Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
José Mário Rodrigues
OS MENINOS
Os meninos dormem nas calçadas do
Recife.
Todos os dias
o roteiro é sempre o mesmo:
vão em bando para além das esquinas
arrancam os nossos excessos
aspiram o cheiro dos seus sonhos
dissipam a voracidade de sua fome.
E voltam a dormir nas calçadas do Recife.
Recife.
Todos os dias
o roteiro é sempre o mesmo:
vão em bando para além das esquinas
arrancam os nossos excessos
aspiram o cheiro dos seus sonhos
dissipam a voracidade de sua fome.
E voltam a dormir nas calçadas do Recife.
809
José Mário Rodrigues
OS MENINOS
Os meninos dormem nas calçadas do
Recife.
Todos os dias
o roteiro é sempre o mesmo:
vão em bando para além das esquinas
arrancam os nossos excessos
aspiram o cheiro dos seus sonhos
dissipam a voracidade de sua fome.
E voltam a dormir nas calçadas do Recife.
Recife.
Todos os dias
o roteiro é sempre o mesmo:
vão em bando para além das esquinas
arrancam os nossos excessos
aspiram o cheiro dos seus sonhos
dissipam a voracidade de sua fome.
E voltam a dormir nas calçadas do Recife.
809
José Mário Rodrigues
OS MENINOS
Os meninos dormem nas calçadas do
Recife.
Todos os dias
o roteiro é sempre o mesmo:
vão em bando para além das esquinas
arrancam os nossos excessos
aspiram o cheiro dos seus sonhos
dissipam a voracidade de sua fome.
E voltam a dormir nas calçadas do Recife.
Recife.
Todos os dias
o roteiro é sempre o mesmo:
vão em bando para além das esquinas
arrancam os nossos excessos
aspiram o cheiro dos seus sonhos
dissipam a voracidade de sua fome.
E voltam a dormir nas calçadas do Recife.
809
Daniel Francoy
RODOVIA CÂNDIDO PORTINARI
1.
Quilômetro 1: os homens
jogam bola aprisionados.
Quilômetro 2: cuida-se
de passarinhos diz
a placa meio escondida.
2.
O lavrado campo de cana
é plano e amarelo.
Os lavradores assinalando o horizonte
são sombras magras na distância lúgubre
com uma leveza de pássaros negros:
campo de trigo com corvos
e os abutres que planam
tão perto do sol ofuscados incinerados
que no súbito voo descendente haverá
quem pranteie a queda de Ícaro.
3.
Repete-se o campo de trigo
com corvos com homens
no lugar dos corvos.
Na contraluz ontem eram
os lavradores no canavial.
Hoje foram os cárceres
roçando a relva bronze.
Um deles – chapéu de palha –
parou o trabalho, olhos
no ônibus a desembarcar
as suas mulheres e crianças
também elas transformadas
em corvos em voo cego e raso.
Com o chapéu de palha, parecia
o holandês em autorretrato:
os olhos feridos, lúcido, mutilado.
Quilômetro 1: os homens
jogam bola aprisionados.
Quilômetro 2: cuida-se
de passarinhos diz
a placa meio escondida.
2.
O lavrado campo de cana
é plano e amarelo.
Os lavradores assinalando o horizonte
são sombras magras na distância lúgubre
com uma leveza de pássaros negros:
campo de trigo com corvos
e os abutres que planam
tão perto do sol ofuscados incinerados
que no súbito voo descendente haverá
quem pranteie a queda de Ícaro.
3.
Repete-se o campo de trigo
com corvos com homens
no lugar dos corvos.
Na contraluz ontem eram
os lavradores no canavial.
Hoje foram os cárceres
roçando a relva bronze.
Um deles – chapéu de palha –
parou o trabalho, olhos
no ônibus a desembarcar
as suas mulheres e crianças
também elas transformadas
em corvos em voo cego e raso.
Com o chapéu de palha, parecia
o holandês em autorretrato:
os olhos feridos, lúcido, mutilado.
1 241
Daniel Francoy
RODOVIA CÂNDIDO PORTINARI
1.
Quilômetro 1: os homens
jogam bola aprisionados.
Quilômetro 2: cuida-se
de passarinhos diz
a placa meio escondida.
2.
O lavrado campo de cana
é plano e amarelo.
Os lavradores assinalando o horizonte
são sombras magras na distância lúgubre
com uma leveza de pássaros negros:
campo de trigo com corvos
e os abutres que planam
tão perto do sol ofuscados incinerados
que no súbito voo descendente haverá
quem pranteie a queda de Ícaro.
3.
Repete-se o campo de trigo
com corvos com homens
no lugar dos corvos.
Na contraluz ontem eram
os lavradores no canavial.
Hoje foram os cárceres
roçando a relva bronze.
Um deles – chapéu de palha –
parou o trabalho, olhos
no ônibus a desembarcar
as suas mulheres e crianças
também elas transformadas
em corvos em voo cego e raso.
Com o chapéu de palha, parecia
o holandês em autorretrato:
os olhos feridos, lúcido, mutilado.
Quilômetro 1: os homens
jogam bola aprisionados.
Quilômetro 2: cuida-se
de passarinhos diz
a placa meio escondida.
2.
O lavrado campo de cana
é plano e amarelo.
Os lavradores assinalando o horizonte
são sombras magras na distância lúgubre
com uma leveza de pássaros negros:
campo de trigo com corvos
e os abutres que planam
tão perto do sol ofuscados incinerados
que no súbito voo descendente haverá
quem pranteie a queda de Ícaro.
3.
Repete-se o campo de trigo
com corvos com homens
no lugar dos corvos.
Na contraluz ontem eram
os lavradores no canavial.
Hoje foram os cárceres
roçando a relva bronze.
Um deles – chapéu de palha –
parou o trabalho, olhos
no ônibus a desembarcar
as suas mulheres e crianças
também elas transformadas
em corvos em voo cego e raso.
Com o chapéu de palha, parecia
o holandês em autorretrato:
os olhos feridos, lúcido, mutilado.
1 241
Daniel Francoy
RODOVIA CÂNDIDO PORTINARI
1.
Quilômetro 1: os homens
jogam bola aprisionados.
Quilômetro 2: cuida-se
de passarinhos diz
a placa meio escondida.
2.
O lavrado campo de cana
é plano e amarelo.
Os lavradores assinalando o horizonte
são sombras magras na distância lúgubre
com uma leveza de pássaros negros:
campo de trigo com corvos
e os abutres que planam
tão perto do sol ofuscados incinerados
que no súbito voo descendente haverá
quem pranteie a queda de Ícaro.
3.
Repete-se o campo de trigo
com corvos com homens
no lugar dos corvos.
Na contraluz ontem eram
os lavradores no canavial.
Hoje foram os cárceres
roçando a relva bronze.
Um deles – chapéu de palha –
parou o trabalho, olhos
no ônibus a desembarcar
as suas mulheres e crianças
também elas transformadas
em corvos em voo cego e raso.
Com o chapéu de palha, parecia
o holandês em autorretrato:
os olhos feridos, lúcido, mutilado.
Quilômetro 1: os homens
jogam bola aprisionados.
Quilômetro 2: cuida-se
de passarinhos diz
a placa meio escondida.
2.
O lavrado campo de cana
é plano e amarelo.
Os lavradores assinalando o horizonte
são sombras magras na distância lúgubre
com uma leveza de pássaros negros:
campo de trigo com corvos
e os abutres que planam
tão perto do sol ofuscados incinerados
que no súbito voo descendente haverá
quem pranteie a queda de Ícaro.
3.
Repete-se o campo de trigo
com corvos com homens
no lugar dos corvos.
Na contraluz ontem eram
os lavradores no canavial.
Hoje foram os cárceres
roçando a relva bronze.
Um deles – chapéu de palha –
parou o trabalho, olhos
no ônibus a desembarcar
as suas mulheres e crianças
também elas transformadas
em corvos em voo cego e raso.
Com o chapéu de palha, parecia
o holandês em autorretrato:
os olhos feridos, lúcido, mutilado.
1 241
Marcelo Montenegro
Cinecittà
Sabe aqueles sonhos em que você entra num consultório e quem te atende é a desconhecida que acendeu seu cigarro ontem à tarde? Depois você sai de lá e dá de cara com a praça em que brincava de balanço na sua infância? Aqueles posts que merecem curtidas tanto da sua tia Marta quanto de escritores que você admira? Você pode, quem sabe, recorrer a Freud no primeiro caso. No segundo, considerar, vá lá, um atestado de qualidade um texto conseguir chegar a dois planetas tão díspares – de algum modo, ele resvalou no nervo de algo, você pensa. Mas, posto em perspectiva, o que fica talvez seja apenas isso: sua vida, quando muito, não passa de um bairro maluco.
1 016
Daniel Francoy
O MEU LUGAR NO ESTADO DAS COISAS
Conheço o meu lugar no estado das coisas
e não ouso dizer o sentimento do mundo.
O jardim renovado, os hibiscos em flor
não são o planeta inteiro e tampouco
o meu coração. Antes, são uma mentira
que frutificou melhor do que um poema.
Um simples arranjo de cores, como bananas
num quadro de natureza morta, como cédulas
antigas de dinheiro, tornadas singelas
porque agora nada valem e ninguém
– nem mesmo eu – viverá por elas.
Apenas um modo de se enternecer,
de talvez pedir perdão, uma maneira
sutil de não se confundir com os assassinos,
uma impotente variação do verbo resistir,
um pacífico modo de calar a boca,
de não gritar, de não se render
ao coração pleno de napalm, de estar
entre vizinhos no país ocupado.
e não ouso dizer o sentimento do mundo.
O jardim renovado, os hibiscos em flor
não são o planeta inteiro e tampouco
o meu coração. Antes, são uma mentira
que frutificou melhor do que um poema.
Um simples arranjo de cores, como bananas
num quadro de natureza morta, como cédulas
antigas de dinheiro, tornadas singelas
porque agora nada valem e ninguém
– nem mesmo eu – viverá por elas.
Apenas um modo de se enternecer,
de talvez pedir perdão, uma maneira
sutil de não se confundir com os assassinos,
uma impotente variação do verbo resistir,
um pacífico modo de calar a boca,
de não gritar, de não se render
ao coração pleno de napalm, de estar
entre vizinhos no país ocupado.
688
Daniel Francoy
O MEU LUGAR NO ESTADO DAS COISAS
Conheço o meu lugar no estado das coisas
e não ouso dizer o sentimento do mundo.
O jardim renovado, os hibiscos em flor
não são o planeta inteiro e tampouco
o meu coração. Antes, são uma mentira
que frutificou melhor do que um poema.
Um simples arranjo de cores, como bananas
num quadro de natureza morta, como cédulas
antigas de dinheiro, tornadas singelas
porque agora nada valem e ninguém
– nem mesmo eu – viverá por elas.
Apenas um modo de se enternecer,
de talvez pedir perdão, uma maneira
sutil de não se confundir com os assassinos,
uma impotente variação do verbo resistir,
um pacífico modo de calar a boca,
de não gritar, de não se render
ao coração pleno de napalm, de estar
entre vizinhos no país ocupado.
e não ouso dizer o sentimento do mundo.
O jardim renovado, os hibiscos em flor
não são o planeta inteiro e tampouco
o meu coração. Antes, são uma mentira
que frutificou melhor do que um poema.
Um simples arranjo de cores, como bananas
num quadro de natureza morta, como cédulas
antigas de dinheiro, tornadas singelas
porque agora nada valem e ninguém
– nem mesmo eu – viverá por elas.
Apenas um modo de se enternecer,
de talvez pedir perdão, uma maneira
sutil de não se confundir com os assassinos,
uma impotente variação do verbo resistir,
um pacífico modo de calar a boca,
de não gritar, de não se render
ao coração pleno de napalm, de estar
entre vizinhos no país ocupado.
688
Daniel Francoy
O MEU LUGAR NO ESTADO DAS COISAS
Conheço o meu lugar no estado das coisas
e não ouso dizer o sentimento do mundo.
O jardim renovado, os hibiscos em flor
não são o planeta inteiro e tampouco
o meu coração. Antes, são uma mentira
que frutificou melhor do que um poema.
Um simples arranjo de cores, como bananas
num quadro de natureza morta, como cédulas
antigas de dinheiro, tornadas singelas
porque agora nada valem e ninguém
– nem mesmo eu – viverá por elas.
Apenas um modo de se enternecer,
de talvez pedir perdão, uma maneira
sutil de não se confundir com os assassinos,
uma impotente variação do verbo resistir,
um pacífico modo de calar a boca,
de não gritar, de não se render
ao coração pleno de napalm, de estar
entre vizinhos no país ocupado.
e não ouso dizer o sentimento do mundo.
O jardim renovado, os hibiscos em flor
não são o planeta inteiro e tampouco
o meu coração. Antes, são uma mentira
que frutificou melhor do que um poema.
Um simples arranjo de cores, como bananas
num quadro de natureza morta, como cédulas
antigas de dinheiro, tornadas singelas
porque agora nada valem e ninguém
– nem mesmo eu – viverá por elas.
Apenas um modo de se enternecer,
de talvez pedir perdão, uma maneira
sutil de não se confundir com os assassinos,
uma impotente variação do verbo resistir,
um pacífico modo de calar a boca,
de não gritar, de não se render
ao coração pleno de napalm, de estar
entre vizinhos no país ocupado.
688
Marcelo Montenegro
Cabaré
para Paulo de Tharso (in memoriam) e Ester Laccava
E se apenas cantássemos
como dois cansaços
num “deserto sem bússola”?
E se inscrevêssemos nosso sopro
na vidraça suja do mundo?
E se parássemos
de gastar nossas fichas nesta máquina?
E se apenas fingíssemos
como dois copos tingidos
de vinho no fundo?
E se nos anunciássemos
com bocejos sinceros em reuniões de negócios?
E se apenas sangrássemos
feito fiapos de riso
que escapam do choro?
E se topássemos, entre abandonos,
com o prenúncio invisível
de um poema lindo?
Resistiríamos, desistindo?
E se apenas cantássemos
como dois cansaços
num “deserto sem bússola”?
E se inscrevêssemos nosso sopro
na vidraça suja do mundo?
E se parássemos
de gastar nossas fichas nesta máquina?
E se apenas fingíssemos
como dois copos tingidos
de vinho no fundo?
E se nos anunciássemos
com bocejos sinceros em reuniões de negócios?
E se apenas sangrássemos
feito fiapos de riso
que escapam do choro?
E se topássemos, entre abandonos,
com o prenúncio invisível
de um poema lindo?
Resistiríamos, desistindo?
1 132
Marcus Vinicius Quiroga
NAVEGAÇÃO À DERIVA
quem navega à deriva
sabe que há vida além dos mares nos mapas
além das bússolas, astrolábios, diários de bordo
além das lendas dos monstros marinhos, dos mitos
quem navega à deriva
acredita que há nos mares miragens, portos
inesperados, ilhas flutuantes, botes e salva-vidas
água potável, aves voando sobre terra, vertigem
quem navega à deriva
aprende que há mares dentro do mar à vista
profundidade secreta, origem do mundo, poesia
escrita cifrada à espera de quem lhe dê sentido
quem navega à deriva
se perde da costa, do farol na torre, dos olhares
atentos, dos radares, das cartas de navegação
imigra para mares de imprevista dicção
sabe que há vida além dos mares nos mapas
além das bússolas, astrolábios, diários de bordo
além das lendas dos monstros marinhos, dos mitos
quem navega à deriva
acredita que há nos mares miragens, portos
inesperados, ilhas flutuantes, botes e salva-vidas
água potável, aves voando sobre terra, vertigem
quem navega à deriva
aprende que há mares dentro do mar à vista
profundidade secreta, origem do mundo, poesia
escrita cifrada à espera de quem lhe dê sentido
quem navega à deriva
se perde da costa, do farol na torre, dos olhares
atentos, dos radares, das cartas de navegação
imigra para mares de imprevista dicção
842
Marcelo Montenegro
Três pensatos
1.
PENSO naquela única gota
gelada do chuveiro quente.
Nas ilíadas clandestinas
que a febre percorre
até virar suor. Penso nas caretas
que os músicos fazem
quando estão solando.
No meu pai me dizendo
que tudo isso aqui era mato.
Penso na imagem exata
de uma aurora indecisa.
Penso em calços de papelão
para pianos mancos.
2.
PENSO em alguém que, na manhã
do dia de sua morte, desiste
de usar a camisa que mais gosta,
preferindo guardá-la para uma festa
que terá na noite seguinte.
3.
PENSO em você, por exemplo,
largando o controle
remoto e dizendo –
do jeito mais lindo
do mundo – que adora
quando consegue pegar
um filme do começo.
PENSO naquela única gota
gelada do chuveiro quente.
Nas ilíadas clandestinas
que a febre percorre
até virar suor. Penso nas caretas
que os músicos fazem
quando estão solando.
No meu pai me dizendo
que tudo isso aqui era mato.
Penso na imagem exata
de uma aurora indecisa.
Penso em calços de papelão
para pianos mancos.
2.
PENSO em alguém que, na manhã
do dia de sua morte, desiste
de usar a camisa que mais gosta,
preferindo guardá-la para uma festa
que terá na noite seguinte.
3.
PENSO em você, por exemplo,
largando o controle
remoto e dizendo –
do jeito mais lindo
do mundo – que adora
quando consegue pegar
um filme do começo.
1 037
Daniel Francoy
OS LIMITES DO INVERNO
Serpenteio, nos limites do inverno,
por uma alameda de condomínios
com nomes de principados e prédios
com nomes de ilhas mediterrâneas.
Entre mim e o outro, intransponível,
uma fria e úmida aragem.
A cidade aparece lá embaixo
sob a garoa: opaca, névoa leitosa.
A imensidão é uma força que fracassa
e a chuva é alheia ao cão que arrasta a pata,
ao cadáver enterrado na semana passada,
às rachaduras na parede da casa de família,
ao pássaro gris que luta para se manter em voo
e ao lixo na margem do rio
em meio à bruxa assassinada.
por uma alameda de condomínios
com nomes de principados e prédios
com nomes de ilhas mediterrâneas.
Entre mim e o outro, intransponível,
uma fria e úmida aragem.
A cidade aparece lá embaixo
sob a garoa: opaca, névoa leitosa.
A imensidão é uma força que fracassa
e a chuva é alheia ao cão que arrasta a pata,
ao cadáver enterrado na semana passada,
às rachaduras na parede da casa de família,
ao pássaro gris que luta para se manter em voo
e ao lixo na margem do rio
em meio à bruxa assassinada.
725
Herberto Helder
4E
Ninguém sabe se o vento arrasta a lua ou se a lua
arranca um vento às escuras.
As salas contemplam a noite com uma atenção extasiada.
Fazemos álgebra, música, astronomia,
um mapa
intuitivo do mundo. O sobressalto,
a agonia, às vezes um monstruoso júbilo,
desencadeiam
abruptamente o ritmo.
— Um dedo toca nas têmporas, mergulha tão fundo
que todo o sangue do corpo vem à boca
numa palavra.
E o vento dessa palavra é uma expansão da terra.
arranca um vento às escuras.
As salas contemplam a noite com uma atenção extasiada.
Fazemos álgebra, música, astronomia,
um mapa
intuitivo do mundo. O sobressalto,
a agonia, às vezes um monstruoso júbilo,
desencadeiam
abruptamente o ritmo.
— Um dedo toca nas têmporas, mergulha tão fundo
que todo o sangue do corpo vem à boca
numa palavra.
E o vento dessa palavra é uma expansão da terra.
1 130
Herberto Helder
4N
A lua leveda o mênstruo, vira o peixe no frio, ilumina
o objecto brusco. É um trabalho recôndito
do nome, que o nome escrito
na lenha,
o tronco reverdeceu. E da madeira a mão levanta abismadamente
a corola.
A profissão de marceneiro, inspira-a
a embriaguez. Deus vê a talha cândida
da sua obra. Matriz, umbigo, meio da tábua,
a estrela principal, transfundem-se
em palavra. O marceneiro arranca das entranhas
a sua rosa. A pulso e bebedeira.
Arranca o olho que a olhava
espelhada. Enquanto se ligam lua e sol
debaixo
da plaina.
o objecto brusco. É um trabalho recôndito
do nome, que o nome escrito
na lenha,
o tronco reverdeceu. E da madeira a mão levanta abismadamente
a corola.
A profissão de marceneiro, inspira-a
a embriaguez. Deus vê a talha cândida
da sua obra. Matriz, umbigo, meio da tábua,
a estrela principal, transfundem-se
em palavra. O marceneiro arranca das entranhas
a sua rosa. A pulso e bebedeira.
Arranca o olho que a olhava
espelhada. Enquanto se ligam lua e sol
debaixo
da plaina.
1 044
Herberto Helder
3I
Pavões, glicínias, abelhas — e no leque gradual da luz,
enxames de bagas preciosas.
As águas encharcam a roupa até ao sono.
E a música ultramarina através dos meses em búzio.
É a experiência da morte nas imagens.
O comércio da terra: espuma que se desfolha nas superfícies
repentinas, bebedeira de floras,
o som que a agonia transmuda
em pensamento. Basta às vezes tocar na cara
às escuras, na idade
às escuras, entre espumas inundando os dias
sala a sala — basta para tantas ciências
de uma vida louca.
Como se ardeu até ficar de ouro!
E o coração do ouro era uma pálpebra
soldada
sobre elementos líricos, vivos,
terríficos.
A pupila via tudo de dentro para fora.
Essa luz feroz na alma húmida.
Tornava tão inocente o mundo: as formas
que o mundo queimara. O que era largo.
Abrasado. O que a morte já tocava
às escuras, na cara.
enxames de bagas preciosas.
As águas encharcam a roupa até ao sono.
E a música ultramarina através dos meses em búzio.
É a experiência da morte nas imagens.
O comércio da terra: espuma que se desfolha nas superfícies
repentinas, bebedeira de floras,
o som que a agonia transmuda
em pensamento. Basta às vezes tocar na cara
às escuras, na idade
às escuras, entre espumas inundando os dias
sala a sala — basta para tantas ciências
de uma vida louca.
Como se ardeu até ficar de ouro!
E o coração do ouro era uma pálpebra
soldada
sobre elementos líricos, vivos,
terríficos.
A pupila via tudo de dentro para fora.
Essa luz feroz na alma húmida.
Tornava tão inocente o mundo: as formas
que o mundo queimara. O que era largo.
Abrasado. O que a morte já tocava
às escuras, na cara.
1 026
Herberto Helder
5B
Os tubos de que é feito o corpo,
os tubos violentos,
os turvos tubos de chumbo,
enche-os o ouro lírico, sensível, alquímico:
o luxo o luxo
— e só então o corpo é monstruoso.
os tubos violentos,
os turvos tubos de chumbo,
enche-os o ouro lírico, sensível, alquímico:
o luxo o luxo
— e só então o corpo é monstruoso.
747
Yone Giannetti Fonseca
ENTRE O SONHO E O NOJO
Nenhum panorama
Além desta tarde
De cimento e lama
Nenhum desafogo
No jogo incansável
Entre o sonho e o nojo.
Nenhuma surpresa
No gozo da prenda:
Só cara ou coroa.
Nenhuma palavra
Tão desnecessária
Que não seja caça.
Somente o recalque
Desta virgindade
Disfarçada em atos.
Nenhum desenlace,
Apenas a lágrima
Inundando a alma.
À beira do rio
O mapa das praias
Como uma miragem.
Nenhuma verdade
Tão inteira e intacta,
Que não se descarte.
Somente o desastre
Deste com sem arte
De não ser abstrato.
Nenhuma memória,
Nenhum estandarte
Somente um ensaio
Que ninguém repara,
Sempre uma cachaça
Inundando a carne.
Além desta tarde
De cimento e lama
Nenhum desafogo
No jogo incansável
Entre o sonho e o nojo.
Nenhuma surpresa
No gozo da prenda:
Só cara ou coroa.
Nenhuma palavra
Tão desnecessária
Que não seja caça.
Somente o recalque
Desta virgindade
Disfarçada em atos.
Nenhum desenlace,
Apenas a lágrima
Inundando a alma.
À beira do rio
O mapa das praias
Como uma miragem.
Nenhuma verdade
Tão inteira e intacta,
Que não se descarte.
Somente o desastre
Deste com sem arte
De não ser abstrato.
Nenhuma memória,
Nenhum estandarte
Somente um ensaio
Que ninguém repara,
Sempre uma cachaça
Inundando a carne.
1 070
Herberto Helder
4B
Aguas espasmódicas, luas repetidas nas águas.
Ninguém sabe se as luas vistas pulsam da pulsação
das águas, ou se as águas pulsam
pela força das luas
exaltadas. E o mundo, o espelho que as luas acordam e de onde
transbordam as águas, sou eu que o contemplo,
é ele que me contempla,
ou trocamo-nos? Vivemos pelo poder
das imagens. Pelo sangue e a inocência
e o ríspido esplendor e a crispação fundida e a matéria
ÚLTIMA CIÊNCIA 407
cardíaca e mútua.
— De nome em nome passam por mim os sopros.
Paisagem caiada, sangue até ao ramo das vértebras:
habitações concêntricas
de insónias, luzes, vozes, trevas, bebedeiras
— interiores,
nupciais,
atmosféricas.
Se Deus me toca no fundo da palavra.
Ninguém sabe se as luas vistas pulsam da pulsação
das águas, ou se as águas pulsam
pela força das luas
exaltadas. E o mundo, o espelho que as luas acordam e de onde
transbordam as águas, sou eu que o contemplo,
é ele que me contempla,
ou trocamo-nos? Vivemos pelo poder
das imagens. Pelo sangue e a inocência
e o ríspido esplendor e a crispação fundida e a matéria
ÚLTIMA CIÊNCIA 407
cardíaca e mútua.
— De nome em nome passam por mim os sopros.
Paisagem caiada, sangue até ao ramo das vértebras:
habitações concêntricas
de insónias, luzes, vozes, trevas, bebedeiras
— interiores,
nupciais,
atmosféricas.
Se Deus me toca no fundo da palavra.
1 225
Herberto Helder
3L
Sou um lugar carregado de cactos junto à água, lua,
os animais com um clarão na boca, sou
uma ciência a sangue. O sítio ainda agora no cérebro:
jarro de vidro cheio de leite, o sal. Estes
elementos arcaicos — e as mulheres
sombrias
cantando. Sou um lugar que transborda.
Espancaram a luz atrás das costas: de onde eu vinha,
criança branca do mundo. Defronte os fogos
lavravam-me a testa.
Podia dançar sobre as áscuas. Podia ser tão silvestre
entre as folhagens do ouro, ter cornos, negra
máscara aterradora, silvar
como uma cobra.
Eu entrava na morte, era o filho da estrela
bárbara — erguia-a do meio dos diamantes.
De equinócio a solstício abraçava-me uma onda
quando subia, quando
se despenhava eu dormia dentro como um olho de água.
Depois o rosto obscuro.
Depois a seda fiada atrás do rosto.
Não espero nada.
Espero o dom apenas de uma imagem.
os animais com um clarão na boca, sou
uma ciência a sangue. O sítio ainda agora no cérebro:
jarro de vidro cheio de leite, o sal. Estes
elementos arcaicos — e as mulheres
sombrias
cantando. Sou um lugar que transborda.
Espancaram a luz atrás das costas: de onde eu vinha,
criança branca do mundo. Defronte os fogos
lavravam-me a testa.
Podia dançar sobre as áscuas. Podia ser tão silvestre
entre as folhagens do ouro, ter cornos, negra
máscara aterradora, silvar
como uma cobra.
Eu entrava na morte, era o filho da estrela
bárbara — erguia-a do meio dos diamantes.
De equinócio a solstício abraçava-me uma onda
quando subia, quando
se despenhava eu dormia dentro como um olho de água.
Depois o rosto obscuro.
Depois a seda fiada atrás do rosto.
Não espero nada.
Espero o dom apenas de uma imagem.
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Daniel Francoy
CLARIDADE
Se ao menos não houvesse dúvidas:
é aquela hora de bruma e de medo
e a relva, amanhecendo úmida,
tem como raízes vísceras misturadas.
Se ao menos soubéssemos: sob o luar
Joana D’Arc é queimada e ascende
ainda mais translúcida do que a brisa
desfeita pela fuligem – é aquela hora
de árvores inertes e muros ensanguentados.
Se ao menos contemplássemos: arde
a cidade e somos nós os saqueadores,
nós os negros, nós os gregos, nós as troianas
deixadas ao estupro, aterrorizadas
por uma suspeita que jamais se confirma.
O que será esse rumor? Ratos
correndo no forro dos telhados ou torvelinhos
de vento uivando durante a madrugada?
Se ao menos uma palavra nomeasse
a pedra escura queimando o peito –
mas não: é meio-dia, faz sol
e a praça central se afoga em claridade.
é aquela hora de bruma e de medo
e a relva, amanhecendo úmida,
tem como raízes vísceras misturadas.
Se ao menos soubéssemos: sob o luar
Joana D’Arc é queimada e ascende
ainda mais translúcida do que a brisa
desfeita pela fuligem – é aquela hora
de árvores inertes e muros ensanguentados.
Se ao menos contemplássemos: arde
a cidade e somos nós os saqueadores,
nós os negros, nós os gregos, nós as troianas
deixadas ao estupro, aterrorizadas
por uma suspeita que jamais se confirma.
O que será esse rumor? Ratos
correndo no forro dos telhados ou torvelinhos
de vento uivando durante a madrugada?
Se ao menos uma palavra nomeasse
a pedra escura queimando o peito –
mas não: é meio-dia, faz sol
e a praça central se afoga em claridade.
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Daniel Francoy
CLARIDADE
Se ao menos não houvesse dúvidas:
é aquela hora de bruma e de medo
e a relva, amanhecendo úmida,
tem como raízes vísceras misturadas.
Se ao menos soubéssemos: sob o luar
Joana D’Arc é queimada e ascende
ainda mais translúcida do que a brisa
desfeita pela fuligem – é aquela hora
de árvores inertes e muros ensanguentados.
Se ao menos contemplássemos: arde
a cidade e somos nós os saqueadores,
nós os negros, nós os gregos, nós as troianas
deixadas ao estupro, aterrorizadas
por uma suspeita que jamais se confirma.
O que será esse rumor? Ratos
correndo no forro dos telhados ou torvelinhos
de vento uivando durante a madrugada?
Se ao menos uma palavra nomeasse
a pedra escura queimando o peito –
mas não: é meio-dia, faz sol
e a praça central se afoga em claridade.
é aquela hora de bruma e de medo
e a relva, amanhecendo úmida,
tem como raízes vísceras misturadas.
Se ao menos soubéssemos: sob o luar
Joana D’Arc é queimada e ascende
ainda mais translúcida do que a brisa
desfeita pela fuligem – é aquela hora
de árvores inertes e muros ensanguentados.
Se ao menos contemplássemos: arde
a cidade e somos nós os saqueadores,
nós os negros, nós os gregos, nós as troianas
deixadas ao estupro, aterrorizadas
por uma suspeita que jamais se confirma.
O que será esse rumor? Ratos
correndo no forro dos telhados ou torvelinhos
de vento uivando durante a madrugada?
Se ao menos uma palavra nomeasse
a pedra escura queimando o peito –
mas não: é meio-dia, faz sol
e a praça central se afoga em claridade.
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Ana Marques Gastão
Lisboa micro-lugar
Em torno de Lisboa um círculo com desejo
de outro círculo, debaixo-dentro de outro
círculo: um O. Basta ler o mapa e observar
o tremor-temor desta cidade dentro de uma
península irregular. La haine et le pardon,
melhor escrevê-lo em castelhano, afinal
vizinhos tivemos tantos. Um círculo, Lisboa
é um círculo de parto concebido, mistério
da letra L de boca que suspira, L de lábio
e olhos humanados, iluminados em céu de
lágrimas assim gementes. Lisboa excedida
em relevo geográfico, aquática, vegetal,
cercada por um O claustral, de mármore,
não de rijo cimento, fantasmagórica na
gargalhada opiácea, fina em alguns dias,
mas sem jasmim. Micro-lugar, mini letra
o i de pequenina, macro letra de tantos reis à
deriva, B de Sebastião malogrado, Lisboa,
ó cidade de ofícios, de majestades tão pouco
divinas segundo a fraqueza da pátria. Hoje,
menina, nem no louvor ou mercê és mãe.
de outro círculo, debaixo-dentro de outro
círculo: um O. Basta ler o mapa e observar
o tremor-temor desta cidade dentro de uma
península irregular. La haine et le pardon,
melhor escrevê-lo em castelhano, afinal
vizinhos tivemos tantos. Um círculo, Lisboa
é um círculo de parto concebido, mistério
da letra L de boca que suspira, L de lábio
e olhos humanados, iluminados em céu de
lágrimas assim gementes. Lisboa excedida
em relevo geográfico, aquática, vegetal,
cercada por um O claustral, de mármore,
não de rijo cimento, fantasmagórica na
gargalhada opiácea, fina em alguns dias,
mas sem jasmim. Micro-lugar, mini letra
o i de pequenina, macro letra de tantos reis à
deriva, B de Sebastião malogrado, Lisboa,
ó cidade de ofícios, de majestades tão pouco
divinas segundo a fraqueza da pátria. Hoje,
menina, nem no louvor ou mercê és mãe.
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