosse um lápislazúli no meio do asfalto.
Ele foi se acostumando com a pedra. Ela não mordia, não queimava.
E a resposta veio sem dor:
A vida não vale a pena ser vivida. A vida não é. A Morte vale a pena ser vivida; a Morte,
que mora dentro, AGORA – cons-tan-te-pul-sar-de-êx-ta-se. Não existe nada, lugar nenhum,
pessoa alguma, que de fato exista.
de frente. Assim, como quem não quer nada, ele volta-se para si mesmo:
POR QUÊ A VIDA VALE A PENA SER VIVIDA?
Durante uma semana inteira, a pergunta vomitada do lado de fora, como se fosse um lápislazúli no meio do asfalto.
Ele foi se acostumando com a pedra. Ela não mordia, não queimava.
E a resposta veio sem dor:
A vida não vale a pena ser vivida. A vida não é. A Morte vale a pena ser vivida; a Morte,
que mora dentro, AGORA – cons-tan-te-pul-sar-de-êx-ta-se. Não existe nada, lugar nenhum,
pessoa alguma, que de fato exista.
1 096
Renato Rezende
Lápis-Lazúli
Uma pergunta insiste no fundo da mente, até que, uma manhã, ele tem coragem de olhá-la
de frente. Assim, como quem não quer nada, ele volta-se para si mesmo:
POR QUÊ A VIDA VALE A PENA SER VIVIDA?
Durante uma semana inteira, a pergunta vomitada do lado de fora, como se fosse um lápislazúli no meio do asfalto.
Ele foi se acostumando com a pedra. Ela não mordia, não queimava.
E a resposta veio sem dor:
A vida não vale a pena ser vivida. A vida não é. A Morte vale a pena ser vivida; a Morte,
que mora dentro, AGORA – cons-tan-te-pul-sar-de-êx-ta-se. Não existe nada, lugar nenhum,
pessoa alguma, que de fato exista.
de frente. Assim, como quem não quer nada, ele volta-se para si mesmo:
POR QUÊ A VIDA VALE A PENA SER VIVIDA?
Durante uma semana inteira, a pergunta vomitada do lado de fora, como se fosse um lápislazúli no meio do asfalto.
Ele foi se acostumando com a pedra. Ela não mordia, não queimava.
E a resposta veio sem dor:
A vida não vale a pena ser vivida. A vida não é. A Morte vale a pena ser vivida; a Morte,
que mora dentro, AGORA – cons-tan-te-pul-sar-de-êx-ta-se. Não existe nada, lugar nenhum,
pessoa alguma, que de fato exista.
1 096
Renato Rezende
Lápis-Lazúli
Uma pergunta insiste no fundo da mente, até que, uma manhã, ele tem coragem de olhá-la
de frente. Assim, como quem não quer nada, ele volta-se para si mesmo:
POR QUÊ A VIDA VALE A PENA SER VIVIDA?
Durante uma semana inteira, a pergunta vomitada do lado de fora, como se fosse um lápislazúli no meio do asfalto.
Ele foi se acostumando com a pedra. Ela não mordia, não queimava.
E a resposta veio sem dor:
A vida não vale a pena ser vivida. A vida não é. A Morte vale a pena ser vivida; a Morte,
que mora dentro, AGORA – cons-tan-te-pul-sar-de-êx-ta-se. Não existe nada, lugar nenhum,
pessoa alguma, que de fato exista.
de frente. Assim, como quem não quer nada, ele volta-se para si mesmo:
POR QUÊ A VIDA VALE A PENA SER VIVIDA?
Durante uma semana inteira, a pergunta vomitada do lado de fora, como se fosse um lápislazúli no meio do asfalto.
Ele foi se acostumando com a pedra. Ela não mordia, não queimava.
E a resposta veio sem dor:
A vida não vale a pena ser vivida. A vida não é. A Morte vale a pena ser vivida; a Morte,
que mora dentro, AGORA – cons-tan-te-pul-sar-de-êx-ta-se. Não existe nada, lugar nenhum,
pessoa alguma, que de fato exista.
1 096
Renato Rezende
Asas
Como uma borboleta às vezes voa baixo
e acaba
atropelada
nas ruas desta cidade;
luz e azul
estagnados
estampados
no negro do asfalto;
anjo crucificado
entre carros que passam,
minha vida
morna e delicada
beijou a parede e o asfalto, trêmula
nas encostas do precipício.
Sento-me rente
à calçada
na raíz de uma enorme árvore, só
entre a sarjeta e o asfalto,
entre o tempo e a morte.
Ó alta e sábia árvore.
Ó árvore,
eu beijo tua casca--
tua grossa, antiga casca.
Imagino que esta árvore mágica
poderia destruir a cidade
e transformá-la novamente em mata.
Imagino e sou salvo.
No meio da mata Atlântica
no tempo vegetal
como uma larva
eu subo a alta árvore
até o céu.
O céu anil
das asas de uma borboleta livre
sobre o mar terrestre.
Subo e sou
luz e crisálida,
um pouco já raio e êxtase.
Quero vertigens transparentes,
quero o grande salto d'alma.
Deus, será que dava, de onde eu caio
fazer-me santo rápido,
algum tipo de pássaro,
dar-me asas?
Rio de Janeiro, 4 de maio 1997
e acaba
atropelada
nas ruas desta cidade;
luz e azul
estagnados
estampados
no negro do asfalto;
anjo crucificado
entre carros que passam,
minha vida
morna e delicada
beijou a parede e o asfalto, trêmula
nas encostas do precipício.
Sento-me rente
à calçada
na raíz de uma enorme árvore, só
entre a sarjeta e o asfalto,
entre o tempo e a morte.
Ó alta e sábia árvore.
Ó árvore,
eu beijo tua casca--
tua grossa, antiga casca.
Imagino que esta árvore mágica
poderia destruir a cidade
e transformá-la novamente em mata.
Imagino e sou salvo.
No meio da mata Atlântica
no tempo vegetal
como uma larva
eu subo a alta árvore
até o céu.
O céu anil
das asas de uma borboleta livre
sobre o mar terrestre.
Subo e sou
luz e crisálida,
um pouco já raio e êxtase.
Quero vertigens transparentes,
quero o grande salto d'alma.
Deus, será que dava, de onde eu caio
fazer-me santo rápido,
algum tipo de pássaro,
dar-me asas?
Rio de Janeiro, 4 de maio 1997
1 053
Renato Rezende
07.04.05
As luzes azuis.
Percebo que a iluminação é menos um mergulhar (numa realidade maior) e mais um
explodir de dentro para fora.
É uma pressão que vem de dentro.
Que me expulsa de mim mesmo.
A parte que resiste sou eu. É preciso permitir que essa outra energia (que não é o eu que
estou acostumado a ser) tome posse.
Percebo que a iluminação é menos um mergulhar (numa realidade maior) e mais um
explodir de dentro para fora.
É uma pressão que vem de dentro.
Que me expulsa de mim mesmo.
A parte que resiste sou eu. É preciso permitir que essa outra energia (que não é o eu que
estou acostumado a ser) tome posse.
979
Renato Rezende
07.04.05
As luzes azuis.
Percebo que a iluminação é menos um mergulhar (numa realidade maior) e mais um
explodir de dentro para fora.
É uma pressão que vem de dentro.
Que me expulsa de mim mesmo.
A parte que resiste sou eu. É preciso permitir que essa outra energia (que não é o eu que
estou acostumado a ser) tome posse.
Percebo que a iluminação é menos um mergulhar (numa realidade maior) e mais um
explodir de dentro para fora.
É uma pressão que vem de dentro.
Que me expulsa de mim mesmo.
A parte que resiste sou eu. É preciso permitir que essa outra energia (que não é o eu que
estou acostumado a ser) tome posse.
979
Renato Rezende
07.04.05
As luzes azuis.
Percebo que a iluminação é menos um mergulhar (numa realidade maior) e mais um
explodir de dentro para fora.
É uma pressão que vem de dentro.
Que me expulsa de mim mesmo.
A parte que resiste sou eu. É preciso permitir que essa outra energia (que não é o eu que
estou acostumado a ser) tome posse.
Percebo que a iluminação é menos um mergulhar (numa realidade maior) e mais um
explodir de dentro para fora.
É uma pressão que vem de dentro.
Que me expulsa de mim mesmo.
A parte que resiste sou eu. É preciso permitir que essa outra energia (que não é o eu que
estou acostumado a ser) tome posse.
979
Renato Rezende
Cego, Surdo E Mudo
Ver outra vez com os mesmos olhos
o mil vezes visto e revisto?
Por que
caminhar sem fim na planície,
ouvir com os antigos ouvidos
os mesmos ruídos e vozes
sem respostas, as velhas melodias tristes,
falar com novas palavras e versos
o mil vezes dito
e sempre mal compreendido; enfim
por que buscar o corpo do outro
para um amor sem muito sentido
ou um gozo breve e tosco?
Não quero nada disso; quero o vazio
que traga o novo.
o mil vezes visto e revisto?
Por que
caminhar sem fim na planície,
ouvir com os antigos ouvidos
os mesmos ruídos e vozes
sem respostas, as velhas melodias tristes,
falar com novas palavras e versos
o mil vezes dito
e sempre mal compreendido; enfim
por que buscar o corpo do outro
para um amor sem muito sentido
ou um gozo breve e tosco?
Não quero nada disso; quero o vazio
que traga o novo.
718
Renato Rezende
Corte
[ ]
La vraie vie
est absente.
] [
Mas onde
é isso?
Na Abissínia?
Na morte?
[EU NÃO VOLTO!]
La vraie vie
est absente.
] [
Mas onde
é isso?
Na Abissínia?
Na morte?
[EU NÃO VOLTO!]
970
Renato Rezende
Corte
[ ]
La vraie vie
est absente.
] [
Mas onde
é isso?
Na Abissínia?
Na morte?
[EU NÃO VOLTO!]
La vraie vie
est absente.
] [
Mas onde
é isso?
Na Abissínia?
Na morte?
[EU NÃO VOLTO!]
970
Renato Rezende
O Bicho
Me misturo ao mundo absurdo,
como do mundo, e me pergunto
onde mais encontrar comida
que sustente espírito e músculos.
Que sustente espírito e tudo
que de mim quer fugir do mundo.
No turbilhão da vida
penso na morte.
Será que na hora da morte
vou querer a vida?
Sou uma alma em sua jaula.
Rio de Janeiro, 8 de outubro 1997
como do mundo, e me pergunto
onde mais encontrar comida
que sustente espírito e músculos.
Que sustente espírito e tudo
que de mim quer fugir do mundo.
No turbilhão da vida
penso na morte.
Será que na hora da morte
vou querer a vida?
Sou uma alma em sua jaula.
Rio de Janeiro, 8 de outubro 1997
700
Renato Rezende
O Bicho
Me misturo ao mundo absurdo,
como do mundo, e me pergunto
onde mais encontrar comida
que sustente espírito e músculos.
Que sustente espírito e tudo
que de mim quer fugir do mundo.
No turbilhão da vida
penso na morte.
Será que na hora da morte
vou querer a vida?
Sou uma alma em sua jaula.
Rio de Janeiro, 8 de outubro 1997
como do mundo, e me pergunto
onde mais encontrar comida
que sustente espírito e músculos.
Que sustente espírito e tudo
que de mim quer fugir do mundo.
No turbilhão da vida
penso na morte.
Será que na hora da morte
vou querer a vida?
Sou uma alma em sua jaula.
Rio de Janeiro, 8 de outubro 1997
700
Renato Rezende
Irene Encarnada
Le con d'Irene
El coño de Irene
El culo de Irene
El pelo de Irene
Meu Deus, Irene
Irene, Irene
Irene, seus cabelos
Irene, suas mãos
Irene, seu umbigo
Irene, seus joelhos
A barriga de Irene
doce, e dentro
seus intestinos
Irene, seus cotovelos
e calcanhares, seu queixo
seus maxilares, seu sorriso
e seus olhares
(como os meus)
Irene, Irene, sua vida
na régua do corpo e do tempo,
na regra da língua
(Meu Deus, e eu
eu ainda não compreendo a vida)
Nova York, outubro 1996
El coño de Irene
El culo de Irene
El pelo de Irene
Meu Deus, Irene
Irene, Irene
Irene, seus cabelos
Irene, suas mãos
Irene, seu umbigo
Irene, seus joelhos
A barriga de Irene
doce, e dentro
seus intestinos
Irene, seus cotovelos
e calcanhares, seu queixo
seus maxilares, seu sorriso
e seus olhares
(como os meus)
Irene, Irene, sua vida
na régua do corpo e do tempo,
na regra da língua
(Meu Deus, e eu
eu ainda não compreendo a vida)
Nova York, outubro 1996
956
Renato Rezende
Irene Encarnada
Le con d'Irene
El coño de Irene
El culo de Irene
El pelo de Irene
Meu Deus, Irene
Irene, Irene
Irene, seus cabelos
Irene, suas mãos
Irene, seu umbigo
Irene, seus joelhos
A barriga de Irene
doce, e dentro
seus intestinos
Irene, seus cotovelos
e calcanhares, seu queixo
seus maxilares, seu sorriso
e seus olhares
(como os meus)
Irene, Irene, sua vida
na régua do corpo e do tempo,
na regra da língua
(Meu Deus, e eu
eu ainda não compreendo a vida)
Nova York, outubro 1996
El coño de Irene
El culo de Irene
El pelo de Irene
Meu Deus, Irene
Irene, Irene
Irene, seus cabelos
Irene, suas mãos
Irene, seu umbigo
Irene, seus joelhos
A barriga de Irene
doce, e dentro
seus intestinos
Irene, seus cotovelos
e calcanhares, seu queixo
seus maxilares, seu sorriso
e seus olhares
(como os meus)
Irene, Irene, sua vida
na régua do corpo e do tempo,
na regra da língua
(Meu Deus, e eu
eu ainda não compreendo a vida)
Nova York, outubro 1996
956
Renato Rezende
Sopro
Este corpo onde agora moro
parece estar vivo, no entanto
o corpo está sempre morto.
O que é vivo é este sopro
que se sabe dentro do corpo.
parece estar vivo, no entanto
o corpo está sempre morto.
O que é vivo é este sopro
que se sabe dentro do corpo.
1 166
Renato Rezende
Sopro
Este corpo onde agora moro
parece estar vivo, no entanto
o corpo está sempre morto.
O que é vivo é este sopro
que se sabe dentro do corpo.
parece estar vivo, no entanto
o corpo está sempre morto.
O que é vivo é este sopro
que se sabe dentro do corpo.
1 166
Renato Rezende
Sopro
Este corpo onde agora moro
parece estar vivo, no entanto
o corpo está sempre morto.
O que é vivo é este sopro
que se sabe dentro do corpo.
parece estar vivo, no entanto
o corpo está sempre morto.
O que é vivo é este sopro
que se sabe dentro do corpo.
1 166
Renato Rezende
As Moiras
Gostaria de estar lá, testemunha, bem na hora
quando as moiras tecem o destino dos homens.
-- Você (ainda apenas uma alma)
está condenado a caminhar de joelhos
por 35 anos
na cidade do Rio de Janeiro.
Essa foi boa! É o mendigo
que vi ontem sob o sol
na praia do Flamengo.
Levariam elas em conta a lei oriental do karma?
Compreenderiam elas que, afinal
a vida é sonho
e não importa nada?
Não é verdade que no fim das contas
todo destino é igual
e todo homem um expatriado de si mesmo?
Veja eu, por exemplo
Renato Rezende, 32 anos
e ainda não morri de fome e de sede
(este fato me surpreende).
Carrego um iceberg no peito
cuja minúscula ponta são todos os meus versos.
Parece mesmo que meu destino
é este gesto já quase desfeito
este desejo imenso de não sei bem o quê
este gigantesco amor-desatino
este aparente
bater a esmo.
As moiras, na sua Glória, eu sei, gostam dessa gente
que é torta, desses sem jeito
que descasam o fim do começo,
que são menos carne do que espírito.
Como o mendigo do Flamengo
eu sou um escolhido
e vivo de joelhos dentro de mim mesmo.
Todas as minhas vitórias sempre serão
maravilhosa, necessariamente um sinal de menos.
Rio de Janeiro, 15 de fevereiro 1997
quando as moiras tecem o destino dos homens.
-- Você (ainda apenas uma alma)
está condenado a caminhar de joelhos
por 35 anos
na cidade do Rio de Janeiro.
Essa foi boa! É o mendigo
que vi ontem sob o sol
na praia do Flamengo.
Levariam elas em conta a lei oriental do karma?
Compreenderiam elas que, afinal
a vida é sonho
e não importa nada?
Não é verdade que no fim das contas
todo destino é igual
e todo homem um expatriado de si mesmo?
Veja eu, por exemplo
Renato Rezende, 32 anos
e ainda não morri de fome e de sede
(este fato me surpreende).
Carrego um iceberg no peito
cuja minúscula ponta são todos os meus versos.
Parece mesmo que meu destino
é este gesto já quase desfeito
este desejo imenso de não sei bem o quê
este gigantesco amor-desatino
este aparente
bater a esmo.
As moiras, na sua Glória, eu sei, gostam dessa gente
que é torta, desses sem jeito
que descasam o fim do começo,
que são menos carne do que espírito.
Como o mendigo do Flamengo
eu sou um escolhido
e vivo de joelhos dentro de mim mesmo.
Todas as minhas vitórias sempre serão
maravilhosa, necessariamente um sinal de menos.
Rio de Janeiro, 15 de fevereiro 1997
783
Renato Rezende
As Moiras
Gostaria de estar lá, testemunha, bem na hora
quando as moiras tecem o destino dos homens.
-- Você (ainda apenas uma alma)
está condenado a caminhar de joelhos
por 35 anos
na cidade do Rio de Janeiro.
Essa foi boa! É o mendigo
que vi ontem sob o sol
na praia do Flamengo.
Levariam elas em conta a lei oriental do karma?
Compreenderiam elas que, afinal
a vida é sonho
e não importa nada?
Não é verdade que no fim das contas
todo destino é igual
e todo homem um expatriado de si mesmo?
Veja eu, por exemplo
Renato Rezende, 32 anos
e ainda não morri de fome e de sede
(este fato me surpreende).
Carrego um iceberg no peito
cuja minúscula ponta são todos os meus versos.
Parece mesmo que meu destino
é este gesto já quase desfeito
este desejo imenso de não sei bem o quê
este gigantesco amor-desatino
este aparente
bater a esmo.
As moiras, na sua Glória, eu sei, gostam dessa gente
que é torta, desses sem jeito
que descasam o fim do começo,
que são menos carne do que espírito.
Como o mendigo do Flamengo
eu sou um escolhido
e vivo de joelhos dentro de mim mesmo.
Todas as minhas vitórias sempre serão
maravilhosa, necessariamente um sinal de menos.
Rio de Janeiro, 15 de fevereiro 1997
quando as moiras tecem o destino dos homens.
-- Você (ainda apenas uma alma)
está condenado a caminhar de joelhos
por 35 anos
na cidade do Rio de Janeiro.
Essa foi boa! É o mendigo
que vi ontem sob o sol
na praia do Flamengo.
Levariam elas em conta a lei oriental do karma?
Compreenderiam elas que, afinal
a vida é sonho
e não importa nada?
Não é verdade que no fim das contas
todo destino é igual
e todo homem um expatriado de si mesmo?
Veja eu, por exemplo
Renato Rezende, 32 anos
e ainda não morri de fome e de sede
(este fato me surpreende).
Carrego um iceberg no peito
cuja minúscula ponta são todos os meus versos.
Parece mesmo que meu destino
é este gesto já quase desfeito
este desejo imenso de não sei bem o quê
este gigantesco amor-desatino
este aparente
bater a esmo.
As moiras, na sua Glória, eu sei, gostam dessa gente
que é torta, desses sem jeito
que descasam o fim do começo,
que são menos carne do que espírito.
Como o mendigo do Flamengo
eu sou um escolhido
e vivo de joelhos dentro de mim mesmo.
Todas as minhas vitórias sempre serão
maravilhosa, necessariamente um sinal de menos.
Rio de Janeiro, 15 de fevereiro 1997
783
Renato Rezende
As Moiras
Gostaria de estar lá, testemunha, bem na hora
quando as moiras tecem o destino dos homens.
-- Você (ainda apenas uma alma)
está condenado a caminhar de joelhos
por 35 anos
na cidade do Rio de Janeiro.
Essa foi boa! É o mendigo
que vi ontem sob o sol
na praia do Flamengo.
Levariam elas em conta a lei oriental do karma?
Compreenderiam elas que, afinal
a vida é sonho
e não importa nada?
Não é verdade que no fim das contas
todo destino é igual
e todo homem um expatriado de si mesmo?
Veja eu, por exemplo
Renato Rezende, 32 anos
e ainda não morri de fome e de sede
(este fato me surpreende).
Carrego um iceberg no peito
cuja minúscula ponta são todos os meus versos.
Parece mesmo que meu destino
é este gesto já quase desfeito
este desejo imenso de não sei bem o quê
este gigantesco amor-desatino
este aparente
bater a esmo.
As moiras, na sua Glória, eu sei, gostam dessa gente
que é torta, desses sem jeito
que descasam o fim do começo,
que são menos carne do que espírito.
Como o mendigo do Flamengo
eu sou um escolhido
e vivo de joelhos dentro de mim mesmo.
Todas as minhas vitórias sempre serão
maravilhosa, necessariamente um sinal de menos.
Rio de Janeiro, 15 de fevereiro 1997
quando as moiras tecem o destino dos homens.
-- Você (ainda apenas uma alma)
está condenado a caminhar de joelhos
por 35 anos
na cidade do Rio de Janeiro.
Essa foi boa! É o mendigo
que vi ontem sob o sol
na praia do Flamengo.
Levariam elas em conta a lei oriental do karma?
Compreenderiam elas que, afinal
a vida é sonho
e não importa nada?
Não é verdade que no fim das contas
todo destino é igual
e todo homem um expatriado de si mesmo?
Veja eu, por exemplo
Renato Rezende, 32 anos
e ainda não morri de fome e de sede
(este fato me surpreende).
Carrego um iceberg no peito
cuja minúscula ponta são todos os meus versos.
Parece mesmo que meu destino
é este gesto já quase desfeito
este desejo imenso de não sei bem o quê
este gigantesco amor-desatino
este aparente
bater a esmo.
As moiras, na sua Glória, eu sei, gostam dessa gente
que é torta, desses sem jeito
que descasam o fim do começo,
que são menos carne do que espírito.
Como o mendigo do Flamengo
eu sou um escolhido
e vivo de joelhos dentro de mim mesmo.
Todas as minhas vitórias sempre serão
maravilhosa, necessariamente um sinal de menos.
Rio de Janeiro, 15 de fevereiro 1997
783
Renato Rezende
As Veias
O mesmo sangue que corre em minhas veias
já correram em minhas veias
em muitos outros corpos, disso tenho certeza.
Já chamei de minhas muitas veias, muitos corpos
em infindáveis línguas passadas, já mortas.
Já vivi muitas, muitas vidas... in short:
não há diferença entre um ser humano e o próximo.
Nova York, 2 de março 1996
já correram em minhas veias
em muitos outros corpos, disso tenho certeza.
Já chamei de minhas muitas veias, muitos corpos
em infindáveis línguas passadas, já mortas.
Já vivi muitas, muitas vidas... in short:
não há diferença entre um ser humano e o próximo.
Nova York, 2 de março 1996
1 081
Renato Rezende
As Veias
O mesmo sangue que corre em minhas veias
já correram em minhas veias
em muitos outros corpos, disso tenho certeza.
Já chamei de minhas muitas veias, muitos corpos
em infindáveis línguas passadas, já mortas.
Já vivi muitas, muitas vidas... in short:
não há diferença entre um ser humano e o próximo.
Nova York, 2 de março 1996
já correram em minhas veias
em muitos outros corpos, disso tenho certeza.
Já chamei de minhas muitas veias, muitos corpos
em infindáveis línguas passadas, já mortas.
Já vivi muitas, muitas vidas... in short:
não há diferença entre um ser humano e o próximo.
Nova York, 2 de março 1996
1 081
Renato Rezende
As Veias
O mesmo sangue que corre em minhas veias
já correram em minhas veias
em muitos outros corpos, disso tenho certeza.
Já chamei de minhas muitas veias, muitos corpos
em infindáveis línguas passadas, já mortas.
Já vivi muitas, muitas vidas... in short:
não há diferença entre um ser humano e o próximo.
Nova York, 2 de março 1996
já correram em minhas veias
em muitos outros corpos, disso tenho certeza.
Já chamei de minhas muitas veias, muitos corpos
em infindáveis línguas passadas, já mortas.
Já vivi muitas, muitas vidas... in short:
não há diferença entre um ser humano e o próximo.
Nova York, 2 de março 1996
1 081