Poemas neste tema
Vida e Existência
Afonso Duarte
Ex-voto da Paisagem
de Coimbra ao Pôr-do-Sol
Sangue de Inês, Coimbra, é o teu ex-voto.
Ah, quem o crime estranha, a morte chora?
Inês, ó miséria, teu nome invoco
Ao rito da paisagem que o memora.
Em teu perfil de magoada ausente
Que Coimbra de lágrimas incensa,
Teu sangue, à mártir, exilou em Poente,
Doou-te o amor espiritual presença.
Teu infortúnio, aos meus lábios, timbra,
Sangüínea a golpes na hora do sol-pôr,
Que aos outonais poentes de Coimbra
O sol é em sacrifício do teu amor,
E em teu lago, cismátíco paúl,
Olho as nuvens do Céu cor de martírios:
Anda tua Alma poluindo o Azul,
Dorida luz viática de círios.
E ao que esta luz fatídica delira
E ao que a paisagem tem de insatisfeito,
Com meus dedos em febre, as mãos na Lira,
Soluçarei cuidados do teu peito.
Teu vulto de "Mors-amor" recomponho
Quando cai em delíquio a tarde exangue:
— E é a paisagem minha Ágora de sonho ,
— E é o poente a Legenda do teu sangue.
"Mors-amor", sinto! é a expressão do Outono
Que vem dos choupos ao cair da folha!
"Mors-amor", ouço! em ritos de abandono
É o olor das pétalas que o vento esfolha!
Desígnio de algum choupo ou cedro velho
Quando o Sol abre o cálice vermelho
Da imensa flor da tarde, eu sinto, eu sei!
Oh!, mãos em holocausto, eu quero vê-los,
Ao Poente, libando os teus cabelos,
Como se fossem áulicos de El-Rei.
Sangue de Inês, Coimbra, é o teu ex-voto.
Ah, quem o crime estranha, a morte chora?
Inês, ó miséria, teu nome invoco
Ao rito da paisagem que o memora.
Em teu perfil de magoada ausente
Que Coimbra de lágrimas incensa,
Teu sangue, à mártir, exilou em Poente,
Doou-te o amor espiritual presença.
Teu infortúnio, aos meus lábios, timbra,
Sangüínea a golpes na hora do sol-pôr,
Que aos outonais poentes de Coimbra
O sol é em sacrifício do teu amor,
E em teu lago, cismátíco paúl,
Olho as nuvens do Céu cor de martírios:
Anda tua Alma poluindo o Azul,
Dorida luz viática de círios.
E ao que esta luz fatídica delira
E ao que a paisagem tem de insatisfeito,
Com meus dedos em febre, as mãos na Lira,
Soluçarei cuidados do teu peito.
Teu vulto de "Mors-amor" recomponho
Quando cai em delíquio a tarde exangue:
— E é a paisagem minha Ágora de sonho ,
— E é o poente a Legenda do teu sangue.
"Mors-amor", sinto! é a expressão do Outono
Que vem dos choupos ao cair da folha!
"Mors-amor", ouço! em ritos de abandono
É o olor das pétalas que o vento esfolha!
Desígnio de algum choupo ou cedro velho
Quando o Sol abre o cálice vermelho
Da imensa flor da tarde, eu sinto, eu sei!
Oh!, mãos em holocausto, eu quero vê-los,
Ao Poente, libando os teus cabelos,
Como se fossem áulicos de El-Rei.
1 163
Adriana Lustosa
Como uma Ovelha
Como uma ovelha
rondo os pastos da boa vontade
enquanto o pastor
saltando de estrela em estrela
propicia o absurdo:
o abismo que era mudo
engole meu grito.
rondo os pastos da boa vontade
enquanto o pastor
saltando de estrela em estrela
propicia o absurdo:
o abismo que era mudo
engole meu grito.
1 095
Augusto de Campos
O atirador
Viam-no, outra vez, cair de bruços,
baleado.
Mas viam outra vez erguer-se, invulnerável,
assombroso, terrível, abatendo-se
e aprumando-se, o atirador fantástico.
baleado.
Mas viam outra vez erguer-se, invulnerável,
assombroso, terrível, abatendo-se
e aprumando-se, o atirador fantástico.
1 547
Amândio César
Par ou Pernão
Lançaram-se os dados
no par ou pernão
e uns foram
outros não.
E houve saudades nos que foram
e revolta nos que não:
os que foram não voltaram
os que ficaram cá estão...
Jogaram-se vidas,
como se jogam dados:
olhos sem luz,
membros amputados
e uns foram outros não...
Vida?... Amor?...
Lançaram-se os dados: Par ou Pernão?
no par ou pernão
e uns foram
outros não.
E houve saudades nos que foram
e revolta nos que não:
os que foram não voltaram
os que ficaram cá estão...
Jogaram-se vidas,
como se jogam dados:
olhos sem luz,
membros amputados
e uns foram outros não...
Vida?... Amor?...
Lançaram-se os dados: Par ou Pernão?
1 045
Amândio César
Par ou Pernão
Lançaram-se os dados
no par ou pernão
e uns foram
outros não.
E houve saudades nos que foram
e revolta nos que não:
os que foram não voltaram
os que ficaram cá estão...
Jogaram-se vidas,
como se jogam dados:
olhos sem luz,
membros amputados
e uns foram outros não...
Vida?... Amor?...
Lançaram-se os dados: Par ou Pernão?
no par ou pernão
e uns foram
outros não.
E houve saudades nos que foram
e revolta nos que não:
os que foram não voltaram
os que ficaram cá estão...
Jogaram-se vidas,
como se jogam dados:
olhos sem luz,
membros amputados
e uns foram outros não...
Vida?... Amor?...
Lançaram-se os dados: Par ou Pernão?
1 045
Antero Coelho Neto
Eu Aprendi a Dizer Sim
Eu aprendi a dizer sim quando via natureza
molhada na manhã alegre do primeiro dia novo.
Eu aprendi a dizer não quando reconheci a fome
no homem indefeso e não achei nenhuma razão.
Eu aprendi a dizer sim quando o dia amanheceu
e fiquei deslumbrado com a esperança renovada.
Eu aprendi a dizer não quando quiseram que traísse
os princípios fundamentais da humanidade em luta.
Eu aprendi a dizer sim quando fui à escola
de minha infância e corri, gritei e... aprendi.
E então o sim e o não passaram a ser inexoráveis
durante todo o resto da vida, depois que aprendi.
molhada na manhã alegre do primeiro dia novo.
Eu aprendi a dizer não quando reconheci a fome
no homem indefeso e não achei nenhuma razão.
Eu aprendi a dizer sim quando o dia amanheceu
e fiquei deslumbrado com a esperança renovada.
Eu aprendi a dizer não quando quiseram que traísse
os princípios fundamentais da humanidade em luta.
Eu aprendi a dizer sim quando fui à escola
de minha infância e corri, gritei e... aprendi.
E então o sim e o não passaram a ser inexoráveis
durante todo o resto da vida, depois que aprendi.
1 433
César Vallejo
VII DE TRILCE
Rumei sem novidade pela listrada rua
que eu cá sei. Tudo sem novidade,
deveras. E fundeei por coisas assim
e fui passado.
Dobrei a rua pela que raras
vezes se passa a bem, saída
heróica para a chaga daquela
esquina viva, nada por metade.
São os grandores,
o grito aquele, a claridade de acarear,
a barreta submersa em seu papel de
já!
Quando a rua está olheirenta de portas
e apregoa de descalços atris
adiar para amanhã as salvas pelos dobres.
Agora formigas ponteiros de minutos
adentram-se adoçadas, adormidas, pouco
dispostas, e se encolhem,
queimados os fogos, nos altos andares de em
1921.
que eu cá sei. Tudo sem novidade,
deveras. E fundeei por coisas assim
e fui passado.
Dobrei a rua pela que raras
vezes se passa a bem, saída
heróica para a chaga daquela
esquina viva, nada por metade.
São os grandores,
o grito aquele, a claridade de acarear,
a barreta submersa em seu papel de
já!
Quando a rua está olheirenta de portas
e apregoa de descalços atris
adiar para amanhã as salvas pelos dobres.
Agora formigas ponteiros de minutos
adentram-se adoçadas, adormidas, pouco
dispostas, e se encolhem,
queimados os fogos, nos altos andares de em
1921.
802
César Vallejo
VII DE TRILCE
Rumei sem novidade pela listrada rua
que eu cá sei. Tudo sem novidade,
deveras. E fundeei por coisas assim
e fui passado.
Dobrei a rua pela que raras
vezes se passa a bem, saída
heróica para a chaga daquela
esquina viva, nada por metade.
São os grandores,
o grito aquele, a claridade de acarear,
a barreta submersa em seu papel de
já!
Quando a rua está olheirenta de portas
e apregoa de descalços atris
adiar para amanhã as salvas pelos dobres.
Agora formigas ponteiros de minutos
adentram-se adoçadas, adormidas, pouco
dispostas, e se encolhem,
queimados os fogos, nos altos andares de em
1921.
que eu cá sei. Tudo sem novidade,
deveras. E fundeei por coisas assim
e fui passado.
Dobrei a rua pela que raras
vezes se passa a bem, saída
heróica para a chaga daquela
esquina viva, nada por metade.
São os grandores,
o grito aquele, a claridade de acarear,
a barreta submersa em seu papel de
já!
Quando a rua está olheirenta de portas
e apregoa de descalços atris
adiar para amanhã as salvas pelos dobres.
Agora formigas ponteiros de minutos
adentram-se adoçadas, adormidas, pouco
dispostas, e se encolhem,
queimados os fogos, nos altos andares de em
1921.
802
Antônio Brasileiro
Estudo 11
Os homens me fizeram assim.
Assim permaneço, assim,
uma constante negação de mim dentro de mim.
Jamais eu fui eu mesmo, eu mesmo,
porque foram os homens que me fizeram,
sempre foram os homens que me fizeram.
Eu sou assim, negando-me negando-me,
— outro irão eu alimentando-se de mim —
porque jamais Eu Mesmo teria sido assim.
Os homens me fizeram o que eu não seria
se eu fosse eu próprio.
Mas sou assim.
Milhões de vozes falam milhões de olhos vêem
milhões de braços clamam milhões de lábios tremem
milhões de peitos sofrem milhões de vozes
calam dentro de mim.
— Outro não eu alimenta-se de mim —
Eu lutarei eu lutarei eu lutarei eu lutarei.
Assim permaneço, assim,
uma constante negação de mim dentro de mim.
Jamais eu fui eu mesmo, eu mesmo,
porque foram os homens que me fizeram,
sempre foram os homens que me fizeram.
Eu sou assim, negando-me negando-me,
— outro irão eu alimentando-se de mim —
porque jamais Eu Mesmo teria sido assim.
Os homens me fizeram o que eu não seria
se eu fosse eu próprio.
Mas sou assim.
Milhões de vozes falam milhões de olhos vêem
milhões de braços clamam milhões de lábios tremem
milhões de peitos sofrem milhões de vozes
calam dentro de mim.
— Outro não eu alimenta-se de mim —
Eu lutarei eu lutarei eu lutarei eu lutarei.
998
António Osório
Sonetos da Ausência III
O que a memória havia sepultado
em sábia rejeição, nos seus arcanos
a ausência faz voltar, ressuscitados
a morta dor, o morto amor, os mortos anos.
As já esquecidas mágoas emergem
deste oceano de lágrimas revoltas
a sargaços se agarram, quase soltas
ao sal amargo dos infrenes ventos.
Em luta uns com os outros os sentidos
Sangue e mem6ria em guerra com o silêncio.
E surge a tentação nesta golfada
de pranto que sufoca as coronárias:
: melhor quem sabe o sofrimento antigo
do que este negror de tua ausência.
em sábia rejeição, nos seus arcanos
a ausência faz voltar, ressuscitados
a morta dor, o morto amor, os mortos anos.
As já esquecidas mágoas emergem
deste oceano de lágrimas revoltas
a sargaços se agarram, quase soltas
ao sal amargo dos infrenes ventos.
Em luta uns com os outros os sentidos
Sangue e mem6ria em guerra com o silêncio.
E surge a tentação nesta golfada
de pranto que sufoca as coronárias:
: melhor quem sabe o sofrimento antigo
do que este negror de tua ausência.
1 189
Augusto de Campos
Soldado
I
O sol poente desatava, longa,
a sua sombra pelo chão
e
protegido por ela -
braços longamente abertos,
face volvida para os céus -
- um soldado descansava.
Descansava...
havia três meses.
II
- braços longamente abertos,
rosto voltado para os céus,
para os sóis ardentes,
para os luares claros,
para as estrelas fulgurantes...
O sol poente desatava, longa,
a sua sombra pelo chão
e
protegido por ela -
braços longamente abertos,
face volvida para os céus -
- um soldado descansava.
Descansava...
havia três meses.
II
- braços longamente abertos,
rosto voltado para os céus,
para os sóis ardentes,
para os luares claros,
para as estrelas fulgurantes...
1 684
Antônio Brasileiro
Resquício
As horas feitas de flandre
ressoam dentro de mim:
gigante metálico
devorando o tempo.
Na outra sala há um álbum
de retratos tão antigos:
os homens parecem idênticos.
No outro lado da rua
um ancião anda
à semelhança de um
ponto de interrogação.
ressoam dentro de mim:
gigante metálico
devorando o tempo.
Na outra sala há um álbum
de retratos tão antigos:
os homens parecem idênticos.
No outro lado da rua
um ancião anda
à semelhança de um
ponto de interrogação.
1 020
Antônio Brasileiro
Resquício
As horas feitas de flandre
ressoam dentro de mim:
gigante metálico
devorando o tempo.
Na outra sala há um álbum
de retratos tão antigos:
os homens parecem idênticos.
No outro lado da rua
um ancião anda
à semelhança de um
ponto de interrogação.
ressoam dentro de mim:
gigante metálico
devorando o tempo.
Na outra sala há um álbum
de retratos tão antigos:
os homens parecem idênticos.
No outro lado da rua
um ancião anda
à semelhança de um
ponto de interrogação.
1 020
Antônio Brasileiro
Resquício
As horas feitas de flandre
ressoam dentro de mim:
gigante metálico
devorando o tempo.
Na outra sala há um álbum
de retratos tão antigos:
os homens parecem idênticos.
No outro lado da rua
um ancião anda
à semelhança de um
ponto de interrogação.
ressoam dentro de mim:
gigante metálico
devorando o tempo.
Na outra sala há um álbum
de retratos tão antigos:
os homens parecem idênticos.
No outro lado da rua
um ancião anda
à semelhança de um
ponto de interrogação.
1 020
Augusto de Campos
Monte Santo
I
É que em um de seus flancos,
escritas em caligrafia ciclópica
com grandes pedras arrumadas,
apareciam letras singulares
—um A, um L e um S—
ladeadas por uma cruz,
de modo a
fazerem crer
que estava ali e não avante,
para o ocidente ou para o sul,
o eldorado apetecido.
II
E fez-se o templo prodigioso,
monumento
erguido pela natureza e pela fé,
mais alto que as mais altas catedrais da terra.
III
Amparada por muros capeados;
calcada, em certos trechos;
tendo, noutros,
como leito,
a rocha viva talhada em degraus,
ou rampeada,
aquela estrada branca, de quartzito,
onde ressoam, há cem anos,
as litanias das procissões da quaresma
e têm passado legiões de penitentes,
é um prodígio
de engenharia rude e audaciosa.
IV
A religiosidade ingênua dos matutos
ali talhou, em milhares de degraus,
coleante,
em caracol
pelas ladeiras sucessivas,
aquela vereda branca de sílica,
longa de mais de dois quilômetros,
como se construísse
uma estrada para os céus...
É que em um de seus flancos,
escritas em caligrafia ciclópica
com grandes pedras arrumadas,
apareciam letras singulares
—um A, um L e um S—
ladeadas por uma cruz,
de modo a
fazerem crer
que estava ali e não avante,
para o ocidente ou para o sul,
o eldorado apetecido.
II
E fez-se o templo prodigioso,
monumento
erguido pela natureza e pela fé,
mais alto que as mais altas catedrais da terra.
III
Amparada por muros capeados;
calcada, em certos trechos;
tendo, noutros,
como leito,
a rocha viva talhada em degraus,
ou rampeada,
aquela estrada branca, de quartzito,
onde ressoam, há cem anos,
as litanias das procissões da quaresma
e têm passado legiões de penitentes,
é um prodígio
de engenharia rude e audaciosa.
IV
A religiosidade ingênua dos matutos
ali talhou, em milhares de degraus,
coleante,
em caracol
pelas ladeiras sucessivas,
aquela vereda branca de sílica,
longa de mais de dois quilômetros,
como se construísse
uma estrada para os céus...
1 296
Amândio César
Que Hora é Esta?
É em vão que o sol doura
As asperezas da terra:
Secou na seara loura
Toda a esperança que ela encerra.
Baldadas todas as horas,
Todos os passos sem fim.
Murchou de vez o alecrim,
Secaram roxas amoras.
É quente a água das fontes,
Escalda o sangue nas veias:
São de fogo os grãos de areias
E as pragas negras dos montes.
Para quê lutar ainda
Numa luta sem sentido?
Sofre-se por se ter sofrido
Esta angústia que não finda.
Angústia que sobe à boca
Que amarga como a amargura
— Existência mal segura,
Fazenda que mal dá roupa.
Cansaram-se assim de tudo,
Todos nos pesam demais
— Os poetas são jograis
E o seu cantar quase mudo.
As asperezas da terra:
Secou na seara loura
Toda a esperança que ela encerra.
Baldadas todas as horas,
Todos os passos sem fim.
Murchou de vez o alecrim,
Secaram roxas amoras.
É quente a água das fontes,
Escalda o sangue nas veias:
São de fogo os grãos de areias
E as pragas negras dos montes.
Para quê lutar ainda
Numa luta sem sentido?
Sofre-se por se ter sofrido
Esta angústia que não finda.
Angústia que sobe à boca
Que amarga como a amargura
— Existência mal segura,
Fazenda que mal dá roupa.
Cansaram-se assim de tudo,
Todos nos pesam demais
— Os poetas são jograis
E o seu cantar quase mudo.
1 058
Antônio Brasileiro
Estudo 30
1.
Uma cidade não é feita de sonhos,
mas de remorsos. E doem.
Não contarei pois um tempo onde
cavalos marinhos, tramas da noite.
Nosso tempo é assim: seco e compulsório.
2.
A morte dos dias nos
rastros que os olhos cultivam
as lições do acrílico.
O acrílico:
brando golpe de morte
colorido.
3.
Os homens não falam: blablam.
(a boca livre de qualquer minério
ou pedra traumatória —
não há mais bridas, houve. Agora:
hábito)
Nenhuma palavra esquerza: elas ardem.
(não, agora não ardem mais —
a boca livre: o hábito
adocicado)
Uma cidade não é feita de sonhos,
mas de remorsos. E doem.
Não contarei pois um tempo onde
cavalos marinhos, tramas da noite.
Nosso tempo é assim: seco e compulsório.
2.
A morte dos dias nos
rastros que os olhos cultivam
as lições do acrílico.
O acrílico:
brando golpe de morte
colorido.
3.
Os homens não falam: blablam.
(a boca livre de qualquer minério
ou pedra traumatória —
não há mais bridas, houve. Agora:
hábito)
Nenhuma palavra esquerza: elas ardem.
(não, agora não ardem mais —
a boca livre: o hábito
adocicado)
903
Augusto de Campos
A igreja nova
A antiga capela não bastava.
Mal sobranceava os colmos achatados.
Começou a erigir-se a igreja nova.
Delineara-a o próprio Conselheiro,
sem módulos, sem proporções, sem regras.
Frisos grosseiros e volutas impossíveis
cabriolando
num delírio de curvas incorretas.
Era sua obra-prima.
Ali passava os dias,
sobre os andaimes altos e bailéus bamboantes.
O povo enxameando embaixo
estremecia muita vez ao vê-lo
passar, lentamente,
sobre as tábuas flexuosas e oscilantes,
impassível,
sem um tremor no rosto bronzeado e rígido,
feito uma cariátide errante
sobre o edifício monstruoso.
Mal sobranceava os colmos achatados.
Começou a erigir-se a igreja nova.
Delineara-a o próprio Conselheiro,
sem módulos, sem proporções, sem regras.
Frisos grosseiros e volutas impossíveis
cabriolando
num delírio de curvas incorretas.
Era sua obra-prima.
Ali passava os dias,
sobre os andaimes altos e bailéus bamboantes.
O povo enxameando embaixo
estremecia muita vez ao vê-lo
passar, lentamente,
sobre as tábuas flexuosas e oscilantes,
impassível,
sem um tremor no rosto bronzeado e rígido,
feito uma cariátide errante
sobre o edifício monstruoso.
1 712
Antônio Brasileiro
As Chamas Passionais
Eu sou o que sonhava as mil estrelas.
As mil estrelas no peito, uma paixão de fogo
a irromper do peito. Eu sou os sonhos
dos homens, sou as galáxias dos homens
que uma noite se reconheceram.
Não me tragam essas vidas sem assombros:
porque não há sossego.
As chamas passionais — como são fortes!
Ai, como são fortes!
Não, não esperem por mim — que vou morrer,
bebendo a luz da estrela Aidebarã entre uma taça e outra
de agonias.
As mil estrelas no peito, uma paixão de fogo
a irromper do peito. Eu sou os sonhos
dos homens, sou as galáxias dos homens
que uma noite se reconheceram.
Não me tragam essas vidas sem assombros:
porque não há sossego.
As chamas passionais — como são fortes!
Ai, como são fortes!
Não, não esperem por mim — que vou morrer,
bebendo a luz da estrela Aidebarã entre uma taça e outra
de agonias.
1 096
Antônio Brasileiro
Mágoa
1.
Fiz-me embrulho para presente
para ofertar-me aos amigos.
(Sempre fui o mesmo homem:
papel de seda, uma fita.)
2.
Amei tanto, tanto mesmo:
só me chamaram poeta.
Sorri tanto, e só sabiam
que eu tinha dentes bonitos.
3.
Guardei-me um dia no mar
chorei ondas pela praia.
Em mim nasceu uma flor
porque sempre fui jardim.
Fiz-me embrulho para presente
para ofertar-me aos amigos.
(Sempre fui o mesmo homem:
papel de seda, uma fita.)
2.
Amei tanto, tanto mesmo:
só me chamaram poeta.
Sorri tanto, e só sabiam
que eu tinha dentes bonitos.
3.
Guardei-me um dia no mar
chorei ondas pela praia.
Em mim nasceu uma flor
porque sempre fui jardim.
1 110
Amir Calixto Sabbag
Reminiscências
Vento que vem do Sul,
veloz e cantante,
para fazer as nuvens negras
do meu céu cantarem.
Relâmpagos covardes
penetram nas nuvens
e desmancham o espetáculo
da dança no espaço.
Chuvas caem,
formam enxurradas.
Minha mente retrocede:
Lembro-me da infância,
quando soltava
barquinhos de papel.
veloz e cantante,
para fazer as nuvens negras
do meu céu cantarem.
Relâmpagos covardes
penetram nas nuvens
e desmancham o espetáculo
da dança no espaço.
Chuvas caem,
formam enxurradas.
Minha mente retrocede:
Lembro-me da infância,
quando soltava
barquinhos de papel.
1 054
Amir Calixto Sabbag
Reminiscências
Vento que vem do Sul,
veloz e cantante,
para fazer as nuvens negras
do meu céu cantarem.
Relâmpagos covardes
penetram nas nuvens
e desmancham o espetáculo
da dança no espaço.
Chuvas caem,
formam enxurradas.
Minha mente retrocede:
Lembro-me da infância,
quando soltava
barquinhos de papel.
veloz e cantante,
para fazer as nuvens negras
do meu céu cantarem.
Relâmpagos covardes
penetram nas nuvens
e desmancham o espetáculo
da dança no espaço.
Chuvas caem,
formam enxurradas.
Minha mente retrocede:
Lembro-me da infância,
quando soltava
barquinhos de papel.
1 054
Amílcar Dória
Então adormeceu em fundo sono
3.
Então adormeceu em fundo sono.
Mas quando despertou não era outro.
Continuava o mesmo, um ser tristonho
a se indagar do seu tristonho encanto.
Ergueu-se dos recantos da caverna
à luz das tochas vivas da agonia.
E pronto retomou a sua angústia
de se indagar da própria procedência.
Por que sou eu quem sou? - ele dizia.
Por que me deram mãos e um coração
que se perturba a cada vez que o dia
noite se torna, e a noite, madrugada,
enquanto os gatos no telhado miam?
Não sei se o gato tem a ver comigo.
Então adormeceu em fundo sono.
Mas quando despertou não era outro.
Continuava o mesmo, um ser tristonho
a se indagar do seu tristonho encanto.
Ergueu-se dos recantos da caverna
à luz das tochas vivas da agonia.
E pronto retomou a sua angústia
de se indagar da própria procedência.
Por que sou eu quem sou? - ele dizia.
Por que me deram mãos e um coração
que se perturba a cada vez que o dia
noite se torna, e a noite, madrugada,
enquanto os gatos no telhado miam?
Não sei se o gato tem a ver comigo.
965
Amílcar Dória
Então adormeceu em fundo sono
3.
Então adormeceu em fundo sono.
Mas quando despertou não era outro.
Continuava o mesmo, um ser tristonho
a se indagar do seu tristonho encanto.
Ergueu-se dos recantos da caverna
à luz das tochas vivas da agonia.
E pronto retomou a sua angústia
de se indagar da própria procedência.
Por que sou eu quem sou? - ele dizia.
Por que me deram mãos e um coração
que se perturba a cada vez que o dia
noite se torna, e a noite, madrugada,
enquanto os gatos no telhado miam?
Não sei se o gato tem a ver comigo.
Então adormeceu em fundo sono.
Mas quando despertou não era outro.
Continuava o mesmo, um ser tristonho
a se indagar do seu tristonho encanto.
Ergueu-se dos recantos da caverna
à luz das tochas vivas da agonia.
E pronto retomou a sua angústia
de se indagar da própria procedência.
Por que sou eu quem sou? - ele dizia.
Por que me deram mãos e um coração
que se perturba a cada vez que o dia
noite se torna, e a noite, madrugada,
enquanto os gatos no telhado miam?
Não sei se o gato tem a ver comigo.
965