Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Gregório de Matos
Defende Seu Poeta por Seguro
Eu sou aquele, que os passados anos
Cantei na minha lira maldizente
Torpezas do Brasil, vícios, e enganos.
E bem que os decantei bastantemente,
Canto segunda vez na mesma lira
O mesmo assunto em plectro diferente.
(...)
A narração há de igualar ao caso,
E se talvez ao caso não iguala,
Não tenho por Poeta, o que é Pegaso.
De que pode servir calar, quem cala,
Nunca se há de falar, o que se sente?
Sempre se há de sentir, o que se fala!
Qual homem pode haver tão paciente,
Que vendo o triste estado da Bahia,
Não chore, não suspire, e não lamente?
Isto faz a discreta fantasia:
Discorre em um, e outro desconcerto,
Condena o roubo, e increpa a hipocrisia.
O néscio, o ignorante, o inexperto,
Que não elege o bom, nem mau reprova,
Por tudo passa deslumbrado, e incerto.
E quando vê talvez na doce trova
Louvado o bem, e o mal vituperado,
A tudo faz focinho, e nada aprova.
Diz logo prudentaço, e repousado,
Fulano é um satírico, é um louco,
De língua má, de coração danado.
Néscio: se disso entendes nada, ou pouco,
Como mofas com riso, e algazarras
Musas, que estimo ter, quando as invoco?
Se souberas falar, também falaras,
Também satirizaras, se souberas,
E se foras Poeta, poetizaras.
A ignorância dos homens destas eras
Sisudos faz ser uns, outros prudentes,
Que a mudez canoniza bestas-feras.
Há bons, por não poder ser insolentes,
Outros há comedidos de medrosos,
Não mordem outros não, por não ter dentes.
Quantos há, que os telhados têm vidrosos,
E deixam de atirar sua pedrada
De sua mesma telha receosos.
Uma só natureza nos foi dada:
Não criou Deus os naturais diversos,
Um só Adão formou, e esse de nada.
Todos somos ruins, todos perversos,
Só nos distingue o vício, e a virtude,
De que uns são comensais, outros adversos.
Quem maior a tiver, do que eu ter pude,
Esse só me censure, esse me note,
calem-se os mais, chitom, e haja saúde.
Imagem - 00080001
In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.
NOTA: Faz focinho: mostra desprezo ou desagrado, seria equivalente à expressão 'faz beicinho', 'franze o nariz'; chitom: 'silêncio' 'cale-se!'; haja saúde: fórmula de despedida equivalente a 'saúde!' ou a 'adeus', hoje a 'até logo
Cantei na minha lira maldizente
Torpezas do Brasil, vícios, e enganos.
E bem que os decantei bastantemente,
Canto segunda vez na mesma lira
O mesmo assunto em plectro diferente.
(...)
A narração há de igualar ao caso,
E se talvez ao caso não iguala,
Não tenho por Poeta, o que é Pegaso.
De que pode servir calar, quem cala,
Nunca se há de falar, o que se sente?
Sempre se há de sentir, o que se fala!
Qual homem pode haver tão paciente,
Que vendo o triste estado da Bahia,
Não chore, não suspire, e não lamente?
Isto faz a discreta fantasia:
Discorre em um, e outro desconcerto,
Condena o roubo, e increpa a hipocrisia.
O néscio, o ignorante, o inexperto,
Que não elege o bom, nem mau reprova,
Por tudo passa deslumbrado, e incerto.
E quando vê talvez na doce trova
Louvado o bem, e o mal vituperado,
A tudo faz focinho, e nada aprova.
Diz logo prudentaço, e repousado,
Fulano é um satírico, é um louco,
De língua má, de coração danado.
Néscio: se disso entendes nada, ou pouco,
Como mofas com riso, e algazarras
Musas, que estimo ter, quando as invoco?
Se souberas falar, também falaras,
Também satirizaras, se souberas,
E se foras Poeta, poetizaras.
A ignorância dos homens destas eras
Sisudos faz ser uns, outros prudentes,
Que a mudez canoniza bestas-feras.
Há bons, por não poder ser insolentes,
Outros há comedidos de medrosos,
Não mordem outros não, por não ter dentes.
Quantos há, que os telhados têm vidrosos,
E deixam de atirar sua pedrada
De sua mesma telha receosos.
Uma só natureza nos foi dada:
Não criou Deus os naturais diversos,
Um só Adão formou, e esse de nada.
Todos somos ruins, todos perversos,
Só nos distingue o vício, e a virtude,
De que uns são comensais, outros adversos.
Quem maior a tiver, do que eu ter pude,
Esse só me censure, esse me note,
calem-se os mais, chitom, e haja saúde.
Imagem - 00080001
In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.
NOTA: Faz focinho: mostra desprezo ou desagrado, seria equivalente à expressão 'faz beicinho', 'franze o nariz'; chitom: 'silêncio' 'cale-se!'; haja saúde: fórmula de despedida equivalente a 'saúde!' ou a 'adeus', hoje a 'até logo
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Gregório de Matos
Defende Seu Poeta por Seguro
Eu sou aquele, que os passados anos
Cantei na minha lira maldizente
Torpezas do Brasil, vícios, e enganos.
E bem que os decantei bastantemente,
Canto segunda vez na mesma lira
O mesmo assunto em plectro diferente.
(...)
A narração há de igualar ao caso,
E se talvez ao caso não iguala,
Não tenho por Poeta, o que é Pegaso.
De que pode servir calar, quem cala,
Nunca se há de falar, o que se sente?
Sempre se há de sentir, o que se fala!
Qual homem pode haver tão paciente,
Que vendo o triste estado da Bahia,
Não chore, não suspire, e não lamente?
Isto faz a discreta fantasia:
Discorre em um, e outro desconcerto,
Condena o roubo, e increpa a hipocrisia.
O néscio, o ignorante, o inexperto,
Que não elege o bom, nem mau reprova,
Por tudo passa deslumbrado, e incerto.
E quando vê talvez na doce trova
Louvado o bem, e o mal vituperado,
A tudo faz focinho, e nada aprova.
Diz logo prudentaço, e repousado,
Fulano é um satírico, é um louco,
De língua má, de coração danado.
Néscio: se disso entendes nada, ou pouco,
Como mofas com riso, e algazarras
Musas, que estimo ter, quando as invoco?
Se souberas falar, também falaras,
Também satirizaras, se souberas,
E se foras Poeta, poetizaras.
A ignorância dos homens destas eras
Sisudos faz ser uns, outros prudentes,
Que a mudez canoniza bestas-feras.
Há bons, por não poder ser insolentes,
Outros há comedidos de medrosos,
Não mordem outros não, por não ter dentes.
Quantos há, que os telhados têm vidrosos,
E deixam de atirar sua pedrada
De sua mesma telha receosos.
Uma só natureza nos foi dada:
Não criou Deus os naturais diversos,
Um só Adão formou, e esse de nada.
Todos somos ruins, todos perversos,
Só nos distingue o vício, e a virtude,
De que uns são comensais, outros adversos.
Quem maior a tiver, do que eu ter pude,
Esse só me censure, esse me note,
calem-se os mais, chitom, e haja saúde.
Imagem - 00080001
In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.
NOTA: Faz focinho: mostra desprezo ou desagrado, seria equivalente à expressão 'faz beicinho', 'franze o nariz'; chitom: 'silêncio' 'cale-se!'; haja saúde: fórmula de despedida equivalente a 'saúde!' ou a 'adeus', hoje a 'até logo
Cantei na minha lira maldizente
Torpezas do Brasil, vícios, e enganos.
E bem que os decantei bastantemente,
Canto segunda vez na mesma lira
O mesmo assunto em plectro diferente.
(...)
A narração há de igualar ao caso,
E se talvez ao caso não iguala,
Não tenho por Poeta, o que é Pegaso.
De que pode servir calar, quem cala,
Nunca se há de falar, o que se sente?
Sempre se há de sentir, o que se fala!
Qual homem pode haver tão paciente,
Que vendo o triste estado da Bahia,
Não chore, não suspire, e não lamente?
Isto faz a discreta fantasia:
Discorre em um, e outro desconcerto,
Condena o roubo, e increpa a hipocrisia.
O néscio, o ignorante, o inexperto,
Que não elege o bom, nem mau reprova,
Por tudo passa deslumbrado, e incerto.
E quando vê talvez na doce trova
Louvado o bem, e o mal vituperado,
A tudo faz focinho, e nada aprova.
Diz logo prudentaço, e repousado,
Fulano é um satírico, é um louco,
De língua má, de coração danado.
Néscio: se disso entendes nada, ou pouco,
Como mofas com riso, e algazarras
Musas, que estimo ter, quando as invoco?
Se souberas falar, também falaras,
Também satirizaras, se souberas,
E se foras Poeta, poetizaras.
A ignorância dos homens destas eras
Sisudos faz ser uns, outros prudentes,
Que a mudez canoniza bestas-feras.
Há bons, por não poder ser insolentes,
Outros há comedidos de medrosos,
Não mordem outros não, por não ter dentes.
Quantos há, que os telhados têm vidrosos,
E deixam de atirar sua pedrada
De sua mesma telha receosos.
Uma só natureza nos foi dada:
Não criou Deus os naturais diversos,
Um só Adão formou, e esse de nada.
Todos somos ruins, todos perversos,
Só nos distingue o vício, e a virtude,
De que uns são comensais, outros adversos.
Quem maior a tiver, do que eu ter pude,
Esse só me censure, esse me note,
calem-se os mais, chitom, e haja saúde.
Imagem - 00080001
In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.
NOTA: Faz focinho: mostra desprezo ou desagrado, seria equivalente à expressão 'faz beicinho', 'franze o nariz'; chitom: 'silêncio' 'cale-se!'; haja saúde: fórmula de despedida equivalente a 'saúde!' ou a 'adeus', hoje a 'até logo
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1
Eunice Arruda
Cimento Armado
O cotidiano basta
calçadas
asfaltos
desafogam o coração
Depois há a noite
A noite é mãe de
afagar cabelos onde
seus dedos são constante ausência
Sim
o cotidiano basta
não tem importância
o que
não tenho
In: ARRUDA, Eunice. Invenções do desespero. São Paulo: Ed. da autora, 1973
calçadas
asfaltos
desafogam o coração
Depois há a noite
A noite é mãe de
afagar cabelos onde
seus dedos são constante ausência
Sim
o cotidiano basta
não tem importância
o que
não tenho
In: ARRUDA, Eunice. Invenções do desespero. São Paulo: Ed. da autora, 1973
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1
Edimilson de Almeida Pereira
Em Cabo Verde
Pescadores retornam.
Ouço-os com as pérolas
e os nãos de sal.
Amo o regresso
sem haver partido.
Amo a estrela outra
quando a noite
Os barcos
desperdiçam o cais:
à morte é que os peixes
brilham.
Publicado no livro Árvore dos arturos & Outros poemas (1988). Poema integrante da série Alguma Dança com Nicolás Guillén.
In: PEREIRA, Edimilson de Almeida. Corpo vivido: reunião poética. Juiz de Fora: Ed. D'Lira; Belo Horizonte: Mazza Ed., 1992. p.165
NOTA: Título original do poema: "Em Cabo Verde, com Ovídio Martins
Ouço-os com as pérolas
e os nãos de sal.
Amo o regresso
sem haver partido.
Amo a estrela outra
quando a noite
Os barcos
desperdiçam o cais:
à morte é que os peixes
brilham.
Publicado no livro Árvore dos arturos & Outros poemas (1988). Poema integrante da série Alguma Dança com Nicolás Guillén.
In: PEREIRA, Edimilson de Almeida. Corpo vivido: reunião poética. Juiz de Fora: Ed. D'Lira; Belo Horizonte: Mazza Ed., 1992. p.165
NOTA: Título original do poema: "Em Cabo Verde, com Ovídio Martins
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1
Gregório de Matos
Por Ocasião do Dito Cometa
Que esteja dando o Francês
camoesas ao Romano,
castanhas ao Castelhano,
e ginjas ao Português:
e que estejam todos três
em uma seisma quieta
reconhecendo esta treta
tanto à vista, sem a ver.
Será: mas porém a ser
efeitos são do cometa.
Que esteja o Inglês mui quedo
e o Holandês mui ufano
Portugal cheio de engano,
Castela cheia de medo:
e que Turco viva ledo
vendo a Europa inquieta,
e que cada qual se meta
em uma cova a temer,
tudo será: mas a ser
efeitos são do cometa.
(...)
Que haja no mundo, quem tenha
guisados para comer,
e traças para os haver,
não tenho lume, nem lenha:
e que sem renda mantenha
carro, carroça, carreta,
e sem ter adonde os meta,
dentro em si tanto acomode!
Pode ser: porém se pode,
efeitos são do cometa.
(...)
Que se vejam por prazeres,
sem repararem nas fomes
as mulheres feitas homens,
e os homens feitos mulheres:
e que estejam os misteres
enfronhados na baeta,
sem ouvirem a trombeta
do povo, que é um clarim!
Será: porém sendo assim,
efeitos são do cometa.
(...)
Que o pobre, e rico namore,
e que tenha com esta porfia
o pobre alegre se ria,
e que o rico triste chore:
e que o presumido more
em palácio sem boleta,
e por não ter, que lhe meta,
o tenha cheio de vento!
Pode ser: mas o intento
efeitos são do cometa.
Que ande o mundo, como anda,
e que se ao som do seu desvelo
uns bailem ao saltarelo
e outros à sarabanda:
e que estando tudo à banda,
sendo eu um pobre Poeta,
que nestas cousas me meta,
sem ter licença de Apolo!
Será: porém se eu sou tolo,
efeitos são do cometa.
Imagem - 00080001
In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.
NOTA: Treta: por treuta, 'fruta'; boleta: por boleto, requisição para que um habitante aloje um ou mais militares em trânsit
camoesas ao Romano,
castanhas ao Castelhano,
e ginjas ao Português:
e que estejam todos três
em uma seisma quieta
reconhecendo esta treta
tanto à vista, sem a ver.
Será: mas porém a ser
efeitos são do cometa.
Que esteja o Inglês mui quedo
e o Holandês mui ufano
Portugal cheio de engano,
Castela cheia de medo:
e que Turco viva ledo
vendo a Europa inquieta,
e que cada qual se meta
em uma cova a temer,
tudo será: mas a ser
efeitos são do cometa.
(...)
Que haja no mundo, quem tenha
guisados para comer,
e traças para os haver,
não tenho lume, nem lenha:
e que sem renda mantenha
carro, carroça, carreta,
e sem ter adonde os meta,
dentro em si tanto acomode!
Pode ser: porém se pode,
efeitos são do cometa.
(...)
Que se vejam por prazeres,
sem repararem nas fomes
as mulheres feitas homens,
e os homens feitos mulheres:
e que estejam os misteres
enfronhados na baeta,
sem ouvirem a trombeta
do povo, que é um clarim!
Será: porém sendo assim,
efeitos são do cometa.
(...)
Que o pobre, e rico namore,
e que tenha com esta porfia
o pobre alegre se ria,
e que o rico triste chore:
e que o presumido more
em palácio sem boleta,
e por não ter, que lhe meta,
o tenha cheio de vento!
Pode ser: mas o intento
efeitos são do cometa.
Que ande o mundo, como anda,
e que se ao som do seu desvelo
uns bailem ao saltarelo
e outros à sarabanda:
e que estando tudo à banda,
sendo eu um pobre Poeta,
que nestas cousas me meta,
sem ter licença de Apolo!
Será: porém se eu sou tolo,
efeitos são do cometa.
Imagem - 00080001
In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.
NOTA: Treta: por treuta, 'fruta'; boleta: por boleto, requisição para que um habitante aloje um ou mais militares em trânsit
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Gregório de Matos
Por Ocasião do Dito Cometa
Que esteja dando o Francês
camoesas ao Romano,
castanhas ao Castelhano,
e ginjas ao Português:
e que estejam todos três
em uma seisma quieta
reconhecendo esta treta
tanto à vista, sem a ver.
Será: mas porém a ser
efeitos são do cometa.
Que esteja o Inglês mui quedo
e o Holandês mui ufano
Portugal cheio de engano,
Castela cheia de medo:
e que Turco viva ledo
vendo a Europa inquieta,
e que cada qual se meta
em uma cova a temer,
tudo será: mas a ser
efeitos são do cometa.
(...)
Que haja no mundo, quem tenha
guisados para comer,
e traças para os haver,
não tenho lume, nem lenha:
e que sem renda mantenha
carro, carroça, carreta,
e sem ter adonde os meta,
dentro em si tanto acomode!
Pode ser: porém se pode,
efeitos são do cometa.
(...)
Que se vejam por prazeres,
sem repararem nas fomes
as mulheres feitas homens,
e os homens feitos mulheres:
e que estejam os misteres
enfronhados na baeta,
sem ouvirem a trombeta
do povo, que é um clarim!
Será: porém sendo assim,
efeitos são do cometa.
(...)
Que o pobre, e rico namore,
e que tenha com esta porfia
o pobre alegre se ria,
e que o rico triste chore:
e que o presumido more
em palácio sem boleta,
e por não ter, que lhe meta,
o tenha cheio de vento!
Pode ser: mas o intento
efeitos são do cometa.
Que ande o mundo, como anda,
e que se ao som do seu desvelo
uns bailem ao saltarelo
e outros à sarabanda:
e que estando tudo à banda,
sendo eu um pobre Poeta,
que nestas cousas me meta,
sem ter licença de Apolo!
Será: porém se eu sou tolo,
efeitos são do cometa.
Imagem - 00080001
In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.
NOTA: Treta: por treuta, 'fruta'; boleta: por boleto, requisição para que um habitante aloje um ou mais militares em trânsit
camoesas ao Romano,
castanhas ao Castelhano,
e ginjas ao Português:
e que estejam todos três
em uma seisma quieta
reconhecendo esta treta
tanto à vista, sem a ver.
Será: mas porém a ser
efeitos são do cometa.
Que esteja o Inglês mui quedo
e o Holandês mui ufano
Portugal cheio de engano,
Castela cheia de medo:
e que Turco viva ledo
vendo a Europa inquieta,
e que cada qual se meta
em uma cova a temer,
tudo será: mas a ser
efeitos são do cometa.
(...)
Que haja no mundo, quem tenha
guisados para comer,
e traças para os haver,
não tenho lume, nem lenha:
e que sem renda mantenha
carro, carroça, carreta,
e sem ter adonde os meta,
dentro em si tanto acomode!
Pode ser: porém se pode,
efeitos são do cometa.
(...)
Que se vejam por prazeres,
sem repararem nas fomes
as mulheres feitas homens,
e os homens feitos mulheres:
e que estejam os misteres
enfronhados na baeta,
sem ouvirem a trombeta
do povo, que é um clarim!
Será: porém sendo assim,
efeitos são do cometa.
(...)
Que o pobre, e rico namore,
e que tenha com esta porfia
o pobre alegre se ria,
e que o rico triste chore:
e que o presumido more
em palácio sem boleta,
e por não ter, que lhe meta,
o tenha cheio de vento!
Pode ser: mas o intento
efeitos são do cometa.
Que ande o mundo, como anda,
e que se ao som do seu desvelo
uns bailem ao saltarelo
e outros à sarabanda:
e que estando tudo à banda,
sendo eu um pobre Poeta,
que nestas cousas me meta,
sem ter licença de Apolo!
Será: porém se eu sou tolo,
efeitos são do cometa.
Imagem - 00080001
In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.
NOTA: Treta: por treuta, 'fruta'; boleta: por boleto, requisição para que um habitante aloje um ou mais militares em trânsit
1 962
1
Chacal
Garrincha
a maior glória do futebol
nasceu em Pau Grande só
pra sacanear o vernáculo.
e pra zombar da anatomia,
perna torta.
Publicado no livro Olhos vermelhos (1979).
In: CHACAL. Drops de abril. São Paulo: Brasiliense, 1983. p.65. (Cantadas literárias, 16
nasceu em Pau Grande só
pra sacanear o vernáculo.
e pra zombar da anatomia,
perna torta.
Publicado no livro Olhos vermelhos (1979).
In: CHACAL. Drops de abril. São Paulo: Brasiliense, 1983. p.65. (Cantadas literárias, 16
3 122
1
Afonso Schmidt
Os Pequenos Varredores
Pela escura avenida arborizada,
ninguém. Lá para cima,
escuta-se um rumor que se aproxima,
nuvens rolando pelo chão, mais nada...
Depois, enche-se a noite de pavores,
há risos, pragas, uivos;
dançam, ao longe, contra o vento, ruivos
de poeira, pequeninos varredores.
De ombros estreitos e de faces cavas,
lutam com seus destinos,
nas horas em que todos os meninos
dormem e sonham com princesas flavas.
Há, entre eles, alguns que são precoces,
fumam e bebem. Vários,
transitam para a noite dos ossários,
têm o pulmão comido pelas tosses.
Arrastando o esqualor destas sarjetas,
dirão, olhos em brasa,
que é melhor acabar na Santa Casa
do que viver assim, como grilhetas.
E lá se vão. A nuvem se adelgaça;
um senhor, na alameda
sem luz, toma do lenço, que é de seda,
tapa o nariz, inclina a fronte, e passa...
Publicado no livro Janelas abertas (1911).
In: SCHMIDT, Afonso. Poesia. Ed. definitiva. São Paulo: Ed. Nacional, 194
ninguém. Lá para cima,
escuta-se um rumor que se aproxima,
nuvens rolando pelo chão, mais nada...
Depois, enche-se a noite de pavores,
há risos, pragas, uivos;
dançam, ao longe, contra o vento, ruivos
de poeira, pequeninos varredores.
De ombros estreitos e de faces cavas,
lutam com seus destinos,
nas horas em que todos os meninos
dormem e sonham com princesas flavas.
Há, entre eles, alguns que são precoces,
fumam e bebem. Vários,
transitam para a noite dos ossários,
têm o pulmão comido pelas tosses.
Arrastando o esqualor destas sarjetas,
dirão, olhos em brasa,
que é melhor acabar na Santa Casa
do que viver assim, como grilhetas.
E lá se vão. A nuvem se adelgaça;
um senhor, na alameda
sem luz, toma do lenço, que é de seda,
tapa o nariz, inclina a fronte, e passa...
Publicado no livro Janelas abertas (1911).
In: SCHMIDT, Afonso. Poesia. Ed. definitiva. São Paulo: Ed. Nacional, 194
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1
Afonso Schmidt
Os Pequenos Varredores
Pela escura avenida arborizada,
ninguém. Lá para cima,
escuta-se um rumor que se aproxima,
nuvens rolando pelo chão, mais nada...
Depois, enche-se a noite de pavores,
há risos, pragas, uivos;
dançam, ao longe, contra o vento, ruivos
de poeira, pequeninos varredores.
De ombros estreitos e de faces cavas,
lutam com seus destinos,
nas horas em que todos os meninos
dormem e sonham com princesas flavas.
Há, entre eles, alguns que são precoces,
fumam e bebem. Vários,
transitam para a noite dos ossários,
têm o pulmão comido pelas tosses.
Arrastando o esqualor destas sarjetas,
dirão, olhos em brasa,
que é melhor acabar na Santa Casa
do que viver assim, como grilhetas.
E lá se vão. A nuvem se adelgaça;
um senhor, na alameda
sem luz, toma do lenço, que é de seda,
tapa o nariz, inclina a fronte, e passa...
Publicado no livro Janelas abertas (1911).
In: SCHMIDT, Afonso. Poesia. Ed. definitiva. São Paulo: Ed. Nacional, 194
ninguém. Lá para cima,
escuta-se um rumor que se aproxima,
nuvens rolando pelo chão, mais nada...
Depois, enche-se a noite de pavores,
há risos, pragas, uivos;
dançam, ao longe, contra o vento, ruivos
de poeira, pequeninos varredores.
De ombros estreitos e de faces cavas,
lutam com seus destinos,
nas horas em que todos os meninos
dormem e sonham com princesas flavas.
Há, entre eles, alguns que são precoces,
fumam e bebem. Vários,
transitam para a noite dos ossários,
têm o pulmão comido pelas tosses.
Arrastando o esqualor destas sarjetas,
dirão, olhos em brasa,
que é melhor acabar na Santa Casa
do que viver assim, como grilhetas.
E lá se vão. A nuvem se adelgaça;
um senhor, na alameda
sem luz, toma do lenço, que é de seda,
tapa o nariz, inclina a fronte, e passa...
Publicado no livro Janelas abertas (1911).
In: SCHMIDT, Afonso. Poesia. Ed. definitiva. São Paulo: Ed. Nacional, 194
1 764
1
Juvenal Galeno
A Moda
O que eu desejo, senhoras,
É que se cumpra o rifão:
— Cada terra com seu uso,
Cada roca com seu fuso: —
Eis a minha opinião!
Mas, vestir-se o brasileiro
Como lhe ordena o francês...
Não acho isso direito!
Viver o povo sujeito
Aos figurinos do mês!
É mesmo falta de brio,
É fazer-se manequim;
Dizem que somos macacos...
Pois antes trajarmos sacos,
Do que servir de saguim!
Devemos ter nossa moda,
Tenha a sua o japonês;
Vista o prusso à prussiana,
Ande o russo a russiana,
Ninguém roube a do chinês.
Cada qual conforme o clima
De sua terra natal;
Que se o Norte tem calores,
No sul existem rigores
Da viração glacial.
Mas ornar-se quem tirita
Como quem sopra... é de mais!
Se trajamos nos estios
Como a França nos seus frios,
Não somos racionais!
E que roupagem ridícula
Nos impõe o tal Paris!
Que não levem... rabos tais!
Às damas puseram rabo! —
Pois não é um menoscabo
A esta terra infeliz? —
(...)
Batinas e polonaise,
Hoje, bico — amanhã, não;
Muitas trouxas, muitos regos,
Babados e repolegos,
Arregaços... confusão!
E franjas, fitas e penas!
No meio dessa babel,
A mulher desaparece...
Nem o marido a conhece
Nequele horendo pastel!
(...)
E é tamanha a tirania,
Que aqui não sabe ninguém
Como andará pela rua,
Ou consorte ou filha sua,
Em dias do mês que vem!
Já disse o suficiente...
Às damas peço perdão!
Apenas bato o abuso...
Cada terra com seu uso...
Esta é minha opinião!
Publicado no livro Folhetins de Silvanus (1891).
In: GALENO, Juvenal. Folhetins de Silvanus. A machadada. Apres. Renato Braga. Fortaleza: Ed. Henriqueta Galeno, 196
É que se cumpra o rifão:
— Cada terra com seu uso,
Cada roca com seu fuso: —
Eis a minha opinião!
Mas, vestir-se o brasileiro
Como lhe ordena o francês...
Não acho isso direito!
Viver o povo sujeito
Aos figurinos do mês!
É mesmo falta de brio,
É fazer-se manequim;
Dizem que somos macacos...
Pois antes trajarmos sacos,
Do que servir de saguim!
Devemos ter nossa moda,
Tenha a sua o japonês;
Vista o prusso à prussiana,
Ande o russo a russiana,
Ninguém roube a do chinês.
Cada qual conforme o clima
De sua terra natal;
Que se o Norte tem calores,
No sul existem rigores
Da viração glacial.
Mas ornar-se quem tirita
Como quem sopra... é de mais!
Se trajamos nos estios
Como a França nos seus frios,
Não somos racionais!
E que roupagem ridícula
Nos impõe o tal Paris!
Que não levem... rabos tais!
Às damas puseram rabo! —
Pois não é um menoscabo
A esta terra infeliz? —
(...)
Batinas e polonaise,
Hoje, bico — amanhã, não;
Muitas trouxas, muitos regos,
Babados e repolegos,
Arregaços... confusão!
E franjas, fitas e penas!
No meio dessa babel,
A mulher desaparece...
Nem o marido a conhece
Nequele horendo pastel!
(...)
E é tamanha a tirania,
Que aqui não sabe ninguém
Como andará pela rua,
Ou consorte ou filha sua,
Em dias do mês que vem!
Já disse o suficiente...
Às damas peço perdão!
Apenas bato o abuso...
Cada terra com seu uso...
Esta é minha opinião!
Publicado no livro Folhetins de Silvanus (1891).
In: GALENO, Juvenal. Folhetins de Silvanus. A machadada. Apres. Renato Braga. Fortaleza: Ed. Henriqueta Galeno, 196
2 566
1
Juvenal Galeno
A Moda
O que eu desejo, senhoras,
É que se cumpra o rifão:
— Cada terra com seu uso,
Cada roca com seu fuso: —
Eis a minha opinião!
Mas, vestir-se o brasileiro
Como lhe ordena o francês...
Não acho isso direito!
Viver o povo sujeito
Aos figurinos do mês!
É mesmo falta de brio,
É fazer-se manequim;
Dizem que somos macacos...
Pois antes trajarmos sacos,
Do que servir de saguim!
Devemos ter nossa moda,
Tenha a sua o japonês;
Vista o prusso à prussiana,
Ande o russo a russiana,
Ninguém roube a do chinês.
Cada qual conforme o clima
De sua terra natal;
Que se o Norte tem calores,
No sul existem rigores
Da viração glacial.
Mas ornar-se quem tirita
Como quem sopra... é de mais!
Se trajamos nos estios
Como a França nos seus frios,
Não somos racionais!
E que roupagem ridícula
Nos impõe o tal Paris!
Que não levem... rabos tais!
Às damas puseram rabo! —
Pois não é um menoscabo
A esta terra infeliz? —
(...)
Batinas e polonaise,
Hoje, bico — amanhã, não;
Muitas trouxas, muitos regos,
Babados e repolegos,
Arregaços... confusão!
E franjas, fitas e penas!
No meio dessa babel,
A mulher desaparece...
Nem o marido a conhece
Nequele horendo pastel!
(...)
E é tamanha a tirania,
Que aqui não sabe ninguém
Como andará pela rua,
Ou consorte ou filha sua,
Em dias do mês que vem!
Já disse o suficiente...
Às damas peço perdão!
Apenas bato o abuso...
Cada terra com seu uso...
Esta é minha opinião!
Publicado no livro Folhetins de Silvanus (1891).
In: GALENO, Juvenal. Folhetins de Silvanus. A machadada. Apres. Renato Braga. Fortaleza: Ed. Henriqueta Galeno, 196
É que se cumpra o rifão:
— Cada terra com seu uso,
Cada roca com seu fuso: —
Eis a minha opinião!
Mas, vestir-se o brasileiro
Como lhe ordena o francês...
Não acho isso direito!
Viver o povo sujeito
Aos figurinos do mês!
É mesmo falta de brio,
É fazer-se manequim;
Dizem que somos macacos...
Pois antes trajarmos sacos,
Do que servir de saguim!
Devemos ter nossa moda,
Tenha a sua o japonês;
Vista o prusso à prussiana,
Ande o russo a russiana,
Ninguém roube a do chinês.
Cada qual conforme o clima
De sua terra natal;
Que se o Norte tem calores,
No sul existem rigores
Da viração glacial.
Mas ornar-se quem tirita
Como quem sopra... é de mais!
Se trajamos nos estios
Como a França nos seus frios,
Não somos racionais!
E que roupagem ridícula
Nos impõe o tal Paris!
Que não levem... rabos tais!
Às damas puseram rabo! —
Pois não é um menoscabo
A esta terra infeliz? —
(...)
Batinas e polonaise,
Hoje, bico — amanhã, não;
Muitas trouxas, muitos regos,
Babados e repolegos,
Arregaços... confusão!
E franjas, fitas e penas!
No meio dessa babel,
A mulher desaparece...
Nem o marido a conhece
Nequele horendo pastel!
(...)
E é tamanha a tirania,
Que aqui não sabe ninguém
Como andará pela rua,
Ou consorte ou filha sua,
Em dias do mês que vem!
Já disse o suficiente...
Às damas peço perdão!
Apenas bato o abuso...
Cada terra com seu uso...
Esta é minha opinião!
Publicado no livro Folhetins de Silvanus (1891).
In: GALENO, Juvenal. Folhetins de Silvanus. A machadada. Apres. Renato Braga. Fortaleza: Ed. Henriqueta Galeno, 196
2 566
1
Juvenal Galeno
A Moda
O que eu desejo, senhoras,
É que se cumpra o rifão:
— Cada terra com seu uso,
Cada roca com seu fuso: —
Eis a minha opinião!
Mas, vestir-se o brasileiro
Como lhe ordena o francês...
Não acho isso direito!
Viver o povo sujeito
Aos figurinos do mês!
É mesmo falta de brio,
É fazer-se manequim;
Dizem que somos macacos...
Pois antes trajarmos sacos,
Do que servir de saguim!
Devemos ter nossa moda,
Tenha a sua o japonês;
Vista o prusso à prussiana,
Ande o russo a russiana,
Ninguém roube a do chinês.
Cada qual conforme o clima
De sua terra natal;
Que se o Norte tem calores,
No sul existem rigores
Da viração glacial.
Mas ornar-se quem tirita
Como quem sopra... é de mais!
Se trajamos nos estios
Como a França nos seus frios,
Não somos racionais!
E que roupagem ridícula
Nos impõe o tal Paris!
Que não levem... rabos tais!
Às damas puseram rabo! —
Pois não é um menoscabo
A esta terra infeliz? —
(...)
Batinas e polonaise,
Hoje, bico — amanhã, não;
Muitas trouxas, muitos regos,
Babados e repolegos,
Arregaços... confusão!
E franjas, fitas e penas!
No meio dessa babel,
A mulher desaparece...
Nem o marido a conhece
Nequele horendo pastel!
(...)
E é tamanha a tirania,
Que aqui não sabe ninguém
Como andará pela rua,
Ou consorte ou filha sua,
Em dias do mês que vem!
Já disse o suficiente...
Às damas peço perdão!
Apenas bato o abuso...
Cada terra com seu uso...
Esta é minha opinião!
Publicado no livro Folhetins de Silvanus (1891).
In: GALENO, Juvenal. Folhetins de Silvanus. A machadada. Apres. Renato Braga. Fortaleza: Ed. Henriqueta Galeno, 196
É que se cumpra o rifão:
— Cada terra com seu uso,
Cada roca com seu fuso: —
Eis a minha opinião!
Mas, vestir-se o brasileiro
Como lhe ordena o francês...
Não acho isso direito!
Viver o povo sujeito
Aos figurinos do mês!
É mesmo falta de brio,
É fazer-se manequim;
Dizem que somos macacos...
Pois antes trajarmos sacos,
Do que servir de saguim!
Devemos ter nossa moda,
Tenha a sua o japonês;
Vista o prusso à prussiana,
Ande o russo a russiana,
Ninguém roube a do chinês.
Cada qual conforme o clima
De sua terra natal;
Que se o Norte tem calores,
No sul existem rigores
Da viração glacial.
Mas ornar-se quem tirita
Como quem sopra... é de mais!
Se trajamos nos estios
Como a França nos seus frios,
Não somos racionais!
E que roupagem ridícula
Nos impõe o tal Paris!
Que não levem... rabos tais!
Às damas puseram rabo! —
Pois não é um menoscabo
A esta terra infeliz? —
(...)
Batinas e polonaise,
Hoje, bico — amanhã, não;
Muitas trouxas, muitos regos,
Babados e repolegos,
Arregaços... confusão!
E franjas, fitas e penas!
No meio dessa babel,
A mulher desaparece...
Nem o marido a conhece
Nequele horendo pastel!
(...)
E é tamanha a tirania,
Que aqui não sabe ninguém
Como andará pela rua,
Ou consorte ou filha sua,
Em dias do mês que vem!
Já disse o suficiente...
Às damas peço perdão!
Apenas bato o abuso...
Cada terra com seu uso...
Esta é minha opinião!
Publicado no livro Folhetins de Silvanus (1891).
In: GALENO, Juvenal. Folhetins de Silvanus. A machadada. Apres. Renato Braga. Fortaleza: Ed. Henriqueta Galeno, 196
2 566
1
Gonçalves Dias
XII
(...)
E o ancião me disse:
"A vossa política é mesquinha e vergonhosa, e
milagroso é o homem que sai dela limpo de mãos e de
consciência.
"Os Delegados da Nação, que não contam com o
voto aturado e livre do povo, vendem-se impudicamente.
"Porque o vosso povo, que não tem consciência,
por lhe faltar a instrução, aceitará o candidato, que
lhe for apresentado por um Mandarim, ou por um
chefe de partido às tontas improvisado.
"E curvar-se-á ao rés do chão para apanhar uma
nota desacreditada, com que por engodo lhe terão
arremessado.
"E o povo folga e ri no dia de sua vileza, no dia em
que ele devia ser soberano e impor lei aos homens
que os espezinham!
"E o povo folga e ri, como o escravo no dia em
que o senhor, cansado de o fustigar com varas, por
um momento lhe tira de diante dos olhos o ergástulo
da sua ignomínia!
"E os vossos homens de estado estribam-se nas
revoluções como num ponto de apoio, e como as
salamandras, eles querem viver no elemento que a
todos asfixia.
"E não pelejais por amor do progresso, como
vangloriosamente ostentais.
"Porque a ordem e progresso são inseparáveis; —
e o que realizar uma obterá a outra.
"Pelejais sim por amor de alguns homens, porque
a vossa política não é de idéias — porém de cousas.
"Pelejais, porque a vossa política está nestas duas
palavras — egoísmo e loucura — ".
Assim falou o ancião.
Poema integrante da série Capítulo III.
In: DIAS, Gonçalves. Meditação. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1909. p.87-8
E o ancião me disse:
"A vossa política é mesquinha e vergonhosa, e
milagroso é o homem que sai dela limpo de mãos e de
consciência.
"Os Delegados da Nação, que não contam com o
voto aturado e livre do povo, vendem-se impudicamente.
"Porque o vosso povo, que não tem consciência,
por lhe faltar a instrução, aceitará o candidato, que
lhe for apresentado por um Mandarim, ou por um
chefe de partido às tontas improvisado.
"E curvar-se-á ao rés do chão para apanhar uma
nota desacreditada, com que por engodo lhe terão
arremessado.
"E o povo folga e ri no dia de sua vileza, no dia em
que ele devia ser soberano e impor lei aos homens
que os espezinham!
"E o povo folga e ri, como o escravo no dia em
que o senhor, cansado de o fustigar com varas, por
um momento lhe tira de diante dos olhos o ergástulo
da sua ignomínia!
"E os vossos homens de estado estribam-se nas
revoluções como num ponto de apoio, e como as
salamandras, eles querem viver no elemento que a
todos asfixia.
"E não pelejais por amor do progresso, como
vangloriosamente ostentais.
"Porque a ordem e progresso são inseparáveis; —
e o que realizar uma obterá a outra.
"Pelejais sim por amor de alguns homens, porque
a vossa política não é de idéias — porém de cousas.
"Pelejais, porque a vossa política está nestas duas
palavras — egoísmo e loucura — ".
Assim falou o ancião.
Poema integrante da série Capítulo III.
In: DIAS, Gonçalves. Meditação. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1909. p.87-8
3 583
1
Gonçalves Dias
XII
(...)
E o ancião me disse:
"A vossa política é mesquinha e vergonhosa, e
milagroso é o homem que sai dela limpo de mãos e de
consciência.
"Os Delegados da Nação, que não contam com o
voto aturado e livre do povo, vendem-se impudicamente.
"Porque o vosso povo, que não tem consciência,
por lhe faltar a instrução, aceitará o candidato, que
lhe for apresentado por um Mandarim, ou por um
chefe de partido às tontas improvisado.
"E curvar-se-á ao rés do chão para apanhar uma
nota desacreditada, com que por engodo lhe terão
arremessado.
"E o povo folga e ri no dia de sua vileza, no dia em
que ele devia ser soberano e impor lei aos homens
que os espezinham!
"E o povo folga e ri, como o escravo no dia em
que o senhor, cansado de o fustigar com varas, por
um momento lhe tira de diante dos olhos o ergástulo
da sua ignomínia!
"E os vossos homens de estado estribam-se nas
revoluções como num ponto de apoio, e como as
salamandras, eles querem viver no elemento que a
todos asfixia.
"E não pelejais por amor do progresso, como
vangloriosamente ostentais.
"Porque a ordem e progresso são inseparáveis; —
e o que realizar uma obterá a outra.
"Pelejais sim por amor de alguns homens, porque
a vossa política não é de idéias — porém de cousas.
"Pelejais, porque a vossa política está nestas duas
palavras — egoísmo e loucura — ".
Assim falou o ancião.
Poema integrante da série Capítulo III.
In: DIAS, Gonçalves. Meditação. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1909. p.87-8
E o ancião me disse:
"A vossa política é mesquinha e vergonhosa, e
milagroso é o homem que sai dela limpo de mãos e de
consciência.
"Os Delegados da Nação, que não contam com o
voto aturado e livre do povo, vendem-se impudicamente.
"Porque o vosso povo, que não tem consciência,
por lhe faltar a instrução, aceitará o candidato, que
lhe for apresentado por um Mandarim, ou por um
chefe de partido às tontas improvisado.
"E curvar-se-á ao rés do chão para apanhar uma
nota desacreditada, com que por engodo lhe terão
arremessado.
"E o povo folga e ri no dia de sua vileza, no dia em
que ele devia ser soberano e impor lei aos homens
que os espezinham!
"E o povo folga e ri, como o escravo no dia em
que o senhor, cansado de o fustigar com varas, por
um momento lhe tira de diante dos olhos o ergástulo
da sua ignomínia!
"E os vossos homens de estado estribam-se nas
revoluções como num ponto de apoio, e como as
salamandras, eles querem viver no elemento que a
todos asfixia.
"E não pelejais por amor do progresso, como
vangloriosamente ostentais.
"Porque a ordem e progresso são inseparáveis; —
e o que realizar uma obterá a outra.
"Pelejais sim por amor de alguns homens, porque
a vossa política não é de idéias — porém de cousas.
"Pelejais, porque a vossa política está nestas duas
palavras — egoísmo e loucura — ".
Assim falou o ancião.
Poema integrante da série Capítulo III.
In: DIAS, Gonçalves. Meditação. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1909. p.87-8
3 583
1
Gonçalves Dias
XII
(...)
E o ancião me disse:
"A vossa política é mesquinha e vergonhosa, e
milagroso é o homem que sai dela limpo de mãos e de
consciência.
"Os Delegados da Nação, que não contam com o
voto aturado e livre do povo, vendem-se impudicamente.
"Porque o vosso povo, que não tem consciência,
por lhe faltar a instrução, aceitará o candidato, que
lhe for apresentado por um Mandarim, ou por um
chefe de partido às tontas improvisado.
"E curvar-se-á ao rés do chão para apanhar uma
nota desacreditada, com que por engodo lhe terão
arremessado.
"E o povo folga e ri no dia de sua vileza, no dia em
que ele devia ser soberano e impor lei aos homens
que os espezinham!
"E o povo folga e ri, como o escravo no dia em
que o senhor, cansado de o fustigar com varas, por
um momento lhe tira de diante dos olhos o ergástulo
da sua ignomínia!
"E os vossos homens de estado estribam-se nas
revoluções como num ponto de apoio, e como as
salamandras, eles querem viver no elemento que a
todos asfixia.
"E não pelejais por amor do progresso, como
vangloriosamente ostentais.
"Porque a ordem e progresso são inseparáveis; —
e o que realizar uma obterá a outra.
"Pelejais sim por amor de alguns homens, porque
a vossa política não é de idéias — porém de cousas.
"Pelejais, porque a vossa política está nestas duas
palavras — egoísmo e loucura — ".
Assim falou o ancião.
Poema integrante da série Capítulo III.
In: DIAS, Gonçalves. Meditação. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1909. p.87-8
E o ancião me disse:
"A vossa política é mesquinha e vergonhosa, e
milagroso é o homem que sai dela limpo de mãos e de
consciência.
"Os Delegados da Nação, que não contam com o
voto aturado e livre do povo, vendem-se impudicamente.
"Porque o vosso povo, que não tem consciência,
por lhe faltar a instrução, aceitará o candidato, que
lhe for apresentado por um Mandarim, ou por um
chefe de partido às tontas improvisado.
"E curvar-se-á ao rés do chão para apanhar uma
nota desacreditada, com que por engodo lhe terão
arremessado.
"E o povo folga e ri no dia de sua vileza, no dia em
que ele devia ser soberano e impor lei aos homens
que os espezinham!
"E o povo folga e ri, como o escravo no dia em
que o senhor, cansado de o fustigar com varas, por
um momento lhe tira de diante dos olhos o ergástulo
da sua ignomínia!
"E os vossos homens de estado estribam-se nas
revoluções como num ponto de apoio, e como as
salamandras, eles querem viver no elemento que a
todos asfixia.
"E não pelejais por amor do progresso, como
vangloriosamente ostentais.
"Porque a ordem e progresso são inseparáveis; —
e o que realizar uma obterá a outra.
"Pelejais sim por amor de alguns homens, porque
a vossa política não é de idéias — porém de cousas.
"Pelejais, porque a vossa política está nestas duas
palavras — egoísmo e loucura — ".
Assim falou o ancião.
Poema integrante da série Capítulo III.
In: DIAS, Gonçalves. Meditação. Rio de Janeiro: H. Garnier, 1909. p.87-8
3 583
1
Renata Pallottini
Poema da Rua Maria Antonia
Por sobre o muro
voam bombas e garrafas incendiadas
pedras agudas e palavras
duras.
Por sobre o muro
voa a lembrança de um amor que houve
uma visão passada e deslocada
que tenta ultrapassar o muro e do alto
proclamar-se intocada.
Mas as garrafas incendeiam tudo
e a palavras
tornam menos urgente o amor antigo
e mais urgente o aviso:
esta é a guerra das guerras
guerra civil dos que foram amigos.
Por sobre o muro
espio com espanto o pátio incendiado
os jovens que se atingem entre lágrimas
os feridos e os gestos e os detalhes.
Minha cabeça ponho sobre o muro.
É uma cabeça desligada do seu corpo
como a cabeça de um guilhotinado
de olhos abertos.
Com meus olhos abertos sobre o muro
vejo o sangue e a fumaça da contenda.
Não posso distinguir qual dos lados do muro
é o mais claro, o mais limpo, o mais certo, o mais justo.
Meus olhos na cabeça decepada,
Buscam ansiosamente sobre o muro
o caminho mais curto, a razão mais sensata,
ou pelo menos a mais desinteressada.
Meus olhos, na cabeça desnorteada
procuram com inútil desespero
a arma de lutar, a faca de se defender
o punho de atacar.
Na cabeça infeliz meus olhos são culpados
de verem o que aos mortos foi negado.
In: PALLOTTINI, Renata. Coração americano. Pref. Luiz Carlos Cardoso. Il. Aldemir Martins. 2.ed. São Paulo: Feira de Poesia, 1979
NOTA: "Poema da Rua Maria Antonia" é a quarta parte do poema "Simposium", composto de 10 partes
voam bombas e garrafas incendiadas
pedras agudas e palavras
duras.
Por sobre o muro
voa a lembrança de um amor que houve
uma visão passada e deslocada
que tenta ultrapassar o muro e do alto
proclamar-se intocada.
Mas as garrafas incendeiam tudo
e a palavras
tornam menos urgente o amor antigo
e mais urgente o aviso:
esta é a guerra das guerras
guerra civil dos que foram amigos.
Por sobre o muro
espio com espanto o pátio incendiado
os jovens que se atingem entre lágrimas
os feridos e os gestos e os detalhes.
Minha cabeça ponho sobre o muro.
É uma cabeça desligada do seu corpo
como a cabeça de um guilhotinado
de olhos abertos.
Com meus olhos abertos sobre o muro
vejo o sangue e a fumaça da contenda.
Não posso distinguir qual dos lados do muro
é o mais claro, o mais limpo, o mais certo, o mais justo.
Meus olhos na cabeça decepada,
Buscam ansiosamente sobre o muro
o caminho mais curto, a razão mais sensata,
ou pelo menos a mais desinteressada.
Meus olhos, na cabeça desnorteada
procuram com inútil desespero
a arma de lutar, a faca de se defender
o punho de atacar.
Na cabeça infeliz meus olhos são culpados
de verem o que aos mortos foi negado.
In: PALLOTTINI, Renata. Coração americano. Pref. Luiz Carlos Cardoso. Il. Aldemir Martins. 2.ed. São Paulo: Feira de Poesia, 1979
NOTA: "Poema da Rua Maria Antonia" é a quarta parte do poema "Simposium", composto de 10 partes
1 768
1
Renata Pallottini
Poema da Rua Maria Antonia
Por sobre o muro
voam bombas e garrafas incendiadas
pedras agudas e palavras
duras.
Por sobre o muro
voa a lembrança de um amor que houve
uma visão passada e deslocada
que tenta ultrapassar o muro e do alto
proclamar-se intocada.
Mas as garrafas incendeiam tudo
e a palavras
tornam menos urgente o amor antigo
e mais urgente o aviso:
esta é a guerra das guerras
guerra civil dos que foram amigos.
Por sobre o muro
espio com espanto o pátio incendiado
os jovens que se atingem entre lágrimas
os feridos e os gestos e os detalhes.
Minha cabeça ponho sobre o muro.
É uma cabeça desligada do seu corpo
como a cabeça de um guilhotinado
de olhos abertos.
Com meus olhos abertos sobre o muro
vejo o sangue e a fumaça da contenda.
Não posso distinguir qual dos lados do muro
é o mais claro, o mais limpo, o mais certo, o mais justo.
Meus olhos na cabeça decepada,
Buscam ansiosamente sobre o muro
o caminho mais curto, a razão mais sensata,
ou pelo menos a mais desinteressada.
Meus olhos, na cabeça desnorteada
procuram com inútil desespero
a arma de lutar, a faca de se defender
o punho de atacar.
Na cabeça infeliz meus olhos são culpados
de verem o que aos mortos foi negado.
In: PALLOTTINI, Renata. Coração americano. Pref. Luiz Carlos Cardoso. Il. Aldemir Martins. 2.ed. São Paulo: Feira de Poesia, 1979
NOTA: "Poema da Rua Maria Antonia" é a quarta parte do poema "Simposium", composto de 10 partes
voam bombas e garrafas incendiadas
pedras agudas e palavras
duras.
Por sobre o muro
voa a lembrança de um amor que houve
uma visão passada e deslocada
que tenta ultrapassar o muro e do alto
proclamar-se intocada.
Mas as garrafas incendeiam tudo
e a palavras
tornam menos urgente o amor antigo
e mais urgente o aviso:
esta é a guerra das guerras
guerra civil dos que foram amigos.
Por sobre o muro
espio com espanto o pátio incendiado
os jovens que se atingem entre lágrimas
os feridos e os gestos e os detalhes.
Minha cabeça ponho sobre o muro.
É uma cabeça desligada do seu corpo
como a cabeça de um guilhotinado
de olhos abertos.
Com meus olhos abertos sobre o muro
vejo o sangue e a fumaça da contenda.
Não posso distinguir qual dos lados do muro
é o mais claro, o mais limpo, o mais certo, o mais justo.
Meus olhos na cabeça decepada,
Buscam ansiosamente sobre o muro
o caminho mais curto, a razão mais sensata,
ou pelo menos a mais desinteressada.
Meus olhos, na cabeça desnorteada
procuram com inútil desespero
a arma de lutar, a faca de se defender
o punho de atacar.
Na cabeça infeliz meus olhos são culpados
de verem o que aos mortos foi negado.
In: PALLOTTINI, Renata. Coração americano. Pref. Luiz Carlos Cardoso. Il. Aldemir Martins. 2.ed. São Paulo: Feira de Poesia, 1979
NOTA: "Poema da Rua Maria Antonia" é a quarta parte do poema "Simposium", composto de 10 partes
1 768
1
Renata Pallottini
Poema da Rua Maria Antonia
Por sobre o muro
voam bombas e garrafas incendiadas
pedras agudas e palavras
duras.
Por sobre o muro
voa a lembrança de um amor que houve
uma visão passada e deslocada
que tenta ultrapassar o muro e do alto
proclamar-se intocada.
Mas as garrafas incendeiam tudo
e a palavras
tornam menos urgente o amor antigo
e mais urgente o aviso:
esta é a guerra das guerras
guerra civil dos que foram amigos.
Por sobre o muro
espio com espanto o pátio incendiado
os jovens que se atingem entre lágrimas
os feridos e os gestos e os detalhes.
Minha cabeça ponho sobre o muro.
É uma cabeça desligada do seu corpo
como a cabeça de um guilhotinado
de olhos abertos.
Com meus olhos abertos sobre o muro
vejo o sangue e a fumaça da contenda.
Não posso distinguir qual dos lados do muro
é o mais claro, o mais limpo, o mais certo, o mais justo.
Meus olhos na cabeça decepada,
Buscam ansiosamente sobre o muro
o caminho mais curto, a razão mais sensata,
ou pelo menos a mais desinteressada.
Meus olhos, na cabeça desnorteada
procuram com inútil desespero
a arma de lutar, a faca de se defender
o punho de atacar.
Na cabeça infeliz meus olhos são culpados
de verem o que aos mortos foi negado.
In: PALLOTTINI, Renata. Coração americano. Pref. Luiz Carlos Cardoso. Il. Aldemir Martins. 2.ed. São Paulo: Feira de Poesia, 1979
NOTA: "Poema da Rua Maria Antonia" é a quarta parte do poema "Simposium", composto de 10 partes
voam bombas e garrafas incendiadas
pedras agudas e palavras
duras.
Por sobre o muro
voa a lembrança de um amor que houve
uma visão passada e deslocada
que tenta ultrapassar o muro e do alto
proclamar-se intocada.
Mas as garrafas incendeiam tudo
e a palavras
tornam menos urgente o amor antigo
e mais urgente o aviso:
esta é a guerra das guerras
guerra civil dos que foram amigos.
Por sobre o muro
espio com espanto o pátio incendiado
os jovens que se atingem entre lágrimas
os feridos e os gestos e os detalhes.
Minha cabeça ponho sobre o muro.
É uma cabeça desligada do seu corpo
como a cabeça de um guilhotinado
de olhos abertos.
Com meus olhos abertos sobre o muro
vejo o sangue e a fumaça da contenda.
Não posso distinguir qual dos lados do muro
é o mais claro, o mais limpo, o mais certo, o mais justo.
Meus olhos na cabeça decepada,
Buscam ansiosamente sobre o muro
o caminho mais curto, a razão mais sensata,
ou pelo menos a mais desinteressada.
Meus olhos, na cabeça desnorteada
procuram com inútil desespero
a arma de lutar, a faca de se defender
o punho de atacar.
Na cabeça infeliz meus olhos são culpados
de verem o que aos mortos foi negado.
In: PALLOTTINI, Renata. Coração americano. Pref. Luiz Carlos Cardoso. Il. Aldemir Martins. 2.ed. São Paulo: Feira de Poesia, 1979
NOTA: "Poema da Rua Maria Antonia" é a quarta parte do poema "Simposium", composto de 10 partes
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1
Luís Gama
No Cemitério de S Benedito da Cidade de S Paulo
Também do escravo a humilde sepultura
Um gemido merece de saudade:
Ah! caia sobre ela uma só lágrima
De gratidão ao menos.
Dr. B. GUIMARÃES
Em lúgubre recinto escuro e frio,
Onde reina o silêncio aos mortos dado,
Entre quatro paredes descoradas,
Que o caprichoso luxo não adorna,
Jaz de terra coberto humano corpo,
Que escravo sucumbiu, livre nascendo!
Das hórridas cadeias desprendido,
Que só forjam sacrílegos tiranos,
Dorme o sono feliz da eternidade.
Não cercam a morada lutuosa
Os salgueiros, os fúnebres ciprestes,
Nem lhe guarda os umbrais da sepultura
Pesada laje de espartano mármore.
Somente levantando um quadro negro
Epitáfio se lê, que impõe silêncio!
— Descansam neste lar caliginoso
O mísero cativo, o desgraçado!...
Aqui não vem rasteira a vil lisonja
Os feitos decantar da tirania,
Nem ofuscando a luz da sã verdade
Eleva o crime, perpetua a infâmia.
Aqui não se ergue altar, ou trono d'ouro
Ao torpe mercador de carne humana,
Aqui se curva o filho respeitoso
Ante a lousa materna, e o pranto em fio
Cai-lhe dos olhos revelando mudo
A história do passado. Aqui, nas sombras
Da funda escuridão do horror eterno,
Dos braços de uma cruz pende o mistério,
Faz-se o cetro bordão, andrajo a túnica,
Mendigo o rei, o potentado escravo!
Publicado no livro Primeiras trovas burlescas de Getulino (1859).
In: GAMA, Luiz. Trovas burlescas e escritos em prosa. Org. Fernando Góes. São Paulo: Cultura, 1944. p.128-129. (Últimas gerações, 4
Um gemido merece de saudade:
Ah! caia sobre ela uma só lágrima
De gratidão ao menos.
Dr. B. GUIMARÃES
Em lúgubre recinto escuro e frio,
Onde reina o silêncio aos mortos dado,
Entre quatro paredes descoradas,
Que o caprichoso luxo não adorna,
Jaz de terra coberto humano corpo,
Que escravo sucumbiu, livre nascendo!
Das hórridas cadeias desprendido,
Que só forjam sacrílegos tiranos,
Dorme o sono feliz da eternidade.
Não cercam a morada lutuosa
Os salgueiros, os fúnebres ciprestes,
Nem lhe guarda os umbrais da sepultura
Pesada laje de espartano mármore.
Somente levantando um quadro negro
Epitáfio se lê, que impõe silêncio!
— Descansam neste lar caliginoso
O mísero cativo, o desgraçado!...
Aqui não vem rasteira a vil lisonja
Os feitos decantar da tirania,
Nem ofuscando a luz da sã verdade
Eleva o crime, perpetua a infâmia.
Aqui não se ergue altar, ou trono d'ouro
Ao torpe mercador de carne humana,
Aqui se curva o filho respeitoso
Ante a lousa materna, e o pranto em fio
Cai-lhe dos olhos revelando mudo
A história do passado. Aqui, nas sombras
Da funda escuridão do horror eterno,
Dos braços de uma cruz pende o mistério,
Faz-se o cetro bordão, andrajo a túnica,
Mendigo o rei, o potentado escravo!
Publicado no livro Primeiras trovas burlescas de Getulino (1859).
In: GAMA, Luiz. Trovas burlescas e escritos em prosa. Org. Fernando Góes. São Paulo: Cultura, 1944. p.128-129. (Últimas gerações, 4
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1
Luís Gama
No Cemitério de S Benedito da Cidade de S Paulo
Também do escravo a humilde sepultura
Um gemido merece de saudade:
Ah! caia sobre ela uma só lágrima
De gratidão ao menos.
Dr. B. GUIMARÃES
Em lúgubre recinto escuro e frio,
Onde reina o silêncio aos mortos dado,
Entre quatro paredes descoradas,
Que o caprichoso luxo não adorna,
Jaz de terra coberto humano corpo,
Que escravo sucumbiu, livre nascendo!
Das hórridas cadeias desprendido,
Que só forjam sacrílegos tiranos,
Dorme o sono feliz da eternidade.
Não cercam a morada lutuosa
Os salgueiros, os fúnebres ciprestes,
Nem lhe guarda os umbrais da sepultura
Pesada laje de espartano mármore.
Somente levantando um quadro negro
Epitáfio se lê, que impõe silêncio!
— Descansam neste lar caliginoso
O mísero cativo, o desgraçado!...
Aqui não vem rasteira a vil lisonja
Os feitos decantar da tirania,
Nem ofuscando a luz da sã verdade
Eleva o crime, perpetua a infâmia.
Aqui não se ergue altar, ou trono d'ouro
Ao torpe mercador de carne humana,
Aqui se curva o filho respeitoso
Ante a lousa materna, e o pranto em fio
Cai-lhe dos olhos revelando mudo
A história do passado. Aqui, nas sombras
Da funda escuridão do horror eterno,
Dos braços de uma cruz pende o mistério,
Faz-se o cetro bordão, andrajo a túnica,
Mendigo o rei, o potentado escravo!
Publicado no livro Primeiras trovas burlescas de Getulino (1859).
In: GAMA, Luiz. Trovas burlescas e escritos em prosa. Org. Fernando Góes. São Paulo: Cultura, 1944. p.128-129. (Últimas gerações, 4
Um gemido merece de saudade:
Ah! caia sobre ela uma só lágrima
De gratidão ao menos.
Dr. B. GUIMARÃES
Em lúgubre recinto escuro e frio,
Onde reina o silêncio aos mortos dado,
Entre quatro paredes descoradas,
Que o caprichoso luxo não adorna,
Jaz de terra coberto humano corpo,
Que escravo sucumbiu, livre nascendo!
Das hórridas cadeias desprendido,
Que só forjam sacrílegos tiranos,
Dorme o sono feliz da eternidade.
Não cercam a morada lutuosa
Os salgueiros, os fúnebres ciprestes,
Nem lhe guarda os umbrais da sepultura
Pesada laje de espartano mármore.
Somente levantando um quadro negro
Epitáfio se lê, que impõe silêncio!
— Descansam neste lar caliginoso
O mísero cativo, o desgraçado!...
Aqui não vem rasteira a vil lisonja
Os feitos decantar da tirania,
Nem ofuscando a luz da sã verdade
Eleva o crime, perpetua a infâmia.
Aqui não se ergue altar, ou trono d'ouro
Ao torpe mercador de carne humana,
Aqui se curva o filho respeitoso
Ante a lousa materna, e o pranto em fio
Cai-lhe dos olhos revelando mudo
A história do passado. Aqui, nas sombras
Da funda escuridão do horror eterno,
Dos braços de uma cruz pende o mistério,
Faz-se o cetro bordão, andrajo a túnica,
Mendigo o rei, o potentado escravo!
Publicado no livro Primeiras trovas burlescas de Getulino (1859).
In: GAMA, Luiz. Trovas burlescas e escritos em prosa. Org. Fernando Góes. São Paulo: Cultura, 1944. p.128-129. (Últimas gerações, 4
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1
Luís Gama
No Cemitério de S Benedito da Cidade de S Paulo
Também do escravo a humilde sepultura
Um gemido merece de saudade:
Ah! caia sobre ela uma só lágrima
De gratidão ao menos.
Dr. B. GUIMARÃES
Em lúgubre recinto escuro e frio,
Onde reina o silêncio aos mortos dado,
Entre quatro paredes descoradas,
Que o caprichoso luxo não adorna,
Jaz de terra coberto humano corpo,
Que escravo sucumbiu, livre nascendo!
Das hórridas cadeias desprendido,
Que só forjam sacrílegos tiranos,
Dorme o sono feliz da eternidade.
Não cercam a morada lutuosa
Os salgueiros, os fúnebres ciprestes,
Nem lhe guarda os umbrais da sepultura
Pesada laje de espartano mármore.
Somente levantando um quadro negro
Epitáfio se lê, que impõe silêncio!
— Descansam neste lar caliginoso
O mísero cativo, o desgraçado!...
Aqui não vem rasteira a vil lisonja
Os feitos decantar da tirania,
Nem ofuscando a luz da sã verdade
Eleva o crime, perpetua a infâmia.
Aqui não se ergue altar, ou trono d'ouro
Ao torpe mercador de carne humana,
Aqui se curva o filho respeitoso
Ante a lousa materna, e o pranto em fio
Cai-lhe dos olhos revelando mudo
A história do passado. Aqui, nas sombras
Da funda escuridão do horror eterno,
Dos braços de uma cruz pende o mistério,
Faz-se o cetro bordão, andrajo a túnica,
Mendigo o rei, o potentado escravo!
Publicado no livro Primeiras trovas burlescas de Getulino (1859).
In: GAMA, Luiz. Trovas burlescas e escritos em prosa. Org. Fernando Góes. São Paulo: Cultura, 1944. p.128-129. (Últimas gerações, 4
Um gemido merece de saudade:
Ah! caia sobre ela uma só lágrima
De gratidão ao menos.
Dr. B. GUIMARÃES
Em lúgubre recinto escuro e frio,
Onde reina o silêncio aos mortos dado,
Entre quatro paredes descoradas,
Que o caprichoso luxo não adorna,
Jaz de terra coberto humano corpo,
Que escravo sucumbiu, livre nascendo!
Das hórridas cadeias desprendido,
Que só forjam sacrílegos tiranos,
Dorme o sono feliz da eternidade.
Não cercam a morada lutuosa
Os salgueiros, os fúnebres ciprestes,
Nem lhe guarda os umbrais da sepultura
Pesada laje de espartano mármore.
Somente levantando um quadro negro
Epitáfio se lê, que impõe silêncio!
— Descansam neste lar caliginoso
O mísero cativo, o desgraçado!...
Aqui não vem rasteira a vil lisonja
Os feitos decantar da tirania,
Nem ofuscando a luz da sã verdade
Eleva o crime, perpetua a infâmia.
Aqui não se ergue altar, ou trono d'ouro
Ao torpe mercador de carne humana,
Aqui se curva o filho respeitoso
Ante a lousa materna, e o pranto em fio
Cai-lhe dos olhos revelando mudo
A história do passado. Aqui, nas sombras
Da funda escuridão do horror eterno,
Dos braços de uma cruz pende o mistério,
Faz-se o cetro bordão, andrajo a túnica,
Mendigo o rei, o potentado escravo!
Publicado no livro Primeiras trovas burlescas de Getulino (1859).
In: GAMA, Luiz. Trovas burlescas e escritos em prosa. Org. Fernando Góes. São Paulo: Cultura, 1944. p.128-129. (Últimas gerações, 4
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1
Luís Gama
O Rei Cidadão
(Dois Metros de Política)
O Imperador reina, governa, e administra,
tal é o nosso direito público, consagrado
na constituição.
VISCONDE DE ITABORAÍ - Discursos
É o direito coisa alpendurada,
Que põe-nos a cabeça atordoada.
O princípio, a doutrina, a conclusão,
Nas idéias produzem turbação.
Acertar eu pretendo a todo instante;
Mas sinto o meu bestunto vacilante;
Se na tese aprofundo, e bato à fronte,
Todo o Rei me parece um mastodonte!
Pelo que já vou crendo no rifão
— Que o Rei da mista forma é velhacão.
No tempo antigo o Rei obrava só;
De chanfalho na mão cortava o nó;
E os ministros calados como escudos,
Eram todos do Rei criados-mudos.
Hoje em dia, porém, mudou-se a cena,
Quebrou-se o férreo guante, voga a pena;
A pena e a palavra; a língua luta,
Soberana domina a força bruta.
O Rei não obra só; pois na linguagem,
Obra mais do que o Rei a vassalagem.
— Reina o Rei, não governa — é o problema;
— Mas, se reina, governa: eis o dilema!
— Não só reina, governa e administra —
É suprema doutrina monarquista.
De outro ponto o ministro não quer meias,
Quer o Rei regulado, um Rei de peias;
E antolha-se, Penélope do dia,
Capaz de refazer a monarquia;
Um rei feroz não quer, nem Rei tirano,
Mas um Rei cidadão — republicano!
(...)
Publicado no livro Primeiras trovas burlescas de Luiz Gama (Getulino) (1904).
In: GAMA, Luiz. Trovas burlescas e escritos em prosa. Org. Fernando Góes. São Paulo: Cultura, 1944. p.160-161. (Últimas gerações, 4
O Imperador reina, governa, e administra,
tal é o nosso direito público, consagrado
na constituição.
VISCONDE DE ITABORAÍ - Discursos
É o direito coisa alpendurada,
Que põe-nos a cabeça atordoada.
O princípio, a doutrina, a conclusão,
Nas idéias produzem turbação.
Acertar eu pretendo a todo instante;
Mas sinto o meu bestunto vacilante;
Se na tese aprofundo, e bato à fronte,
Todo o Rei me parece um mastodonte!
Pelo que já vou crendo no rifão
— Que o Rei da mista forma é velhacão.
No tempo antigo o Rei obrava só;
De chanfalho na mão cortava o nó;
E os ministros calados como escudos,
Eram todos do Rei criados-mudos.
Hoje em dia, porém, mudou-se a cena,
Quebrou-se o férreo guante, voga a pena;
A pena e a palavra; a língua luta,
Soberana domina a força bruta.
O Rei não obra só; pois na linguagem,
Obra mais do que o Rei a vassalagem.
— Reina o Rei, não governa — é o problema;
— Mas, se reina, governa: eis o dilema!
— Não só reina, governa e administra —
É suprema doutrina monarquista.
De outro ponto o ministro não quer meias,
Quer o Rei regulado, um Rei de peias;
E antolha-se, Penélope do dia,
Capaz de refazer a monarquia;
Um rei feroz não quer, nem Rei tirano,
Mas um Rei cidadão — republicano!
(...)
Publicado no livro Primeiras trovas burlescas de Luiz Gama (Getulino) (1904).
In: GAMA, Luiz. Trovas burlescas e escritos em prosa. Org. Fernando Góes. São Paulo: Cultura, 1944. p.160-161. (Últimas gerações, 4
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1
Luís Gama
O Rei Cidadão
(Dois Metros de Política)
O Imperador reina, governa, e administra,
tal é o nosso direito público, consagrado
na constituição.
VISCONDE DE ITABORAÍ - Discursos
É o direito coisa alpendurada,
Que põe-nos a cabeça atordoada.
O princípio, a doutrina, a conclusão,
Nas idéias produzem turbação.
Acertar eu pretendo a todo instante;
Mas sinto o meu bestunto vacilante;
Se na tese aprofundo, e bato à fronte,
Todo o Rei me parece um mastodonte!
Pelo que já vou crendo no rifão
— Que o Rei da mista forma é velhacão.
No tempo antigo o Rei obrava só;
De chanfalho na mão cortava o nó;
E os ministros calados como escudos,
Eram todos do Rei criados-mudos.
Hoje em dia, porém, mudou-se a cena,
Quebrou-se o férreo guante, voga a pena;
A pena e a palavra; a língua luta,
Soberana domina a força bruta.
O Rei não obra só; pois na linguagem,
Obra mais do que o Rei a vassalagem.
— Reina o Rei, não governa — é o problema;
— Mas, se reina, governa: eis o dilema!
— Não só reina, governa e administra —
É suprema doutrina monarquista.
De outro ponto o ministro não quer meias,
Quer o Rei regulado, um Rei de peias;
E antolha-se, Penélope do dia,
Capaz de refazer a monarquia;
Um rei feroz não quer, nem Rei tirano,
Mas um Rei cidadão — republicano!
(...)
Publicado no livro Primeiras trovas burlescas de Luiz Gama (Getulino) (1904).
In: GAMA, Luiz. Trovas burlescas e escritos em prosa. Org. Fernando Góes. São Paulo: Cultura, 1944. p.160-161. (Últimas gerações, 4
O Imperador reina, governa, e administra,
tal é o nosso direito público, consagrado
na constituição.
VISCONDE DE ITABORAÍ - Discursos
É o direito coisa alpendurada,
Que põe-nos a cabeça atordoada.
O princípio, a doutrina, a conclusão,
Nas idéias produzem turbação.
Acertar eu pretendo a todo instante;
Mas sinto o meu bestunto vacilante;
Se na tese aprofundo, e bato à fronte,
Todo o Rei me parece um mastodonte!
Pelo que já vou crendo no rifão
— Que o Rei da mista forma é velhacão.
No tempo antigo o Rei obrava só;
De chanfalho na mão cortava o nó;
E os ministros calados como escudos,
Eram todos do Rei criados-mudos.
Hoje em dia, porém, mudou-se a cena,
Quebrou-se o férreo guante, voga a pena;
A pena e a palavra; a língua luta,
Soberana domina a força bruta.
O Rei não obra só; pois na linguagem,
Obra mais do que o Rei a vassalagem.
— Reina o Rei, não governa — é o problema;
— Mas, se reina, governa: eis o dilema!
— Não só reina, governa e administra —
É suprema doutrina monarquista.
De outro ponto o ministro não quer meias,
Quer o Rei regulado, um Rei de peias;
E antolha-se, Penélope do dia,
Capaz de refazer a monarquia;
Um rei feroz não quer, nem Rei tirano,
Mas um Rei cidadão — republicano!
(...)
Publicado no livro Primeiras trovas burlescas de Luiz Gama (Getulino) (1904).
In: GAMA, Luiz. Trovas burlescas e escritos em prosa. Org. Fernando Góes. São Paulo: Cultura, 1944. p.160-161. (Últimas gerações, 4
4 417
1
Luís Gama
O Rei Cidadão
(Dois Metros de Política)
O Imperador reina, governa, e administra,
tal é o nosso direito público, consagrado
na constituição.
VISCONDE DE ITABORAÍ - Discursos
É o direito coisa alpendurada,
Que põe-nos a cabeça atordoada.
O princípio, a doutrina, a conclusão,
Nas idéias produzem turbação.
Acertar eu pretendo a todo instante;
Mas sinto o meu bestunto vacilante;
Se na tese aprofundo, e bato à fronte,
Todo o Rei me parece um mastodonte!
Pelo que já vou crendo no rifão
— Que o Rei da mista forma é velhacão.
No tempo antigo o Rei obrava só;
De chanfalho na mão cortava o nó;
E os ministros calados como escudos,
Eram todos do Rei criados-mudos.
Hoje em dia, porém, mudou-se a cena,
Quebrou-se o férreo guante, voga a pena;
A pena e a palavra; a língua luta,
Soberana domina a força bruta.
O Rei não obra só; pois na linguagem,
Obra mais do que o Rei a vassalagem.
— Reina o Rei, não governa — é o problema;
— Mas, se reina, governa: eis o dilema!
— Não só reina, governa e administra —
É suprema doutrina monarquista.
De outro ponto o ministro não quer meias,
Quer o Rei regulado, um Rei de peias;
E antolha-se, Penélope do dia,
Capaz de refazer a monarquia;
Um rei feroz não quer, nem Rei tirano,
Mas um Rei cidadão — republicano!
(...)
Publicado no livro Primeiras trovas burlescas de Luiz Gama (Getulino) (1904).
In: GAMA, Luiz. Trovas burlescas e escritos em prosa. Org. Fernando Góes. São Paulo: Cultura, 1944. p.160-161. (Últimas gerações, 4
O Imperador reina, governa, e administra,
tal é o nosso direito público, consagrado
na constituição.
VISCONDE DE ITABORAÍ - Discursos
É o direito coisa alpendurada,
Que põe-nos a cabeça atordoada.
O princípio, a doutrina, a conclusão,
Nas idéias produzem turbação.
Acertar eu pretendo a todo instante;
Mas sinto o meu bestunto vacilante;
Se na tese aprofundo, e bato à fronte,
Todo o Rei me parece um mastodonte!
Pelo que já vou crendo no rifão
— Que o Rei da mista forma é velhacão.
No tempo antigo o Rei obrava só;
De chanfalho na mão cortava o nó;
E os ministros calados como escudos,
Eram todos do Rei criados-mudos.
Hoje em dia, porém, mudou-se a cena,
Quebrou-se o férreo guante, voga a pena;
A pena e a palavra; a língua luta,
Soberana domina a força bruta.
O Rei não obra só; pois na linguagem,
Obra mais do que o Rei a vassalagem.
— Reina o Rei, não governa — é o problema;
— Mas, se reina, governa: eis o dilema!
— Não só reina, governa e administra —
É suprema doutrina monarquista.
De outro ponto o ministro não quer meias,
Quer o Rei regulado, um Rei de peias;
E antolha-se, Penélope do dia,
Capaz de refazer a monarquia;
Um rei feroz não quer, nem Rei tirano,
Mas um Rei cidadão — republicano!
(...)
Publicado no livro Primeiras trovas burlescas de Luiz Gama (Getulino) (1904).
In: GAMA, Luiz. Trovas burlescas e escritos em prosa. Org. Fernando Góes. São Paulo: Cultura, 1944. p.160-161. (Últimas gerações, 4
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