Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Renato Rezende
[Irisar]
É como se o chão tivesse se aberto sob os meus pés, como se estivesse tudo no ar, tudo sem sentido, sem nexo—o que me faz sentir-me desencontrado, confuso. No entanto, quando olho à volta, vejo que está tudo aí, no lugar, como sempre esteve, e nada está sendo ameaçado, tudo dentro da normalidade. Para tentar escapar desse sentimento de desconforto, às vezes me entusiasmo por uma ou outra coisa, mas nenhum desses ânimos se sustenta, e eu logo caio novamente no vazio. Da mesma forma, tenho as reações mais chãs, na tentativa de reconhecerme. Percebo, no entanto, que essas identidades já não estão funcionando mais para mim, já não me reconheço nelas. O desafio é aprender a ocupar todo o espaço que se abriu dentro de mim, a me ver desde um outro ponto de vista, a ganhar uma nova identidade. Não sou mais homem nem poeta, sou Deus, com todos os seus atributos. Mas como se faz isso? Coragem—
Vi um templo belíssimo, com um longo jardim e passarela (um homem ou uma serpente ao lado, sentado), tudo muito limpo e sublime (os homens podem/ poderiam transformar o mundo inteiro em locais sagrados), e, lá no fundo, no santuário, a Deusa, a DEUSA VIVA, dançando, dançando freneticamente em meio a um fogo de horror e gozo—a Deusa dançando em gozo, e ali era a própria morada iluminada do Tempo crepitando.
Constante crepitar
Areia que se desloca
A Deusa parece dançar com mais vigor agora, a experiência do tempo parece intensificar-se: aproxima-se o momento do GRANDE GOZO.
Meu caro, isso é possível, eu conheço alguém assim. Alguém sem o peso da memória, alguém totalmente explodido no momento.
É isso, não sei explicar. Fui morrendo, morrendo.
Há anos que venho morrendo.
Há anos caminho nesse deserto.
Cada vez mais deserto. Cada vez mais claro e luminoso.
Areia e céu se fundem.
Não está na hora de chegar?
Não é aqui a chegada?
Disse luminoso? E essas sombras
que vivem em mim
e toda essa umidade
empoçada em mim?
Por que eu sou tão habitado pela morte?
Por que meu corpo parece dissolver-se?
A vida é o aceno da morte.
É pela vida que a morte se revela.
Irisar
É um saco esse negócio de ‘minha vida’
Esse troço de ter uma vida.
Quando começarei a desmontar o circo?
Tem gente que habita o corpo.
Tem gente que é o corpo.
Nenhum prazer vale nada—só o Amor é precioso.
O Amor é
Amor
Luminoso, sim. Luminoso e seco, o deserto.
Nuvens:
Essa umidade toda mais parece uma mulher.
Acho que sou uma mulher. Há mulher demais em mim.
essas mulheres agora deram
para gostar de apanhar
de cinta com nó
nas nádegas
de deixar vermelhão,
de escorrer sangue
escorrer sangue. essa mulher de quatro
essa mulher amarrada
Desejo ser castrada, circuncisada, mutilada.
Essa mulher de burka.
Não há nada mais belo que uma moça gargalhando.
E essa de cócoras, nua, irreverente, inocente, cândida, essa fenda
essa entrada no corpo.
E essa entrada, sou eu ou sou o outro?
Estou prenhe de morte.
Como, no entanto, ainda vivo?
Como, no entanto, ainda amo?
Estou cansada da morte.
Estou com medo da morte.
E essas luzes douradas, o que são?
Esta vida estabanada. Como se vive?
Como se vive a vida de um homem? Como
Se morre?
A questão é que nunca me sei suficientemente morto.
Esta é a vida que pedi a Deus.
Vi um templo belíssimo, com um longo jardim e passarela (um homem ou uma serpente ao lado, sentado), tudo muito limpo e sublime (os homens podem/ poderiam transformar o mundo inteiro em locais sagrados), e, lá no fundo, no santuário, a Deusa, a DEUSA VIVA, dançando, dançando freneticamente em meio a um fogo de horror e gozo—a Deusa dançando em gozo, e ali era a própria morada iluminada do Tempo crepitando.
Constante crepitar
Areia que se desloca
A Deusa parece dançar com mais vigor agora, a experiência do tempo parece intensificar-se: aproxima-se o momento do GRANDE GOZO.
Meu caro, isso é possível, eu conheço alguém assim. Alguém sem o peso da memória, alguém totalmente explodido no momento.
É isso, não sei explicar. Fui morrendo, morrendo.
Há anos que venho morrendo.
Há anos caminho nesse deserto.
Cada vez mais deserto. Cada vez mais claro e luminoso.
Areia e céu se fundem.
Não está na hora de chegar?
Não é aqui a chegada?
Disse luminoso? E essas sombras
que vivem em mim
e toda essa umidade
empoçada em mim?
Por que eu sou tão habitado pela morte?
Por que meu corpo parece dissolver-se?
A vida é o aceno da morte.
É pela vida que a morte se revela.
Irisar
É um saco esse negócio de ‘minha vida’
Esse troço de ter uma vida.
Quando começarei a desmontar o circo?
Tem gente que habita o corpo.
Tem gente que é o corpo.
Nenhum prazer vale nada—só o Amor é precioso.
O Amor é
Amor
Luminoso, sim. Luminoso e seco, o deserto.
Nuvens:
Essa umidade toda mais parece uma mulher.
Acho que sou uma mulher. Há mulher demais em mim.
essas mulheres agora deram
para gostar de apanhar
de cinta com nó
nas nádegas
de deixar vermelhão,
de escorrer sangue
escorrer sangue. essa mulher de quatro
essa mulher amarrada
Desejo ser castrada, circuncisada, mutilada.
Essa mulher de burka.
Não há nada mais belo que uma moça gargalhando.
E essa de cócoras, nua, irreverente, inocente, cândida, essa fenda
essa entrada no corpo.
E essa entrada, sou eu ou sou o outro?
Estou prenhe de morte.
Como, no entanto, ainda vivo?
Como, no entanto, ainda amo?
Estou cansada da morte.
Estou com medo da morte.
E essas luzes douradas, o que são?
Esta vida estabanada. Como se vive?
Como se vive a vida de um homem? Como
Se morre?
A questão é que nunca me sei suficientemente morto.
Esta é a vida que pedi a Deus.
1 018
Renato Rezende
Serviço de Utilidade Pública
O Serviço de Busca de Paradeiro da Cruz
Vermelha Brasileira informa que as seguintes
pessoas estão sendo procuradas por seus
parentes. Informações podem ser fornecidas pelo
telefone 2509-3552. Benedito Francisco Dias,
de 78 anos, nascido em Nossa Senhora do
Livramento, em Mato Grosso, está desaparecido
desde 25 de dezembro de 1995. Edson
Rosa da Silva, carioca, de 47 anos,
desapareceu no Rio de Janeiro, em 1988.
Veronica Deptulsky, cujos pais, Romualdo e
Cecília, nasceram na colônia polonesa de Águia
Branca, em Colatina, ES. João Araújo da
Silva, 57 anos, paraibano de Aroeira, está
desaparecido desde 1992. Ele é marceneiro e
tem apelido de "Índio". Euclides Matta
Pascoal, de 76 anos, desapareceu em 1950.
Raimundo Ribeiro Ávila, de 59 anos, cearense.
Em 1988 foi visto em Brasília. Bolival
Pereira de Melo, que em 1961 trabalhou como
telegrafista na Usina de Barreiros, em
Pernambuco. Moisés Miranda, carioca, de 32
anos, saiu de casa dia 4 de abril de 1996
e desapareceu.
Vermelha Brasileira informa que as seguintes
pessoas estão sendo procuradas por seus
parentes. Informações podem ser fornecidas pelo
telefone 2509-3552. Benedito Francisco Dias,
de 78 anos, nascido em Nossa Senhora do
Livramento, em Mato Grosso, está desaparecido
desde 25 de dezembro de 1995. Edson
Rosa da Silva, carioca, de 47 anos,
desapareceu no Rio de Janeiro, em 1988.
Veronica Deptulsky, cujos pais, Romualdo e
Cecília, nasceram na colônia polonesa de Águia
Branca, em Colatina, ES. João Araújo da
Silva, 57 anos, paraibano de Aroeira, está
desaparecido desde 1992. Ele é marceneiro e
tem apelido de "Índio". Euclides Matta
Pascoal, de 76 anos, desapareceu em 1950.
Raimundo Ribeiro Ávila, de 59 anos, cearense.
Em 1988 foi visto em Brasília. Bolival
Pereira de Melo, que em 1961 trabalhou como
telegrafista na Usina de Barreiros, em
Pernambuco. Moisés Miranda, carioca, de 32
anos, saiu de casa dia 4 de abril de 1996
e desapareceu.
961
Renato Rezende
[Santo]
—é essa a humanidade que pulsa agora.
Numa livraria, ler poemas para uma moça jovem: Pessoa, Maiakóvski e Rumi—a juventude é esse querer aberto.
Buscar a menina na escola; o pátio da escola; a algazarra e doçura das crianças: todo dia uma nova (a mesma) lição de amor.
Minha querida devoradora de corações,
Como se faz para se ter um orgasmo que não seja físico, que seja um penetrar, um fundir místico de corações, um orgasmo de coração explodindo? É assim que eu te amo.
Erotismo: a catapulta para a transcendência do corpo.
A palavra do erotismo é o espírito! O salto.
(Por isso, é bacana saber que uma amiga sua me achou bonito. Tomara que sonhe comigo, que suspire. Tomara que goze pensando em mim. É assim que somos poesia uns para os outros).
Tigre,
Eu sei que não sou, que nunca poderei ser
o homem da sua vida
Então posso ser o homem
da sua morte?
E como é morte, e na morte
tudo pode
serei a mulher da sua morte.
Por todo o sempre sua garota.
Posso?
Se o Amor não vem por conta própria – então é preciso buscá-lo.
Sim, a matéria salva.
É como se meu amor, histérico e aflito, não conseguisse assentar-se, colocar-se em algo humilde, feito com afinco, e essa incapacidade criasse agitação e ansiedade. Aprender a amar todas as coisas que se apresentam sem julgamento de valor, doado a cada situação: colocar os dois pés no chão.
Eu não estou escrevendo isso.
Eu não estou sentado nessa sala.
Eu estou aqui
(para vocês),
mas eu não estou aqui.
O coração é meu órgão sexual.
Quero gozar o tempo todo.
Amor divino: castidade absoluta.
Eu sou o homem e eu sou a mulher.
Toda essa ambiguidade não vai se resolver nunca. A única saída é o salto. O único jeito é saltando para: a Santidade.
Quanto mais santo mais no mundo?
Numa livraria, ler poemas para uma moça jovem: Pessoa, Maiakóvski e Rumi—a juventude é esse querer aberto.
Buscar a menina na escola; o pátio da escola; a algazarra e doçura das crianças: todo dia uma nova (a mesma) lição de amor.
Minha querida devoradora de corações,
Como se faz para se ter um orgasmo que não seja físico, que seja um penetrar, um fundir místico de corações, um orgasmo de coração explodindo? É assim que eu te amo.
Erotismo: a catapulta para a transcendência do corpo.
A palavra do erotismo é o espírito! O salto.
(Por isso, é bacana saber que uma amiga sua me achou bonito. Tomara que sonhe comigo, que suspire. Tomara que goze pensando em mim. É assim que somos poesia uns para os outros).
Tigre,
Eu sei que não sou, que nunca poderei ser
o homem da sua vida
Então posso ser o homem
da sua morte?
E como é morte, e na morte
tudo pode
serei a mulher da sua morte.
Por todo o sempre sua garota.
Posso?
Se o Amor não vem por conta própria – então é preciso buscá-lo.
Sim, a matéria salva.
É como se meu amor, histérico e aflito, não conseguisse assentar-se, colocar-se em algo humilde, feito com afinco, e essa incapacidade criasse agitação e ansiedade. Aprender a amar todas as coisas que se apresentam sem julgamento de valor, doado a cada situação: colocar os dois pés no chão.
Eu não estou escrevendo isso.
Eu não estou sentado nessa sala.
Eu estou aqui
(para vocês),
mas eu não estou aqui.
O coração é meu órgão sexual.
Quero gozar o tempo todo.
Amor divino: castidade absoluta.
Eu sou o homem e eu sou a mulher.
Toda essa ambiguidade não vai se resolver nunca. A única saída é o salto. O único jeito é saltando para: a Santidade.
Quanto mais santo mais no mundo?
1 135
Renato Rezende
Data 2
Saí para almoçar e, ao passar entre dois carros estacionados no meio-fio, vi uma menina de
rua, já para lá de adolescente, cagando. Estava agachada, de cócoras, com a calça abaixada.
Quando me viu, abriu o maior sorriso, e disse, “meu banheiro é aqui mesmo, moço”, sem por um
instante parar de fazer o que fazia. Dava para ver, por entre o vão formado por suas pernas, a massa
de merda no asfalto. Eu, que costumo me indignar com os dejetos de cães nas ruas, não me ofendi,
e não me senti diante de um ato estranho ou transgressor. Rolou até uma certa e indiscutível
sensualidade, um inconfundível apelo erótico, e por um momento pensei em parar para admirar a
cena completa, até o fim. Retribui o sorriso dos seus olhos brincalhões e continuei passando—
apenas um pouco surpreso com a total naturalidade de tudo.
rua, já para lá de adolescente, cagando. Estava agachada, de cócoras, com a calça abaixada.
Quando me viu, abriu o maior sorriso, e disse, “meu banheiro é aqui mesmo, moço”, sem por um
instante parar de fazer o que fazia. Dava para ver, por entre o vão formado por suas pernas, a massa
de merda no asfalto. Eu, que costumo me indignar com os dejetos de cães nas ruas, não me ofendi,
e não me senti diante de um ato estranho ou transgressor. Rolou até uma certa e indiscutível
sensualidade, um inconfundível apelo erótico, e por um momento pensei em parar para admirar a
cena completa, até o fim. Retribui o sorriso dos seus olhos brincalhões e continuei passando—
apenas um pouco surpreso com a total naturalidade de tudo.
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Renato Rezende
Data 2
Saí para almoçar e, ao passar entre dois carros estacionados no meio-fio, vi uma menina de
rua, já para lá de adolescente, cagando. Estava agachada, de cócoras, com a calça abaixada.
Quando me viu, abriu o maior sorriso, e disse, “meu banheiro é aqui mesmo, moço”, sem por um
instante parar de fazer o que fazia. Dava para ver, por entre o vão formado por suas pernas, a massa
de merda no asfalto. Eu, que costumo me indignar com os dejetos de cães nas ruas, não me ofendi,
e não me senti diante de um ato estranho ou transgressor. Rolou até uma certa e indiscutível
sensualidade, um inconfundível apelo erótico, e por um momento pensei em parar para admirar a
cena completa, até o fim. Retribui o sorriso dos seus olhos brincalhões e continuei passando—
apenas um pouco surpreso com a total naturalidade de tudo.
rua, já para lá de adolescente, cagando. Estava agachada, de cócoras, com a calça abaixada.
Quando me viu, abriu o maior sorriso, e disse, “meu banheiro é aqui mesmo, moço”, sem por um
instante parar de fazer o que fazia. Dava para ver, por entre o vão formado por suas pernas, a massa
de merda no asfalto. Eu, que costumo me indignar com os dejetos de cães nas ruas, não me ofendi,
e não me senti diante de um ato estranho ou transgressor. Rolou até uma certa e indiscutível
sensualidade, um inconfundível apelo erótico, e por um momento pensei em parar para admirar a
cena completa, até o fim. Retribui o sorriso dos seus olhos brincalhões e continuei passando—
apenas um pouco surpreso com a total naturalidade de tudo.
767
Renato Rezende
Balada Das Barcas
As barcas
são pura metafísica.
Sobre as águas
da Guanabara
cochilo; sou argonauta perdido
no meio da vida,
no mar de calmaria
do meu próprio redemoinho.
E navegar é preciso.
Meio-dia.
As águas batem.
Tocam um sino.
A vida passa.
Tudo é bonito.
A Ilha Fiscal
pintada de verde.
Os barcos de pesca
com seu cheiro de peixes.
A ponte Rio-Niterói
que já matou muita gente.
O resto da mata.
A viagem.
Mesmo pequena
é sempre ela:
a viagem
que me carrega.
Minha companheira.
E sou tanto dela
e a amo tanto
que esqueci para que sirvo
entre um porto e outro.
Passo meus dias sonso
fingindo interesse
pela família, pelo dinheiro,
e só me sinto inteiro
quando no trânsito
(ou, num momento raro
quando solitário
dentro do quarto-barco, pronto
para morrer um pouco).
Sou todo mala e passagem.
Mala é meu corpo, mala é minha alma
mala, que antes e depois da viagem
não serve para nada,
guardada num canto.
Saio do cochilo, em transe
e entro na vida, vazio.
Descemos.
A barca jamais questiona
sua disciplina.
Sou eu, dentro, quem vai à deriva.
Niterói, 10 de novembro 1998
são pura metafísica.
Sobre as águas
da Guanabara
cochilo; sou argonauta perdido
no meio da vida,
no mar de calmaria
do meu próprio redemoinho.
E navegar é preciso.
Meio-dia.
As águas batem.
Tocam um sino.
A vida passa.
Tudo é bonito.
A Ilha Fiscal
pintada de verde.
Os barcos de pesca
com seu cheiro de peixes.
A ponte Rio-Niterói
que já matou muita gente.
O resto da mata.
A viagem.
Mesmo pequena
é sempre ela:
a viagem
que me carrega.
Minha companheira.
E sou tanto dela
e a amo tanto
que esqueci para que sirvo
entre um porto e outro.
Passo meus dias sonso
fingindo interesse
pela família, pelo dinheiro,
e só me sinto inteiro
quando no trânsito
(ou, num momento raro
quando solitário
dentro do quarto-barco, pronto
para morrer um pouco).
Sou todo mala e passagem.
Mala é meu corpo, mala é minha alma
mala, que antes e depois da viagem
não serve para nada,
guardada num canto.
Saio do cochilo, em transe
e entro na vida, vazio.
Descemos.
A barca jamais questiona
sua disciplina.
Sou eu, dentro, quem vai à deriva.
Niterói, 10 de novembro 1998
956
Renato Rezende
Balada Das Barcas
As barcas
são pura metafísica.
Sobre as águas
da Guanabara
cochilo; sou argonauta perdido
no meio da vida,
no mar de calmaria
do meu próprio redemoinho.
E navegar é preciso.
Meio-dia.
As águas batem.
Tocam um sino.
A vida passa.
Tudo é bonito.
A Ilha Fiscal
pintada de verde.
Os barcos de pesca
com seu cheiro de peixes.
A ponte Rio-Niterói
que já matou muita gente.
O resto da mata.
A viagem.
Mesmo pequena
é sempre ela:
a viagem
que me carrega.
Minha companheira.
E sou tanto dela
e a amo tanto
que esqueci para que sirvo
entre um porto e outro.
Passo meus dias sonso
fingindo interesse
pela família, pelo dinheiro,
e só me sinto inteiro
quando no trânsito
(ou, num momento raro
quando solitário
dentro do quarto-barco, pronto
para morrer um pouco).
Sou todo mala e passagem.
Mala é meu corpo, mala é minha alma
mala, que antes e depois da viagem
não serve para nada,
guardada num canto.
Saio do cochilo, em transe
e entro na vida, vazio.
Descemos.
A barca jamais questiona
sua disciplina.
Sou eu, dentro, quem vai à deriva.
Niterói, 10 de novembro 1998
são pura metafísica.
Sobre as águas
da Guanabara
cochilo; sou argonauta perdido
no meio da vida,
no mar de calmaria
do meu próprio redemoinho.
E navegar é preciso.
Meio-dia.
As águas batem.
Tocam um sino.
A vida passa.
Tudo é bonito.
A Ilha Fiscal
pintada de verde.
Os barcos de pesca
com seu cheiro de peixes.
A ponte Rio-Niterói
que já matou muita gente.
O resto da mata.
A viagem.
Mesmo pequena
é sempre ela:
a viagem
que me carrega.
Minha companheira.
E sou tanto dela
e a amo tanto
que esqueci para que sirvo
entre um porto e outro.
Passo meus dias sonso
fingindo interesse
pela família, pelo dinheiro,
e só me sinto inteiro
quando no trânsito
(ou, num momento raro
quando solitário
dentro do quarto-barco, pronto
para morrer um pouco).
Sou todo mala e passagem.
Mala é meu corpo, mala é minha alma
mala, que antes e depois da viagem
não serve para nada,
guardada num canto.
Saio do cochilo, em transe
e entro na vida, vazio.
Descemos.
A barca jamais questiona
sua disciplina.
Sou eu, dentro, quem vai à deriva.
Niterói, 10 de novembro 1998
956
Renato Rezende
Álbum de Roma
Em certas fotos Roma revela
que é uma milenar cidade do oriente.
(Principalmente quando o sol
se avermelha, por trás do Vaticano
na hora do poente).
O oriente, o longínquo, o estrangeiro
está bem mais próximo
do que pensamos habitualmente.
Nova York, dezembro 1995
que é uma milenar cidade do oriente.
(Principalmente quando o sol
se avermelha, por trás do Vaticano
na hora do poente).
O oriente, o longínquo, o estrangeiro
está bem mais próximo
do que pensamos habitualmente.
Nova York, dezembro 1995
994
Renato Rezende
Álbum de Roma
Em certas fotos Roma revela
que é uma milenar cidade do oriente.
(Principalmente quando o sol
se avermelha, por trás do Vaticano
na hora do poente).
O oriente, o longínquo, o estrangeiro
está bem mais próximo
do que pensamos habitualmente.
Nova York, dezembro 1995
que é uma milenar cidade do oriente.
(Principalmente quando o sol
se avermelha, por trás do Vaticano
na hora do poente).
O oriente, o longínquo, o estrangeiro
está bem mais próximo
do que pensamos habitualmente.
Nova York, dezembro 1995
994
Renato Rezende
Zelig
Como se não bastasse
ser gente
é preciso ser também
médico, professor, gerente.
Tudo bem. O Sr. Souza
é gerente de compras.
A Dona Raimunda
tem como profissão
alugar o corpo.
Me perguntam o que sou.
Poeta e pintor, eu digo,
ou aprendiz de mendigo.
(Algo que de si mesmo
duvida).
Meu nome é Zelig
e às vezes São Francisco.
Indefinível, sem qualidades
disassocio-me do meu corpo
que alguns chamam de veículo.
Me despeço do meu destino.
Sou metade vazio
e oco no meio
(a melhor parte de mim mesmo
onde sou mais inteiro).
Me espero no que restará
do fundo do meu próprio abismo.
O sol no mar infinito.
Rio de Janeiro, 7 de março 1997
ser gente
é preciso ser também
médico, professor, gerente.
Tudo bem. O Sr. Souza
é gerente de compras.
A Dona Raimunda
tem como profissão
alugar o corpo.
Me perguntam o que sou.
Poeta e pintor, eu digo,
ou aprendiz de mendigo.
(Algo que de si mesmo
duvida).
Meu nome é Zelig
e às vezes São Francisco.
Indefinível, sem qualidades
disassocio-me do meu corpo
que alguns chamam de veículo.
Me despeço do meu destino.
Sou metade vazio
e oco no meio
(a melhor parte de mim mesmo
onde sou mais inteiro).
Me espero no que restará
do fundo do meu próprio abismo.
O sol no mar infinito.
Rio de Janeiro, 7 de março 1997
991
Renato Rezende
Asas de Papel
Subir aos céus em asas de cristal
Subir aos céus
Subir aos céus em escadas de papel
Subir aos céus
Subir aos céus no elevador panorâmico
do Shopping Iguatemi
Não importa como:
Subir
São Paulo, março 1996
Subir aos céus
Subir aos céus em escadas de papel
Subir aos céus
Subir aos céus no elevador panorâmico
do Shopping Iguatemi
Não importa como:
Subir
São Paulo, março 1996
1 050
Renato Rezende
O Mendigo
Sou o mendigo
do Rio de Janeiro.
Entre muitos, o único
o arquétipo, o negro
o barbudo, o sujo, o primeiro
o eterno, o mítico.
Estou entre árvores,
carros e edifícios.
Hoje sou palavra e precipício.
Hoje acordei com o bicho.
Insisto em saber
como se faz para ser dono
de tudo isso.
Giro em torno de mim mesmo
e tudo vejo --estou de pé
no meio da avenida.
Os carros brilham e passam
rápidos, no asfalto.
É uma dádiva ou um fracasso
não ter um carro?
Hoje eu não me entendo.
Têm muita gente morando
nestes edifícios, eu sei,
será que é porque
eles chegaram primeiro?
A gente já nasce rico
ou é uma questão de sorte
durante a vida --vida ou morte?
Será que eu sou rico ou pobre,
vivo ou morto?
Será que quando eu nasci
pensaram que eu era rei
e não precisava de nada?
Tudo é sempre encontrado no lixo
na plataforma da vida
como a roupa que visto?
Tudo já estava construído?
Como se faz para ser dono
das coisas que existem?
Eu, o único imperador
do reino-corpo que dispo.
Rio de Janeiro, 15 de abril 1997
do Rio de Janeiro.
Entre muitos, o único
o arquétipo, o negro
o barbudo, o sujo, o primeiro
o eterno, o mítico.
Estou entre árvores,
carros e edifícios.
Hoje sou palavra e precipício.
Hoje acordei com o bicho.
Insisto em saber
como se faz para ser dono
de tudo isso.
Giro em torno de mim mesmo
e tudo vejo --estou de pé
no meio da avenida.
Os carros brilham e passam
rápidos, no asfalto.
É uma dádiva ou um fracasso
não ter um carro?
Hoje eu não me entendo.
Têm muita gente morando
nestes edifícios, eu sei,
será que é porque
eles chegaram primeiro?
A gente já nasce rico
ou é uma questão de sorte
durante a vida --vida ou morte?
Será que eu sou rico ou pobre,
vivo ou morto?
Será que quando eu nasci
pensaram que eu era rei
e não precisava de nada?
Tudo é sempre encontrado no lixo
na plataforma da vida
como a roupa que visto?
Tudo já estava construído?
Como se faz para ser dono
das coisas que existem?
Eu, o único imperador
do reino-corpo que dispo.
Rio de Janeiro, 15 de abril 1997
1 048
Renato Rezende
O Mendigo
Sou o mendigo
do Rio de Janeiro.
Entre muitos, o único
o arquétipo, o negro
o barbudo, o sujo, o primeiro
o eterno, o mítico.
Estou entre árvores,
carros e edifícios.
Hoje sou palavra e precipício.
Hoje acordei com o bicho.
Insisto em saber
como se faz para ser dono
de tudo isso.
Giro em torno de mim mesmo
e tudo vejo --estou de pé
no meio da avenida.
Os carros brilham e passam
rápidos, no asfalto.
É uma dádiva ou um fracasso
não ter um carro?
Hoje eu não me entendo.
Têm muita gente morando
nestes edifícios, eu sei,
será que é porque
eles chegaram primeiro?
A gente já nasce rico
ou é uma questão de sorte
durante a vida --vida ou morte?
Será que eu sou rico ou pobre,
vivo ou morto?
Será que quando eu nasci
pensaram que eu era rei
e não precisava de nada?
Tudo é sempre encontrado no lixo
na plataforma da vida
como a roupa que visto?
Tudo já estava construído?
Como se faz para ser dono
das coisas que existem?
Eu, o único imperador
do reino-corpo que dispo.
Rio de Janeiro, 15 de abril 1997
do Rio de Janeiro.
Entre muitos, o único
o arquétipo, o negro
o barbudo, o sujo, o primeiro
o eterno, o mítico.
Estou entre árvores,
carros e edifícios.
Hoje sou palavra e precipício.
Hoje acordei com o bicho.
Insisto em saber
como se faz para ser dono
de tudo isso.
Giro em torno de mim mesmo
e tudo vejo --estou de pé
no meio da avenida.
Os carros brilham e passam
rápidos, no asfalto.
É uma dádiva ou um fracasso
não ter um carro?
Hoje eu não me entendo.
Têm muita gente morando
nestes edifícios, eu sei,
será que é porque
eles chegaram primeiro?
A gente já nasce rico
ou é uma questão de sorte
durante a vida --vida ou morte?
Será que eu sou rico ou pobre,
vivo ou morto?
Será que quando eu nasci
pensaram que eu era rei
e não precisava de nada?
Tudo é sempre encontrado no lixo
na plataforma da vida
como a roupa que visto?
Tudo já estava construído?
Como se faz para ser dono
das coisas que existem?
Eu, o único imperador
do reino-corpo que dispo.
Rio de Janeiro, 15 de abril 1997
1 048
Renato Rezende
O Mendigo
Sou o mendigo
do Rio de Janeiro.
Entre muitos, o único
o arquétipo, o negro
o barbudo, o sujo, o primeiro
o eterno, o mítico.
Estou entre árvores,
carros e edifícios.
Hoje sou palavra e precipício.
Hoje acordei com o bicho.
Insisto em saber
como se faz para ser dono
de tudo isso.
Giro em torno de mim mesmo
e tudo vejo --estou de pé
no meio da avenida.
Os carros brilham e passam
rápidos, no asfalto.
É uma dádiva ou um fracasso
não ter um carro?
Hoje eu não me entendo.
Têm muita gente morando
nestes edifícios, eu sei,
será que é porque
eles chegaram primeiro?
A gente já nasce rico
ou é uma questão de sorte
durante a vida --vida ou morte?
Será que eu sou rico ou pobre,
vivo ou morto?
Será que quando eu nasci
pensaram que eu era rei
e não precisava de nada?
Tudo é sempre encontrado no lixo
na plataforma da vida
como a roupa que visto?
Tudo já estava construído?
Como se faz para ser dono
das coisas que existem?
Eu, o único imperador
do reino-corpo que dispo.
Rio de Janeiro, 15 de abril 1997
do Rio de Janeiro.
Entre muitos, o único
o arquétipo, o negro
o barbudo, o sujo, o primeiro
o eterno, o mítico.
Estou entre árvores,
carros e edifícios.
Hoje sou palavra e precipício.
Hoje acordei com o bicho.
Insisto em saber
como se faz para ser dono
de tudo isso.
Giro em torno de mim mesmo
e tudo vejo --estou de pé
no meio da avenida.
Os carros brilham e passam
rápidos, no asfalto.
É uma dádiva ou um fracasso
não ter um carro?
Hoje eu não me entendo.
Têm muita gente morando
nestes edifícios, eu sei,
será que é porque
eles chegaram primeiro?
A gente já nasce rico
ou é uma questão de sorte
durante a vida --vida ou morte?
Será que eu sou rico ou pobre,
vivo ou morto?
Será que quando eu nasci
pensaram que eu era rei
e não precisava de nada?
Tudo é sempre encontrado no lixo
na plataforma da vida
como a roupa que visto?
Tudo já estava construído?
Como se faz para ser dono
das coisas que existem?
Eu, o único imperador
do reino-corpo que dispo.
Rio de Janeiro, 15 de abril 1997
1 048
Renato Rezende
O Balde
Rio de Janeiro,
minha cidade de agora.
Me preencho
com teu peso.
Sou um balde que flutua
com um furo
em tuas águas sujas
e pouco a pouco afunda.
As três da madrugada
às três da tarde,
no túnel, na orla;
a mesma hora
se desdobra
desde o Império romano?
Rio de Janeiro, segundo milênio
da era de Cristo
quase findo.
O umbigo é o centro
do universo. O umbigo
de ninguém em concreto.
Tempo de menos.
Os que estão vivos
mal compreendem a vida.
Somos muito milhões de indivíduos
e para a maioria deles
não teria nada a dizer.
A não ser, talvez
"toda vida
é sagrada"
(e isto dito
dar as costas).
Conheço umas centenas de pessoas
que são minha idéia de humanidade.
Acho a humanidade doce.
Estou só.
Tenho desejos.
Mas nenhum ímpeto.
Até mesmo o sexo
ficou melhor imaginado
do que vivido.
Atravesso vários bairros
várias vidas.
Sou ouro e lixo.
Nas minhas asas puras
acolho, recolho
tua porra
e tua excremento.
Rio eterna
efêmera
aberta
Roma, Atenas, Pompéia.
Rio de Janeiro, 2 de maio 1997
minha cidade de agora.
Me preencho
com teu peso.
Sou um balde que flutua
com um furo
em tuas águas sujas
e pouco a pouco afunda.
As três da madrugada
às três da tarde,
no túnel, na orla;
a mesma hora
se desdobra
desde o Império romano?
Rio de Janeiro, segundo milênio
da era de Cristo
quase findo.
O umbigo é o centro
do universo. O umbigo
de ninguém em concreto.
Tempo de menos.
Os que estão vivos
mal compreendem a vida.
Somos muito milhões de indivíduos
e para a maioria deles
não teria nada a dizer.
A não ser, talvez
"toda vida
é sagrada"
(e isto dito
dar as costas).
Conheço umas centenas de pessoas
que são minha idéia de humanidade.
Acho a humanidade doce.
Estou só.
Tenho desejos.
Mas nenhum ímpeto.
Até mesmo o sexo
ficou melhor imaginado
do que vivido.
Atravesso vários bairros
várias vidas.
Sou ouro e lixo.
Nas minhas asas puras
acolho, recolho
tua porra
e tua excremento.
Rio eterna
efêmera
aberta
Roma, Atenas, Pompéia.
Rio de Janeiro, 2 de maio 1997
749
Renato Rezende
O Balde
Rio de Janeiro,
minha cidade de agora.
Me preencho
com teu peso.
Sou um balde que flutua
com um furo
em tuas águas sujas
e pouco a pouco afunda.
As três da madrugada
às três da tarde,
no túnel, na orla;
a mesma hora
se desdobra
desde o Império romano?
Rio de Janeiro, segundo milênio
da era de Cristo
quase findo.
O umbigo é o centro
do universo. O umbigo
de ninguém em concreto.
Tempo de menos.
Os que estão vivos
mal compreendem a vida.
Somos muito milhões de indivíduos
e para a maioria deles
não teria nada a dizer.
A não ser, talvez
"toda vida
é sagrada"
(e isto dito
dar as costas).
Conheço umas centenas de pessoas
que são minha idéia de humanidade.
Acho a humanidade doce.
Estou só.
Tenho desejos.
Mas nenhum ímpeto.
Até mesmo o sexo
ficou melhor imaginado
do que vivido.
Atravesso vários bairros
várias vidas.
Sou ouro e lixo.
Nas minhas asas puras
acolho, recolho
tua porra
e tua excremento.
Rio eterna
efêmera
aberta
Roma, Atenas, Pompéia.
Rio de Janeiro, 2 de maio 1997
minha cidade de agora.
Me preencho
com teu peso.
Sou um balde que flutua
com um furo
em tuas águas sujas
e pouco a pouco afunda.
As três da madrugada
às três da tarde,
no túnel, na orla;
a mesma hora
se desdobra
desde o Império romano?
Rio de Janeiro, segundo milênio
da era de Cristo
quase findo.
O umbigo é o centro
do universo. O umbigo
de ninguém em concreto.
Tempo de menos.
Os que estão vivos
mal compreendem a vida.
Somos muito milhões de indivíduos
e para a maioria deles
não teria nada a dizer.
A não ser, talvez
"toda vida
é sagrada"
(e isto dito
dar as costas).
Conheço umas centenas de pessoas
que são minha idéia de humanidade.
Acho a humanidade doce.
Estou só.
Tenho desejos.
Mas nenhum ímpeto.
Até mesmo o sexo
ficou melhor imaginado
do que vivido.
Atravesso vários bairros
várias vidas.
Sou ouro e lixo.
Nas minhas asas puras
acolho, recolho
tua porra
e tua excremento.
Rio eterna
efêmera
aberta
Roma, Atenas, Pompéia.
Rio de Janeiro, 2 de maio 1997
749
Renato Rezende
Jagunço
Meio desistido de mim mesmo
caminho quase a esmo
pelo Rio de Janeiro.
Quase a esmo --estou bem vestido
e entre brancos, mulatas e negros
procuro um qualquer emprego.
Uma ocupação que me sustente
e permita-me desistir-me
mais completamente, mais inteiro.
Algo que eu farei com zêlo,
algo simples, humilde; desistir-se
não requer muito dinheiro.
O segredo deste esconder-se
é que quanto mais me desisto
mais me encontro
sublime, dentro de mim mesmo
e rio, e sou livre, e vôo
e crio
meu jeito de ser artista e gente.
Rio de Janeiro, 7 de março 1997
caminho quase a esmo
pelo Rio de Janeiro.
Quase a esmo --estou bem vestido
e entre brancos, mulatas e negros
procuro um qualquer emprego.
Uma ocupação que me sustente
e permita-me desistir-me
mais completamente, mais inteiro.
Algo que eu farei com zêlo,
algo simples, humilde; desistir-se
não requer muito dinheiro.
O segredo deste esconder-se
é que quanto mais me desisto
mais me encontro
sublime, dentro de mim mesmo
e rio, e sou livre, e vôo
e crio
meu jeito de ser artista e gente.
Rio de Janeiro, 7 de março 1997
984
Renato Rezende
Jagunço
Meio desistido de mim mesmo
caminho quase a esmo
pelo Rio de Janeiro.
Quase a esmo --estou bem vestido
e entre brancos, mulatas e negros
procuro um qualquer emprego.
Uma ocupação que me sustente
e permita-me desistir-me
mais completamente, mais inteiro.
Algo que eu farei com zêlo,
algo simples, humilde; desistir-se
não requer muito dinheiro.
O segredo deste esconder-se
é que quanto mais me desisto
mais me encontro
sublime, dentro de mim mesmo
e rio, e sou livre, e vôo
e crio
meu jeito de ser artista e gente.
Rio de Janeiro, 7 de março 1997
caminho quase a esmo
pelo Rio de Janeiro.
Quase a esmo --estou bem vestido
e entre brancos, mulatas e negros
procuro um qualquer emprego.
Uma ocupação que me sustente
e permita-me desistir-me
mais completamente, mais inteiro.
Algo que eu farei com zêlo,
algo simples, humilde; desistir-se
não requer muito dinheiro.
O segredo deste esconder-se
é que quanto mais me desisto
mais me encontro
sublime, dentro de mim mesmo
e rio, e sou livre, e vôo
e crio
meu jeito de ser artista e gente.
Rio de Janeiro, 7 de março 1997
984
Renato Rezende
Jagunço
Meio desistido de mim mesmo
caminho quase a esmo
pelo Rio de Janeiro.
Quase a esmo --estou bem vestido
e entre brancos, mulatas e negros
procuro um qualquer emprego.
Uma ocupação que me sustente
e permita-me desistir-me
mais completamente, mais inteiro.
Algo que eu farei com zêlo,
algo simples, humilde; desistir-se
não requer muito dinheiro.
O segredo deste esconder-se
é que quanto mais me desisto
mais me encontro
sublime, dentro de mim mesmo
e rio, e sou livre, e vôo
e crio
meu jeito de ser artista e gente.
Rio de Janeiro, 7 de março 1997
caminho quase a esmo
pelo Rio de Janeiro.
Quase a esmo --estou bem vestido
e entre brancos, mulatas e negros
procuro um qualquer emprego.
Uma ocupação que me sustente
e permita-me desistir-me
mais completamente, mais inteiro.
Algo que eu farei com zêlo,
algo simples, humilde; desistir-se
não requer muito dinheiro.
O segredo deste esconder-se
é que quanto mais me desisto
mais me encontro
sublime, dentro de mim mesmo
e rio, e sou livre, e vôo
e crio
meu jeito de ser artista e gente.
Rio de Janeiro, 7 de março 1997
984
Renato Rezende
No Aeroporto
Todas essas milhares de pessoas
merecem amor e respeito.
Estamos todos tentando viver
da melhor maneira que sabemos.
Estamos todos querendo ser felizes.
Somos a flor da terra,
a coisa mais doce do planeta.
Sou eu e cada uma delas.
São Paulo, abril 1998
merecem amor e respeito.
Estamos todos tentando viver
da melhor maneira que sabemos.
Estamos todos querendo ser felizes.
Somos a flor da terra,
a coisa mais doce do planeta.
Sou eu e cada uma delas.
São Paulo, abril 1998
739
Renato Rezende
As Moiras
Gostaria de estar lá, testemunha, bem na hora
quando as moiras tecem o destino dos homens.
-- Você (ainda apenas uma alma)
está condenado a caminhar de joelhos
por 35 anos
na cidade do Rio de Janeiro.
Essa foi boa! É o mendigo
que vi ontem sob o sol
na praia do Flamengo.
Levariam elas em conta a lei oriental do karma?
Compreenderiam elas que, afinal
a vida é sonho
e não importa nada?
Não é verdade que no fim das contas
todo destino é igual
e todo homem um expatriado de si mesmo?
Veja eu, por exemplo
Renato Rezende, 32 anos
e ainda não morri de fome e de sede
(este fato me surpreende).
Carrego um iceberg no peito
cuja minúscula ponta são todos os meus versos.
Parece mesmo que meu destino
é este gesto já quase desfeito
este desejo imenso de não sei bem o quê
este gigantesco amor-desatino
este aparente
bater a esmo.
As moiras, na sua Glória, eu sei, gostam dessa gente
que é torta, desses sem jeito
que descasam o fim do começo,
que são menos carne do que espírito.
Como o mendigo do Flamengo
eu sou um escolhido
e vivo de joelhos dentro de mim mesmo.
Todas as minhas vitórias sempre serão
maravilhosa, necessariamente um sinal de menos.
Rio de Janeiro, 15 de fevereiro 1997
quando as moiras tecem o destino dos homens.
-- Você (ainda apenas uma alma)
está condenado a caminhar de joelhos
por 35 anos
na cidade do Rio de Janeiro.
Essa foi boa! É o mendigo
que vi ontem sob o sol
na praia do Flamengo.
Levariam elas em conta a lei oriental do karma?
Compreenderiam elas que, afinal
a vida é sonho
e não importa nada?
Não é verdade que no fim das contas
todo destino é igual
e todo homem um expatriado de si mesmo?
Veja eu, por exemplo
Renato Rezende, 32 anos
e ainda não morri de fome e de sede
(este fato me surpreende).
Carrego um iceberg no peito
cuja minúscula ponta são todos os meus versos.
Parece mesmo que meu destino
é este gesto já quase desfeito
este desejo imenso de não sei bem o quê
este gigantesco amor-desatino
este aparente
bater a esmo.
As moiras, na sua Glória, eu sei, gostam dessa gente
que é torta, desses sem jeito
que descasam o fim do começo,
que são menos carne do que espírito.
Como o mendigo do Flamengo
eu sou um escolhido
e vivo de joelhos dentro de mim mesmo.
Todas as minhas vitórias sempre serão
maravilhosa, necessariamente um sinal de menos.
Rio de Janeiro, 15 de fevereiro 1997
781
Renato Rezende
Copacabana, 1997
O mar brilha e arde.
O mar, areia líquida.
É tarde
em Copacabana
e na minha vida.
Pessoas de idade
caminham de mãos dadas.
Jovens quase pelados
patinam em velocidade
ou jogam vôlei.
Crianças gritam
atrás de bolas e cachorros.
A luz excessiva
me fere a vista.
A vida excessiva
me fere a vida.
Atravesso a avenida
em alta perplexidade.
"Quem sou eu e o que faço
entre as coisas?"
Sem nenhuma vontade
me sento
me disfarço
e peço um copo de álcool.
Depois danço e grito e salto.
Rio de Janeiro, 2 de abril 1997
O mar, areia líquida.
É tarde
em Copacabana
e na minha vida.
Pessoas de idade
caminham de mãos dadas.
Jovens quase pelados
patinam em velocidade
ou jogam vôlei.
Crianças gritam
atrás de bolas e cachorros.
A luz excessiva
me fere a vista.
A vida excessiva
me fere a vida.
Atravesso a avenida
em alta perplexidade.
"Quem sou eu e o que faço
entre as coisas?"
Sem nenhuma vontade
me sento
me disfarço
e peço um copo de álcool.
Depois danço e grito e salto.
Rio de Janeiro, 2 de abril 1997
959
Renato Rezende
Mercado de Frutas
Quando saí de casa hoje
a rua estava em silêncio
como se a vida geral se tivesse cansado
de tanta história
e se deixasse levar sem grandes vontades.
Lento, na calçada ao lado
passava um negro
quebrando o silêncio com uma doce toada.
"Vassoureiro!
Vassoura de pêlo!"
E carregava umas vassouras imensas
que pareciam mesmo coisas antigas
do tempo dos escravos.
Parecia um Rio de Janeiro de outrora.
Era um momento raro,
o presente permitia
a vitória do passado.
Com especial cuidado
desci a rua
em direção à feira
do Largo do Machado.
Longe, fugia a voz do negro
como se acaba um longo beijo:
"Vassoureiro!
Vassoura de pêlo!"
Com renovado cuidado
escolhi as frutas
que me sustentarão neste dia.
A cidade eterna e efêmera
navega em si mesma;
comigo em seu seio.
Rio de Janeiro, 7 de abril 1997
a rua estava em silêncio
como se a vida geral se tivesse cansado
de tanta história
e se deixasse levar sem grandes vontades.
Lento, na calçada ao lado
passava um negro
quebrando o silêncio com uma doce toada.
"Vassoureiro!
Vassoura de pêlo!"
E carregava umas vassouras imensas
que pareciam mesmo coisas antigas
do tempo dos escravos.
Parecia um Rio de Janeiro de outrora.
Era um momento raro,
o presente permitia
a vitória do passado.
Com especial cuidado
desci a rua
em direção à feira
do Largo do Machado.
Longe, fugia a voz do negro
como se acaba um longo beijo:
"Vassoureiro!
Vassoura de pêlo!"
Com renovado cuidado
escolhi as frutas
que me sustentarão neste dia.
A cidade eterna e efêmera
navega em si mesma;
comigo em seu seio.
Rio de Janeiro, 7 de abril 1997
980
Renato Rezende
Fin Du Siècle
Estamos na Europa, em la campagne.
E somos dois homens num bosque.
Caminhamos.
Na clareira perto de um riacho
encontramos
as flores mais lindas
(minúsculas, amarelinhas!)
O quê fazer?
a) colhê-las para um bouquet
b) fotografá-las como um japonês
c) deixá-las em paz (o meio ambiente!)
None of the above:
Passamos por cima, normal
silenciosamente.
França, verão 1988 -- Nova York, 7 de março 1996
E somos dois homens num bosque.
Caminhamos.
Na clareira perto de um riacho
encontramos
as flores mais lindas
(minúsculas, amarelinhas!)
O quê fazer?
a) colhê-las para um bouquet
b) fotografá-las como um japonês
c) deixá-las em paz (o meio ambiente!)
None of the above:
Passamos por cima, normal
silenciosamente.
França, verão 1988 -- Nova York, 7 de março 1996
740