Sociedade e Mundo
Maria Ângela Alvim
Moro em mim? No meu destino, largado
Pentti Saarikoski
LII
Pentti Saarikoski
LII
Pentti Saarikoski
LII
Pentti Saarikoski
LII
Sebastião Alba
Como os outros
frente ao seu quadro negro que é
exterior à música dispo o reflexo
sou um e baço
dou-me as mãos na estreita
passagem dos dias
pelo café da cidade adoptiva
os passos discordando
mesmo entre si
As coisas são a sua morada
e há entre mim e mim um escuro limbo
mas é nessa disjunção o istmo da poesia
com suas grutas sinfónicas
no mar.
Leónidas Lamborghini
Bíblica
o homem
que vende a Bíblia
e escutou sua palavra
em um café qualquer
– Na verdade, na verdade lhes digo
Como aquele que apoiado em sua mesa
quando está
olhando para o vazio
é interrompido
pela palavra deste homem
– Na verdade, na verdade lhes digo
Como aquele que escuta
aturdido
falar de revelação
entre o barulho das xícaras
cercado pela fumaça
– Na verdade, na verdade lhes digo
Como aquele que em seguida
afasta
o rosto desse homem
e volta a olhar
fixamente o vazio
– Na verdade, na verdade lhes digo
Como aquele que fica assim
depois
apoiado em sua mesa
enquanto sua cabeça mistura
a Palavra com o preço
e o Espírito com a encadernação
como esse
como esse
– Na verdade, na verdade lhes digo.
Leónidas Lamborghini
O sabotador arrependido
renúncia
tanto vil ostracismo
depois soube
o trabalho é saúde, é fator
dignifica
e o outro é o crime
a poesia maldita
Eu era o braço direito agora não sou nada
Esta guitarra já cai
tombada da minha alma
sua última nota
espera.
Leónidas Lamborghini
O sabotador arrependido
renúncia
tanto vil ostracismo
depois soube
o trabalho é saúde, é fator
dignifica
e o outro é o crime
a poesia maldita
Eu era o braço direito agora não sou nada
Esta guitarra já cai
tombada da minha alma
sua última nota
espera.
Leónidas Lamborghini
Falando sozinho
sozinho
pela rua
tratando de se entender
a cidade em seu hospício.
Como aquele que está
confessando
sua angústia a outro
e esse outro
é ele mesmo
andando pela rua.
a cidade em seu hospício.
Como aquele que sem saber
vai caminhando
entre as pessoas
e faz estranhos gestos
a este outro
que é ele mesmo
a cidade em seu hospício.
Como aquele que vai de uma esquina
à outra
caminha e fala sozinho
porque trata de se entender
com este outro
que é ele mesmo
como esse
como esse
a cidade em seu hospício.
Sebastião Alba
No meu país
dardejado do sol e da caca dos gaios
só há estâncias
(de veraneio) na poesia.
Nossos lábios
a um metro e sessenta e tal
do chão amarelecido
dos símbolos
abrem para fora
por dois gomos de frio.
Nossos lábios outonais, digo,
outonais doze meses.
No entanto
o equilíbrio jacente
faz florir as acácias;
a terra incha;
na derme da possível
geografia,
um frémito cinde
as estações do ano.
Henriqueta Lisboa
Não a face dos mortos
Nem a face
dos que não coram
aos açoites
da vida.
Porém a face
lívida
dos que resistem
pelo espanto.
Não a face da madrugada
na exaustão
dos soluços.
Mas a face do lago
sem reflexos
quando as águas
entranha.
Não a face da estátua
fria de lua e zéfiro.
Mas a face do círio
que se consome
lívida
no ardor.
de A face lívida (1945)
Leónidas Lamborghini
Lendo o jornal
lendo o jornal
se surpreende
na Seção Desaparecidos
e quem sou
e onde estou se pergunta.
Como aquele que vê essa foto
de seu rosto
ali
e reconhece seu rosto
mas não se identifica
e quem sou
e onde estou se pergunta.
Como aquele que lê
seus dados na identidade
ali
debaixo da foto
de seu rosto
e se identifica
mas não se reconhece
e quem sou
e onde estou se pergunta.
Como aquele que tenta
se lembrar
e toca seu corpo e se diz
sou esse, estou aqui
e começa a se procurar
e não se encontra
como esse
como esse
e quem sou
e onde estou se pergunta.
.
.
.
Traduções de Renato Rezende, extraídas da antologia Pontes/Puentes (2003)
O solicitante deslocado
Desempregado
buscando uma grana até não poder mais
faltou-me a energia o passo firme
entediado há meses, a miséria
procuro agora um emprego na era atômica
dentro ou fora do meu ramo
se for possível
Todos os dias abro o mundo
um jardim de esperanças
na seção de empregos
vou me classificando
atento
este anúncio me chama.
Então
ao escrever com fervor e letra caprichada
aderido com lealdade
- ser claro -
escuto a súplica do rouxinol
unindo o primitivo ao culto
a inspiração ao estudo
trato de seduzir com meus antecedentes.
O formulário
detalha-me
o que subscreve
prático em desorganizar
deseja
ganhar pão em seu estabelecimento
homem de empresa
caixa postal.
Leónidas Lamborghini
Lendo o jornal
lendo o jornal
se surpreende
na Seção Desaparecidos
e quem sou
e onde estou se pergunta.
Como aquele que vê essa foto
de seu rosto
ali
e reconhece seu rosto
mas não se identifica
e quem sou
e onde estou se pergunta.
Como aquele que lê
seus dados na identidade
ali
debaixo da foto
de seu rosto
e se identifica
mas não se reconhece
e quem sou
e onde estou se pergunta.
Como aquele que tenta
se lembrar
e toca seu corpo e se diz
sou esse, estou aqui
e começa a se procurar
e não se encontra
como esse
como esse
e quem sou
e onde estou se pergunta.
.
.
.
Traduções de Renato Rezende, extraídas da antologia Pontes/Puentes (2003)
O solicitante deslocado
Desempregado
buscando uma grana até não poder mais
faltou-me a energia o passo firme
entediado há meses, a miséria
procuro agora um emprego na era atômica
dentro ou fora do meu ramo
se for possível
Todos os dias abro o mundo
um jardim de esperanças
na seção de empregos
vou me classificando
atento
este anúncio me chama.
Então
ao escrever com fervor e letra caprichada
aderido com lealdade
- ser claro -
escuto a súplica do rouxinol
unindo o primitivo ao culto
a inspiração ao estudo
trato de seduzir com meus antecedentes.
O formulário
detalha-me
o que subscreve
prático em desorganizar
deseja
ganhar pão em seu estabelecimento
homem de empresa
caixa postal.
Hashem Shaabani
Sete razões pelas quais eu deveria morrer
Hashem Shaabani
Sete razões pelas quais eu deveria morrer
Hashem Shaabani
Sete razões pelas quais eu deveria morrer
Henriqueta Lisboa
Denúncia
— ó vendaval —
voam velozes e ferozes
à caça de carne humana.
Olhos de abutre
fisgam de rua em rua
alguma oferta de acaso.
Rindo brancura de dentes
mil poderes aceleram
rumo à vítima entrevista.
O mundo que lhes pertence
tomam ao revés — de assalto.
Sangram
despedaçam
matam
E ombros erguidos prosseguem
vitoriosos pressurosos
para os aplausos da seita.
de Pousada do ser (1982)
António José Forte
Retrato do Artista em Cão Jovem
Com o focinho entre dois olhos muito grandes
por trás de lágrimas maiores
este é de todos o teu melhor retrato
o de cão jovem a que só falta falar
o de cão através da cidade
com uma dor adolescente
de esquina para esquina cada vez maior
latindo docemente a cada lua
voltando o focinho a cada esperança
ainda sem dentes para as piores surpresas
mas avançando a passo firme
ao encontro dos alimentos
aqui estás tal qual
és bem tu o cão jovem que ninguém esperava
o cão de circo para os domingos da família
o cão vadio dos outros dias da semana
o cão de sempre
cada vez que há um cão jovem
neste local da terra
Maria Ângela Alvim
Carta a Maria Clea
Converso com você, mas sei que é conjetura.
E sendo aqui montanha, verdade aprofundo:
Por quê? Por que nos nutrirmos deste mundo?
Deste mundo, exilio, — porta de nossas perdas
onde o tempo nos soma pelas horas esquerdas.
Não sabemos talvez, ou em saber não bastamos
que o mundo é sedento e nós o desalteramos.
Secam rios de pranto onde a sede se apura
e desagua o labirinto de uma carne obscura.
É preciso nos nutrirmos deste mundo, — quantos
somos, sirvamos à sua fome, — fome de tantos.
Erich Fried
Pederastia como arma
confessou André Gide
na cama ou pela manhã
depois de uma longa noite de sexo:
Você pode dizer aos seus amigos
que você dormiu com um homem famoso
com um escritor
Meu nome é François Mauriac
:
Päderastie als Waffe
Den Knaben die er im Kino getroffen hatte,
gestand André Gide
im Bett, oder am Morgen
nach einer durchliebten Nacht:
Du kannst deinen Freunden sagen,
du hast mit einem berühmten Mann geschlafen,
mit einem Schriftsteller.
Mein Name ist François Mauriac.
Erich Fried
Conflitos entre únicos herdeiros
do teu Marx
Meu Engels quebrará os dentes
do teu Engels
Meu Lênin partirá os ossos
do teu Lênin
Nosso Stálin fuzilará a nuca
do vosso Stálin
Nosso Trótski rachará o crânio
do vosso Trótski
Nosso Mao afogará no Iansequião
vosso Mao
para que ele saia do caminho
da vitória
:
Konflikte zwischen Alleinerben
Mein Marx wird deinem Marx
den Bart ausreißen
Mein Engels wird deinem Engels
die Zähne einschlagen
Mein Lenin wird deinem Lenin
alle Knochen zerbrechen
Unser Stalin wird eurem Stalin
den Genickschuss geben
Unser Trotzki wird eurem Trotzki
den Schädel spalten
Unser Mao wird euren Mao
im Jangtse ertränken
damit er dem Sieg
nicht mehr im Wege steht
Erich Fried
Conflitos entre únicos herdeiros
do teu Marx
Meu Engels quebrará os dentes
do teu Engels
Meu Lênin partirá os ossos
do teu Lênin
Nosso Stálin fuzilará a nuca
do vosso Stálin
Nosso Trótski rachará o crânio
do vosso Trótski
Nosso Mao afogará no Iansequião
vosso Mao
para que ele saia do caminho
da vitória
:
Konflikte zwischen Alleinerben
Mein Marx wird deinem Marx
den Bart ausreißen
Mein Engels wird deinem Engels
die Zähne einschlagen
Mein Lenin wird deinem Lenin
alle Knochen zerbrechen
Unser Stalin wird eurem Stalin
den Genickschuss geben
Unser Trotzki wird eurem Trotzki
den Schädel spalten
Unser Mao wird euren Mao
im Jangtse ertränken
damit er dem Sieg
nicht mehr im Wege steht
Vitorino Nemésio