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Poemas neste tema

Sociedade e Mundo

Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Cavalo 7

dois velhos atrás de mim estão conversando.
"olhe o cavalo 7. dá pule de 35.
como é que pode, pule de 35?"
"é, para mim também parece bom", diz
o outro velho.
"vamos apostar nele."
eles se levantam para fazer as apostas.
já apostei 40 na ponta
no segundo favorito.
ganho a cada quatro de cinco dias na
pista de corridas. não parece ser
um problema.
abro meu jornal, leio o caderno de
finanças, fico deprimido, mudo para a primeira
página procurando roubo, estupro, assassinato.
os dois velhos voltam.
"olha, o cavalo 7 agora dá pule de 40",
diz um deles.
"não acredito!", diz o
outro.
os cavalos vão para a partida, a
bandeira se ergue, eles
saem.
é uma milha e 1/16 avos, eles
dão a primeira volta, correm pela reta,
dão a última volta, seguem pela reta final,
alcançam a chegada.
o 20 favorito ganha por uma cabeça, paga
$7,80. eu ganho $116,00.
há silêncio atrás de mim.
então um dos velhos diz, "o cavalo 7
não correu nada".
"nada", diz o outro. "não consigo entender
isso."
"vai ver o jóquei nem tentou", diz
seu amigo.
"deve ser isso", diz
o outro.
como a maioria dos outros do mundo
eles acreditam que o fracasso
é causado por algum fator
para além deles.
observo os dois velhos enquanto eles
se debruçam sobre o boletim das corridas
para fazer uma seleção no
próximo páreo.
"ih, olha essa!", diz um deles.
"tem Red Rabbit com 10 para 1
na lista. ele parece melhor
que o favorito."
"vamos apostar nele", diz o outro
velho.
eles deixam seus lugares e se movem delicadamente até o
guichê de apostas.
641
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Cavalo 7

dois velhos atrás de mim estão conversando.
"olhe o cavalo 7. dá pule de 35.
como é que pode, pule de 35?"
"é, para mim também parece bom", diz
o outro velho.
"vamos apostar nele."
eles se levantam para fazer as apostas.
já apostei 40 na ponta
no segundo favorito.
ganho a cada quatro de cinco dias na
pista de corridas. não parece ser
um problema.
abro meu jornal, leio o caderno de
finanças, fico deprimido, mudo para a primeira
página procurando roubo, estupro, assassinato.
os dois velhos voltam.
"olha, o cavalo 7 agora dá pule de 40",
diz um deles.
"não acredito!", diz o
outro.
os cavalos vão para a partida, a
bandeira se ergue, eles
saem.
é uma milha e 1/16 avos, eles
dão a primeira volta, correm pela reta,
dão a última volta, seguem pela reta final,
alcançam a chegada.
o 20 favorito ganha por uma cabeça, paga
$7,80. eu ganho $116,00.
há silêncio atrás de mim.
então um dos velhos diz, "o cavalo 7
não correu nada".
"nada", diz o outro. "não consigo entender
isso."
"vai ver o jóquei nem tentou", diz
seu amigo.
"deve ser isso", diz
o outro.
como a maioria dos outros do mundo
eles acreditam que o fracasso
é causado por algum fator
para além deles.
observo os dois velhos enquanto eles
se debruçam sobre o boletim das corridas
para fazer uma seleção no
próximo páreo.
"ih, olha essa!", diz um deles.
"tem Red Rabbit com 10 para 1
na lista. ele parece melhor
que o favorito."
"vamos apostar nele", diz o outro
velho.
eles deixam seus lugares e se movem delicadamente até o
guichê de apostas.
641
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Cavalo 7

dois velhos atrás de mim estão conversando.
"olhe o cavalo 7. dá pule de 35.
como é que pode, pule de 35?"
"é, para mim também parece bom", diz
o outro velho.
"vamos apostar nele."
eles se levantam para fazer as apostas.
já apostei 40 na ponta
no segundo favorito.
ganho a cada quatro de cinco dias na
pista de corridas. não parece ser
um problema.
abro meu jornal, leio o caderno de
finanças, fico deprimido, mudo para a primeira
página procurando roubo, estupro, assassinato.
os dois velhos voltam.
"olha, o cavalo 7 agora dá pule de 40",
diz um deles.
"não acredito!", diz o
outro.
os cavalos vão para a partida, a
bandeira se ergue, eles
saem.
é uma milha e 1/16 avos, eles
dão a primeira volta, correm pela reta,
dão a última volta, seguem pela reta final,
alcançam a chegada.
o 20 favorito ganha por uma cabeça, paga
$7,80. eu ganho $116,00.
há silêncio atrás de mim.
então um dos velhos diz, "o cavalo 7
não correu nada".
"nada", diz o outro. "não consigo entender
isso."
"vai ver o jóquei nem tentou", diz
seu amigo.
"deve ser isso", diz
o outro.
como a maioria dos outros do mundo
eles acreditam que o fracasso
é causado por algum fator
para além deles.
observo os dois velhos enquanto eles
se debruçam sobre o boletim das corridas
para fazer uma seleção no
próximo páreo.
"ih, olha essa!", diz um deles.
"tem Red Rabbit com 10 para 1
na lista. ele parece melhor
que o favorito."
"vamos apostar nele", diz o outro
velho.
eles deixam seus lugares e se movem delicadamente até o
guichê de apostas.
641
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Homem Cortando A Grama do Outro Lado Da Rua

eu o vejo seguindo em frente com sua máquina.
ah, você é estúpido demais para ser cortado como grama,
você é estúpido demais para qualquer coisa o violar -
as garotas não usarão suas lâminas em você
elas não querem
que suas lâminas afiadas sejam desperdiçadas em você,
você está interessado apenas em partidas de beisebol e
filmes de faroeste e lâminas cortadoras de grama.
você não pode ficar com uma só das minhas lâminas?
aqui está uma bem velha - enfiada em mim em 1955,
agora está morta, não o machucará muito.
não posso lhe dar esta última -
eu ainda não posso arrancá-la,
mas aqui está esta outra de 1964, que tal arrancar
esta de 1964 de mim?
homem cortando a grama do outro lado da rua
você não tem uma lâmina enfiada em suas entranhas
onde o amor o largou?
homem cortando a grama do outro lado da rua
você não tem uma lâmina enfiada bem fundo em seu coração
onde o amor o largou?
homem cortando a grama do outro lado da rua
você não vê as garotas passeando pelas calçadas agora
com lâminas em suas bolsas?
você não vê seus lindos olhos e vestidos e
cabelos?
você não vê suas lindas bundas e joelhos e
tornozelos?
homem cortando a grama do outro lado da rua
isso é tudo o que você consegue enxergar - essas lâminas de cortar
grama?
isso é tudo o que você consegue ouvir - o ronco do cortador de grama?
eu posso enxergar o caminho todo até a Itália
o Japão
as Honduras
eu posso ver as garotinhas afiando suas lâminas
pela manhã e ao meio-dia e à noite, e
especialmente à noite, ah,
especialmente à noite.
1 155
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Aquela Garota Linda Que Entrou Para Trocar A Roupa De Cama

eu a conheci quando ela entrou para
trocar a roupa de cama.
St. Louis.
ela me disse: você está doente.
e eu disse:
sim, estou doente.
e ela disse:
você precisar beber algo.
eu vim para trocar a roupa de cama
mas você precisa beber alguma coisa
dê-me algum dinheiro e
eu volto com alguma coisa para
beber.
então
eu dei a ela o dinheiro
sem conhecê-la
mas ela voltou com algo para
beber.
ela sentou em uma cadeira e eu
fiquei na cama e nós bebemos
silenciosamente.
e então começamos a conversar
e então rimos um pouco
e eu comecei a me sentir melhor e ela
a parecer mais bonita
e eu disse:
eu não achei que você fosse voltar
e ela disse:
diabo, eu trabalho aqui.
e eu disse:
ah, por isso você
voltou.
e ela disse:
não, não foi por isso que voltei.
e eu
gostei disso.
mal consigo me lembrar de como aconteceu
mas logo estávamos os dois na cama
fumando cigarros e tomando
cerveja
naqueles canecões pesados
de meio litro.
ninguém parecia estar com pressa.
e aí começou
a funcionar. não sei como funcionou
mas foi legal. nós
trepamos.
e ela se levantou e fechou as janelas para o sul
e disse:
é isso que o está matando
essa fumaceira subindo da avenida
isso
e a bebida. pelo menos dá para afastá-lo
da fumaceira.
nós rimos e então ela voltou para a cama e nós
conversamos mais um pouco e fumamos e ela
saiu da cama e disse
que precisava ir embora -
o namorado dela vivia no andar de baixo com ela,
e eu disse adeus
e ela foi embora e
então eu olhei para a cadeira
e vi os lençóis limpos e brancos.
ela havia esquecido de trocar a roupa de cama
então eu me levantei e
troquei a roupa de cama por ela.
1 056
Charles Bukowski

Charles Bukowski

O Anão com um Soco

isto foi muitos anos depois
e ainda não consigo entender direito
mas foi em Nova York
e Nova York tem suas próprias leis e
de qualquer modo eu estava à toa em um daqueles
lugares
com muitas mesas redondas
com seus cavaleiros fortes e terríveis;
eu não me sinto tão bem assim, como de costume,
nem forte nem terrível,
apenas podre,
e eu estou sentado com alguma mulher
com alguma espécie de capuz sobre a cabeça,
ela é meio maluca
mas isso não importa.
ela tem um nome, Fay,
eu acho,
e ficamos bebendo, indo de um lugar a
outro, e entramos lá,
e parecia terrivelmente
animado
pois havia um anão com cerca de um
metro de altura
e o anão estava circulando
bêbado
e ele parava em uma mesa
e olhava para um homem
e dizia,
"bem, o que VOCÊ tem para dizer?"
e depois o anão lhe acertava uma na boca
só que o anão tinha mãos muito boas e
um soco infernal
então todo mundo dava risada e o anão
seguia para o bar
para mais um drinque.
"mantenha-o longe de mim, Fay!", eu lhe disse.
"ah? o quê? quem?"
"mantenha-o longe de mim!"
"quê? o que é? longe?"
o anão mandou a mão em outro sujeito
e todo mundo riu,
até eu ri. o anão sabia socar.
ele tinha muita
prática.
ele dançou no bar
estilo pé de valsa
então ele reparou em um marinheiro
muito loiro e jovem e
amedrontado.
o garoto mijava nas calças
e sorria para O
anão.
o anão lhe mandou a mão
para valer;
seu sorriso seguinte foi um tanto
sangrento.
então o anão deu-lhe outra no queixo
jogando o marinheiro para trás
sobre sua cadeira, duro
e teso.
nocaute! todos saudaram
o campeão!
aí o anão me
viu. o homem da mesa
ao fundo.
"mantenha-o longe de mim, Fay!"
eu disse.
"vamo tomá outro drinque Pp? ela disse.
(estava com um copo cheio na frente dela)
ele veio para cima de mim
em todo o um metro da sua
glória.
"muito bem, o que VOCÊ tem para dizer?"
eu não respondi. eu não tinha nada para dizer
que ele pudesse entender.
"nada, hein?"
eu fiz que sim. ele veio. eu senti minha cadeira rodar, depois
parar de novo sobre seus pés. jorros de luz vermelha e amarela e
azul vieram em seguida, depois risadas.
sentado ali
eu revidei.
seu pobre um metro deslizou pelo chão como um
boneco de trapos
e então estavam em cima de mim
parecia uma dúzia de homens
(mas podiam ter sido 3 ou 4)
e tomei mais algumas
porradas.
então fui jogado para fora
eu me levantei
e achei um lenço
e tentei parar
o pior do sangue
e Fay estava lá,
"seu covarde, você bateu naquele
homenzinho!?"
eu desci pela rua
mas ela ficou lá junto comigo
e fomos ao bar mais próximo
e eu olhei ao redor
e, vendo que todo mundo tinha mais de 1 metro e 30,
mandei vir mais 2
drinques.
1 036
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Salty Dogs

fui cedo à pista para estudar as chances e aí
vem esse homem chegando e
limpando o pó dos bancos. ele prossegue em seu trabalho, tirando o pó,
muito
provavelmente contente por ter seu trabalho simples.
eu sou daqueles que não veem muita diferença
entre um cientista atômico e um homem que limpa os assentos
exceto pela sorte na jogada -
pais com dinheiro suficiente para dirigi-lo com segurança para uma
vida mais generosa.
"como é que vai?", perguntei-lhe enquanto ele ia tirando o pó.
"tudo bem, e como vai você?", ele perguntou.
"eu até que acerto com os cavalos. é com as mulheres que eu perco."
ele riu. "é, um homem tem duas ou três experiências ruins,
isso realmente o derruba."
"eu não ligo para duas ou três," eu lhe disse, "eu ligo para
11 ou 12."
"cara, você deve conhecer muita coisa nessa altura. qual você prefere
para o
primeiro?"
eu lhe disse que Salty Dog estava dando 4 para 1 e deveria chegar
em primeiro ou segundo. (45 minutos depois ele o fez.) mas ainda não
eram 45
minutos depois. o homem continuou a tirar o pó e eu pensei em todos os
meus empregos podres e como eu estava contente por tê-los. por um
tempo. depois era questão de largar ou ser demitido.
ambos me faziam sentir bem.
é quando você vive com uma mulher por mais de dois
anos que você sabe o que poderá acontecer só que você não sabe
exatamente por quê. não está no horóscopo. está no desempenho
passado,
não no horóscopo.
meu amigo, limpando o pó dos assentos, ele também não sabia
exatamente por quê.
saí para tomar um café. a garota magra atrás do
balcão era uma morena com uma pequena flor azul no cabelo,
belos olhos, belo sorriso. paguei meu café.
"boa sorte", ela disse.
"para você também", eu disse.
levei o café para meu assento, o vento vinha do oeste,
tomei um gole e esperei pela ação, pensando em
muitas coisas, coisas demais. a cena dissolveu-se em grama e
árvores e a pista suja de corridas, e me lembrei de cortinas sujas em
quartos sujos de pensão esvoaçando para a frente e para trás em um
vento leve,
e pensei em tropas sujas saqueando algum vilarejo novo,
e em minhas antigas namoradas infelizes novamente com seus novos
homens.
eu me sentei e tomei meu café e esperei pelo primeiro
páreo.
588
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Salty Dogs

fui cedo à pista para estudar as chances e aí
vem esse homem chegando e
limpando o pó dos bancos. ele prossegue em seu trabalho, tirando o pó,
muito
provavelmente contente por ter seu trabalho simples.
eu sou daqueles que não veem muita diferença
entre um cientista atômico e um homem que limpa os assentos
exceto pela sorte na jogada -
pais com dinheiro suficiente para dirigi-lo com segurança para uma
vida mais generosa.
"como é que vai?", perguntei-lhe enquanto ele ia tirando o pó.
"tudo bem, e como vai você?", ele perguntou.
"eu até que acerto com os cavalos. é com as mulheres que eu perco."
ele riu. "é, um homem tem duas ou três experiências ruins,
isso realmente o derruba."
"eu não ligo para duas ou três," eu lhe disse, "eu ligo para
11 ou 12."
"cara, você deve conhecer muita coisa nessa altura. qual você prefere
para o
primeiro?"
eu lhe disse que Salty Dog estava dando 4 para 1 e deveria chegar
em primeiro ou segundo. (45 minutos depois ele o fez.) mas ainda não
eram 45
minutos depois. o homem continuou a tirar o pó e eu pensei em todos os
meus empregos podres e como eu estava contente por tê-los. por um
tempo. depois era questão de largar ou ser demitido.
ambos me faziam sentir bem.
é quando você vive com uma mulher por mais de dois
anos que você sabe o que poderá acontecer só que você não sabe
exatamente por quê. não está no horóscopo. está no desempenho
passado,
não no horóscopo.
meu amigo, limpando o pó dos assentos, ele também não sabia
exatamente por quê.
saí para tomar um café. a garota magra atrás do
balcão era uma morena com uma pequena flor azul no cabelo,
belos olhos, belo sorriso. paguei meu café.
"boa sorte", ela disse.
"para você também", eu disse.
levei o café para meu assento, o vento vinha do oeste,
tomei um gole e esperei pela ação, pensando em
muitas coisas, coisas demais. a cena dissolveu-se em grama e
árvores e a pista suja de corridas, e me lembrei de cortinas sujas em
quartos sujos de pensão esvoaçando para a frente e para trás em um
vento leve,
e pensei em tropas sujas saqueando algum vilarejo novo,
e em minhas antigas namoradas infelizes novamente com seus novos
homens.
eu me sentei e tomei meu café e esperei pelo primeiro
páreo.
588
Charles Bukowski

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Salty Dogs

fui cedo à pista para estudar as chances e aí
vem esse homem chegando e
limpando o pó dos bancos. ele prossegue em seu trabalho, tirando o pó,
muito
provavelmente contente por ter seu trabalho simples.
eu sou daqueles que não veem muita diferença
entre um cientista atômico e um homem que limpa os assentos
exceto pela sorte na jogada -
pais com dinheiro suficiente para dirigi-lo com segurança para uma
vida mais generosa.
"como é que vai?", perguntei-lhe enquanto ele ia tirando o pó.
"tudo bem, e como vai você?", ele perguntou.
"eu até que acerto com os cavalos. é com as mulheres que eu perco."
ele riu. "é, um homem tem duas ou três experiências ruins,
isso realmente o derruba."
"eu não ligo para duas ou três," eu lhe disse, "eu ligo para
11 ou 12."
"cara, você deve conhecer muita coisa nessa altura. qual você prefere
para o
primeiro?"
eu lhe disse que Salty Dog estava dando 4 para 1 e deveria chegar
em primeiro ou segundo. (45 minutos depois ele o fez.) mas ainda não
eram 45
minutos depois. o homem continuou a tirar o pó e eu pensei em todos os
meus empregos podres e como eu estava contente por tê-los. por um
tempo. depois era questão de largar ou ser demitido.
ambos me faziam sentir bem.
é quando você vive com uma mulher por mais de dois
anos que você sabe o que poderá acontecer só que você não sabe
exatamente por quê. não está no horóscopo. está no desempenho
passado,
não no horóscopo.
meu amigo, limpando o pó dos assentos, ele também não sabia
exatamente por quê.
saí para tomar um café. a garota magra atrás do
balcão era uma morena com uma pequena flor azul no cabelo,
belos olhos, belo sorriso. paguei meu café.
"boa sorte", ela disse.
"para você também", eu disse.
levei o café para meu assento, o vento vinha do oeste,
tomei um gole e esperei pela ação, pensando em
muitas coisas, coisas demais. a cena dissolveu-se em grama e
árvores e a pista suja de corridas, e me lembrei de cortinas sujas em
quartos sujos de pensão esvoaçando para a frente e para trás em um
vento leve,
e pensei em tropas sujas saqueando algum vilarejo novo,
e em minhas antigas namoradas infelizes novamente com seus novos
homens.
eu me sentei e tomei meu café e esperei pelo primeiro
páreo.
588
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Salty Dogs

fui cedo à pista para estudar as chances e aí
vem esse homem chegando e
limpando o pó dos bancos. ele prossegue em seu trabalho, tirando o pó,
muito
provavelmente contente por ter seu trabalho simples.
eu sou daqueles que não veem muita diferença
entre um cientista atômico e um homem que limpa os assentos
exceto pela sorte na jogada -
pais com dinheiro suficiente para dirigi-lo com segurança para uma
vida mais generosa.
"como é que vai?", perguntei-lhe enquanto ele ia tirando o pó.
"tudo bem, e como vai você?", ele perguntou.
"eu até que acerto com os cavalos. é com as mulheres que eu perco."
ele riu. "é, um homem tem duas ou três experiências ruins,
isso realmente o derruba."
"eu não ligo para duas ou três," eu lhe disse, "eu ligo para
11 ou 12."
"cara, você deve conhecer muita coisa nessa altura. qual você prefere
para o
primeiro?"
eu lhe disse que Salty Dog estava dando 4 para 1 e deveria chegar
em primeiro ou segundo. (45 minutos depois ele o fez.) mas ainda não
eram 45
minutos depois. o homem continuou a tirar o pó e eu pensei em todos os
meus empregos podres e como eu estava contente por tê-los. por um
tempo. depois era questão de largar ou ser demitido.
ambos me faziam sentir bem.
é quando você vive com uma mulher por mais de dois
anos que você sabe o que poderá acontecer só que você não sabe
exatamente por quê. não está no horóscopo. está no desempenho
passado,
não no horóscopo.
meu amigo, limpando o pó dos assentos, ele também não sabia
exatamente por quê.
saí para tomar um café. a garota magra atrás do
balcão era uma morena com uma pequena flor azul no cabelo,
belos olhos, belo sorriso. paguei meu café.
"boa sorte", ela disse.
"para você também", eu disse.
levei o café para meu assento, o vento vinha do oeste,
tomei um gole e esperei pela ação, pensando em
muitas coisas, coisas demais. a cena dissolveu-se em grama e
árvores e a pista suja de corridas, e me lembrei de cortinas sujas em
quartos sujos de pensão esvoaçando para a frente e para trás em um
vento leve,
e pensei em tropas sujas saqueando algum vilarejo novo,
e em minhas antigas namoradas infelizes novamente com seus novos
homens.
eu me sentei e tomei meu café e esperei pelo primeiro
páreo.
588
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Pode Ir Dando Adeus a Sua Bunda

eu finalmente o conheci. ele estava sentado em um velho roupão
e reclamou por 5 horas.
"olha," ele disse, "não confie em Krause,
Krause irá roubá-lo. ele me deve 10.000 dólares
e não tem jeito de eu arrancá-los
dele. um verdadeiro safado."
"Senhor", eu disse, "quando escreveu aquele primeiro romance,
tinha tanto humor, a verdade sempre é tão engraçada,
sabe, o jeito como as pessoas agem, como coisas mecânicas cegas,
matando sem razão, maravilhoso como conseguiu por tudo aquilo
no papel."
uma velha senhora entrou e serviu-lhe uma
xícara de chá. "eles arrebentaram minha motocicleta, roubaram meus
manuscritos,
me limparam. eles teriam me matado mas eu não estava
aqui. eles me chamaram de fascista, afirmaram que eu havia vendido os
planos
da Linha Maginot aos Krauts. agora, onde diabos eu poderia ter
conseguido os planos da Linha
Maginot?"
ele serviu-se de chá. ergueu a xícara. estava quente demais
ou algo assim. ele cuspiu tudo no tapete, um pouco em
meus sapatos e calças.
"Senhor", eu perguntei, "aquele primeiro romance, o senhor realmente
comeu sua própria
carne quando era um jovem escritor? estava tão
faminto assim? meu deus, que narrativa aquela, eu nunca
a esquecerei!"
"Martha!", ele chamou. "Martha!"
a velha senhora entrou.
"você esqueceu o limão e o açúcar, sua bruxa velha!"
a velha senhora saiu correndo
para pegar o limão e o açúcar.
"o governo reclama que eu lhe devo 70.000 dólares! eles não incomodam
Krause, o filho
da puta roda por aí em um Cadillac e tem uma propriedade
de cinco hectares. nunca confie em Krause. ele é um sanguessuga. ele
sugou
os corpos e talento de pelo menos 3 dúzias de escritores. ele é como uma
aranha
gigante, uma tarântula!
"Krause nunca me pediu nada..."
"se ele pedir, você pode ir dando adeus
a sua bunda!"
Martha entrou correndo com o limão e o açúcar.
"sua maldita puta sem vergonha! eu deveria chicotear sua bunda!"
"Senhor", eu disse, "o senhor é visto como
um dos mais poderosos escritores desde 1900."
"não confie em Krause! um sanguessuga!?"
ele se queixou por 5 horas. e eu ouvi. então sua cabeça caiu para trás,
sobre o encosto da sua cadeira de balanço, e eu vi aquele
famoso perfil de águia. então ele começou
a roncar.
ele era apenas um velho em um velho
roupão.
eu me levantei. Martha entrou.
"estou contente por ter tido uma chance de encontrá-lo",
disse a ela.
"tento lembrar-me de que ele já foi um grande escritor",
ela me disse.
"ele ainda tem um certo senso de humor",
disse a ela.
"eu não acho", ela disse,
"veja, eu sou
a mulher
dele."
"boa noite", eu
disse.
"boa noite", ela
respondeu.
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