Poemas neste tema
Vida e Existência
Mauro Mota
CHUVA DE VENTO
De que distância
chega essa chuva
de asas, tangida
pela ventania?
Vem de que tempo?
Noturna agora
a chuva morta
bate na porta.
(As biqueiras da infância, as lavadeiras
correm, tiram as roupas do varal,
relinchos do cavalo na campina,
tangerinas e banhos no quintal,
potes gorgolejando, tanajuras,
os gansos, a lagoa, o milharal.)
De onde vem essa
chuva trazida
na ventania?
Que rosas fez abrir?
Que cabelos molhou?
Estendo-lhe a mão: a chuva fria.
chega essa chuva
de asas, tangida
pela ventania?
Vem de que tempo?
Noturna agora
a chuva morta
bate na porta.
(As biqueiras da infância, as lavadeiras
correm, tiram as roupas do varal,
relinchos do cavalo na campina,
tangerinas e banhos no quintal,
potes gorgolejando, tanajuras,
os gansos, a lagoa, o milharal.)
De onde vem essa
chuva trazida
na ventania?
Que rosas fez abrir?
Que cabelos molhou?
Estendo-lhe a mão: a chuva fria.
806
Mauro Mota
CHUVA DE VENTO
De que distância
chega essa chuva
de asas, tangida
pela ventania?
Vem de que tempo?
Noturna agora
a chuva morta
bate na porta.
(As biqueiras da infância, as lavadeiras
correm, tiram as roupas do varal,
relinchos do cavalo na campina,
tangerinas e banhos no quintal,
potes gorgolejando, tanajuras,
os gansos, a lagoa, o milharal.)
De onde vem essa
chuva trazida
na ventania?
Que rosas fez abrir?
Que cabelos molhou?
Estendo-lhe a mão: a chuva fria.
chega essa chuva
de asas, tangida
pela ventania?
Vem de que tempo?
Noturna agora
a chuva morta
bate na porta.
(As biqueiras da infância, as lavadeiras
correm, tiram as roupas do varal,
relinchos do cavalo na campina,
tangerinas e banhos no quintal,
potes gorgolejando, tanajuras,
os gansos, a lagoa, o milharal.)
De onde vem essa
chuva trazida
na ventania?
Que rosas fez abrir?
Que cabelos molhou?
Estendo-lhe a mão: a chuva fria.
806
Nelly Sachs
NESTA AMETISTA
Nesta ametista
estão sedimentadas as eras da noite
e uma prístina inteligência de luz
inflamou a amargura
ainda líquida
e chorou
Tua morte resplandece ainda
dura violeta
estão sedimentadas as eras da noite
e uma prístina inteligência de luz
inflamou a amargura
ainda líquida
e chorou
Tua morte resplandece ainda
dura violeta
746
Nelly Sachs
NESTA AMETISTA
Nesta ametista
estão sedimentadas as eras da noite
e uma prístina inteligência de luz
inflamou a amargura
ainda líquida
e chorou
Tua morte resplandece ainda
dura violeta
estão sedimentadas as eras da noite
e uma prístina inteligência de luz
inflamou a amargura
ainda líquida
e chorou
Tua morte resplandece ainda
dura violeta
746
Olga Tokarczuk
matinas
Pai inalcançável, quando nós fomos originalmente
expulsos do paraíso, você criou
uma réplica, um lugar de alguma maneira
diferente do paraíso, sendo
planejado para ensinar uma lição: por outro lado
a mesma — beleza em cada lado, beleza
sem alternativas — Exceto que
por não sabermos qual era a lição. Deixados sós,
nós exaurimos uns aos outros. Seguiram-se
anos de trevas; nos revezamos
trabalhando no jardim, as primeiras lágrimas
encheram nossos olhos conforme a Terra
ficou turva com pétalas, algumas
vermelho-escuras, outras cor de carne —
Nós nunca pensamos em você
a quem aprendíamos a venerar.
Nós apenas sabíamos que não é da natureza humana amar
somente aquilo que retribui o amor.
expulsos do paraíso, você criou
uma réplica, um lugar de alguma maneira
diferente do paraíso, sendo
planejado para ensinar uma lição: por outro lado
a mesma — beleza em cada lado, beleza
sem alternativas — Exceto que
por não sabermos qual era a lição. Deixados sós,
nós exaurimos uns aos outros. Seguiram-se
anos de trevas; nos revezamos
trabalhando no jardim, as primeiras lágrimas
encheram nossos olhos conforme a Terra
ficou turva com pétalas, algumas
vermelho-escuras, outras cor de carne —
Nós nunca pensamos em você
a quem aprendíamos a venerar.
Nós apenas sabíamos que não é da natureza humana amar
somente aquilo que retribui o amor.
646
Olga Tokarczuk
matinas
Pai inalcançável, quando nós fomos originalmente
expulsos do paraíso, você criou
uma réplica, um lugar de alguma maneira
diferente do paraíso, sendo
planejado para ensinar uma lição: por outro lado
a mesma — beleza em cada lado, beleza
sem alternativas — Exceto que
por não sabermos qual era a lição. Deixados sós,
nós exaurimos uns aos outros. Seguiram-se
anos de trevas; nos revezamos
trabalhando no jardim, as primeiras lágrimas
encheram nossos olhos conforme a Terra
ficou turva com pétalas, algumas
vermelho-escuras, outras cor de carne —
Nós nunca pensamos em você
a quem aprendíamos a venerar.
Nós apenas sabíamos que não é da natureza humana amar
somente aquilo que retribui o amor.
expulsos do paraíso, você criou
uma réplica, um lugar de alguma maneira
diferente do paraíso, sendo
planejado para ensinar uma lição: por outro lado
a mesma — beleza em cada lado, beleza
sem alternativas — Exceto que
por não sabermos qual era a lição. Deixados sós,
nós exaurimos uns aos outros. Seguiram-se
anos de trevas; nos revezamos
trabalhando no jardim, as primeiras lágrimas
encheram nossos olhos conforme a Terra
ficou turva com pétalas, algumas
vermelho-escuras, outras cor de carne —
Nós nunca pensamos em você
a quem aprendíamos a venerar.
Nós apenas sabíamos que não é da natureza humana amar
somente aquilo que retribui o amor.
646
Harry Martinson
Ajuste de contas
A folhagem vespertina do final do verão se
escurece, o vento caminha
com mocassins de nuvens pela ramagem do tempo.
Aproveites.
Se afugentas a melancolia, o tempo a entrega
em seu copo de plástico,
um cálice irreconhecível,
nova amargura sem sabor,
um frio desespero que se cola furtivamente
às tardes de tranquilizantes.
Devia ter ido a um balneário, tu dizes.
Devias ter fugido de ti mesmo a outro
homem, distinto.
Palavras vãs. Ainda que te apresses e saias
rapidamente,
perderás todos os teus trens,
cai o crepúsculo sem encanto, simplesmente
anoitece.
Por que abandonaste as dores que, no entanto,
tinham rostos próprios?
Não, querias ter coisas novas de todo
jei-to,
também os cadáveres deveriam ser novos,
mortos recém mortos.
Quando agora andas perdido, nem sequer sabes o
que é andar perdido,
teu vazio pesa
até ao ponto em que o avião tem
dificuldades para decolar.
Tu simplesmente segues perseguindo uma alegria
que desejas sem sombra.
Mas sem dores não há eixo ao qual ser fiel,
sem dores que lhe deem profundidade não há
verdadeiro mar,
só há uma borrifante prolongação até
o nada,
onde tu estás fazendo a cama vazia no
vazio.
Oh, se nos libertássemos de ti, vazio, que sempre
apareces abrindo caminho às cotoveladas,
de ti, coração do vazio, duro como uma pedra,
que unicamente comes alegria e com alegria
a consomes,
depois nada mais.
escurece, o vento caminha
com mocassins de nuvens pela ramagem do tempo.
Aproveites.
Se afugentas a melancolia, o tempo a entrega
em seu copo de plástico,
um cálice irreconhecível,
nova amargura sem sabor,
um frio desespero que se cola furtivamente
às tardes de tranquilizantes.
Devia ter ido a um balneário, tu dizes.
Devias ter fugido de ti mesmo a outro
homem, distinto.
Palavras vãs. Ainda que te apresses e saias
rapidamente,
perderás todos os teus trens,
cai o crepúsculo sem encanto, simplesmente
anoitece.
Por que abandonaste as dores que, no entanto,
tinham rostos próprios?
Não, querias ter coisas novas de todo
jei-to,
também os cadáveres deveriam ser novos,
mortos recém mortos.
Quando agora andas perdido, nem sequer sabes o
que é andar perdido,
teu vazio pesa
até ao ponto em que o avião tem
dificuldades para decolar.
Tu simplesmente segues perseguindo uma alegria
que desejas sem sombra.
Mas sem dores não há eixo ao qual ser fiel,
sem dores que lhe deem profundidade não há
verdadeiro mar,
só há uma borrifante prolongação até
o nada,
onde tu estás fazendo a cama vazia no
vazio.
Oh, se nos libertássemos de ti, vazio, que sempre
apareces abrindo caminho às cotoveladas,
de ti, coração do vazio, duro como uma pedra,
que unicamente comes alegria e com alegria
a consomes,
depois nada mais.
728
Harry Martinson
Ajuste de contas
A folhagem vespertina do final do verão se
escurece, o vento caminha
com mocassins de nuvens pela ramagem do tempo.
Aproveites.
Se afugentas a melancolia, o tempo a entrega
em seu copo de plástico,
um cálice irreconhecível,
nova amargura sem sabor,
um frio desespero que se cola furtivamente
às tardes de tranquilizantes.
Devia ter ido a um balneário, tu dizes.
Devias ter fugido de ti mesmo a outro
homem, distinto.
Palavras vãs. Ainda que te apresses e saias
rapidamente,
perderás todos os teus trens,
cai o crepúsculo sem encanto, simplesmente
anoitece.
Por que abandonaste as dores que, no entanto,
tinham rostos próprios?
Não, querias ter coisas novas de todo
jei-to,
também os cadáveres deveriam ser novos,
mortos recém mortos.
Quando agora andas perdido, nem sequer sabes o
que é andar perdido,
teu vazio pesa
até ao ponto em que o avião tem
dificuldades para decolar.
Tu simplesmente segues perseguindo uma alegria
que desejas sem sombra.
Mas sem dores não há eixo ao qual ser fiel,
sem dores que lhe deem profundidade não há
verdadeiro mar,
só há uma borrifante prolongação até
o nada,
onde tu estás fazendo a cama vazia no
vazio.
Oh, se nos libertássemos de ti, vazio, que sempre
apareces abrindo caminho às cotoveladas,
de ti, coração do vazio, duro como uma pedra,
que unicamente comes alegria e com alegria
a consomes,
depois nada mais.
escurece, o vento caminha
com mocassins de nuvens pela ramagem do tempo.
Aproveites.
Se afugentas a melancolia, o tempo a entrega
em seu copo de plástico,
um cálice irreconhecível,
nova amargura sem sabor,
um frio desespero que se cola furtivamente
às tardes de tranquilizantes.
Devia ter ido a um balneário, tu dizes.
Devias ter fugido de ti mesmo a outro
homem, distinto.
Palavras vãs. Ainda que te apresses e saias
rapidamente,
perderás todos os teus trens,
cai o crepúsculo sem encanto, simplesmente
anoitece.
Por que abandonaste as dores que, no entanto,
tinham rostos próprios?
Não, querias ter coisas novas de todo
jei-to,
também os cadáveres deveriam ser novos,
mortos recém mortos.
Quando agora andas perdido, nem sequer sabes o
que é andar perdido,
teu vazio pesa
até ao ponto em que o avião tem
dificuldades para decolar.
Tu simplesmente segues perseguindo uma alegria
que desejas sem sombra.
Mas sem dores não há eixo ao qual ser fiel,
sem dores que lhe deem profundidade não há
verdadeiro mar,
só há uma borrifante prolongação até
o nada,
onde tu estás fazendo a cama vazia no
vazio.
Oh, se nos libertássemos de ti, vazio, que sempre
apareces abrindo caminho às cotoveladas,
de ti, coração do vazio, duro como uma pedra,
que unicamente comes alegria e com alegria
a consomes,
depois nada mais.
728
Nelly Sachs
CORO DOS SALVOS
Nós, salvos,
Em cuja ossada vazia a morte já entalhou suas flautas,
Em cujos tendões a morte já roçou seu arco –
Nossos corpos ainda se lamentam
Com sua música mutilada.
Nós, salvos,
Os laços urdidos para nossas gargantas pendem ainda
Diante de nós, no ar azul –
As clepsidras ainda se enchem com nosso sangue gotejante.
Nós, salvos,
Os vermes do medo ainda nos corroem.
Nossa estrela está soterrada no pó.
Nós, salvos,
Vos pedimos:
Mostrai-nos lentamente o vosso sol.
Conduzi-nos, de estrela em estrela, passo a passo.
Deixai que reaprendamos a vida suavemente.
Senão o canto de um pássaro,
O encher do balde no poço
Poderiam romper nossa dor mal-lacrada
E nos levar em espumas.
Nós vos pedimos:
Não nos mostreis ainda um cão mordente –
Poderia ser, poderia ser
Que nos desfizéssemos em pó –
Que ante vossos olhos nos desfizéssemos em pó.
O que nos mantém de pé, então?
Nós, que nos tornamos sem alento,
Nós, cuja alma fugiu para Ele, saindo da meia-noite,
Antes, bem antes que nosso corpo tivesse sido salvo
Na arca do instante.
Nós, salvos,
Apertamos a vossa mão,
Reconhecemos o vosso olho –
Mas apenas a despedida nos une,
A despedida no pó
Nos une a vós.
Em cuja ossada vazia a morte já entalhou suas flautas,
Em cujos tendões a morte já roçou seu arco –
Nossos corpos ainda se lamentam
Com sua música mutilada.
Nós, salvos,
Os laços urdidos para nossas gargantas pendem ainda
Diante de nós, no ar azul –
As clepsidras ainda se enchem com nosso sangue gotejante.
Nós, salvos,
Os vermes do medo ainda nos corroem.
Nossa estrela está soterrada no pó.
Nós, salvos,
Vos pedimos:
Mostrai-nos lentamente o vosso sol.
Conduzi-nos, de estrela em estrela, passo a passo.
Deixai que reaprendamos a vida suavemente.
Senão o canto de um pássaro,
O encher do balde no poço
Poderiam romper nossa dor mal-lacrada
E nos levar em espumas.
Nós vos pedimos:
Não nos mostreis ainda um cão mordente –
Poderia ser, poderia ser
Que nos desfizéssemos em pó –
Que ante vossos olhos nos desfizéssemos em pó.
O que nos mantém de pé, então?
Nós, que nos tornamos sem alento,
Nós, cuja alma fugiu para Ele, saindo da meia-noite,
Antes, bem antes que nosso corpo tivesse sido salvo
Na arca do instante.
Nós, salvos,
Apertamos a vossa mão,
Reconhecemos o vosso olho –
Mas apenas a despedida nos une,
A despedida no pó
Nos une a vós.
620
Nelly Sachs
CORO DOS SALVOS
Nós, salvos,
Em cuja ossada vazia a morte já entalhou suas flautas,
Em cujos tendões a morte já roçou seu arco –
Nossos corpos ainda se lamentam
Com sua música mutilada.
Nós, salvos,
Os laços urdidos para nossas gargantas pendem ainda
Diante de nós, no ar azul –
As clepsidras ainda se enchem com nosso sangue gotejante.
Nós, salvos,
Os vermes do medo ainda nos corroem.
Nossa estrela está soterrada no pó.
Nós, salvos,
Vos pedimos:
Mostrai-nos lentamente o vosso sol.
Conduzi-nos, de estrela em estrela, passo a passo.
Deixai que reaprendamos a vida suavemente.
Senão o canto de um pássaro,
O encher do balde no poço
Poderiam romper nossa dor mal-lacrada
E nos levar em espumas.
Nós vos pedimos:
Não nos mostreis ainda um cão mordente –
Poderia ser, poderia ser
Que nos desfizéssemos em pó –
Que ante vossos olhos nos desfizéssemos em pó.
O que nos mantém de pé, então?
Nós, que nos tornamos sem alento,
Nós, cuja alma fugiu para Ele, saindo da meia-noite,
Antes, bem antes que nosso corpo tivesse sido salvo
Na arca do instante.
Nós, salvos,
Apertamos a vossa mão,
Reconhecemos o vosso olho –
Mas apenas a despedida nos une,
A despedida no pó
Nos une a vós.
Em cuja ossada vazia a morte já entalhou suas flautas,
Em cujos tendões a morte já roçou seu arco –
Nossos corpos ainda se lamentam
Com sua música mutilada.
Nós, salvos,
Os laços urdidos para nossas gargantas pendem ainda
Diante de nós, no ar azul –
As clepsidras ainda se enchem com nosso sangue gotejante.
Nós, salvos,
Os vermes do medo ainda nos corroem.
Nossa estrela está soterrada no pó.
Nós, salvos,
Vos pedimos:
Mostrai-nos lentamente o vosso sol.
Conduzi-nos, de estrela em estrela, passo a passo.
Deixai que reaprendamos a vida suavemente.
Senão o canto de um pássaro,
O encher do balde no poço
Poderiam romper nossa dor mal-lacrada
E nos levar em espumas.
Nós vos pedimos:
Não nos mostreis ainda um cão mordente –
Poderia ser, poderia ser
Que nos desfizéssemos em pó –
Que ante vossos olhos nos desfizéssemos em pó.
O que nos mantém de pé, então?
Nós, que nos tornamos sem alento,
Nós, cuja alma fugiu para Ele, saindo da meia-noite,
Antes, bem antes que nosso corpo tivesse sido salvo
Na arca do instante.
Nós, salvos,
Apertamos a vossa mão,
Reconhecemos o vosso olho –
Mas apenas a despedida nos une,
A despedida no pó
Nos une a vós.
620
Tomas Tranströmer
HISTÓRIAS DE MARINHEIROS
Há dias de inverno sem neve em que o mar é parente
de zonas montanhosas, encolhido sob plumagem cinza,
azul só por um minuto, longas horas com ondas quais pálidos
linces, buscando em vão sustento nas pedras de à beira-mar.
Em dias como estes saem do mar restos de naufrágios em busca
de seus proprietários, sentados no bulício da cidade, e afogadas
tripulações vêm a terra, mais ténues que fumo de cachimbo.
(No Norte andam os verdadeiros linces, com garras afiadas
e olhos sonhadores. No Norte, onde o dia
vive numa mina, de dia e de noite.
Ali, onde o único sobrevivente pode estar
junto ao forno da Aurora Boreal escutando
a música dos mortos de frio).
de zonas montanhosas, encolhido sob plumagem cinza,
azul só por um minuto, longas horas com ondas quais pálidos
linces, buscando em vão sustento nas pedras de à beira-mar.
Em dias como estes saem do mar restos de naufrágios em busca
de seus proprietários, sentados no bulício da cidade, e afogadas
tripulações vêm a terra, mais ténues que fumo de cachimbo.
(No Norte andam os verdadeiros linces, com garras afiadas
e olhos sonhadores. No Norte, onde o dia
vive numa mina, de dia e de noite.
Ali, onde o único sobrevivente pode estar
junto ao forno da Aurora Boreal escutando
a música dos mortos de frio).
639
Mauro Mota
VALSINHA DA BANDA DE MÚSICA MUNICIPAL
Música da
Banda Euterpina
Juvenil de
Nazaré da Mata
tocando ao
luar de prata.
(O seresteiro
achando a rima
da serenata.)
Música pelo
Natal; na festa
da padroeira.
(A procissão,
Nossa Senhora
da Conceição.)
Música nos bailes
de carnaval
e em funeral.
Seu Miguel ensaiava de noite, na Rua
da Palha, para as tocatas coletivas.
Nunca mais deixei de ouvir
as suas noturnas melodias na janela.
Sinto que ele acorda e volta de longe nesta madrugada.
Limpa a farda de tempo e areia,
vem do cemitério de São Sebastião,
vem com a sua valsa de antigamente,
vem com o seu clarinete na mão.
Banda Euterpina
Juvenil de
Nazaré da Mata
tocando ao
luar de prata.
(O seresteiro
achando a rima
da serenata.)
Música pelo
Natal; na festa
da padroeira.
(A procissão,
Nossa Senhora
da Conceição.)
Música nos bailes
de carnaval
e em funeral.
Seu Miguel ensaiava de noite, na Rua
da Palha, para as tocatas coletivas.
Nunca mais deixei de ouvir
as suas noturnas melodias na janela.
Sinto que ele acorda e volta de longe nesta madrugada.
Limpa a farda de tempo e areia,
vem do cemitério de São Sebastião,
vem com a sua valsa de antigamente,
vem com o seu clarinete na mão.
770
Tomas Tranströmer
Arcos Românicos
Turistas amontoados no lusco-fusco da grande
igreja românica.
Nave após nave se abria sem perspectiva.
Algumas chamas de velas tremulando.
Um anjo cujo rosto não vi abraçava-me
e o murmúrio dele trespassava-me o corpo:
“Não tenhas vergonha de seres um ser humano, tem orgulho!
Em ti se abre uma nave após outra sem fim.
Nunca serás concluído, e é assim que tem de ser.”
Lágrimas cegavam-me
enquanto éramos levados para a intensa piazza iluminada
na companhia de Mr. e Mrs. Jones, Herr Tanaka e Signora Sabatini;
em cada um deles nave após nave se abria sem fim.
igreja românica.
Nave após nave se abria sem perspectiva.
Algumas chamas de velas tremulando.
Um anjo cujo rosto não vi abraçava-me
e o murmúrio dele trespassava-me o corpo:
“Não tenhas vergonha de seres um ser humano, tem orgulho!
Em ti se abre uma nave após outra sem fim.
Nunca serás concluído, e é assim que tem de ser.”
Lágrimas cegavam-me
enquanto éramos levados para a intensa piazza iluminada
na companhia de Mr. e Mrs. Jones, Herr Tanaka e Signora Sabatini;
em cada um deles nave após nave se abria sem fim.
683
Tomas Tranströmer
Arcos Românicos
Turistas amontoados no lusco-fusco da grande
igreja românica.
Nave após nave se abria sem perspectiva.
Algumas chamas de velas tremulando.
Um anjo cujo rosto não vi abraçava-me
e o murmúrio dele trespassava-me o corpo:
“Não tenhas vergonha de seres um ser humano, tem orgulho!
Em ti se abre uma nave após outra sem fim.
Nunca serás concluído, e é assim que tem de ser.”
Lágrimas cegavam-me
enquanto éramos levados para a intensa piazza iluminada
na companhia de Mr. e Mrs. Jones, Herr Tanaka e Signora Sabatini;
em cada um deles nave após nave se abria sem fim.
igreja românica.
Nave após nave se abria sem perspectiva.
Algumas chamas de velas tremulando.
Um anjo cujo rosto não vi abraçava-me
e o murmúrio dele trespassava-me o corpo:
“Não tenhas vergonha de seres um ser humano, tem orgulho!
Em ti se abre uma nave após outra sem fim.
Nunca serás concluído, e é assim que tem de ser.”
Lágrimas cegavam-me
enquanto éramos levados para a intensa piazza iluminada
na companhia de Mr. e Mrs. Jones, Herr Tanaka e Signora Sabatini;
em cada um deles nave após nave se abria sem fim.
683
Tomas Tranströmer
ELEGIA
Abro a primeira porta.
É uma sala enorme, repleta de sol.
Um camião passa na rua,
faz estremecer a porcelana.
Abro a segunda porta.
Amigos! bebestes da escuridão
e tornaste-vos visíveis.
Terceira porta. Um quarto estreito de hotel.
Vista sobre um beco.
Uma lanterna que brilha no asfalto.
Experiências: belas escórias.
É uma sala enorme, repleta de sol.
Um camião passa na rua,
faz estremecer a porcelana.
Abro a segunda porta.
Amigos! bebestes da escuridão
e tornaste-vos visíveis.
Terceira porta. Um quarto estreito de hotel.
Vista sobre um beco.
Uma lanterna que brilha no asfalto.
Experiências: belas escórias.
754
Tomas Tranströmer
ELEGIA
Abro a primeira porta.
É uma sala enorme, repleta de sol.
Um camião passa na rua,
faz estremecer a porcelana.
Abro a segunda porta.
Amigos! bebestes da escuridão
e tornaste-vos visíveis.
Terceira porta. Um quarto estreito de hotel.
Vista sobre um beco.
Uma lanterna que brilha no asfalto.
Experiências: belas escórias.
É uma sala enorme, repleta de sol.
Um camião passa na rua,
faz estremecer a porcelana.
Abro a segunda porta.
Amigos! bebestes da escuridão
e tornaste-vos visíveis.
Terceira porta. Um quarto estreito de hotel.
Vista sobre um beco.
Uma lanterna que brilha no asfalto.
Experiências: belas escórias.
754
Nelly Sachs
OH, AS CHAMINÉS
Oh, as chaminés
Sobre as moradas da morte, engenhosamente imaginadas,
Quando o corpo de Israel se elevou, desfeito em fumaça
Pelo ar –
Uma estrela, como limpador de chaminés, o acolheu
E enegreceu
Ou foi um raio de sol?
Oh, as chaminés!
Caminhos de liberdade para o pó de Jeremias e Jó –
Quem vos imaginou e construiu, pedra sobre pedra,
O caminho para os fugitivos-fumaça?
Oh, as moradas da morte,
Convidativamente arranjadas
Para o anfitrião, outrora hóspede –
Ó dedos,
Assentando o limiar da entrada,
Como faca entre a vida e a morte –
Ó chaminés,
Ó dedos,
E o corpo de Israel na fumaça, pelo ar!
Sobre as moradas da morte, engenhosamente imaginadas,
Quando o corpo de Israel se elevou, desfeito em fumaça
Pelo ar –
Uma estrela, como limpador de chaminés, o acolheu
E enegreceu
Ou foi um raio de sol?
Oh, as chaminés!
Caminhos de liberdade para o pó de Jeremias e Jó –
Quem vos imaginou e construiu, pedra sobre pedra,
O caminho para os fugitivos-fumaça?
Oh, as moradas da morte,
Convidativamente arranjadas
Para o anfitrião, outrora hóspede –
Ó dedos,
Assentando o limiar da entrada,
Como faca entre a vida e a morte –
Ó chaminés,
Ó dedos,
E o corpo de Israel na fumaça, pelo ar!
798
Nelly Sachs
OH, AS CHAMINÉS
Oh, as chaminés
Sobre as moradas da morte, engenhosamente imaginadas,
Quando o corpo de Israel se elevou, desfeito em fumaça
Pelo ar –
Uma estrela, como limpador de chaminés, o acolheu
E enegreceu
Ou foi um raio de sol?
Oh, as chaminés!
Caminhos de liberdade para o pó de Jeremias e Jó –
Quem vos imaginou e construiu, pedra sobre pedra,
O caminho para os fugitivos-fumaça?
Oh, as moradas da morte,
Convidativamente arranjadas
Para o anfitrião, outrora hóspede –
Ó dedos,
Assentando o limiar da entrada,
Como faca entre a vida e a morte –
Ó chaminés,
Ó dedos,
E o corpo de Israel na fumaça, pelo ar!
Sobre as moradas da morte, engenhosamente imaginadas,
Quando o corpo de Israel se elevou, desfeito em fumaça
Pelo ar –
Uma estrela, como limpador de chaminés, o acolheu
E enegreceu
Ou foi um raio de sol?
Oh, as chaminés!
Caminhos de liberdade para o pó de Jeremias e Jó –
Quem vos imaginou e construiu, pedra sobre pedra,
O caminho para os fugitivos-fumaça?
Oh, as moradas da morte,
Convidativamente arranjadas
Para o anfitrião, outrora hóspede –
Ó dedos,
Assentando o limiar da entrada,
Como faca entre a vida e a morte –
Ó chaminés,
Ó dedos,
E o corpo de Israel na fumaça, pelo ar!
798
Mauro Mota
MINHA N. S. DA ESPERANÇA
Eu corri, todo ansioso, a recebê-la
numa manhã sem sol, de cerração,
e ela entrou, como o brilho duma estrela
do céu, para alumiar meu coração.
Tornou-se muito minha amiga então,
Era tão linda! ai quem me dera tê-la
junto a mim! mas já foi, já partiu pela
tarde do meu jardim — rosa em botão! —
É debalde, minh’alma, que lhe gritas.
Neste mundo não há quem a defina
com seu vestido branco e verdes fitas.
Teu brado, na distância, não a alcança.
Pois fiquei a pensar que essa menina
era Nossa Senhora da Esperança…
numa manhã sem sol, de cerração,
e ela entrou, como o brilho duma estrela
do céu, para alumiar meu coração.
Tornou-se muito minha amiga então,
Era tão linda! ai quem me dera tê-la
junto a mim! mas já foi, já partiu pela
tarde do meu jardim — rosa em botão! —
É debalde, minh’alma, que lhe gritas.
Neste mundo não há quem a defina
com seu vestido branco e verdes fitas.
Teu brado, na distância, não a alcança.
Pois fiquei a pensar que essa menina
era Nossa Senhora da Esperança…
590
Harry Martinson
Aviso
Pelo Atlântico Norte viajou dezessete anos
ondulando uma garrafa
com uma mensagem como passageira.
Frequentemente se assemelhava, em silêncio,
a um gigantesco vapor de Southampton.
Encalhou sem que a houvessem lido e ficou
congelada
entre as geleiras da Costa do Labrador.
ondulando uma garrafa
com uma mensagem como passageira.
Frequentemente se assemelhava, em silêncio,
a um gigantesco vapor de Southampton.
Encalhou sem que a houvessem lido e ficou
congelada
entre as geleiras da Costa do Labrador.
686
Nelly Sachs
É UM ESCURO COMO
É um escuro como
caos antes do verbo
Leonardo procurou esse escuro
por detrás do escuro
Jó estava envolto
no corpo materno dos astros
Alguém sacode a escuridão
até que a maçã Terra caia
madura no fim
Um suspiro
será isso a alma – ?
caos antes do verbo
Leonardo procurou esse escuro
por detrás do escuro
Jó estava envolto
no corpo materno dos astros
Alguém sacode a escuridão
até que a maçã Terra caia
madura no fim
Um suspiro
será isso a alma – ?
741
Nelly Sachs
É UM ESCURO COMO
É um escuro como
caos antes do verbo
Leonardo procurou esse escuro
por detrás do escuro
Jó estava envolto
no corpo materno dos astros
Alguém sacode a escuridão
até que a maçã Terra caia
madura no fim
Um suspiro
será isso a alma – ?
caos antes do verbo
Leonardo procurou esse escuro
por detrás do escuro
Jó estava envolto
no corpo materno dos astros
Alguém sacode a escuridão
até que a maçã Terra caia
madura no fim
Um suspiro
será isso a alma – ?
741
Tomas Tranströmer
3 ESTROFES
1
O cavaleiro e a sua mulher
petrificada, mas feliz
na tampa de um caixão voador
para lá do tempo.
2
Jesus segurava uma moeda ao alto
com o perfil de Tibério,
um perfil sem amor,
o poder em circulação.
3
Uma espada fluente
extingue a memória.
No chão trompetas e pendentes
enferrujados.
O cavaleiro e a sua mulher
petrificada, mas feliz
na tampa de um caixão voador
para lá do tempo.
2
Jesus segurava uma moeda ao alto
com o perfil de Tibério,
um perfil sem amor,
o poder em circulação.
3
Uma espada fluente
extingue a memória.
No chão trompetas e pendentes
enferrujados.
627
Tomas Tranströmer
3 ESTROFES
1
O cavaleiro e a sua mulher
petrificada, mas feliz
na tampa de um caixão voador
para lá do tempo.
2
Jesus segurava uma moeda ao alto
com o perfil de Tibério,
um perfil sem amor,
o poder em circulação.
3
Uma espada fluente
extingue a memória.
No chão trompetas e pendentes
enferrujados.
O cavaleiro e a sua mulher
petrificada, mas feliz
na tampa de um caixão voador
para lá do tempo.
2
Jesus segurava uma moeda ao alto
com o perfil de Tibério,
um perfil sem amor,
o poder em circulação.
3
Uma espada fluente
extingue a memória.
No chão trompetas e pendentes
enferrujados.
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