Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Renato Rezende
New York City, Meio-Dia
Vestido num saco de lixo
negro, um menino negro
pede esmola -- e é bonito.
Uma jovem de patins passa
por mim e esbarra sua mão na minha.
Um homem me olha
e quando o surpreendo com meu olho
sustenta o olhar, sem vergonha ou medo.
Durante todo o dia quis-se revelar
uma alegria nova, mas familiar
que finalmente agora compreendo.
A de estar entre os que estão
aqui
vivendo.
Nova York, setembro 1996
negro, um menino negro
pede esmola -- e é bonito.
Uma jovem de patins passa
por mim e esbarra sua mão na minha.
Um homem me olha
e quando o surpreendo com meu olho
sustenta o olhar, sem vergonha ou medo.
Durante todo o dia quis-se revelar
uma alegria nova, mas familiar
que finalmente agora compreendo.
A de estar entre os que estão
aqui
vivendo.
Nova York, setembro 1996
929
Renato Rezende
New York City, Meio-Dia
Vestido num saco de lixo
negro, um menino negro
pede esmola -- e é bonito.
Uma jovem de patins passa
por mim e esbarra sua mão na minha.
Um homem me olha
e quando o surpreendo com meu olho
sustenta o olhar, sem vergonha ou medo.
Durante todo o dia quis-se revelar
uma alegria nova, mas familiar
que finalmente agora compreendo.
A de estar entre os que estão
aqui
vivendo.
Nova York, setembro 1996
negro, um menino negro
pede esmola -- e é bonito.
Uma jovem de patins passa
por mim e esbarra sua mão na minha.
Um homem me olha
e quando o surpreendo com meu olho
sustenta o olhar, sem vergonha ou medo.
Durante todo o dia quis-se revelar
uma alegria nova, mas familiar
que finalmente agora compreendo.
A de estar entre os que estão
aqui
vivendo.
Nova York, setembro 1996
929
Renato Rezende
Álbum de Roma
Em certas fotos Roma revela
que é uma milenar cidade do oriente.
(Principalmente quando o sol
se avermelha, por trás do Vaticano
na hora do poente).
O oriente, o longínquo, o estrangeiro
está bem mais próximo
do que pensamos habitualmente.
Nova York, dezembro 1995
que é uma milenar cidade do oriente.
(Principalmente quando o sol
se avermelha, por trás do Vaticano
na hora do poente).
O oriente, o longínquo, o estrangeiro
está bem mais próximo
do que pensamos habitualmente.
Nova York, dezembro 1995
984
Renato Rezende
Álbum de Roma
Em certas fotos Roma revela
que é uma milenar cidade do oriente.
(Principalmente quando o sol
se avermelha, por trás do Vaticano
na hora do poente).
O oriente, o longínquo, o estrangeiro
está bem mais próximo
do que pensamos habitualmente.
Nova York, dezembro 1995
que é uma milenar cidade do oriente.
(Principalmente quando o sol
se avermelha, por trás do Vaticano
na hora do poente).
O oriente, o longínquo, o estrangeiro
está bem mais próximo
do que pensamos habitualmente.
Nova York, dezembro 1995
984
Renato Rezende
Asas de Papel
Subir aos céus em asas de cristal
Subir aos céus
Subir aos céus em escadas de papel
Subir aos céus
Subir aos céus no elevador panorâmico
do Shopping Iguatemi
Não importa como:
Subir
São Paulo, março 1996
Subir aos céus
Subir aos céus em escadas de papel
Subir aos céus
Subir aos céus no elevador panorâmico
do Shopping Iguatemi
Não importa como:
Subir
São Paulo, março 1996
1 044
Renato Rezende
A Perna
Numa esquina perto da minha casa
vive uma mendiga
de perna amputada.
Tenho vontade de beijar
a perna que falta.
Acariciar
aquele pedaço de nada.
A mão dela está queimada
e parece que foi costurada
de volta ao braço.
Com essa mão ela pede esmola.
Hoje passei por lá
e vi que a perna dela
(a outra)
estava bronzeada.
Ela é loira, ela é moça, é a flor
da perna amputada.
Me deu vontade
de entrar em seu corpo
(fragmentado)
a meio metro da calçada.
Entrar em seu corpo e ser ela,
ser a perna que falta.
Ser a falta da perna dela.
Tive vontade de amar
e ser nada.
São Paulo, 6 de agosto 1992
vive uma mendiga
de perna amputada.
Tenho vontade de beijar
a perna que falta.
Acariciar
aquele pedaço de nada.
A mão dela está queimada
e parece que foi costurada
de volta ao braço.
Com essa mão ela pede esmola.
Hoje passei por lá
e vi que a perna dela
(a outra)
estava bronzeada.
Ela é loira, ela é moça, é a flor
da perna amputada.
Me deu vontade
de entrar em seu corpo
(fragmentado)
a meio metro da calçada.
Entrar em seu corpo e ser ela,
ser a perna que falta.
Ser a falta da perna dela.
Tive vontade de amar
e ser nada.
São Paulo, 6 de agosto 1992
1 100
Renato Rezende
A Perna
Numa esquina perto da minha casa
vive uma mendiga
de perna amputada.
Tenho vontade de beijar
a perna que falta.
Acariciar
aquele pedaço de nada.
A mão dela está queimada
e parece que foi costurada
de volta ao braço.
Com essa mão ela pede esmola.
Hoje passei por lá
e vi que a perna dela
(a outra)
estava bronzeada.
Ela é loira, ela é moça, é a flor
da perna amputada.
Me deu vontade
de entrar em seu corpo
(fragmentado)
a meio metro da calçada.
Entrar em seu corpo e ser ela,
ser a perna que falta.
Ser a falta da perna dela.
Tive vontade de amar
e ser nada.
São Paulo, 6 de agosto 1992
vive uma mendiga
de perna amputada.
Tenho vontade de beijar
a perna que falta.
Acariciar
aquele pedaço de nada.
A mão dela está queimada
e parece que foi costurada
de volta ao braço.
Com essa mão ela pede esmola.
Hoje passei por lá
e vi que a perna dela
(a outra)
estava bronzeada.
Ela é loira, ela é moça, é a flor
da perna amputada.
Me deu vontade
de entrar em seu corpo
(fragmentado)
a meio metro da calçada.
Entrar em seu corpo e ser ela,
ser a perna que falta.
Ser a falta da perna dela.
Tive vontade de amar
e ser nada.
São Paulo, 6 de agosto 1992
1 100
Renato Rezende
O Ouro Egípcio
O que me impressiona não são os peitorais
e outros antigos artefatos egípcios, de ouro
que hoje sobrevivem em museus.
O que me impressiona é o que não sobreviveu.
O tesouro perdido da civilização conquistada
por mãos anônimas e privadas, pelo ir e vir do deserto,
pelo tempo que cria gerações e as esmaga.
Nova York, dezembro 1995
e outros antigos artefatos egípcios, de ouro
que hoje sobrevivem em museus.
O que me impressiona é o que não sobreviveu.
O tesouro perdido da civilização conquistada
por mãos anônimas e privadas, pelo ir e vir do deserto,
pelo tempo que cria gerações e as esmaga.
Nova York, dezembro 1995
939
Renato Rezende
Nas Cidades
Chove friamente
na cidade.
O anjo com as asas encharcadas
caminha a esmo,
deprimido.
Falta-lhe algo!
O anjo se masturba
depois escuta Mozart,
esquecido.
Nova York, setembro 1996
na cidade.
O anjo com as asas encharcadas
caminha a esmo,
deprimido.
Falta-lhe algo!
O anjo se masturba
depois escuta Mozart,
esquecido.
Nova York, setembro 1996
1 202
Renato Rezende
N.S. de Guadalupe
Algo me entristece no México.
A grande cidade é um deserto.
Na Basílica, no alto do monte
onde a Diego apareceu a Virgem
eu ainda mais me entristeço.
(O sol se põe, distante e amarelo
como em Roma ou na velha Pérsia).
Há de ser a imagem singela
da Virgem entre pálidas rosas
estampada na tarde sem glória.
Cidade do México, novembro 1996
A grande cidade é um deserto.
Na Basílica, no alto do monte
onde a Diego apareceu a Virgem
eu ainda mais me entristeço.
(O sol se põe, distante e amarelo
como em Roma ou na velha Pérsia).
Há de ser a imagem singela
da Virgem entre pálidas rosas
estampada na tarde sem glória.
Cidade do México, novembro 1996
1 067
Renato Rezende
Piazza San Marco
Gerações de homens
de pombas
de gôndolas
no entanto o ar está fresco
e como se pela primeira vez
o sol nasce
Veneza, julho 1984 --
São Paulo, abril 1996
de pombas
de gôndolas
no entanto o ar está fresco
e como se pela primeira vez
o sol nasce
Veneza, julho 1984 --
São Paulo, abril 1996
1 101
Ricardo Aleixo
UMA ALEGRIA
jamais minas gerais
vibrou dentro de mim
o rumor de seu invisível mar
e o ouro puro de seu tambor
transatlântico negro
como naquele breve maio
ensolarado de alegrias
quando eu deambulava
pelos becos e ladeiras
de Coimbra e descobri
em meio aos graves portugais
os timbres de pequenas
áfricas utópicas
ali em meio aos portugais
vibrou dentro de mim
o rumor de seu invisível mar
e o ouro puro de seu tambor
transatlântico negro
como naquele breve maio
ensolarado de alegrias
quando eu deambulava
pelos becos e ladeiras
de Coimbra e descobri
em meio aos graves portugais
os timbres de pequenas
áfricas utópicas
ali em meio aos portugais
666
Ricardo Aleixo
UMA ALEGRIA
jamais minas gerais
vibrou dentro de mim
o rumor de seu invisível mar
e o ouro puro de seu tambor
transatlântico negro
como naquele breve maio
ensolarado de alegrias
quando eu deambulava
pelos becos e ladeiras
de Coimbra e descobri
em meio aos graves portugais
os timbres de pequenas
áfricas utópicas
ali em meio aos portugais
vibrou dentro de mim
o rumor de seu invisível mar
e o ouro puro de seu tambor
transatlântico negro
como naquele breve maio
ensolarado de alegrias
quando eu deambulava
pelos becos e ladeiras
de Coimbra e descobri
em meio aos graves portugais
os timbres de pequenas
áfricas utópicas
ali em meio aos portugais
666
Ricardo Aleixo
UMA ALEGRIA
jamais minas gerais
vibrou dentro de mim
o rumor de seu invisível mar
e o ouro puro de seu tambor
transatlântico negro
como naquele breve maio
ensolarado de alegrias
quando eu deambulava
pelos becos e ladeiras
de Coimbra e descobri
em meio aos graves portugais
os timbres de pequenas
áfricas utópicas
ali em meio aos portugais
vibrou dentro de mim
o rumor de seu invisível mar
e o ouro puro de seu tambor
transatlântico negro
como naquele breve maio
ensolarado de alegrias
quando eu deambulava
pelos becos e ladeiras
de Coimbra e descobri
em meio aos graves portugais
os timbres de pequenas
áfricas utópicas
ali em meio aos portugais
666
Luci Collin
READILHO
isto que é uma coisa obsoleta
o conteúdo não salvo
a alvura do tempo presente
isto diacrônico e de origem obscura
envelhecido aos doze anos
aos treze sangrando
a voz mais oca nas conversações de inocência
uma fruta incluindo meus braços
incluindo as falhas que manifesto
isto que é alagadiço e eufórico
nesta nova temporada
as palavras repousam sobre os cílios
quem vem são camaleões e votos fuscos
estes homens grandes têm passos que valem
ouros
isto é a cidade da tela que é apenas luzes e umidades
é combinação de suspiros amarfanhados
numa grande angular o tabuleiro vira a pista molhada
acusações e controvérsias não cabem
num copo
os que querem por primeiro
são os favoritos da tia rose
mas suas músicas desapareceram das jukeboxes
e os dias líquidos e enfileirados não param de rir
os remendos lutam com suas vozes de banheiro
como é possível conspirar contra o concreto
as pontes têm esta precisão encomendada
as emancipadas linhas e o subir escadarias
este chacoalhar do metrô e esta guerra
são o último gole
já em si
o conteúdo não salvo
a alvura do tempo presente
isto diacrônico e de origem obscura
envelhecido aos doze anos
aos treze sangrando
a voz mais oca nas conversações de inocência
uma fruta incluindo meus braços
incluindo as falhas que manifesto
isto que é alagadiço e eufórico
nesta nova temporada
as palavras repousam sobre os cílios
quem vem são camaleões e votos fuscos
estes homens grandes têm passos que valem
ouros
isto é a cidade da tela que é apenas luzes e umidades
é combinação de suspiros amarfanhados
numa grande angular o tabuleiro vira a pista molhada
acusações e controvérsias não cabem
num copo
os que querem por primeiro
são os favoritos da tia rose
mas suas músicas desapareceram das jukeboxes
e os dias líquidos e enfileirados não param de rir
os remendos lutam com suas vozes de banheiro
como é possível conspirar contra o concreto
as pontes têm esta precisão encomendada
as emancipadas linhas e o subir escadarias
este chacoalhar do metrô e esta guerra
são o último gole
já em si
595
Marília Garcia
plano b
hola, spleen, disse. nos cruzamos em
uma lagoa de atol. sentada no banco de trás
olhava pelo vidro azul cobalto
a 3000 quilômetros do ponto em
que o deixara.
hola, spleen, disse. você ainda vai me ver
três vezes antes do fim. uma linha esconde
outra linha, a voz esconde o que pré-
existe entre os dois. pensava na carta sem remetente
em alguma maneira de dizer pensava nas
esculturas sonoras (não havia
um plano c? para onde
seguia)
era como descobrir o sulco
fechado de um disco e ficar
rodando no loop daquela melodia
circular. precisa de uma língua
que defina isso
hola, spleen, disse.
mas não falava da latitude
no mapa, eram peixes
no fundo do oceano com a cartilagem
luminosa derretendo nos olhos
e a única preocupação quando
entrou era o som por detrás da voz dela:
saber se está triste há um ano
ou há 24 horas.
(na volta, passa a colecionar
objetos. a vingança começa num
aquário:
é como furar a realidade
com a realidade, ele dizia, ficar no quarto
medindo o nível do mar
para descobrir onde pôr
os peixes)
uma lagoa de atol. sentada no banco de trás
olhava pelo vidro azul cobalto
a 3000 quilômetros do ponto em
que o deixara.
hola, spleen, disse. você ainda vai me ver
três vezes antes do fim. uma linha esconde
outra linha, a voz esconde o que pré-
existe entre os dois. pensava na carta sem remetente
em alguma maneira de dizer pensava nas
esculturas sonoras (não havia
um plano c? para onde
seguia)
era como descobrir o sulco
fechado de um disco e ficar
rodando no loop daquela melodia
circular. precisa de uma língua
que defina isso
hola, spleen, disse.
mas não falava da latitude
no mapa, eram peixes
no fundo do oceano com a cartilagem
luminosa derretendo nos olhos
e a única preocupação quando
entrou era o som por detrás da voz dela:
saber se está triste há um ano
ou há 24 horas.
(na volta, passa a colecionar
objetos. a vingança começa num
aquário:
é como furar a realidade
com a realidade, ele dizia, ficar no quarto
medindo o nível do mar
para descobrir onde pôr
os peixes)
629
Ricardo Aleixo
Brancos
eles que são brancos e os que não são eles
que são machos e os que não são eles que
são adultos e os que não são eles que são
cristãos e os que não são eles que são ricos
e os que não são eles que são sãos e os que
não são todos os que são mas não acham
que são como os outros que se entendam
que se expliquem que se cuidem que se
que são machos e os que não são eles que
são adultos e os que não são eles que são
cristãos e os que não são eles que são ricos
e os que não são eles que são sãos e os que
não são todos os que são mas não acham
que são como os outros que se entendam
que se expliquem que se cuidem que se
1 067
Ricardo Aleixo
Brancos
eles que são brancos e os que não são eles
que são machos e os que não são eles que
são adultos e os que não são eles que são
cristãos e os que não são eles que são ricos
e os que não são eles que são sãos e os que
não são todos os que são mas não acham
que são como os outros que se entendam
que se expliquem que se cuidem que se
que são machos e os que não são eles que
são adultos e os que não são eles que são
cristãos e os que não são eles que são ricos
e os que não são eles que são sãos e os que
não são todos os que são mas não acham
que são como os outros que se entendam
que se expliquem que se cuidem que se
1 067
Ricardo Aleixo
Brancos
eles que são brancos e os que não são eles
que são machos e os que não são eles que
são adultos e os que não são eles que são
cristãos e os que não são eles que são ricos
e os que não são eles que são sãos e os que
não são todos os que são mas não acham
que são como os outros que se entendam
que se expliquem que se cuidem que se
que são machos e os que não são eles que
são adultos e os que não são eles que são
cristãos e os que não são eles que são ricos
e os que não são eles que são sãos e os que
não são todos os que são mas não acham
que são como os outros que se entendam
que se expliquem que se cuidem que se
1 067
Ricardo Aleixo
Brancos
eles que são brancos e os que não são eles
que são machos e os que não são eles que
são adultos e os que não são eles que são
cristãos e os que não são eles que são ricos
e os que não são eles que são sãos e os que
não são todos os que são mas não acham
que são como os outros que se entendam
que se expliquem que se cuidem que se
que são machos e os que não são eles que
são adultos e os que não são eles que são
cristãos e os que não são eles que são ricos
e os que não são eles que são sãos e os que
não são todos os que são mas não acham
que são como os outros que se entendam
que se expliquem que se cuidem que se
1 067
Ricardo Aleixo
Brancos
eles que são brancos e os que não são eles
que são machos e os que não são eles que
são adultos e os que não são eles que são
cristãos e os que não são eles que são ricos
e os que não são eles que são sãos e os que
não são todos os que são mas não acham
que são como os outros que se entendam
que se expliquem que se cuidem que se
que são machos e os que não são eles que
são adultos e os que não são eles que são
cristãos e os que não são eles que são ricos
e os que não são eles que são sãos e os que
não são todos os que são mas não acham
que são como os outros que se entendam
que se expliquem que se cuidem que se
1 067
Ricardo Aleixo
As metades do corpo
Marianne
Moore
apreciava animais
e atletas
em igual
escala. Motivo: o
"estilo"
das duas
espécies citadas
"é, prova
-velmente,
desleixado"; uns e
outros, dis
-se Miss
Moore numa entre
-vista,
alcançam a
"exatidão" devido
à prática
que "as
metades do corpo",
neles (nos
animais
e nos atletas que
possuem
um estilo),
adquiriram
"para se
contra
-balançarem".
Moore
apreciava animais
e atletas
em igual
escala. Motivo: o
"estilo"
das duas
espécies citadas
"é, prova
-velmente,
desleixado"; uns e
outros, dis
-se Miss
Moore numa entre
-vista,
alcançam a
"exatidão" devido
à prática
que "as
metades do corpo",
neles (nos
animais
e nos atletas que
possuem
um estilo),
adquiriram
"para se
contra
-balançarem".
426
Marília Garcia
antes do encontro
procurar uma escada de madeira
dando para o abismo
é uma ação que só pode acontecer nesta língua
estranha e numa cidade cortada por um rio
que fique no meio dos dois
(quando um precisa ir embora
para sempre)
mas um dia ela chega
com a pergunta:
— o que vem à sua cabeça
quando digo a palavra
amor?
um dia desce no meio do dia
e vê. e um dia vê a peça lilás sobre a quina da mesa
quando volta. ele diz saltar. saltar para fora.
e atravessa na esquina
procurando a escada. depois diz que quer saltar
para fora desta canção.
mas um dia chega com
a pergunta:
— o que vem à sua cabeça quando
digo a palavra amor?
e ela responde
que amor em japonês
se diz /ai/.
e, de repente, um branco.
as linhas se tornam cada vez mais
quebradiças. um banco parado no meio da cena,
um quadrado iluminado e a frase mais longa
que ele me disse nos últimos
seis meses.
o que significa um cachecol vermelho
pinicando sozinho?
uma abelha, pensa, mas o cachecol pinicando,
voando como uma abelha, talvez um inseto
estridente, incidente para ouvir quando ele
chegar e vir.
agora sobrou apenas a estática
tremendo e você a leva de volta até o barco:
— a estática?, pergunta, você lembra
daquela vez? e ela fica parada na chuva
com o colete salva-vidas esperando
alguma coisa acontecer.
[aqui o telefone
vibra na bolsa e um parêntese
para dizer que não sabe onde está mas é longe
não sabe onde está mas é frio
não sabe onde está mas é quase.
ao ouvir a voz,
parece de verdade,
e então ele levanta e me diz algo
sobre o fim
ou sobre o sim
e toca na tela uma imagem
do filme]
dando para o abismo
é uma ação que só pode acontecer nesta língua
estranha e numa cidade cortada por um rio
que fique no meio dos dois
(quando um precisa ir embora
para sempre)
mas um dia ela chega
com a pergunta:
— o que vem à sua cabeça
quando digo a palavra
amor?
um dia desce no meio do dia
e vê. e um dia vê a peça lilás sobre a quina da mesa
quando volta. ele diz saltar. saltar para fora.
e atravessa na esquina
procurando a escada. depois diz que quer saltar
para fora desta canção.
mas um dia chega com
a pergunta:
— o que vem à sua cabeça quando
digo a palavra amor?
e ela responde
que amor em japonês
se diz /ai/.
e, de repente, um branco.
as linhas se tornam cada vez mais
quebradiças. um banco parado no meio da cena,
um quadrado iluminado e a frase mais longa
que ele me disse nos últimos
seis meses.
o que significa um cachecol vermelho
pinicando sozinho?
uma abelha, pensa, mas o cachecol pinicando,
voando como uma abelha, talvez um inseto
estridente, incidente para ouvir quando ele
chegar e vir.
agora sobrou apenas a estática
tremendo e você a leva de volta até o barco:
— a estática?, pergunta, você lembra
daquela vez? e ela fica parada na chuva
com o colete salva-vidas esperando
alguma coisa acontecer.
[aqui o telefone
vibra na bolsa e um parêntese
para dizer que não sabe onde está mas é longe
não sabe onde está mas é frio
não sabe onde está mas é quase.
ao ouvir a voz,
parece de verdade,
e então ele levanta e me diz algo
sobre o fim
ou sobre o sim
e toca na tela uma imagem
do filme]
541
Luci Collin
de se fazer
quando desenlouqueceu
amélia pôs-se a queimar a comida
a adoçar a sopa
a ter vaidades ruidosas
queria dançar mazurcas
quadrilha___tango___burlesca
o que fosse______o que desse
queria pintar-se___alçar-se
exercer-se
viu sua cara no espelho
deu sua cara a bater
banhou-se___perfumou-se
batizou-se
e tratou de aprumar
as asas que a vida lhe deu
aquilo sim é que era voo de verdade
amélia pôs-se a queimar a comida
a adoçar a sopa
a ter vaidades ruidosas
queria dançar mazurcas
quadrilha___tango___burlesca
o que fosse______o que desse
queria pintar-se___alçar-se
exercer-se
viu sua cara no espelho
deu sua cara a bater
banhou-se___perfumou-se
batizou-se
e tratou de aprumar
as asas que a vida lhe deu
aquilo sim é que era voo de verdade
693