Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
João Cabral de Melo Neto
A Lição de Poesia
1. Toda a manhã consumida
como um sol imóvel
diante da folha em branco:
princípio do mundo, lua nova.
Já não podias desenhar
sequer uma linha;
um nome, sequer uma flor
desabrochava no verão da mesa:
nem no meio-dia iluminado,
cada dia comprado,
do papel, que pode aceitar,
contudo, qualquer mundo.
2. A noite inteira o poeta
em sua mesa, tentando
salvar da morte os monstros
germinados em seu tinteiro.
Monstros, bichos, fantasmas
de palavras, circulando,
urinando sobre o papel,
sujando-o com seu carvão.
Carvão de lápis, carvão
da idéia fixa, carvão
da emoção extinta, carvão
consumido nos sonhos.
3. A luta branca sobre o papel
que o poeta evita,
luta branca onde corre o sangue
de suas veias de água salgada.
A física do susto percebida
entre os gestos diários;
susto das coisas jamais pousadas
porém imóveis — naturezas vivas.
E as vinte palavras recolhidas
nas águas salgadas do poeta
e de que se servirá o poeta
em sua máquina útil.
Vinte palavras sempre as mesmas
de que conhece o funcionamento,
a evaporação, a densidade
menor que a do ar.
Publicado no livro O engenheiro (1945).
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.78-79. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
como um sol imóvel
diante da folha em branco:
princípio do mundo, lua nova.
Já não podias desenhar
sequer uma linha;
um nome, sequer uma flor
desabrochava no verão da mesa:
nem no meio-dia iluminado,
cada dia comprado,
do papel, que pode aceitar,
contudo, qualquer mundo.
2. A noite inteira o poeta
em sua mesa, tentando
salvar da morte os monstros
germinados em seu tinteiro.
Monstros, bichos, fantasmas
de palavras, circulando,
urinando sobre o papel,
sujando-o com seu carvão.
Carvão de lápis, carvão
da idéia fixa, carvão
da emoção extinta, carvão
consumido nos sonhos.
3. A luta branca sobre o papel
que o poeta evita,
luta branca onde corre o sangue
de suas veias de água salgada.
A física do susto percebida
entre os gestos diários;
susto das coisas jamais pousadas
porém imóveis — naturezas vivas.
E as vinte palavras recolhidas
nas águas salgadas do poeta
e de que se servirá o poeta
em sua máquina útil.
Vinte palavras sempre as mesmas
de que conhece o funcionamento,
a evaporação, a densidade
menor que a do ar.
Publicado no livro O engenheiro (1945).
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.78-79. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
6 786
Eduardo Alves da Costa
Mais Forte que James Bond
Mais forte que James Bond
é o meu vizinho:
um cansaço, um fracasso
"que se lhe vê na cara",
nos óculos engordurados,
presos com esparadrapo.
E nas calças.
Ah, os fundilhos do meu vizinho,
que desastre! Que abundância de panos!
Um sino de brim
badalado por um rabo mirrado,
milhões de pancadas
para matar a meia-fome da família.
(...)
pelo olhar abatido,
as torturas que terá sofrido.
Pobre, pobre James!
De que lhe vale o caratê diário
de bancário?
E a maletinha-camuflagem
para sanduíches
com escaninho
e cápsulas de café mortífero?
Pra que discutir no serviço
a melhor maneira de dar sumiço
no coreano-lança-cartolas-corta-bolas,
se tem a própria vida metida na cartola?
Afinal, o que sente o meu vizinho
diante de tanta beleza e abundância?
Minha esperança é que um dia este meu James
comece a espionar em causa própria;
pois nem sempre se vive duas vezes
para encontrar o sentido da mensagem:
ser espião sem saber o que se espia
é trabalhar para a contra-espionagem.
In: COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série O Tocador de Atabaqu
é o meu vizinho:
um cansaço, um fracasso
"que se lhe vê na cara",
nos óculos engordurados,
presos com esparadrapo.
E nas calças.
Ah, os fundilhos do meu vizinho,
que desastre! Que abundância de panos!
Um sino de brim
badalado por um rabo mirrado,
milhões de pancadas
para matar a meia-fome da família.
(...)
pelo olhar abatido,
as torturas que terá sofrido.
Pobre, pobre James!
De que lhe vale o caratê diário
de bancário?
E a maletinha-camuflagem
para sanduíches
com escaninho
e cápsulas de café mortífero?
Pra que discutir no serviço
a melhor maneira de dar sumiço
no coreano-lança-cartolas-corta-bolas,
se tem a própria vida metida na cartola?
Afinal, o que sente o meu vizinho
diante de tanta beleza e abundância?
Minha esperança é que um dia este meu James
comece a espionar em causa própria;
pois nem sempre se vive duas vezes
para encontrar o sentido da mensagem:
ser espião sem saber o que se espia
é trabalhar para a contra-espionagem.
In: COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série O Tocador de Atabaqu
1 239
Eduardo Alves da Costa
Mais Forte que James Bond
Mais forte que James Bond
é o meu vizinho:
um cansaço, um fracasso
"que se lhe vê na cara",
nos óculos engordurados,
presos com esparadrapo.
E nas calças.
Ah, os fundilhos do meu vizinho,
que desastre! Que abundância de panos!
Um sino de brim
badalado por um rabo mirrado,
milhões de pancadas
para matar a meia-fome da família.
(...)
pelo olhar abatido,
as torturas que terá sofrido.
Pobre, pobre James!
De que lhe vale o caratê diário
de bancário?
E a maletinha-camuflagem
para sanduíches
com escaninho
e cápsulas de café mortífero?
Pra que discutir no serviço
a melhor maneira de dar sumiço
no coreano-lança-cartolas-corta-bolas,
se tem a própria vida metida na cartola?
Afinal, o que sente o meu vizinho
diante de tanta beleza e abundância?
Minha esperança é que um dia este meu James
comece a espionar em causa própria;
pois nem sempre se vive duas vezes
para encontrar o sentido da mensagem:
ser espião sem saber o que se espia
é trabalhar para a contra-espionagem.
In: COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série O Tocador de Atabaqu
é o meu vizinho:
um cansaço, um fracasso
"que se lhe vê na cara",
nos óculos engordurados,
presos com esparadrapo.
E nas calças.
Ah, os fundilhos do meu vizinho,
que desastre! Que abundância de panos!
Um sino de brim
badalado por um rabo mirrado,
milhões de pancadas
para matar a meia-fome da família.
(...)
pelo olhar abatido,
as torturas que terá sofrido.
Pobre, pobre James!
De que lhe vale o caratê diário
de bancário?
E a maletinha-camuflagem
para sanduíches
com escaninho
e cápsulas de café mortífero?
Pra que discutir no serviço
a melhor maneira de dar sumiço
no coreano-lança-cartolas-corta-bolas,
se tem a própria vida metida na cartola?
Afinal, o que sente o meu vizinho
diante de tanta beleza e abundância?
Minha esperança é que um dia este meu James
comece a espionar em causa própria;
pois nem sempre se vive duas vezes
para encontrar o sentido da mensagem:
ser espião sem saber o que se espia
é trabalhar para a contra-espionagem.
In: COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série O Tocador de Atabaqu
1 239
Eduardo Alves da Costa
Mais Forte que James Bond
Mais forte que James Bond
é o meu vizinho:
um cansaço, um fracasso
"que se lhe vê na cara",
nos óculos engordurados,
presos com esparadrapo.
E nas calças.
Ah, os fundilhos do meu vizinho,
que desastre! Que abundância de panos!
Um sino de brim
badalado por um rabo mirrado,
milhões de pancadas
para matar a meia-fome da família.
(...)
pelo olhar abatido,
as torturas que terá sofrido.
Pobre, pobre James!
De que lhe vale o caratê diário
de bancário?
E a maletinha-camuflagem
para sanduíches
com escaninho
e cápsulas de café mortífero?
Pra que discutir no serviço
a melhor maneira de dar sumiço
no coreano-lança-cartolas-corta-bolas,
se tem a própria vida metida na cartola?
Afinal, o que sente o meu vizinho
diante de tanta beleza e abundância?
Minha esperança é que um dia este meu James
comece a espionar em causa própria;
pois nem sempre se vive duas vezes
para encontrar o sentido da mensagem:
ser espião sem saber o que se espia
é trabalhar para a contra-espionagem.
In: COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série O Tocador de Atabaqu
é o meu vizinho:
um cansaço, um fracasso
"que se lhe vê na cara",
nos óculos engordurados,
presos com esparadrapo.
E nas calças.
Ah, os fundilhos do meu vizinho,
que desastre! Que abundância de panos!
Um sino de brim
badalado por um rabo mirrado,
milhões de pancadas
para matar a meia-fome da família.
(...)
pelo olhar abatido,
as torturas que terá sofrido.
Pobre, pobre James!
De que lhe vale o caratê diário
de bancário?
E a maletinha-camuflagem
para sanduíches
com escaninho
e cápsulas de café mortífero?
Pra que discutir no serviço
a melhor maneira de dar sumiço
no coreano-lança-cartolas-corta-bolas,
se tem a própria vida metida na cartola?
Afinal, o que sente o meu vizinho
diante de tanta beleza e abundância?
Minha esperança é que um dia este meu James
comece a espionar em causa própria;
pois nem sempre se vive duas vezes
para encontrar o sentido da mensagem:
ser espião sem saber o que se espia
é trabalhar para a contra-espionagem.
In: COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série O Tocador de Atabaqu
1 239
Sosigenes Costa
Uma Jóia da Renascença
João Toco, venha cá.
Venha cá, toco de pau.
João Toco, negro!
Faça favor, cavalheiro, venha cá.
Tenho uma coisa para você Toquinho.
Para você levar à sua senhora.
Olhe, eu estava aqui mesmo,
nesta casa dos marimbondos
esperando que você passasse com essa Fon-Fon na mão,
para você me levar um recado para a tua patroa,
para a tua senhora, para a tua iaiá,
para a feroz inimiga dos marimbondos,
para aquela morcega,
para aquela morde e assopra
que subiu na política
e está naquele assanhamento,
tocando foguete de assovio,
porque vai mamar na vaca leiteira
e se esquece que amanhã pode voltar a ficar de baixo
e com rabo entre as pernas.
Olhe, você diga à grande dama
que quando mandar você, toco de pau,
fazer o facho bem grande, bem grande, bem grande,
para queimar a casa dos marimbondos,
para queimar os marimbondos,
todos os marimbondos, todos os marimbondos,
os marimbondos que perderam e estão debaixo,
mas que conservam o brio e a vergonha,
mande queimar somente as fêmeas dos marimbondos
e fique com os machos para ela.
Vá, toco de pau, e me leve o recado
desta guelfa àquela gibelina.
Me leve este recado florentino.
Me leve este recado da Toscana.
Me leve esta jóia de Celini.
Porque de fato quem está aqui na grade
do portão desta casa de Belmonte,
em plena Renascença italiana,
mandando este recado à adversária,
já não é a mulher do ex-intendente,
mas a Incomparável de Veneza e de Verona,
a Magnífica de Ravena e da Toscana.
(1940)
Publicado no livro Obra Poética (1958).
In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
Venha cá, toco de pau.
João Toco, negro!
Faça favor, cavalheiro, venha cá.
Tenho uma coisa para você Toquinho.
Para você levar à sua senhora.
Olhe, eu estava aqui mesmo,
nesta casa dos marimbondos
esperando que você passasse com essa Fon-Fon na mão,
para você me levar um recado para a tua patroa,
para a tua senhora, para a tua iaiá,
para a feroz inimiga dos marimbondos,
para aquela morcega,
para aquela morde e assopra
que subiu na política
e está naquele assanhamento,
tocando foguete de assovio,
porque vai mamar na vaca leiteira
e se esquece que amanhã pode voltar a ficar de baixo
e com rabo entre as pernas.
Olhe, você diga à grande dama
que quando mandar você, toco de pau,
fazer o facho bem grande, bem grande, bem grande,
para queimar a casa dos marimbondos,
para queimar os marimbondos,
todos os marimbondos, todos os marimbondos,
os marimbondos que perderam e estão debaixo,
mas que conservam o brio e a vergonha,
mande queimar somente as fêmeas dos marimbondos
e fique com os machos para ela.
Vá, toco de pau, e me leve o recado
desta guelfa àquela gibelina.
Me leve este recado florentino.
Me leve este recado da Toscana.
Me leve esta jóia de Celini.
Porque de fato quem está aqui na grade
do portão desta casa de Belmonte,
em plena Renascença italiana,
mandando este recado à adversária,
já não é a mulher do ex-intendente,
mas a Incomparável de Veneza e de Verona,
a Magnífica de Ravena e da Toscana.
(1940)
Publicado no livro Obra Poética (1958).
In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
1 176
Sosigenes Costa
Uma Jóia da Renascença
João Toco, venha cá.
Venha cá, toco de pau.
João Toco, negro!
Faça favor, cavalheiro, venha cá.
Tenho uma coisa para você Toquinho.
Para você levar à sua senhora.
Olhe, eu estava aqui mesmo,
nesta casa dos marimbondos
esperando que você passasse com essa Fon-Fon na mão,
para você me levar um recado para a tua patroa,
para a tua senhora, para a tua iaiá,
para a feroz inimiga dos marimbondos,
para aquela morcega,
para aquela morde e assopra
que subiu na política
e está naquele assanhamento,
tocando foguete de assovio,
porque vai mamar na vaca leiteira
e se esquece que amanhã pode voltar a ficar de baixo
e com rabo entre as pernas.
Olhe, você diga à grande dama
que quando mandar você, toco de pau,
fazer o facho bem grande, bem grande, bem grande,
para queimar a casa dos marimbondos,
para queimar os marimbondos,
todos os marimbondos, todos os marimbondos,
os marimbondos que perderam e estão debaixo,
mas que conservam o brio e a vergonha,
mande queimar somente as fêmeas dos marimbondos
e fique com os machos para ela.
Vá, toco de pau, e me leve o recado
desta guelfa àquela gibelina.
Me leve este recado florentino.
Me leve este recado da Toscana.
Me leve esta jóia de Celini.
Porque de fato quem está aqui na grade
do portão desta casa de Belmonte,
em plena Renascença italiana,
mandando este recado à adversária,
já não é a mulher do ex-intendente,
mas a Incomparável de Veneza e de Verona,
a Magnífica de Ravena e da Toscana.
(1940)
Publicado no livro Obra Poética (1958).
In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
Venha cá, toco de pau.
João Toco, negro!
Faça favor, cavalheiro, venha cá.
Tenho uma coisa para você Toquinho.
Para você levar à sua senhora.
Olhe, eu estava aqui mesmo,
nesta casa dos marimbondos
esperando que você passasse com essa Fon-Fon na mão,
para você me levar um recado para a tua patroa,
para a tua senhora, para a tua iaiá,
para a feroz inimiga dos marimbondos,
para aquela morcega,
para aquela morde e assopra
que subiu na política
e está naquele assanhamento,
tocando foguete de assovio,
porque vai mamar na vaca leiteira
e se esquece que amanhã pode voltar a ficar de baixo
e com rabo entre as pernas.
Olhe, você diga à grande dama
que quando mandar você, toco de pau,
fazer o facho bem grande, bem grande, bem grande,
para queimar a casa dos marimbondos,
para queimar os marimbondos,
todos os marimbondos, todos os marimbondos,
os marimbondos que perderam e estão debaixo,
mas que conservam o brio e a vergonha,
mande queimar somente as fêmeas dos marimbondos
e fique com os machos para ela.
Vá, toco de pau, e me leve o recado
desta guelfa àquela gibelina.
Me leve este recado florentino.
Me leve este recado da Toscana.
Me leve esta jóia de Celini.
Porque de fato quem está aqui na grade
do portão desta casa de Belmonte,
em plena Renascença italiana,
mandando este recado à adversária,
já não é a mulher do ex-intendente,
mas a Incomparável de Veneza e de Verona,
a Magnífica de Ravena e da Toscana.
(1940)
Publicado no livro Obra Poética (1958).
In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
1 176
Sosigenes Costa
Uma Jóia da Renascença
João Toco, venha cá.
Venha cá, toco de pau.
João Toco, negro!
Faça favor, cavalheiro, venha cá.
Tenho uma coisa para você Toquinho.
Para você levar à sua senhora.
Olhe, eu estava aqui mesmo,
nesta casa dos marimbondos
esperando que você passasse com essa Fon-Fon na mão,
para você me levar um recado para a tua patroa,
para a tua senhora, para a tua iaiá,
para a feroz inimiga dos marimbondos,
para aquela morcega,
para aquela morde e assopra
que subiu na política
e está naquele assanhamento,
tocando foguete de assovio,
porque vai mamar na vaca leiteira
e se esquece que amanhã pode voltar a ficar de baixo
e com rabo entre as pernas.
Olhe, você diga à grande dama
que quando mandar você, toco de pau,
fazer o facho bem grande, bem grande, bem grande,
para queimar a casa dos marimbondos,
para queimar os marimbondos,
todos os marimbondos, todos os marimbondos,
os marimbondos que perderam e estão debaixo,
mas que conservam o brio e a vergonha,
mande queimar somente as fêmeas dos marimbondos
e fique com os machos para ela.
Vá, toco de pau, e me leve o recado
desta guelfa àquela gibelina.
Me leve este recado florentino.
Me leve este recado da Toscana.
Me leve esta jóia de Celini.
Porque de fato quem está aqui na grade
do portão desta casa de Belmonte,
em plena Renascença italiana,
mandando este recado à adversária,
já não é a mulher do ex-intendente,
mas a Incomparável de Veneza e de Verona,
a Magnífica de Ravena e da Toscana.
(1940)
Publicado no livro Obra Poética (1958).
In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
Venha cá, toco de pau.
João Toco, negro!
Faça favor, cavalheiro, venha cá.
Tenho uma coisa para você Toquinho.
Para você levar à sua senhora.
Olhe, eu estava aqui mesmo,
nesta casa dos marimbondos
esperando que você passasse com essa Fon-Fon na mão,
para você me levar um recado para a tua patroa,
para a tua senhora, para a tua iaiá,
para a feroz inimiga dos marimbondos,
para aquela morcega,
para aquela morde e assopra
que subiu na política
e está naquele assanhamento,
tocando foguete de assovio,
porque vai mamar na vaca leiteira
e se esquece que amanhã pode voltar a ficar de baixo
e com rabo entre as pernas.
Olhe, você diga à grande dama
que quando mandar você, toco de pau,
fazer o facho bem grande, bem grande, bem grande,
para queimar a casa dos marimbondos,
para queimar os marimbondos,
todos os marimbondos, todos os marimbondos,
os marimbondos que perderam e estão debaixo,
mas que conservam o brio e a vergonha,
mande queimar somente as fêmeas dos marimbondos
e fique com os machos para ela.
Vá, toco de pau, e me leve o recado
desta guelfa àquela gibelina.
Me leve este recado florentino.
Me leve este recado da Toscana.
Me leve esta jóia de Celini.
Porque de fato quem está aqui na grade
do portão desta casa de Belmonte,
em plena Renascença italiana,
mandando este recado à adversária,
já não é a mulher do ex-intendente,
mas a Incomparável de Veneza e de Verona,
a Magnífica de Ravena e da Toscana.
(1940)
Publicado no livro Obra Poética (1958).
In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
1 176
Glauco Mattoso
Haicais Paulistanos, 1983-1991 [1
Cadáver no asfalto.
Do alto do viaduto
aplaudem o salto.
No trânsito lento
tento entrar na transversal.
Engarrafamento.
Se engana quem passa
pela Praça da República
querendo de graça.
Chuva na avenida.
Cão desbrida na enxurrada.
Luta pela vida.
Ator principal.
Palmas para o pipoqueiro
do Municipal.
De noite chuvisca.
Sem som, faísca a Paulista:
É a torre que pisca.
Fuga da FEBEM.
No Belém já tem refrega.
E o cego é refém.
Vai correr pelado
lá do vale até o túnel.
Morre atropelado.
In: MATTOSO, Glauco. Poemas de Glauco Mattoso: amostra quase grátis. São Paulo: U. Tavares, 1993 (Poesia já, 2)
Do alto do viaduto
aplaudem o salto.
No trânsito lento
tento entrar na transversal.
Engarrafamento.
Se engana quem passa
pela Praça da República
querendo de graça.
Chuva na avenida.
Cão desbrida na enxurrada.
Luta pela vida.
Ator principal.
Palmas para o pipoqueiro
do Municipal.
De noite chuvisca.
Sem som, faísca a Paulista:
É a torre que pisca.
Fuga da FEBEM.
No Belém já tem refrega.
E o cego é refém.
Vai correr pelado
lá do vale até o túnel.
Morre atropelado.
In: MATTOSO, Glauco. Poemas de Glauco Mattoso: amostra quase grátis. São Paulo: U. Tavares, 1993 (Poesia já, 2)
1 676
João Cabral de Melo Neto
À Brasília de Oscar Niemeyer
Eis casas-grandes de engenho,
horizontais, escancaradas,
onde se existe em extensão
e a alma todoaberta se espraia.
Não se sabe é se o arquiteto
as quis símbolos ou ginástica:
símbolos do que chamou Vinicius
"imensos limites da pátria"
ou ginástica, para ensinar
quem for viver naquelas salas
um deixar-se, um deixar viver
de alma arejada, não fanática.
Publicado no livro Museu de tudo (1975).
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.399. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
horizontais, escancaradas,
onde se existe em extensão
e a alma todoaberta se espraia.
Não se sabe é se o arquiteto
as quis símbolos ou ginástica:
símbolos do que chamou Vinicius
"imensos limites da pátria"
ou ginástica, para ensinar
quem for viver naquelas salas
um deixar-se, um deixar viver
de alma arejada, não fanática.
Publicado no livro Museu de tudo (1975).
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.399. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
3 641
João Cabral de Melo Neto
À Brasília de Oscar Niemeyer
Eis casas-grandes de engenho,
horizontais, escancaradas,
onde se existe em extensão
e a alma todoaberta se espraia.
Não se sabe é se o arquiteto
as quis símbolos ou ginástica:
símbolos do que chamou Vinicius
"imensos limites da pátria"
ou ginástica, para ensinar
quem for viver naquelas salas
um deixar-se, um deixar viver
de alma arejada, não fanática.
Publicado no livro Museu de tudo (1975).
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.399. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
horizontais, escancaradas,
onde se existe em extensão
e a alma todoaberta se espraia.
Não se sabe é se o arquiteto
as quis símbolos ou ginástica:
símbolos do que chamou Vinicius
"imensos limites da pátria"
ou ginástica, para ensinar
quem for viver naquelas salas
um deixar-se, um deixar viver
de alma arejada, não fanática.
Publicado no livro Museu de tudo (1975).
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.399. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
3 641
Olga Savary
Ouro Preto
Para Lilli Correia de Araújo
Ouro Preto no inverno, uma manhã,
é cicatriz
No alto, a praça nítida
e o bairro de Antônio Dias,
embaixo, derruído em bruma.
Por entre a cortina azul
filtra-se o azul no azul
do vidro da janela antiga:
— Bom dia, magia.
(Deitada vejo tudo — intacta —
como uma boneca de corda
sem corda há muito tempo).
Ouro Preto, 08 de julho de 1970
In: SAVARY, Olga. Espelho provisório. Pref. Ferreira Gullar. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1970
Ouro Preto no inverno, uma manhã,
é cicatriz
No alto, a praça nítida
e o bairro de Antônio Dias,
embaixo, derruído em bruma.
Por entre a cortina azul
filtra-se o azul no azul
do vidro da janela antiga:
— Bom dia, magia.
(Deitada vejo tudo — intacta —
como uma boneca de corda
sem corda há muito tempo).
Ouro Preto, 08 de julho de 1970
In: SAVARY, Olga. Espelho provisório. Pref. Ferreira Gullar. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1970
1 561
Eduardo Alves da Costa
Poema do Amor Impossível a Candice Bergen
Candice candy
lovely sweet
sexy vamp
Candice Bergen!
Ergo-te um brinde
de erva-doce
como se fosse fino frapê
de LSD.
Musa diva mito
misto de absinto
e creme de hortelã:
sou teu fã.
Faça-se um pôster do teu rosto
para delírio da massa ocidental
de causar inveja ao próprio Mao.
Quem se negaria a trabalhar em dobro
alimentado pelo teu quase-sorriso,
tão monaliso?
Serias meta, recompensa, prêmio-produção
cravado com fitinha multicor
no coração do vencedor.
A indústria nacional ia à falência
de tanta saliência.
Atingiríamos o mais alto índice
de masturbação per capita,
exportaríamos Candices mulatas, olhos azuis.
Quem sabe o exemplo de tua rebeldia
nos libertasse da tirania
do preço, do plano, do lucro?
Serias acessível pelo crediário,
subversiva à ordem dos fatores,
alteração do produto.
Para os mais pudicos,
faríamos santinho com a tua imagem;
te chamariam Maria
— não digo virgem, sei lá...
Ah, não haveria padre que chegasse
ao fim da missa!
(...)
In: COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série O Tocador de Atabaqu
lovely sweet
sexy vamp
Candice Bergen!
Ergo-te um brinde
de erva-doce
como se fosse fino frapê
de LSD.
Musa diva mito
misto de absinto
e creme de hortelã:
sou teu fã.
Faça-se um pôster do teu rosto
para delírio da massa ocidental
de causar inveja ao próprio Mao.
Quem se negaria a trabalhar em dobro
alimentado pelo teu quase-sorriso,
tão monaliso?
Serias meta, recompensa, prêmio-produção
cravado com fitinha multicor
no coração do vencedor.
A indústria nacional ia à falência
de tanta saliência.
Atingiríamos o mais alto índice
de masturbação per capita,
exportaríamos Candices mulatas, olhos azuis.
Quem sabe o exemplo de tua rebeldia
nos libertasse da tirania
do preço, do plano, do lucro?
Serias acessível pelo crediário,
subversiva à ordem dos fatores,
alteração do produto.
Para os mais pudicos,
faríamos santinho com a tua imagem;
te chamariam Maria
— não digo virgem, sei lá...
Ah, não haveria padre que chegasse
ao fim da missa!
(...)
In: COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série O Tocador de Atabaqu
1 542
Eduardo Alves da Costa
Poema do Amor Impossível a Candice Bergen
Candice candy
lovely sweet
sexy vamp
Candice Bergen!
Ergo-te um brinde
de erva-doce
como se fosse fino frapê
de LSD.
Musa diva mito
misto de absinto
e creme de hortelã:
sou teu fã.
Faça-se um pôster do teu rosto
para delírio da massa ocidental
de causar inveja ao próprio Mao.
Quem se negaria a trabalhar em dobro
alimentado pelo teu quase-sorriso,
tão monaliso?
Serias meta, recompensa, prêmio-produção
cravado com fitinha multicor
no coração do vencedor.
A indústria nacional ia à falência
de tanta saliência.
Atingiríamos o mais alto índice
de masturbação per capita,
exportaríamos Candices mulatas, olhos azuis.
Quem sabe o exemplo de tua rebeldia
nos libertasse da tirania
do preço, do plano, do lucro?
Serias acessível pelo crediário,
subversiva à ordem dos fatores,
alteração do produto.
Para os mais pudicos,
faríamos santinho com a tua imagem;
te chamariam Maria
— não digo virgem, sei lá...
Ah, não haveria padre que chegasse
ao fim da missa!
(...)
In: COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série O Tocador de Atabaqu
lovely sweet
sexy vamp
Candice Bergen!
Ergo-te um brinde
de erva-doce
como se fosse fino frapê
de LSD.
Musa diva mito
misto de absinto
e creme de hortelã:
sou teu fã.
Faça-se um pôster do teu rosto
para delírio da massa ocidental
de causar inveja ao próprio Mao.
Quem se negaria a trabalhar em dobro
alimentado pelo teu quase-sorriso,
tão monaliso?
Serias meta, recompensa, prêmio-produção
cravado com fitinha multicor
no coração do vencedor.
A indústria nacional ia à falência
de tanta saliência.
Atingiríamos o mais alto índice
de masturbação per capita,
exportaríamos Candices mulatas, olhos azuis.
Quem sabe o exemplo de tua rebeldia
nos libertasse da tirania
do preço, do plano, do lucro?
Serias acessível pelo crediário,
subversiva à ordem dos fatores,
alteração do produto.
Para os mais pudicos,
faríamos santinho com a tua imagem;
te chamariam Maria
— não digo virgem, sei lá...
Ah, não haveria padre que chegasse
ao fim da missa!
(...)
In: COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série O Tocador de Atabaqu
1 542
João Cabral de Melo Neto
A VIcente do Rego Monteiro
Eu vi teus bichos
mansos e domésticos:
um motociclo
gato e cachorro.
Estudei contigo
um planador,
volante máquina,
incerta e frágil.
Bebi da aguardente
que fabricaste,
servida às vezes
numa leiteira.
Mas sobretudo
senti o susto
de tuas surpresas.
E é por isso
que quando a mim
alguém pergunta
tua profissão
não digo nunca
que és pintor
ou professor
(palavras pobres
que nada dizem
de tais surpresas);
respondo sempre:
— É inventor,
trabalha ao ar livre
de régua em punho,
janela aberta
sobre a manhã.
Publicado no livro O engenheiro (1945).
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.80-81. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
mansos e domésticos:
um motociclo
gato e cachorro.
Estudei contigo
um planador,
volante máquina,
incerta e frágil.
Bebi da aguardente
que fabricaste,
servida às vezes
numa leiteira.
Mas sobretudo
senti o susto
de tuas surpresas.
E é por isso
que quando a mim
alguém pergunta
tua profissão
não digo nunca
que és pintor
ou professor
(palavras pobres
que nada dizem
de tais surpresas);
respondo sempre:
— É inventor,
trabalha ao ar livre
de régua em punho,
janela aberta
sobre a manhã.
Publicado no livro O engenheiro (1945).
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.80-81. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
3 625
Eduardo Alves da Costa
Poema da Cartomante
Estendo minha mão
e a velha me fala
de um futuro tão remoto
que chego quase a descrer da Bomba.
Ah, deliciosa visão,
promessas de vida longa,
um lar feliz
e até mesmo um nome
para ser honrado.
Lê, mulher; procura
em minha mão
a certeza que me falta.
Aprendeste a profissão
nos tempos de paz
e o futuro que me dás
é o dos meus avós.
Falas-me de um lar
e eu procuro concebê-lo
ao abrigo da guerra que virá
e que eu vejo crescer nas declarações de paz.
E contudo eu gostaria
de que tuas profecias se cumprissem;
que estas coisas não fossem para mim,
mas pudessem acontecer
ao homem simples,
a esse que vai para a fábrica, de manhã,
e não sabe do mundo
para além do próprio quintal.
Segues com o dedo
a linha da vida
e vês tão claro
que por um instante me aborreço
e penso em me levantar.
Mas não quero te ferir.
Afagas minha mão
num gesto maternal
e me devolves ao mundo,
na certeza de que estou mais forte.
Não, eu não te direi nenhuma destas coisas,
porque lá fora os teus netos brincam
e a tarde, vista de tua janela,
promete não ser a última,
não pode ser a última.
E porque teus olhos
me pedem que acredite.
In: COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série O Tocador de Atabaqu
e a velha me fala
de um futuro tão remoto
que chego quase a descrer da Bomba.
Ah, deliciosa visão,
promessas de vida longa,
um lar feliz
e até mesmo um nome
para ser honrado.
Lê, mulher; procura
em minha mão
a certeza que me falta.
Aprendeste a profissão
nos tempos de paz
e o futuro que me dás
é o dos meus avós.
Falas-me de um lar
e eu procuro concebê-lo
ao abrigo da guerra que virá
e que eu vejo crescer nas declarações de paz.
E contudo eu gostaria
de que tuas profecias se cumprissem;
que estas coisas não fossem para mim,
mas pudessem acontecer
ao homem simples,
a esse que vai para a fábrica, de manhã,
e não sabe do mundo
para além do próprio quintal.
Segues com o dedo
a linha da vida
e vês tão claro
que por um instante me aborreço
e penso em me levantar.
Mas não quero te ferir.
Afagas minha mão
num gesto maternal
e me devolves ao mundo,
na certeza de que estou mais forte.
Não, eu não te direi nenhuma destas coisas,
porque lá fora os teus netos brincam
e a tarde, vista de tua janela,
promete não ser a última,
não pode ser a última.
E porque teus olhos
me pedem que acredite.
In: COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série O Tocador de Atabaqu
3 477
Eduardo Alves da Costa
Poema da Cartomante
Estendo minha mão
e a velha me fala
de um futuro tão remoto
que chego quase a descrer da Bomba.
Ah, deliciosa visão,
promessas de vida longa,
um lar feliz
e até mesmo um nome
para ser honrado.
Lê, mulher; procura
em minha mão
a certeza que me falta.
Aprendeste a profissão
nos tempos de paz
e o futuro que me dás
é o dos meus avós.
Falas-me de um lar
e eu procuro concebê-lo
ao abrigo da guerra que virá
e que eu vejo crescer nas declarações de paz.
E contudo eu gostaria
de que tuas profecias se cumprissem;
que estas coisas não fossem para mim,
mas pudessem acontecer
ao homem simples,
a esse que vai para a fábrica, de manhã,
e não sabe do mundo
para além do próprio quintal.
Segues com o dedo
a linha da vida
e vês tão claro
que por um instante me aborreço
e penso em me levantar.
Mas não quero te ferir.
Afagas minha mão
num gesto maternal
e me devolves ao mundo,
na certeza de que estou mais forte.
Não, eu não te direi nenhuma destas coisas,
porque lá fora os teus netos brincam
e a tarde, vista de tua janela,
promete não ser a última,
não pode ser a última.
E porque teus olhos
me pedem que acredite.
In: COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série O Tocador de Atabaqu
e a velha me fala
de um futuro tão remoto
que chego quase a descrer da Bomba.
Ah, deliciosa visão,
promessas de vida longa,
um lar feliz
e até mesmo um nome
para ser honrado.
Lê, mulher; procura
em minha mão
a certeza que me falta.
Aprendeste a profissão
nos tempos de paz
e o futuro que me dás
é o dos meus avós.
Falas-me de um lar
e eu procuro concebê-lo
ao abrigo da guerra que virá
e que eu vejo crescer nas declarações de paz.
E contudo eu gostaria
de que tuas profecias se cumprissem;
que estas coisas não fossem para mim,
mas pudessem acontecer
ao homem simples,
a esse que vai para a fábrica, de manhã,
e não sabe do mundo
para além do próprio quintal.
Segues com o dedo
a linha da vida
e vês tão claro
que por um instante me aborreço
e penso em me levantar.
Mas não quero te ferir.
Afagas minha mão
num gesto maternal
e me devolves ao mundo,
na certeza de que estou mais forte.
Não, eu não te direi nenhuma destas coisas,
porque lá fora os teus netos brincam
e a tarde, vista de tua janela,
promete não ser a última,
não pode ser a última.
E porque teus olhos
me pedem que acredite.
In: COSTA, Eduardo Alves da. No caminho, com Maiakóvski. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série O Tocador de Atabaqu
3 477
Domingos Carvalho da Silva
Com a Poesia no Cais
De macacão operário
e chave inglesa na mão,
convocarei a poesia
para um passeio ao crepúsculo
A Esfinge me escutará
no seu palácio de nuvens.
E sentirá a minha voz
acelerar o compasso
do seu coração de sol.
E descerá pela escada
dos raios rubros do poente.
E o seu hálito, como a brisa,
agitará meus cabelos.
Eu a olharei face a face
em sua alvura de morte.
E beijarei, como um tísico,
sua boca de esperança.
Depois tomarei seu braço
e a levarei — fria sombra! —
ver as pupilas sem luz
dos que naufragam na dor.
De macacão operário
trespassarei os portais
de velhos bairros obscuros.
E mostrarei à poesia
cortiços e lupanares.
Eu quero ver a Arte-Pura
estender sua mão à fome!
Que chegue às suas narinas
o aroma das privações!
Que sinta e aspire o hálito
da negra boca da noite,
dormindo nas casas tristes
onde a miséria desmaia.
Ó! a suprema poesia
que mora na flor de lótus!
A ninfa geraldiana,
a pura, a perfumadíssima!
Deixai-a ver esses negros
que puxam café no cais!
Deixai-a ver os tropeiros,
aradores e ferroviários!
Deixai-a entrar numa usina,
andar num trem de subúrbio
e ver saltar do andaime
para a morte, um operário!
Então a poesia pura,
de pés banhados em sangue,
sentirá que a luz da aurora
lhe circunda a fronte loura.
A brisa lhe afaga os seios
num sopro de humanidade.
E ela abrirá seus braços
de olhos fixos em Gomorra,
com o seu corpo de sal
suspenso acima da terra
e esta parindo à distância
o dia novo que nasce.
Publicado no livro Rosa extinta: poemas (1945).
In: SILVA, Domingos Carvalho da. Múltipla escolha. Introd. Diana Bernardes. Rio de Janeiro: J. Olympio; Brasília: INL, 1980
e chave inglesa na mão,
convocarei a poesia
para um passeio ao crepúsculo
A Esfinge me escutará
no seu palácio de nuvens.
E sentirá a minha voz
acelerar o compasso
do seu coração de sol.
E descerá pela escada
dos raios rubros do poente.
E o seu hálito, como a brisa,
agitará meus cabelos.
Eu a olharei face a face
em sua alvura de morte.
E beijarei, como um tísico,
sua boca de esperança.
Depois tomarei seu braço
e a levarei — fria sombra! —
ver as pupilas sem luz
dos que naufragam na dor.
De macacão operário
trespassarei os portais
de velhos bairros obscuros.
E mostrarei à poesia
cortiços e lupanares.
Eu quero ver a Arte-Pura
estender sua mão à fome!
Que chegue às suas narinas
o aroma das privações!
Que sinta e aspire o hálito
da negra boca da noite,
dormindo nas casas tristes
onde a miséria desmaia.
Ó! a suprema poesia
que mora na flor de lótus!
A ninfa geraldiana,
a pura, a perfumadíssima!
Deixai-a ver esses negros
que puxam café no cais!
Deixai-a ver os tropeiros,
aradores e ferroviários!
Deixai-a entrar numa usina,
andar num trem de subúrbio
e ver saltar do andaime
para a morte, um operário!
Então a poesia pura,
de pés banhados em sangue,
sentirá que a luz da aurora
lhe circunda a fronte loura.
A brisa lhe afaga os seios
num sopro de humanidade.
E ela abrirá seus braços
de olhos fixos em Gomorra,
com o seu corpo de sal
suspenso acima da terra
e esta parindo à distância
o dia novo que nasce.
Publicado no livro Rosa extinta: poemas (1945).
In: SILVA, Domingos Carvalho da. Múltipla escolha. Introd. Diana Bernardes. Rio de Janeiro: J. Olympio; Brasília: INL, 1980
2 172
Domingos Carvalho da Silva
Com a Poesia no Cais
De macacão operário
e chave inglesa na mão,
convocarei a poesia
para um passeio ao crepúsculo
A Esfinge me escutará
no seu palácio de nuvens.
E sentirá a minha voz
acelerar o compasso
do seu coração de sol.
E descerá pela escada
dos raios rubros do poente.
E o seu hálito, como a brisa,
agitará meus cabelos.
Eu a olharei face a face
em sua alvura de morte.
E beijarei, como um tísico,
sua boca de esperança.
Depois tomarei seu braço
e a levarei — fria sombra! —
ver as pupilas sem luz
dos que naufragam na dor.
De macacão operário
trespassarei os portais
de velhos bairros obscuros.
E mostrarei à poesia
cortiços e lupanares.
Eu quero ver a Arte-Pura
estender sua mão à fome!
Que chegue às suas narinas
o aroma das privações!
Que sinta e aspire o hálito
da negra boca da noite,
dormindo nas casas tristes
onde a miséria desmaia.
Ó! a suprema poesia
que mora na flor de lótus!
A ninfa geraldiana,
a pura, a perfumadíssima!
Deixai-a ver esses negros
que puxam café no cais!
Deixai-a ver os tropeiros,
aradores e ferroviários!
Deixai-a entrar numa usina,
andar num trem de subúrbio
e ver saltar do andaime
para a morte, um operário!
Então a poesia pura,
de pés banhados em sangue,
sentirá que a luz da aurora
lhe circunda a fronte loura.
A brisa lhe afaga os seios
num sopro de humanidade.
E ela abrirá seus braços
de olhos fixos em Gomorra,
com o seu corpo de sal
suspenso acima da terra
e esta parindo à distância
o dia novo que nasce.
Publicado no livro Rosa extinta: poemas (1945).
In: SILVA, Domingos Carvalho da. Múltipla escolha. Introd. Diana Bernardes. Rio de Janeiro: J. Olympio; Brasília: INL, 1980
e chave inglesa na mão,
convocarei a poesia
para um passeio ao crepúsculo
A Esfinge me escutará
no seu palácio de nuvens.
E sentirá a minha voz
acelerar o compasso
do seu coração de sol.
E descerá pela escada
dos raios rubros do poente.
E o seu hálito, como a brisa,
agitará meus cabelos.
Eu a olharei face a face
em sua alvura de morte.
E beijarei, como um tísico,
sua boca de esperança.
Depois tomarei seu braço
e a levarei — fria sombra! —
ver as pupilas sem luz
dos que naufragam na dor.
De macacão operário
trespassarei os portais
de velhos bairros obscuros.
E mostrarei à poesia
cortiços e lupanares.
Eu quero ver a Arte-Pura
estender sua mão à fome!
Que chegue às suas narinas
o aroma das privações!
Que sinta e aspire o hálito
da negra boca da noite,
dormindo nas casas tristes
onde a miséria desmaia.
Ó! a suprema poesia
que mora na flor de lótus!
A ninfa geraldiana,
a pura, a perfumadíssima!
Deixai-a ver esses negros
que puxam café no cais!
Deixai-a ver os tropeiros,
aradores e ferroviários!
Deixai-a entrar numa usina,
andar num trem de subúrbio
e ver saltar do andaime
para a morte, um operário!
Então a poesia pura,
de pés banhados em sangue,
sentirá que a luz da aurora
lhe circunda a fronte loura.
A brisa lhe afaga os seios
num sopro de humanidade.
E ela abrirá seus braços
de olhos fixos em Gomorra,
com o seu corpo de sal
suspenso acima da terra
e esta parindo à distância
o dia novo que nasce.
Publicado no livro Rosa extinta: poemas (1945).
In: SILVA, Domingos Carvalho da. Múltipla escolha. Introd. Diana Bernardes. Rio de Janeiro: J. Olympio; Brasília: INL, 1980
2 172
Domingos Carvalho da Silva
Com a Poesia no Cais
De macacão operário
e chave inglesa na mão,
convocarei a poesia
para um passeio ao crepúsculo
A Esfinge me escutará
no seu palácio de nuvens.
E sentirá a minha voz
acelerar o compasso
do seu coração de sol.
E descerá pela escada
dos raios rubros do poente.
E o seu hálito, como a brisa,
agitará meus cabelos.
Eu a olharei face a face
em sua alvura de morte.
E beijarei, como um tísico,
sua boca de esperança.
Depois tomarei seu braço
e a levarei — fria sombra! —
ver as pupilas sem luz
dos que naufragam na dor.
De macacão operário
trespassarei os portais
de velhos bairros obscuros.
E mostrarei à poesia
cortiços e lupanares.
Eu quero ver a Arte-Pura
estender sua mão à fome!
Que chegue às suas narinas
o aroma das privações!
Que sinta e aspire o hálito
da negra boca da noite,
dormindo nas casas tristes
onde a miséria desmaia.
Ó! a suprema poesia
que mora na flor de lótus!
A ninfa geraldiana,
a pura, a perfumadíssima!
Deixai-a ver esses negros
que puxam café no cais!
Deixai-a ver os tropeiros,
aradores e ferroviários!
Deixai-a entrar numa usina,
andar num trem de subúrbio
e ver saltar do andaime
para a morte, um operário!
Então a poesia pura,
de pés banhados em sangue,
sentirá que a luz da aurora
lhe circunda a fronte loura.
A brisa lhe afaga os seios
num sopro de humanidade.
E ela abrirá seus braços
de olhos fixos em Gomorra,
com o seu corpo de sal
suspenso acima da terra
e esta parindo à distância
o dia novo que nasce.
Publicado no livro Rosa extinta: poemas (1945).
In: SILVA, Domingos Carvalho da. Múltipla escolha. Introd. Diana Bernardes. Rio de Janeiro: J. Olympio; Brasília: INL, 1980
e chave inglesa na mão,
convocarei a poesia
para um passeio ao crepúsculo
A Esfinge me escutará
no seu palácio de nuvens.
E sentirá a minha voz
acelerar o compasso
do seu coração de sol.
E descerá pela escada
dos raios rubros do poente.
E o seu hálito, como a brisa,
agitará meus cabelos.
Eu a olharei face a face
em sua alvura de morte.
E beijarei, como um tísico,
sua boca de esperança.
Depois tomarei seu braço
e a levarei — fria sombra! —
ver as pupilas sem luz
dos que naufragam na dor.
De macacão operário
trespassarei os portais
de velhos bairros obscuros.
E mostrarei à poesia
cortiços e lupanares.
Eu quero ver a Arte-Pura
estender sua mão à fome!
Que chegue às suas narinas
o aroma das privações!
Que sinta e aspire o hálito
da negra boca da noite,
dormindo nas casas tristes
onde a miséria desmaia.
Ó! a suprema poesia
que mora na flor de lótus!
A ninfa geraldiana,
a pura, a perfumadíssima!
Deixai-a ver esses negros
que puxam café no cais!
Deixai-a ver os tropeiros,
aradores e ferroviários!
Deixai-a entrar numa usina,
andar num trem de subúrbio
e ver saltar do andaime
para a morte, um operário!
Então a poesia pura,
de pés banhados em sangue,
sentirá que a luz da aurora
lhe circunda a fronte loura.
A brisa lhe afaga os seios
num sopro de humanidade.
E ela abrirá seus braços
de olhos fixos em Gomorra,
com o seu corpo de sal
suspenso acima da terra
e esta parindo à distância
o dia novo que nasce.
Publicado no livro Rosa extinta: poemas (1945).
In: SILVA, Domingos Carvalho da. Múltipla escolha. Introd. Diana Bernardes. Rio de Janeiro: J. Olympio; Brasília: INL, 1980
2 172
Marcus Accioly
LXXIX - Do Meio-Termo
Cortador de cana,
não me cortes, não,
que eu não sou sozinho
mas um batalhão.
Capineiro, acorda,
desce dessa rede,
desenterra a moça
do cabelo verde.
Casa-de-farinha,
roda o caititu,
ai, cuia do céu,
lua de beiju.
Xô-xô-xô, galinha,
crista de crueira,
teus ovos são seixos,
pedras da ladeira.
Cuche-cuche, porco,
lambuzado em mel,
troco a tua argola
pelo meu anel.
Cambiteiro velho,
leva no teu burro
esse Bicho brabo
que morreu de murro.
In: ACCIOLY, Marcus. Guriatã: um cordel para menino. II. José Cavalcanti e Ferreira [Dila]. 2.ed. São Paulo: Melhoramentos, 1988. p.150-151. (Série biblioteca juvenil
não me cortes, não,
que eu não sou sozinho
mas um batalhão.
Capineiro, acorda,
desce dessa rede,
desenterra a moça
do cabelo verde.
Casa-de-farinha,
roda o caititu,
ai, cuia do céu,
lua de beiju.
Xô-xô-xô, galinha,
crista de crueira,
teus ovos são seixos,
pedras da ladeira.
Cuche-cuche, porco,
lambuzado em mel,
troco a tua argola
pelo meu anel.
Cambiteiro velho,
leva no teu burro
esse Bicho brabo
que morreu de murro.
In: ACCIOLY, Marcus. Guriatã: um cordel para menino. II. José Cavalcanti e Ferreira [Dila]. 2.ed. São Paulo: Melhoramentos, 1988. p.150-151. (Série biblioteca juvenil
1 472
Marcus Accioly
LXXIX - Do Meio-Termo
Cortador de cana,
não me cortes, não,
que eu não sou sozinho
mas um batalhão.
Capineiro, acorda,
desce dessa rede,
desenterra a moça
do cabelo verde.
Casa-de-farinha,
roda o caititu,
ai, cuia do céu,
lua de beiju.
Xô-xô-xô, galinha,
crista de crueira,
teus ovos são seixos,
pedras da ladeira.
Cuche-cuche, porco,
lambuzado em mel,
troco a tua argola
pelo meu anel.
Cambiteiro velho,
leva no teu burro
esse Bicho brabo
que morreu de murro.
In: ACCIOLY, Marcus. Guriatã: um cordel para menino. II. José Cavalcanti e Ferreira [Dila]. 2.ed. São Paulo: Melhoramentos, 1988. p.150-151. (Série biblioteca juvenil
não me cortes, não,
que eu não sou sozinho
mas um batalhão.
Capineiro, acorda,
desce dessa rede,
desenterra a moça
do cabelo verde.
Casa-de-farinha,
roda o caititu,
ai, cuia do céu,
lua de beiju.
Xô-xô-xô, galinha,
crista de crueira,
teus ovos são seixos,
pedras da ladeira.
Cuche-cuche, porco,
lambuzado em mel,
troco a tua argola
pelo meu anel.
Cambiteiro velho,
leva no teu burro
esse Bicho brabo
que morreu de murro.
In: ACCIOLY, Marcus. Guriatã: um cordel para menino. II. José Cavalcanti e Ferreira [Dila]. 2.ed. São Paulo: Melhoramentos, 1988. p.150-151. (Série biblioteca juvenil
1 472
Carlos Frydman
Viaduto do Chá
"E me largo desarmado nos transes da enorme cidade."
(Mário de Andrade)
IV
Perpassam, o viaduto
carrancas petrificadas em carnes rijas,
sorrisos sofridos deflagram estigmas
de alegrias pálidas e seriedades temerárias.
Viaduto,
destino impingido, caminho sem escolha,
ultrajante travessia,
aorta da evasão,
perdição de filosofias e blasfêmias;
patamar das discordâncias unissonantes,
murmúrios monocórdios de vulcões soterrados.
Viaduto,
inabalável frieza de serventia petrificada,
estático aos retornos inevitáveis,
de sobreviventes desfalcados, diuturnos.
Mas, se no ímpio transcurso
alguém salta do viaduto,
já não é mais drama:
faz parte do panorama.
Domingo, o viaduto será belo e ameno
em sua feição exata e domingueira.
Na segunda, a vida desfilará desvivida.
In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
(Mário de Andrade)
IV
Perpassam, o viaduto
carrancas petrificadas em carnes rijas,
sorrisos sofridos deflagram estigmas
de alegrias pálidas e seriedades temerárias.
Viaduto,
destino impingido, caminho sem escolha,
ultrajante travessia,
aorta da evasão,
perdição de filosofias e blasfêmias;
patamar das discordâncias unissonantes,
murmúrios monocórdios de vulcões soterrados.
Viaduto,
inabalável frieza de serventia petrificada,
estático aos retornos inevitáveis,
de sobreviventes desfalcados, diuturnos.
Mas, se no ímpio transcurso
alguém salta do viaduto,
já não é mais drama:
faz parte do panorama.
Domingo, o viaduto será belo e ameno
em sua feição exata e domingueira.
Na segunda, a vida desfilará desvivida.
In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
1 300
João Cabral de Melo Neto
O Sim Contra o Sim (Serial)
(...)
Miró sentia a mão direita
demasiado sábia
e que de saber tanto
já não podia inventar nada.
Quis então que desaprendesse
o muito que aprendera,
a fim de reencontrar
a linha ainda fresca da esquerda.
Pois que ela não pôde, ele pôs-se
a desenhar com esta
até que, se operando,
no braço direito ele a enxerta.
A esquerda (se não se é canhoto)
é mão sem habilidade:
reaprende a cada linha,
cada instante, a recomeçar-se.
(...)
A Felix de Athayde
Cesário Verde usava a tinta
de forma singular:
não para colorir,
apesar da cor que nele há.
Talvez que nem usasse tinta,
somente água clara,
aquela água de vidro
que se vê percorrer a Arcádia.
Certo, não escrevia com ela,
ou escrevia lavando:
relavava, enxaguava
seu mundo em sábado de banho.
Assim chegou aos tons opostos
das maçãs que contou:
rubras dentro da cesta
de quem no rosto as tem sem cor.
Augusto dos Anjos não tinha
dessa tinta água clara.
Se água, do Paraíba
nordestino, que ignora a Fábula.
Tais águas não são lavadeiras,
deixam tudo encardido:
o vermelho das chitas
ou o reluzente dos estilos.
E quando usadas como tinta
escrevem negro tudo:
dão um mundo velado
por véus de lama, véus de luto.
Donde decerto o timbre fúnebre,
dureza da pisada,
geometria de enterro
de sua poesia enfileirada.
(...)
In: Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.297-300. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira)
MOVIMENTOS LITERÁRIOS
1945/1962 - Modernismo (Terceira Geração)
TRAÇOS FORMAIS:
Quadra
Verso Branc
Miró sentia a mão direita
demasiado sábia
e que de saber tanto
já não podia inventar nada.
Quis então que desaprendesse
o muito que aprendera,
a fim de reencontrar
a linha ainda fresca da esquerda.
Pois que ela não pôde, ele pôs-se
a desenhar com esta
até que, se operando,
no braço direito ele a enxerta.
A esquerda (se não se é canhoto)
é mão sem habilidade:
reaprende a cada linha,
cada instante, a recomeçar-se.
(...)
A Felix de Athayde
Cesário Verde usava a tinta
de forma singular:
não para colorir,
apesar da cor que nele há.
Talvez que nem usasse tinta,
somente água clara,
aquela água de vidro
que se vê percorrer a Arcádia.
Certo, não escrevia com ela,
ou escrevia lavando:
relavava, enxaguava
seu mundo em sábado de banho.
Assim chegou aos tons opostos
das maçãs que contou:
rubras dentro da cesta
de quem no rosto as tem sem cor.
Augusto dos Anjos não tinha
dessa tinta água clara.
Se água, do Paraíba
nordestino, que ignora a Fábula.
Tais águas não são lavadeiras,
deixam tudo encardido:
o vermelho das chitas
ou o reluzente dos estilos.
E quando usadas como tinta
escrevem negro tudo:
dão um mundo velado
por véus de lama, véus de luto.
Donde decerto o timbre fúnebre,
dureza da pisada,
geometria de enterro
de sua poesia enfileirada.
(...)
In: Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.297-300. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira)
MOVIMENTOS LITERÁRIOS
1945/1962 - Modernismo (Terceira Geração)
TRAÇOS FORMAIS:
Quadra
Verso Branc
6 718
Sosigenes Costa
Índio Bom é Índio Morto
"Índio bom é índio morto",
pensamento natural
de quem se apossou do porto
desta Índia Ocidental.
O cristão é que é a bondade.
Vivo ou morto. É natural.
Na estrita fidelidade
a Cristo e a seu ideal,
o seu sonho de bondade
é espalhar a caridade,
a pureza e a santidade
nesta Índia Ocidental.
Sonho de luz, em verdade,
sonho de santo e de frade
é o que empolga a cristandade
trazendo para este porto
a armada do Santo Graal.
Mas o índio fica absorto,
vendo esta armada no porto,
ante o ditado fatal:
"Índio bom é índio morto".
Burilado em ouro e jade,
esse conceito fatal
é um ruim verso de jade
da epopéia ocidental.
(1956)
Publicado no livro Obra Poética (1958).
In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
pensamento natural
de quem se apossou do porto
desta Índia Ocidental.
O cristão é que é a bondade.
Vivo ou morto. É natural.
Na estrita fidelidade
a Cristo e a seu ideal,
o seu sonho de bondade
é espalhar a caridade,
a pureza e a santidade
nesta Índia Ocidental.
Sonho de luz, em verdade,
sonho de santo e de frade
é o que empolga a cristandade
trazendo para este porto
a armada do Santo Graal.
Mas o índio fica absorto,
vendo esta armada no porto,
ante o ditado fatal:
"Índio bom é índio morto".
Burilado em ouro e jade,
esse conceito fatal
é um ruim verso de jade
da epopéia ocidental.
(1956)
Publicado no livro Obra Poética (1958).
In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
1 912