Poemas neste tema
Vida e Existência
Carla Dias
Figuras
O teu rosto entre minhas mãos ...
eu carrego teu rosto,
teus lábios secos.
Carrego teus olhares e teu medo.
O teu corpo se encolhe,
como se quisesse contar uma estória.
Já vi um tudo inigualável,
o meu tudo ... teu ...
Tenho tuas mãos sobre meus ombros,
como se fizessem parte
da arquitetura imperfeita
da minha existência.
O teu espaço cabe no tempo
que levo a atingir
tuas vozes ameaçadoras ...
de si para si ... o que resta?
O teu rosto entre minhas mãos,
como se eu pudesse ler
teu poema concreto ...
sobre ser humano.
eu carrego teu rosto,
teus lábios secos.
Carrego teus olhares e teu medo.
O teu corpo se encolhe,
como se quisesse contar uma estória.
Já vi um tudo inigualável,
o meu tudo ... teu ...
Tenho tuas mãos sobre meus ombros,
como se fizessem parte
da arquitetura imperfeita
da minha existência.
O teu espaço cabe no tempo
que levo a atingir
tuas vozes ameaçadoras ...
de si para si ... o que resta?
O teu rosto entre minhas mãos,
como se eu pudesse ler
teu poema concreto ...
sobre ser humano.
1 297
Carla Dias
Figuras
O teu rosto entre minhas mãos ...
eu carrego teu rosto,
teus lábios secos.
Carrego teus olhares e teu medo.
O teu corpo se encolhe,
como se quisesse contar uma estória.
Já vi um tudo inigualável,
o meu tudo ... teu ...
Tenho tuas mãos sobre meus ombros,
como se fizessem parte
da arquitetura imperfeita
da minha existência.
O teu espaço cabe no tempo
que levo a atingir
tuas vozes ameaçadoras ...
de si para si ... o que resta?
O teu rosto entre minhas mãos,
como se eu pudesse ler
teu poema concreto ...
sobre ser humano.
eu carrego teu rosto,
teus lábios secos.
Carrego teus olhares e teu medo.
O teu corpo se encolhe,
como se quisesse contar uma estória.
Já vi um tudo inigualável,
o meu tudo ... teu ...
Tenho tuas mãos sobre meus ombros,
como se fizessem parte
da arquitetura imperfeita
da minha existência.
O teu espaço cabe no tempo
que levo a atingir
tuas vozes ameaçadoras ...
de si para si ... o que resta?
O teu rosto entre minhas mãos,
como se eu pudesse ler
teu poema concreto ...
sobre ser humano.
1 297
Dílson Catarino
Quero-Quero
A carga d’água nas costas feridas
quero-quero que tudo role
que tudo rode,
tudo mole,
tudo pode.
posso?
POSTE
POST.
MORTEM.
Tudo aquilo que eu sempre quis
nada
As gueixas pintadas
as ameixas murchas
as queixas infundadas
suas saias justas
SAIA! - SAIA!
não quero mais ficar aqui...
Não quero mais encargos
nem mesmo um cargo quero
Eu quero um beijo
embaixo da cachoeira
no vale das águas.
quero-quero que tudo role
que tudo rode,
tudo mole,
tudo pode.
posso?
POSTE
POST.
MORTEM.
Tudo aquilo que eu sempre quis
nada
As gueixas pintadas
as ameixas murchas
as queixas infundadas
suas saias justas
SAIA! - SAIA!
não quero mais ficar aqui...
Não quero mais encargos
nem mesmo um cargo quero
Eu quero um beijo
embaixo da cachoeira
no vale das águas.
870
João de Deus de Nogueira Ramos
Omissão
Uma noviça, jovem de talento
Na arte do desenho e da pintura,
Pede à madre abadessa do convento
O favor de lhe ver uma figura.
Era a imitação escrupulosa
De um menino em tamanho natural
Que pertencia a soror Anna Rosa,
Tido em conta de um belo original!
A soro costumava, por decência
Tê-lo com uma tanga pequenina,
Que lhe encobria aquela saliência
Que distingue o menino da menina.
Mas uma tanga tão apropriada
No tecido e na cor, que na verdade
A gente olhava e não lhe via nada
Que desmentisse a naturalidade.
Era, pois, de esperar que a nossa artista,
Assim como no mais, naquela parte
Pintasse apenas o que tinha à vista
Que é o preceito e o primor da arte.
Vê a madre abadessa a maravilha,
E não se cansa de a louvar! Mas lança
A vista atenta àquele ponto: "Ai, filha,
Que falta essencial!... Pobre criança!
Que pena! O colorido, que beleza!
Pernas, braços e tudo, que perfeito!
Mas confesso... Confesso com tristeza...
Que enorme, que enormíssimo defeito!"
Na arte do desenho e da pintura,
Pede à madre abadessa do convento
O favor de lhe ver uma figura.
Era a imitação escrupulosa
De um menino em tamanho natural
Que pertencia a soror Anna Rosa,
Tido em conta de um belo original!
A soro costumava, por decência
Tê-lo com uma tanga pequenina,
Que lhe encobria aquela saliência
Que distingue o menino da menina.
Mas uma tanga tão apropriada
No tecido e na cor, que na verdade
A gente olhava e não lhe via nada
Que desmentisse a naturalidade.
Era, pois, de esperar que a nossa artista,
Assim como no mais, naquela parte
Pintasse apenas o que tinha à vista
Que é o preceito e o primor da arte.
Vê a madre abadessa a maravilha,
E não se cansa de a louvar! Mas lança
A vista atenta àquele ponto: "Ai, filha,
Que falta essencial!... Pobre criança!
Que pena! O colorido, que beleza!
Pernas, braços e tudo, que perfeito!
Mas confesso... Confesso com tristeza...
Que enorme, que enormíssimo defeito!"
1 643
Deborah Goulart Visnadi
Ser Criança
Queria ter um dia
só pra comer porcaria:
Sorvete, chocolate e bombom.
Contar os dias de alegria e fantasia.
Querendo por querer.
Não é uma maravilha ?
Jogar videogame, jogar bola,
E depois ir à escola.
Queria ser criança a vida inteira,
E nunca acabar a brincadeira.
Mas ser criança não é tão bom assim,
Todo mundo manda em mim !
Sei que devo aproveitar,
Sou criança, quero brincar!
só pra comer porcaria:
Sorvete, chocolate e bombom.
Contar os dias de alegria e fantasia.
Querendo por querer.
Não é uma maravilha ?
Jogar videogame, jogar bola,
E depois ir à escola.
Queria ser criança a vida inteira,
E nunca acabar a brincadeira.
Mas ser criança não é tão bom assim,
Todo mundo manda em mim !
Sei que devo aproveitar,
Sou criança, quero brincar!
1 811
José Maria da Costa e Silva
Soneto
A morte da ilustríssima senhora D. Maria
Constância Lima Barbosa
Aquele coração, em que eu reinava,
O rosto, em que meus olhos se reviam,
Os lábios, que a voz doce desprendiam,
Que de minha alma os seios penetrava:
O peito, que a meu peito eu apertava,
Os braços, que amorosos me cingiam,
Mil graças, prendas mil, que revestiam
O encantador objeto, que adorava.
Tudo ao sepulcro foi com Márcia, aquela
Que eu tanto celebrei na ebúrnea lira,
Na estação juvenil, jucunda, e bela.
Márcia! Márcia cedeu da morte à ira?...
Oh! como poderá viver sem ela,
O amante, que por ela em vão suspira?
Constância Lima Barbosa
Aquele coração, em que eu reinava,
O rosto, em que meus olhos se reviam,
Os lábios, que a voz doce desprendiam,
Que de minha alma os seios penetrava:
O peito, que a meu peito eu apertava,
Os braços, que amorosos me cingiam,
Mil graças, prendas mil, que revestiam
O encantador objeto, que adorava.
Tudo ao sepulcro foi com Márcia, aquela
Que eu tanto celebrei na ebúrnea lira,
Na estação juvenil, jucunda, e bela.
Márcia! Márcia cedeu da morte à ira?...
Oh! como poderá viver sem ela,
O amante, que por ela em vão suspira?
1 114
Cunha Santos Filho
Cirrose Azul
São os testículos de Deus que agora arranco
na marcha em que não marcho pois sou manco
na mesa em que me esfumo no vinho do mal
rolo-me por mim, que sou barranco
choro de beber, choro e me tranco
que nem o olho aceita o choro do chacal
Porque quis eu dar outro murro em Cristo
com toda alma danada de um Buda misto
e ser punido, hoje, por não ter pais
se nem sequer é minha roupa e eu nem visto
quero ser homem — sou apenas quisto
quero ser carne — sou só cicatriz
Não tive a vez do azul quando do gozo
a mim foi dada a queda, nunca o pouso
e outros retesaram-me no chão
assim, ó vil cantiga que eu nem ouso
nesta cama de gato é que eu repouso
ferreado da violenta compulsão
Não irei longe. É certo, me esfarinho
o séquito do demo é o eu sozinho
o eu, ou 10, milhões mamando a paz
— por tantas vezes destruí meu ninho
sou como inseto que alagado em vinho
afoga, arqueja, sofre e bebe mais
Tridente, fogo, rastro de cometa
o mundo onde estou é uma maleta
trancada aos ais das mães e aos ais dos pais
vivo de espirros — gripe de escopeta
entregador de horror, eu estafeta
que desde que se foi, não foi jamais
Bebo meu sangue seco na tigela — e frio —
tantos se juntam pra eu ser vazio
tantos se aninham pra me reverter
eu, que de um só, após, me fiz um trio
durmo em mim mesmo e choro enquanto rio
de ver meu próprio riso apodrecer
..................................................................
Mas há um cão distante que poreja
há uma lombriga douro que me beija
e alguém que ri falido de tormento
há uma carne sem sal, que de sal seja
que eu me mudei pra um balde de cerveja
e fiz de um copo meu apartamento.
na marcha em que não marcho pois sou manco
na mesa em que me esfumo no vinho do mal
rolo-me por mim, que sou barranco
choro de beber, choro e me tranco
que nem o olho aceita o choro do chacal
Porque quis eu dar outro murro em Cristo
com toda alma danada de um Buda misto
e ser punido, hoje, por não ter pais
se nem sequer é minha roupa e eu nem visto
quero ser homem — sou apenas quisto
quero ser carne — sou só cicatriz
Não tive a vez do azul quando do gozo
a mim foi dada a queda, nunca o pouso
e outros retesaram-me no chão
assim, ó vil cantiga que eu nem ouso
nesta cama de gato é que eu repouso
ferreado da violenta compulsão
Não irei longe. É certo, me esfarinho
o séquito do demo é o eu sozinho
o eu, ou 10, milhões mamando a paz
— por tantas vezes destruí meu ninho
sou como inseto que alagado em vinho
afoga, arqueja, sofre e bebe mais
Tridente, fogo, rastro de cometa
o mundo onde estou é uma maleta
trancada aos ais das mães e aos ais dos pais
vivo de espirros — gripe de escopeta
entregador de horror, eu estafeta
que desde que se foi, não foi jamais
Bebo meu sangue seco na tigela — e frio —
tantos se juntam pra eu ser vazio
tantos se aninham pra me reverter
eu, que de um só, após, me fiz um trio
durmo em mim mesmo e choro enquanto rio
de ver meu próprio riso apodrecer
..................................................................
Mas há um cão distante que poreja
há uma lombriga douro que me beija
e alguém que ri falido de tormento
há uma carne sem sal, que de sal seja
que eu me mudei pra um balde de cerveja
e fiz de um copo meu apartamento.
1 168
António Manuel Couto Viana
António Patrício
Não teve tempo de escrever a poesia
Que poderia começar: Em Macau, um Estio…
Estava aqui havia um dia.
Era-lhe tudo, ainda, uma mancha, um vazio.
Talvez quisesse ver, sentir, mais do que a mancha
(Em seda baça, ténues tons esquivos),
Porém, o coração, em Santa Sancha,
Fechou-lhe, pra Macau, os olhos sensitivos.
Cantor do mar e da morte
Que os seus versos souberam envolver, respirar,
Teve a suprema sorte
De achar a morte frente ao mar.
Que poderia começar: Em Macau, um Estio…
Estava aqui havia um dia.
Era-lhe tudo, ainda, uma mancha, um vazio.
Talvez quisesse ver, sentir, mais do que a mancha
(Em seda baça, ténues tons esquivos),
Porém, o coração, em Santa Sancha,
Fechou-lhe, pra Macau, os olhos sensitivos.
Cantor do mar e da morte
Que os seus versos souberam envolver, respirar,
Teve a suprema sorte
De achar a morte frente ao mar.
1 368
Daniel Loureiro
O Carvão e o Tempo
Os dias se repetem
se repetem os dias
Os dias
se repetem
os dias
Eu gostaria de um dia repetir um dia
Em que a gente se encontrasse
se AMAssaSSE
O que te me atrai
é a diferença
e a minha crença... bem...
Beijos
Beijos
TEMPO
O teu pensamento
é meu, penso atento
e o meu desalento
é a tua fuga fácil
TEMPO
As tuas imagens
quase são miragens
impressões elétricas
nas cores vitais
TEMPO
Irradias tantas impressões
e as minhas impressões
por um breve momento
são todo o meu mundo
TEMPO
Calma! já estamos indo
e ele continua vindo
sem nunca esperar
Os dias se repetem
Se repetem os dias
Se repetem
os dias
repetem-se
Então estamos juntos
Bela, etérea e tão real
Estamos juntos
A natureza enlouquece
Juntos
O chumbo não pesa
o tempo despreza
e o carvão...
agora é diamante.
se repetem os dias
Os dias
se repetem
os dias
Eu gostaria de um dia repetir um dia
Em que a gente se encontrasse
se AMAssaSSE
O que te me atrai
é a diferença
e a minha crença... bem...
Beijos
Beijos
TEMPO
O teu pensamento
é meu, penso atento
e o meu desalento
é a tua fuga fácil
TEMPO
As tuas imagens
quase são miragens
impressões elétricas
nas cores vitais
TEMPO
Irradias tantas impressões
e as minhas impressões
por um breve momento
são todo o meu mundo
TEMPO
Calma! já estamos indo
e ele continua vindo
sem nunca esperar
Os dias se repetem
Se repetem os dias
Se repetem
os dias
repetem-se
Então estamos juntos
Bela, etérea e tão real
Estamos juntos
A natureza enlouquece
Juntos
O chumbo não pesa
o tempo despreza
e o carvão...
agora é diamante.
916
António Manuel Couto Viana
No Farol da Guia
Pedi ao Farol da Guia,
Pra que a nau não naufragasse
Na noite que fôr o dia,
Que fosse luz e a guiasse.
E pedi mais:
Que baloiçasse no ar
Os sinais
Do tufão que vai chegar,
Pra que ao abrigo do cais
A nau achasse lugar.
E o primeiro farol
De aviso à navegação
No mundo onde nasce o Sol,
Não me disse sim nem não.
Mas a âncora ancorada,
Como fanal de bonança,
Entre os muros da esplanada,
Disse, sem me dizer nada:
- Tem esperança!
Pra que a nau não naufragasse
Na noite que fôr o dia,
Que fosse luz e a guiasse.
E pedi mais:
Que baloiçasse no ar
Os sinais
Do tufão que vai chegar,
Pra que ao abrigo do cais
A nau achasse lugar.
E o primeiro farol
De aviso à navegação
No mundo onde nasce o Sol,
Não me disse sim nem não.
Mas a âncora ancorada,
Como fanal de bonança,
Entre os muros da esplanada,
Disse, sem me dizer nada:
- Tem esperança!
1 607
Corrêa da Silva
Saudade
De xale posto nos ombros,
toda vestida de preto, acurvada,
de cabelos de neve e de rosto enrugado,
Dona Maria Teresa Moniz e Vasconcelos
volta de assistir à sua missa de todo santo dia...
E miudinha, ligeira, qual uma cigarra,
parece, até que está correndo... Fugindo...
Com medo do sol, que enche a cidade inteira,
— casas e ruas, ruas e casas — nesta manhã dominical,
com a sua luz gloriosa, fascinante e entontecedora
Dona Maria Teresa Moniz e Vasconcelos
chega à porta do seu imponente sobradão colonial
Entra. Sobe os dois lances da comprida escada
e rapidamente atravessa a varanda senhorial...
Agora está trancada, sozinha no seu quarto,
o aposento mais querido, dentre todos,
cheirando muito a velhice e a mistério,
cheio de imagens de santos e de móveis antigos...
(Aposento que vive sempre fechado pra toda gente...)
Dona Maria Teresa Moniz e Vasconcelos
abre, bem devagarinho, bem devagarinho, a sua bolsa....
Tira de dentro uma pequenina chave de prata... Depois,
silenciosa, chega pra perto da cômoda de jacarandá
e, curvada, quase de joelhos, puxa o último gavetão...
A suas mãos fidalgas, tão brancas e tão magras,
mãos leves e lindas, mãos longas e frias,
estão tremendo... Tremendo... Tremendo de emoção
Ela guarda, já nem sabe há quanto tempo,
naquele pesado gavetão da cômoda de jacarandá,
as doces e puras e simples lembranças
de seu longínquo e inesquecível romance da mocidade...
Uma flor... Uma carta... Um retrato...
toda vestida de preto, acurvada,
de cabelos de neve e de rosto enrugado,
Dona Maria Teresa Moniz e Vasconcelos
volta de assistir à sua missa de todo santo dia...
E miudinha, ligeira, qual uma cigarra,
parece, até que está correndo... Fugindo...
Com medo do sol, que enche a cidade inteira,
— casas e ruas, ruas e casas — nesta manhã dominical,
com a sua luz gloriosa, fascinante e entontecedora
Dona Maria Teresa Moniz e Vasconcelos
chega à porta do seu imponente sobradão colonial
Entra. Sobe os dois lances da comprida escada
e rapidamente atravessa a varanda senhorial...
Agora está trancada, sozinha no seu quarto,
o aposento mais querido, dentre todos,
cheirando muito a velhice e a mistério,
cheio de imagens de santos e de móveis antigos...
(Aposento que vive sempre fechado pra toda gente...)
Dona Maria Teresa Moniz e Vasconcelos
abre, bem devagarinho, bem devagarinho, a sua bolsa....
Tira de dentro uma pequenina chave de prata... Depois,
silenciosa, chega pra perto da cômoda de jacarandá
e, curvada, quase de joelhos, puxa o último gavetão...
A suas mãos fidalgas, tão brancas e tão magras,
mãos leves e lindas, mãos longas e frias,
estão tremendo... Tremendo... Tremendo de emoção
Ela guarda, já nem sabe há quanto tempo,
naquele pesado gavetão da cômoda de jacarandá,
as doces e puras e simples lembranças
de seu longínquo e inesquecível romance da mocidade...
Uma flor... Uma carta... Um retrato...
396
Corrêa da Silva
Saudade
De xale posto nos ombros,
toda vestida de preto, acurvada,
de cabelos de neve e de rosto enrugado,
Dona Maria Teresa Moniz e Vasconcelos
volta de assistir à sua missa de todo santo dia...
E miudinha, ligeira, qual uma cigarra,
parece, até que está correndo... Fugindo...
Com medo do sol, que enche a cidade inteira,
— casas e ruas, ruas e casas — nesta manhã dominical,
com a sua luz gloriosa, fascinante e entontecedora
Dona Maria Teresa Moniz e Vasconcelos
chega à porta do seu imponente sobradão colonial
Entra. Sobe os dois lances da comprida escada
e rapidamente atravessa a varanda senhorial...
Agora está trancada, sozinha no seu quarto,
o aposento mais querido, dentre todos,
cheirando muito a velhice e a mistério,
cheio de imagens de santos e de móveis antigos...
(Aposento que vive sempre fechado pra toda gente...)
Dona Maria Teresa Moniz e Vasconcelos
abre, bem devagarinho, bem devagarinho, a sua bolsa....
Tira de dentro uma pequenina chave de prata... Depois,
silenciosa, chega pra perto da cômoda de jacarandá
e, curvada, quase de joelhos, puxa o último gavetão...
A suas mãos fidalgas, tão brancas e tão magras,
mãos leves e lindas, mãos longas e frias,
estão tremendo... Tremendo... Tremendo de emoção
Ela guarda, já nem sabe há quanto tempo,
naquele pesado gavetão da cômoda de jacarandá,
as doces e puras e simples lembranças
de seu longínquo e inesquecível romance da mocidade...
Uma flor... Uma carta... Um retrato...
toda vestida de preto, acurvada,
de cabelos de neve e de rosto enrugado,
Dona Maria Teresa Moniz e Vasconcelos
volta de assistir à sua missa de todo santo dia...
E miudinha, ligeira, qual uma cigarra,
parece, até que está correndo... Fugindo...
Com medo do sol, que enche a cidade inteira,
— casas e ruas, ruas e casas — nesta manhã dominical,
com a sua luz gloriosa, fascinante e entontecedora
Dona Maria Teresa Moniz e Vasconcelos
chega à porta do seu imponente sobradão colonial
Entra. Sobe os dois lances da comprida escada
e rapidamente atravessa a varanda senhorial...
Agora está trancada, sozinha no seu quarto,
o aposento mais querido, dentre todos,
cheirando muito a velhice e a mistério,
cheio de imagens de santos e de móveis antigos...
(Aposento que vive sempre fechado pra toda gente...)
Dona Maria Teresa Moniz e Vasconcelos
abre, bem devagarinho, bem devagarinho, a sua bolsa....
Tira de dentro uma pequenina chave de prata... Depois,
silenciosa, chega pra perto da cômoda de jacarandá
e, curvada, quase de joelhos, puxa o último gavetão...
A suas mãos fidalgas, tão brancas e tão magras,
mãos leves e lindas, mãos longas e frias,
estão tremendo... Tremendo... Tremendo de emoção
Ela guarda, já nem sabe há quanto tempo,
naquele pesado gavetão da cômoda de jacarandá,
as doces e puras e simples lembranças
de seu longínquo e inesquecível romance da mocidade...
Uma flor... Uma carta... Um retrato...
396
Corrêa da Silva
Saudade
De xale posto nos ombros,
toda vestida de preto, acurvada,
de cabelos de neve e de rosto enrugado,
Dona Maria Teresa Moniz e Vasconcelos
volta de assistir à sua missa de todo santo dia...
E miudinha, ligeira, qual uma cigarra,
parece, até que está correndo... Fugindo...
Com medo do sol, que enche a cidade inteira,
— casas e ruas, ruas e casas — nesta manhã dominical,
com a sua luz gloriosa, fascinante e entontecedora
Dona Maria Teresa Moniz e Vasconcelos
chega à porta do seu imponente sobradão colonial
Entra. Sobe os dois lances da comprida escada
e rapidamente atravessa a varanda senhorial...
Agora está trancada, sozinha no seu quarto,
o aposento mais querido, dentre todos,
cheirando muito a velhice e a mistério,
cheio de imagens de santos e de móveis antigos...
(Aposento que vive sempre fechado pra toda gente...)
Dona Maria Teresa Moniz e Vasconcelos
abre, bem devagarinho, bem devagarinho, a sua bolsa....
Tira de dentro uma pequenina chave de prata... Depois,
silenciosa, chega pra perto da cômoda de jacarandá
e, curvada, quase de joelhos, puxa o último gavetão...
A suas mãos fidalgas, tão brancas e tão magras,
mãos leves e lindas, mãos longas e frias,
estão tremendo... Tremendo... Tremendo de emoção
Ela guarda, já nem sabe há quanto tempo,
naquele pesado gavetão da cômoda de jacarandá,
as doces e puras e simples lembranças
de seu longínquo e inesquecível romance da mocidade...
Uma flor... Uma carta... Um retrato...
toda vestida de preto, acurvada,
de cabelos de neve e de rosto enrugado,
Dona Maria Teresa Moniz e Vasconcelos
volta de assistir à sua missa de todo santo dia...
E miudinha, ligeira, qual uma cigarra,
parece, até que está correndo... Fugindo...
Com medo do sol, que enche a cidade inteira,
— casas e ruas, ruas e casas — nesta manhã dominical,
com a sua luz gloriosa, fascinante e entontecedora
Dona Maria Teresa Moniz e Vasconcelos
chega à porta do seu imponente sobradão colonial
Entra. Sobe os dois lances da comprida escada
e rapidamente atravessa a varanda senhorial...
Agora está trancada, sozinha no seu quarto,
o aposento mais querido, dentre todos,
cheirando muito a velhice e a mistério,
cheio de imagens de santos e de móveis antigos...
(Aposento que vive sempre fechado pra toda gente...)
Dona Maria Teresa Moniz e Vasconcelos
abre, bem devagarinho, bem devagarinho, a sua bolsa....
Tira de dentro uma pequenina chave de prata... Depois,
silenciosa, chega pra perto da cômoda de jacarandá
e, curvada, quase de joelhos, puxa o último gavetão...
A suas mãos fidalgas, tão brancas e tão magras,
mãos leves e lindas, mãos longas e frias,
estão tremendo... Tremendo... Tremendo de emoção
Ela guarda, já nem sabe há quanto tempo,
naquele pesado gavetão da cômoda de jacarandá,
as doces e puras e simples lembranças
de seu longínquo e inesquecível romance da mocidade...
Uma flor... Uma carta... Um retrato...
396
Clóvis Ramos
São Luís
I
Em São Luís há sobradões, ermidas
que lembram do passado o tempo nobre,
a beleza sem par, que não se encobre
no silêncio das coisas esquecidas.
Pelas ruas estreitas e avenidas,
quanta história de amor! Basta se dobre
uma esquina e, de novo, rico ou pobre,
vibram no coração doces feridas!
Ah! tudo em São Luís vira poesia
na saudade que vem, terna saudade,
que nos maltrata e nos alivia!
E sonhando um amor, espero, ainda,
rever a terra da felicidade,
que tanto quero, com ternura infinda.
II
Estou em São Luís e, novamente,
cantarola em meu peito um amor antigo.
Digo num verso comovido e ardente,
tudo o que sinto como meu castigo.
Por uma rua ensolarada sigo
e meu pensar, talvez, ninguém pressente.
Ahi meu sonho de amor, que ainda persigo!
Ai! saudade que fere ferozmente!
Pelas praças, que flores perfumosas!
O sol as beija como beija as rosas
dos lábios da mulher que se quer bem.
São Luís é a cidade da ternura...
Em cada canto um sonho meu perdura,
perdura, em cada canto, o olhar de alguém.
Em São Luís há sobradões, ermidas
que lembram do passado o tempo nobre,
a beleza sem par, que não se encobre
no silêncio das coisas esquecidas.
Pelas ruas estreitas e avenidas,
quanta história de amor! Basta se dobre
uma esquina e, de novo, rico ou pobre,
vibram no coração doces feridas!
Ah! tudo em São Luís vira poesia
na saudade que vem, terna saudade,
que nos maltrata e nos alivia!
E sonhando um amor, espero, ainda,
rever a terra da felicidade,
que tanto quero, com ternura infinda.
II
Estou em São Luís e, novamente,
cantarola em meu peito um amor antigo.
Digo num verso comovido e ardente,
tudo o que sinto como meu castigo.
Por uma rua ensolarada sigo
e meu pensar, talvez, ninguém pressente.
Ahi meu sonho de amor, que ainda persigo!
Ai! saudade que fere ferozmente!
Pelas praças, que flores perfumosas!
O sol as beija como beija as rosas
dos lábios da mulher que se quer bem.
São Luís é a cidade da ternura...
Em cada canto um sonho meu perdura,
perdura, em cada canto, o olhar de alguém.
1 144
Dante Milano
O Amor de Agora é o Mesmo Amor de Outrora
O Amor de Agora é o Mesmo Amor de Outrora
O amor de agora é o mesmo amor de outrora
Em que concentro o espírito abstraído,
Um sentimento que não tem sentido,
Uma parte de mim que se evapora.
Amor que me alimenta e me devora,
E este pressentimento indefinido
Que me causa a impressão de andar perdido
Em busca de outrem pela vida afora.
Assim percorro uma existência incerta
Como quem sonha, noutro mundo acorda,
E em sua treva um ser de luz desperta.
E sinto, como o céu visto do inferno,
Na vida que contenho mas transborda,
Qualquer coisa de agora mas de eterno.
O amor de agora é o mesmo amor de outrora
Em que concentro o espírito abstraído,
Um sentimento que não tem sentido,
Uma parte de mim que se evapora.
Amor que me alimenta e me devora,
E este pressentimento indefinido
Que me causa a impressão de andar perdido
Em busca de outrem pela vida afora.
Assim percorro uma existência incerta
Como quem sonha, noutro mundo acorda,
E em sua treva um ser de luz desperta.
E sinto, como o céu visto do inferno,
Na vida que contenho mas transborda,
Qualquer coisa de agora mas de eterno.
1 309
Pedro Dantas
A Cachorra
Veio uma angústia de cima,
Pelos ombros me agarrou,
No mais fundo do meu peito
Sua lâmina cravou.
Depois que no chão desfeito
O meu corpo estrebuchou,
Pelos cabelos a fera
Sobre pedras me arrastou.
Meu corpo, se espedaçou.
Mas ainda não satisfeita,
Nova vida me insuflou:
Para mostrar poderio,
Com a sua mão direita
Uma cidade arrasou,
Na esquerda tomou um rio,
Fogo nas águas soprou,
As águas todas do rio
Com seu hálito secou.
I.evou-me aos cimos mais altos,
No ar me imobilizou,
Depois, em súbitos saltos,
A garra adunca fincando
No meu coração, lá do alto
Soltou um grito nefando
E sobre o mar me atirou.
Ali! nas águas do mar alto
Meu corpo logo afundou.
Veio buscar-me de novo:
Angina-péctoris, polvo,
Meu coração sufocou
E tais surras de chicote
Me deu, que a cada lambada
Minhalma mortificada,
Minhalma perto da morte,
Só a morte desejou;
Meu rosto esfregou na lama,
As faces me babujou
E quando, à atroz azafama,
O meu olhar se turvou,
Vencido, entregue, arquejante
— Perdido o sangue das veias —
Na praia, sobre as areias,
Meu corpo exausto rodou.
Ali! pobre corpo do amante
Que até o fim se humilhou!
Então um riso infamante
As fauces lhe escancarou,
Zombou da minha tolice:
— "Eu sou a Cachorra", disse,
"Tu me chamaste: aqui estou."
A essa voz dissiparam-se as sombras
E enquanto ela me mastigava os últimos restos da memória
Senti que da sua boca nasciam rosas
E vi que o céu se rasgava para a maravilhosa aparição.
Pelos ombros me agarrou,
No mais fundo do meu peito
Sua lâmina cravou.
Depois que no chão desfeito
O meu corpo estrebuchou,
Pelos cabelos a fera
Sobre pedras me arrastou.
Meu corpo, se espedaçou.
Mas ainda não satisfeita,
Nova vida me insuflou:
Para mostrar poderio,
Com a sua mão direita
Uma cidade arrasou,
Na esquerda tomou um rio,
Fogo nas águas soprou,
As águas todas do rio
Com seu hálito secou.
I.evou-me aos cimos mais altos,
No ar me imobilizou,
Depois, em súbitos saltos,
A garra adunca fincando
No meu coração, lá do alto
Soltou um grito nefando
E sobre o mar me atirou.
Ali! nas águas do mar alto
Meu corpo logo afundou.
Veio buscar-me de novo:
Angina-péctoris, polvo,
Meu coração sufocou
E tais surras de chicote
Me deu, que a cada lambada
Minhalma mortificada,
Minhalma perto da morte,
Só a morte desejou;
Meu rosto esfregou na lama,
As faces me babujou
E quando, à atroz azafama,
O meu olhar se turvou,
Vencido, entregue, arquejante
— Perdido o sangue das veias —
Na praia, sobre as areias,
Meu corpo exausto rodou.
Ali! pobre corpo do amante
Que até o fim se humilhou!
Então um riso infamante
As fauces lhe escancarou,
Zombou da minha tolice:
— "Eu sou a Cachorra", disse,
"Tu me chamaste: aqui estou."
A essa voz dissiparam-se as sombras
E enquanto ela me mastigava os últimos restos da memória
Senti que da sua boca nasciam rosas
E vi que o céu se rasgava para a maravilhosa aparição.
982
Pedro Dantas
A Cachorra
Veio uma angústia de cima,
Pelos ombros me agarrou,
No mais fundo do meu peito
Sua lâmina cravou.
Depois que no chão desfeito
O meu corpo estrebuchou,
Pelos cabelos a fera
Sobre pedras me arrastou.
Meu corpo, se espedaçou.
Mas ainda não satisfeita,
Nova vida me insuflou:
Para mostrar poderio,
Com a sua mão direita
Uma cidade arrasou,
Na esquerda tomou um rio,
Fogo nas águas soprou,
As águas todas do rio
Com seu hálito secou.
I.evou-me aos cimos mais altos,
No ar me imobilizou,
Depois, em súbitos saltos,
A garra adunca fincando
No meu coração, lá do alto
Soltou um grito nefando
E sobre o mar me atirou.
Ali! nas águas do mar alto
Meu corpo logo afundou.
Veio buscar-me de novo:
Angina-péctoris, polvo,
Meu coração sufocou
E tais surras de chicote
Me deu, que a cada lambada
Minhalma mortificada,
Minhalma perto da morte,
Só a morte desejou;
Meu rosto esfregou na lama,
As faces me babujou
E quando, à atroz azafama,
O meu olhar se turvou,
Vencido, entregue, arquejante
— Perdido o sangue das veias —
Na praia, sobre as areias,
Meu corpo exausto rodou.
Ali! pobre corpo do amante
Que até o fim se humilhou!
Então um riso infamante
As fauces lhe escancarou,
Zombou da minha tolice:
— "Eu sou a Cachorra", disse,
"Tu me chamaste: aqui estou."
A essa voz dissiparam-se as sombras
E enquanto ela me mastigava os últimos restos da memória
Senti que da sua boca nasciam rosas
E vi que o céu se rasgava para a maravilhosa aparição.
Pelos ombros me agarrou,
No mais fundo do meu peito
Sua lâmina cravou.
Depois que no chão desfeito
O meu corpo estrebuchou,
Pelos cabelos a fera
Sobre pedras me arrastou.
Meu corpo, se espedaçou.
Mas ainda não satisfeita,
Nova vida me insuflou:
Para mostrar poderio,
Com a sua mão direita
Uma cidade arrasou,
Na esquerda tomou um rio,
Fogo nas águas soprou,
As águas todas do rio
Com seu hálito secou.
I.evou-me aos cimos mais altos,
No ar me imobilizou,
Depois, em súbitos saltos,
A garra adunca fincando
No meu coração, lá do alto
Soltou um grito nefando
E sobre o mar me atirou.
Ali! nas águas do mar alto
Meu corpo logo afundou.
Veio buscar-me de novo:
Angina-péctoris, polvo,
Meu coração sufocou
E tais surras de chicote
Me deu, que a cada lambada
Minhalma mortificada,
Minhalma perto da morte,
Só a morte desejou;
Meu rosto esfregou na lama,
As faces me babujou
E quando, à atroz azafama,
O meu olhar se turvou,
Vencido, entregue, arquejante
— Perdido o sangue das veias —
Na praia, sobre as areias,
Meu corpo exausto rodou.
Ali! pobre corpo do amante
Que até o fim se humilhou!
Então um riso infamante
As fauces lhe escancarou,
Zombou da minha tolice:
— "Eu sou a Cachorra", disse,
"Tu me chamaste: aqui estou."
A essa voz dissiparam-se as sombras
E enquanto ela me mastigava os últimos restos da memória
Senti que da sua boca nasciam rosas
E vi que o céu se rasgava para a maravilhosa aparição.
982
Caio Porfírio Carneiro
Espelho de Duas Faces
Este livro de Rosani Abou Adal, dividido em segmentos, conforme a abordagem temática dos poemas, guarda aquela conhecida homogeneidade criadora da poeta, tão sutilmente lírica, que já a consagrou perante a crítica e o público.
Tudo que nasce do talento de Rosani é a um tempo perquirição interior e observação aguda da vida; vibração de amor, do instante erótico à sua contemplação quase divinatória; integração da própria alma à Alma da natureza e das coisas, em alcance ecológico que resiste e denuncia o vezo destruidor do homem; clamor de liberdade, no seu sentido mágico e viageiro, que a leva a outras plagas, como à procura de uma unção plena com o próprio universo; vibração do seu carma, seu id e ego maiores e inconscientes, em procura das suas raízes ancestrais, tão vívidas, como se ela própria se envolvesse num tapete mágico para uma visão e vivência amiga junto ao Nilo e às pirâmides do Egito.
A poesia de Rosani Abou Adal, toda ela, das curtas às maiores, é igualmente um espelho de duas faces, para além do que possa ela ter de multifacetada: é fotográfica e contemplativa. Ou seja: é ela mesma, poeta, e a projeção de si, não com vistas a uma imponderável continuidade da própria vida, mas um quê de busca do amor totalizante, que é, ou há de ser, a solidão somada às inquietações do mundo. O amor, aqui, é erotizante e dadivoso. A solidão, aqui, não se anula em devaneios. Há sempre um caminho de fuga. Rosani, ao mesmo tempo que expõe e mostra, contempla, sublima, vai e vem, mas sem tergiversação.
Presa no meu dormitório
tento dividir a solidão com o peixe
cercado de paredes de vidro.
Auto-retrato, um dos segmentos, não é só a visão e confissão de si própria. Soma-se a isto o que antes foi exposto na abordagem da sua poesia em conjunto.
Estou tão só dentro de mim
que até as estrelas emudeceram.
A metáfora estelar assinala a solidão sofrida e lhe dá o anteparo para que ela, poeta, por mais que se veja só, deixe entreaberta uma visão plena de vida. É que, por outro lado, o seu veio romântico é forte, chegando, às vezes, àquela fulguração só alcançada pelos bons poetas.
Todos os blocos seguem este ritmo notável de contensão e espiralação poética. Como ela própria diz: "Sou uma eremita que divaga nas ruas, / bares, matos, casas, em todos os lugares/ nos dias sem sol, nas noites sem luar e estrelas/ em busca das belezas da vida e da alma."
Rosani parece solfejar canções, espargir oferendas, com a mesma leveza dalma como vai à denúncia com o aríete e o látego. Há um pouco de magia nisto. Há um pouco de mistério invisível nestes poemas. Há um pouco de prece. Há uma totalização de vida.
A Vida exsurge plena nestes poemas de versos notáveis, treliçados de Amor latejante:
No amanhecer, ao meio-dia,
no entardecer, no silêncio da noite,
a todo instante, a cada segundo
beijo tua face, mãos, boca...
E da fragilidade vai em busca da força cósmica:
Há momentos em que me sinto
tão forte quanto as montanhas do Tibet...
Existem instantes em que sou
tão grande quanto a força divina...
Temos, nesta Catedral do Silêncio, não só silêncio ( no seu sentido metafórico), nem só sonhos (como sugeriu o Poeta), mas uma nave ampla de pulsações poéticas que vão à alma de qualquer leitor.
Leia obra poética de Rosani Abou Adal
Tudo que nasce do talento de Rosani é a um tempo perquirição interior e observação aguda da vida; vibração de amor, do instante erótico à sua contemplação quase divinatória; integração da própria alma à Alma da natureza e das coisas, em alcance ecológico que resiste e denuncia o vezo destruidor do homem; clamor de liberdade, no seu sentido mágico e viageiro, que a leva a outras plagas, como à procura de uma unção plena com o próprio universo; vibração do seu carma, seu id e ego maiores e inconscientes, em procura das suas raízes ancestrais, tão vívidas, como se ela própria se envolvesse num tapete mágico para uma visão e vivência amiga junto ao Nilo e às pirâmides do Egito.
A poesia de Rosani Abou Adal, toda ela, das curtas às maiores, é igualmente um espelho de duas faces, para além do que possa ela ter de multifacetada: é fotográfica e contemplativa. Ou seja: é ela mesma, poeta, e a projeção de si, não com vistas a uma imponderável continuidade da própria vida, mas um quê de busca do amor totalizante, que é, ou há de ser, a solidão somada às inquietações do mundo. O amor, aqui, é erotizante e dadivoso. A solidão, aqui, não se anula em devaneios. Há sempre um caminho de fuga. Rosani, ao mesmo tempo que expõe e mostra, contempla, sublima, vai e vem, mas sem tergiversação.
Presa no meu dormitório
tento dividir a solidão com o peixe
cercado de paredes de vidro.
Auto-retrato, um dos segmentos, não é só a visão e confissão de si própria. Soma-se a isto o que antes foi exposto na abordagem da sua poesia em conjunto.
Estou tão só dentro de mim
que até as estrelas emudeceram.
A metáfora estelar assinala a solidão sofrida e lhe dá o anteparo para que ela, poeta, por mais que se veja só, deixe entreaberta uma visão plena de vida. É que, por outro lado, o seu veio romântico é forte, chegando, às vezes, àquela fulguração só alcançada pelos bons poetas.
Todos os blocos seguem este ritmo notável de contensão e espiralação poética. Como ela própria diz: "Sou uma eremita que divaga nas ruas, / bares, matos, casas, em todos os lugares/ nos dias sem sol, nas noites sem luar e estrelas/ em busca das belezas da vida e da alma."
Rosani parece solfejar canções, espargir oferendas, com a mesma leveza dalma como vai à denúncia com o aríete e o látego. Há um pouco de magia nisto. Há um pouco de mistério invisível nestes poemas. Há um pouco de prece. Há uma totalização de vida.
A Vida exsurge plena nestes poemas de versos notáveis, treliçados de Amor latejante:
No amanhecer, ao meio-dia,
no entardecer, no silêncio da noite,
a todo instante, a cada segundo
beijo tua face, mãos, boca...
E da fragilidade vai em busca da força cósmica:
Há momentos em que me sinto
tão forte quanto as montanhas do Tibet...
Existem instantes em que sou
tão grande quanto a força divina...
Temos, nesta Catedral do Silêncio, não só silêncio ( no seu sentido metafórico), nem só sonhos (como sugeriu o Poeta), mas uma nave ampla de pulsações poéticas que vão à alma de qualquer leitor.
Leia obra poética de Rosani Abou Adal
983
Daniel Loureiro
Pra Bom Enten
Em São Paulo o silêncio é vácuo
Em regime militar o silêncio é lei
No campo onde vivi o silêncio é doce
Na bagunça da minha cabeça
o silêncio não existe mais.
Olha a luz
é uma ilusão
Olha o homem
estruturação
Olha a vida
com avidez
Olha o tiro!
e ele ficou ali, estirado.
no enterro
acenderam piras
donde ele renasceu
das próprias cinzas querendo ficar por ali.
Ah! e também havia flores
sempre participantes
das pantes e frantes.
Você me entende
pois pra bom enten
Mas não há bom enten
só há nós e os nós do amor
Tão cantado
Tão falado
Tão pensado
Tão desejado
Tão esquecido
Tão desprezado
Tanta hipocrisia
e a crise ia
continua indo
acho que ligaram na tomada
e tomaram de mim o baú
de cujo fundo saía minha tia
a contar suas histórias...
Mas agora não tenho tempo
se é que alguém tem tempo
O tempo é que tem a gente
bem na palma da mão
e dentre os dedos
Escorri como areia
e as veias inchadas
mostravam cansaço
e o esforço do braço
no espancamento cruel
Sorrindo
Sorri e fui indo
Sorriso lindo
de te ter no meu pensamento
debaixo da janela
no peitoril da sacada
te vejo apoiada
na minha vida
se apóia na minha vida
Em regime militar o silêncio é lei
No campo onde vivi o silêncio é doce
Na bagunça da minha cabeça
o silêncio não existe mais.
Olha a luz
é uma ilusão
Olha o homem
estruturação
Olha a vida
com avidez
Olha o tiro!
e ele ficou ali, estirado.
no enterro
acenderam piras
donde ele renasceu
das próprias cinzas querendo ficar por ali.
Ah! e também havia flores
sempre participantes
das pantes e frantes.
Você me entende
pois pra bom enten
Mas não há bom enten
só há nós e os nós do amor
Tão cantado
Tão falado
Tão pensado
Tão desejado
Tão esquecido
Tão desprezado
Tanta hipocrisia
e a crise ia
continua indo
acho que ligaram na tomada
e tomaram de mim o baú
de cujo fundo saía minha tia
a contar suas histórias...
Mas agora não tenho tempo
se é que alguém tem tempo
O tempo é que tem a gente
bem na palma da mão
e dentre os dedos
Escorri como areia
e as veias inchadas
mostravam cansaço
e o esforço do braço
no espancamento cruel
Sorrindo
Sorri e fui indo
Sorriso lindo
de te ter no meu pensamento
debaixo da janela
no peitoril da sacada
te vejo apoiada
na minha vida
se apóia na minha vida
822
Daniel Loureiro
Pra Bom Enten
Em São Paulo o silêncio é vácuo
Em regime militar o silêncio é lei
No campo onde vivi o silêncio é doce
Na bagunça da minha cabeça
o silêncio não existe mais.
Olha a luz
é uma ilusão
Olha o homem
estruturação
Olha a vida
com avidez
Olha o tiro!
e ele ficou ali, estirado.
no enterro
acenderam piras
donde ele renasceu
das próprias cinzas querendo ficar por ali.
Ah! e também havia flores
sempre participantes
das pantes e frantes.
Você me entende
pois pra bom enten
Mas não há bom enten
só há nós e os nós do amor
Tão cantado
Tão falado
Tão pensado
Tão desejado
Tão esquecido
Tão desprezado
Tanta hipocrisia
e a crise ia
continua indo
acho que ligaram na tomada
e tomaram de mim o baú
de cujo fundo saía minha tia
a contar suas histórias...
Mas agora não tenho tempo
se é que alguém tem tempo
O tempo é que tem a gente
bem na palma da mão
e dentre os dedos
Escorri como areia
e as veias inchadas
mostravam cansaço
e o esforço do braço
no espancamento cruel
Sorrindo
Sorri e fui indo
Sorriso lindo
de te ter no meu pensamento
debaixo da janela
no peitoril da sacada
te vejo apoiada
na minha vida
se apóia na minha vida
Em regime militar o silêncio é lei
No campo onde vivi o silêncio é doce
Na bagunça da minha cabeça
o silêncio não existe mais.
Olha a luz
é uma ilusão
Olha o homem
estruturação
Olha a vida
com avidez
Olha o tiro!
e ele ficou ali, estirado.
no enterro
acenderam piras
donde ele renasceu
das próprias cinzas querendo ficar por ali.
Ah! e também havia flores
sempre participantes
das pantes e frantes.
Você me entende
pois pra bom enten
Mas não há bom enten
só há nós e os nós do amor
Tão cantado
Tão falado
Tão pensado
Tão desejado
Tão esquecido
Tão desprezado
Tanta hipocrisia
e a crise ia
continua indo
acho que ligaram na tomada
e tomaram de mim o baú
de cujo fundo saía minha tia
a contar suas histórias...
Mas agora não tenho tempo
se é que alguém tem tempo
O tempo é que tem a gente
bem na palma da mão
e dentre os dedos
Escorri como areia
e as veias inchadas
mostravam cansaço
e o esforço do braço
no espancamento cruel
Sorrindo
Sorri e fui indo
Sorriso lindo
de te ter no meu pensamento
debaixo da janela
no peitoril da sacada
te vejo apoiada
na minha vida
se apóia na minha vida
822
Daniel Loureiro
Pra Bom Enten
Em São Paulo o silêncio é vácuo
Em regime militar o silêncio é lei
No campo onde vivi o silêncio é doce
Na bagunça da minha cabeça
o silêncio não existe mais.
Olha a luz
é uma ilusão
Olha o homem
estruturação
Olha a vida
com avidez
Olha o tiro!
e ele ficou ali, estirado.
no enterro
acenderam piras
donde ele renasceu
das próprias cinzas querendo ficar por ali.
Ah! e também havia flores
sempre participantes
das pantes e frantes.
Você me entende
pois pra bom enten
Mas não há bom enten
só há nós e os nós do amor
Tão cantado
Tão falado
Tão pensado
Tão desejado
Tão esquecido
Tão desprezado
Tanta hipocrisia
e a crise ia
continua indo
acho que ligaram na tomada
e tomaram de mim o baú
de cujo fundo saía minha tia
a contar suas histórias...
Mas agora não tenho tempo
se é que alguém tem tempo
O tempo é que tem a gente
bem na palma da mão
e dentre os dedos
Escorri como areia
e as veias inchadas
mostravam cansaço
e o esforço do braço
no espancamento cruel
Sorrindo
Sorri e fui indo
Sorriso lindo
de te ter no meu pensamento
debaixo da janela
no peitoril da sacada
te vejo apoiada
na minha vida
se apóia na minha vida
Em regime militar o silêncio é lei
No campo onde vivi o silêncio é doce
Na bagunça da minha cabeça
o silêncio não existe mais.
Olha a luz
é uma ilusão
Olha o homem
estruturação
Olha a vida
com avidez
Olha o tiro!
e ele ficou ali, estirado.
no enterro
acenderam piras
donde ele renasceu
das próprias cinzas querendo ficar por ali.
Ah! e também havia flores
sempre participantes
das pantes e frantes.
Você me entende
pois pra bom enten
Mas não há bom enten
só há nós e os nós do amor
Tão cantado
Tão falado
Tão pensado
Tão desejado
Tão esquecido
Tão desprezado
Tanta hipocrisia
e a crise ia
continua indo
acho que ligaram na tomada
e tomaram de mim o baú
de cujo fundo saía minha tia
a contar suas histórias...
Mas agora não tenho tempo
se é que alguém tem tempo
O tempo é que tem a gente
bem na palma da mão
e dentre os dedos
Escorri como areia
e as veias inchadas
mostravam cansaço
e o esforço do braço
no espancamento cruel
Sorrindo
Sorri e fui indo
Sorriso lindo
de te ter no meu pensamento
debaixo da janela
no peitoril da sacada
te vejo apoiada
na minha vida
se apóia na minha vida
822
Chagas Val
Poema 10
A vida reinventada
na cidade onde achei
o caminho do meu sonho,
o carinho de seu povo,
a face amiga das ruas
me saudando e me levando
a percorrê-las, fruí-las
nesta suave harmonia,
neste abraço inaugural
do evento em que minha alma
se debruça sobre o tempo
e bebo a água das fontes
e me banho neste mar,
minha sede que sacio
mergulhando o tempo fundo
de um rio invisível
cujas águas transparentes
são o sangue dos escravos
ou o leite das crianças,
seios tépidos de mulheres,
negras bocas a sugar
e seus corpos, nus, esbeltos,
delineiam-se no escuro,
formas belas e serenas,
curvas danças se desenham
sobre o solo do passado,
áureos brandos sons de sinos,
silhuetas da memória
na estória de quem canta
a cidade que nasceu
e cresceu verde-luares,
suas claras mãos de moça
neste abraço comovido.
na cidade onde achei
o caminho do meu sonho,
o carinho de seu povo,
a face amiga das ruas
me saudando e me levando
a percorrê-las, fruí-las
nesta suave harmonia,
neste abraço inaugural
do evento em que minha alma
se debruça sobre o tempo
e bebo a água das fontes
e me banho neste mar,
minha sede que sacio
mergulhando o tempo fundo
de um rio invisível
cujas águas transparentes
são o sangue dos escravos
ou o leite das crianças,
seios tépidos de mulheres,
negras bocas a sugar
e seus corpos, nus, esbeltos,
delineiam-se no escuro,
formas belas e serenas,
curvas danças se desenham
sobre o solo do passado,
áureos brandos sons de sinos,
silhuetas da memória
na estória de quem canta
a cidade que nasceu
e cresceu verde-luares,
suas claras mãos de moça
neste abraço comovido.
1 318
Carolina Vigna Prado
Custos
Você ainda se surpreende. Mérito meu.
Você ainda gosta. Mérito seu.
Custo a compreender sua lógica, se é que existe uma.
Custo a compreender minhas razões. Elas não existem.
Enquanto isso,
você pensa em custos.
Tenho a absoluta certeza de nossa temporalidade.
Me irrito com o desperdício.
Me falta a paciência, me falta tempo.
O tempo é pouco, sempre será.
A consciência da morte não me desespera, apenas me apressa.
Não temos tempo. Nunca o teremos.
Não bastamos.
Seu egocentrismo exacerbado destrói seu prazer.
E você pensa em custos.
Custos.
Que custos?
Não somos únicos.
Não somos os melhores.
Nunca o seremos.
Você ainda gosta. Mérito seu.
Custo a compreender sua lógica, se é que existe uma.
Custo a compreender minhas razões. Elas não existem.
Enquanto isso,
você pensa em custos.
Tenho a absoluta certeza de nossa temporalidade.
Me irrito com o desperdício.
Me falta a paciência, me falta tempo.
O tempo é pouco, sempre será.
A consciência da morte não me desespera, apenas me apressa.
Não temos tempo. Nunca o teremos.
Não bastamos.
Seu egocentrismo exacerbado destrói seu prazer.
E você pensa em custos.
Custos.
Que custos?
Não somos únicos.
Não somos os melhores.
Nunca o seremos.
819
Carolina Vigna Prado
Custos
Você ainda se surpreende. Mérito meu.
Você ainda gosta. Mérito seu.
Custo a compreender sua lógica, se é que existe uma.
Custo a compreender minhas razões. Elas não existem.
Enquanto isso,
você pensa em custos.
Tenho a absoluta certeza de nossa temporalidade.
Me irrito com o desperdício.
Me falta a paciência, me falta tempo.
O tempo é pouco, sempre será.
A consciência da morte não me desespera, apenas me apressa.
Não temos tempo. Nunca o teremos.
Não bastamos.
Seu egocentrismo exacerbado destrói seu prazer.
E você pensa em custos.
Custos.
Que custos?
Não somos únicos.
Não somos os melhores.
Nunca o seremos.
Você ainda gosta. Mérito seu.
Custo a compreender sua lógica, se é que existe uma.
Custo a compreender minhas razões. Elas não existem.
Enquanto isso,
você pensa em custos.
Tenho a absoluta certeza de nossa temporalidade.
Me irrito com o desperdício.
Me falta a paciência, me falta tempo.
O tempo é pouco, sempre será.
A consciência da morte não me desespera, apenas me apressa.
Não temos tempo. Nunca o teremos.
Não bastamos.
Seu egocentrismo exacerbado destrói seu prazer.
E você pensa em custos.
Custos.
Que custos?
Não somos únicos.
Não somos os melhores.
Nunca o seremos.
819