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Poemas neste tema

Sociedade e Mundo

Barbara Guest

Barbara Guest

Perdendo pessoas

para Ira Morris

Os dias em que você tenta recompor
as ideias são dias perdidos
porém simples como sanduíche
de três camadas a mordida
isto é fácil

Perda
"pura" perda
você comparece à sua reconstrução
na qual você é três pessoas e também
um sanduíche

Perda
não ouvir uma voz
outra vez como trenodia

Perda
você começa a rimá-la com paredes
ou graxa de sapato

Perda
da sua presença com um trote
e matizes

a superfície de pessoas
em restaurantes comendo sanduíches
elas sabem que há um carro estacionado lá fora

Ó imagens viscosas e audazes com o apertão
de um garfo dentro de suas coxas que se deleitam
de atmosfera e clima real

missões
por sobre as curvas contrárias bem como a água
que passa este dia
por debaixo da ponte:

você resolveu
a pedra
não mais sustenta a ponte
bom. Ira morreu.

:

Losing people (in Moscow Mansions, 1973)

for Ira Morris

The days when you try to recover
your wits are lost days
yet simple as sandwich
of three layers the crunch
that’s easy

Loss
“pure” loss
you attend its reconstruction
where you are three persons also
a sandwich

Loss
not hearing a voice
again as threnody

Loss
you begin to rhyme it with walls
or shoeshine

Loss
of your presence with a gait
and hues

the surface of persons
in restaurants eating sandwiches
they know there is a car parked outside

O images viscous and daring with the squeeze
of a fork inside your thighs that are delighted
with atmosphere and real weather

missions
over the backward curves rather like water
that moves this day
under the bridge:

you decided
the stone
no longer supports the bridge
well. Ira died.

775
Isabel Câmara

Isabel Câmara

Cartilha

VOGAIS

A E I O U

a e i o u

Consoantes

B C D F G H J L M N P Q R S T V X Z

b c d f g h j l m n p q r s t v x z

A grande é Maiúsculo

A é vogal maiúscula

A maiúsculo se escreve após um ponto final (.) uma interrogação (?) uma afirmação (!)

E os nomes das pessoas devem começar com letra maiúscula.
Aquela menina é tua irmã?
Não. Aquela menina é minha amiga.
Eu sou a amiga da amiga.
Eu sou o amigo do amigo.
Eu sou amiga das amigas e dos amigos.
Aprendo a escrever.
Aprendo a perguntar: o que é ser Amigo?

Ia procurando a estrada. Era durante o dia.
Dia e meio já eram.
Era meio-dia e parecia mais.
Ia me escondendo, sol forte castiga.
Dia e meio é mais que meio dia.
Dia e meio são dois dias mais doze horas.
{Aqui existe erro. Você sabe dizer qual?}
Era manhã e eu ia só, sozinha pela estrada. Estrada longa.
Difícil. Outra pessoa apareceu.
Outros amigos vieram chegando.
Éramos amigos, pessoas, colegas caminhando pela longa estrada.
Uns brincavam, outros caminhavam sérios, pensativos,
até tristes. Seria fome? Seria medo?
Seria o Negrinho do Pastoreio no vento que embalava tanto silêncio?
A Escola já estava a meio caminho andado.
O outro caminho todos ainda havíamos de aprender.
Tem um aluno novo que é loiro. O outro é uma menina
bem pretinha de alumiar.
As duas crianças vão de braços dados.
Às vezes comem separadas.
O sol brinca no carrapincho de um e faz contraste com o
cabelo lourinho do outro. É bom de se olhar. Aprende-se
muito com o olhar.
Se a Escola ficasse mais perto das nossas casas, a gente
sentia menos fome, menos preguiça e até menos medo,
feito aquele menino do vento cujo vento era amigo do
Negrinho do Pastoreio.
A professora também mora longe.
Quando não vem de carroça, de charrete, tem coragem até
para os solavancos do carro de bois.
Por hoje é só.

Resposta:
Dia e meio são doze horas mais seis horas. São 12 + 6 = 18 horas.
18horas são as seis da tarde. Hora da Ave Maria.

Para escrever a gente pode começar assim:
Se esforçando na Caligrafia.
Ia me esquecendo de um relato:
B-b- de Belezura de belezura.
Beleza longamente. Sem hora.
Formosura. Sem usura. Sem avarícia ou indecência do olhar.
Beleza que dura, que permanece, guardadinha na gaveta
verde de alguma árvore da longa estrada.
Belezura é aprendizado de Liberdade. É a beleza da forma.
Por isso é complicado definir.
Eu vi duas amigas. Pareciam mais duas aves benzendo
a terra árida. Benedita saltava sobre brejos secos onde muitas
vezes se banhou.
Branca fitava os seixos, serena.
Branca a Benedita. Belezuras. Formosuras.
Um dia começou a chover.
Então a terra-mundo adormeceu feliz.


.
.
.
996
Isabel Câmara

Isabel Câmara

Cartilha

VOGAIS

A E I O U

a e i o u

Consoantes

B C D F G H J L M N P Q R S T V X Z

b c d f g h j l m n p q r s t v x z

A grande é Maiúsculo

A é vogal maiúscula

A maiúsculo se escreve após um ponto final (.) uma interrogação (?) uma afirmação (!)

E os nomes das pessoas devem começar com letra maiúscula.
Aquela menina é tua irmã?
Não. Aquela menina é minha amiga.
Eu sou a amiga da amiga.
Eu sou o amigo do amigo.
Eu sou amiga das amigas e dos amigos.
Aprendo a escrever.
Aprendo a perguntar: o que é ser Amigo?

Ia procurando a estrada. Era durante o dia.
Dia e meio já eram.
Era meio-dia e parecia mais.
Ia me escondendo, sol forte castiga.
Dia e meio é mais que meio dia.
Dia e meio são dois dias mais doze horas.
{Aqui existe erro. Você sabe dizer qual?}
Era manhã e eu ia só, sozinha pela estrada. Estrada longa.
Difícil. Outra pessoa apareceu.
Outros amigos vieram chegando.
Éramos amigos, pessoas, colegas caminhando pela longa estrada.
Uns brincavam, outros caminhavam sérios, pensativos,
até tristes. Seria fome? Seria medo?
Seria o Negrinho do Pastoreio no vento que embalava tanto silêncio?
A Escola já estava a meio caminho andado.
O outro caminho todos ainda havíamos de aprender.
Tem um aluno novo que é loiro. O outro é uma menina
bem pretinha de alumiar.
As duas crianças vão de braços dados.
Às vezes comem separadas.
O sol brinca no carrapincho de um e faz contraste com o
cabelo lourinho do outro. É bom de se olhar. Aprende-se
muito com o olhar.
Se a Escola ficasse mais perto das nossas casas, a gente
sentia menos fome, menos preguiça e até menos medo,
feito aquele menino do vento cujo vento era amigo do
Negrinho do Pastoreio.
A professora também mora longe.
Quando não vem de carroça, de charrete, tem coragem até
para os solavancos do carro de bois.
Por hoje é só.

Resposta:
Dia e meio são doze horas mais seis horas. São 12 + 6 = 18 horas.
18horas são as seis da tarde. Hora da Ave Maria.

Para escrever a gente pode começar assim:
Se esforçando na Caligrafia.
Ia me esquecendo de um relato:
B-b- de Belezura de belezura.
Beleza longamente. Sem hora.
Formosura. Sem usura. Sem avarícia ou indecência do olhar.
Beleza que dura, que permanece, guardadinha na gaveta
verde de alguma árvore da longa estrada.
Belezura é aprendizado de Liberdade. É a beleza da forma.
Por isso é complicado definir.
Eu vi duas amigas. Pareciam mais duas aves benzendo
a terra árida. Benedita saltava sobre brejos secos onde muitas
vezes se banhou.
Branca fitava os seixos, serena.
Branca a Benedita. Belezuras. Formosuras.
Um dia começou a chover.
Então a terra-mundo adormeceu feliz.


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996
Paulo Leminski

Paulo Leminski

Primeiras páginas

ergo sum, aliás, Ego sum Renatus Cartesius, cá perdido, aqui presente, neste labirinto de enganos deleitáveis, — vejo o mar, vejo a baía e vejo as naus. Vejo mais. Já lá vão anos III me destaquei de Europa e a gente civil, lá morituro. Isso de “barbarus — non intellegor ulli” — dos exercícios de exílio de Ovídio é comigo. Do parque do príncipe, a lentes de luneta, CONTEMPLO A CONSIDERAR O CAIS, O MAR, AS NUVENS, OS ENIGMAS E OS PRODÍGIOS DE BRASÍLIA. Desde verdes anos, via de regra, medito horizontal manhã cedo, só vindo à luz já sol meiodia. Estar, mister de deuses, na atual circunstância, presença no estanque dessa Vrijburg , gaza de mapas, taba rasa de humores, orto e zôo, oca de feras e casa de flores. Plantas sarcófagas e carnívoras atrapalham-se, um lugar ao sol e um tempo na sombra. Chacoalham, cintila a água gota a gota, efêmeros chocam enxames. Cocos fecham-se em copas, mamas ampliam: MAMÕES. O vapor umedece o bolor, abafa o mofo, asfixia e fermenta fragmentos de fragrâncias. Cheiro um palmo à frente do nariz, mim, imenso e imerso, bom. Bestas, feras entre flores festas circulam em jaula tripla — as piores, dupla as maiores; em gaiolas, as menores, à ventura — as melhores. Animais anormais engendra o equinócio, desleixo no eixo da terra, desvio das linhas de fato. Pouco mais que o nome o toupinambaoults lhes signou, suspensos apenas pelo nó do apelo. De longe, três pontos... Em foco, Tatu, esferas rolando de outras eras, escarafuncham mundos e fundos. Saem da mãe com setenta e um dentes, dos quais dez caem aí mesmo, vinte e cinco ao primeiro bocado de terra, vinte o vento leva, quatorze a água, e um desaparece num acidente. Um, na algaravia geral, por nome, Tamanduá, esparrama língua no pó de incerto inseto, fica de pé, zarolho de tão perto, cara a cara, ali, aí, esdruxula num acúmulo e se desfaz eclipsado em formigas. Pela ou na rama, voce mettalica longisonans, a araponga malha ferro frio, bentevi no mal-me-quer-bem-me-quer. A dois lances de pedra daqui, volta e meia, dois giros; meia volta, vultos a três por dois. De onde em onde, vão e vêm; de quando em vez, vêem o que tem. Perante o segundo elemento, a manada anda e desanda, papa e bebe, mama e baba. Depois da laguna, enchem a anterior lacuna. Anta, nunca a vi tão gorda. Nuvens que o gambá fede empalidecem o nariz das pacas. Capivara, estômago a sair pelas órbitas, ou, porque fartas se estatelam arrotando capinzais ou, como são sabem senão comer, jogam o gargalo para o alto, arreganhando a dentadura, tiriricas de estar sem fome. Ensy, joão chamado bobo, não tuge nem muge, não foge tiro, brilho nem barulho — gálbula, brachyptera, insectívora, taciturna, non scansoria, stupida — , para jogar sério a esmo. Monos se penteando espelham-se no banho das piranhas, cara quase rosto no quasequase das águas: agulhas fazem boa boca, botam mau olhado anulando-lhes a estampa, símios para sempre. Na aguada, o corpanzil réptil entretece lagartos e lagostas. Monstros da natura desvairada nestes ares, à tona, boquiaberta, à toa, cabisbaixa, o mesmo nenhum afã. Tira pestana ao sol uma jibóia que é só borboletas. Tucanos atrás dos canos, máscara sefardim, arcanos no tutano. Jibóia, no local do crime, desamarram espirais englobando cabras, ovelhas, bois. Chifres da boca para fora — esfinges bucefálicas entre aspas — decompõem pelos mangues o conteúdo: cospem cornos o dobro. Exorbitantes, duram contos de séculos, estabelece Marcgravf, na qualidade de profeta. Vegetam eternidades. Crias? Mudas? Cruzam e descruzam entre si? Não, esse pensamento, não, — é sístole dos climas e sintoma do calor em minha cabeça. Penso mas não compensa: a sibila me belisca, a pitonisa me hipnotiza, me obelisco, essa python medusa e visa, eu paro, viro paupau, pedrapedra. Dédalos de espelho de Elísio, torre babéu, hortus urbis diaboli, furores de Thule, delícias de Menrod, curral do pasmo, cada bicho silencia e seleciona andamentos e paramentos. Bichos bichando, comigo que se passa? Abrir meu coração a Artyczewski. Virá Artyczewski. Nossas manhãs de fala me faltam. Um papagaio pegou meu pensamento, amola palavras em polaco, imitando Articzewski (Cartepanie! Cartepanie!). Bestas geradas no mais aceso fogo do dia... Comer esses animais há de perturbar singularmente as coisas do pensar. Palmilho os dias entre essas bestas estranhas, meus sonhos se populam da estranha fauna e flora: o estalo de coisas, o estalido dos bichos, o estar interessante: a flora fagulha e a fauna floresce... Singulares excessos... In primis cogitationibus circa generationem animalium, de his omnibus non cogitavi. Na boca da espera, Articzewski demora como se o parisse, possesso desta erva de negros que me ministrou, — riamba, pemba, gingongó, chibaba, jererê, monofa, charula, ou pango, tabaqueação de toupinambaoults, gês e negros minas, segundo Marcgravf. Aspirar estes fumos de ervas, encher os peitos nos hálitos deste mato, a essência, a cabeça quieta, ofício de ofídio.
1 507
Dambudzo Marechera

Dambudzo Marechera

Camarada Drácula junta-se à Revolução: uma união de mentes

Para ter o que fazer, vamos andar para sempre neste
Círculo chamado casamento (para sempre presume
Nem fim nem começo). Foi-se a lengalenga dos votos.
Lembre-se que deus permite-se a liberdade de ser o centro
De um círculo cuja circunferência está em toda parte (Que
Cinismo!) Com cuidado e sorte nós também podemos ser
Sua imagem. O amor e a História são bestas. Dessarte
deixe suas atrações pastarem
Livres – Nem chego a ter tais planos com humanos.
Você há por gula de vadiar nesse mundo
Enquanto eu e mortos cujas covas são meus prostíbulos
Lufrificaremos da paixão as juntas duras. Não se alarme:
Já que eles dizem THE FIGHT GOES ON até do além
das covas abarrotadas.
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Comrade Dracula joins the Revolution: a wedding of minds
Dambudzo Marechera
For something to do let’s forever walk this
Circle they call marriage (forever presumes neither
Beginning nor end) The rigmarole of vows is over.
Remember god allows himself the freedom to be the
centre
Of a circle whose circumference is everywhere (What
Cynicism!) With caution & luck we too can be the image
Of him. Love like history is bunk. Hence let your
attractions range
Free – I have no such intentions with humans at least.
You in this world will dally to surfeit
While I with the dead whose tombs are my brothels
Will oil passion’s stiff joints. Do not be alarmed:
As they say A LUTA CONTINUA even beyond the
serried graves.
623
Gonzalo Rojas

Gonzalo Rojas

A lepra

Ainda lembro a minha aula de Retórica.
Cerimônia do Juízo Final. Um grande silêncio
até que o Professor irrompia: “Sentem-se”.
“Trago-lhes carne fresca”. E esvaziava um pacote
de algo mole e viscoso
envolto em jornais velhos como um peixe cru
sobre a mesa em que celebrava sua missa.

“Capítulo Primeiro”. “O estilo do homem
corresponde a um defeito em sua língua”. E mostrava
uma língua comida por moscas de ataúde
para ilustrar sua tese com a luz do exemplo.
“Olhem: a língua inglesa não é a língua espanhola”.
“Aqui tenho a língua de Cervantes. Sua forma
de espada não coincide com o eco do paladar”. O Professor falava
de condições, traços, influências,
metáforas, estrofes. E cada afirmação
era provada pela Crítica.

Ora, os pontos de vista da Crítica
– pobres vasilhas vazias –
eram toda essa carne palpitante
saqueada dos mais diferentes cemitérios:
línguas, dentes, narizes, pulmões, ventres, mãos,
que um dia foram órgãos dos grandes autores,
hoje, tumores malignos servidos em bandejas
por professores-asnos a discípulos-asnos
dentro de uma sala-esgoto.

Garotos e garotas extasiados
copiavam em “papéis” todas as proporções
de uma obra-prima: as leis da lírica,
da épica e do dramática, causas e conseqüências,
a decadência, o desenvolver
das literaturas.

Ante tal entusiasmo,
o cheiro dos restos dos grandes autores
mesclava-se ao cheiro desses belos defuntos
sentados na cadeira do seu próprio excremento,
e a corrente de ar era uma imundície só,
enquanto a admiração chegava ao descomedido
quando esse Professor: “Se aprenderem – dizia-nos –
os requisitos da criação,
serão fortes rivais de Goethe. E superiores.”
E encerrava sua aula.
Guardava todos os despojos nojentos
em seu pacote e, com a cabeça erguida,
coroado com louros pelo bom êxito,
virava-nos as costas como um Deus do Olimpo
que regressa à sua concha.

Ainda recordo minha aula de Retórica
em que a vida e a beleza
eram um prato de carne podre.
Tive que cortar a língua na raiz
para livrar-me da lepra.


(tradução de Fabiano Calixto, publicada originalmente no primeiro número impresso da Modo de Usar & Co., novembro de 2007.)


:


LA LEPRA: Todavía recuerdo mi clase de Retórica. / Ceremonia del Juicio Final. Un gran silencio / hasta que el Profesor irrumpía: “Sentaos”. / “Os traigo carne fresca”. Y vaciaba un paquete / de algo blando y viscoso / envuelto en diarios viejos como un pescado crudo, / sobre la mesa en que él oficiaba su misa. // “Capítulo Primero”. / “El estilo del hombre / corresponde a un defecto de su lengua”. Y mostraba / una lengua comida por moscas de ataúd / para ilustrar su tesis con la luz del ejemplo. // “Mirad: la lengua inglesa no es la lengua española” / “Aquí tengo la lengua de Cervantes. Su forma / de espada no coincide con el hueco del paladar”. El Profesor hablaba / de condiciones, rasgos, influencias, / metáforas, estrofas. Y cada afirmación / era probada por la Crítica // Ahora bien, los puntos de vistas de la Crítica / – pobres cuencas vacías – / eran toda esa carne palpitante / saqueada a los distintos cementerios: / lenguas, dientes, narices, pulmones, vientres, manos / que un día fueron órganos de los grandes autores, / hoy tumores malignos servidos en bandejas / por profesores-asnos a discípulos-asnos / adentro de una sala-alcantarilla. // Donceles y doncellas extasiados / copiaban en “papeles” todas las proporciones / de una obra maestra: las leyes de la lírica / la épica u dramática, causas y consecuencias, / la decadencia, el desarrollo / de las literaturas. // Ante tal entusiasmo, / el olor de los restos de los grandes autores / se mezclaba al olor de esos bellos difuntos / sentados en la silla de su propio excremento, / y una sola corriente de inmundicia era el aire, / mientras la admiración llegaba a al desenfreno / cuando ese Profesor: “Si aprendéis – nos decía – / los requisitos de la creación, / seréis fieros rivales de Goethe, y superiores.” // Y cerraba su clase. / Guardaba todos los despojos nauseabundos / en su paquete, y con la frente en alto, / coronado en laurel por su buen éxito / nos volvía la espalda como un Dios del Olimpo / que regresa a su concha. // Todavía recuerdo mi clase de Retórica / en que la vida y la belleza / eran un plato de carne podrida. // Yo tuve que cortarme la lengua en la raíz / para librarme de la lepra.


1 358
Maura Lopes Cançado

Maura Lopes Cançado

permitam-me destruir o livro do Sagan

1
pausa:
permitam-me destruir o livro do Sagan.
É a seda pura que deve nos envolver; ter
música, no momento do beijo.
Inclinada, a rosa lembrará a brisa,
as grades rendadas, o jardim.
Além do mar, outros casais existem.
A noite nos destrói pelas esquinas (repetindo-se
e envelhecendo como almas.
2
Vim do sonho: um monge louco,
olímpico, acordou-me.
Homem de vestes alvas, onde chegará meu braço,
alongando-se, misturando-se às algas:
Sou leve, sílfide talvez, e no voo,
pareço rosa recuada.
Ninguém me salvará
da mentira que sou.
Senhor de vestes sombrias, quantos mundos visitei?
Minh'alma, nua, ela se permuta com a rocha.
Se alguém me procurar,
não pertenço a ninguém.
Senhor, quero um breviário
de contos infantis: carochinha (para ler no pátio
cinzento, prisão da rainha)
Senhor, falo coisas da vida, vim do sonho
ou da loucura?
Senhor, que dor é essa
abrigando meu amor?
3
Fizeram muros altos cinzentos,
esconderam a terra; mas o quadrado azul está presente -
sempre.
Senhora rainha do Egito, dai-me pálpebras pesadas
de mistérios piramidais.
Quantas são? Onde a bola ou sou bola?
Santos coroados cantam, que vestidos rasgados não são
nódoas.
Senhora rainha do Egito, meus versos falam de areia quente,
e faraós, onde Cleópatra dançava,
Por que falar de calor
se vitrais já cintilavam no pátio?
Vidro
é saudade de louco
casado com grades.
4.
Cimento armado e é bezerro de ouro
pedindo pausas.
Esta cidade tem meus olhos,
sabem por que perdi-me?
Quando a cidade cresceu
morei no terceiro andar.
O dia brigou com a luz, eu,
incoerente, juntei-me às palavras,
subindo de elevador
1 089