Poemas neste tema
Vida e Existência
António Pocinho
Ciberpoema
Da janela do meu quarto vêem-se os campos cobertos de pgas, amarelos e cpc, um espectáculo de luz e omo, apenas entrecortado pelo andar dos rdp e dos medip. Outras vezes, eram os ms-dos que vinham dos campos com os sete ponto seis às costas, já cansados de fdr e de conversal, mas ainda prontos para ler, war ou mesmo, quando o vento batia nos bp, uht/p.
Regresso ao DOS.
Regresso ao DOS.
917
Adrienne Rich
Instantâneos de Uma Nora
1.
Você, uma vez a bela de Shreveport,
cabelos tingidos de hena, a pele como pêssego,
ainda manda fazer vestidos como os que se usavam então,
e toca um prelúdio de Chopin
chamado por Cortot: “Deliciosas reminiscências
flutuam como perfume pela memória”.
Sua mente agora, mofando como bolo de casamento,
pesada de experiências inúteis, pródiga
em suspeitas, rumores, fantasias,
desmoronando sob o fio
do mero fato. Na primavera da vida.
Inquieta, o olhar faiscante, sua filha
limpa as colheres de chá, cresce para outro lado.
2.
Dando com a cafeteira na pia
ela escuta o reproche dos anjos, e fita
o céu desgrenhado para além de jardins impecáveis.
Não faz mais de uma semana desde que disseram:Não tenha paciência.
Da próxima foi: Seja insaciável.
E depois:Salve-se. Aos demais, não poderá salvar.
Por vezes tem deixado a água da torneira lhe escaldar o braço,
um fósforo queimar-lhe a unha do dedão,
ou posto a mão sobre a chaleira
bem na lã do vapor. São provavelmente anjos
posto que já nada a magoa, excetuando
a areia de cada manhã indo de encontro aos olhos.
3.
Uma mulher pensante dorme com monstros.
O bico que a agarra, ela se torna. E a Natureza,
este ainda cômodo, destampado baú
cheio detempora e mores
enche-se de tudo:…………… as flores de laranjeira cobertas de orvalho,
os contraceptivos, os terríveis seios
de Boadiceia sob orquídeas e cabeças chatas de raposa.
Duas belas mulheres, trancadas em discussão,
ambas orgulhosas, argutas, sutis, ouço que gritam
por sobre a maiólica e os cacos de vidro
como Fúrias encurraladas para longe de suas presas:
A discussãoad feminam, todos os velhos punhais
que enferrujaram em minhas costas, o seu adentro
ma semblable, ma soeur!
IV.
Conhecendo-se bem demais uma na outra
seus dons sem puro desfrute, mas espinhos
a agulha afiada contra uma ponta de escárnio…
Lendo enquanto espera
aquecer o ferro,
escrevendo,Minha vida – encostada pelos cantos
naquela despensa em Amherst enquanto as geleias fervem e escumam,
ou, com maior frequência,
de olhos fitos e embicada e obstinada como uma ave,
tirando poeira a todo o triquetraque da vida cotidiana.
5.
Dulce ridens, dulce loquens
ela depila as pernas até brilharem
como petrificadas presas de mamute.
6.
Quando canta Corina a seu alaúde
não são dela nem letra nem música;
somente os longos cabelos descaindo-se
sobre a bochecha, somente a canção
da seda contra os joelhos,
e mesmo estes
ajustam-se nos reflexos de um olho.
Empertigada, trêmula e insatisfeita, ante
uma porta destrancada, a jaula das jaulas,
diga-nos, sua ave, sua trágica máquina –
será istofertilisante douleur? Esmagada
pelo amor, para ti a única reação natural,
estarás acirrada a ponto
de arrombar os segredos do cofre? a Natureza,
nora, mostrou-te enfim os livros de contabilidade
que seu próprio filho sempre ignorou?
7.
Ter neste incerto mundo alguma posição
inabalável é
da maior importância.
…………………………………….Assim escreveu
uma mulher, em parte boa e em parte audaz,
que lutou com o que não compreendia de todo.
Poucos homens a seu redor teriam feito mais,
portanto a rotularam puta, megera, engodo.
8.
“Morreis todos aos quinze anos”, disse Diderot,
mudando-se metade em lenda, metade em convenção.
No entanto, olhos sonham equivocamente
por detrás de janelas fechadas, empastadas de vapor.
Deliciosamente, tudo o que poderíamos ter sido,
tudo o que fomos – fogo, lágrimas,
espírito, gosto, ambição martirizada –
agita-se como a lembrança do adultério recusado
o seio murcho e esvaziado de nossa “meia idade”.
9.
Não que se faça bem, mas
que se faça e ponto? Pois bem, pense
nas possibilidades! ou ignore-as para sempre.
Estes luxos da criança precoce,
a querida inválida do Tempo –
abdicaríamos, minhas caras, se nos fosse dado?
Nossa praga foi também nossa sinecura:
mero talento nos bastava –
brilho em rascunhos e fragmentos.
Não mais suspirem, minhas senhoras.
………………………………………………………..O tempo é macho
e em suas taças bebe ao belo.
Divertidas pelo galanteio, ouvimos
enquanto nos louvam as mediocridades,
indolência lida como abnegação,
desleixo lido como intuição refinada,
cada deslize perdoado, o único crime sendo
estampar uma sombra demasiado notável
ou sumariamente destruir o molde.
Para isso, a solitária,
o gás lacrimogênio, os estilhaços.
Poucas pleiteam este tipo de honra.
13.
……………………………………………………….Bom,
ela posterga sua chegada, que lhe deve parecer
tão pouco clemente quanto a própria história.
A mente cheia ao vento, vejo-a mergulhar
de seios e relanceando pelas correntezas,
tomando a luz sobre si,
pelo menos tão bela quanto qualquer menino
ou helicóptero,
…………………………………………..empertigada, chegando ainda,
suas finas hélices fazendo o ar recuar
mas sua carga
já nenhuma promessa:
entregue
palpável
nossa.
1958 – 1960
(tradução de Ismar Tirelli Neto)
1 136
Luiza Neto Jorge
A Divisibilidade: a Invisibilidade a Dois
A mulher divide-se em gestos particulares
o homem divide-se também. Se o átomo é
divisível só poeta o diz.
a mulher divide-se em gestos
extremos coloridos arenosos destilados.
dois homens são duas divisões de uma
casa que já foi um animal de costas
para o seu pólo mágico.
A divisibilidade da luz aclara os mistérios.
A mulher tem filhos. Descobrem-se
partículas soltas um dedo mínimo
o peso menos pesado da balança
um cabelo eloquente em desagregação
Gestos estrídulos dividem a mulher
o homem divide-a ainda.
o homem divide-se também. Se o átomo é
divisível só poeta o diz.
a mulher divide-se em gestos
extremos coloridos arenosos destilados.
dois homens são duas divisões de uma
casa que já foi um animal de costas
para o seu pólo mágico.
A divisibilidade da luz aclara os mistérios.
A mulher tem filhos. Descobrem-se
partículas soltas um dedo mínimo
o peso menos pesado da balança
um cabelo eloquente em desagregação
Gestos estrídulos dividem a mulher
o homem divide-a ainda.
1 448
Lalla Romano
Estou em ti
Estou em ti
como o amado odor do corpo
como o humor do olho
e a doce saliva
Estou dentro de ti
no modo misterioso
como a vida se dissolve no sangue
e se mescla ao respiro
:
Io sono in te
come il caro odore del corpo
come l'umore dell'occhio
e la dolce saliva
Io sono dentro di te
nel misterioso modo
che la vita è disciolta nel sangue
e mescolata al respiro
como o amado odor do corpo
como o humor do olho
e a doce saliva
Estou dentro de ti
no modo misterioso
como a vida se dissolve no sangue
e se mescla ao respiro
:
Io sono in te
come il caro odore del corpo
come l'umore dell'occhio
e la dolce saliva
Io sono dentro di te
nel misterioso modo
che la vita è disciolta nel sangue
e mescolata al respiro
881
Josée Lapeyrère
Começa
começa quase sempre com um traço
uma palavra.... uma mosca que voa ou
um leopardo que atravessa o avesso
da janela....de um salto.... e entre o arco
de suas patas estiradas....eu vejo o homem
que lava os vidros....ele não viu
a fera assim como os outros sentados
em seus escritórios.... diante das telas azuis
começa com um traço...... um índice
leve uma mosca que voa....ou
uma tatuagem como a de um sol que
surge da dobra do cotovelo do lutador
as linhas negras saindo em leque
em direção a um bíceps para sempre matinal ou
o ruído da cadeira raspando
o ladrilho.....que desperta.... gritando
seus quatro pés...... um peso essa cadeira
a cadeira vermelha por que você já vai
por que não vai..........vem
aqui me dá um beijo....... me deixa uma marca
a marca dos dentes......ou das garras
a marca do chicote.......ou do vôo
da mosca......a marca de um traço no ar
(tradução de Marília Garcia, publicada no número de estréia da Modo de Usar & Co.)
:
cela commence: cela commence souvent par un trait / un mot une mouche qui vole ou / un léopard qui traverse la largeur / de la fenêtre d’un bond entre l’arche / de ses pattes étirées je vois le laveur / de carreaux lui n’a pas vu / la bête tout comme les autres assis / à leur bureau devant les écrans bleus / cela commence par un trait un indice / léger une mouche qui vole ou / un tatouage celui d’un soleil qui / jaillit de la pliure du coude du lutteur / les noirs rayons partent en éventail / vers un biceps à jamais matinal ou // le bruit de la chaise raclant / le carrelage qui réveille en hurlant / ses quatre pieds lourde est la chaise / las chaise est rouge / pourquoi tu bouges / pourquoi tu ne bouges pas viens / vers moi embrasse-moi fais-moi une marque / la marque des dents ou celles des griffes / la marque du fouet celle du vol / de la mouche celle d’un trait dans l’air
920
Sierguéi Iessiênin
Pobre escrevinhador, é tua
Pobre escrevinhador, é tua
A sina de cantar a lua?
Há muito o meu olhar definho
No amor, nas cartas e no vinho.
Ah, a lua entra pelas grades,
A luz tão forte corta os olhos.
Eu joguei na dama de espadas
E só me veio o ás de ouros.
1 029
Donizete Galvão
Fachada
Logo vai terminar o prazo
para o homem construir sua fachada.
Ele continua em andaimes.
Provisório.
Exibe máscaras cambiantes.
Sua face inconclusa,
sustentada por ferragens,
parece esconder que,
em todos esses anos de obra,
ergueram-se inúteis plataformas
para edificar um escombro.
1 561
Donizete Galvão
Fachada
Logo vai terminar o prazo
para o homem construir sua fachada.
Ele continua em andaimes.
Provisório.
Exibe máscaras cambiantes.
Sua face inconclusa,
sustentada por ferragens,
parece esconder que,
em todos esses anos de obra,
ergueram-se inúteis plataformas
para edificar um escombro.
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Luís Filipe Castro Mendes
Os Ghats
Antes da pira
limpam os pés do corpo no rio sagrado,
antes mesmo de chegarem os padres, os familiares, os amigos.
Só vemos aqui o povo e os intocáveis (diz-se dalits, my friend)
encarregados de manejar a morte.
Vi num documentário um desses : «Ninguém mais pode tocar nos mortos»
dizia com orgulho o sem-casta. «Mesmo que seja o Primeiro Ministro.
Só nós podemos preparar os mortos para o seu final.»
Eles não têm medo de olhar os mortos.
Apenas têm quem cuide deles,
quem prepare a lenha, a amontoe,
quem embrulhe o corpo nos panos,
o limpe nas águas sagradas
e ofereça ao filho mais velho a tocha para acender a pira.
1 257
Luís Filipe Castro Mendes
Os Ghats
Antes da pira
limpam os pés do corpo no rio sagrado,
antes mesmo de chegarem os padres, os familiares, os amigos.
Só vemos aqui o povo e os intocáveis (diz-se dalits, my friend)
encarregados de manejar a morte.
Vi num documentário um desses : «Ninguém mais pode tocar nos mortos»
dizia com orgulho o sem-casta. «Mesmo que seja o Primeiro Ministro.
Só nós podemos preparar os mortos para o seu final.»
Eles não têm medo de olhar os mortos.
Apenas têm quem cuide deles,
quem prepare a lenha, a amontoe,
quem embrulhe o corpo nos panos,
o limpe nas águas sagradas
e ofereça ao filho mais velho a tocha para acender a pira.
1 257
Vasco Graça Moura
Junto ao retrato
era vermelha a rosa
que a minha mulher cortou para pôr junto ao retrato
de minha mãe, que fazia anos ontem.
era de um fulgor surdo e recatado,
a implodir tantas coisas já sem nome
para o interior macio das pétalas.
"pus uma rosa do jardim junto ao retrato
da tua mãe", disse ela então ao telefone,
"uma rosa vermelha muito bonita", acrescentou
com uma leve sombra na voz e era sombria
a rosa, mesmo ao telefone, por ser o dia
dos seus anos. e era sombrio recordá-la.
uma flor pode ser de uma obscura incandescência
junto de alguém. prende-se a delicados filamentos da memória
como a cabelos enredados. era sombria a rosa
sobre a cabeça branca, o olhar bondoso, as feições plácidas,
o que de minha mãe não se desfigorou
e a rosa iluminava devagar,
junto ao retrato.
que a minha mulher cortou para pôr junto ao retrato
de minha mãe, que fazia anos ontem.
era de um fulgor surdo e recatado,
a implodir tantas coisas já sem nome
para o interior macio das pétalas.
"pus uma rosa do jardim junto ao retrato
da tua mãe", disse ela então ao telefone,
"uma rosa vermelha muito bonita", acrescentou
com uma leve sombra na voz e era sombria
a rosa, mesmo ao telefone, por ser o dia
dos seus anos. e era sombrio recordá-la.
uma flor pode ser de uma obscura incandescência
junto de alguém. prende-se a delicados filamentos da memória
como a cabelos enredados. era sombria a rosa
sobre a cabeça branca, o olhar bondoso, as feições plácidas,
o que de minha mãe não se desfigorou
e a rosa iluminava devagar,
junto ao retrato.
2 287
Moacy Cirne
Poema final
o homem só,velho e cansado,olha para a frentee nada vê.olha para os ladose nada vê.olha para o fim do mundoe nada vê.entreo espanto dos suicidaseo silêncio dos desamados,o homem cansado,velho e só,olha para o poemae nada vê.seráque os sinosdobrarão por ele?
1 382
Moacy Cirne
Poema final
o homem só,velho e cansado,olha para a frentee nada vê.olha para os ladose nada vê.olha para o fim do mundoe nada vê.entreo espanto dos suicidaseo silêncio dos desamados,o homem cansado,velho e só,olha para o poemae nada vê.seráque os sinosdobrarão por ele?
1 382
Donizete Galvão
Recomendações
Ao cavaleiro desencarnado,
com sua égua de gás hélio,
recomendo ouro, prata e chumbo.
No meio do seu caminho,
mero pedregulho transmuta-se
em rocha, penedo, penhasco.
Mínima ponta de agulha fura
sua armadura hiperbovarista.
Nem figos envenenados
sustentam-lhe a fome.
Tudo o que toca some. Evapora.
Ponha os pés no chão,
para que o minério de ferro
neles grude e forme um casco.
Ninguém vai ouvir falar do seu nome.
Escuta o resumo de sua vida:
um espasmo, um sopro que não soa
além da grade de sua casa.
683
David Bromige
Este lótus lindo é enorme
Este lótus lindo é enorme
Nele um flamingo dormita
Uma perna erguida flamingo
Entre ocre& orange
Roxo& azul & rosa
Esta figura lembra um elefante
Cereal& orange muco místico
Dependem da sua probóscide
Lembram medalhas toscas
A chamar o sol à mente
Você foi destinado ao anterior
Tornou-se porém o posterior
Instituições correm para explicar
Coringa de cereal no escuro "ar"
Você está preso ali ad aeternitatem
Cercado por distintivos e delegados
E símbolos místicos destarte
O espaço foi tagarelado às migalhas
Para figura em saia justa nada mais
Brandindo objeto cortante para matar
Com o lótus o texto esqueceu menção
A quatro linhas de escrita tesa
Você podia tê-lo previsto
Regido conduta mais apropriada
Beijado largamente o lótus
Agora é C abaixo de meio e tarde
Lembre todo mundo que você foi
Um dia será& o que você virou
Aponte para si mesmo e diga Eu
287
Jerónimo Baía
Sonhando que via a Márcia
Pintais, sono gentil, com belo ornato
Meu claro sol na vossa sombra escura,
Que posto que da morte sois retrato,
Retrato sabeis ser da fermosura.
Eu, vendo o grato rosto e peito ingrato,
Quando fermosa a sigo a temo dura;
Porém firme no amor, fácil no trato,
Me coroa a esperança, a fé me jura.
Cante pois por tal glória, por tal sorte,
Cante vosso louvor, minha Talia
No Ocaso, no Oriente, Sul e Borte;
Chame-vos clara luz, não sombra fria,
Causa da vida, não irmão da morte,
Filho da noite não, mas pai do dia.
Meu claro sol na vossa sombra escura,
Que posto que da morte sois retrato,
Retrato sabeis ser da fermosura.
Eu, vendo o grato rosto e peito ingrato,
Quando fermosa a sigo a temo dura;
Porém firme no amor, fácil no trato,
Me coroa a esperança, a fé me jura.
Cante pois por tal glória, por tal sorte,
Cante vosso louvor, minha Talia
No Ocaso, no Oriente, Sul e Borte;
Chame-vos clara luz, não sombra fria,
Causa da vida, não irmão da morte,
Filho da noite não, mas pai do dia.
1 007
Donizete Galvão
Solilóquio de Nina Simone
Habitou-me um deus espesso.
Sangue cor de fígado.
Veneno talhado, macerado e amargoso.
Fez morada em cada célula.
Nos alvéolos, nas entranhas, sob as unhas.
Expande a veia do pescoço.
Sangra pelas gengivas.
Lateja nas têmporas e nos pulsos.
Planta arrancada da terra africana,
deita suas raízes fundas de baobá
e traz gosto de lama à boca.
Tem sabor atávico a relembrar
o lodo de que se originou o homem.
Habitou-me um deus exigente,
que me fere e exaspera.
Que espezinha o que eu era.
Que fala o que eu não pensara
e, dizendo-me ao contrário,
faz-me gostar do calvário
que, às cegas, eu criei.
Nomeio que não tem nome:
Raio de Iansã, trovão, ciclone,
Sopro de Orixá, c´est moi
Nina Simone.
711
Donizete Galvão
Solilóquio de Nina Simone
Habitou-me um deus espesso.
Sangue cor de fígado.
Veneno talhado, macerado e amargoso.
Fez morada em cada célula.
Nos alvéolos, nas entranhas, sob as unhas.
Expande a veia do pescoço.
Sangra pelas gengivas.
Lateja nas têmporas e nos pulsos.
Planta arrancada da terra africana,
deita suas raízes fundas de baobá
e traz gosto de lama à boca.
Tem sabor atávico a relembrar
o lodo de que se originou o homem.
Habitou-me um deus exigente,
que me fere e exaspera.
Que espezinha o que eu era.
Que fala o que eu não pensara
e, dizendo-me ao contrário,
faz-me gostar do calvário
que, às cegas, eu criei.
Nomeio que não tem nome:
Raio de Iansã, trovão, ciclone,
Sopro de Orixá, c´est moi
Nina Simone.
711
Vasco Graça Moura
Crónica Feminina
estava nua, só um colar lhe dava
horizontes de incêndio sobre o peito,
a transmutar, num halo insatisfeito,
a rosa de rubis em quente lava.
estava nua e branca num estreito
lençol que o fim do sono desdobrava
e a noite era mais livre e a lua escrava
e o mais breve pretérito imperfeito
só o tempo verbal lhe fugiria,
no alongar dos gestos e requebros,
junto do espelho quando as aves vão.
toda a nudez, toda a nudez, toda a melancolia
a dor no mundo, a deslembrança, a febre, os
olhos rasos de água e solidão
horizontes de incêndio sobre o peito,
a transmutar, num halo insatisfeito,
a rosa de rubis em quente lava.
estava nua e branca num estreito
lençol que o fim do sono desdobrava
e a noite era mais livre e a lua escrava
e o mais breve pretérito imperfeito
só o tempo verbal lhe fugiria,
no alongar dos gestos e requebros,
junto do espelho quando as aves vão.
toda a nudez, toda a nudez, toda a melancolia
a dor no mundo, a deslembrança, a febre, os
olhos rasos de água e solidão
2 678
Dmitri Prigov
Diálogo n° 5
Estaline: Não há felicidade na terra!
Prigov: Não há felicidade!
Estaline: O que é que há então?
Prigov: O que é que há?
Estaline: Há Estaline!
Prigov: Há Estaline!
Estaline: E o que é Estaline?
Prigov: E o que é?
Estaline: Estaline é a nossa glória militar!
Prigov: Glória militar!
Estaline: Estaline é a maior inspiração da nossa juventude!
Prigov: A maior inspiração da juventude!
Estaline: Cantando nas batalhas e nas vitórias!
Prigov: Vitórias!
Estaline: O nosso povo segue Estaline!
Prigov: Segue Estaline.
Estaline: E o que mais é Estaline?
Prigov: E o que mais?
Estaline: Os três princípios principais.
Prigov: Os três princípios principais.
Estaline: E o que mais é Estaline?
Prigov: E o que mais?
Estaline: As cinco grandes ideias!
Prigov: As cinco grandes ideias!
Estaline: As oito grande letras!
Prigov: E como seria se deixássemos cair uma letra?
Estaline: Como seria?
Prigov: Seria Staline!
Estaline: Staline!
Prigov: E se deixássemos cair outra?
Staline: Outra?
Prigov: Seria Taline!
Taline: Taline!
Prigov: E se deixássemos cair outra?
Taline: Outra?
Prigov: Seria Aline.
Aline: Seria Aline!
Prigov: E se deixássemos cair ainda outra?
Aline: Outra?
Prigov: Seria Line.
Line: Seria Line!
Prigov: E outra?
Line: Outra?
Prigov: Seria Ine.
Ine: Ine?
Prigov: E outra?
Ine: Outra?
Prigov: Seria Ne!
Ne: Seria Ne!
Prigov: E outra?
Ne: Outra?
Prigov: Seria E!
E: Seria E!
Prigov: E outra?
(Versão do tradutor português Luís Filipe Parrado – daí o uso de Estaline quando no Brasil dizemos Stálin – a partir da tradução inglesa de J. Kates reproduzida em "In the grip of strange thoughts - Russian poetry en a new era", selecção e organização de J. Kates, Bloodaxe Books, Newcastle, 1999, pp. 261-263).
652
Moacy Cirne
Recomeço
Sei do sonho:
procuro tua sombra napenumbrada memória líquidae nada encontro.A lua não é vermelhanão é violetanão é verdecoisamasos loucos da madrugadaanunciam as primeiras águas da manhã.Sei do sonho?Tua sombra pagãé um corpo que me fogedas mãos cansadas de espantose abismos.A árvore sonolentaanoitece os meus delírios.Não te vejo na claridadedo silêncio.O sol é um pássaro feridona solidãode meus gestos de meus gritose a hora cruvianaé uma graviolagrávidade aromas e carnespronta para ser saboreada.Sei.Não foi um sonho.Como encontrar,então,naarquitetura fluvialde meus quereres,as linhase curvasde teu corpo barrento-canela?Ah, não! Ah, sim!Existeumgrande sertãonas veredas da minha paixão.E eu sei do sonho.Procuro tua sombra líquidae nada encontro.A lua não é verdeluãmastua sombra pagãanoitece os meus delírios.Como encontrar,sol e solidão,a arquitetura colonialde teu corpo fluvial?Como encontrar,no silêncio de meus gritos,
tua sombra teus aromas tuas carnes?
Sim,não.Tua memória vermelhaé uma sombra grávidade morenezas e reentrânciasazuis.Docemente azuis.Barrentas e az
875
Vasco Graça Moura
Lâmpada votiva
1.
teve longa agonia a minha mãe:
seu ser tornou-se um puro sofrimento
e a sua voz apenas um lamento
sombrio e lancinante, mas ninguém
podia fazer nada, era novembro,
levou-a o sol da tarde quando a face
lhe serenou, foi como se acordasse
outra espessura dela em mim. relembro
sombras e risos, coisas pequenas, nadas,
e horas graves da infância e idade adulta
que este silêncio oculta e desoculta
nessas pobres feições desfiguradas.
quanta canção perdida se procura,
quanta encontrada em lágrimas murmura.
2.
teve longa agonia a minha mãe:
seu ser tornou-se um puro sofrimento
e a sua voz apenas um lamento
sombrio e lancinante, mas ninguém
podia fazer nada, era novembro,
levou-a o sol da tarde quando a face
lhe serenou, foi como se acordasse
outra espessura dela em mim. relembro
sombras e risos, coisas pequenas, nadas,
e horas graves da infância e idade adulta
que este silêncio oculta e desoculta
nessas pobres feições desfiguradas.
quanta canção perdida se procura,
quanta encontrada em lágrimas murmura.
2.
e não queria ser vista e foi envolta
num lençol branco em suas dobras leves,
pus junto dela algumas rosas breves
e a lembrança represa ficou solta
e foi à desfilada. De repente,
a minha mãe já não estava morta:
era o vulto que à noite se recorta
na luz do corredor, se está doente
algum de nós, a mão que pousa e traz
algum sossego à fronte, a voz que chama
para o almoço, ou nos tira da cama,
quem nos trata das roupas, ou nos faz,
bolos de anos e as malas, na partida,
e a quem a voz tremia à despedida.
3.
num lençol branco em suas dobras leves,
pus junto dela algumas rosas breves
e a lembrança represa ficou solta
e foi à desfilada. De repente,
a minha mãe já não estava morta:
era o vulto que à noite se recorta
na luz do corredor, se está doente
algum de nós, a mão que pousa e traz
algum sossego à fronte, a voz que chama
para o almoço, ou nos tira da cama,
quem nos trata das roupas, ou nos faz,
bolos de anos e as malas, na partida,
e a quem a voz tremia à despedida.
3.
agora deu-se à terra o que é da terra
e as flores amontoam-se em sinal
de ser fugaz a vida, sobre a cal.
e enquanto cada dia desaferra,
com seu sopro bravio virão ventos
e as gaivotas, levando-lhe outras vozes,
uivos do mar, pios, metamorfoses,
nada ela escutará nesses momentos.
haverá fumo e fogo, deslembranças,
ecos, recordações, nuvens, ruídos,
outros cortejos tristes, recolhidos,
ali por perto hão-de brincar crianças
num jogo descuidado, um grupo vence-o.
mas fica a minha mãe posta em silêncio.
4.
e as flores amontoam-se em sinal
de ser fugaz a vida, sobre a cal.
e enquanto cada dia desaferra,
com seu sopro bravio virão ventos
e as gaivotas, levando-lhe outras vozes,
uivos do mar, pios, metamorfoses,
nada ela escutará nesses momentos.
haverá fumo e fogo, deslembranças,
ecos, recordações, nuvens, ruídos,
outros cortejos tristes, recolhidos,
ali por perto hão-de brincar crianças
num jogo descuidado, um grupo vence-o.
mas fica a minha mãe posta em silêncio.
4.
agora dorme e vai ficar assim,
imóvel e coberta. Já regressa
o carro que avançava tão depressa
na estrada por que vou e por que vim
às tantas da manhã, e tresnoitados
meus irmãos aguardavam-me à chegada,
sem esperança ou alegria, sem mais nada,
senão minutos tensos e contados.
depois os rituais, o respirar
tão a custo, os membros que se arqueiam
e distendem, e os vultos que rodeiam
a muda sombra vindo devagar.
beijei-lhe a fronte e fiz-lhe um leve afago:
do pouco que levei, tudo o que trago.
5.
imóvel e coberta. Já regressa
o carro que avançava tão depressa
na estrada por que vou e por que vim
às tantas da manhã, e tresnoitados
meus irmãos aguardavam-me à chegada,
sem esperança ou alegria, sem mais nada,
senão minutos tensos e contados.
depois os rituais, o respirar
tão a custo, os membros que se arqueiam
e distendem, e os vultos que rodeiam
a muda sombra vindo devagar.
beijei-lhe a fronte e fiz-lhe um leve afago:
do pouco que levei, tudo o que trago.
5.
poderá ter morrido, ressuscita
neste lugar humano, pobre fio
de água verbal que vai a medo, hesita,
e teme desmedir-se como um rio.
e muita coisa nele se derrama,
dita e não dita, pressentida, densas
aluviões, emaranhada trama
de obscuras raízes e presenças.
virão dias, semanas, meses, anos,
e os ciclos dos astros indiferentes,
mover-se-ão na mesma os oceanos
e as placas que sustentam continentes.
mola do mundo, o coração aviva
a chama desta lâmpada votiva.
neste lugar humano, pobre fio
de água verbal que vai a medo, hesita,
e teme desmedir-se como um rio.
e muita coisa nele se derrama,
dita e não dita, pressentida, densas
aluviões, emaranhada trama
de obscuras raízes e presenças.
virão dias, semanas, meses, anos,
e os ciclos dos astros indiferentes,
mover-se-ão na mesma os oceanos
e as placas que sustentam continentes.
mola do mundo, o coração aviva
a chama desta lâmpada votiva.
2 556
Vasco Graça Moura
Lâmpada votiva
1.
teve longa agonia a minha mãe:
seu ser tornou-se um puro sofrimento
e a sua voz apenas um lamento
sombrio e lancinante, mas ninguém
podia fazer nada, era novembro,
levou-a o sol da tarde quando a face
lhe serenou, foi como se acordasse
outra espessura dela em mim. relembro
sombras e risos, coisas pequenas, nadas,
e horas graves da infância e idade adulta
que este silêncio oculta e desoculta
nessas pobres feições desfiguradas.
quanta canção perdida se procura,
quanta encontrada em lágrimas murmura.
2.
teve longa agonia a minha mãe:
seu ser tornou-se um puro sofrimento
e a sua voz apenas um lamento
sombrio e lancinante, mas ninguém
podia fazer nada, era novembro,
levou-a o sol da tarde quando a face
lhe serenou, foi como se acordasse
outra espessura dela em mim. relembro
sombras e risos, coisas pequenas, nadas,
e horas graves da infância e idade adulta
que este silêncio oculta e desoculta
nessas pobres feições desfiguradas.
quanta canção perdida se procura,
quanta encontrada em lágrimas murmura.
2.
e não queria ser vista e foi envolta
num lençol branco em suas dobras leves,
pus junto dela algumas rosas breves
e a lembrança represa ficou solta
e foi à desfilada. De repente,
a minha mãe já não estava morta:
era o vulto que à noite se recorta
na luz do corredor, se está doente
algum de nós, a mão que pousa e traz
algum sossego à fronte, a voz que chama
para o almoço, ou nos tira da cama,
quem nos trata das roupas, ou nos faz,
bolos de anos e as malas, na partida,
e a quem a voz tremia à despedida.
3.
num lençol branco em suas dobras leves,
pus junto dela algumas rosas breves
e a lembrança represa ficou solta
e foi à desfilada. De repente,
a minha mãe já não estava morta:
era o vulto que à noite se recorta
na luz do corredor, se está doente
algum de nós, a mão que pousa e traz
algum sossego à fronte, a voz que chama
para o almoço, ou nos tira da cama,
quem nos trata das roupas, ou nos faz,
bolos de anos e as malas, na partida,
e a quem a voz tremia à despedida.
3.
agora deu-se à terra o que é da terra
e as flores amontoam-se em sinal
de ser fugaz a vida, sobre a cal.
e enquanto cada dia desaferra,
com seu sopro bravio virão ventos
e as gaivotas, levando-lhe outras vozes,
uivos do mar, pios, metamorfoses,
nada ela escutará nesses momentos.
haverá fumo e fogo, deslembranças,
ecos, recordações, nuvens, ruídos,
outros cortejos tristes, recolhidos,
ali por perto hão-de brincar crianças
num jogo descuidado, um grupo vence-o.
mas fica a minha mãe posta em silêncio.
4.
e as flores amontoam-se em sinal
de ser fugaz a vida, sobre a cal.
e enquanto cada dia desaferra,
com seu sopro bravio virão ventos
e as gaivotas, levando-lhe outras vozes,
uivos do mar, pios, metamorfoses,
nada ela escutará nesses momentos.
haverá fumo e fogo, deslembranças,
ecos, recordações, nuvens, ruídos,
outros cortejos tristes, recolhidos,
ali por perto hão-de brincar crianças
num jogo descuidado, um grupo vence-o.
mas fica a minha mãe posta em silêncio.
4.
agora dorme e vai ficar assim,
imóvel e coberta. Já regressa
o carro que avançava tão depressa
na estrada por que vou e por que vim
às tantas da manhã, e tresnoitados
meus irmãos aguardavam-me à chegada,
sem esperança ou alegria, sem mais nada,
senão minutos tensos e contados.
depois os rituais, o respirar
tão a custo, os membros que se arqueiam
e distendem, e os vultos que rodeiam
a muda sombra vindo devagar.
beijei-lhe a fronte e fiz-lhe um leve afago:
do pouco que levei, tudo o que trago.
5.
imóvel e coberta. Já regressa
o carro que avançava tão depressa
na estrada por que vou e por que vim
às tantas da manhã, e tresnoitados
meus irmãos aguardavam-me à chegada,
sem esperança ou alegria, sem mais nada,
senão minutos tensos e contados.
depois os rituais, o respirar
tão a custo, os membros que se arqueiam
e distendem, e os vultos que rodeiam
a muda sombra vindo devagar.
beijei-lhe a fronte e fiz-lhe um leve afago:
do pouco que levei, tudo o que trago.
5.
poderá ter morrido, ressuscita
neste lugar humano, pobre fio
de água verbal que vai a medo, hesita,
e teme desmedir-se como um rio.
e muita coisa nele se derrama,
dita e não dita, pressentida, densas
aluviões, emaranhada trama
de obscuras raízes e presenças.
virão dias, semanas, meses, anos,
e os ciclos dos astros indiferentes,
mover-se-ão na mesma os oceanos
e as placas que sustentam continentes.
mola do mundo, o coração aviva
a chama desta lâmpada votiva.
neste lugar humano, pobre fio
de água verbal que vai a medo, hesita,
e teme desmedir-se como um rio.
e muita coisa nele se derrama,
dita e não dita, pressentida, densas
aluviões, emaranhada trama
de obscuras raízes e presenças.
virão dias, semanas, meses, anos,
e os ciclos dos astros indiferentes,
mover-se-ão na mesma os oceanos
e as placas que sustentam continentes.
mola do mundo, o coração aviva
a chama desta lâmpada votiva.
2 556
Donizete Galvão
Invenção do branco
“...all this had to be imagined
as an inevitable knowledge.”
Wallace Stevens
O tanque é o avesso da casa.
A rebarba.
A ferrugem tomando conta da boca.
O tanque é a parenta decaída,
que machuca os olhos das visitas
com suas carnes rachadas.
O tanque é onde se lava o coador
e o pó de café de seguidas manhãs
desenha uma poça de água preta.
Uma arraia-miúda,
ervas e craca e limo,
flora sem -vergonha,
infiltra-se em suas paredes.
À beira do poço,
alguém imaginou copos-de-leite.
Bebendo a umidade,
em verde e branco brotaram.
Reinventados pela distância,
erguem-se vívidos,
mais brancos que o branco,
artifício de vidro.
Recém-nascidos.
Só porque eles existem,
o tanque e seu corpo saloio
foram salvos do esquecimento.
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