Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Afonso X
Tanto Sei de Vós, Ric'homem: Pois Fordes N[A] Alcaria
Tanto sei de vós, ric'homem: pois fordes n[a] alcaria
e virde'la[s] azeitona[s], ledo seredes esse dia:
pisaredes as olivas con'os pees ena pia.
Ficaredes por astroso,
por untad'e por lixoso.
Bem sei que seredes ledo, pois fordes no Exarafe
e virdes as azeitonas que foram de Dom Xacafe:
torceredes as olivas, como quer que outrem bafe.
Ficaredes por astroso,
por untad'e por lixoso.
Pois fordes n[a] alcaria e virdes os põombares
e virdes as azeitonas jazer per esses lagares,
trilhá-las-edes [ena] pia com esses ca[l]canhares.
Ficaredes por astroso,
por untad'e por lixoso.
e virde'la[s] azeitona[s], ledo seredes esse dia:
pisaredes as olivas con'os pees ena pia.
Ficaredes por astroso,
por untad'e por lixoso.
Bem sei que seredes ledo, pois fordes no Exarafe
e virdes as azeitonas que foram de Dom Xacafe:
torceredes as olivas, como quer que outrem bafe.
Ficaredes por astroso,
por untad'e por lixoso.
Pois fordes n[a] alcaria e virdes os põombares
e virdes as azeitonas jazer per esses lagares,
trilhá-las-edes [ena] pia com esses ca[l]canhares.
Ficaredes por astroso,
por untad'e por lixoso.
761
Afonso X
Tanto Sei de Vós, Ric'homem: Pois Fordes N[A] Alcaria
Tanto sei de vós, ric'homem: pois fordes n[a] alcaria
e virde'la[s] azeitona[s], ledo seredes esse dia:
pisaredes as olivas con'os pees ena pia.
Ficaredes por astroso,
por untad'e por lixoso.
Bem sei que seredes ledo, pois fordes no Exarafe
e virdes as azeitonas que foram de Dom Xacafe:
torceredes as olivas, como quer que outrem bafe.
Ficaredes por astroso,
por untad'e por lixoso.
Pois fordes n[a] alcaria e virdes os põombares
e virdes as azeitonas jazer per esses lagares,
trilhá-las-edes [ena] pia com esses ca[l]canhares.
Ficaredes por astroso,
por untad'e por lixoso.
e virde'la[s] azeitona[s], ledo seredes esse dia:
pisaredes as olivas con'os pees ena pia.
Ficaredes por astroso,
por untad'e por lixoso.
Bem sei que seredes ledo, pois fordes no Exarafe
e virdes as azeitonas que foram de Dom Xacafe:
torceredes as olivas, como quer que outrem bafe.
Ficaredes por astroso,
por untad'e por lixoso.
Pois fordes n[a] alcaria e virdes os põombares
e virdes as azeitonas jazer per esses lagares,
trilhá-las-edes [ena] pia com esses ca[l]canhares.
Ficaredes por astroso,
por untad'e por lixoso.
761
Afonso Mendes de Besteiros
Já Lhi Nunca Pediram
Já lhi nunca pediram
o castel'a Dom Foam;
ca nom tinha el de pam
senom quanto queria;
e foi-o vender, de pram,
com mínguas que havia.
Por que lh'ides [a]poer
culpa [por] non'[o] teer?
Ca nom tinha que comer
senom quanto queria;
e foi-o entom vender
com mínguas que havia.
Travam-lhi mui sem razom
a home de tal coraçom:
"Em fronteira de Leon",
diz, "com quen'o terria?"
E foi-o vender entom
com mínguas que havia.
Dizem que lh'a el mais val
esto que diz, ca nom al:
"Em cabo de Portugal",
diz, "com quen'o terria?"
E vende[u]-o entom mal
com mínguas que havia.
o castel'a Dom Foam;
ca nom tinha el de pam
senom quanto queria;
e foi-o vender, de pram,
com mínguas que havia.
Por que lh'ides [a]poer
culpa [por] non'[o] teer?
Ca nom tinha que comer
senom quanto queria;
e foi-o entom vender
com mínguas que havia.
Travam-lhi mui sem razom
a home de tal coraçom:
"Em fronteira de Leon",
diz, "com quen'o terria?"
E foi-o vender entom
com mínguas que havia.
Dizem que lh'a el mais val
esto que diz, ca nom al:
"Em cabo de Portugal",
diz, "com quen'o terria?"
E vende[u]-o entom mal
com mínguas que havia.
933
Afonso Mendes de Besteiros
Já Lhi Nunca Pediram
Já lhi nunca pediram
o castel'a Dom Foam;
ca nom tinha el de pam
senom quanto queria;
e foi-o vender, de pram,
com mínguas que havia.
Por que lh'ides [a]poer
culpa [por] non'[o] teer?
Ca nom tinha que comer
senom quanto queria;
e foi-o entom vender
com mínguas que havia.
Travam-lhi mui sem razom
a home de tal coraçom:
"Em fronteira de Leon",
diz, "com quen'o terria?"
E foi-o vender entom
com mínguas que havia.
Dizem que lh'a el mais val
esto que diz, ca nom al:
"Em cabo de Portugal",
diz, "com quen'o terria?"
E vende[u]-o entom mal
com mínguas que havia.
o castel'a Dom Foam;
ca nom tinha el de pam
senom quanto queria;
e foi-o vender, de pram,
com mínguas que havia.
Por que lh'ides [a]poer
culpa [por] non'[o] teer?
Ca nom tinha que comer
senom quanto queria;
e foi-o entom vender
com mínguas que havia.
Travam-lhi mui sem razom
a home de tal coraçom:
"Em fronteira de Leon",
diz, "com quen'o terria?"
E foi-o vender entom
com mínguas que havia.
Dizem que lh'a el mais val
esto que diz, ca nom al:
"Em cabo de Portugal",
diz, "com quen'o terria?"
E vende[u]-o entom mal
com mínguas que havia.
933
Afonso X
Dom Gonçalo, Pois Queredes Ir Daqui Pera Sevilha
Dom Gonçalo, pois queredes ir daqui pera Sevilha,
por veerdes voss'amig', e nõn'o tenh'a maravilha,
contar-vos-ei as jornadas légo'a légoa, milh'e milha.
Ir podedes a Libira e torceredes já-quanto,
e depois ir a Alcalá se[m] pavor e sem espanto
que hajades d'i perder a garnacha nen'o manto.
E ũa cousa sei de vós e tenho por mui gram brio,
e por en [eu] vo-lo juro muit'a firmes e afio:
sempr'havedes a morrer em invern'o[u] em estio.
E por en [eu] vo-lo rogo e vo-lo dou em conselho:
que vós, entrante a Sevilha, vos catedes no espelho
e nom dedes nemigalha por mui te[r] Joam Coelho.
Por que vos todos amassem sempre vós muito punhaste,
bõos talhos em Espanha metestes, pois i chegastes,
quem se convosco filhou, sempre vós del gaanhastes.
Sem esto, foste cousido sempre muit'e mesurado,
de todas cousas comprido e apost'e bem talhado,
e nos feitos [mui] ardido e muito aventurado.
E pois que vossa fazenda teedes bem alumeada
e queredes bem amiga fremosa e bem talhada,
nom façades dela capa, ca nom é cousa guisada.
E pois que sodes aposto e fremoso cavaleiro,
g[u]ardade-vos de seerdes escatimoso ponteiro
- ca dizem que baralhastes com [Dom] Joam Co[e]lheiro.
Com aquesto que havedes mui mais ca outro compristes;
u quer que mãao metestes, guarecendo, en saístes;
a quem quer que cometestes, sempre mal o escarnistes.
E nom me tenhades por mal se em vossas armas tango:
que foi das duas [e]spadas que andavam em um mango?
Ca vos oí eu dizer: - Com estas petei e frango.
E ar oí-vos dizer que a quem quer que chagassem
com esta[s] vossa[s] espada[s] que nunca se trabalhassem
jamais de o guarecerem, se o bem nom agulhassem.
E por esto [vos] chamamos nós "o das duas espadas",
porque sempre as tragedes agudas e amoadas,
com que fendedes as penas, dando grandes espadadas.
por veerdes voss'amig', e nõn'o tenh'a maravilha,
contar-vos-ei as jornadas légo'a légoa, milh'e milha.
Ir podedes a Libira e torceredes já-quanto,
e depois ir a Alcalá se[m] pavor e sem espanto
que hajades d'i perder a garnacha nen'o manto.
E ũa cousa sei de vós e tenho por mui gram brio,
e por en [eu] vo-lo juro muit'a firmes e afio:
sempr'havedes a morrer em invern'o[u] em estio.
E por en [eu] vo-lo rogo e vo-lo dou em conselho:
que vós, entrante a Sevilha, vos catedes no espelho
e nom dedes nemigalha por mui te[r] Joam Coelho.
Por que vos todos amassem sempre vós muito punhaste,
bõos talhos em Espanha metestes, pois i chegastes,
quem se convosco filhou, sempre vós del gaanhastes.
Sem esto, foste cousido sempre muit'e mesurado,
de todas cousas comprido e apost'e bem talhado,
e nos feitos [mui] ardido e muito aventurado.
E pois que vossa fazenda teedes bem alumeada
e queredes bem amiga fremosa e bem talhada,
nom façades dela capa, ca nom é cousa guisada.
E pois que sodes aposto e fremoso cavaleiro,
g[u]ardade-vos de seerdes escatimoso ponteiro
- ca dizem que baralhastes com [Dom] Joam Co[e]lheiro.
Com aquesto que havedes mui mais ca outro compristes;
u quer que mãao metestes, guarecendo, en saístes;
a quem quer que cometestes, sempre mal o escarnistes.
E nom me tenhades por mal se em vossas armas tango:
que foi das duas [e]spadas que andavam em um mango?
Ca vos oí eu dizer: - Com estas petei e frango.
E ar oí-vos dizer que a quem quer que chagassem
com esta[s] vossa[s] espada[s] que nunca se trabalhassem
jamais de o guarecerem, se o bem nom agulhassem.
E por esto [vos] chamamos nós "o das duas espadas",
porque sempre as tragedes agudas e amoadas,
com que fendedes as penas, dando grandes espadadas.
751
Afonso X
Pero da Ponte, Paro-Vos Sinal
Pero da Ponte, paro-vos sinal
per ante o demo do fogo infernal,
porque com Deus, o padr'espirital,
minguar quisestes, pois mal descreestes.
E bem vej'ora que trobar vos fal
pois vós tam louca razom cometestes.
E pois razom [a]tam descomunal
fostes filhar, e que tam pouco val,
pesar-mi-á en, se vos pois a bem sal
ante o diabo, a que obedecestes.
E bem vej'ora que trobar vos fal
pois vós tam louca razom cometestes.
Vós nom trobades come proençal,
mais come Bernaldo de Bonaval;
por ende nom é trobar natural
pois que o del e do dem'aprendestes.
E bem vej'ora que trobar vos fal
pois vós tam louca razom cometestes.
E por en, Dom Pedr', em Vila Real,
em maao ponto vós tanto bevestes.
per ante o demo do fogo infernal,
porque com Deus, o padr'espirital,
minguar quisestes, pois mal descreestes.
E bem vej'ora que trobar vos fal
pois vós tam louca razom cometestes.
E pois razom [a]tam descomunal
fostes filhar, e que tam pouco val,
pesar-mi-á en, se vos pois a bem sal
ante o diabo, a que obedecestes.
E bem vej'ora que trobar vos fal
pois vós tam louca razom cometestes.
Vós nom trobades come proençal,
mais come Bernaldo de Bonaval;
por ende nom é trobar natural
pois que o del e do dem'aprendestes.
E bem vej'ora que trobar vos fal
pois vós tam louca razom cometestes.
E por en, Dom Pedr', em Vila Real,
em maao ponto vós tanto bevestes.
792
Afonso X
Senhor, Justiça Viimos Pedir
Senhor, justiça viimos pedir
que nos façades, e faredes bem:
d'a Gris furtarom tanto, que por en
nom lhi leixarom que possa cobrir;
pero atant'aprendi d'um judeu:
que este furto fez uum romeu,
que foi já outros [assi] escarnir.
E tenho que vos nom veo mentir,
pelos sinaes que nos el diss'en
ca eno rostr'o trage, [e] nom tem
por direito de s'end'el encobrir;
e se aquesto sofredes, bem lheu
querram a outr'assi furtá-l'o seu,
de que pode mui gram dano viir.
É romeu que Deus assi quer servir
- por levar tal furt'a Jelusalém!
E sol nom cata como Gris nom tem
[já] nunca cousa de que se cobrir;
ca todo quant'el despendeu e deu
dali foi - tod'aquesto [o] sei eu
e quant[o] el foi levar e vistir.
que nos façades, e faredes bem:
d'a Gris furtarom tanto, que por en
nom lhi leixarom que possa cobrir;
pero atant'aprendi d'um judeu:
que este furto fez uum romeu,
que foi já outros [assi] escarnir.
E tenho que vos nom veo mentir,
pelos sinaes que nos el diss'en
ca eno rostr'o trage, [e] nom tem
por direito de s'end'el encobrir;
e se aquesto sofredes, bem lheu
querram a outr'assi furtá-l'o seu,
de que pode mui gram dano viir.
É romeu que Deus assi quer servir
- por levar tal furt'a Jelusalém!
E sol nom cata como Gris nom tem
[já] nunca cousa de que se cobrir;
ca todo quant'el despendeu e deu
dali foi - tod'aquesto [o] sei eu
e quant[o] el foi levar e vistir.
669
Afonso Mendes de Besteiros
O Arrais de Roi Garcia
O arrais de Roi Garcia,
que em Leirea tragia,
desseinou-o;
e pois veo outro dia
e enlinhou-o.
Nom vos foi el de mal sem:
serviu-se del mui[to] bem,
desseinou-o;
e pois veo a Santarém
e enlinhou-o.
Nom vos foi el mui mesquinho:
per como diz Cogominho,
desseinou-o;
e pois morreu Dom Martinho,
enlinhou-o.
Ainda vos eu mais direi:
per quant'eu del vej'e sei,
desseinou-o;
e pois veo a cas del-rei,
enlinhou-o.
que em Leirea tragia,
desseinou-o;
e pois veo outro dia
e enlinhou-o.
Nom vos foi el de mal sem:
serviu-se del mui[to] bem,
desseinou-o;
e pois veo a Santarém
e enlinhou-o.
Nom vos foi el mui mesquinho:
per como diz Cogominho,
desseinou-o;
e pois morreu Dom Martinho,
enlinhou-o.
Ainda vos eu mais direi:
per quant'eu del vej'e sei,
desseinou-o;
e pois veo a cas del-rei,
enlinhou-o.
812
Afonso X
Se Me Graça Fezesse Este Papa de Roma!
Se me graça fezesse este Papa de Roma!
Pois que or'[estes] panos da mia reposte toma,
que levass'el os cabos e dess'a mi a soma;
mais doutra guisa me foi el vendê'la galdrapa.
Quisera eu assi deste nosso Papa
que me talhasse melhor aquesta capa.
Se m'el graça fezesse, con'os seus cardeaes,
[dos panos] que lh'eu desse que mos talhass'iguaes!
Mais vedes em que vi en'el[e] maos sinaes:
que do que me furtou, foi cobri-l[o] a sa capa.
Quisera eu assi deste nosso Papa
que me talhasse melhor aquesta capa.
Se con'os cardeaes com que faz seus conselhos
posesse que guardasse nós de maos trebelhos,
fezera gram mercêe, ca nom furtar com elhos
e [os] panos dos cristãos meter sô sa capa.
Quisera eu assi deste nosso Papa
que me talhasse melhor aquesta capa.
Pois que or'[estes] panos da mia reposte toma,
que levass'el os cabos e dess'a mi a soma;
mais doutra guisa me foi el vendê'la galdrapa.
Quisera eu assi deste nosso Papa
que me talhasse melhor aquesta capa.
Se m'el graça fezesse, con'os seus cardeaes,
[dos panos] que lh'eu desse que mos talhass'iguaes!
Mais vedes em que vi en'el[e] maos sinaes:
que do que me furtou, foi cobri-l[o] a sa capa.
Quisera eu assi deste nosso Papa
que me talhasse melhor aquesta capa.
Se con'os cardeaes com que faz seus conselhos
posesse que guardasse nós de maos trebelhos,
fezera gram mercêe, ca nom furtar com elhos
e [os] panos dos cristãos meter sô sa capa.
Quisera eu assi deste nosso Papa
que me talhasse melhor aquesta capa.
739
Afonso X
Dom Rodrigo, Moordomo, Que Bem Pôs a 'L-Rei a Mesa
Dom Rodrigo, moordomo, que bem pôs a 'l-rei a mesa
quando diss'a Dom Anrique: - Pois a vosso padre pesa,
nom lhi [de]des o castelo - esto vos digo de chão -
e dar-vos-ei em ajuda muito coteife vilão.
E dos poldrancos de Campos levarei grandes companhas
e dar-vos-ei em ajuda tôdolos de Val de Canhas;
e des i pera meu corpo levarei tal guisamento
que nunca em nẽum tempo trouxo tal Pero Sarmento.
Levarei Fernando Teles com gram peça de peões,
todos calvos e sem lanças e com grandes sapatões;
e quem [aqu]estes matarem, creede bem, sem dultança,
que jamais en'este mundo nunca ve[e]rá vingança.
quando diss'a Dom Anrique: - Pois a vosso padre pesa,
nom lhi [de]des o castelo - esto vos digo de chão -
e dar-vos-ei em ajuda muito coteife vilão.
E dos poldrancos de Campos levarei grandes companhas
e dar-vos-ei em ajuda tôdolos de Val de Canhas;
e des i pera meu corpo levarei tal guisamento
que nunca em nẽum tempo trouxo tal Pero Sarmento.
Levarei Fernando Teles com gram peça de peões,
todos calvos e sem lanças e com grandes sapatões;
e quem [aqu]estes matarem, creede bem, sem dultança,
que jamais en'este mundo nunca ve[e]rá vingança.
566
Virgílio Martinho
A Luz Encarnada
A luz encarnada é o proibido
Na cidade povoada de fendas.
A luz encarnada é o pigmento
Dos rostos tintados de cólera.
A luz encarnada é a corrida Sade,
Explosão sem princípio nem fim.
A luz encarnada é o meu amor assim,
Visão que às vezes é peixe galo.
A luz encarnada é o sangue da cabra
Imolada no altar da capela papal.
A luz encarnada é o homem na cruz,
Sonho antigo para se morrer santo.
A luz encarnada é o devasso nu
Erecto no horizonte dos ventres.
A luz encarnada é a erva daninha
Que tudo envenena com seu hálito.
A luz encarnada é o gás letal
Na câmara escura da inocência.
A luz encarnada é a praga do sangue
Que bolça dos ouvidos da criança.
Veio ao mundo havia uma guerra grega,
Havia também um olho cor de âmbar,
Farol da máquina macho de Jarry.
Só não havia o meu amor assim.
Na cidade povoada de fendas.
A luz encarnada é o pigmento
Dos rostos tintados de cólera.
A luz encarnada é a corrida Sade,
Explosão sem princípio nem fim.
A luz encarnada é o meu amor assim,
Visão que às vezes é peixe galo.
A luz encarnada é o sangue da cabra
Imolada no altar da capela papal.
A luz encarnada é o homem na cruz,
Sonho antigo para se morrer santo.
A luz encarnada é o devasso nu
Erecto no horizonte dos ventres.
A luz encarnada é a erva daninha
Que tudo envenena com seu hálito.
A luz encarnada é o gás letal
Na câmara escura da inocência.
A luz encarnada é a praga do sangue
Que bolça dos ouvidos da criança.
Veio ao mundo havia uma guerra grega,
Havia também um olho cor de âmbar,
Farol da máquina macho de Jarry.
Só não havia o meu amor assim.
1 079
Virgílio Martinho
A Luz Encarnada
A luz encarnada é o proibido
Na cidade povoada de fendas.
A luz encarnada é o pigmento
Dos rostos tintados de cólera.
A luz encarnada é a corrida Sade,
Explosão sem princípio nem fim.
A luz encarnada é o meu amor assim,
Visão que às vezes é peixe galo.
A luz encarnada é o sangue da cabra
Imolada no altar da capela papal.
A luz encarnada é o homem na cruz,
Sonho antigo para se morrer santo.
A luz encarnada é o devasso nu
Erecto no horizonte dos ventres.
A luz encarnada é a erva daninha
Que tudo envenena com seu hálito.
A luz encarnada é o gás letal
Na câmara escura da inocência.
A luz encarnada é a praga do sangue
Que bolça dos ouvidos da criança.
Veio ao mundo havia uma guerra grega,
Havia também um olho cor de âmbar,
Farol da máquina macho de Jarry.
Só não havia o meu amor assim.
Na cidade povoada de fendas.
A luz encarnada é o pigmento
Dos rostos tintados de cólera.
A luz encarnada é a corrida Sade,
Explosão sem princípio nem fim.
A luz encarnada é o meu amor assim,
Visão que às vezes é peixe galo.
A luz encarnada é o sangue da cabra
Imolada no altar da capela papal.
A luz encarnada é o homem na cruz,
Sonho antigo para se morrer santo.
A luz encarnada é o devasso nu
Erecto no horizonte dos ventres.
A luz encarnada é a erva daninha
Que tudo envenena com seu hálito.
A luz encarnada é o gás letal
Na câmara escura da inocência.
A luz encarnada é a praga do sangue
Que bolça dos ouvidos da criança.
Veio ao mundo havia uma guerra grega,
Havia também um olho cor de âmbar,
Farol da máquina macho de Jarry.
Só não havia o meu amor assim.
1 079
Virgílio Martinho
Uma Canção de Amor
Na cidade a noite
Entre nós o peixe
Estamos sós, amor,
Somos um do outro,
É simples.
Quando nos conhecemos,
Chovia.
Era inverno no mar.
Havia dinheiro,
Fomos ao baile.
Uma luz tinha nome,
Não era Deus, não era,
Havia também uma cama
E os nossos corpos eram macios.
Viajámos vezes sem conta,
Porque somos pessoas humildes,
Com um segredo apenas:
Vermo-nos no dia seguinte.
Por isso,
Lemos nos intervalos dos gestos,
Aprendemos a tabuada dos sentidos,
Bebemos cerveja gelada,
Fazemos canções castas.
Somos puros, é verdade,
Tanto que ninguém nos quer,
E tão inocentes no dia a dia,
Que temos dívidas.
Devemos os olhos que temos,
Devemos o vermelho dos lábios,
Devemos todos os sonhos,
Devemos o pão e o sal.
Certo temos sinais diferentes,
Luas que não acertam com eles,
Por vezes chegamos a ser perversos,
Porque eles são redondos, nós esguios,
Amor.
Mas o beijo que nos une
É um silêncio justo, alegre,
E o amor que fazemos
É como o vento sobre o vento.
Entre nós o peixe
Estamos sós, amor,
Somos um do outro,
É simples.
Quando nos conhecemos,
Chovia.
Era inverno no mar.
Havia dinheiro,
Fomos ao baile.
Uma luz tinha nome,
Não era Deus, não era,
Havia também uma cama
E os nossos corpos eram macios.
Viajámos vezes sem conta,
Porque somos pessoas humildes,
Com um segredo apenas:
Vermo-nos no dia seguinte.
Por isso,
Lemos nos intervalos dos gestos,
Aprendemos a tabuada dos sentidos,
Bebemos cerveja gelada,
Fazemos canções castas.
Somos puros, é verdade,
Tanto que ninguém nos quer,
E tão inocentes no dia a dia,
Que temos dívidas.
Devemos os olhos que temos,
Devemos o vermelho dos lábios,
Devemos todos os sonhos,
Devemos o pão e o sal.
Certo temos sinais diferentes,
Luas que não acertam com eles,
Por vezes chegamos a ser perversos,
Porque eles são redondos, nós esguios,
Amor.
Mas o beijo que nos une
É um silêncio justo, alegre,
E o amor que fazemos
É como o vento sobre o vento.
925
Virgílio Martinho
Já Sei o Que Se Passa No Mundo
Já sei o que se passa no mundo.
Ouvi a música da vitória,
vi a multidão hiante a correr,
os rostos como narizes compridos.
Ouvi as vozes da vitória,
mastigavam como vulcões, mordiam.
Eram todos bonitos, ganharam.
Tinham as caras dos pais, ganiam.
Vieram do campeonato, tinham alma,
eram jovens, comiam, como comiam!
Tisnados da praia, olhos pardos, barba,
tudo que faz parte da agonia.
Têm rabo, picha grande, acne,
são o futuro, conhecem dinheiro,
mas ganharam, alpista para eles,
vitória para nós, parecem bigodes.
Têm razão, são as vozes, os voos
do mundo, são os corredores da morte,
os rapazes do grande balão,
os amortecedores do colchão.
Ouvi a música da vitória,
vi a multidão hiante a correr,
os rostos como narizes compridos.
Ouvi as vozes da vitória,
mastigavam como vulcões, mordiam.
Eram todos bonitos, ganharam.
Tinham as caras dos pais, ganiam.
Vieram do campeonato, tinham alma,
eram jovens, comiam, como comiam!
Tisnados da praia, olhos pardos, barba,
tudo que faz parte da agonia.
Têm rabo, picha grande, acne,
são o futuro, conhecem dinheiro,
mas ganharam, alpista para eles,
vitória para nós, parecem bigodes.
Têm razão, são as vozes, os voos
do mundo, são os corredores da morte,
os rapazes do grande balão,
os amortecedores do colchão.
1 025
Virgílio Martinho
Já Sei o Que Se Passa No Mundo
Já sei o que se passa no mundo.
Ouvi a música da vitória,
vi a multidão hiante a correr,
os rostos como narizes compridos.
Ouvi as vozes da vitória,
mastigavam como vulcões, mordiam.
Eram todos bonitos, ganharam.
Tinham as caras dos pais, ganiam.
Vieram do campeonato, tinham alma,
eram jovens, comiam, como comiam!
Tisnados da praia, olhos pardos, barba,
tudo que faz parte da agonia.
Têm rabo, picha grande, acne,
são o futuro, conhecem dinheiro,
mas ganharam, alpista para eles,
vitória para nós, parecem bigodes.
Têm razão, são as vozes, os voos
do mundo, são os corredores da morte,
os rapazes do grande balão,
os amortecedores do colchão.
Ouvi a música da vitória,
vi a multidão hiante a correr,
os rostos como narizes compridos.
Ouvi as vozes da vitória,
mastigavam como vulcões, mordiam.
Eram todos bonitos, ganharam.
Tinham as caras dos pais, ganiam.
Vieram do campeonato, tinham alma,
eram jovens, comiam, como comiam!
Tisnados da praia, olhos pardos, barba,
tudo que faz parte da agonia.
Têm rabo, picha grande, acne,
são o futuro, conhecem dinheiro,
mas ganharam, alpista para eles,
vitória para nós, parecem bigodes.
Têm razão, são as vozes, os voos
do mundo, são os corredores da morte,
os rapazes do grande balão,
os amortecedores do colchão.
1 025
Mário-Henrique Leiria
Quando fez a primeira comunhão
Quando fez a primeira comunhão
o pai explicou-lhe
com honesta rectidão
as comunhões
são como os bonés de caça
basta tapar as orelhas
e já está
tens o que desejas
ficas logo comunhado
gostou
e comunhou-se mais três vezes
sempre atento e preocupado
mas era fácil
daí em diante teve a certeza
bastava tapar as orelhas
era só
era uma beleza
pronto
orelha protegida
e comunhão logo garantida.
o pai explicou-lhe
com honesta rectidão
as comunhões
são como os bonés de caça
basta tapar as orelhas
e já está
tens o que desejas
ficas logo comunhado
gostou
e comunhou-se mais três vezes
sempre atento e preocupado
mas era fácil
daí em diante teve a certeza
bastava tapar as orelhas
era só
era uma beleza
pronto
orelha protegida
e comunhão logo garantida.
497
Virgílio Martinho
Ouro
O ouro é o amado, o longínquo,
Barco à vela esguio quase gaivota,
Desejo latente no meter do corpo,
Luz lateral na vaguidão das coisas.
Não falo do ouro metal, falo do ouro,
Falo da raiz, do fruto, falo do prado,
Da origem, da seiva, que o ouro é dança
Quando ao sonho vem o amor amado.
Que sonhar ouro é sonhar desejo,
Na vigília das noites compridas,
Quando as veias são pulsações vivas,
Quando os sonhos emanam das fendas.
Abismos que envolvem segredos vagos,
Distantes, enevoados, que no coração,
Castelo pulsante, trincheira de vida,
Existe a pepita, tu, madona paixão.
Saberia dizer-te ouro se fosse inocente,
Se tudo que sou começasse hoje, agora,
Se o sono, na insónia, no sonho contigo,
Houvesse o teu brilho, a tua aurora.
Fazer de ti o eu sonhado é a ideia,
O ouro de antiquíssimas histórias,
No laboratório da matéria, a fusão,
No borbulhar da retorta o sonho vão.
Barco à vela esguio quase gaivota,
Desejo latente no meter do corpo,
Luz lateral na vaguidão das coisas.
Não falo do ouro metal, falo do ouro,
Falo da raiz, do fruto, falo do prado,
Da origem, da seiva, que o ouro é dança
Quando ao sonho vem o amor amado.
Que sonhar ouro é sonhar desejo,
Na vigília das noites compridas,
Quando as veias são pulsações vivas,
Quando os sonhos emanam das fendas.
Abismos que envolvem segredos vagos,
Distantes, enevoados, que no coração,
Castelo pulsante, trincheira de vida,
Existe a pepita, tu, madona paixão.
Saberia dizer-te ouro se fosse inocente,
Se tudo que sou começasse hoje, agora,
Se o sono, na insónia, no sonho contigo,
Houvesse o teu brilho, a tua aurora.
Fazer de ti o eu sonhado é a ideia,
O ouro de antiquíssimas histórias,
No laboratório da matéria, a fusão,
No borbulhar da retorta o sonho vão.
1 107
Baltazar Dias
Malícia das mulheres
No que digo podeis ver
ser a mulher imperfeita,
no genesis podeis ler,
onde Deus a mandou ser
ao homem sempre sujeita.
Têm muitas, tão pouca fé,
por ter no mundo os sentidos,
que vemos (e assim é)
que tratam a seus maridos
como negros da guiné.
É já coisa tão comua
que os homens pisam c’os pés,
são tão feitas ao revés
se os maridos dizem ũa
elas lhes respondem dez.
Há aí homens tão sofridos,
e mulheres tão malvadas,
que quando estão agastadas
pelam barbas aos maridos
e os moem às pancadas.
Há aí mulher tão singela
que se ao lume põe o comer,
chama outra tal como ela,
comem as sopas da panela
e o mais que está a cozer.
E quando vem o marido,
ou da roça ou do mato
ou doutro qualquer partido,
por escuzar arruido
diz que o comeu o gato.
Cuidando que era verdade
o coitado, como peco,
e ela por sua maldade,
faz-lhe comer o pão seco
mui contra sua vontade.
Um homem em Roma havia
que se algum filho casava,
publicamente o chorava,
porque escravo o fazia
da mulher a quem o dava.
Se casava a filha rica,
quando alguém lhe perguntava,
alegremente dizia:
― Que um escravo comprava,
que seu cativo seria.
O homem que agora casa
sempre cativo há-de ser
da que lhe dão por mulher,
e ela há-de ter em casa
quem lhe ganhe de comer.
E, pois que a liberdade
é preço, que não tem par,
Senhor, esta é a verdade,
que não me quero casar
porque não tenho vontade.
Vosso conselho mui são,
não cura minha ferida,
perdoai-me, meu irmão,
pois sabeis que sujeição
encurta os dias da vida.
ser a mulher imperfeita,
no genesis podeis ler,
onde Deus a mandou ser
ao homem sempre sujeita.
Têm muitas, tão pouca fé,
por ter no mundo os sentidos,
que vemos (e assim é)
que tratam a seus maridos
como negros da guiné.
É já coisa tão comua
que os homens pisam c’os pés,
são tão feitas ao revés
se os maridos dizem ũa
elas lhes respondem dez.
Há aí homens tão sofridos,
e mulheres tão malvadas,
que quando estão agastadas
pelam barbas aos maridos
e os moem às pancadas.
Há aí mulher tão singela
que se ao lume põe o comer,
chama outra tal como ela,
comem as sopas da panela
e o mais que está a cozer.
E quando vem o marido,
ou da roça ou do mato
ou doutro qualquer partido,
por escuzar arruido
diz que o comeu o gato.
Cuidando que era verdade
o coitado, como peco,
e ela por sua maldade,
faz-lhe comer o pão seco
mui contra sua vontade.
Um homem em Roma havia
que se algum filho casava,
publicamente o chorava,
porque escravo o fazia
da mulher a quem o dava.
Se casava a filha rica,
quando alguém lhe perguntava,
alegremente dizia:
― Que um escravo comprava,
que seu cativo seria.
O homem que agora casa
sempre cativo há-de ser
da que lhe dão por mulher,
e ela há-de ter em casa
quem lhe ganhe de comer.
E, pois que a liberdade
é preço, que não tem par,
Senhor, esta é a verdade,
que não me quero casar
porque não tenho vontade.
Vosso conselho mui são,
não cura minha ferida,
perdoai-me, meu irmão,
pois sabeis que sujeição
encurta os dias da vida.
1 065
Baltazar Dias
Malícia das mulheres
No que digo podeis ver
ser a mulher imperfeita,
no genesis podeis ler,
onde Deus a mandou ser
ao homem sempre sujeita.
Têm muitas, tão pouca fé,
por ter no mundo os sentidos,
que vemos (e assim é)
que tratam a seus maridos
como negros da guiné.
É já coisa tão comua
que os homens pisam c’os pés,
são tão feitas ao revés
se os maridos dizem ũa
elas lhes respondem dez.
Há aí homens tão sofridos,
e mulheres tão malvadas,
que quando estão agastadas
pelam barbas aos maridos
e os moem às pancadas.
Há aí mulher tão singela
que se ao lume põe o comer,
chama outra tal como ela,
comem as sopas da panela
e o mais que está a cozer.
E quando vem o marido,
ou da roça ou do mato
ou doutro qualquer partido,
por escuzar arruido
diz que o comeu o gato.
Cuidando que era verdade
o coitado, como peco,
e ela por sua maldade,
faz-lhe comer o pão seco
mui contra sua vontade.
Um homem em Roma havia
que se algum filho casava,
publicamente o chorava,
porque escravo o fazia
da mulher a quem o dava.
Se casava a filha rica,
quando alguém lhe perguntava,
alegremente dizia:
― Que um escravo comprava,
que seu cativo seria.
O homem que agora casa
sempre cativo há-de ser
da que lhe dão por mulher,
e ela há-de ter em casa
quem lhe ganhe de comer.
E, pois que a liberdade
é preço, que não tem par,
Senhor, esta é a verdade,
que não me quero casar
porque não tenho vontade.
Vosso conselho mui são,
não cura minha ferida,
perdoai-me, meu irmão,
pois sabeis que sujeição
encurta os dias da vida.
ser a mulher imperfeita,
no genesis podeis ler,
onde Deus a mandou ser
ao homem sempre sujeita.
Têm muitas, tão pouca fé,
por ter no mundo os sentidos,
que vemos (e assim é)
que tratam a seus maridos
como negros da guiné.
É já coisa tão comua
que os homens pisam c’os pés,
são tão feitas ao revés
se os maridos dizem ũa
elas lhes respondem dez.
Há aí homens tão sofridos,
e mulheres tão malvadas,
que quando estão agastadas
pelam barbas aos maridos
e os moem às pancadas.
Há aí mulher tão singela
que se ao lume põe o comer,
chama outra tal como ela,
comem as sopas da panela
e o mais que está a cozer.
E quando vem o marido,
ou da roça ou do mato
ou doutro qualquer partido,
por escuzar arruido
diz que o comeu o gato.
Cuidando que era verdade
o coitado, como peco,
e ela por sua maldade,
faz-lhe comer o pão seco
mui contra sua vontade.
Um homem em Roma havia
que se algum filho casava,
publicamente o chorava,
porque escravo o fazia
da mulher a quem o dava.
Se casava a filha rica,
quando alguém lhe perguntava,
alegremente dizia:
― Que um escravo comprava,
que seu cativo seria.
O homem que agora casa
sempre cativo há-de ser
da que lhe dão por mulher,
e ela há-de ter em casa
quem lhe ganhe de comer.
E, pois que a liberdade
é preço, que não tem par,
Senhor, esta é a verdade,
que não me quero casar
porque não tenho vontade.
Vosso conselho mui são,
não cura minha ferida,
perdoai-me, meu irmão,
pois sabeis que sujeição
encurta os dias da vida.
1 065
Virgílio Martinho
Biografia Inventada
Sou Úrsula, chamo-me Luísa,
Tenho olhos de distância,
Cresci na neve, vivo no sol.
De mulher tenho o feminino,
Medalha que me enfeita,
O meu sorriso é espelho.
Nele me vi, havia música,
Também anjos, também guerras,
Também dores, também amores.
Cantei no espaço, uma voz branca,
Voz de mulher, minha do nascer,
Soube a matéria, tentei o destino.
Depois pisei a água fria
E mergulhei até ao peixe,
Das escamas fiz um colar.
Cada escama era uma pedra
Colorida para enfeitiçar,
de todas escolhi a do cantar.
O canto é o meu hálito,
Escorre-me pelos lábios,
Na garganta tenho éguas.
Uma é céu, outra é terra,
Uma é mar, outra é fogo,
Juntas são o meu cantar.
Canto sobre o canto, o canto,
Uma Úrsula chamada Luísa
Na aventura do mundo.
Tenho olhos de distância,
Cresci na neve, vivo no sol.
De mulher tenho o feminino,
Medalha que me enfeita,
O meu sorriso é espelho.
Nele me vi, havia música,
Também anjos, também guerras,
Também dores, também amores.
Cantei no espaço, uma voz branca,
Voz de mulher, minha do nascer,
Soube a matéria, tentei o destino.
Depois pisei a água fria
E mergulhei até ao peixe,
Das escamas fiz um colar.
Cada escama era uma pedra
Colorida para enfeitiçar,
de todas escolhi a do cantar.
O canto é o meu hálito,
Escorre-me pelos lábios,
Na garganta tenho éguas.
Uma é céu, outra é terra,
Uma é mar, outra é fogo,
Juntas são o meu cantar.
Canto sobre o canto, o canto,
Uma Úrsula chamada Luísa
Na aventura do mundo.
1 120
Mário-Henrique Leiria
Aviso Urgente
Quando as coisas que hão-de vir
chegarem
confúcio buda lao-tsé
reis barbudos pendões e caldeiros duvidosos
arnezes oscilantes aríetes sem emprego fixo
reis imberbes e condutores de noite aprisionada
cristo maomé
conquistadores a construir pirâmides inúteis
vitória e os seus lagos imperiais
e outros muitos sempre
estarão nos livros
de consulta e história analítica
os paraísos diversos indicados
tornar-se-ão textos curiosos
em microfilme encadernado
levado na mala exacta
das férias pelo espaço
serão armas perfeitamente abandonadas
do medo ainda a querer viver
nas propostas teo ilógicas
de uma morte para além da morte
paraísos dispersos mastigando-se
fornecidos com molho especial
mas mesmo assim
quotidianamente incertos na afirmação
das garantias oportunas
de uma wall street de promessas
em inflação constante
colunas templárias sem cavalo de sela
para ser montado
pequenas fábricas do acontecer
obrigatório por esperança empacotada
memórias
de santos mártires heróis santos efectivos
no livro de registo caligráfico
para a organização menor da lepra em família
três mártires três
todos na panela sem tempero hoje
prato do dia por enquanto
santos
vários
a lista é grande
tiveram sortes imagísticas abundantes
e heróis
ainda em produção contínua
na necessidade urgente de criar novos modelos
e pô-los em circulação imediata
antes que a história os recuse
um carimbo eficaz no peito
a garantir origem qualidade e preço
e alguma perna a menos para andar
tudo isto nos textos em que estará a recordação
de cóleras bancos pestes governos
batalhas casamentos impreteríveis
ducados colónias sobras de banquetes bíblicos
notícias de suicídios
sexos mutilados cidades afundadas
quando as coisas que hão-de vir
chegarem
chegarem
confúcio buda lao-tsé
reis barbudos pendões e caldeiros duvidosos
arnezes oscilantes aríetes sem emprego fixo
reis imberbes e condutores de noite aprisionada
cristo maomé
conquistadores a construir pirâmides inúteis
vitória e os seus lagos imperiais
e outros muitos sempre
estarão nos livros
de consulta e história analítica
os paraísos diversos indicados
tornar-se-ão textos curiosos
em microfilme encadernado
levado na mala exacta
das férias pelo espaço
serão armas perfeitamente abandonadas
do medo ainda a querer viver
nas propostas teo ilógicas
de uma morte para além da morte
paraísos dispersos mastigando-se
fornecidos com molho especial
mas mesmo assim
quotidianamente incertos na afirmação
das garantias oportunas
de uma wall street de promessas
em inflação constante
colunas templárias sem cavalo de sela
para ser montado
pequenas fábricas do acontecer
obrigatório por esperança empacotada
memórias
de santos mártires heróis santos efectivos
no livro de registo caligráfico
para a organização menor da lepra em família
três mártires três
todos na panela sem tempero hoje
prato do dia por enquanto
santos
vários
a lista é grande
tiveram sortes imagísticas abundantes
e heróis
ainda em produção contínua
na necessidade urgente de criar novos modelos
e pô-los em circulação imediata
antes que a história os recuse
um carimbo eficaz no peito
a garantir origem qualidade e preço
e alguma perna a menos para andar
tudo isto nos textos em que estará a recordação
de cóleras bancos pestes governos
batalhas casamentos impreteríveis
ducados colónias sobras de banquetes bíblicos
notícias de suicídios
sexos mutilados cidades afundadas
quando as coisas que hão-de vir
chegarem
494
Mário-Henrique Leiria
Aviso Urgente
Quando as coisas que hão-de vir
chegarem
confúcio buda lao-tsé
reis barbudos pendões e caldeiros duvidosos
arnezes oscilantes aríetes sem emprego fixo
reis imberbes e condutores de noite aprisionada
cristo maomé
conquistadores a construir pirâmides inúteis
vitória e os seus lagos imperiais
e outros muitos sempre
estarão nos livros
de consulta e história analítica
os paraísos diversos indicados
tornar-se-ão textos curiosos
em microfilme encadernado
levado na mala exacta
das férias pelo espaço
serão armas perfeitamente abandonadas
do medo ainda a querer viver
nas propostas teo ilógicas
de uma morte para além da morte
paraísos dispersos mastigando-se
fornecidos com molho especial
mas mesmo assim
quotidianamente incertos na afirmação
das garantias oportunas
de uma wall street de promessas
em inflação constante
colunas templárias sem cavalo de sela
para ser montado
pequenas fábricas do acontecer
obrigatório por esperança empacotada
memórias
de santos mártires heróis santos efectivos
no livro de registo caligráfico
para a organização menor da lepra em família
três mártires três
todos na panela sem tempero hoje
prato do dia por enquanto
santos
vários
a lista é grande
tiveram sortes imagísticas abundantes
e heróis
ainda em produção contínua
na necessidade urgente de criar novos modelos
e pô-los em circulação imediata
antes que a história os recuse
um carimbo eficaz no peito
a garantir origem qualidade e preço
e alguma perna a menos para andar
tudo isto nos textos em que estará a recordação
de cóleras bancos pestes governos
batalhas casamentos impreteríveis
ducados colónias sobras de banquetes bíblicos
notícias de suicídios
sexos mutilados cidades afundadas
quando as coisas que hão-de vir
chegarem
chegarem
confúcio buda lao-tsé
reis barbudos pendões e caldeiros duvidosos
arnezes oscilantes aríetes sem emprego fixo
reis imberbes e condutores de noite aprisionada
cristo maomé
conquistadores a construir pirâmides inúteis
vitória e os seus lagos imperiais
e outros muitos sempre
estarão nos livros
de consulta e história analítica
os paraísos diversos indicados
tornar-se-ão textos curiosos
em microfilme encadernado
levado na mala exacta
das férias pelo espaço
serão armas perfeitamente abandonadas
do medo ainda a querer viver
nas propostas teo ilógicas
de uma morte para além da morte
paraísos dispersos mastigando-se
fornecidos com molho especial
mas mesmo assim
quotidianamente incertos na afirmação
das garantias oportunas
de uma wall street de promessas
em inflação constante
colunas templárias sem cavalo de sela
para ser montado
pequenas fábricas do acontecer
obrigatório por esperança empacotada
memórias
de santos mártires heróis santos efectivos
no livro de registo caligráfico
para a organização menor da lepra em família
três mártires três
todos na panela sem tempero hoje
prato do dia por enquanto
santos
vários
a lista é grande
tiveram sortes imagísticas abundantes
e heróis
ainda em produção contínua
na necessidade urgente de criar novos modelos
e pô-los em circulação imediata
antes que a história os recuse
um carimbo eficaz no peito
a garantir origem qualidade e preço
e alguma perna a menos para andar
tudo isto nos textos em que estará a recordação
de cóleras bancos pestes governos
batalhas casamentos impreteríveis
ducados colónias sobras de banquetes bíblicos
notícias de suicídios
sexos mutilados cidades afundadas
quando as coisas que hão-de vir
chegarem
494
Afonso Lopes de Baião
Sedia-Xi Dom Belpelho Em Ua Sa Maison
Sedia-xi Dom Belpelho em ũa sa maison
que chamam Longos, [d]ond'eles todos som.
Per porta lh'entra Martim de Farazom,
escud'a colo em que sev'um capom,
que foi já poleir'em outra sazom,
caval'agudo, que semelha forom;
em cima del um velho selegom,
sem estrebeiras e com roto bardom;
nem porta loriga nem porta lorigom,
nem geolheiras, quaes de ferro som,
mais trax perponto roto sem algodom
e coberturas d'um velho zarelhom;
lança de pinh'e de bragal o pendom,
chapel de ferro, que xi lhi mui mal pom,
e sobarcad'um velh'espadarrom,
cuitel cacha[d]o, cinta sem farcilhom,
duas esporas destras, ca seestras nom som,
maça de fuste, que lhi pende do arçom.
A Dom Belpelho moveu esta razom:
- Ai, meu senhor, assi Deus vos perdom,
u é Joam Aranha, o vosso companhom
e voss'alférez, que vos tem o pendom?
Se é aqui, saia desta maison,
ca já outros todos em Basto som.
Eoi!
Estas horas chega Joam de Froiam,
cavalo velho, caçurr'e alaxam,
sinaes porta eno arçom d'avam:
campo verde, u inqueire o cam,
e no escudo ataes lh'acharám;
ceram'e cint'e calças de Roam,
sa catadura semelh'a d'um jaiam.
Ante Dom Belpelho se vai aparelhan
e diz: - Senhor, nom valredes um pam
se os que som em Basto se xi vos assi vam;
mais id'a eles, ca xe vos nom iram:
achá-los-edes [e] escarmentarám.
Vingad'a casa em que vos mejad'ham,
que digam todos quantos pós vós verram
que tal conselho deu Joam de Froiam.
Eoi!
Esto per dito chegou Pero Ferreira,
cavalo branco, vermelho na peteira,
escud'a colo, que foi d'ũa masseira,
sa lança torta d'um ramo de cerdeira,
capelo de ferro, o anasal na trincheira
e furad[o] em cima da moleira;
traj'ũa osa e ũa geolheira,
estrebeirando vai de mui gram maneira;
e achou Belpelho estando em ũa eira
e diz: - Aqui estades, ai, velho de matreira!
Venha Pachacho e Dom Roi Cabreira
pera dar[em] a mim a deanteira,
ca já vos tarda essa gente da Beira,
o moordom'e o sobrinho de Cheira,
e Meem Sapo e Dom Martim de Meira
e Lopo Gato, esse filho da freira,
que nom há antre nós melhor lança peideira.
Eoi!
que chamam Longos, [d]ond'eles todos som.
Per porta lh'entra Martim de Farazom,
escud'a colo em que sev'um capom,
que foi já poleir'em outra sazom,
caval'agudo, que semelha forom;
em cima del um velho selegom,
sem estrebeiras e com roto bardom;
nem porta loriga nem porta lorigom,
nem geolheiras, quaes de ferro som,
mais trax perponto roto sem algodom
e coberturas d'um velho zarelhom;
lança de pinh'e de bragal o pendom,
chapel de ferro, que xi lhi mui mal pom,
e sobarcad'um velh'espadarrom,
cuitel cacha[d]o, cinta sem farcilhom,
duas esporas destras, ca seestras nom som,
maça de fuste, que lhi pende do arçom.
A Dom Belpelho moveu esta razom:
- Ai, meu senhor, assi Deus vos perdom,
u é Joam Aranha, o vosso companhom
e voss'alférez, que vos tem o pendom?
Se é aqui, saia desta maison,
ca já outros todos em Basto som.
Eoi!
Estas horas chega Joam de Froiam,
cavalo velho, caçurr'e alaxam,
sinaes porta eno arçom d'avam:
campo verde, u inqueire o cam,
e no escudo ataes lh'acharám;
ceram'e cint'e calças de Roam,
sa catadura semelh'a d'um jaiam.
Ante Dom Belpelho se vai aparelhan
e diz: - Senhor, nom valredes um pam
se os que som em Basto se xi vos assi vam;
mais id'a eles, ca xe vos nom iram:
achá-los-edes [e] escarmentarám.
Vingad'a casa em que vos mejad'ham,
que digam todos quantos pós vós verram
que tal conselho deu Joam de Froiam.
Eoi!
Esto per dito chegou Pero Ferreira,
cavalo branco, vermelho na peteira,
escud'a colo, que foi d'ũa masseira,
sa lança torta d'um ramo de cerdeira,
capelo de ferro, o anasal na trincheira
e furad[o] em cima da moleira;
traj'ũa osa e ũa geolheira,
estrebeirando vai de mui gram maneira;
e achou Belpelho estando em ũa eira
e diz: - Aqui estades, ai, velho de matreira!
Venha Pachacho e Dom Roi Cabreira
pera dar[em] a mim a deanteira,
ca já vos tarda essa gente da Beira,
o moordom'e o sobrinho de Cheira,
e Meem Sapo e Dom Martim de Meira
e Lopo Gato, esse filho da freira,
que nom há antre nós melhor lança peideira.
Eoi!
582
Mário-Henrique Leiria
A Estratégia
Vejamos
perguntou o capitão
como vai indo
essa instrução?
vai muito bem
um caso lindo
disse o sargento
falando a contento
ao capitão
e veio a guerra
então a instrução
pôs o boné
e entrou
logo em acção
como vai indo
essa função?
perguntou o general
ao capitão
vejamos
expôs o capitão
o importante
sempre tenho dito
e repito
é levar a instrução
avante
e foi assim
que acabada a guerra
o capitão ficou
Napoleão
perguntou o capitão
como vai indo
essa instrução?
vai muito bem
um caso lindo
disse o sargento
falando a contento
ao capitão
e veio a guerra
então a instrução
pôs o boné
e entrou
logo em acção
como vai indo
essa função?
perguntou o general
ao capitão
vejamos
expôs o capitão
o importante
sempre tenho dito
e repito
é levar a instrução
avante
e foi assim
que acabada a guerra
o capitão ficou
Napoleão
651