Poemas neste tema
Vida e Existência
Armindo Trevisan
Acalanto para Marilyn Monroe
De repente
no teu seio
cresceu um lírio do campo.
São Francisco, com sua mão
de menino, o recolheu.
São Bernardo, a sós, olhou
o teu corpo inteiro como
se olha
um grande girassol.
Vieram santos, donzelinhas
de pescoço decepado;
Santa Catarina trouxe
sua roda rubra e egípcia.
Tua coxa foi ficando
do tamanho azul da lua,
e tu mesma, mais lunar,
ficaste de todo nua.
O mundo inteiro grasnou
que eras bela, que possuías
um morango em cada poro,
uma flor em cada pêlo.
Banqueiro: por que me fitas?
Governador: que desejas?
O repórter, não me comas!
Tornei-me tão pequenina
que o pecado que morava
em mim deixou-me sozinha
com Deus e comigo, livre.
Na distração dessa hora
engoli todas as pílulas
que uma mulher necessita
para sair deste mundo.
Livre, livre,
bela bela
recuperei o meu corpo
nascido antes de mim.
(...)
Publicado no livro A imploração do nada (1971).
In: TREVISAN, Armindo. Antologia poética. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1986. p.25
no teu seio
cresceu um lírio do campo.
São Francisco, com sua mão
de menino, o recolheu.
São Bernardo, a sós, olhou
o teu corpo inteiro como
se olha
um grande girassol.
Vieram santos, donzelinhas
de pescoço decepado;
Santa Catarina trouxe
sua roda rubra e egípcia.
Tua coxa foi ficando
do tamanho azul da lua,
e tu mesma, mais lunar,
ficaste de todo nua.
O mundo inteiro grasnou
que eras bela, que possuías
um morango em cada poro,
uma flor em cada pêlo.
Banqueiro: por que me fitas?
Governador: que desejas?
O repórter, não me comas!
Tornei-me tão pequenina
que o pecado que morava
em mim deixou-me sozinha
com Deus e comigo, livre.
Na distração dessa hora
engoli todas as pílulas
que uma mulher necessita
para sair deste mundo.
Livre, livre,
bela bela
recuperei o meu corpo
nascido antes de mim.
(...)
Publicado no livro A imploração do nada (1971).
In: TREVISAN, Armindo. Antologia poética. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1986. p.25
1 322
Alphonsus de Guimaraens Filho
Cantilena II
A Mario Quintana
Mansa cantilena
num mundo que chora:
até me dá pena
te escutar agora.
Ao ouvir-te, tento
ir até ao fundo
de um deslumbramento
que ainda há no mundo
(pelo que segredas,
pelo que me falas),
tu que assim te quedas
em mim, se te calas,
— ai das cantilenas
num mundo de pranto! —
chama que asserenas
e em nós pões o encanto
de nem sei que dia
feito de inocência,
sopro de poesia
da mais pura ardência.
In: GUIMARAENS FILHO, Alphonsus de. Nó: poemas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1984. Poema integrante da série Nó
Mansa cantilena
num mundo que chora:
até me dá pena
te escutar agora.
Ao ouvir-te, tento
ir até ao fundo
de um deslumbramento
que ainda há no mundo
(pelo que segredas,
pelo que me falas),
tu que assim te quedas
em mim, se te calas,
— ai das cantilenas
num mundo de pranto! —
chama que asserenas
e em nós pões o encanto
de nem sei que dia
feito de inocência,
sopro de poesia
da mais pura ardência.
In: GUIMARAENS FILHO, Alphonsus de. Nó: poemas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1984. Poema integrante da série Nó
1 176
Alphonsus de Guimaraens Filho
O Poeta e o Poema
Nenhum poema se faz de matéria abstrata.
É a carne, e seus suplícios,
ternuras,
alegrias,
é a carne, é o que ilumina a carne, a essência,
o luminoso e o opaco do poema.
Nenhum poema. Nenhum pode nascer do inexistente.
A vida é mais real que a realidade.
E em seus contrastes e sequelas, funda
um reino onde pervagam
não a agonia de um, não o alvoroço
de outro,
mas o assombro de todos num caminho
estranho
como infinito corredor que ecoa
passos idos (de agora,
e de ontem e de sempre),
passos,
risos e choros — num reino
que nada tem de utópico, antes
mais duro do que rocha,
mais duro do que rocha da esperança
(do desespero?),
mais duro do que a nossa frágil carne,
nossa atônita alma,
— duros pesar de seu destino, duros
pesar de serem só a hora do sonho,
do sofrimento,
de indizível espanto,
e por fim um silêncio que arrepia
a epiderme do acaso:
E por fim um silêncio... Nenhum poema
se tece de irreais tormentos. Sempre
o que o verso contém é um fluir de sangue
no coração da vida,
no pobre coração da vida, aqui
paralisado, além
nascente no seu ímpeto de febre,
no coração da vida,
no coração da vida,
(da morte?)
e um frio antigo, e as bocas
cerradas, olhos cegos,
canto urdido de cantos sufocados,
e uma avenida longa, longa, longa,
e a noite,
e a noite,
e, talvez, um sublime amanhecer.
(...)
Não há poema isento.
Há é o homem.
Há é o homem e o poema.
Fundidos.
In: GUIMARAENS FILHO, Alphonsus de. Nó: poemas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1984. Poema integrante da série Nó
É a carne, e seus suplícios,
ternuras,
alegrias,
é a carne, é o que ilumina a carne, a essência,
o luminoso e o opaco do poema.
Nenhum poema. Nenhum pode nascer do inexistente.
A vida é mais real que a realidade.
E em seus contrastes e sequelas, funda
um reino onde pervagam
não a agonia de um, não o alvoroço
de outro,
mas o assombro de todos num caminho
estranho
como infinito corredor que ecoa
passos idos (de agora,
e de ontem e de sempre),
passos,
risos e choros — num reino
que nada tem de utópico, antes
mais duro do que rocha,
mais duro do que rocha da esperança
(do desespero?),
mais duro do que a nossa frágil carne,
nossa atônita alma,
— duros pesar de seu destino, duros
pesar de serem só a hora do sonho,
do sofrimento,
de indizível espanto,
e por fim um silêncio que arrepia
a epiderme do acaso:
E por fim um silêncio... Nenhum poema
se tece de irreais tormentos. Sempre
o que o verso contém é um fluir de sangue
no coração da vida,
no pobre coração da vida, aqui
paralisado, além
nascente no seu ímpeto de febre,
no coração da vida,
no coração da vida,
(da morte?)
e um frio antigo, e as bocas
cerradas, olhos cegos,
canto urdido de cantos sufocados,
e uma avenida longa, longa, longa,
e a noite,
e a noite,
e, talvez, um sublime amanhecer.
(...)
Não há poema isento.
Há é o homem.
Há é o homem e o poema.
Fundidos.
In: GUIMARAENS FILHO, Alphonsus de. Nó: poemas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1984. Poema integrante da série Nó
1 334
Alphonsus de Guimaraens Filho
O Poeta e o Poema
Nenhum poema se faz de matéria abstrata.
É a carne, e seus suplícios,
ternuras,
alegrias,
é a carne, é o que ilumina a carne, a essência,
o luminoso e o opaco do poema.
Nenhum poema. Nenhum pode nascer do inexistente.
A vida é mais real que a realidade.
E em seus contrastes e sequelas, funda
um reino onde pervagam
não a agonia de um, não o alvoroço
de outro,
mas o assombro de todos num caminho
estranho
como infinito corredor que ecoa
passos idos (de agora,
e de ontem e de sempre),
passos,
risos e choros — num reino
que nada tem de utópico, antes
mais duro do que rocha,
mais duro do que rocha da esperança
(do desespero?),
mais duro do que a nossa frágil carne,
nossa atônita alma,
— duros pesar de seu destino, duros
pesar de serem só a hora do sonho,
do sofrimento,
de indizível espanto,
e por fim um silêncio que arrepia
a epiderme do acaso:
E por fim um silêncio... Nenhum poema
se tece de irreais tormentos. Sempre
o que o verso contém é um fluir de sangue
no coração da vida,
no pobre coração da vida, aqui
paralisado, além
nascente no seu ímpeto de febre,
no coração da vida,
no coração da vida,
(da morte?)
e um frio antigo, e as bocas
cerradas, olhos cegos,
canto urdido de cantos sufocados,
e uma avenida longa, longa, longa,
e a noite,
e a noite,
e, talvez, um sublime amanhecer.
(...)
Não há poema isento.
Há é o homem.
Há é o homem e o poema.
Fundidos.
In: GUIMARAENS FILHO, Alphonsus de. Nó: poemas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1984. Poema integrante da série Nó
É a carne, e seus suplícios,
ternuras,
alegrias,
é a carne, é o que ilumina a carne, a essência,
o luminoso e o opaco do poema.
Nenhum poema. Nenhum pode nascer do inexistente.
A vida é mais real que a realidade.
E em seus contrastes e sequelas, funda
um reino onde pervagam
não a agonia de um, não o alvoroço
de outro,
mas o assombro de todos num caminho
estranho
como infinito corredor que ecoa
passos idos (de agora,
e de ontem e de sempre),
passos,
risos e choros — num reino
que nada tem de utópico, antes
mais duro do que rocha,
mais duro do que rocha da esperança
(do desespero?),
mais duro do que a nossa frágil carne,
nossa atônita alma,
— duros pesar de seu destino, duros
pesar de serem só a hora do sonho,
do sofrimento,
de indizível espanto,
e por fim um silêncio que arrepia
a epiderme do acaso:
E por fim um silêncio... Nenhum poema
se tece de irreais tormentos. Sempre
o que o verso contém é um fluir de sangue
no coração da vida,
no pobre coração da vida, aqui
paralisado, além
nascente no seu ímpeto de febre,
no coração da vida,
no coração da vida,
(da morte?)
e um frio antigo, e as bocas
cerradas, olhos cegos,
canto urdido de cantos sufocados,
e uma avenida longa, longa, longa,
e a noite,
e a noite,
e, talvez, um sublime amanhecer.
(...)
Não há poema isento.
Há é o homem.
Há é o homem e o poema.
Fundidos.
In: GUIMARAENS FILHO, Alphonsus de. Nó: poemas. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1984. Poema integrante da série Nó
1 334
João Cabral de Melo Neto
A Luz em Joaquim Cardozo
Escrever de Joaquim Cardozo
só pode quem conhece
aquela luz Velásquez
de onde nasceu e de que escreve.
A luz que das várzeas da Várzea
onde nasceu, redonda,
vem até o ex-Cais de Santa Rita
que viveu: luz redoma,
luz espaço, luz que se veste,
leve como uma rede,
e clara, até quando preside
o cemitério e a sede.
Publicado no livro Museu de tudo (1975).
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.375. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira)
só pode quem conhece
aquela luz Velásquez
de onde nasceu e de que escreve.
A luz que das várzeas da Várzea
onde nasceu, redonda,
vem até o ex-Cais de Santa Rita
que viveu: luz redoma,
luz espaço, luz que se veste,
leve como uma rede,
e clara, até quando preside
o cemitério e a sede.
Publicado no livro Museu de tudo (1975).
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.375. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira)
2 636
Dante Milano
Fuga do Centauro
Surpreendi-a numa gruta,
O corpo fosforescente
Como uma Santa! Porém,
Rindo, quase com desdém,
Do meu êxtase inocente,
Toda nua e transparente,
Sob o véu, numa impudente
Postura de prostituta.
Receoso, tentei fugir.
Ela pegou-me das crinas,
Em minhas costas montou
E meus flancos esporeou.
Quis domar-me com mãos finas.
Ah, que tu não me dominas!
Logo aflaram-me as narinas
E comecei a nitrir...
Fui beijá-la e dei dentadas.
Havia sangue em seu gosto.
Espanquei-a com carícias,
Massacrei-a de delícias.
Arrastei-lhe o corpo exposto,
Nua, o gesto decomposto,
E pus-lhe as patas no rosto.
— Ela dava gargalhadas.
Estatelada no chão
Saía dela um calor
De forno, que a consumia,
Um hálito de agonia
E de esquálido suor.
E vendo-a perder a cor,
Sentia nela o sabor
De toda carne: extinção.
Afinal me libertei
Do seu espantoso abraço
E larguei-a quase morta,
Esvaída, a boca torta,
As mãos hirtas, o olhar baço.
Afastei-me, firme o passo,
Respirando um novo espaço,
Vitorioso como um rei.
Ela ergueu-se e de mãos postas
Pediu-me, ao ver-me partir,
Que jamais a abandonasse.
Tinha lágrimas na face.
A princípio eu quis sorrir:
Voltar, depois de fugir?
E fugi, mas a nitrir,
Com ela nas minhas costas...
Publicado no livro Poesias (1948). Poema integrante da série Momentos.
In: MILANO, Dante. Poesias. Pref. Ivan Junqueira. Petrópolis: Ed. Firmo, 1994. p.130-131. (Pedra mágica, 1
O corpo fosforescente
Como uma Santa! Porém,
Rindo, quase com desdém,
Do meu êxtase inocente,
Toda nua e transparente,
Sob o véu, numa impudente
Postura de prostituta.
Receoso, tentei fugir.
Ela pegou-me das crinas,
Em minhas costas montou
E meus flancos esporeou.
Quis domar-me com mãos finas.
Ah, que tu não me dominas!
Logo aflaram-me as narinas
E comecei a nitrir...
Fui beijá-la e dei dentadas.
Havia sangue em seu gosto.
Espanquei-a com carícias,
Massacrei-a de delícias.
Arrastei-lhe o corpo exposto,
Nua, o gesto decomposto,
E pus-lhe as patas no rosto.
— Ela dava gargalhadas.
Estatelada no chão
Saía dela um calor
De forno, que a consumia,
Um hálito de agonia
E de esquálido suor.
E vendo-a perder a cor,
Sentia nela o sabor
De toda carne: extinção.
Afinal me libertei
Do seu espantoso abraço
E larguei-a quase morta,
Esvaída, a boca torta,
As mãos hirtas, o olhar baço.
Afastei-me, firme o passo,
Respirando um novo espaço,
Vitorioso como um rei.
Ela ergueu-se e de mãos postas
Pediu-me, ao ver-me partir,
Que jamais a abandonasse.
Tinha lágrimas na face.
A princípio eu quis sorrir:
Voltar, depois de fugir?
E fugi, mas a nitrir,
Com ela nas minhas costas...
Publicado no livro Poesias (1948). Poema integrante da série Momentos.
In: MILANO, Dante. Poesias. Pref. Ivan Junqueira. Petrópolis: Ed. Firmo, 1994. p.130-131. (Pedra mágica, 1
1 266
Cruz e Sousa
Sexta-Feira Santa
Lua absíntica, verde, feiticeira,
Pasmada como um vício monstruoso...
Um cão estranho fuça na esterqueira,
Uivando para o espaço fabuloso.
É esta a negra e santa Sexta-Feira!
Cristo está morto, como um vil leproso,
Chagado e frio, na feroz cegueira
Da Morte, o sangue roxo e tenebroso.
A serpente do mal e do pecado
Um sinistro veneno esverdeado
Verte do Morto na mudez serena.
Mas da sagrada Redenção do Cristo,
Em vez do grande Amor, puro, imprevisto,
Brotam fosforescências de gangrena!
Publicado no livro Últimos Sonetos (1905).
In: SOUSA, Cruz e. Últimos sonetos. Org. Adriano da Gama Kury. 2.ed. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1988. p. 85
Pasmada como um vício monstruoso...
Um cão estranho fuça na esterqueira,
Uivando para o espaço fabuloso.
É esta a negra e santa Sexta-Feira!
Cristo está morto, como um vil leproso,
Chagado e frio, na feroz cegueira
Da Morte, o sangue roxo e tenebroso.
A serpente do mal e do pecado
Um sinistro veneno esverdeado
Verte do Morto na mudez serena.
Mas da sagrada Redenção do Cristo,
Em vez do grande Amor, puro, imprevisto,
Brotam fosforescências de gangrena!
Publicado no livro Últimos Sonetos (1905).
In: SOUSA, Cruz e. Últimos sonetos. Org. Adriano da Gama Kury. 2.ed. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1988. p. 85
4 039
Cruz e Sousa
Sexta-Feira Santa
Lua absíntica, verde, feiticeira,
Pasmada como um vício monstruoso...
Um cão estranho fuça na esterqueira,
Uivando para o espaço fabuloso.
É esta a negra e santa Sexta-Feira!
Cristo está morto, como um vil leproso,
Chagado e frio, na feroz cegueira
Da Morte, o sangue roxo e tenebroso.
A serpente do mal e do pecado
Um sinistro veneno esverdeado
Verte do Morto na mudez serena.
Mas da sagrada Redenção do Cristo,
Em vez do grande Amor, puro, imprevisto,
Brotam fosforescências de gangrena!
Publicado no livro Últimos Sonetos (1905).
In: SOUSA, Cruz e. Últimos sonetos. Org. Adriano da Gama Kury. 2.ed. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1988. p. 85
Pasmada como um vício monstruoso...
Um cão estranho fuça na esterqueira,
Uivando para o espaço fabuloso.
É esta a negra e santa Sexta-Feira!
Cristo está morto, como um vil leproso,
Chagado e frio, na feroz cegueira
Da Morte, o sangue roxo e tenebroso.
A serpente do mal e do pecado
Um sinistro veneno esverdeado
Verte do Morto na mudez serena.
Mas da sagrada Redenção do Cristo,
Em vez do grande Amor, puro, imprevisto,
Brotam fosforescências de gangrena!
Publicado no livro Últimos Sonetos (1905).
In: SOUSA, Cruz e. Últimos sonetos. Org. Adriano da Gama Kury. 2.ed. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1988. p. 85
4 039
Mafalda Veiga
O menino do piano (um sonho do Tomás)
vi um menino com um piano
no céu da minha cabeça
veio de tão longe só para me pedir
que nunca o esqueça
vinha a tocar o seu piano
como só nos sonhos pode ser
por entre as nuvens e as estrelas
apareceu quando me viu adormecer
ficou sentado perto de mim
onde mora a fantasia
quis-lhe tocar mas não se pode ter
a noite a iluminar o dia
soprou devagarinho uma estrela
que se acendeu na sua mão
disse-me: podes sempre vê-la
se souberes soprá-la no teu coração
vi um menino com um piano
a despedir-se de mim
com uma nuvem fez o mar e partiu
(nos sonhos pode ser assim)
disse-me: está a nascer o dia
vou pra onde a noite se esconder
volto com a primeira estrela
para tu nunca teres medo ao escurecer
no céu da minha cabeça
veio de tão longe só para me pedir
que nunca o esqueça
vinha a tocar o seu piano
como só nos sonhos pode ser
por entre as nuvens e as estrelas
apareceu quando me viu adormecer
ficou sentado perto de mim
onde mora a fantasia
quis-lhe tocar mas não se pode ter
a noite a iluminar o dia
soprou devagarinho uma estrela
que se acendeu na sua mão
disse-me: podes sempre vê-la
se souberes soprá-la no teu coração
vi um menino com um piano
a despedir-se de mim
com uma nuvem fez o mar e partiu
(nos sonhos pode ser assim)
disse-me: está a nascer o dia
vou pra onde a noite se esconder
volto com a primeira estrela
para tu nunca teres medo ao escurecer
1 213
Mafalda Veiga
Fonte dos Deuses
A lua dança na mata
Até despontar o dia
Andam ninfas na cascata
E os deuses em romaria
E os bravos guerreiro mouros
Cravam lanças ao luar
Pra afugentar maus agouros
Como a fonte a transbordar
Rio aberto, quase mar
Acaba todo o sossego
Inundada a pradaria
Se os deuses contam segredos
E água vem que não devi
E os bravos guerreiros
Cravam lanças ao luar
Pra afugentar maus agouros
Como a fonte a transbordar
Rio aberto, quase mar
E estava a princesa moura
A beber água na fonte
Onde a vida é uma espora
Cravada no horizonte
Todo o dia a toda a hora
Sempre vem o trovador
Cantar à princesa moura
E a toda a moirama em flor
Ai toda a moura é uma flor
Cantaria à luz do fogo
Se me fosse perdoado
Pelos deuses todo o sonho
Toda a falta de cuidado
Mas nem sempre acorda a chama
Onde a noite é demorada
Enquanto os deuses recolhem
Água em fonte transbordada
Luz em noite enluarada
E estava a princesa moura
A beber água na fonte
Onde a vida é uma espora
Cravada no horizonte
Todo o dia a toda a hora
Sempre vem o trovador
Cantar à princesa moura
E a toda a moirama em flor
Ai toda a moura é uma flor
Toco na lira dos deuses
Pela margem da ribeira
É esse o riso dos deuses
E das caraças da feira
Dias de amor nunca esquecem
Tirando algum que esqueceu
Quando os deuses enlouquecem
E arrancam estrelas do céu
E deixam noites de breu
E estava a princesa moura
A beber água na fonte
Onde a vida é uma espora
Cravada no horizonte
Todo o dia a toda a hora
Sempre vem o trovador
Cantar à princesa moura
E a toda a moirama em flor
Ai toda a moura é uma flor
Até despontar o dia
Andam ninfas na cascata
E os deuses em romaria
E os bravos guerreiro mouros
Cravam lanças ao luar
Pra afugentar maus agouros
Como a fonte a transbordar
Rio aberto, quase mar
Acaba todo o sossego
Inundada a pradaria
Se os deuses contam segredos
E água vem que não devi
E os bravos guerreiros
Cravam lanças ao luar
Pra afugentar maus agouros
Como a fonte a transbordar
Rio aberto, quase mar
E estava a princesa moura
A beber água na fonte
Onde a vida é uma espora
Cravada no horizonte
Todo o dia a toda a hora
Sempre vem o trovador
Cantar à princesa moura
E a toda a moirama em flor
Ai toda a moura é uma flor
Cantaria à luz do fogo
Se me fosse perdoado
Pelos deuses todo o sonho
Toda a falta de cuidado
Mas nem sempre acorda a chama
Onde a noite é demorada
Enquanto os deuses recolhem
Água em fonte transbordada
Luz em noite enluarada
E estava a princesa moura
A beber água na fonte
Onde a vida é uma espora
Cravada no horizonte
Todo o dia a toda a hora
Sempre vem o trovador
Cantar à princesa moura
E a toda a moirama em flor
Ai toda a moura é uma flor
Toco na lira dos deuses
Pela margem da ribeira
É esse o riso dos deuses
E das caraças da feira
Dias de amor nunca esquecem
Tirando algum que esqueceu
Quando os deuses enlouquecem
E arrancam estrelas do céu
E deixam noites de breu
E estava a princesa moura
A beber água na fonte
Onde a vida é uma espora
Cravada no horizonte
Todo o dia a toda a hora
Sempre vem o trovador
Cantar à princesa moura
E a toda a moirama em flor
Ai toda a moura é uma flor
1 167
Mafalda Veiga
Prisão
Eles sentaram-me à mesa do medo
no banco mesmo a seu lado
sentia-lhe o corpo hirto
e gelado de tão perto
Sentia-lhe o cheiro podre
de tão velho
que o medo perdeu a idade
no labirinto dos homens
e escorre pela sombra
dos corredores
Eles sentaram-me à mesa do medo
no banco mesmo a seu lado
ouvia-lhe a boca negra dizer-me:
“não penses, assim não sofres”
Virei a mesa do medo
e pensei
que há mais para virar
virei-me por dentro
até despertar
Eles sentaram-me à mesa do medo
no banco mesmo a seu lado
ouvia-lhe a boca negra dizer-me:
“não penses, assim não sofres”
Virei a mesa do medo
e pensei
que há mais para virar
virei-me por dentro
até despertar
no banco mesmo a seu lado
sentia-lhe o corpo hirto
e gelado de tão perto
Sentia-lhe o cheiro podre
de tão velho
que o medo perdeu a idade
no labirinto dos homens
e escorre pela sombra
dos corredores
Eles sentaram-me à mesa do medo
no banco mesmo a seu lado
ouvia-lhe a boca negra dizer-me:
“não penses, assim não sofres”
Virei a mesa do medo
e pensei
que há mais para virar
virei-me por dentro
até despertar
Eles sentaram-me à mesa do medo
no banco mesmo a seu lado
ouvia-lhe a boca negra dizer-me:
“não penses, assim não sofres”
Virei a mesa do medo
e pensei
que há mais para virar
virei-me por dentro
até despertar
921
Mafalda Veiga
Ficar mais perto
Depois talvez construir
Ou navegar os dias
Pressentir
Percorrer os caminhos que houver
Há sempre uma maneira
De recomeçar
O que se quiser
Deixa-me assim refazer
Ou desfazer os rumos
Descobrir
Entender o destino que vier
Porque há sempre uma maneira
De mudar
O que se não quer
Depois talvez na incerteza
Descobrir o que está certo
E no amor
No desamor
Virar a vida do avesso
Ficar mais fundo e mais perto
Do calor
Deixa-me só seguir o rumo
De outro sentimento
Que acontecer
Nem tudo o que nos ata
Nos pode prender
Porque há sempre uma maneira
De recomeçar
O que se quiser
Há sempre uma maneira
De recomeçar
O que se quiser
Há sempre uma maneira
de recomeçar
Depois talvez na incerteza
Descobrir o que está certo
E no amor
No desamor
Virar a vida do avesso
Ficar mais fundo e mais perto
Do calor
Deixa-me só seguir o rumo
De outro sentimento
Que acontecer
Nem tudo o que nos ata
Nos pode prender
Porque há sempre uma maneira
De recomeçar
O que se quiser
Há sempre uma maneira
De mudar o que não se quer
Há sempre uma maneira
De recomeçar
Ou navegar os dias
Pressentir
Percorrer os caminhos que houver
Há sempre uma maneira
De recomeçar
O que se quiser
Deixa-me assim refazer
Ou desfazer os rumos
Descobrir
Entender o destino que vier
Porque há sempre uma maneira
De mudar
O que se não quer
Depois talvez na incerteza
Descobrir o que está certo
E no amor
No desamor
Virar a vida do avesso
Ficar mais fundo e mais perto
Do calor
Deixa-me só seguir o rumo
De outro sentimento
Que acontecer
Nem tudo o que nos ata
Nos pode prender
Porque há sempre uma maneira
De recomeçar
O que se quiser
Há sempre uma maneira
De recomeçar
O que se quiser
Há sempre uma maneira
de recomeçar
Depois talvez na incerteza
Descobrir o que está certo
E no amor
No desamor
Virar a vida do avesso
Ficar mais fundo e mais perto
Do calor
Deixa-me só seguir o rumo
De outro sentimento
Que acontecer
Nem tudo o que nos ata
Nos pode prender
Porque há sempre uma maneira
De recomeçar
O que se quiser
Há sempre uma maneira
De mudar o que não se quer
Há sempre uma maneira
De recomeçar
1 346
Mafalda Veiga
Ficar mais perto
Depois talvez construir
Ou navegar os dias
Pressentir
Percorrer os caminhos que houver
Há sempre uma maneira
De recomeçar
O que se quiser
Deixa-me assim refazer
Ou desfazer os rumos
Descobrir
Entender o destino que vier
Porque há sempre uma maneira
De mudar
O que se não quer
Depois talvez na incerteza
Descobrir o que está certo
E no amor
No desamor
Virar a vida do avesso
Ficar mais fundo e mais perto
Do calor
Deixa-me só seguir o rumo
De outro sentimento
Que acontecer
Nem tudo o que nos ata
Nos pode prender
Porque há sempre uma maneira
De recomeçar
O que se quiser
Há sempre uma maneira
De recomeçar
O que se quiser
Há sempre uma maneira
de recomeçar
Depois talvez na incerteza
Descobrir o que está certo
E no amor
No desamor
Virar a vida do avesso
Ficar mais fundo e mais perto
Do calor
Deixa-me só seguir o rumo
De outro sentimento
Que acontecer
Nem tudo o que nos ata
Nos pode prender
Porque há sempre uma maneira
De recomeçar
O que se quiser
Há sempre uma maneira
De mudar o que não se quer
Há sempre uma maneira
De recomeçar
Ou navegar os dias
Pressentir
Percorrer os caminhos que houver
Há sempre uma maneira
De recomeçar
O que se quiser
Deixa-me assim refazer
Ou desfazer os rumos
Descobrir
Entender o destino que vier
Porque há sempre uma maneira
De mudar
O que se não quer
Depois talvez na incerteza
Descobrir o que está certo
E no amor
No desamor
Virar a vida do avesso
Ficar mais fundo e mais perto
Do calor
Deixa-me só seguir o rumo
De outro sentimento
Que acontecer
Nem tudo o que nos ata
Nos pode prender
Porque há sempre uma maneira
De recomeçar
O que se quiser
Há sempre uma maneira
De recomeçar
O que se quiser
Há sempre uma maneira
de recomeçar
Depois talvez na incerteza
Descobrir o que está certo
E no amor
No desamor
Virar a vida do avesso
Ficar mais fundo e mais perto
Do calor
Deixa-me só seguir o rumo
De outro sentimento
Que acontecer
Nem tudo o que nos ata
Nos pode prender
Porque há sempre uma maneira
De recomeçar
O que se quiser
Há sempre uma maneira
De mudar o que não se quer
Há sempre uma maneira
De recomeçar
1 346
Álvares de Azevedo
Tenho um seio que delira
I
Tenho um seio que delira
Como as tuas harmonias!
Que treme quando suspira,
Que geme como gemias!
II
Tenho músicas ardentes,
Ais do meu amor insano,
Que palpitam mais dormentes
Do que os sons do teu piano!
III
Tenho cordas argentinas
Que a noite faz acordar,
Como as nuvens peregrinas
Das gaivotas do alto mar!
IV
Como a teus dedos lindinhos
O teu piano gemeu,
Vibra-me o seio aos dedinhos
Dos anjos loiros do céu!
V
Vibra à noite do mistério,
Se o banha o frouxo luar,
Se passa teu rosto aéreo
No vaporoso sonhar!
VI
Como tremem teus dedinhos
O saudoso piano teu,
Vibram-me n'alma os anjinhos,
Os anjos loiros do céu!
Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853). Poema integrante da série Primeira Parte.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
Tenho um seio que delira
Como as tuas harmonias!
Que treme quando suspira,
Que geme como gemias!
II
Tenho músicas ardentes,
Ais do meu amor insano,
Que palpitam mais dormentes
Do que os sons do teu piano!
III
Tenho cordas argentinas
Que a noite faz acordar,
Como as nuvens peregrinas
Das gaivotas do alto mar!
IV
Como a teus dedos lindinhos
O teu piano gemeu,
Vibra-me o seio aos dedinhos
Dos anjos loiros do céu!
V
Vibra à noite do mistério,
Se o banha o frouxo luar,
Se passa teu rosto aéreo
No vaporoso sonhar!
VI
Como tremem teus dedinhos
O saudoso piano teu,
Vibram-me n'alma os anjinhos,
Os anjos loiros do céu!
Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853). Poema integrante da série Primeira Parte.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
3 033
Mafalda Veiga
O Nome do Sal
Traz-me de novo a memória de outros dias
Ter raiz nas romarias
Nas danças, nas cantorias
Na forma de se espraiar de um sonho errante
Em terra vasta e distante
Procurando o sal
Sinto voltar a saudade na cumprida
De palavras e vontades
De gestos e ansiedades
Das coisas que ainda não há mas que já estão
Na forma da nossa mão
Procurando o sal
Ah que os mares abertos fossem ventos
Fossem caravelas
Novos sonhos conquistando
Ah que o céu descubra rumos nossos
Nossas estrelas
Navegando
Molha-se a alma no suor da descoberta
Na pulsação da terra
De sonho e de pão repleta
A raiz outra vez a rebentar
Nova terra, novo mar
Procurando o sal
Seja de novo o impulso de viver
Para além de ir aguentando
E às cegas ir caminhando
Porque o dia tem cor do que é preciso
E pulsa no chão que eu piso
O sangue de Portugal
Ah que os mares abertos fossem ventos
Fossem caravelas
Novos sonhos conquistando
Ah que o céu descubra rumos nossos
Nossas estrelas
Navegando
Ter raiz nas romarias
Nas danças, nas cantorias
Na forma de se espraiar de um sonho errante
Em terra vasta e distante
Procurando o sal
Sinto voltar a saudade na cumprida
De palavras e vontades
De gestos e ansiedades
Das coisas que ainda não há mas que já estão
Na forma da nossa mão
Procurando o sal
Ah que os mares abertos fossem ventos
Fossem caravelas
Novos sonhos conquistando
Ah que o céu descubra rumos nossos
Nossas estrelas
Navegando
Molha-se a alma no suor da descoberta
Na pulsação da terra
De sonho e de pão repleta
A raiz outra vez a rebentar
Nova terra, novo mar
Procurando o sal
Seja de novo o impulso de viver
Para além de ir aguentando
E às cegas ir caminhando
Porque o dia tem cor do que é preciso
E pulsa no chão que eu piso
O sangue de Portugal
Ah que os mares abertos fossem ventos
Fossem caravelas
Novos sonhos conquistando
Ah que o céu descubra rumos nossos
Nossas estrelas
Navegando
1 045
Raul de Leoni
De um Fantasma
Na minha vida fluida de fantasma
Sou tão leve que quase nem me sinto.
Nem há nada mais leve nem tão leve.
Sou mais leve do que a euforia de um anjo,
Mais leve do que a sombra de uma sombra
Refletida no espelho da Ilusão.
Nenhuma brutal lei do Universo sensível
Atua e pesa e nem de longe influi
Sobre o meu ser vago, difuso, esquivo
E no éter sereníssimo flutuo
Com a doce sutileza imponderável
De uma essência ideal que se volatiza...
Passo através das cousas mais sensíveis
E as cousas que atravesso nem se sentem,
Porque na minha plástica sutil
Tenho a delicadeza transcendente
Da luz, que flui través os corpos transparentes.
Sou quase imaterial como uma idéia...
E da matéria cósmica que tem
Tantos e variadíssimos estados
Eu sou o estado-alma, quer dizer
O último estado rarefeito, o estado ideal:
Alma, o estado divino da matéria!...
Publicado no livro Luz Mediterrânea (1928). Poema integrante da série Poemas Inacabados.
In: LEONI, Raul de. Luz mediterrânea. Pref. Rodrigo Mello Franco de Andrade. 10.ed. São Paulo: Liv. Martins, 1959
Sou tão leve que quase nem me sinto.
Nem há nada mais leve nem tão leve.
Sou mais leve do que a euforia de um anjo,
Mais leve do que a sombra de uma sombra
Refletida no espelho da Ilusão.
Nenhuma brutal lei do Universo sensível
Atua e pesa e nem de longe influi
Sobre o meu ser vago, difuso, esquivo
E no éter sereníssimo flutuo
Com a doce sutileza imponderável
De uma essência ideal que se volatiza...
Passo através das cousas mais sensíveis
E as cousas que atravesso nem se sentem,
Porque na minha plástica sutil
Tenho a delicadeza transcendente
Da luz, que flui través os corpos transparentes.
Sou quase imaterial como uma idéia...
E da matéria cósmica que tem
Tantos e variadíssimos estados
Eu sou o estado-alma, quer dizer
O último estado rarefeito, o estado ideal:
Alma, o estado divino da matéria!...
Publicado no livro Luz Mediterrânea (1928). Poema integrante da série Poemas Inacabados.
In: LEONI, Raul de. Luz mediterrânea. Pref. Rodrigo Mello Franco de Andrade. 10.ed. São Paulo: Liv. Martins, 1959
1 872
Raul de Leoni
De um Fantasma
Na minha vida fluida de fantasma
Sou tão leve que quase nem me sinto.
Nem há nada mais leve nem tão leve.
Sou mais leve do que a euforia de um anjo,
Mais leve do que a sombra de uma sombra
Refletida no espelho da Ilusão.
Nenhuma brutal lei do Universo sensível
Atua e pesa e nem de longe influi
Sobre o meu ser vago, difuso, esquivo
E no éter sereníssimo flutuo
Com a doce sutileza imponderável
De uma essência ideal que se volatiza...
Passo através das cousas mais sensíveis
E as cousas que atravesso nem se sentem,
Porque na minha plástica sutil
Tenho a delicadeza transcendente
Da luz, que flui través os corpos transparentes.
Sou quase imaterial como uma idéia...
E da matéria cósmica que tem
Tantos e variadíssimos estados
Eu sou o estado-alma, quer dizer
O último estado rarefeito, o estado ideal:
Alma, o estado divino da matéria!...
Publicado no livro Luz Mediterrânea (1928). Poema integrante da série Poemas Inacabados.
In: LEONI, Raul de. Luz mediterrânea. Pref. Rodrigo Mello Franco de Andrade. 10.ed. São Paulo: Liv. Martins, 1959
Sou tão leve que quase nem me sinto.
Nem há nada mais leve nem tão leve.
Sou mais leve do que a euforia de um anjo,
Mais leve do que a sombra de uma sombra
Refletida no espelho da Ilusão.
Nenhuma brutal lei do Universo sensível
Atua e pesa e nem de longe influi
Sobre o meu ser vago, difuso, esquivo
E no éter sereníssimo flutuo
Com a doce sutileza imponderável
De uma essência ideal que se volatiza...
Passo através das cousas mais sensíveis
E as cousas que atravesso nem se sentem,
Porque na minha plástica sutil
Tenho a delicadeza transcendente
Da luz, que flui través os corpos transparentes.
Sou quase imaterial como uma idéia...
E da matéria cósmica que tem
Tantos e variadíssimos estados
Eu sou o estado-alma, quer dizer
O último estado rarefeito, o estado ideal:
Alma, o estado divino da matéria!...
Publicado no livro Luz Mediterrânea (1928). Poema integrante da série Poemas Inacabados.
In: LEONI, Raul de. Luz mediterrânea. Pref. Rodrigo Mello Franco de Andrade. 10.ed. São Paulo: Liv. Martins, 1959
1 872
Raul de Leoni
De um Fantasma
Na minha vida fluida de fantasma
Sou tão leve que quase nem me sinto.
Nem há nada mais leve nem tão leve.
Sou mais leve do que a euforia de um anjo,
Mais leve do que a sombra de uma sombra
Refletida no espelho da Ilusão.
Nenhuma brutal lei do Universo sensível
Atua e pesa e nem de longe influi
Sobre o meu ser vago, difuso, esquivo
E no éter sereníssimo flutuo
Com a doce sutileza imponderável
De uma essência ideal que se volatiza...
Passo através das cousas mais sensíveis
E as cousas que atravesso nem se sentem,
Porque na minha plástica sutil
Tenho a delicadeza transcendente
Da luz, que flui través os corpos transparentes.
Sou quase imaterial como uma idéia...
E da matéria cósmica que tem
Tantos e variadíssimos estados
Eu sou o estado-alma, quer dizer
O último estado rarefeito, o estado ideal:
Alma, o estado divino da matéria!...
Publicado no livro Luz Mediterrânea (1928). Poema integrante da série Poemas Inacabados.
In: LEONI, Raul de. Luz mediterrânea. Pref. Rodrigo Mello Franco de Andrade. 10.ed. São Paulo: Liv. Martins, 1959
Sou tão leve que quase nem me sinto.
Nem há nada mais leve nem tão leve.
Sou mais leve do que a euforia de um anjo,
Mais leve do que a sombra de uma sombra
Refletida no espelho da Ilusão.
Nenhuma brutal lei do Universo sensível
Atua e pesa e nem de longe influi
Sobre o meu ser vago, difuso, esquivo
E no éter sereníssimo flutuo
Com a doce sutileza imponderável
De uma essência ideal que se volatiza...
Passo através das cousas mais sensíveis
E as cousas que atravesso nem se sentem,
Porque na minha plástica sutil
Tenho a delicadeza transcendente
Da luz, que flui través os corpos transparentes.
Sou quase imaterial como uma idéia...
E da matéria cósmica que tem
Tantos e variadíssimos estados
Eu sou o estado-alma, quer dizer
O último estado rarefeito, o estado ideal:
Alma, o estado divino da matéria!...
Publicado no livro Luz Mediterrânea (1928). Poema integrante da série Poemas Inacabados.
In: LEONI, Raul de. Luz mediterrânea. Pref. Rodrigo Mello Franco de Andrade. 10.ed. São Paulo: Liv. Martins, 1959
1 872
Mafalda Veiga
Escuro e Luar
Feitos de chão, de chuva e sonho
Fora do tempo
Despedaçado o que fica de nós
Nas batalhas sentidas cá dentro
Por isso é que eu sigo esse brilho de noite
Que é estrela ou chama
Olhar ou mar
E vou procurar essa luz
Mas só quero lá chegar contigo
Feitos de tempo em mil pedaços
De escuro e luar
Há uma noite que é escolhida pra ser
Essa noite que se há-de guardar
Por isso é que eu sigo esse brilho ou calor
Que é estrela ou chama
Ou tu em mim
E vou pra poder descobrir
Quem é que ainda sou contigo
Dispo o cansaço e recomeço
Mais uma vez
Há um sorriso que nos salva do frio
E recolhe o que a vida desfez
Se me desarmo noutro feitiço
Num outro olhar
Há um abrigo que não deixa morrer
Quem nós somos e o que temos pra dar
Por isso é que eu sigo esse brilho da noite
Que és tu em mim
Ou quem fui
E vou pra poder descobrir
Quem é que ainda sou contigo
Fora do tempo
Despedaçado o que fica de nós
Nas batalhas sentidas cá dentro
Por isso é que eu sigo esse brilho de noite
Que é estrela ou chama
Olhar ou mar
E vou procurar essa luz
Mas só quero lá chegar contigo
Feitos de tempo em mil pedaços
De escuro e luar
Há uma noite que é escolhida pra ser
Essa noite que se há-de guardar
Por isso é que eu sigo esse brilho ou calor
Que é estrela ou chama
Ou tu em mim
E vou pra poder descobrir
Quem é que ainda sou contigo
Dispo o cansaço e recomeço
Mais uma vez
Há um sorriso que nos salva do frio
E recolhe o que a vida desfez
Se me desarmo noutro feitiço
Num outro olhar
Há um abrigo que não deixa morrer
Quem nós somos e o que temos pra dar
Por isso é que eu sigo esse brilho da noite
Que és tu em mim
Ou quem fui
E vou pra poder descobrir
Quem é que ainda sou contigo
1 171
Mafalda Veiga
Por Te Rever
Quisera roubar-te essas palavras e morrer
Trazer-te assim até ao fim do que eu puder
E começar um dia mais eternamente
Por te rever, só
Pudesse eu guardar-te nos sentidos e na voz
E descobrir o que será de nós
E demorar um dia mais eternamente
Por te rever, só
Quisera a ternura, calmaria azul do mar
O riso o amor o gosto a sal o sol do olhar
E um lugar pra me espraiar eternamente
Por te rever, só
Pudesse eu ser tempo a respirar no teu abraço
Adormecer e abandonar-me de cansaço
Quisera assim perder-me em mim eternamente
Por te rever, só
Trazer-te assim até ao fim do que eu puder
E começar um dia mais eternamente
Por te rever, só
Pudesse eu guardar-te nos sentidos e na voz
E descobrir o que será de nós
E demorar um dia mais eternamente
Por te rever, só
Quisera a ternura, calmaria azul do mar
O riso o amor o gosto a sal o sol do olhar
E um lugar pra me espraiar eternamente
Por te rever, só
Pudesse eu ser tempo a respirar no teu abraço
Adormecer e abandonar-me de cansaço
Quisera assim perder-me em mim eternamente
Por te rever, só
1 274
Felipe d’Oliveira
Cenário de Louça e de Cristal
A onda e a algazarra espocam girândolas sonoras.
As serpentinas dos risos sem compasso
se arremessam de lado a lado,
estendem no azul redes aéreas de rumores eufóricos.
A onda bate a cadência no seu gongo líquido,
— fermata sem fim, pasta melódica em que
se fundem e se amaciam
todas as notas do alarido.
A manhã ressoa,
o mar redondo é todo um copo de cristal
vibrado pelo atrito de dedos luminosos.
A manhã põe brunidos de faiança
no mosaico desmanchado sobre a areia.
As tintas se interpenetram, móveis,
— puzzle vivo que a vaga empurra e espalha —
e as cores correm, chocam-se, repelem-se,
como uma grande bola de mercúrio
desagregada em gotas coloridas.
O arlequim da manhã, caindo do alto,
desarticulou os pedaços da roupa policrômica
e foi esmaltar os "tóraces" e os ventres
com o arco-íris decomposto dos losangos.
Os corpos úmidos deslocam-se,
brilham no fundo de porcelana que o azul
espesso enxuga.
Elásticos, libertos,
os corpos úmidos desenham ritmos instintivos
e mergulhados no sol,
que os alivia de um peso igual a seu
volume em luz compacta,
ainda guardam a leveza dos movimentos na água.
A manhã progride em tons,
transborda de roxos, verdes, escarlates.
Abrem-se umbelíferas gigantéias de novos guarda-sóis.
Outros ombros irrompem de novas capas
pintalgadas, — vitrais de pano,
corrediços, baixados sobre a areia.
E o homem dos balões de borracha cai da altura
pendurado a um pára-quedas de esferas multicores
que, agitadas às pontas dos barbantes,
sacolejam no ar a flor desmanchada de
um fogo de artifício em pleno dia.
Os corpos úmidos desenrolam
a ronda dos troncos harmoniosos,
dos seios em ponta,
das espáduas queimadas,
das coxas lisas,
buscam-se, penetram-se à distância,
atropelam-se nas fugas ágeis,
sem perceber o rapaz corcunda de maiô preto,
amargo e imóvel,
recurvo, arqueado em G maiúsculo,
que pensa, triste, a olhar de longe o atleta
de camisa verde:
— Se o mundo fosse de corcundas
eu de certo teria nascido como ele...
E a manhã continua,
sacudindo cores
como uma arara que se espluma.
Publicado no livro Lanterna Verde (1926). Poema integrante da série Cenários.
In: D'OLIVEIRA, Felippe. Obra completa. Atual. e org. Lígia Militz da Costa, Maria Eunice Moreira e Pedro Brum Santos. Porto Alegre: IEL; Santa Maria: UFSM, 1990. p.69-70
As serpentinas dos risos sem compasso
se arremessam de lado a lado,
estendem no azul redes aéreas de rumores eufóricos.
A onda bate a cadência no seu gongo líquido,
— fermata sem fim, pasta melódica em que
se fundem e se amaciam
todas as notas do alarido.
A manhã ressoa,
o mar redondo é todo um copo de cristal
vibrado pelo atrito de dedos luminosos.
A manhã põe brunidos de faiança
no mosaico desmanchado sobre a areia.
As tintas se interpenetram, móveis,
— puzzle vivo que a vaga empurra e espalha —
e as cores correm, chocam-se, repelem-se,
como uma grande bola de mercúrio
desagregada em gotas coloridas.
O arlequim da manhã, caindo do alto,
desarticulou os pedaços da roupa policrômica
e foi esmaltar os "tóraces" e os ventres
com o arco-íris decomposto dos losangos.
Os corpos úmidos deslocam-se,
brilham no fundo de porcelana que o azul
espesso enxuga.
Elásticos, libertos,
os corpos úmidos desenham ritmos instintivos
e mergulhados no sol,
que os alivia de um peso igual a seu
volume em luz compacta,
ainda guardam a leveza dos movimentos na água.
A manhã progride em tons,
transborda de roxos, verdes, escarlates.
Abrem-se umbelíferas gigantéias de novos guarda-sóis.
Outros ombros irrompem de novas capas
pintalgadas, — vitrais de pano,
corrediços, baixados sobre a areia.
E o homem dos balões de borracha cai da altura
pendurado a um pára-quedas de esferas multicores
que, agitadas às pontas dos barbantes,
sacolejam no ar a flor desmanchada de
um fogo de artifício em pleno dia.
Os corpos úmidos desenrolam
a ronda dos troncos harmoniosos,
dos seios em ponta,
das espáduas queimadas,
das coxas lisas,
buscam-se, penetram-se à distância,
atropelam-se nas fugas ágeis,
sem perceber o rapaz corcunda de maiô preto,
amargo e imóvel,
recurvo, arqueado em G maiúsculo,
que pensa, triste, a olhar de longe o atleta
de camisa verde:
— Se o mundo fosse de corcundas
eu de certo teria nascido como ele...
E a manhã continua,
sacudindo cores
como uma arara que se espluma.
Publicado no livro Lanterna Verde (1926). Poema integrante da série Cenários.
In: D'OLIVEIRA, Felippe. Obra completa. Atual. e org. Lígia Militz da Costa, Maria Eunice Moreira e Pedro Brum Santos. Porto Alegre: IEL; Santa Maria: UFSM, 1990. p.69-70
1 357
Mafalda Veiga
Vestígios de ti
Os meus discos no chão
Os copos vazios
Vestígios da noite
As palavras perdidas
O calor e o frio
O meu corpo no chão
Um livro que eu li
O silêncio e a pele
As palavras sentidas
Os vestígios de ti
E o mundo e a rua
Despidos no vento
À espera de sentir o mar
Numa vaga de espuma
Em sentidos guardados
No fundo do olhar
As revistas no chão
Os copos vazios
Vestígios do tempo
As palavras trocadas
O calor e o frio
Cada gesto que abraça
E um filme que eu vi
O que fica marcado
E já nunca se afasta
Os vestígios de ti
E o mundo e a rua
Despidos no vento
À espera de sentir o mar
Numa vaga de espuma
Em sentidos guardados
No fundo do olhar
Os copos vazios
Vestígios da noite
As palavras perdidas
O calor e o frio
O meu corpo no chão
Um livro que eu li
O silêncio e a pele
As palavras sentidas
Os vestígios de ti
E o mundo e a rua
Despidos no vento
À espera de sentir o mar
Numa vaga de espuma
Em sentidos guardados
No fundo do olhar
As revistas no chão
Os copos vazios
Vestígios do tempo
As palavras trocadas
O calor e o frio
Cada gesto que abraça
E um filme que eu vi
O que fica marcado
E já nunca se afasta
Os vestígios de ti
E o mundo e a rua
Despidos no vento
À espera de sentir o mar
Numa vaga de espuma
Em sentidos guardados
No fundo do olhar
1 276
Alberto de Oliveira
Terceiro Canto
I
Embala-me, balanço da mangueira,
Embala-me, que enquanto vou contigo,
Contigo venho, o meu pesar esqueço.
Rompe a luz da manhã rosada e linda,
Tudo desperta. E essa por quem padeço,
Lânguida e preguiçosa,
Entre brancos lençóis repousa ainda.
Embala-me, pendente da mangueira,
Na tensa corda, meu balanço amigo!
Em claro a noite inteira
Passei, pensando nela. Ah! que formosa
Estava ontem à tarde no mirante,
Um livro ao colo, às tranças uma rosa,
E o olhar perdido na amplidão distante!
Pensava... Em quem pensava?
Se fosse em mim... Como formosa estava!
Oh! não pausado e manso,
Mas aos arrancos, estirado voa,
Leva-me, meu balanço!
II
Assim cismando, à toa,
Olhos voltados já para a querida
Visão de Laura, já para o céu claro,
Para o campo e arredores,
A manhã passo. Sobre a serra erguida
Em frente nasce e, coroando-a, brilha
O sol. Loureja o ipê com as áureas flores.
Late nos grotões fundos, indo ao faro
Da caça, ao buzinar dos caçadores,
Da fazenda a matilha.
E no ar que sopra dos capões escuros,
Sente-se, de mistura a essências finas
E ao cheiro das resinas,
Um sabor acre de cajás maduros.
III
Cajás! Não é que lembra à Laura um dia
(Que dia claro! esplende o mato e cheira!)
Chamar-me para em sua companhia
Saboreá-los sob a cajazeira!
— Vamos sós? perguntei-lhe. E a feiticeira:
— Então! tens medo de ir comigo? — E ria.
Compõe as tranças, salta-me ligeira
Ao braço, o braço no meu braço enfia.
— Uma carreira! — Uma carreira! — Aposto!
A um sinal breve dado de partida,
Corremos. Zune o vento em nosso rosto.
Mas eu me deixo atrás ficar, correndo,
Pois mais vale que a aposta da corrida
Ver-lhe as saias a voar, como vou vendo.
Imagem - 00020004
Publicado no livro Poesias: segunda série. Poema integrante da série Alma em Flor, 1900.
In: OLIVEIRA, Alberto de. Poesias completas. Ed. crít. Marco Aurélio Mello Reis. Rio de Janeiro: Núcleo Ed. da UERJ, 1978. v.2. (Fluminense)
NOTA: Alma em Flor é composto de 3 cantos. O terceiro tem 17 parte
Embala-me, balanço da mangueira,
Embala-me, que enquanto vou contigo,
Contigo venho, o meu pesar esqueço.
Rompe a luz da manhã rosada e linda,
Tudo desperta. E essa por quem padeço,
Lânguida e preguiçosa,
Entre brancos lençóis repousa ainda.
Embala-me, pendente da mangueira,
Na tensa corda, meu balanço amigo!
Em claro a noite inteira
Passei, pensando nela. Ah! que formosa
Estava ontem à tarde no mirante,
Um livro ao colo, às tranças uma rosa,
E o olhar perdido na amplidão distante!
Pensava... Em quem pensava?
Se fosse em mim... Como formosa estava!
Oh! não pausado e manso,
Mas aos arrancos, estirado voa,
Leva-me, meu balanço!
II
Assim cismando, à toa,
Olhos voltados já para a querida
Visão de Laura, já para o céu claro,
Para o campo e arredores,
A manhã passo. Sobre a serra erguida
Em frente nasce e, coroando-a, brilha
O sol. Loureja o ipê com as áureas flores.
Late nos grotões fundos, indo ao faro
Da caça, ao buzinar dos caçadores,
Da fazenda a matilha.
E no ar que sopra dos capões escuros,
Sente-se, de mistura a essências finas
E ao cheiro das resinas,
Um sabor acre de cajás maduros.
III
Cajás! Não é que lembra à Laura um dia
(Que dia claro! esplende o mato e cheira!)
Chamar-me para em sua companhia
Saboreá-los sob a cajazeira!
— Vamos sós? perguntei-lhe. E a feiticeira:
— Então! tens medo de ir comigo? — E ria.
Compõe as tranças, salta-me ligeira
Ao braço, o braço no meu braço enfia.
— Uma carreira! — Uma carreira! — Aposto!
A um sinal breve dado de partida,
Corremos. Zune o vento em nosso rosto.
Mas eu me deixo atrás ficar, correndo,
Pois mais vale que a aposta da corrida
Ver-lhe as saias a voar, como vou vendo.
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Publicado no livro Poesias: segunda série. Poema integrante da série Alma em Flor, 1900.
In: OLIVEIRA, Alberto de. Poesias completas. Ed. crít. Marco Aurélio Mello Reis. Rio de Janeiro: Núcleo Ed. da UERJ, 1978. v.2. (Fluminense)
NOTA: Alma em Flor é composto de 3 cantos. O terceiro tem 17 parte
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Mafalda Veiga
Grito
Meu Deus, se nos velas
diz-nos o que é que nos separa
e porque é que o sol demora
atrás da colina escura
anda dar luz ao caminho
que a gente assim desespera
É como sonhar sozinho
como se o mar fosse raso
e o céu não tivesse altura
Sempre no silêncio
dá gozo a voz deste chão
mas inda me dói a alma
na dor do corpo e das mãos
tenho medo deste frio
que à noite sinto no peito
como se andasem cavando
como se andassem fechando
buracos de solidão
Agente não sabe
o que há depois do horizonte
a gente é um vulto curvado
com uma sombra defronte
a ouvir rumores na distância
a sentir dentro um segredo
feito de sonhos calados
feito de braços fechados
num poço fundo de medo
Anda dar luz ao caminho
que já nos dói a demora
É como sonhar sozinho
um sonho que nunca vinga
num grito que nunca chora
diz-nos o que é que nos separa
e porque é que o sol demora
atrás da colina escura
anda dar luz ao caminho
que a gente assim desespera
É como sonhar sozinho
como se o mar fosse raso
e o céu não tivesse altura
Sempre no silêncio
dá gozo a voz deste chão
mas inda me dói a alma
na dor do corpo e das mãos
tenho medo deste frio
que à noite sinto no peito
como se andasem cavando
como se andassem fechando
buracos de solidão
Agente não sabe
o que há depois do horizonte
a gente é um vulto curvado
com uma sombra defronte
a ouvir rumores na distância
a sentir dentro um segredo
feito de sonhos calados
feito de braços fechados
num poço fundo de medo
Anda dar luz ao caminho
que já nos dói a demora
É como sonhar sozinho
um sonho que nunca vinga
num grito que nunca chora
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