Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Manuel de Freitas
CAVE BAR
para a Susana
Há tabernas assim, de
desusada melancolia para estes
tempos que correm friamente.
Aqui estivemos algumas tardes,
bebendo martinis sob o azul sombrio
das paredes, junto ao lavatório
sujo e amarelecido. Quase
ninguém chegava para além de nós,
em silêncio e ranho exilados.
A disposição das mesas, a patroa
envelhecendo por detrás do
balcão, o som demasiado alto do rádio
– tudo nos fazia lembrar um livro,
demorada canção onde afinal
não pudemos caber.
Depois, apenas sozinho regressei
a este quieto lugar de sombra.
Abandono-me à mesma mesa, mas agora
é como o Verlaine de certa fotografia.
Como ninguém.
Subterrânea foi a nossa despedida.
Há tabernas assim, de
desusada melancolia para estes
tempos que correm friamente.
Aqui estivemos algumas tardes,
bebendo martinis sob o azul sombrio
das paredes, junto ao lavatório
sujo e amarelecido. Quase
ninguém chegava para além de nós,
em silêncio e ranho exilados.
A disposição das mesas, a patroa
envelhecendo por detrás do
balcão, o som demasiado alto do rádio
– tudo nos fazia lembrar um livro,
demorada canção onde afinal
não pudemos caber.
Depois, apenas sozinho regressei
a este quieto lugar de sombra.
Abandono-me à mesma mesa, mas agora
é como o Verlaine de certa fotografia.
Como ninguém.
Subterrânea foi a nossa despedida.
1 161
Vítor Silva Tavares
Como se alguém teimosamente mudo
Como se alguém teimosamente mudo
ante o esplendor que não se vê de dia
tivesse ignorado os livros de estudo
e saído porta fora da aula de poesia
Como se alguém falhasse a pontaria
frente às imagens raiadas de sonhos
e só tivesse olhos para aquela alegria
que mora dentro de espelhos medonhos
Como se alguém arrancasse a cabeça
e a escondesse no bolso das calças
de forma a que a luz esquecesse depressa
ter entrado sempre por janelas falsas
Como se alguém sem o saber dissesse
adeus muito antes da hora da verdade
e ficasse à esquina de tudo o que acontece
e a peste estourasse na cidade
ante o esplendor que não se vê de dia
tivesse ignorado os livros de estudo
e saído porta fora da aula de poesia
Como se alguém falhasse a pontaria
frente às imagens raiadas de sonhos
e só tivesse olhos para aquela alegria
que mora dentro de espelhos medonhos
Como se alguém arrancasse a cabeça
e a escondesse no bolso das calças
de forma a que a luz esquecesse depressa
ter entrado sempre por janelas falsas
Como se alguém sem o saber dissesse
adeus muito antes da hora da verdade
e ficasse à esquina de tudo o que acontece
e a peste estourasse na cidade
661
Ademir Assunção
TURBULÊNCIA DE NERVOS
(sétimo monólogo interior de Lili Maconha)
Arrancaram a alma das palavras.
Esfolaram a epiderme, trituraram a carne e moeram os ossos,
até esvaziarem cada camada de sentido.
Ela virá esta noite.
Carcaças corroídas pelo ácido monetário,
sílabas e fonemas são apenas fantasmas,
sem significado algum.
Ela virá. A cadela de casaco felpudo, escuro e grosso.
Há letreiros luminosos nas fachadas dos edifícios,
mas eles não dizem nada.
Tudo está a venda. Tudo é ruína. Tudo é naufrágio
e turbulência de nervos.
Ela virá e eu a estarei esperando.
Peixes agonizam entre os entulhos.
Torneiras despejam água fétida sobre pilhas de pratos.
Os corredores das universidades estão cheios de zumbis.
0 38 está engatilhado.
Os últimos poetas se enforcaram em galhos de bétulas de ferro.
Arrancaram a alma das palavras.
Esfolaram a epiderme, trituraram a carne e moeram os ossos,
até esvaziarem cada camada de sentido.
Ela virá esta noite.
Carcaças corroídas pelo ácido monetário,
sílabas e fonemas são apenas fantasmas,
sem significado algum.
Ela virá. A cadela de casaco felpudo, escuro e grosso.
Há letreiros luminosos nas fachadas dos edifícios,
mas eles não dizem nada.
Tudo está a venda. Tudo é ruína. Tudo é naufrágio
e turbulência de nervos.
Ela virá e eu a estarei esperando.
Peixes agonizam entre os entulhos.
Torneiras despejam água fétida sobre pilhas de pratos.
Os corredores das universidades estão cheios de zumbis.
0 38 está engatilhado.
Os últimos poetas se enforcaram em galhos de bétulas de ferro.
1 114
Ademir Assunção
TURBULÊNCIA DE NERVOS
(sétimo monólogo interior de Lili Maconha)
Arrancaram a alma das palavras.
Esfolaram a epiderme, trituraram a carne e moeram os ossos,
até esvaziarem cada camada de sentido.
Ela virá esta noite.
Carcaças corroídas pelo ácido monetário,
sílabas e fonemas são apenas fantasmas,
sem significado algum.
Ela virá. A cadela de casaco felpudo, escuro e grosso.
Há letreiros luminosos nas fachadas dos edifícios,
mas eles não dizem nada.
Tudo está a venda. Tudo é ruína. Tudo é naufrágio
e turbulência de nervos.
Ela virá e eu a estarei esperando.
Peixes agonizam entre os entulhos.
Torneiras despejam água fétida sobre pilhas de pratos.
Os corredores das universidades estão cheios de zumbis.
0 38 está engatilhado.
Os últimos poetas se enforcaram em galhos de bétulas de ferro.
Arrancaram a alma das palavras.
Esfolaram a epiderme, trituraram a carne e moeram os ossos,
até esvaziarem cada camada de sentido.
Ela virá esta noite.
Carcaças corroídas pelo ácido monetário,
sílabas e fonemas são apenas fantasmas,
sem significado algum.
Ela virá. A cadela de casaco felpudo, escuro e grosso.
Há letreiros luminosos nas fachadas dos edifícios,
mas eles não dizem nada.
Tudo está a venda. Tudo é ruína. Tudo é naufrágio
e turbulência de nervos.
Ela virá e eu a estarei esperando.
Peixes agonizam entre os entulhos.
Torneiras despejam água fétida sobre pilhas de pratos.
Os corredores das universidades estão cheios de zumbis.
0 38 está engatilhado.
Os últimos poetas se enforcaram em galhos de bétulas de ferro.
1 114
Manuel de Freitas
5 602543 0300515
Por mim, pagava-lhe a água
e a sandes (duvidosa, como
tudo o que aqui se faz). Mas não
posso ser despedida agora.
Ao dar-me o dinheiro, quase
pede desculpa dessa vida também
em forma de navalha romba.
até, de certeza, amanhã – pois
nem a morte quer ir com a nossa cara
e a sandes (duvidosa, como
tudo o que aqui se faz). Mas não
posso ser despedida agora.
Ao dar-me o dinheiro, quase
pede desculpa dessa vida também
em forma de navalha romba.
até, de certeza, amanhã – pois
nem a morte quer ir com a nossa cara
1 034
Manuel de Freitas
5 602543 0300515
Por mim, pagava-lhe a água
e a sandes (duvidosa, como
tudo o que aqui se faz). Mas não
posso ser despedida agora.
Ao dar-me o dinheiro, quase
pede desculpa dessa vida também
em forma de navalha romba.
até, de certeza, amanhã – pois
nem a morte quer ir com a nossa cara
e a sandes (duvidosa, como
tudo o que aqui se faz). Mas não
posso ser despedida agora.
Ao dar-me o dinheiro, quase
pede desculpa dessa vida também
em forma de navalha romba.
até, de certeza, amanhã – pois
nem a morte quer ir com a nossa cara
1 034
Manuel de Freitas
5 601009 610037
Não me vêem. Ainda bem.
Fiquei de apanhar a Raquel
no infantário e não tenho como dizer
ao Jorge que a puta da Irene
faltou e já não dá. Beijam-se,
cospem-se assim de afecto
como eu (nós?) há dez anos.
Mal ouvem a conta ou isto tudo
que me gane dentro numa
servil polidez. Apetecia-me dizer
“foda-se!”– o vosso amor, o meu.
E o pior é que não posso.
Fiquei de apanhar a Raquel
no infantário e não tenho como dizer
ao Jorge que a puta da Irene
faltou e já não dá. Beijam-se,
cospem-se assim de afecto
como eu (nós?) há dez anos.
Mal ouvem a conta ou isto tudo
que me gane dentro numa
servil polidez. Apetecia-me dizer
“foda-se!”– o vosso amor, o meu.
E o pior é que não posso.
1 066
Airas Peres Vuitorom
Dom Estevão
Dom Estevão diz que desamor
tem com el-rei, e eu sei porque mente,
é porque nunca teve prazer, enquanto esteve aqui
o Conde, nem terá, enquanto ele aí estiver,
e, por quant’ eu dos seus bens sei,
como não vem ao reino el-rei,
não acha prazer em nada
Com arte diz que não quer bem a el-rei
mas eu sei que ele já não terá
nunca prazer, se o Conde reinar,
porque bem longe está de alguma coisa ter
dom Estevão, ond’ haja grão prazer!
Deste já ele está bem longe de ver,
enquanto o Conde for senhor de Santarém.
Por que vos diz ele que quer a mal a el-rei?
é porque não vê nada, assim Deus me perdoe,
que ele mais ame no seu coração
nem verá nunca, e vos direi mais:
posto que se agora o reino partiu,
prazer, pois, nunca dom Estevão teve
nem terá jamais em Portugal!
Português antigo
Don Estevam diz que desamor
á con el-rey, e sey eu ca ment’i,
ca nunca uiu prazer, poys foi aqui
o Conde, nen ueerá, mentr’ el i for,
e, per quant’ eu de sa fazenda sey,
por que non uen ao reyno el-rey,
non uee cousa ond’ aia sabor.
Con arte diz que non quer a ‘l-rey ben
ca sey eu d’el ca iá non ueerá
nunca prazer, se o Conde reynará,
ca ben quit’é de ueer nulha ren
don Esteuan, ond’ aia gran prazer!
d’ est’ é iá el ben quite de ueer,
mentr’ o Cond’ assy ouuer Santaren.
Por que uos diz el que quer a ‘l-rey mal?
ca ren non uee, assi Deus mi perdon,
que el mays ame eno seu coraçonnen
ueerá nunca, e direy-uos al:
poys que ss’agora o reyno partiu,
prazer poys nunca don Estevan uyu
nen ueera iamays en Portugal!
tem com el-rei, e eu sei porque mente,
é porque nunca teve prazer, enquanto esteve aqui
o Conde, nem terá, enquanto ele aí estiver,
e, por quant’ eu dos seus bens sei,
como não vem ao reino el-rei,
não acha prazer em nada
Com arte diz que não quer bem a el-rei
mas eu sei que ele já não terá
nunca prazer, se o Conde reinar,
porque bem longe está de alguma coisa ter
dom Estevão, ond’ haja grão prazer!
Deste já ele está bem longe de ver,
enquanto o Conde for senhor de Santarém.
Por que vos diz ele que quer a mal a el-rei?
é porque não vê nada, assim Deus me perdoe,
que ele mais ame no seu coração
nem verá nunca, e vos direi mais:
posto que se agora o reino partiu,
prazer, pois, nunca dom Estevão teve
nem terá jamais em Portugal!
Português antigo
Don Estevam diz que desamor
á con el-rey, e sey eu ca ment’i,
ca nunca uiu prazer, poys foi aqui
o Conde, nen ueerá, mentr’ el i for,
e, per quant’ eu de sa fazenda sey,
por que non uen ao reyno el-rey,
non uee cousa ond’ aia sabor.
Con arte diz que non quer a ‘l-rey ben
ca sey eu d’el ca iá non ueerá
nunca prazer, se o Conde reynará,
ca ben quit’é de ueer nulha ren
don Esteuan, ond’ aia gran prazer!
d’ est’ é iá el ben quite de ueer,
mentr’ o Cond’ assy ouuer Santaren.
Por que uos diz el que quer a ‘l-rey mal?
ca ren non uee, assi Deus mi perdon,
que el mays ame eno seu coraçonnen
ueerá nunca, e direy-uos al:
poys que ss’agora o reyno partiu,
prazer poys nunca don Estevan uyu
nen ueera iamays en Portugal!
605
Airas Peres Vuitorom
Dom Estevão
Dom Estevão diz que desamor
tem com el-rei, e eu sei porque mente,
é porque nunca teve prazer, enquanto esteve aqui
o Conde, nem terá, enquanto ele aí estiver,
e, por quant’ eu dos seus bens sei,
como não vem ao reino el-rei,
não acha prazer em nada
Com arte diz que não quer bem a el-rei
mas eu sei que ele já não terá
nunca prazer, se o Conde reinar,
porque bem longe está de alguma coisa ter
dom Estevão, ond’ haja grão prazer!
Deste já ele está bem longe de ver,
enquanto o Conde for senhor de Santarém.
Por que vos diz ele que quer a mal a el-rei?
é porque não vê nada, assim Deus me perdoe,
que ele mais ame no seu coração
nem verá nunca, e vos direi mais:
posto que se agora o reino partiu,
prazer, pois, nunca dom Estevão teve
nem terá jamais em Portugal!
Português antigo
Don Estevam diz que desamor
á con el-rey, e sey eu ca ment’i,
ca nunca uiu prazer, poys foi aqui
o Conde, nen ueerá, mentr’ el i for,
e, per quant’ eu de sa fazenda sey,
por que non uen ao reyno el-rey,
non uee cousa ond’ aia sabor.
Con arte diz que non quer a ‘l-rey ben
ca sey eu d’el ca iá non ueerá
nunca prazer, se o Conde reynará,
ca ben quit’é de ueer nulha ren
don Esteuan, ond’ aia gran prazer!
d’ est’ é iá el ben quite de ueer,
mentr’ o Cond’ assy ouuer Santaren.
Por que uos diz el que quer a ‘l-rey mal?
ca ren non uee, assi Deus mi perdon,
que el mays ame eno seu coraçonnen
ueerá nunca, e direy-uos al:
poys que ss’agora o reyno partiu,
prazer poys nunca don Estevan uyu
nen ueera iamays en Portugal!
tem com el-rei, e eu sei porque mente,
é porque nunca teve prazer, enquanto esteve aqui
o Conde, nem terá, enquanto ele aí estiver,
e, por quant’ eu dos seus bens sei,
como não vem ao reino el-rei,
não acha prazer em nada
Com arte diz que não quer bem a el-rei
mas eu sei que ele já não terá
nunca prazer, se o Conde reinar,
porque bem longe está de alguma coisa ter
dom Estevão, ond’ haja grão prazer!
Deste já ele está bem longe de ver,
enquanto o Conde for senhor de Santarém.
Por que vos diz ele que quer a mal a el-rei?
é porque não vê nada, assim Deus me perdoe,
que ele mais ame no seu coração
nem verá nunca, e vos direi mais:
posto que se agora o reino partiu,
prazer, pois, nunca dom Estevão teve
nem terá jamais em Portugal!
Português antigo
Don Estevam diz que desamor
á con el-rey, e sey eu ca ment’i,
ca nunca uiu prazer, poys foi aqui
o Conde, nen ueerá, mentr’ el i for,
e, per quant’ eu de sa fazenda sey,
por que non uen ao reyno el-rey,
non uee cousa ond’ aia sabor.
Con arte diz que non quer a ‘l-rey ben
ca sey eu d’el ca iá non ueerá
nunca prazer, se o Conde reynará,
ca ben quit’é de ueer nulha ren
don Esteuan, ond’ aia gran prazer!
d’ est’ é iá el ben quite de ueer,
mentr’ o Cond’ assy ouuer Santaren.
Por que uos diz el que quer a ‘l-rey mal?
ca ren non uee, assi Deus mi perdon,
que el mays ame eno seu coraçonnen
ueerá nunca, e direy-uos al:
poys que ss’agora o reyno partiu,
prazer poys nunca don Estevan uyu
nen ueera iamays en Portugal!
605
Everardo Norões
A RUA DO PADRE INGLÊS
Na rua do Padre Inglês
um louco joga xadrez.
Joga o xadrez da desgraça:
uma sombra na vidraça
é o seu parceiro demente.
(Entre a dama e o cavalo,
corre um rio de afogados).
De sua cama, ainda quente,
um bafo de nicotina.
Vem um cheiro de latrina
da cela defronte à sua.
Na rua do Padre Inglês
um louco fala francês
com acentos de Baudelaire...
(O flamboyant encarnado
se mistura ao espetáculo
da esquizofrênica rua).
O bispo toma o cavalo
das mãos da dama de preto.
(São cinco horas da tarde:
as luzes se apagam cedo.)
Batente do meio-fio:
vem vindo a sombra da noiva,
sozinha, morta de medo.
(O louco avista das grades
as andorinhas azuis
que voam feito morcegos.)
Na rua do Padre Inglês,
um cheiro de gasolina.
{O louco engendra seu mate
contra a sombra na vidraça.}
São cinco em ponto da tarde
(cinco de Ignacio Mejías,
pensa o louco em sua cela)
— dos girassóis de Van Gogh
à solidão amarela...
O cavalo solta as crinas,
a noiva voa na rua
e nas vozes de um menino
acordes de um violino.
O louco sabe que o tempo
de dormir já vem chegando...
(Corujas soltas na cela
bicam as flores de papel
e uma boneca de pano).
Corre, corre, vem depressa,
Que a noite já vem chegando!
Na rua do Padre Inglês
um louco joga xadrez...
um louco joga xadrez.
Joga o xadrez da desgraça:
uma sombra na vidraça
é o seu parceiro demente.
(Entre a dama e o cavalo,
corre um rio de afogados).
De sua cama, ainda quente,
um bafo de nicotina.
Vem um cheiro de latrina
da cela defronte à sua.
Na rua do Padre Inglês
um louco fala francês
com acentos de Baudelaire...
(O flamboyant encarnado
se mistura ao espetáculo
da esquizofrênica rua).
O bispo toma o cavalo
das mãos da dama de preto.
(São cinco horas da tarde:
as luzes se apagam cedo.)
Batente do meio-fio:
vem vindo a sombra da noiva,
sozinha, morta de medo.
(O louco avista das grades
as andorinhas azuis
que voam feito morcegos.)
Na rua do Padre Inglês,
um cheiro de gasolina.
{O louco engendra seu mate
contra a sombra na vidraça.}
São cinco em ponto da tarde
(cinco de Ignacio Mejías,
pensa o louco em sua cela)
— dos girassóis de Van Gogh
à solidão amarela...
O cavalo solta as crinas,
a noiva voa na rua
e nas vozes de um menino
acordes de um violino.
O louco sabe que o tempo
de dormir já vem chegando...
(Corujas soltas na cela
bicam as flores de papel
e uma boneca de pano).
Corre, corre, vem depressa,
Que a noite já vem chegando!
Na rua do Padre Inglês
um louco joga xadrez...
752
Everardo Norões
Café
Desencarno arábias
de uma xícara morna
de café.
E um fio negro
me assedia a boca.
(Através da janela
o galho de pitanga
ostenta seu adorno
encarnado).
Viajo
pelo negror do pó:
Dar-El-Salam,
Bombaim,
Áden
(sem Nizan, sem Rimbaud):
as colinas ocres,
a poeira dos dias.
De onde vem o grão
dessa saudade?
Desentranho arábias
dessa xícara fria.
Enquanto aguardo o dia
que não chega.
Desacordo e sorvo
a sombra morna
do que sou
na borra
do café.
de uma xícara morna
de café.
E um fio negro
me assedia a boca.
(Através da janela
o galho de pitanga
ostenta seu adorno
encarnado).
Viajo
pelo negror do pó:
Dar-El-Salam,
Bombaim,
Áden
(sem Nizan, sem Rimbaud):
as colinas ocres,
a poeira dos dias.
De onde vem o grão
dessa saudade?
Desentranho arábias
dessa xícara fria.
Enquanto aguardo o dia
que não chega.
Desacordo e sorvo
a sombra morna
do que sou
na borra
do café.
651
Everardo Norões
fractais
Pelo mergulho
das sombras,
calculo
o itinerário da luz.
Meço
os contornos de nossas ruínas
na matemática particular
dos desesperos.
Abro a janela
da página do sonho:
soletro, devagar, o Aywu rapitá:
o ser do ser da palavra,
(flor pronunciada
entre as estrelas).
A noite
desaba sobre as telhas
na explosão de um meteoro.
Conto estilhaços,
recomponho parábolas:
um mínimo do que sou
lembra as fronteiras
do Universo.
das sombras,
calculo
o itinerário da luz.
Meço
os contornos de nossas ruínas
na matemática particular
dos desesperos.
Abro a janela
da página do sonho:
soletro, devagar, o Aywu rapitá:
o ser do ser da palavra,
(flor pronunciada
entre as estrelas).
A noite
desaba sobre as telhas
na explosão de um meteoro.
Conto estilhaços,
recomponho parábolas:
um mínimo do que sou
lembra as fronteiras
do Universo.
665
José Paulo Paes
L’AFFAIRE SARDINHA
O bispo ensinou ao bugre
Que pão não é pão, mas Deus
Presente em eucaristia
E como um dia faltasse
Pão ao bugre, ele comeu
O bispo, eucaristicamente
Que pão não é pão, mas Deus
Presente em eucaristia
E como um dia faltasse
Pão ao bugre, ele comeu
O bispo, eucaristicamente
700
José Paulo Paes
L’AFFAIRE SARDINHA
O bispo ensinou ao bugre
Que pão não é pão, mas Deus
Presente em eucaristia
E como um dia faltasse
Pão ao bugre, ele comeu
O bispo, eucaristicamente
Que pão não é pão, mas Deus
Presente em eucaristia
E como um dia faltasse
Pão ao bugre, ele comeu
O bispo, eucaristicamente
700
José Paulo Paes
L’AFFAIRE SARDINHA
O bispo ensinou ao bugre
Que pão não é pão, mas Deus
Presente em eucaristia
E como um dia faltasse
Pão ao bugre, ele comeu
O bispo, eucaristicamente
Que pão não é pão, mas Deus
Presente em eucaristia
E como um dia faltasse
Pão ao bugre, ele comeu
O bispo, eucaristicamente
700
Salgado Maranhão
ALQUIMIA
Para T.T.
Minha África está repleta
em mim. E é dela que acordas
minhas transparências; e é
dela que alago as tuas vinhas
e os teus mistérios.
Tuas minhas Áfricas são meu refúgio
desesperado; donde serei
teu posseiro de reentrâncias; teu
imperador de afetos.
E é assim que quebrarei
tuas ânforas de mel
para doar teu necta ao vento,
como quem parte um cristal
para torná-lo em ouro.
Minha África está repleta
em mim. E é dela que acordas
minhas transparências; e é
dela que alago as tuas vinhas
e os teus mistérios.
Tuas minhas Áfricas são meu refúgio
desesperado; donde serei
teu posseiro de reentrâncias; teu
imperador de afetos.
E é assim que quebrarei
tuas ânforas de mel
para doar teu necta ao vento,
como quem parte um cristal
para torná-lo em ouro.
822
João Filho
BALANÇA
Para Alana Freitas El Fahl
y todo lo que tuvo
que suceder para que tú nacieras
Miguel d’Ors
Uma pessoa é sempre mais pesada
do que indica a balança
ao sair de casa desloca
todos os seus dias e infâncias
leva mundos imensos de livros e esquecimentos
carrega países desconhecidos
e todos os tempos
não sabe os universos de mortos anônimos
que arrasta nos pés
nem desconfia da multidão de dramas
que a cruza de viés
não se dá conta dos milhões de manhãs
que a fazem sair
das línguas inumeráveis
que puderam dizer – aqui
a pré-história de gestos que a mantêm a salvo
para o acerto do fogo, do fruto
– quanto estrago!
uma pessoa é sempre mais do que leva
e menos do que isso
esse peso
é parte do seu compromisso
y todo lo que tuvo
que suceder para que tú nacieras
Miguel d’Ors
Uma pessoa é sempre mais pesada
do que indica a balança
ao sair de casa desloca
todos os seus dias e infâncias
leva mundos imensos de livros e esquecimentos
carrega países desconhecidos
e todos os tempos
não sabe os universos de mortos anônimos
que arrasta nos pés
nem desconfia da multidão de dramas
que a cruza de viés
não se dá conta dos milhões de manhãs
que a fazem sair
das línguas inumeráveis
que puderam dizer – aqui
a pré-história de gestos que a mantêm a salvo
para o acerto do fogo, do fruto
– quanto estrago!
uma pessoa é sempre mais do que leva
e menos do que isso
esse peso
é parte do seu compromisso
625
João Filho
MEDIDA
e falho, e falho sempre, dom sem fim,
faço da falha a dança que não sei,
o meu lirismo é falhar assim
como quem perde tudo de uma vez
e perco, e perco sempre sem fingir,
na falta me desdobro no que errei,
aos que amo dou motivos de motim,
náufrago nu entrego a minha tez
e entrego, entrego sempre sem medir
o que não ganho, pois não ganharei,
faço da perda um cofre de marfim
para guardar as falhas como um rei
faço da falha a dança que não sei,
o meu lirismo é falhar assim
como quem perde tudo de uma vez
e perco, e perco sempre sem fingir,
na falta me desdobro no que errei,
aos que amo dou motivos de motim,
náufrago nu entrego a minha tez
e entrego, entrego sempre sem medir
o que não ganho, pois não ganharei,
faço da perda um cofre de marfim
para guardar as falhas como um rei
808
José Paulo Paes
À TINTA DE ESCREVER
Ao teu azul fidalgo mortifica
registrar a notícia, escrever
o bilhete, assinar a promissória
esses filhos do momento. Sonhos
registrar a notícia, escrever
o bilhete, assinar a promissória
esses filhos do momento. Sonhos
651
Grazia Deledda
Nós somos sardos
Somos espanhóis, africanos, fenícios, cartagineses,
romanos, árabes, pisanos, bizantinos, piemonteses.
Somos as giestas de ouro amarelo que pendem nas trilhas rochosas
como grandes lâmpadas acesas.
Somos a solidão selvagem, o silêncio imenso e profundo
o esplendor do céu, a branca flor do cisto.
Somos o domínio ininterrupto do lentisco,
das ondas que escorrem os granitos antigos, da rosa selvagem,
do vento, da imensidão do mar.
Somos uma terra antiga de longos silêncios,
de horizontes vastos e puros, de plantas sombrias,
de montanhas queimadas pelo sol e pela vendetta.
Nós somos sardos.
romanos, árabes, pisanos, bizantinos, piemonteses.
Somos as giestas de ouro amarelo que pendem nas trilhas rochosas
como grandes lâmpadas acesas.
Somos a solidão selvagem, o silêncio imenso e profundo
o esplendor do céu, a branca flor do cisto.
Somos o domínio ininterrupto do lentisco,
das ondas que escorrem os granitos antigos, da rosa selvagem,
do vento, da imensidão do mar.
Somos uma terra antiga de longos silêncios,
de horizontes vastos e puros, de plantas sombrias,
de montanhas queimadas pelo sol e pela vendetta.
Nós somos sardos.
716
Grazia Deledda
Nós somos sardos
Somos espanhóis, africanos, fenícios, cartagineses,
romanos, árabes, pisanos, bizantinos, piemonteses.
Somos as giestas de ouro amarelo que pendem nas trilhas rochosas
como grandes lâmpadas acesas.
Somos a solidão selvagem, o silêncio imenso e profundo
o esplendor do céu, a branca flor do cisto.
Somos o domínio ininterrupto do lentisco,
das ondas que escorrem os granitos antigos, da rosa selvagem,
do vento, da imensidão do mar.
Somos uma terra antiga de longos silêncios,
de horizontes vastos e puros, de plantas sombrias,
de montanhas queimadas pelo sol e pela vendetta.
Nós somos sardos.
romanos, árabes, pisanos, bizantinos, piemonteses.
Somos as giestas de ouro amarelo que pendem nas trilhas rochosas
como grandes lâmpadas acesas.
Somos a solidão selvagem, o silêncio imenso e profundo
o esplendor do céu, a branca flor do cisto.
Somos o domínio ininterrupto do lentisco,
das ondas que escorrem os granitos antigos, da rosa selvagem,
do vento, da imensidão do mar.
Somos uma terra antiga de longos silêncios,
de horizontes vastos e puros, de plantas sombrias,
de montanhas queimadas pelo sol e pela vendetta.
Nós somos sardos.
716
José Paulo Paes
Paraíso
Se esta rua fosse minha,
eu mandava ladrilhar,
não para automóveis matar gente,
mas para criança brincar.
Se esta mata fosse minha,
eu não deixava derrubar.
Se cortarem todas as árvores,
onde é que os pássaros vão morar?
Se este rio fosse meu,
eu não deixava poluir.
Joguem esgotos noutra parte,
que os peixes moram aqui.
Se este mundo fosse meu,
Eu fazia tantas mudanças
Que ele seria um paraíso
De bichos, plantas e crianças.
eu mandava ladrilhar,
não para automóveis matar gente,
mas para criança brincar.
Se esta mata fosse minha,
eu não deixava derrubar.
Se cortarem todas as árvores,
onde é que os pássaros vão morar?
Se este rio fosse meu,
eu não deixava poluir.
Joguem esgotos noutra parte,
que os peixes moram aqui.
Se este mundo fosse meu,
Eu fazia tantas mudanças
Que ele seria um paraíso
De bichos, plantas e crianças.
2 292