Poemas neste tema
Vida e Existência
Antônio Brasileiro
Canto de Flor e de Ódio
Em vossos campos de flores
muitos mortos brotarão:
chegado é o tempo do ódio.
(vasto ódio líquido inundando,
escorrendo pelas frestas,
povoando os tetos, os telhados;
tempo do ódio recolhido
nas corolas, como orvalho;
tempo do ódio conciso)
Façam-se horas de bronze
façam-se vozes em vossos
campos de flores, caladas.
Marcharemos contra o sol!
Restarão convosco as praças
sobre as calçadas — partidas.
muitos mortos brotarão:
chegado é o tempo do ódio.
(vasto ódio líquido inundando,
escorrendo pelas frestas,
povoando os tetos, os telhados;
tempo do ódio recolhido
nas corolas, como orvalho;
tempo do ódio conciso)
Façam-se horas de bronze
façam-se vozes em vossos
campos de flores, caladas.
Marcharemos contra o sol!
Restarão convosco as praças
sobre as calçadas — partidas.
993
Antero Coelho Neto
Solidão, Meu Vício
Solidão, querida amiga!
Te amo e te desejo,
assim no teu silêncio
e na tua tranqüilidade.
Minha querida Solidão
tu me consolas tanto
e me convidas sempre
para ficar sozinho
nesta gostosa tristeza.
Momento sem dor,
sem dano ou agressão.
Momento do só eu
e de meus pensamentos.
Momento meu só
e de ninguém mais.
Momento que me seduz
e que me encanta.
Onde eu encontro
as palavras do poema,
em que canto à vida
e choro o mundo.
Onde eu grito
as coisas que quero,
da minha maneira,
sem qualquer explicação.
Silêncio do nada dizer,
já que não quero responder
o que ninguém me pergunta.
Sozinho na solidão eu fico
sonhando acordado,
vivendo os meus sonhos
que eu quero viver.
E na solidão e no silêncio,
tenho o meu orgasmo
íntimo e particular
do meu espírito em vôo.
Solidão, meu vício.
Solidão minha vida.
eu te amo e te quero
sempre ao meu lado.
Te amo e te desejo,
assim no teu silêncio
e na tua tranqüilidade.
Minha querida Solidão
tu me consolas tanto
e me convidas sempre
para ficar sozinho
nesta gostosa tristeza.
Momento sem dor,
sem dano ou agressão.
Momento do só eu
e de meus pensamentos.
Momento meu só
e de ninguém mais.
Momento que me seduz
e que me encanta.
Onde eu encontro
as palavras do poema,
em que canto à vida
e choro o mundo.
Onde eu grito
as coisas que quero,
da minha maneira,
sem qualquer explicação.
Silêncio do nada dizer,
já que não quero responder
o que ninguém me pergunta.
Sozinho na solidão eu fico
sonhando acordado,
vivendo os meus sonhos
que eu quero viver.
E na solidão e no silêncio,
tenho o meu orgasmo
íntimo e particular
do meu espírito em vôo.
Solidão, meu vício.
Solidão minha vida.
eu te amo e te quero
sempre ao meu lado.
1 380
Antero Coelho Neto
Estou Velho
Eu procuro as palavras certas
dos meus versos e elas faltam...
Não consigo juntá-las
na idéia clara do que pretendo...
A fantasia é solta
e não consigo revê-la...
Ela vai e não volta mais
enquanto o tempo rápido passa...
E fico eternamente velho
trocando palavras e sonhos
que não tem mais qualquer sentido
que não tem mais nenhum valor...
dos meus versos e elas faltam...
Não consigo juntá-las
na idéia clara do que pretendo...
A fantasia é solta
e não consigo revê-la...
Ela vai e não volta mais
enquanto o tempo rápido passa...
E fico eternamente velho
trocando palavras e sonhos
que não tem mais qualquer sentido
que não tem mais nenhum valor...
1 373
Antero Coelho Neto
Estou Velho
Eu procuro as palavras certas
dos meus versos e elas faltam...
Não consigo juntá-las
na idéia clara do que pretendo...
A fantasia é solta
e não consigo revê-la...
Ela vai e não volta mais
enquanto o tempo rápido passa...
E fico eternamente velho
trocando palavras e sonhos
que não tem mais qualquer sentido
que não tem mais nenhum valor...
dos meus versos e elas faltam...
Não consigo juntá-las
na idéia clara do que pretendo...
A fantasia é solta
e não consigo revê-la...
Ela vai e não volta mais
enquanto o tempo rápido passa...
E fico eternamente velho
trocando palavras e sonhos
que não tem mais qualquer sentido
que não tem mais nenhum valor...
1 373
Antero Coelho Neto
De Novo A Vida
Depois de um sopro,
de novo a vida.
Depois da grande inércia,
novamente o fluxo.
Depois dos tempos de nada,
novamente a emoção.
Depois da grande ausência,
a enorme alegria do movimento.
Depois de um enorme vácuo,
eis que sou alguém outra vez.
De repente,
o pulsar do sangue,
novamente,
rápido,
o coração a bater,
o sangue a correr.
Vivo de novo,
eu conheci você!
de novo a vida.
Depois da grande inércia,
novamente o fluxo.
Depois dos tempos de nada,
novamente a emoção.
Depois da grande ausência,
a enorme alegria do movimento.
Depois de um enorme vácuo,
eis que sou alguém outra vez.
De repente,
o pulsar do sangue,
novamente,
rápido,
o coração a bater,
o sangue a correr.
Vivo de novo,
eu conheci você!
1 155
Antero Coelho Neto
De Novo A Vida
Depois de um sopro,
de novo a vida.
Depois da grande inércia,
novamente o fluxo.
Depois dos tempos de nada,
novamente a emoção.
Depois da grande ausência,
a enorme alegria do movimento.
Depois de um enorme vácuo,
eis que sou alguém outra vez.
De repente,
o pulsar do sangue,
novamente,
rápido,
o coração a bater,
o sangue a correr.
Vivo de novo,
eu conheci você!
de novo a vida.
Depois da grande inércia,
novamente o fluxo.
Depois dos tempos de nada,
novamente a emoção.
Depois da grande ausência,
a enorme alegria do movimento.
Depois de um enorme vácuo,
eis que sou alguém outra vez.
De repente,
o pulsar do sangue,
novamente,
rápido,
o coração a bater,
o sangue a correr.
Vivo de novo,
eu conheci você!
1 155
Antero Coelho Neto
O Início?
Há uma coisa longe,
bem longe, atrás do horizonte
que vem não sei de onde.
Parece luz parece raio.
Lembra tudo e não lembra nada.
Agora é verde, logo amarelo.
Ou é vermelho?
Súbito torna-se opaca.
Volatiliza-se e fica sombra.
Será nossa Origem, nosso Começo?
Há uma coisa longe,
bem longe, não seio que seja.
Parece luz, mas não é.
É muito mais... talvez o Início...
Eu só sei que é longe,
muito longe, muito longe mesmo.
Parece luz, parece raio,
mas não é...
bem longe, atrás do horizonte
que vem não sei de onde.
Parece luz parece raio.
Lembra tudo e não lembra nada.
Agora é verde, logo amarelo.
Ou é vermelho?
Súbito torna-se opaca.
Volatiliza-se e fica sombra.
Será nossa Origem, nosso Começo?
Há uma coisa longe,
bem longe, não seio que seja.
Parece luz, mas não é.
É muito mais... talvez o Início...
Eu só sei que é longe,
muito longe, muito longe mesmo.
Parece luz, parece raio,
mas não é...
1 314
Antero Coelho Neto
O Início?
Há uma coisa longe,
bem longe, atrás do horizonte
que vem não sei de onde.
Parece luz parece raio.
Lembra tudo e não lembra nada.
Agora é verde, logo amarelo.
Ou é vermelho?
Súbito torna-se opaca.
Volatiliza-se e fica sombra.
Será nossa Origem, nosso Começo?
Há uma coisa longe,
bem longe, não seio que seja.
Parece luz, mas não é.
É muito mais... talvez o Início...
Eu só sei que é longe,
muito longe, muito longe mesmo.
Parece luz, parece raio,
mas não é...
bem longe, atrás do horizonte
que vem não sei de onde.
Parece luz parece raio.
Lembra tudo e não lembra nada.
Agora é verde, logo amarelo.
Ou é vermelho?
Súbito torna-se opaca.
Volatiliza-se e fica sombra.
Será nossa Origem, nosso Começo?
Há uma coisa longe,
bem longe, não seio que seja.
Parece luz, mas não é.
É muito mais... talvez o Início...
Eu só sei que é longe,
muito longe, muito longe mesmo.
Parece luz, parece raio,
mas não é...
1 314
António Osório
O Sítio
O mundo sitiou o sonho, e o tem preso
em débeis cidadelas
— suas últimas guaridas.
Os soldados oníricos têm medo
sem armas
e suas caravelas
não têm velas.
Inúteis seus desvelos desarmados
até os sentinelas
fatigados
já estão cedendo ao peso das vigílias.
Vai longo o sítio, e já vão se esgotando
as frágeis provisões
dos sitiados.
O mundo tem seus ásperos soldados
nos dias
pontuais
que na luta não cedem nem recuam.
E nunca erram as duras cimitarras
os seus golpes
diretos e fatais.
O assédio continua, já inúteis os galopes
dos bravos cavaleiros sitiados.
Têm cavalos de mar
e o sítio é em terra.
Têm cavalos de paz
e sítio é guerra.
Fácil de prever o resultado
dos combates travados
desiguais.
Já se aprestam os dias, bons guerreiros
aos ataques certeiros
e finais.
em débeis cidadelas
— suas últimas guaridas.
Os soldados oníricos têm medo
sem armas
e suas caravelas
não têm velas.
Inúteis seus desvelos desarmados
até os sentinelas
fatigados
já estão cedendo ao peso das vigílias.
Vai longo o sítio, e já vão se esgotando
as frágeis provisões
dos sitiados.
O mundo tem seus ásperos soldados
nos dias
pontuais
que na luta não cedem nem recuam.
E nunca erram as duras cimitarras
os seus golpes
diretos e fatais.
O assédio continua, já inúteis os galopes
dos bravos cavaleiros sitiados.
Têm cavalos de mar
e o sítio é em terra.
Têm cavalos de paz
e sítio é guerra.
Fácil de prever o resultado
dos combates travados
desiguais.
Já se aprestam os dias, bons guerreiros
aos ataques certeiros
e finais.
2 001
Adailton Medeiros
Auto-retrato
Diante do espelho grande do tempo
sinto asco
tenho ódio
descubro que não sou mais menino
Aos 50 anos (hoje — 16 / 7 / 88 (câncer) sábado — e sempre
com medo olhando para trás e para os lados)
questiono-me (lagarto sem rabo):
— como deve ser bom
nascer crescer envelhecer e morrer
Diante do espelho grande na porta
(o nascido no jirau: meu nobre catre) choro-me:
feto asno velhote pétreo ser incomunicável
sem qualquer detalhe que eu goste
(Um espermatozóide feio e raquítico)
Como nas cartas do tarô onde me leio
— eis-me aqui espelho grande quebrado ao meio
sinto asco
tenho ódio
descubro que não sou mais menino
Aos 50 anos (hoje — 16 / 7 / 88 (câncer) sábado — e sempre
com medo olhando para trás e para os lados)
questiono-me (lagarto sem rabo):
— como deve ser bom
nascer crescer envelhecer e morrer
Diante do espelho grande na porta
(o nascido no jirau: meu nobre catre) choro-me:
feto asno velhote pétreo ser incomunicável
sem qualquer detalhe que eu goste
(Um espermatozóide feio e raquítico)
Como nas cartas do tarô onde me leio
— eis-me aqui espelho grande quebrado ao meio
944
Adailton Medeiros
Auto-retrato
Diante do espelho grande do tempo
sinto asco
tenho ódio
descubro que não sou mais menino
Aos 50 anos (hoje — 16 / 7 / 88 (câncer) sábado — e sempre
com medo olhando para trás e para os lados)
questiono-me (lagarto sem rabo):
— como deve ser bom
nascer crescer envelhecer e morrer
Diante do espelho grande na porta
(o nascido no jirau: meu nobre catre) choro-me:
feto asno velhote pétreo ser incomunicável
sem qualquer detalhe que eu goste
(Um espermatozóide feio e raquítico)
Como nas cartas do tarô onde me leio
— eis-me aqui espelho grande quebrado ao meio
sinto asco
tenho ódio
descubro que não sou mais menino
Aos 50 anos (hoje — 16 / 7 / 88 (câncer) sábado — e sempre
com medo olhando para trás e para os lados)
questiono-me (lagarto sem rabo):
— como deve ser bom
nascer crescer envelhecer e morrer
Diante do espelho grande na porta
(o nascido no jirau: meu nobre catre) choro-me:
feto asno velhote pétreo ser incomunicável
sem qualquer detalhe que eu goste
(Um espermatozóide feio e raquítico)
Como nas cartas do tarô onde me leio
— eis-me aqui espelho grande quebrado ao meio
944
Adailton Medeiros
Cucu
(No maranhão: faz tanto tempo
— E como dói meu pensamento)
Com estria preta
tal debrum de fita
em redor do olho
lá vai voando —
no bico preto
se debate a lagarta
de jasmim ou de palmeira
( — Colorida?)
— a vela avezinha
que presente
guardo
na memória — hoje descontente
— E como dói meu pensamento)
Com estria preta
tal debrum de fita
em redor do olho
lá vai voando —
no bico preto
se debate a lagarta
de jasmim ou de palmeira
( — Colorida?)
— a vela avezinha
que presente
guardo
na memória — hoje descontente
1 188
Giuseppe Ungaretti
À MEMÓRIA DE
Chamava-se
Maomé Cheabe
Descendente
dos emires dos nómadas
suicida
porque não tinha já
pátria
Amou a França
e mudou de nome
Foi Marcel
mas não era francês
e não sabia já
viver
na tenda dos seus
onde se escuta a cantilena
do Corão
saboreando um café
E não sabia soltar
o canto
do seu abandono
Acompanhei-o
junto com a patroa do hotel
onde habitávamos
em Paris
no nº 5 da Rue des Carmes
murcha viela em descida
Repousa
no cemitério de Ivry
subúrbio que parece
sempre em dia
de uma
feira levantada.
E talvez eu só
ainda saiba
que viveu.
Maomé Cheabe
Descendente
dos emires dos nómadas
suicida
porque não tinha já
pátria
Amou a França
e mudou de nome
Foi Marcel
mas não era francês
e não sabia já
viver
na tenda dos seus
onde se escuta a cantilena
do Corão
saboreando um café
E não sabia soltar
o canto
do seu abandono
Acompanhei-o
junto com a patroa do hotel
onde habitávamos
em Paris
no nº 5 da Rue des Carmes
murcha viela em descida
Repousa
no cemitério de Ivry
subúrbio que parece
sempre em dia
de uma
feira levantada.
E talvez eu só
ainda saiba
que viveu.
1 635
Giuseppe Ungaretti
À MEMÓRIA DE
Chamava-se
Maomé Cheabe
Descendente
dos emires dos nómadas
suicida
porque não tinha já
pátria
Amou a França
e mudou de nome
Foi Marcel
mas não era francês
e não sabia já
viver
na tenda dos seus
onde se escuta a cantilena
do Corão
saboreando um café
E não sabia soltar
o canto
do seu abandono
Acompanhei-o
junto com a patroa do hotel
onde habitávamos
em Paris
no nº 5 da Rue des Carmes
murcha viela em descida
Repousa
no cemitério de Ivry
subúrbio que parece
sempre em dia
de uma
feira levantada.
E talvez eu só
ainda saiba
que viveu.
Maomé Cheabe
Descendente
dos emires dos nómadas
suicida
porque não tinha já
pátria
Amou a França
e mudou de nome
Foi Marcel
mas não era francês
e não sabia já
viver
na tenda dos seus
onde se escuta a cantilena
do Corão
saboreando um café
E não sabia soltar
o canto
do seu abandono
Acompanhei-o
junto com a patroa do hotel
onde habitávamos
em Paris
no nº 5 da Rue des Carmes
murcha viela em descida
Repousa
no cemitério de Ivry
subúrbio que parece
sempre em dia
de uma
feira levantada.
E talvez eu só
ainda saiba
que viveu.
1 635
António Osório
Cântico do Filho Maior
Ao Antônio Cândido
Cresce, filho!
Entre as duras colunas da morte
e não temas a sua altivez
Cresce, filho!
e deixa ferver o teu sangue difícil
na retorta de todos os amores
Cresce, filho!
e canta em dó maior os teus cânticos
sem temor às dissonâncias
Cresce, filho!
e planta se preciso tua semente no granito
porque se a irrigares de vigílias e suores
ela se fará em larga palma
que será baliza para os pássaros
receberá a visita das abelhas
e ajudará o vento a reger as suas orquestras.
Cresce, filho!
e faz de tua face uma lança
de tuas mãos um arado
de teus olhos uma chama
para construir da terra berço e templo
aos homens que estão em ti guardados.
Cresce, filho!
Entre as duras colunas da morte
e não temas a sua altivez
Cresce, filho!
e deixa ferver o teu sangue difícil
na retorta de todos os amores
Cresce, filho!
e canta em dó maior os teus cânticos
sem temor às dissonâncias
Cresce, filho!
e planta se preciso tua semente no granito
porque se a irrigares de vigílias e suores
ela se fará em larga palma
que será baliza para os pássaros
receberá a visita das abelhas
e ajudará o vento a reger as suas orquestras.
Cresce, filho!
e faz de tua face uma lança
de tuas mãos um arado
de teus olhos uma chama
para construir da terra berço e templo
aos homens que estão em ti guardados.
1 246
António Osório
Perguntas a Várias Mãos
Há tanto tempo em busca daquela alegria para sempre
Há de se manter a fé de achar ainda a thing of beauty
Ou de construí-la.
Más hélas! parece há muito que la chair est triste et jai lu tous les livres
Por onde afinal poderemos começar a façonar o mundo?
Recusamo-nos obstinadamente a crer, apesar de tantas evidências
que a vida é um passo na alfombra de um quarto
que jaz vazio
que a vida é um gesto inútil, como disse o amigo
na hora turva de dia já antigo
será uma seta solta no espaço?
entre duas trevas breve clarão?
Le vent se lève. Il faut tenter de vivre!
Há que resistir
Há que resistir ao tempo
Há que resistir ao nada em galope lancinante
neste tropel bravio de angústias e esquivanças.
Quando virás, demiurgo, promover a libertação?
Onde estás Deus, que te escondes?
Quando chegará o ponto ômega, o momento crístico, a parusia?
Quando a cidade do povo, a nova humanidade?
O grito selvagem do sol faz ainda a cada manhã estremecer a terra
E as línguas largas das águas continuam amorosas a relambê-la
não sabemos ainda, soturnos habitantes às vezes afoitos
Quando virá o libertador
Nem o seu nome.
Será que um dia, e quando, os cânticos jubilares do homem
acordarão as potências telárgicas?
Quando afinal o estronho de tantos prantos e blasfêmias
trará Deus de volta a tem?
Ou aqui O criará à imagem de seu barro?
Será que um dia a semente apodrecida de tantas esperanças
fecundará o velho ventre de Demeter?
Não se sabem respostas
Nem as queremos talvez.
Ser homem é perguntar quem sabe
neste solilóquio máquina de tempo
de caixas de músicas esquecidas de suas melodias
manobradas marionetes por um saltimbanco maneta.
Há de se manter a fé de achar ainda a thing of beauty
Ou de construí-la.
Más hélas! parece há muito que la chair est triste et jai lu tous les livres
Por onde afinal poderemos começar a façonar o mundo?
Recusamo-nos obstinadamente a crer, apesar de tantas evidências
que a vida é um passo na alfombra de um quarto
que jaz vazio
que a vida é um gesto inútil, como disse o amigo
na hora turva de dia já antigo
será uma seta solta no espaço?
entre duas trevas breve clarão?
Le vent se lève. Il faut tenter de vivre!
Há que resistir
Há que resistir ao tempo
Há que resistir ao nada em galope lancinante
neste tropel bravio de angústias e esquivanças.
Quando virás, demiurgo, promover a libertação?
Onde estás Deus, que te escondes?
Quando chegará o ponto ômega, o momento crístico, a parusia?
Quando a cidade do povo, a nova humanidade?
O grito selvagem do sol faz ainda a cada manhã estremecer a terra
E as línguas largas das águas continuam amorosas a relambê-la
não sabemos ainda, soturnos habitantes às vezes afoitos
Quando virá o libertador
Nem o seu nome.
Será que um dia, e quando, os cânticos jubilares do homem
acordarão as potências telárgicas?
Quando afinal o estronho de tantos prantos e blasfêmias
trará Deus de volta a tem?
Ou aqui O criará à imagem de seu barro?
Será que um dia a semente apodrecida de tantas esperanças
fecundará o velho ventre de Demeter?
Não se sabem respostas
Nem as queremos talvez.
Ser homem é perguntar quem sabe
neste solilóquio máquina de tempo
de caixas de músicas esquecidas de suas melodias
manobradas marionetes por um saltimbanco maneta.
1 258
António Osório
Perguntas a Várias Mãos
Há tanto tempo em busca daquela alegria para sempre
Há de se manter a fé de achar ainda a thing of beauty
Ou de construí-la.
Más hélas! parece há muito que la chair est triste et jai lu tous les livres
Por onde afinal poderemos começar a façonar o mundo?
Recusamo-nos obstinadamente a crer, apesar de tantas evidências
que a vida é um passo na alfombra de um quarto
que jaz vazio
que a vida é um gesto inútil, como disse o amigo
na hora turva de dia já antigo
será uma seta solta no espaço?
entre duas trevas breve clarão?
Le vent se lève. Il faut tenter de vivre!
Há que resistir
Há que resistir ao tempo
Há que resistir ao nada em galope lancinante
neste tropel bravio de angústias e esquivanças.
Quando virás, demiurgo, promover a libertação?
Onde estás Deus, que te escondes?
Quando chegará o ponto ômega, o momento crístico, a parusia?
Quando a cidade do povo, a nova humanidade?
O grito selvagem do sol faz ainda a cada manhã estremecer a terra
E as línguas largas das águas continuam amorosas a relambê-la
não sabemos ainda, soturnos habitantes às vezes afoitos
Quando virá o libertador
Nem o seu nome.
Será que um dia, e quando, os cânticos jubilares do homem
acordarão as potências telárgicas?
Quando afinal o estronho de tantos prantos e blasfêmias
trará Deus de volta a tem?
Ou aqui O criará à imagem de seu barro?
Será que um dia a semente apodrecida de tantas esperanças
fecundará o velho ventre de Demeter?
Não se sabem respostas
Nem as queremos talvez.
Ser homem é perguntar quem sabe
neste solilóquio máquina de tempo
de caixas de músicas esquecidas de suas melodias
manobradas marionetes por um saltimbanco maneta.
Há de se manter a fé de achar ainda a thing of beauty
Ou de construí-la.
Más hélas! parece há muito que la chair est triste et jai lu tous les livres
Por onde afinal poderemos começar a façonar o mundo?
Recusamo-nos obstinadamente a crer, apesar de tantas evidências
que a vida é um passo na alfombra de um quarto
que jaz vazio
que a vida é um gesto inútil, como disse o amigo
na hora turva de dia já antigo
será uma seta solta no espaço?
entre duas trevas breve clarão?
Le vent se lève. Il faut tenter de vivre!
Há que resistir
Há que resistir ao tempo
Há que resistir ao nada em galope lancinante
neste tropel bravio de angústias e esquivanças.
Quando virás, demiurgo, promover a libertação?
Onde estás Deus, que te escondes?
Quando chegará o ponto ômega, o momento crístico, a parusia?
Quando a cidade do povo, a nova humanidade?
O grito selvagem do sol faz ainda a cada manhã estremecer a terra
E as línguas largas das águas continuam amorosas a relambê-la
não sabemos ainda, soturnos habitantes às vezes afoitos
Quando virá o libertador
Nem o seu nome.
Será que um dia, e quando, os cânticos jubilares do homem
acordarão as potências telárgicas?
Quando afinal o estronho de tantos prantos e blasfêmias
trará Deus de volta a tem?
Ou aqui O criará à imagem de seu barro?
Será que um dia a semente apodrecida de tantas esperanças
fecundará o velho ventre de Demeter?
Não se sabem respostas
Nem as queremos talvez.
Ser homem é perguntar quem sabe
neste solilóquio máquina de tempo
de caixas de músicas esquecidas de suas melodias
manobradas marionetes por um saltimbanco maneta.
1 258
Adriana Lustosa
Tenho que esperar
Tenho que esperar
o outono
o sopro divino
que o intransitivo verbo
se complete.
Esperar, esperar
o sorriso cotidiano
um sentido
Me espera!
Finge que me ama
e solta o trilho
do trem que vem vazio
Você dispara o revólver
e acerta o futuro
ficamos
eu, na corda bamba
você, no muro.
E se falhar o amor
que outra fantasia invento?
E se o lobo ávido
der comigo sedenta e ambigua
e não me reconhecer?
Se falhar o construção
aproveito-me da linguagem:
minto.
Soa falso esse sino
Blém blém no meu peito
No meu peito esse sino
Blém, blém. Blém, blém.
O peito campanério de um amor suspeito
Aflita fico.
Soa falso esse sino
Blém bém no meu peito.
De amores morreu Dolores;
das cores, das dores,
da vida levou flores.
Não vinga a vida:
Morre Dolores.
No peito um amor quase sem cor;
quase dor,
flor despetalando sem perdão.
De luto espero aflito pelo seu caixão.
Na noite enluarada sinto frio.
mato Dolores dentro de mim
e conheço Augusta.
o outono
o sopro divino
que o intransitivo verbo
se complete.
Esperar, esperar
o sorriso cotidiano
um sentido
Me espera!
Finge que me ama
e solta o trilho
do trem que vem vazio
Você dispara o revólver
e acerta o futuro
ficamos
eu, na corda bamba
você, no muro.
E se falhar o amor
que outra fantasia invento?
E se o lobo ávido
der comigo sedenta e ambigua
e não me reconhecer?
Se falhar o construção
aproveito-me da linguagem:
minto.
Soa falso esse sino
Blém blém no meu peito
No meu peito esse sino
Blém, blém. Blém, blém.
O peito campanério de um amor suspeito
Aflita fico.
Soa falso esse sino
Blém bém no meu peito.
De amores morreu Dolores;
das cores, das dores,
da vida levou flores.
Não vinga a vida:
Morre Dolores.
No peito um amor quase sem cor;
quase dor,
flor despetalando sem perdão.
De luto espero aflito pelo seu caixão.
Na noite enluarada sinto frio.
mato Dolores dentro de mim
e conheço Augusta.
1 030
Augusto de Campos
Os crentes
Não inquiriram para onde seguiam.
E atravessaram serranias íngremes,
tabuleiros estéreis e chapadas rasas
na marcha cadenciada pelo toar das ladainhas
e pelo passo tardo do profeta...
TOCAIA
Dentre as frinchas,
dentre os esconderijos,
dentre as moitas esparsas, aprumados
no alto dos muramentos rudes,
ou em despenhos ao viés das vertentes
—apareceram os jagunços,
num repentino deflagrar de tiros.
Toda a expedição caiu, de ponta a ponta,
debaixo das trincheiras do Cambaio.
E atravessaram serranias íngremes,
tabuleiros estéreis e chapadas rasas
na marcha cadenciada pelo toar das ladainhas
e pelo passo tardo do profeta...
TOCAIA
Dentre as frinchas,
dentre os esconderijos,
dentre as moitas esparsas, aprumados
no alto dos muramentos rudes,
ou em despenhos ao viés das vertentes
—apareceram os jagunços,
num repentino deflagrar de tiros.
Toda a expedição caiu, de ponta a ponta,
debaixo das trincheiras do Cambaio.
1 303
Augusto de Campos
Os crentes
Não inquiriram para onde seguiam.
E atravessaram serranias íngremes,
tabuleiros estéreis e chapadas rasas
na marcha cadenciada pelo toar das ladainhas
e pelo passo tardo do profeta...
TOCAIA
Dentre as frinchas,
dentre os esconderijos,
dentre as moitas esparsas, aprumados
no alto dos muramentos rudes,
ou em despenhos ao viés das vertentes
—apareceram os jagunços,
num repentino deflagrar de tiros.
Toda a expedição caiu, de ponta a ponta,
debaixo das trincheiras do Cambaio.
E atravessaram serranias íngremes,
tabuleiros estéreis e chapadas rasas
na marcha cadenciada pelo toar das ladainhas
e pelo passo tardo do profeta...
TOCAIA
Dentre as frinchas,
dentre os esconderijos,
dentre as moitas esparsas, aprumados
no alto dos muramentos rudes,
ou em despenhos ao viés das vertentes
—apareceram os jagunços,
num repentino deflagrar de tiros.
Toda a expedição caiu, de ponta a ponta,
debaixo das trincheiras do Cambaio.
1 303
Amílcar Dória
Eu vou contar a história de uma lida
1.
Eu vou contar a história de uma lida
como quem narra a dor de uma saudade,
pois de saudade ela se faz, embora
ninguém saudade sinta de quem vive.
Que não se estranhe a minha narrativa.
Nada no mundo mais pode espantar.
Quando é o estranho ser que se retrata,
ainda mais estranha é a batalha.
O homem a que refiro ainda existe,
melhor talvez dizer sempre existiu
e entre nós habita igual ao vento
que ocorre em toda parte, onipresente,
e agita folhas, mexe com sentidos
onde o homem vai buscar a sua origem.
Eu vou contar a história de uma lida
como quem narra a dor de uma saudade,
pois de saudade ela se faz, embora
ninguém saudade sinta de quem vive.
Que não se estranhe a minha narrativa.
Nada no mundo mais pode espantar.
Quando é o estranho ser que se retrata,
ainda mais estranha é a batalha.
O homem a que refiro ainda existe,
melhor talvez dizer sempre existiu
e entre nós habita igual ao vento
que ocorre em toda parte, onipresente,
e agita folhas, mexe com sentidos
onde o homem vai buscar a sua origem.
901
Amílcar Dória
Eu vou contar a história de uma lida
1.
Eu vou contar a história de uma lida
como quem narra a dor de uma saudade,
pois de saudade ela se faz, embora
ninguém saudade sinta de quem vive.
Que não se estranhe a minha narrativa.
Nada no mundo mais pode espantar.
Quando é o estranho ser que se retrata,
ainda mais estranha é a batalha.
O homem a que refiro ainda existe,
melhor talvez dizer sempre existiu
e entre nós habita igual ao vento
que ocorre em toda parte, onipresente,
e agita folhas, mexe com sentidos
onde o homem vai buscar a sua origem.
Eu vou contar a história de uma lida
como quem narra a dor de uma saudade,
pois de saudade ela se faz, embora
ninguém saudade sinta de quem vive.
Que não se estranhe a minha narrativa.
Nada no mundo mais pode espantar.
Quando é o estranho ser que se retrata,
ainda mais estranha é a batalha.
O homem a que refiro ainda existe,
melhor talvez dizer sempre existiu
e entre nós habita igual ao vento
que ocorre em toda parte, onipresente,
e agita folhas, mexe com sentidos
onde o homem vai buscar a sua origem.
901
Augusto de Campos
Canudos-Iduméia
"Je tapporte lenfant dune nuit dIdumé." Mallarmé
Era uma evocação.
Como se a terra se ataviasse em dados trechos
para idênticos dramas,
tinha-se, ali, o que quer que era
recordando um recanto de Iduméia,
na paragem lendária que perlonga as
ribas meridionais do Asfaltite,
esterilizada para todo o sempre
Era uma evocação.
Como se a terra se ataviasse em dados trechos
para idênticos dramas,
tinha-se, ali, o que quer que era
recordando um recanto de Iduméia,
na paragem lendária que perlonga as
ribas meridionais do Asfaltite,
esterilizada para todo o sempre
1 171
Augusto de Campos
Canudos-Iduméia
"Je tapporte lenfant dune nuit dIdumé." Mallarmé
Era uma evocação.
Como se a terra se ataviasse em dados trechos
para idênticos dramas,
tinha-se, ali, o que quer que era
recordando um recanto de Iduméia,
na paragem lendária que perlonga as
ribas meridionais do Asfaltite,
esterilizada para todo o sempre
Era uma evocação.
Como se a terra se ataviasse em dados trechos
para idênticos dramas,
tinha-se, ali, o que quer que era
recordando um recanto de Iduméia,
na paragem lendária que perlonga as
ribas meridionais do Asfaltite,
esterilizada para todo o sempre
1 171