Poemas neste tema
Vida e Existência
Lúcia Helena de Andrade
Retrato de um Homem
Eu quero um homem
Que no olhar expresse seus desejos,
Imersos em uma profusão doce de ternura,
Que passe a mão pelos meus cabelos,
Acalentando minhas amarguras,
Que me beije suavemente,
Que busque a minha lingua
Confundindo-a com a sua,
Que segure a mão
Sentindo paixão,
Que goste de abraçar
E ofereça um ombro para aconchegar,
Que seja sensível
E não tenha medo de mostrar-se frágil,
Que seja um homem,
Mas não deixe de ser menino,
Que viage pelo meu corpo e
Norteie minha viagem pelo seu,
Que saiba sorrir,
Que fique à vontade para chorar ao meu lado.
Eu quero um homem,
Que antes seja meu amigo,
De coração aberto, LEVE E FLORIDO...
Que no olhar expresse seus desejos,
Imersos em uma profusão doce de ternura,
Que passe a mão pelos meus cabelos,
Acalentando minhas amarguras,
Que me beije suavemente,
Que busque a minha lingua
Confundindo-a com a sua,
Que segure a mão
Sentindo paixão,
Que goste de abraçar
E ofereça um ombro para aconchegar,
Que seja sensível
E não tenha medo de mostrar-se frágil,
Que seja um homem,
Mas não deixe de ser menino,
Que viage pelo meu corpo e
Norteie minha viagem pelo seu,
Que saiba sorrir,
Que fique à vontade para chorar ao meu lado.
Eu quero um homem,
Que antes seja meu amigo,
De coração aberto, LEVE E FLORIDO...
778
Lucídio Freitas
Perscrutadoramente
Perscrutadoramente os olhos ponho
No que fui, no que sou, no que hei de ser,
E alucinado dentro do meu sonho
Sinto a inutilidade do nascer.
Minha origem componho e recomponho,
Venho do berço ao túmulo... viver
Um instante só, e após, ermo e tristonho,
Sob o ventre da terra apodrecer.
Homem — parcela humilde, humilde e obscura,
Que anda perdida e desapercebida
Buscando os vermes de uma sepultura —
O que foste? o que és? para onde vais?
Esta angústia maldita da tua vida
Foi a maldita angústia dos teus Pais!
No que fui, no que sou, no que hei de ser,
E alucinado dentro do meu sonho
Sinto a inutilidade do nascer.
Minha origem componho e recomponho,
Venho do berço ao túmulo... viver
Um instante só, e após, ermo e tristonho,
Sob o ventre da terra apodrecer.
Homem — parcela humilde, humilde e obscura,
Que anda perdida e desapercebida
Buscando os vermes de uma sepultura —
O que foste? o que és? para onde vais?
Esta angústia maldita da tua vida
Foi a maldita angústia dos teus Pais!
1 490
Lucídio Freitas
Perscrutadoramente
Perscrutadoramente os olhos ponho
No que fui, no que sou, no que hei de ser,
E alucinado dentro do meu sonho
Sinto a inutilidade do nascer.
Minha origem componho e recomponho,
Venho do berço ao túmulo... viver
Um instante só, e após, ermo e tristonho,
Sob o ventre da terra apodrecer.
Homem — parcela humilde, humilde e obscura,
Que anda perdida e desapercebida
Buscando os vermes de uma sepultura —
O que foste? o que és? para onde vais?
Esta angústia maldita da tua vida
Foi a maldita angústia dos teus Pais!
No que fui, no que sou, no que hei de ser,
E alucinado dentro do meu sonho
Sinto a inutilidade do nascer.
Minha origem componho e recomponho,
Venho do berço ao túmulo... viver
Um instante só, e após, ermo e tristonho,
Sob o ventre da terra apodrecer.
Homem — parcela humilde, humilde e obscura,
Que anda perdida e desapercebida
Buscando os vermes de uma sepultura —
O que foste? o que és? para onde vais?
Esta angústia maldita da tua vida
Foi a maldita angústia dos teus Pais!
1 490
Lucídio Freitas
Perscrutadoramente
Perscrutadoramente os olhos ponho
No que fui, no que sou, no que hei de ser,
E alucinado dentro do meu sonho
Sinto a inutilidade do nascer.
Minha origem componho e recomponho,
Venho do berço ao túmulo... viver
Um instante só, e após, ermo e tristonho,
Sob o ventre da terra apodrecer.
Homem — parcela humilde, humilde e obscura,
Que anda perdida e desapercebida
Buscando os vermes de uma sepultura —
O que foste? o que és? para onde vais?
Esta angústia maldita da tua vida
Foi a maldita angústia dos teus Pais!
No que fui, no que sou, no que hei de ser,
E alucinado dentro do meu sonho
Sinto a inutilidade do nascer.
Minha origem componho e recomponho,
Venho do berço ao túmulo... viver
Um instante só, e após, ermo e tristonho,
Sob o ventre da terra apodrecer.
Homem — parcela humilde, humilde e obscura,
Que anda perdida e desapercebida
Buscando os vermes de uma sepultura —
O que foste? o que és? para onde vais?
Esta angústia maldita da tua vida
Foi a maldita angústia dos teus Pais!
1 490
Lúcio José Gusman
Ausência
Não estares
é como abrir uma ferida imensa
de onde salta
um mar vermelho de solidão.
É dissecar em mim
um tempo que não existe,
um tempo em que não sou,
no qual tu és, absoluta,
pela falta em que me queimas.
Não estares
é afogar-me em águas turvas
ardendo na sede,
insaciável,
que me consome.
Não estares
é como se não quisesses estar
mesmo querendo,
enquanto eu sorvo, ininterruptamente,
a agridoce essência
do teu ser onipresenteausente
é como abrir uma ferida imensa
de onde salta
um mar vermelho de solidão.
É dissecar em mim
um tempo que não existe,
um tempo em que não sou,
no qual tu és, absoluta,
pela falta em que me queimas.
Não estares
é afogar-me em águas turvas
ardendo na sede,
insaciável,
que me consome.
Não estares
é como se não quisesses estar
mesmo querendo,
enquanto eu sorvo, ininterruptamente,
a agridoce essência
do teu ser onipresenteausente
855
Lélia Coelho Frota
Hipótese de Maio
Sobre a mesa o relógio
anuncia meu tempo
que se desfaz em crivo
de aflito pensamento.
De que jardins me evado
de que amores provenho
de que enredo impreciso
se armara o que estou sendo
entre meus dicionários
fragmentos de retratos
os rútilos canários
enfunadas cortinas.
Os amigos inquietos
o silêncio a aumentar
concêntrico, severo
em torno das conversas
além da ausência,
além dos constantes afetos.
Resíduos de passeios
em paisagens alheias
empinham-se em gavetas —
cartas de amor nos seus
macios envelopes
risadas e conchinhas
a voz que fala sempre
no fundo da sonata
diletantes poemas
todos concordemente
citando o Coração
ladeado de flores
zéfiros sorridentes
(e os sabia chorosos).
As gavetas estufam
o que nelas se havia
adquire vida própria
um sitiado encanto
e explusa da memória
de que participava
com escassa competência
eu, que leve o lembrava.
O conteúdo humano
desse ditoso espólio
palpita, e entretanto
— semicerrados olhos
agitar de cambraia —
invencível o sono
se engolfa na dolência.
Sono maior que o escuro
a corromper a luz
diuturna nostalgia
de um sonho, não sei mais
ao certo o que seria.
Coágulo sombrio
adensando-se em zona
fechada, onde me perco
neste mês-de-maria
pensando o que seria
de mim, no dissolvido
rumor que me povoa
sem conduzir à fala
da sempre poesia
sem revelar o muito
de amar que pretendia
antes de antes, não sei
ao certo o que seria.
Mas bem que perfazia
um circuito profundo
onde a primeira imagem
(início e ata finda)
que ainda se reflete
é a da jovem correndo
pela campina, soltos
cabelos, e as glicínias
a descer pelos ombros
prendendo-se na boca
primavera garrida
pelo azul florentino.
Na mão direita tinha
uma roseira viva
juritis entoavam
campestres ladainhas
e pela transparência
de sua carnação
via-se-lhe o coração
com um só nome gravado
a rubro, fulcro infenso.
Corria na campina
fantástica, e ainda
posso lembrar que em fuga
amava sempre, e ria.
anuncia meu tempo
que se desfaz em crivo
de aflito pensamento.
De que jardins me evado
de que amores provenho
de que enredo impreciso
se armara o que estou sendo
entre meus dicionários
fragmentos de retratos
os rútilos canários
enfunadas cortinas.
Os amigos inquietos
o silêncio a aumentar
concêntrico, severo
em torno das conversas
além da ausência,
além dos constantes afetos.
Resíduos de passeios
em paisagens alheias
empinham-se em gavetas —
cartas de amor nos seus
macios envelopes
risadas e conchinhas
a voz que fala sempre
no fundo da sonata
diletantes poemas
todos concordemente
citando o Coração
ladeado de flores
zéfiros sorridentes
(e os sabia chorosos).
As gavetas estufam
o que nelas se havia
adquire vida própria
um sitiado encanto
e explusa da memória
de que participava
com escassa competência
eu, que leve o lembrava.
O conteúdo humano
desse ditoso espólio
palpita, e entretanto
— semicerrados olhos
agitar de cambraia —
invencível o sono
se engolfa na dolência.
Sono maior que o escuro
a corromper a luz
diuturna nostalgia
de um sonho, não sei mais
ao certo o que seria.
Coágulo sombrio
adensando-se em zona
fechada, onde me perco
neste mês-de-maria
pensando o que seria
de mim, no dissolvido
rumor que me povoa
sem conduzir à fala
da sempre poesia
sem revelar o muito
de amar que pretendia
antes de antes, não sei
ao certo o que seria.
Mas bem que perfazia
um circuito profundo
onde a primeira imagem
(início e ata finda)
que ainda se reflete
é a da jovem correndo
pela campina, soltos
cabelos, e as glicínias
a descer pelos ombros
prendendo-se na boca
primavera garrida
pelo azul florentino.
Na mão direita tinha
uma roseira viva
juritis entoavam
campestres ladainhas
e pela transparência
de sua carnação
via-se-lhe o coração
com um só nome gravado
a rubro, fulcro infenso.
Corria na campina
fantástica, e ainda
posso lembrar que em fuga
amava sempre, e ria.
1 052
Lélia Coelho Frota
Hipótese de Maio
Sobre a mesa o relógio
anuncia meu tempo
que se desfaz em crivo
de aflito pensamento.
De que jardins me evado
de que amores provenho
de que enredo impreciso
se armara o que estou sendo
entre meus dicionários
fragmentos de retratos
os rútilos canários
enfunadas cortinas.
Os amigos inquietos
o silêncio a aumentar
concêntrico, severo
em torno das conversas
além da ausência,
além dos constantes afetos.
Resíduos de passeios
em paisagens alheias
empinham-se em gavetas —
cartas de amor nos seus
macios envelopes
risadas e conchinhas
a voz que fala sempre
no fundo da sonata
diletantes poemas
todos concordemente
citando o Coração
ladeado de flores
zéfiros sorridentes
(e os sabia chorosos).
As gavetas estufam
o que nelas se havia
adquire vida própria
um sitiado encanto
e explusa da memória
de que participava
com escassa competência
eu, que leve o lembrava.
O conteúdo humano
desse ditoso espólio
palpita, e entretanto
— semicerrados olhos
agitar de cambraia —
invencível o sono
se engolfa na dolência.
Sono maior que o escuro
a corromper a luz
diuturna nostalgia
de um sonho, não sei mais
ao certo o que seria.
Coágulo sombrio
adensando-se em zona
fechada, onde me perco
neste mês-de-maria
pensando o que seria
de mim, no dissolvido
rumor que me povoa
sem conduzir à fala
da sempre poesia
sem revelar o muito
de amar que pretendia
antes de antes, não sei
ao certo o que seria.
Mas bem que perfazia
um circuito profundo
onde a primeira imagem
(início e ata finda)
que ainda se reflete
é a da jovem correndo
pela campina, soltos
cabelos, e as glicínias
a descer pelos ombros
prendendo-se na boca
primavera garrida
pelo azul florentino.
Na mão direita tinha
uma roseira viva
juritis entoavam
campestres ladainhas
e pela transparência
de sua carnação
via-se-lhe o coração
com um só nome gravado
a rubro, fulcro infenso.
Corria na campina
fantástica, e ainda
posso lembrar que em fuga
amava sempre, e ria.
anuncia meu tempo
que se desfaz em crivo
de aflito pensamento.
De que jardins me evado
de que amores provenho
de que enredo impreciso
se armara o que estou sendo
entre meus dicionários
fragmentos de retratos
os rútilos canários
enfunadas cortinas.
Os amigos inquietos
o silêncio a aumentar
concêntrico, severo
em torno das conversas
além da ausência,
além dos constantes afetos.
Resíduos de passeios
em paisagens alheias
empinham-se em gavetas —
cartas de amor nos seus
macios envelopes
risadas e conchinhas
a voz que fala sempre
no fundo da sonata
diletantes poemas
todos concordemente
citando o Coração
ladeado de flores
zéfiros sorridentes
(e os sabia chorosos).
As gavetas estufam
o que nelas se havia
adquire vida própria
um sitiado encanto
e explusa da memória
de que participava
com escassa competência
eu, que leve o lembrava.
O conteúdo humano
desse ditoso espólio
palpita, e entretanto
— semicerrados olhos
agitar de cambraia —
invencível o sono
se engolfa na dolência.
Sono maior que o escuro
a corromper a luz
diuturna nostalgia
de um sonho, não sei mais
ao certo o que seria.
Coágulo sombrio
adensando-se em zona
fechada, onde me perco
neste mês-de-maria
pensando o que seria
de mim, no dissolvido
rumor que me povoa
sem conduzir à fala
da sempre poesia
sem revelar o muito
de amar que pretendia
antes de antes, não sei
ao certo o que seria.
Mas bem que perfazia
um circuito profundo
onde a primeira imagem
(início e ata finda)
que ainda se reflete
é a da jovem correndo
pela campina, soltos
cabelos, e as glicínias
a descer pelos ombros
prendendo-se na boca
primavera garrida
pelo azul florentino.
Na mão direita tinha
uma roseira viva
juritis entoavam
campestres ladainhas
e pela transparência
de sua carnação
via-se-lhe o coração
com um só nome gravado
a rubro, fulcro infenso.
Corria na campina
fantástica, e ainda
posso lembrar que em fuga
amava sempre, e ria.
1 052
Gláucia Lemos
Poema do Desenlace
...e então nós nos magoamos
com uma dor tão intensa
com um furor tão sem forma
tão sem explicação ...
Como se estivéssemos
estraçalhando a vida
desmoronando tudo
o que nos pôs distantes...
Como se tivéssemos
que destruir universos
pra cumprirmos o que está escrito:
continuarmos cumprindo.
...e foi tanto o desejo
de rasgar os destinos...
Nós que rasgáramos todos os códigos
para nos tornarmos vidro,
assim nós nos rasgamos a nós próprios
sem solução e sem lucidez.
...para cada um permanecer
preso dentro dos olhos do outro
para em cada novo encontro
para sempre perguntarmos
por quê?
por quê?
Afinal... por quê?
21.06.96.
com uma dor tão intensa
com um furor tão sem forma
tão sem explicação ...
Como se estivéssemos
estraçalhando a vida
desmoronando tudo
o que nos pôs distantes...
Como se tivéssemos
que destruir universos
pra cumprirmos o que está escrito:
continuarmos cumprindo.
...e foi tanto o desejo
de rasgar os destinos...
Nós que rasgáramos todos os códigos
para nos tornarmos vidro,
assim nós nos rasgamos a nós próprios
sem solução e sem lucidez.
...para cada um permanecer
preso dentro dos olhos do outro
para em cada novo encontro
para sempre perguntarmos
por quê?
por quê?
Afinal... por quê?
21.06.96.
1 067
Maria Thereza Noronha
Soneto ao Estilo Neo-clássico
Em verde indiferença me pressinto
em prados onde outrora fui rainha.
A grinalda de flores que me vinha
a cabeça adornar, já não a sinto.
Em pálidas areias me reclino
de ilhas onde aportei. Mas se advinha
do mar a voz em versos de marinha
e em conchas de segredo cristalino.
Pastora de lembranças, me sustenta
o hálito da brisa vespertina.
Na asa da borboleta, a face lenta
da larva onde dormiu, não se divisa.
Nem a enxurrada se percebe ainda
na lágrima tangida pela brisa.
em prados onde outrora fui rainha.
A grinalda de flores que me vinha
a cabeça adornar, já não a sinto.
Em pálidas areias me reclino
de ilhas onde aportei. Mas se advinha
do mar a voz em versos de marinha
e em conchas de segredo cristalino.
Pastora de lembranças, me sustenta
o hálito da brisa vespertina.
Na asa da borboleta, a face lenta
da larva onde dormiu, não se divisa.
Nem a enxurrada se percebe ainda
na lágrima tangida pela brisa.
1 005
Luis Germano Graal
Quem Nasceu Vendedor de Peixes
Quem nasceu vendedor de peixes
Vende peixes
Não enjoa de vender
Em verdade
Peixes lhe aparecerão
Tal e qual
Aparecem fantasmas
Nos castelos dos países no norte
Quem nasceu
Pra navegar
Não sossega
Não fica quieto
Não esquenta lugar
Não dorme direito
Fora da linha do mar
Nós nascemos para navegar
A vida inteira
Não adivinhamos
Nosso vero destino
Alguns de nós zanzaram
Pelas ruas
A pedir esmolas
A roubar nas feiras
A rolar pelas calçadas
Mas nosso destino era
Navegar
Outros de nós
Tiveram dinheiro
E os estrangeiros nos tiraram
O dinheiro que tivemos
Tiraram-nos a vontade
A visão
Talvez as pessoas que assim fizeram
Soubessem
(Sequer sabendo
Que sabiam)
A verdade sobre nosso destino
E apenas seguiram
Os desígnios
Outros de nós fomos depravados
Fomos prostitutas
Muitos fomos chamados
De escória
Pelos ainda terrestres
Muitos escreveram versos
Escrevemos autos
Cartas
Poemas
Mas nenhum de nós sabia
Do nosso final
Desde o dia
Em que nos puseram
Nesta nave, navegamos
Navegamos
Navegamos
Nossa vida é navegar
Nosso destino
Missão
As quiromantes sabiam
As videntes dos circos
Sabiam
Os oráculos, idem
As pitonisas sabiam
Mas não nos disseram
Uma única palavra
Os marinheiros também
Deviam saber
Um marinheiro reconhece
Outro
Mesmo na selva
Mas nada nos deram
(Tudo é segredo
Tudo ainda é
Segredo
Nada nos é revelado)
Nós
Habitantes da nau
Passamos nossa vida a saber
De nada
Nada nos é dito
Tudo nos é escondido
Tudo nos é roubado
Tudo acontece
Para que cumpramos o destino
De navegar
Mesmo quando
No oceano pleno
Estamos
E não há um só navio
Uma numa embarcação
A vista
É-nos sonegado saber
Por que estamos
Nesta nave
Pois navegar é bom
Mas temos fome
Navegar é bom
Mas temos sede
Navegar é bom
Mas temos frio
Navegar é bom
Mas temos sono
Navegar é preciso
Mas estamos cansados
Estamos cansados
Estamos cansados
Navegar é viver
Mas estamos quase mortos
Navegar é o que nos resta
Mas não queremos
Navegar
E nossa missão
Mas que vá para o diabo
Para o diablo
Para as profundas
A nossa missão
Estamos aqui
Marítimos
Mas não queremos estar
Nem todos de nós
Queremos
Estar
Muitos querem ir embora
Dois já foram
Um com a sereia
E o primeiro
Com outro peixe
Mais da nossa metade
Junto à amurada
Junto ao muro
Junto à fronteira
Do mar
Está
A fazer últimas orações
Para eles chegado o momento
O porto
A pedra
Já começam a cair
Começam a se jogar
O mar que era calmo
Faz marulho
Agora
Ao engolir os corpos
De nós
Que caímos
Os corpos de alguns
De muitos
Caídos
No mar tanatificado
Maktub?
Vende peixes
Não enjoa de vender
Em verdade
Peixes lhe aparecerão
Tal e qual
Aparecem fantasmas
Nos castelos dos países no norte
Quem nasceu
Pra navegar
Não sossega
Não fica quieto
Não esquenta lugar
Não dorme direito
Fora da linha do mar
Nós nascemos para navegar
A vida inteira
Não adivinhamos
Nosso vero destino
Alguns de nós zanzaram
Pelas ruas
A pedir esmolas
A roubar nas feiras
A rolar pelas calçadas
Mas nosso destino era
Navegar
Outros de nós
Tiveram dinheiro
E os estrangeiros nos tiraram
O dinheiro que tivemos
Tiraram-nos a vontade
A visão
Talvez as pessoas que assim fizeram
Soubessem
(Sequer sabendo
Que sabiam)
A verdade sobre nosso destino
E apenas seguiram
Os desígnios
Outros de nós fomos depravados
Fomos prostitutas
Muitos fomos chamados
De escória
Pelos ainda terrestres
Muitos escreveram versos
Escrevemos autos
Cartas
Poemas
Mas nenhum de nós sabia
Do nosso final
Desde o dia
Em que nos puseram
Nesta nave, navegamos
Navegamos
Navegamos
Nossa vida é navegar
Nosso destino
Missão
As quiromantes sabiam
As videntes dos circos
Sabiam
Os oráculos, idem
As pitonisas sabiam
Mas não nos disseram
Uma única palavra
Os marinheiros também
Deviam saber
Um marinheiro reconhece
Outro
Mesmo na selva
Mas nada nos deram
(Tudo é segredo
Tudo ainda é
Segredo
Nada nos é revelado)
Nós
Habitantes da nau
Passamos nossa vida a saber
De nada
Nada nos é dito
Tudo nos é escondido
Tudo nos é roubado
Tudo acontece
Para que cumpramos o destino
De navegar
Mesmo quando
No oceano pleno
Estamos
E não há um só navio
Uma numa embarcação
A vista
É-nos sonegado saber
Por que estamos
Nesta nave
Pois navegar é bom
Mas temos fome
Navegar é bom
Mas temos sede
Navegar é bom
Mas temos frio
Navegar é bom
Mas temos sono
Navegar é preciso
Mas estamos cansados
Estamos cansados
Estamos cansados
Navegar é viver
Mas estamos quase mortos
Navegar é o que nos resta
Mas não queremos
Navegar
E nossa missão
Mas que vá para o diabo
Para o diablo
Para as profundas
A nossa missão
Estamos aqui
Marítimos
Mas não queremos estar
Nem todos de nós
Queremos
Estar
Muitos querem ir embora
Dois já foram
Um com a sereia
E o primeiro
Com outro peixe
Mais da nossa metade
Junto à amurada
Junto ao muro
Junto à fronteira
Do mar
Está
A fazer últimas orações
Para eles chegado o momento
O porto
A pedra
Já começam a cair
Começam a se jogar
O mar que era calmo
Faz marulho
Agora
Ao engolir os corpos
De nós
Que caímos
Os corpos de alguns
De muitos
Caídos
No mar tanatificado
Maktub?
874
Luis Germano Graal
Quem Nasceu Vendedor de Peixes
Quem nasceu vendedor de peixes
Vende peixes
Não enjoa de vender
Em verdade
Peixes lhe aparecerão
Tal e qual
Aparecem fantasmas
Nos castelos dos países no norte
Quem nasceu
Pra navegar
Não sossega
Não fica quieto
Não esquenta lugar
Não dorme direito
Fora da linha do mar
Nós nascemos para navegar
A vida inteira
Não adivinhamos
Nosso vero destino
Alguns de nós zanzaram
Pelas ruas
A pedir esmolas
A roubar nas feiras
A rolar pelas calçadas
Mas nosso destino era
Navegar
Outros de nós
Tiveram dinheiro
E os estrangeiros nos tiraram
O dinheiro que tivemos
Tiraram-nos a vontade
A visão
Talvez as pessoas que assim fizeram
Soubessem
(Sequer sabendo
Que sabiam)
A verdade sobre nosso destino
E apenas seguiram
Os desígnios
Outros de nós fomos depravados
Fomos prostitutas
Muitos fomos chamados
De escória
Pelos ainda terrestres
Muitos escreveram versos
Escrevemos autos
Cartas
Poemas
Mas nenhum de nós sabia
Do nosso final
Desde o dia
Em que nos puseram
Nesta nave, navegamos
Navegamos
Navegamos
Nossa vida é navegar
Nosso destino
Missão
As quiromantes sabiam
As videntes dos circos
Sabiam
Os oráculos, idem
As pitonisas sabiam
Mas não nos disseram
Uma única palavra
Os marinheiros também
Deviam saber
Um marinheiro reconhece
Outro
Mesmo na selva
Mas nada nos deram
(Tudo é segredo
Tudo ainda é
Segredo
Nada nos é revelado)
Nós
Habitantes da nau
Passamos nossa vida a saber
De nada
Nada nos é dito
Tudo nos é escondido
Tudo nos é roubado
Tudo acontece
Para que cumpramos o destino
De navegar
Mesmo quando
No oceano pleno
Estamos
E não há um só navio
Uma numa embarcação
A vista
É-nos sonegado saber
Por que estamos
Nesta nave
Pois navegar é bom
Mas temos fome
Navegar é bom
Mas temos sede
Navegar é bom
Mas temos frio
Navegar é bom
Mas temos sono
Navegar é preciso
Mas estamos cansados
Estamos cansados
Estamos cansados
Navegar é viver
Mas estamos quase mortos
Navegar é o que nos resta
Mas não queremos
Navegar
E nossa missão
Mas que vá para o diabo
Para o diablo
Para as profundas
A nossa missão
Estamos aqui
Marítimos
Mas não queremos estar
Nem todos de nós
Queremos
Estar
Muitos querem ir embora
Dois já foram
Um com a sereia
E o primeiro
Com outro peixe
Mais da nossa metade
Junto à amurada
Junto ao muro
Junto à fronteira
Do mar
Está
A fazer últimas orações
Para eles chegado o momento
O porto
A pedra
Já começam a cair
Começam a se jogar
O mar que era calmo
Faz marulho
Agora
Ao engolir os corpos
De nós
Que caímos
Os corpos de alguns
De muitos
Caídos
No mar tanatificado
Maktub?
Vende peixes
Não enjoa de vender
Em verdade
Peixes lhe aparecerão
Tal e qual
Aparecem fantasmas
Nos castelos dos países no norte
Quem nasceu
Pra navegar
Não sossega
Não fica quieto
Não esquenta lugar
Não dorme direito
Fora da linha do mar
Nós nascemos para navegar
A vida inteira
Não adivinhamos
Nosso vero destino
Alguns de nós zanzaram
Pelas ruas
A pedir esmolas
A roubar nas feiras
A rolar pelas calçadas
Mas nosso destino era
Navegar
Outros de nós
Tiveram dinheiro
E os estrangeiros nos tiraram
O dinheiro que tivemos
Tiraram-nos a vontade
A visão
Talvez as pessoas que assim fizeram
Soubessem
(Sequer sabendo
Que sabiam)
A verdade sobre nosso destino
E apenas seguiram
Os desígnios
Outros de nós fomos depravados
Fomos prostitutas
Muitos fomos chamados
De escória
Pelos ainda terrestres
Muitos escreveram versos
Escrevemos autos
Cartas
Poemas
Mas nenhum de nós sabia
Do nosso final
Desde o dia
Em que nos puseram
Nesta nave, navegamos
Navegamos
Navegamos
Nossa vida é navegar
Nosso destino
Missão
As quiromantes sabiam
As videntes dos circos
Sabiam
Os oráculos, idem
As pitonisas sabiam
Mas não nos disseram
Uma única palavra
Os marinheiros também
Deviam saber
Um marinheiro reconhece
Outro
Mesmo na selva
Mas nada nos deram
(Tudo é segredo
Tudo ainda é
Segredo
Nada nos é revelado)
Nós
Habitantes da nau
Passamos nossa vida a saber
De nada
Nada nos é dito
Tudo nos é escondido
Tudo nos é roubado
Tudo acontece
Para que cumpramos o destino
De navegar
Mesmo quando
No oceano pleno
Estamos
E não há um só navio
Uma numa embarcação
A vista
É-nos sonegado saber
Por que estamos
Nesta nave
Pois navegar é bom
Mas temos fome
Navegar é bom
Mas temos sede
Navegar é bom
Mas temos frio
Navegar é bom
Mas temos sono
Navegar é preciso
Mas estamos cansados
Estamos cansados
Estamos cansados
Navegar é viver
Mas estamos quase mortos
Navegar é o que nos resta
Mas não queremos
Navegar
E nossa missão
Mas que vá para o diabo
Para o diablo
Para as profundas
A nossa missão
Estamos aqui
Marítimos
Mas não queremos estar
Nem todos de nós
Queremos
Estar
Muitos querem ir embora
Dois já foram
Um com a sereia
E o primeiro
Com outro peixe
Mais da nossa metade
Junto à amurada
Junto ao muro
Junto à fronteira
Do mar
Está
A fazer últimas orações
Para eles chegado o momento
O porto
A pedra
Já começam a cair
Começam a se jogar
O mar que era calmo
Faz marulho
Agora
Ao engolir os corpos
De nós
Que caímos
Os corpos de alguns
De muitos
Caídos
No mar tanatificado
Maktub?
874
Tomáz Kim
Ladainha Para Qualquer Natal
Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites.
Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites:
Tumba de carne viva em ódio amortalhada,
Anunciando sangue e pranto e morte.
Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites.
Que esta noite não seja para sempre
De fome pra lá de tantas portas
Como flor viçosa em campa rasa.
Que esta noite não seja para sempre
De amor vendido a horas mortas
E o pudor lembrando e a raiva queimando.
Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites.
Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites:
Chaga aberta, como rubra flor de pesadelo,
Escorrendo sangue e pranto e morte.
Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites.
E seja para sempre esta noite
Cheia de graça na terra dos homens.
Assim seja
Igual às outras noites.
Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites:
Tumba de carne viva em ódio amortalhada,
Anunciando sangue e pranto e morte.
Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites.
Que esta noite não seja para sempre
De fome pra lá de tantas portas
Como flor viçosa em campa rasa.
Que esta noite não seja para sempre
De amor vendido a horas mortas
E o pudor lembrando e a raiva queimando.
Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites.
Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites:
Chaga aberta, como rubra flor de pesadelo,
Escorrendo sangue e pranto e morte.
Não seja esta noite, agora e sempre,
Igual às outras noites.
E seja para sempre esta noite
Cheia de graça na terra dos homens.
Assim seja
2 305
Luiz Fernandes da Silva
Carrossel
Em cada rodada
o frio de lembrança
dos dias de infância.
Em cada cavalinho
as reminiscências da fantasia.
Em cada curva
novas ânsias e
enigma da sorte.
Em cada olhar
a liberdade e
o adeus aos sonhos.
Em cada salto,
o impacto, a queda
o frio de lembrança
dos dias de infância.
Em cada cavalinho
as reminiscências da fantasia.
Em cada curva
novas ânsias e
enigma da sorte.
Em cada olhar
a liberdade e
o adeus aos sonhos.
Em cada salto,
o impacto, a queda
1 196
Luiz Fernandes da Silva
Carrossel
Em cada rodada
o frio de lembrança
dos dias de infância.
Em cada cavalinho
as reminiscências da fantasia.
Em cada curva
novas ânsias e
enigma da sorte.
Em cada olhar
a liberdade e
o adeus aos sonhos.
Em cada salto,
o impacto, a queda
o frio de lembrança
dos dias de infância.
Em cada cavalinho
as reminiscências da fantasia.
Em cada curva
novas ânsias e
enigma da sorte.
Em cada olhar
a liberdade e
o adeus aos sonhos.
Em cada salto,
o impacto, a queda
1 196
Luiz Fernandes da Silva
Carrossel
Em cada rodada
o frio de lembrança
dos dias de infância.
Em cada cavalinho
as reminiscências da fantasia.
Em cada curva
novas ânsias e
enigma da sorte.
Em cada olhar
a liberdade e
o adeus aos sonhos.
Em cada salto,
o impacto, a queda
o frio de lembrança
dos dias de infância.
Em cada cavalinho
as reminiscências da fantasia.
Em cada curva
novas ânsias e
enigma da sorte.
Em cada olhar
a liberdade e
o adeus aos sonhos.
Em cada salto,
o impacto, a queda
1 196
Gláucia Lemos
Poema ao Amor Recém-Nascido
Vê, é crescente,
quarto de lua crescente.
No universo inteiro
tudo chegou ao tempo de crescer.
Deixa que cresça
deixa que amadureça
como o sol faz crescerem os trigais.
Deixa que nasça o pão
das espigas crescidas
e o alimente qual se nutre um corpo
na bandeja da emoção.
Deixa que cresça indomável.
Seja rebentação nos quebra-mares
das marés de enchente.
Faça-se grande qual só é grande a vida
invencível como só assim a morte.
Que seja um deus nos concedendo a graça
de escrevermos nós, nosso destino.
Deixa que cresça.
Que cresça e se mature
e multiplique qual no ventre térreo
planetário de sementes.
E depois, como chuva,
deixa que se esparrame
no universo
dos universos aonde possa ir,
maravilhado da própria grandeza.
Deixa que cresça e nos cubra.
E nos proteja como anjo-de-guarda
e nos leve pelas mãos
nas mãos da vida
que ele faz ressuscitar.
Deixa em silêncio,
deixa em canto suave,
deixa no toque de ternura nova,
deixa crescer em ti
que não deixaste
perder-se sem razão nossa verdade.
Vê. é crescente.
Quarto de lua crescente!
Doce criança, deixa-o crescer!
Em uma lua crescente de 1996.
quarto de lua crescente.
No universo inteiro
tudo chegou ao tempo de crescer.
Deixa que cresça
deixa que amadureça
como o sol faz crescerem os trigais.
Deixa que nasça o pão
das espigas crescidas
e o alimente qual se nutre um corpo
na bandeja da emoção.
Deixa que cresça indomável.
Seja rebentação nos quebra-mares
das marés de enchente.
Faça-se grande qual só é grande a vida
invencível como só assim a morte.
Que seja um deus nos concedendo a graça
de escrevermos nós, nosso destino.
Deixa que cresça.
Que cresça e se mature
e multiplique qual no ventre térreo
planetário de sementes.
E depois, como chuva,
deixa que se esparrame
no universo
dos universos aonde possa ir,
maravilhado da própria grandeza.
Deixa que cresça e nos cubra.
E nos proteja como anjo-de-guarda
e nos leve pelas mãos
nas mãos da vida
que ele faz ressuscitar.
Deixa em silêncio,
deixa em canto suave,
deixa no toque de ternura nova,
deixa crescer em ti
que não deixaste
perder-se sem razão nossa verdade.
Vê. é crescente.
Quarto de lua crescente!
Doce criança, deixa-o crescer!
Em uma lua crescente de 1996.
1 985
Tomáz Kim
Antes da Metralha
Antes da metralha e do dedo da morte...
Antes dum corpo jovem, anônimo,
apodrecer, esquecido, à chuva...
Ou singrar, boiando, nas águas mansas...
Ou se despedaçar contra o céu indiferente...
Antes do pavor e do pranto e da prece...
Um adeus longo e triste
aos poemas amontoados no fundo da gaveta
e à renúncia ao teu amor brando
e às noites calmas e ao sonho inacabado...
Antes da morte sem mistério...
Um adeus longo e triste
à luta de que não se partilhou!
Antes dum corpo jovem, anônimo,
apodrecer, esquecido, à chuva...
Ou singrar, boiando, nas águas mansas...
Ou se despedaçar contra o céu indiferente...
Antes do pavor e do pranto e da prece...
Um adeus longo e triste
aos poemas amontoados no fundo da gaveta
e à renúncia ao teu amor brando
e às noites calmas e ao sonho inacabado...
Antes da morte sem mistério...
Um adeus longo e triste
à luta de que não se partilhou!
1 206
Gláucia Lemos
Poema Para a Mulher de Malandro
Um segundo
ave assustada voando para longe.
Asas molhadas de vento
arrastando o peso
da surpresa e do susto.
Para longe
para bem longe do temporal.
Olhos enxutos respiram distância
coração de ave frágil
pequenino
pulsa pânico
irrompe do peito.
É preciso aguardar o retorno do sol.
O sol...
Luz infiltrando suave
da coroa dos montes.
A medo e a susto
o romper do vento a rota de retorno.
Não sou, não me torno
mas entendo
a mulher do malandro.
ave assustada voando para longe.
Asas molhadas de vento
arrastando o peso
da surpresa e do susto.
Para longe
para bem longe do temporal.
Olhos enxutos respiram distância
coração de ave frágil
pequenino
pulsa pânico
irrompe do peito.
É preciso aguardar o retorno do sol.
O sol...
Luz infiltrando suave
da coroa dos montes.
A medo e a susto
o romper do vento a rota de retorno.
Não sou, não me torno
mas entendo
a mulher do malandro.
1 544
Luis Germano Graal
Nesta Embarcação
Nesta embarcação, nesta caravela
Na qual ficou a voz que
Neste trampolim, nesta passarela
me roubaste
Nesta nave na qual tu não ficaste
Fiquei com tua voz em mim mais bela
Papai do céu
Por que me abandonaste?
Por que deixaste só um filho teu
Um anjo maluco, teu filho: eu
Sou um deus esquisito
Olhando pros lados
Sol e lua e mar
São fragmentos de mim
E sou
Todos quatro
Cantando
Papai, por que deixaste-me a cantar
Este psalmo
Eli, eli, papai
Lamma Sabactáni?
Na qual ficou a voz que
Neste trampolim, nesta passarela
me roubaste
Nesta nave na qual tu não ficaste
Fiquei com tua voz em mim mais bela
Papai do céu
Por que me abandonaste?
Por que deixaste só um filho teu
Um anjo maluco, teu filho: eu
Sou um deus esquisito
Olhando pros lados
Sol e lua e mar
São fragmentos de mim
E sou
Todos quatro
Cantando
Papai, por que deixaste-me a cantar
Este psalmo
Eli, eli, papai
Lamma Sabactáni?
799
Jorge Lescano
Verão
Estrelas cadentes?
Em torno do abajur
as mariposinhas.
Saudades da infância
nos longos dia de verão.
À noite, insônia.
Em torno do abajur
as mariposinhas.
Saudades da infância
nos longos dia de verão.
À noite, insônia.
973
Tomáz Kim
Campo de Batalha
1
A noite, porém, rangeu e quebrou:
Viajantes clandestinos,
à procura de uma estrela mais distante,
quedaram-se emudecidos.
Apodreceu a carne, rangeram os ossos
e os dias escorreram, viscosos, iguais.
Estéril, a vida continuou:
a fome, a peste, a guerra — a morte!
2
Secam as fontes e os rios,
ardem as searas e a nossa casa
e as árvores nuas amaldiçoam o céu,
sem sabermos porquê.
Morrem os jovens antes de se amarem
e os poetas com os poemas inacabados
e as crianças olhando espantadas para o céu,
sem saberem porquê.
Um vento noturno deixou insepultos
ventres e seios e desejos de maternidade
nunca realizados,
e secou risos e cantares subindo para o céu,
sem sabermos porquê.
Andam as guerras pelo mundo:
somente possuímos uma voz, uma voz
e essa voz não se calará
e nós sabemos porquê!
3
Antes da metralha e do medo e da morte,
antes de um corpo jovem, anônimo, apodrecer
esquecido à chuva e ao vento,
ou singrar, boiando, na água mansa,
ou se despedaçar contra o céu indiferente...
Antes do pavor e do pranto e da prece,
um adeus longo e triste
aos poemas no fundo da gaveta,
e à renúncia ao teu amor brando
e às noites calmas e ao sonho inacabado...
Antes da morte sem-mistério,
um adeus longo e triste
à luta de que não se partilhou!...
4
Longe, a bala rasgando o luar;
longe, o corpo caindo;
longe, o sangue, vermelho e morno e espesso.
Aqui, à face desta lua e da noite,
iguais às outras luas e às outras noites,
iguais como o sangue vermelho e morno e espesso
dos homens ...
Aqui,
oculto e surdo e retido,
o sangue,
vermelho e morno e espesso,
igual!
5
As feridas abrem-se
para o céu distante na sua impassibilidade
e destilam as sete pragas
que desabaram
sobre o ventre das nossas mulheres
e o sonho dos nossos filhos
e a nossa seara e olival.
É da glória que nascem os vermes;
e as estréias,
de mil pedaços ensangüentados,
subindo a noite vertical!
6
Esta carne envilecida e santa,
a gerar os prados e a nuvem e a chuva,
levada pelo sol e pelo vento ...
Esta carne envilecida e santa,
apodrecendo em todas as latitudes,
presente na angústia da noite devastada...
Esta carne envilecida e santa,
forçada a negar a verdade pressentida,
ecoando os versos dos poetas desconhecidos...
Esta carne envilecida e santa,
abrindo-se em flor aos quatro cavaleiros,
é o homem
e a vida breve!
A noite, porém, rangeu e quebrou:
Viajantes clandestinos,
à procura de uma estrela mais distante,
quedaram-se emudecidos.
Apodreceu a carne, rangeram os ossos
e os dias escorreram, viscosos, iguais.
Estéril, a vida continuou:
a fome, a peste, a guerra — a morte!
2
Secam as fontes e os rios,
ardem as searas e a nossa casa
e as árvores nuas amaldiçoam o céu,
sem sabermos porquê.
Morrem os jovens antes de se amarem
e os poetas com os poemas inacabados
e as crianças olhando espantadas para o céu,
sem saberem porquê.
Um vento noturno deixou insepultos
ventres e seios e desejos de maternidade
nunca realizados,
e secou risos e cantares subindo para o céu,
sem sabermos porquê.
Andam as guerras pelo mundo:
somente possuímos uma voz, uma voz
e essa voz não se calará
e nós sabemos porquê!
3
Antes da metralha e do medo e da morte,
antes de um corpo jovem, anônimo, apodrecer
esquecido à chuva e ao vento,
ou singrar, boiando, na água mansa,
ou se despedaçar contra o céu indiferente...
Antes do pavor e do pranto e da prece,
um adeus longo e triste
aos poemas no fundo da gaveta,
e à renúncia ao teu amor brando
e às noites calmas e ao sonho inacabado...
Antes da morte sem-mistério,
um adeus longo e triste
à luta de que não se partilhou!...
4
Longe, a bala rasgando o luar;
longe, o corpo caindo;
longe, o sangue, vermelho e morno e espesso.
Aqui, à face desta lua e da noite,
iguais às outras luas e às outras noites,
iguais como o sangue vermelho e morno e espesso
dos homens ...
Aqui,
oculto e surdo e retido,
o sangue,
vermelho e morno e espesso,
igual!
5
As feridas abrem-se
para o céu distante na sua impassibilidade
e destilam as sete pragas
que desabaram
sobre o ventre das nossas mulheres
e o sonho dos nossos filhos
e a nossa seara e olival.
É da glória que nascem os vermes;
e as estréias,
de mil pedaços ensangüentados,
subindo a noite vertical!
6
Esta carne envilecida e santa,
a gerar os prados e a nuvem e a chuva,
levada pelo sol e pelo vento ...
Esta carne envilecida e santa,
apodrecendo em todas as latitudes,
presente na angústia da noite devastada...
Esta carne envilecida e santa,
forçada a negar a verdade pressentida,
ecoando os versos dos poetas desconhecidos...
Esta carne envilecida e santa,
abrindo-se em flor aos quatro cavaleiros,
é o homem
e a vida breve!
1 616
Tomáz Kim
Campo de Batalha
1
A noite, porém, rangeu e quebrou:
Viajantes clandestinos,
à procura de uma estrela mais distante,
quedaram-se emudecidos.
Apodreceu a carne, rangeram os ossos
e os dias escorreram, viscosos, iguais.
Estéril, a vida continuou:
a fome, a peste, a guerra — a morte!
2
Secam as fontes e os rios,
ardem as searas e a nossa casa
e as árvores nuas amaldiçoam o céu,
sem sabermos porquê.
Morrem os jovens antes de se amarem
e os poetas com os poemas inacabados
e as crianças olhando espantadas para o céu,
sem saberem porquê.
Um vento noturno deixou insepultos
ventres e seios e desejos de maternidade
nunca realizados,
e secou risos e cantares subindo para o céu,
sem sabermos porquê.
Andam as guerras pelo mundo:
somente possuímos uma voz, uma voz
e essa voz não se calará
e nós sabemos porquê!
3
Antes da metralha e do medo e da morte,
antes de um corpo jovem, anônimo, apodrecer
esquecido à chuva e ao vento,
ou singrar, boiando, na água mansa,
ou se despedaçar contra o céu indiferente...
Antes do pavor e do pranto e da prece,
um adeus longo e triste
aos poemas no fundo da gaveta,
e à renúncia ao teu amor brando
e às noites calmas e ao sonho inacabado...
Antes da morte sem-mistério,
um adeus longo e triste
à luta de que não se partilhou!...
4
Longe, a bala rasgando o luar;
longe, o corpo caindo;
longe, o sangue, vermelho e morno e espesso.
Aqui, à face desta lua e da noite,
iguais às outras luas e às outras noites,
iguais como o sangue vermelho e morno e espesso
dos homens ...
Aqui,
oculto e surdo e retido,
o sangue,
vermelho e morno e espesso,
igual!
5
As feridas abrem-se
para o céu distante na sua impassibilidade
e destilam as sete pragas
que desabaram
sobre o ventre das nossas mulheres
e o sonho dos nossos filhos
e a nossa seara e olival.
É da glória que nascem os vermes;
e as estréias,
de mil pedaços ensangüentados,
subindo a noite vertical!
6
Esta carne envilecida e santa,
a gerar os prados e a nuvem e a chuva,
levada pelo sol e pelo vento ...
Esta carne envilecida e santa,
apodrecendo em todas as latitudes,
presente na angústia da noite devastada...
Esta carne envilecida e santa,
forçada a negar a verdade pressentida,
ecoando os versos dos poetas desconhecidos...
Esta carne envilecida e santa,
abrindo-se em flor aos quatro cavaleiros,
é o homem
e a vida breve!
A noite, porém, rangeu e quebrou:
Viajantes clandestinos,
à procura de uma estrela mais distante,
quedaram-se emudecidos.
Apodreceu a carne, rangeram os ossos
e os dias escorreram, viscosos, iguais.
Estéril, a vida continuou:
a fome, a peste, a guerra — a morte!
2
Secam as fontes e os rios,
ardem as searas e a nossa casa
e as árvores nuas amaldiçoam o céu,
sem sabermos porquê.
Morrem os jovens antes de se amarem
e os poetas com os poemas inacabados
e as crianças olhando espantadas para o céu,
sem saberem porquê.
Um vento noturno deixou insepultos
ventres e seios e desejos de maternidade
nunca realizados,
e secou risos e cantares subindo para o céu,
sem sabermos porquê.
Andam as guerras pelo mundo:
somente possuímos uma voz, uma voz
e essa voz não se calará
e nós sabemos porquê!
3
Antes da metralha e do medo e da morte,
antes de um corpo jovem, anônimo, apodrecer
esquecido à chuva e ao vento,
ou singrar, boiando, na água mansa,
ou se despedaçar contra o céu indiferente...
Antes do pavor e do pranto e da prece,
um adeus longo e triste
aos poemas no fundo da gaveta,
e à renúncia ao teu amor brando
e às noites calmas e ao sonho inacabado...
Antes da morte sem-mistério,
um adeus longo e triste
à luta de que não se partilhou!...
4
Longe, a bala rasgando o luar;
longe, o corpo caindo;
longe, o sangue, vermelho e morno e espesso.
Aqui, à face desta lua e da noite,
iguais às outras luas e às outras noites,
iguais como o sangue vermelho e morno e espesso
dos homens ...
Aqui,
oculto e surdo e retido,
o sangue,
vermelho e morno e espesso,
igual!
5
As feridas abrem-se
para o céu distante na sua impassibilidade
e destilam as sete pragas
que desabaram
sobre o ventre das nossas mulheres
e o sonho dos nossos filhos
e a nossa seara e olival.
É da glória que nascem os vermes;
e as estréias,
de mil pedaços ensangüentados,
subindo a noite vertical!
6
Esta carne envilecida e santa,
a gerar os prados e a nuvem e a chuva,
levada pelo sol e pelo vento ...
Esta carne envilecida e santa,
apodrecendo em todas as latitudes,
presente na angústia da noite devastada...
Esta carne envilecida e santa,
forçada a negar a verdade pressentida,
ecoando os versos dos poetas desconhecidos...
Esta carne envilecida e santa,
abrindo-se em flor aos quatro cavaleiros,
é o homem
e a vida breve!
1 616
Lêdo Ivo
Oiço, como se o cheiro
The Literary Narcissus
Único! Original!
A ninguém me assemelho,
nem mesmo à minha imagem
refletida no espelho.
Unique! Original!
I resemble no one,
not even my image
in the mirror.
Único! Original!
A ninguém me assemelho,
nem mesmo à minha imagem
refletida no espelho.
Unique! Original!
I resemble no one,
not even my image
in the mirror.
1 723
Luis Germano Graal
Se de Repente
Se de repente
Subitamente
A qualquer instante
A qualquer momento
De repente e não mais que de repente
A gente
Ressuscitar
Se tudo o que aconteceu
Foi
Pantonima
Truque
Magia
Função de circo?
Se das cinzas
Se dos restos incendiados
Desta nave
Renascer
Aquela ave
Que antigamente renascia?
Se a gente parar de fazer perguntas
E procurar respostas?
Se as palavras
Pularem dos livros e das petições
Deixando todas as páginas
Em branco?
Se as folhas de papel
Retornarem
Às árvores originais?
Se as árvores originas
Voltarem
Aos elementos que foram antes?
Se o próprio antes retornar
Voltar
Ao que tinha sido ainda antes?
Subitamente
A qualquer instante
A qualquer momento
De repente e não mais que de repente
A gente
Ressuscitar
Se tudo o que aconteceu
Foi
Pantonima
Truque
Magia
Função de circo?
Se das cinzas
Se dos restos incendiados
Desta nave
Renascer
Aquela ave
Que antigamente renascia?
Se a gente parar de fazer perguntas
E procurar respostas?
Se as palavras
Pularem dos livros e das petições
Deixando todas as páginas
Em branco?
Se as folhas de papel
Retornarem
Às árvores originais?
Se as árvores originas
Voltarem
Aos elementos que foram antes?
Se o próprio antes retornar
Voltar
Ao que tinha sido ainda antes?
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