Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Cassiano Ricardo
Retorno à Rua
I
Turba-multa multicor. Em tumulto.
O ideal e a fome reunidos
em algum lugar da terra na rua.
Contra a exploração do osso humano
pelo cachorro humano.
Subvivos, no anseio de sobreviver.
O povo
na rua.
E já os policiais, geometricamente
chovidos de botões de ouro, na mão
a metralhadora portátil,
leve e breve;
na rua.
Vultos baralhados cuspindo furiosas
sílabas de sangue, uns na
face dos outros
de um a outro lado
da rua.
Bairro contra bairro, relâmpagos
de fuzis e o saldo:
(rubras rosas
monstruosas) que desabrocharam
na rua.
Bocas sem lábios que ficaram rindo
na rua
Dedos brotando avulsos pelos
vãos dos sapatos
na rua.
Olhos parados no rosto das calçadas
máquinas azuis-fixas fotografando
o juízo final
na rua.
Braços com mãos despetaladas, sem
uma cabeça que lhes sirva de
lanterna
e os recomponha,
na rua.
O interrogatório. Os sobreviventes.
Pedregulhos nos olhos.
Salvos
à fúria bélico-purpúrea da lei
na rua.
II
Outro saldo: o dos sobreviventes
indignos. Os que não saíram
de casa.
Os que faltaram a seus compr'
omissos
com a rua.
Os omissos.
In: RICARDO, Cassiano. Os sobreviventes: acompanhados de um poema circunstancial e de uma tradução. Pref. Eduardo Portella. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1971. p.184-185. Poema integrante da série O Bloco dos Suicidas
Turba-multa multicor. Em tumulto.
O ideal e a fome reunidos
em algum lugar da terra na rua.
Contra a exploração do osso humano
pelo cachorro humano.
Subvivos, no anseio de sobreviver.
O povo
na rua.
E já os policiais, geometricamente
chovidos de botões de ouro, na mão
a metralhadora portátil,
leve e breve;
na rua.
Vultos baralhados cuspindo furiosas
sílabas de sangue, uns na
face dos outros
de um a outro lado
da rua.
Bairro contra bairro, relâmpagos
de fuzis e o saldo:
(rubras rosas
monstruosas) que desabrocharam
na rua.
Bocas sem lábios que ficaram rindo
na rua
Dedos brotando avulsos pelos
vãos dos sapatos
na rua.
Olhos parados no rosto das calçadas
máquinas azuis-fixas fotografando
o juízo final
na rua.
Braços com mãos despetaladas, sem
uma cabeça que lhes sirva de
lanterna
e os recomponha,
na rua.
O interrogatório. Os sobreviventes.
Pedregulhos nos olhos.
Salvos
à fúria bélico-purpúrea da lei
na rua.
II
Outro saldo: o dos sobreviventes
indignos. Os que não saíram
de casa.
Os que faltaram a seus compr'
omissos
com a rua.
Os omissos.
In: RICARDO, Cassiano. Os sobreviventes: acompanhados de um poema circunstancial e de uma tradução. Pref. Eduardo Portella. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1971. p.184-185. Poema integrante da série O Bloco dos Suicidas
2 220
Cassiano Ricardo
Retorno à Rua
I
Turba-multa multicor. Em tumulto.
O ideal e a fome reunidos
em algum lugar da terra na rua.
Contra a exploração do osso humano
pelo cachorro humano.
Subvivos, no anseio de sobreviver.
O povo
na rua.
E já os policiais, geometricamente
chovidos de botões de ouro, na mão
a metralhadora portátil,
leve e breve;
na rua.
Vultos baralhados cuspindo furiosas
sílabas de sangue, uns na
face dos outros
de um a outro lado
da rua.
Bairro contra bairro, relâmpagos
de fuzis e o saldo:
(rubras rosas
monstruosas) que desabrocharam
na rua.
Bocas sem lábios que ficaram rindo
na rua
Dedos brotando avulsos pelos
vãos dos sapatos
na rua.
Olhos parados no rosto das calçadas
máquinas azuis-fixas fotografando
o juízo final
na rua.
Braços com mãos despetaladas, sem
uma cabeça que lhes sirva de
lanterna
e os recomponha,
na rua.
O interrogatório. Os sobreviventes.
Pedregulhos nos olhos.
Salvos
à fúria bélico-purpúrea da lei
na rua.
II
Outro saldo: o dos sobreviventes
indignos. Os que não saíram
de casa.
Os que faltaram a seus compr'
omissos
com a rua.
Os omissos.
In: RICARDO, Cassiano. Os sobreviventes: acompanhados de um poema circunstancial e de uma tradução. Pref. Eduardo Portella. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1971. p.184-185. Poema integrante da série O Bloco dos Suicidas
Turba-multa multicor. Em tumulto.
O ideal e a fome reunidos
em algum lugar da terra na rua.
Contra a exploração do osso humano
pelo cachorro humano.
Subvivos, no anseio de sobreviver.
O povo
na rua.
E já os policiais, geometricamente
chovidos de botões de ouro, na mão
a metralhadora portátil,
leve e breve;
na rua.
Vultos baralhados cuspindo furiosas
sílabas de sangue, uns na
face dos outros
de um a outro lado
da rua.
Bairro contra bairro, relâmpagos
de fuzis e o saldo:
(rubras rosas
monstruosas) que desabrocharam
na rua.
Bocas sem lábios que ficaram rindo
na rua
Dedos brotando avulsos pelos
vãos dos sapatos
na rua.
Olhos parados no rosto das calçadas
máquinas azuis-fixas fotografando
o juízo final
na rua.
Braços com mãos despetaladas, sem
uma cabeça que lhes sirva de
lanterna
e os recomponha,
na rua.
O interrogatório. Os sobreviventes.
Pedregulhos nos olhos.
Salvos
à fúria bélico-purpúrea da lei
na rua.
II
Outro saldo: o dos sobreviventes
indignos. Os que não saíram
de casa.
Os que faltaram a seus compr'
omissos
com a rua.
Os omissos.
In: RICARDO, Cassiano. Os sobreviventes: acompanhados de um poema circunstancial e de uma tradução. Pref. Eduardo Portella. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1971. p.184-185. Poema integrante da série O Bloco dos Suicidas
2 220
Murillo Mendes
Homenagem a Oswaldo Goeldi
Oswaldo gravas:
A ti mesmo fiel, ao teu ofício,
Gravas a pobreza, o vento, a dissonância,
A rude comunhão dos homens no trabalho.
Gravas o abandonado, o triste, o único,
O peixe que te mira quase humano
— É hora de morrer —
No preto e branco, no vermelho e verde.
Qualquer traço perdido,
A casa que espia pelo olho-de-boi
Testemunha de drama anônimo.
Gravas a nuvem, o balaio,
O geleiro e seus estilhaços.
O choque em diagonal de guarda-chuvas,
Tudo o que é rejeitado, elementos marginais,
A metade dum astro que se despe
Amado só do penúltimo vadio.
Oswaldo gravas,
Gravas qualquer solidão.
Os peixeiros que partilham peixe e onda,
Pássaros de solidões de água e mato,
O sinaleiro do temporal próximo,
A barca puxada pela sirga,
O bêbedo e seu solilóquio,
A chuva e seus túneis,
O mergulho em tesoura da gaivota.
És do sol posto, da esquina,
Do Leblon e do uivo da noite.
Não sujeitas o desenho à gravação:
Liberaste as duas forças.
Atingindo agora a unidade,
Pela natureza visionária
E pelo severo ofício
A tortura dominando,
Silêncio e solidão
Oswaldo gravas.
Poema integrante da série Parábola, 1946/1952.
In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 195
A ti mesmo fiel, ao teu ofício,
Gravas a pobreza, o vento, a dissonância,
A rude comunhão dos homens no trabalho.
Gravas o abandonado, o triste, o único,
O peixe que te mira quase humano
— É hora de morrer —
No preto e branco, no vermelho e verde.
Qualquer traço perdido,
A casa que espia pelo olho-de-boi
Testemunha de drama anônimo.
Gravas a nuvem, o balaio,
O geleiro e seus estilhaços.
O choque em diagonal de guarda-chuvas,
Tudo o que é rejeitado, elementos marginais,
A metade dum astro que se despe
Amado só do penúltimo vadio.
Oswaldo gravas,
Gravas qualquer solidão.
Os peixeiros que partilham peixe e onda,
Pássaros de solidões de água e mato,
O sinaleiro do temporal próximo,
A barca puxada pela sirga,
O bêbedo e seu solilóquio,
A chuva e seus túneis,
O mergulho em tesoura da gaivota.
És do sol posto, da esquina,
Do Leblon e do uivo da noite.
Não sujeitas o desenho à gravação:
Liberaste as duas forças.
Atingindo agora a unidade,
Pela natureza visionária
E pelo severo ofício
A tortura dominando,
Silêncio e solidão
Oswaldo gravas.
Poema integrante da série Parábola, 1946/1952.
In: MENDES, Murilo. Poesias, 1925/1955. Rio de Janeiro: J. Olympio, 195
1 708
Henriqueta Lisboa
Depois da Opção
Um reposteiro o mais espesso
caia sobre a tragédia dos Andes.
Os que a viveram não falem.
A língua que provou a carne
de seus irmãos emudeça
da mais humana miséria
para não se desnaturar
em sem remédio
depois da opção
Em estátuas de pedra
se transformem os seres
que amargaram a ponto
de negação a si mesmo
imprensados
entre o vulcão de sangue
e a geleira: fantasmas
caminhando brancas nódoas
negras hóstias em travo
depois da opção.
A dor de quem viu palpou
compreendeu e perdoou
o que a si próprio não
se perdoaria é covardia.
Heróica é a dor dos que sofrem
não pela fome ou sede ou frio
ou cegueira que sofreram
mas pela crua memória
do jamais deglutido
nos desvãos ruminando
entre a alma e os ossos
depois da opção.
Publicado no livro Miradouro e Outros Poemas (1976). Poema integrante da série Miradouro, 1968/1974.
In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
caia sobre a tragédia dos Andes.
Os que a viveram não falem.
A língua que provou a carne
de seus irmãos emudeça
da mais humana miséria
para não se desnaturar
em sem remédio
depois da opção
Em estátuas de pedra
se transformem os seres
que amargaram a ponto
de negação a si mesmo
imprensados
entre o vulcão de sangue
e a geleira: fantasmas
caminhando brancas nódoas
negras hóstias em travo
depois da opção.
A dor de quem viu palpou
compreendeu e perdoou
o que a si próprio não
se perdoaria é covardia.
Heróica é a dor dos que sofrem
não pela fome ou sede ou frio
ou cegueira que sofreram
mas pela crua memória
do jamais deglutido
nos desvãos ruminando
entre a alma e os ossos
depois da opção.
Publicado no livro Miradouro e Outros Poemas (1976). Poema integrante da série Miradouro, 1968/1974.
In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
1 579
Geir Campos
Lamento pela Ilha Fernando de Noronha
Amei-te sempre como a um cão de guarda
simplório e manso na calçada azul
de minha pátria pouco afeita à guerra:
se vai passando alguma nau ligeira
ou ligeiro avião, teu leve sono
quase vigília as pálpebras descerra
— tal o cachorro atento, ao pé do dono —
mas reconhece o amigo e a mesma paz
pousa na cruz dos rumos cardinais...
Querem-te entanto por mastim nervoso
com intranquilas orelhas de arame
girando sobre a rosa dos caminhos:
desconfiarás, servindo a gente estranha,
do azul celeste e desse azul mais fundo
que há séculos de séculos te banha.
Já te imagino triste bicho acuado
no mapa e no binóculo, adivinho
tua pétrea epiderme aberta ao berne
da guerra e seus petrechos e pretextos:
se algum dos teus se aproximar à antiga,
já te escuto ladrar "são inimigos"...
Assim te ensinam e hás de aprender bem,
pois esse é um dom que os mercenários têm.
Publicado no livro Operário do canto (1959).
In: CAMPOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
simplório e manso na calçada azul
de minha pátria pouco afeita à guerra:
se vai passando alguma nau ligeira
ou ligeiro avião, teu leve sono
quase vigília as pálpebras descerra
— tal o cachorro atento, ao pé do dono —
mas reconhece o amigo e a mesma paz
pousa na cruz dos rumos cardinais...
Querem-te entanto por mastim nervoso
com intranquilas orelhas de arame
girando sobre a rosa dos caminhos:
desconfiarás, servindo a gente estranha,
do azul celeste e desse azul mais fundo
que há séculos de séculos te banha.
Já te imagino triste bicho acuado
no mapa e no binóculo, adivinho
tua pétrea epiderme aberta ao berne
da guerra e seus petrechos e pretextos:
se algum dos teus se aproximar à antiga,
já te escuto ladrar "são inimigos"...
Assim te ensinam e hás de aprender bem,
pois esse é um dom que os mercenários têm.
Publicado no livro Operário do canto (1959).
In: CAMPOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
1 169
Geir Campos
Lamento pela Ilha Fernando de Noronha
Amei-te sempre como a um cão de guarda
simplório e manso na calçada azul
de minha pátria pouco afeita à guerra:
se vai passando alguma nau ligeira
ou ligeiro avião, teu leve sono
quase vigília as pálpebras descerra
— tal o cachorro atento, ao pé do dono —
mas reconhece o amigo e a mesma paz
pousa na cruz dos rumos cardinais...
Querem-te entanto por mastim nervoso
com intranquilas orelhas de arame
girando sobre a rosa dos caminhos:
desconfiarás, servindo a gente estranha,
do azul celeste e desse azul mais fundo
que há séculos de séculos te banha.
Já te imagino triste bicho acuado
no mapa e no binóculo, adivinho
tua pétrea epiderme aberta ao berne
da guerra e seus petrechos e pretextos:
se algum dos teus se aproximar à antiga,
já te escuto ladrar "são inimigos"...
Assim te ensinam e hás de aprender bem,
pois esse é um dom que os mercenários têm.
Publicado no livro Operário do canto (1959).
In: CAMPOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
simplório e manso na calçada azul
de minha pátria pouco afeita à guerra:
se vai passando alguma nau ligeira
ou ligeiro avião, teu leve sono
quase vigília as pálpebras descerra
— tal o cachorro atento, ao pé do dono —
mas reconhece o amigo e a mesma paz
pousa na cruz dos rumos cardinais...
Querem-te entanto por mastim nervoso
com intranquilas orelhas de arame
girando sobre a rosa dos caminhos:
desconfiarás, servindo a gente estranha,
do azul celeste e desse azul mais fundo
que há séculos de séculos te banha.
Já te imagino triste bicho acuado
no mapa e no binóculo, adivinho
tua pétrea epiderme aberta ao berne
da guerra e seus petrechos e pretextos:
se algum dos teus se aproximar à antiga,
já te escuto ladrar "são inimigos"...
Assim te ensinam e hás de aprender bem,
pois esse é um dom que os mercenários têm.
Publicado no livro Operário do canto (1959).
In: CAMPOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
1 169
Ascenso Ferreira
A Pega do Boi
A rês tresmalhada
ouviu na quebrada,
soar a toada,
de alguém que aboiou:
— Hô — hô — hô — hô — hô,
Vaá!
Meu boi Surubim!
Boi!
Boiato!
E, logo espantada,
sentindo a laçada,
no mato embocou...
Atrás, o vaqueiro,
montando o "Veleiro"
também mergulhou...
Os casco nas pedras
davam cada risco
que só o corisco
de noite no céu...
Saltaram valados,
subriam oiteiros,
pisaram faxeiros
e mandacarus...
Até que enfim...
No Jatobá
do Catolé,
bem junto a um pé
de oiticoró,
já do Exu
na direção...
— O rabo da bicha reteve na mão!
Poeiriço danado e dois vultos no chão)
.......................................
Mas, baixa a poeira,
a res mandingueira
por terra ficou...
E um grito de glória
no espaço vibrou:
— Hô — hô — hô — hô — hô,
Váá!
Meu boi Surubim!
Boi!
Boiato!
Publicado no livro Cana caiana (1939).
In: FERREIRA, Ascenso. Poemas: Catimbó, Cana Caiana, Xenhenhém. Il. por 20 artistas plásticos pernambucanos. Recife: Nordestal, 198
ouviu na quebrada,
soar a toada,
de alguém que aboiou:
— Hô — hô — hô — hô — hô,
Vaá!
Meu boi Surubim!
Boi!
Boiato!
E, logo espantada,
sentindo a laçada,
no mato embocou...
Atrás, o vaqueiro,
montando o "Veleiro"
também mergulhou...
Os casco nas pedras
davam cada risco
que só o corisco
de noite no céu...
Saltaram valados,
subriam oiteiros,
pisaram faxeiros
e mandacarus...
Até que enfim...
No Jatobá
do Catolé,
bem junto a um pé
de oiticoró,
já do Exu
na direção...
— O rabo da bicha reteve na mão!
Poeiriço danado e dois vultos no chão)
.......................................
Mas, baixa a poeira,
a res mandingueira
por terra ficou...
E um grito de glória
no espaço vibrou:
— Hô — hô — hô — hô — hô,
Váá!
Meu boi Surubim!
Boi!
Boiato!
Publicado no livro Cana caiana (1939).
In: FERREIRA, Ascenso. Poemas: Catimbó, Cana Caiana, Xenhenhém. Il. por 20 artistas plásticos pernambucanos. Recife: Nordestal, 198
2 823
Henriqueta Lisboa
Caboclo-d'Água
Caboclo-d'água Ô
caboclo-d'água.
Caboclo-d'água
vem de noite
— assombração.
Caboclo-d'água
molengão
tocando viola.
Caboclo-d'água
vá-se embora
vá-se embora
caboclo-d'àgua
não me chame
não!
A chuva é muita
sobe o rio
no barranco.
O vento chora
mais que reza
uma oração.
Acende a vela
minha gente,
eu tenho medo.
Eu tenho medo
de afogar
na escuridão.
Publicado no livro O Menino Poeta (1943).
In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 1985. p.87-8
caboclo-d'água.
Caboclo-d'água
vem de noite
— assombração.
Caboclo-d'água
molengão
tocando viola.
Caboclo-d'água
vá-se embora
vá-se embora
caboclo-d'àgua
não me chame
não!
A chuva é muita
sobe o rio
no barranco.
O vento chora
mais que reza
uma oração.
Acende a vela
minha gente,
eu tenho medo.
Eu tenho medo
de afogar
na escuridão.
Publicado no livro O Menino Poeta (1943).
In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 1985. p.87-8
2 407
Ascenso Ferreira
Toré
Os dois maracás,
um fino e outro grosso,
fazem alvoroço
nas mãos do Pajé:
— Toré!
— Toré!
Bambus enfeitados,
compridos e ocos,
produzem sons roucos
de querequexé!
— Toré!
— Toré!
Lá vem a asa-branca,
no espaço voando,
vem alto, gritando...
— Meus Deus, o que é?
— Toré!
— Toré!
— É o Caracará
que está na floresta,
vai ver minha besta
de pau catolé...
— Toré!
— Toré!
Cabocla bonita,
do passo quebrado,
teu beiço encarnado,
parece um café
— Toré!
— Toré!
Pra te ver, cabocla!
na minha maloca,
fiando na roça,
torrando pipoca,
eu entro na toca
e mato onça a quicé!
— Toré!
— Toré!
Publicado no livro Cana caiana (1939).
In: FERREIRA, Ascenso. Poemas: Catimbó, Cana Caiana, Xenhenhém. Il. por 20 artistas plásticos pernambucanos. Recife: Nordestal, 198
um fino e outro grosso,
fazem alvoroço
nas mãos do Pajé:
— Toré!
— Toré!
Bambus enfeitados,
compridos e ocos,
produzem sons roucos
de querequexé!
— Toré!
— Toré!
Lá vem a asa-branca,
no espaço voando,
vem alto, gritando...
— Meus Deus, o que é?
— Toré!
— Toré!
— É o Caracará
que está na floresta,
vai ver minha besta
de pau catolé...
— Toré!
— Toré!
Cabocla bonita,
do passo quebrado,
teu beiço encarnado,
parece um café
— Toré!
— Toré!
Pra te ver, cabocla!
na minha maloca,
fiando na roça,
torrando pipoca,
eu entro na toca
e mato onça a quicé!
— Toré!
— Toré!
Publicado no livro Cana caiana (1939).
In: FERREIRA, Ascenso. Poemas: Catimbó, Cana Caiana, Xenhenhém. Il. por 20 artistas plásticos pernambucanos. Recife: Nordestal, 198
2 581
Geir Campos
8a Cantiga de Acordar Mulher
Vozes da esquerda, surdas,
e vozes da direita, afinadíssimas,
hão de louvar-te a arte
de ser mulher:
mansa como uma ovelha,
jeitosa como uma gata de luxo,
dócil e generosa como uma árvore
a se multiplicar em sombra e frutos,
como uma estátua impassível,
hábil de acordo com as conveniências,
e acima disso
crente em ser esse o teu ideal de vida...
Acorda: pois foi essa
a sorte que escolheste?
Publicado no livro Cantigas de acordar mulher (1964).
In: CAMPOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
e vozes da direita, afinadíssimas,
hão de louvar-te a arte
de ser mulher:
mansa como uma ovelha,
jeitosa como uma gata de luxo,
dócil e generosa como uma árvore
a se multiplicar em sombra e frutos,
como uma estátua impassível,
hábil de acordo com as conveniências,
e acima disso
crente em ser esse o teu ideal de vida...
Acorda: pois foi essa
a sorte que escolheste?
Publicado no livro Cantigas de acordar mulher (1964).
In: CAMPOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
1 280
Geir Campos
8a Cantiga de Acordar Mulher
Vozes da esquerda, surdas,
e vozes da direita, afinadíssimas,
hão de louvar-te a arte
de ser mulher:
mansa como uma ovelha,
jeitosa como uma gata de luxo,
dócil e generosa como uma árvore
a se multiplicar em sombra e frutos,
como uma estátua impassível,
hábil de acordo com as conveniências,
e acima disso
crente em ser esse o teu ideal de vida...
Acorda: pois foi essa
a sorte que escolheste?
Publicado no livro Cantigas de acordar mulher (1964).
In: CAMPOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
e vozes da direita, afinadíssimas,
hão de louvar-te a arte
de ser mulher:
mansa como uma ovelha,
jeitosa como uma gata de luxo,
dócil e generosa como uma árvore
a se multiplicar em sombra e frutos,
como uma estátua impassível,
hábil de acordo com as conveniências,
e acima disso
crente em ser esse o teu ideal de vida...
Acorda: pois foi essa
a sorte que escolheste?
Publicado no livro Cantigas de acordar mulher (1964).
In: CAMPOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
1 280
Junqueira Freire
Vai
Vai, maldita, vai, víbora sangrenta,
Mulher impura, e ávida de infâmias!
O mundo é amplo: arroja-te em seu gúrgite.
Mereces bem seu lodo.
(...)
Vai, desgraçada, vai. Farta-te em crimes,
Sacia as garras, cobre-te de sangue
É esse o gênio teu. Corre, — que eu vejo
Teu exemplar castigo.
Vai, desgraçada, vai. Riso da plebe,
Indigna até de maldições severas,
Hei de ver-te amanhã pedindo um óbolo,
Errando pelas praças.
E adornada de fétidos andrajos,
A mão leprosa estenderás, ao ver-me,
E a boca túmida abrirás mendiga,
Pedindo-me uma esmola.
E eu com o nobre olhar que já receias,
Hei de talvez passar sereno e alegre,
Ou, tremendo tocar-te as mãos imundas,
Jogar-te algum dinheiro.
Tal é minha vingança. A ouvir-me agora,
Um riso, um riso estólido desprendes.
Ah! tu não crês ainda na justiça
Do Deus que nos escuta!
Ri-te outra vez de minhas frases duras!
Sim: tens razão, incrédula. — Mas corre,
Corre depressa, — que amanhã teu riso
Já não será tão grande.
Vai, maldita, vai, víbora sangrenta,
Mulher impura, e ávida de infâmias!
O mundo é amplo, arroja-te em seu gúrgite,
Mereces bem seu lodo.
Publicado no livro Obras Póstumas (1868*). Poema integrante da série Contradições Poéticas.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.6
Mulher impura, e ávida de infâmias!
O mundo é amplo: arroja-te em seu gúrgite.
Mereces bem seu lodo.
(...)
Vai, desgraçada, vai. Farta-te em crimes,
Sacia as garras, cobre-te de sangue
É esse o gênio teu. Corre, — que eu vejo
Teu exemplar castigo.
Vai, desgraçada, vai. Riso da plebe,
Indigna até de maldições severas,
Hei de ver-te amanhã pedindo um óbolo,
Errando pelas praças.
E adornada de fétidos andrajos,
A mão leprosa estenderás, ao ver-me,
E a boca túmida abrirás mendiga,
Pedindo-me uma esmola.
E eu com o nobre olhar que já receias,
Hei de talvez passar sereno e alegre,
Ou, tremendo tocar-te as mãos imundas,
Jogar-te algum dinheiro.
Tal é minha vingança. A ouvir-me agora,
Um riso, um riso estólido desprendes.
Ah! tu não crês ainda na justiça
Do Deus que nos escuta!
Ri-te outra vez de minhas frases duras!
Sim: tens razão, incrédula. — Mas corre,
Corre depressa, — que amanhã teu riso
Já não será tão grande.
Vai, maldita, vai, víbora sangrenta,
Mulher impura, e ávida de infâmias!
O mundo é amplo, arroja-te em seu gúrgite,
Mereces bem seu lodo.
Publicado no livro Obras Póstumas (1868*). Poema integrante da série Contradições Poéticas.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.6
5 432
Junqueira Freire
Vai
Vai, maldita, vai, víbora sangrenta,
Mulher impura, e ávida de infâmias!
O mundo é amplo: arroja-te em seu gúrgite.
Mereces bem seu lodo.
(...)
Vai, desgraçada, vai. Farta-te em crimes,
Sacia as garras, cobre-te de sangue
É esse o gênio teu. Corre, — que eu vejo
Teu exemplar castigo.
Vai, desgraçada, vai. Riso da plebe,
Indigna até de maldições severas,
Hei de ver-te amanhã pedindo um óbolo,
Errando pelas praças.
E adornada de fétidos andrajos,
A mão leprosa estenderás, ao ver-me,
E a boca túmida abrirás mendiga,
Pedindo-me uma esmola.
E eu com o nobre olhar que já receias,
Hei de talvez passar sereno e alegre,
Ou, tremendo tocar-te as mãos imundas,
Jogar-te algum dinheiro.
Tal é minha vingança. A ouvir-me agora,
Um riso, um riso estólido desprendes.
Ah! tu não crês ainda na justiça
Do Deus que nos escuta!
Ri-te outra vez de minhas frases duras!
Sim: tens razão, incrédula. — Mas corre,
Corre depressa, — que amanhã teu riso
Já não será tão grande.
Vai, maldita, vai, víbora sangrenta,
Mulher impura, e ávida de infâmias!
O mundo é amplo, arroja-te em seu gúrgite,
Mereces bem seu lodo.
Publicado no livro Obras Póstumas (1868*). Poema integrante da série Contradições Poéticas.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.6
Mulher impura, e ávida de infâmias!
O mundo é amplo: arroja-te em seu gúrgite.
Mereces bem seu lodo.
(...)
Vai, desgraçada, vai. Farta-te em crimes,
Sacia as garras, cobre-te de sangue
É esse o gênio teu. Corre, — que eu vejo
Teu exemplar castigo.
Vai, desgraçada, vai. Riso da plebe,
Indigna até de maldições severas,
Hei de ver-te amanhã pedindo um óbolo,
Errando pelas praças.
E adornada de fétidos andrajos,
A mão leprosa estenderás, ao ver-me,
E a boca túmida abrirás mendiga,
Pedindo-me uma esmola.
E eu com o nobre olhar que já receias,
Hei de talvez passar sereno e alegre,
Ou, tremendo tocar-te as mãos imundas,
Jogar-te algum dinheiro.
Tal é minha vingança. A ouvir-me agora,
Um riso, um riso estólido desprendes.
Ah! tu não crês ainda na justiça
Do Deus que nos escuta!
Ri-te outra vez de minhas frases duras!
Sim: tens razão, incrédula. — Mas corre,
Corre depressa, — que amanhã teu riso
Já não será tão grande.
Vai, maldita, vai, víbora sangrenta,
Mulher impura, e ávida de infâmias!
O mundo é amplo, arroja-te em seu gúrgite,
Mereces bem seu lodo.
Publicado no livro Obras Póstumas (1868*). Poema integrante da série Contradições Poéticas.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.6
5 432
Juvenal Galeno
Os Barões
I
Eu não canto os barões assinalados
Por atos de virtude ou de heroismo...
Mas espertos e torpes titulados,
Egrégios na baixeza e no cinismo!
Que os primeiros são tão raros
Nesta terra em que nasci,
Ao passo que dos segundos
Mais de um cento conheci!
E deles cada qual o mais tratante,
Mais néscio e mais servil...
Em fidalgos ruins já ninguém vence
Por certo o meu Brasil!
E se alguém duvidar ponha a luneta
E o passado examine dos barões...
Empurre no presente uma lanceta
E verá o que sai... que podridões!
Ou procure, que tenho na gaveta,
Alguns apontamentos ou borrões...
Mas trabalho é demais... ninguém se meta,
Antes leia estes traços a crayons.
(...)
III
Que ativo contrabandista
Foi outrora, — e ainda o é —
Aquele esperto Fulgêncio,
O barão do Gereré!...
Quem mais ligeiro no ofício?...
Sagaz!
Por entre as trevas da noite...
Trás... zás!
As cousas vinham dos barcos,
Sem o fisco examinar...
Pelas artes de berliques,
Passavam todas no ar;
E por artes de berloques,
Nunca as poderam pegar!
E as que vinham pelo fisco
Mudavam de condição...
Popelinas despachadas
Por fazenda de algodão!
E desse modo Fulgêncio
Depressa se f'licitou...
Passando mil contrabandos
Em pouco tempo enricou,
E para não ser Fulgêncio,
Um baronato arranjou!
Hoje é fidalgo...
Dos nobres é:
Barão exímio
Do Gereré!...
(...)
Publicado no livro Folhetins de Silvanus (1891).
In: GALENO, Juvenal. Folhetins de Silvanus. A machadada. Apres. Renato Braga. Fortaleza: Ed. Henriqueta Galeno, 1969
NOTA: Referência a OS LUSÍADAS, de Camões; Poema composto de 7 parte
Eu não canto os barões assinalados
Por atos de virtude ou de heroismo...
Mas espertos e torpes titulados,
Egrégios na baixeza e no cinismo!
Que os primeiros são tão raros
Nesta terra em que nasci,
Ao passo que dos segundos
Mais de um cento conheci!
E deles cada qual o mais tratante,
Mais néscio e mais servil...
Em fidalgos ruins já ninguém vence
Por certo o meu Brasil!
E se alguém duvidar ponha a luneta
E o passado examine dos barões...
Empurre no presente uma lanceta
E verá o que sai... que podridões!
Ou procure, que tenho na gaveta,
Alguns apontamentos ou borrões...
Mas trabalho é demais... ninguém se meta,
Antes leia estes traços a crayons.
(...)
III
Que ativo contrabandista
Foi outrora, — e ainda o é —
Aquele esperto Fulgêncio,
O barão do Gereré!...
Quem mais ligeiro no ofício?...
Sagaz!
Por entre as trevas da noite...
Trás... zás!
As cousas vinham dos barcos,
Sem o fisco examinar...
Pelas artes de berliques,
Passavam todas no ar;
E por artes de berloques,
Nunca as poderam pegar!
E as que vinham pelo fisco
Mudavam de condição...
Popelinas despachadas
Por fazenda de algodão!
E desse modo Fulgêncio
Depressa se f'licitou...
Passando mil contrabandos
Em pouco tempo enricou,
E para não ser Fulgêncio,
Um baronato arranjou!
Hoje é fidalgo...
Dos nobres é:
Barão exímio
Do Gereré!...
(...)
Publicado no livro Folhetins de Silvanus (1891).
In: GALENO, Juvenal. Folhetins de Silvanus. A machadada. Apres. Renato Braga. Fortaleza: Ed. Henriqueta Galeno, 1969
NOTA: Referência a OS LUSÍADAS, de Camões; Poema composto de 7 parte
1 968
Juvenal Galeno
Os Barões
I
Eu não canto os barões assinalados
Por atos de virtude ou de heroismo...
Mas espertos e torpes titulados,
Egrégios na baixeza e no cinismo!
Que os primeiros são tão raros
Nesta terra em que nasci,
Ao passo que dos segundos
Mais de um cento conheci!
E deles cada qual o mais tratante,
Mais néscio e mais servil...
Em fidalgos ruins já ninguém vence
Por certo o meu Brasil!
E se alguém duvidar ponha a luneta
E o passado examine dos barões...
Empurre no presente uma lanceta
E verá o que sai... que podridões!
Ou procure, que tenho na gaveta,
Alguns apontamentos ou borrões...
Mas trabalho é demais... ninguém se meta,
Antes leia estes traços a crayons.
(...)
III
Que ativo contrabandista
Foi outrora, — e ainda o é —
Aquele esperto Fulgêncio,
O barão do Gereré!...
Quem mais ligeiro no ofício?...
Sagaz!
Por entre as trevas da noite...
Trás... zás!
As cousas vinham dos barcos,
Sem o fisco examinar...
Pelas artes de berliques,
Passavam todas no ar;
E por artes de berloques,
Nunca as poderam pegar!
E as que vinham pelo fisco
Mudavam de condição...
Popelinas despachadas
Por fazenda de algodão!
E desse modo Fulgêncio
Depressa se f'licitou...
Passando mil contrabandos
Em pouco tempo enricou,
E para não ser Fulgêncio,
Um baronato arranjou!
Hoje é fidalgo...
Dos nobres é:
Barão exímio
Do Gereré!...
(...)
Publicado no livro Folhetins de Silvanus (1891).
In: GALENO, Juvenal. Folhetins de Silvanus. A machadada. Apres. Renato Braga. Fortaleza: Ed. Henriqueta Galeno, 1969
NOTA: Referência a OS LUSÍADAS, de Camões; Poema composto de 7 parte
Eu não canto os barões assinalados
Por atos de virtude ou de heroismo...
Mas espertos e torpes titulados,
Egrégios na baixeza e no cinismo!
Que os primeiros são tão raros
Nesta terra em que nasci,
Ao passo que dos segundos
Mais de um cento conheci!
E deles cada qual o mais tratante,
Mais néscio e mais servil...
Em fidalgos ruins já ninguém vence
Por certo o meu Brasil!
E se alguém duvidar ponha a luneta
E o passado examine dos barões...
Empurre no presente uma lanceta
E verá o que sai... que podridões!
Ou procure, que tenho na gaveta,
Alguns apontamentos ou borrões...
Mas trabalho é demais... ninguém se meta,
Antes leia estes traços a crayons.
(...)
III
Que ativo contrabandista
Foi outrora, — e ainda o é —
Aquele esperto Fulgêncio,
O barão do Gereré!...
Quem mais ligeiro no ofício?...
Sagaz!
Por entre as trevas da noite...
Trás... zás!
As cousas vinham dos barcos,
Sem o fisco examinar...
Pelas artes de berliques,
Passavam todas no ar;
E por artes de berloques,
Nunca as poderam pegar!
E as que vinham pelo fisco
Mudavam de condição...
Popelinas despachadas
Por fazenda de algodão!
E desse modo Fulgêncio
Depressa se f'licitou...
Passando mil contrabandos
Em pouco tempo enricou,
E para não ser Fulgêncio,
Um baronato arranjou!
Hoje é fidalgo...
Dos nobres é:
Barão exímio
Do Gereré!...
(...)
Publicado no livro Folhetins de Silvanus (1891).
In: GALENO, Juvenal. Folhetins de Silvanus. A machadada. Apres. Renato Braga. Fortaleza: Ed. Henriqueta Galeno, 1969
NOTA: Referência a OS LUSÍADAS, de Camões; Poema composto de 7 parte
1 968
Juvenal Galeno
Os Barões
I
Eu não canto os barões assinalados
Por atos de virtude ou de heroismo...
Mas espertos e torpes titulados,
Egrégios na baixeza e no cinismo!
Que os primeiros são tão raros
Nesta terra em que nasci,
Ao passo que dos segundos
Mais de um cento conheci!
E deles cada qual o mais tratante,
Mais néscio e mais servil...
Em fidalgos ruins já ninguém vence
Por certo o meu Brasil!
E se alguém duvidar ponha a luneta
E o passado examine dos barões...
Empurre no presente uma lanceta
E verá o que sai... que podridões!
Ou procure, que tenho na gaveta,
Alguns apontamentos ou borrões...
Mas trabalho é demais... ninguém se meta,
Antes leia estes traços a crayons.
(...)
III
Que ativo contrabandista
Foi outrora, — e ainda o é —
Aquele esperto Fulgêncio,
O barão do Gereré!...
Quem mais ligeiro no ofício?...
Sagaz!
Por entre as trevas da noite...
Trás... zás!
As cousas vinham dos barcos,
Sem o fisco examinar...
Pelas artes de berliques,
Passavam todas no ar;
E por artes de berloques,
Nunca as poderam pegar!
E as que vinham pelo fisco
Mudavam de condição...
Popelinas despachadas
Por fazenda de algodão!
E desse modo Fulgêncio
Depressa se f'licitou...
Passando mil contrabandos
Em pouco tempo enricou,
E para não ser Fulgêncio,
Um baronato arranjou!
Hoje é fidalgo...
Dos nobres é:
Barão exímio
Do Gereré!...
(...)
Publicado no livro Folhetins de Silvanus (1891).
In: GALENO, Juvenal. Folhetins de Silvanus. A machadada. Apres. Renato Braga. Fortaleza: Ed. Henriqueta Galeno, 1969
NOTA: Referência a OS LUSÍADAS, de Camões; Poema composto de 7 parte
Eu não canto os barões assinalados
Por atos de virtude ou de heroismo...
Mas espertos e torpes titulados,
Egrégios na baixeza e no cinismo!
Que os primeiros são tão raros
Nesta terra em que nasci,
Ao passo que dos segundos
Mais de um cento conheci!
E deles cada qual o mais tratante,
Mais néscio e mais servil...
Em fidalgos ruins já ninguém vence
Por certo o meu Brasil!
E se alguém duvidar ponha a luneta
E o passado examine dos barões...
Empurre no presente uma lanceta
E verá o que sai... que podridões!
Ou procure, que tenho na gaveta,
Alguns apontamentos ou borrões...
Mas trabalho é demais... ninguém se meta,
Antes leia estes traços a crayons.
(...)
III
Que ativo contrabandista
Foi outrora, — e ainda o é —
Aquele esperto Fulgêncio,
O barão do Gereré!...
Quem mais ligeiro no ofício?...
Sagaz!
Por entre as trevas da noite...
Trás... zás!
As cousas vinham dos barcos,
Sem o fisco examinar...
Pelas artes de berliques,
Passavam todas no ar;
E por artes de berloques,
Nunca as poderam pegar!
E as que vinham pelo fisco
Mudavam de condição...
Popelinas despachadas
Por fazenda de algodão!
E desse modo Fulgêncio
Depressa se f'licitou...
Passando mil contrabandos
Em pouco tempo enricou,
E para não ser Fulgêncio,
Um baronato arranjou!
Hoje é fidalgo...
Dos nobres é:
Barão exímio
Do Gereré!...
(...)
Publicado no livro Folhetins de Silvanus (1891).
In: GALENO, Juvenal. Folhetins de Silvanus. A machadada. Apres. Renato Braga. Fortaleza: Ed. Henriqueta Galeno, 1969
NOTA: Referência a OS LUSÍADAS, de Camões; Poema composto de 7 parte
1 968
Juvenal Galeno
Os Barões
I
Eu não canto os barões assinalados
Por atos de virtude ou de heroismo...
Mas espertos e torpes titulados,
Egrégios na baixeza e no cinismo!
Que os primeiros são tão raros
Nesta terra em que nasci,
Ao passo que dos segundos
Mais de um cento conheci!
E deles cada qual o mais tratante,
Mais néscio e mais servil...
Em fidalgos ruins já ninguém vence
Por certo o meu Brasil!
E se alguém duvidar ponha a luneta
E o passado examine dos barões...
Empurre no presente uma lanceta
E verá o que sai... que podridões!
Ou procure, que tenho na gaveta,
Alguns apontamentos ou borrões...
Mas trabalho é demais... ninguém se meta,
Antes leia estes traços a crayons.
(...)
III
Que ativo contrabandista
Foi outrora, — e ainda o é —
Aquele esperto Fulgêncio,
O barão do Gereré!...
Quem mais ligeiro no ofício?...
Sagaz!
Por entre as trevas da noite...
Trás... zás!
As cousas vinham dos barcos,
Sem o fisco examinar...
Pelas artes de berliques,
Passavam todas no ar;
E por artes de berloques,
Nunca as poderam pegar!
E as que vinham pelo fisco
Mudavam de condição...
Popelinas despachadas
Por fazenda de algodão!
E desse modo Fulgêncio
Depressa se f'licitou...
Passando mil contrabandos
Em pouco tempo enricou,
E para não ser Fulgêncio,
Um baronato arranjou!
Hoje é fidalgo...
Dos nobres é:
Barão exímio
Do Gereré!...
(...)
Publicado no livro Folhetins de Silvanus (1891).
In: GALENO, Juvenal. Folhetins de Silvanus. A machadada. Apres. Renato Braga. Fortaleza: Ed. Henriqueta Galeno, 1969
NOTA: Referência a OS LUSÍADAS, de Camões; Poema composto de 7 parte
Eu não canto os barões assinalados
Por atos de virtude ou de heroismo...
Mas espertos e torpes titulados,
Egrégios na baixeza e no cinismo!
Que os primeiros são tão raros
Nesta terra em que nasci,
Ao passo que dos segundos
Mais de um cento conheci!
E deles cada qual o mais tratante,
Mais néscio e mais servil...
Em fidalgos ruins já ninguém vence
Por certo o meu Brasil!
E se alguém duvidar ponha a luneta
E o passado examine dos barões...
Empurre no presente uma lanceta
E verá o que sai... que podridões!
Ou procure, que tenho na gaveta,
Alguns apontamentos ou borrões...
Mas trabalho é demais... ninguém se meta,
Antes leia estes traços a crayons.
(...)
III
Que ativo contrabandista
Foi outrora, — e ainda o é —
Aquele esperto Fulgêncio,
O barão do Gereré!...
Quem mais ligeiro no ofício?...
Sagaz!
Por entre as trevas da noite...
Trás... zás!
As cousas vinham dos barcos,
Sem o fisco examinar...
Pelas artes de berliques,
Passavam todas no ar;
E por artes de berloques,
Nunca as poderam pegar!
E as que vinham pelo fisco
Mudavam de condição...
Popelinas despachadas
Por fazenda de algodão!
E desse modo Fulgêncio
Depressa se f'licitou...
Passando mil contrabandos
Em pouco tempo enricou,
E para não ser Fulgêncio,
Um baronato arranjou!
Hoje é fidalgo...
Dos nobres é:
Barão exímio
Do Gereré!...
(...)
Publicado no livro Folhetins de Silvanus (1891).
In: GALENO, Juvenal. Folhetins de Silvanus. A machadada. Apres. Renato Braga. Fortaleza: Ed. Henriqueta Galeno, 1969
NOTA: Referência a OS LUSÍADAS, de Camões; Poema composto de 7 parte
1 968
Juvenal Galeno
Os Barões
I
Eu não canto os barões assinalados
Por atos de virtude ou de heroismo...
Mas espertos e torpes titulados,
Egrégios na baixeza e no cinismo!
Que os primeiros são tão raros
Nesta terra em que nasci,
Ao passo que dos segundos
Mais de um cento conheci!
E deles cada qual o mais tratante,
Mais néscio e mais servil...
Em fidalgos ruins já ninguém vence
Por certo o meu Brasil!
E se alguém duvidar ponha a luneta
E o passado examine dos barões...
Empurre no presente uma lanceta
E verá o que sai... que podridões!
Ou procure, que tenho na gaveta,
Alguns apontamentos ou borrões...
Mas trabalho é demais... ninguém se meta,
Antes leia estes traços a crayons.
(...)
III
Que ativo contrabandista
Foi outrora, — e ainda o é —
Aquele esperto Fulgêncio,
O barão do Gereré!...
Quem mais ligeiro no ofício?...
Sagaz!
Por entre as trevas da noite...
Trás... zás!
As cousas vinham dos barcos,
Sem o fisco examinar...
Pelas artes de berliques,
Passavam todas no ar;
E por artes de berloques,
Nunca as poderam pegar!
E as que vinham pelo fisco
Mudavam de condição...
Popelinas despachadas
Por fazenda de algodão!
E desse modo Fulgêncio
Depressa se f'licitou...
Passando mil contrabandos
Em pouco tempo enricou,
E para não ser Fulgêncio,
Um baronato arranjou!
Hoje é fidalgo...
Dos nobres é:
Barão exímio
Do Gereré!...
(...)
Publicado no livro Folhetins de Silvanus (1891).
In: GALENO, Juvenal. Folhetins de Silvanus. A machadada. Apres. Renato Braga. Fortaleza: Ed. Henriqueta Galeno, 1969
NOTA: Referência a OS LUSÍADAS, de Camões; Poema composto de 7 parte
Eu não canto os barões assinalados
Por atos de virtude ou de heroismo...
Mas espertos e torpes titulados,
Egrégios na baixeza e no cinismo!
Que os primeiros são tão raros
Nesta terra em que nasci,
Ao passo que dos segundos
Mais de um cento conheci!
E deles cada qual o mais tratante,
Mais néscio e mais servil...
Em fidalgos ruins já ninguém vence
Por certo o meu Brasil!
E se alguém duvidar ponha a luneta
E o passado examine dos barões...
Empurre no presente uma lanceta
E verá o que sai... que podridões!
Ou procure, que tenho na gaveta,
Alguns apontamentos ou borrões...
Mas trabalho é demais... ninguém se meta,
Antes leia estes traços a crayons.
(...)
III
Que ativo contrabandista
Foi outrora, — e ainda o é —
Aquele esperto Fulgêncio,
O barão do Gereré!...
Quem mais ligeiro no ofício?...
Sagaz!
Por entre as trevas da noite...
Trás... zás!
As cousas vinham dos barcos,
Sem o fisco examinar...
Pelas artes de berliques,
Passavam todas no ar;
E por artes de berloques,
Nunca as poderam pegar!
E as que vinham pelo fisco
Mudavam de condição...
Popelinas despachadas
Por fazenda de algodão!
E desse modo Fulgêncio
Depressa se f'licitou...
Passando mil contrabandos
Em pouco tempo enricou,
E para não ser Fulgêncio,
Um baronato arranjou!
Hoje é fidalgo...
Dos nobres é:
Barão exímio
Do Gereré!...
(...)
Publicado no livro Folhetins de Silvanus (1891).
In: GALENO, Juvenal. Folhetins de Silvanus. A machadada. Apres. Renato Braga. Fortaleza: Ed. Henriqueta Galeno, 1969
NOTA: Referência a OS LUSÍADAS, de Camões; Poema composto de 7 parte
1 968
Renata Pallottini
O Pai
(Para o Edgar)
O Pai, por que só trabalha?
Era melhor pai em casa,
pai no jardim vendo rosa,
pai consertando o telhado,
mas o Pai trabalha fora.
Era melhor pai passeando,
no parque correndo junto,
pai ensinando lição,
pai vendo televisão.
Mas o Pai trabalha fora
pra sustentar os meninos.
— Pai, por que você não canta?
— E eu lá sou passarinho?
In: PALLOTTINI, Renata. Café com leite. São Paulo: Quinteto, 1988. p.1
O Pai, por que só trabalha?
Era melhor pai em casa,
pai no jardim vendo rosa,
pai consertando o telhado,
mas o Pai trabalha fora.
Era melhor pai passeando,
no parque correndo junto,
pai ensinando lição,
pai vendo televisão.
Mas o Pai trabalha fora
pra sustentar os meninos.
— Pai, por que você não canta?
— E eu lá sou passarinho?
In: PALLOTTINI, Renata. Café com leite. São Paulo: Quinteto, 1988. p.1
3 079
Geir Campos
A Árvore
Ó árvore, quantos séculos levaste
a aprender a lição que hoje me dizes:
o equilíbrio, das flores às raízes,
sugerindo harmonia onde há contraste?
Como consegues evitar que uma haste
e outra se batam, pondo cicatrizes
inúteis sobre os membros infelizes?
Quando as folhas e os frutos comungaste?
Quantos séculos, árvore, de estudos
e experiências — que o vigor consomem
entre vigílias e cismares mudos —
demoraste aprendendo o teu exemplo,
no sossego da selva armada em templo?
Dize: e não há esperança para o Homem?
Publicado no livro Rosa dos rumos (1950).
In: RAMOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
a aprender a lição que hoje me dizes:
o equilíbrio, das flores às raízes,
sugerindo harmonia onde há contraste?
Como consegues evitar que uma haste
e outra se batam, pondo cicatrizes
inúteis sobre os membros infelizes?
Quando as folhas e os frutos comungaste?
Quantos séculos, árvore, de estudos
e experiências — que o vigor consomem
entre vigílias e cismares mudos —
demoraste aprendendo o teu exemplo,
no sossego da selva armada em templo?
Dize: e não há esperança para o Homem?
Publicado no livro Rosa dos rumos (1950).
In: RAMOS, Geir. Tarefa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno; Brasília: INL, 1981. (Poesia sempre, 5
1 582
Bárbara Heliodora
Conselhos a Meus Filhos [2
VII.
Se é tempo de professar
De taful o quarto voto,
Procurai capote roto,
Pé de banco de um bilhar,
Que seja sábio piloto
Nas regras de calcular.
VIII.
Se vos mandarem chamar
Para ver uma função,
Respondei sempre que não,
Que tendes em que cuidar;
Assim se entende o rifão:
Quem está bem deixa-se estar.
IX.
Deveis-vos acautelar,
Em jogos de paro e topo
Prontos em passar o copo
Nas angolinhas do azar;
Tais as fábulas de Esopo,
Que vós deveis estudar.
X.
Quem fala, escreve no ar,
Sem pôr vírgulas nos pontos,
E pode quem conta os contos,
Mil pontos acrescentar:
Fica um rebanho de tontos
Sem nenhum adivinhar.
XI.
Com Deus e o rei não brincar,
É servir e obedecer,
Amar por muito temer,
Mas temer por muito amar,
Santo temor de ofender
A quem se deve adorar!
XII.
Até aqui pode bastar,
Mais havia o que dizer;
Mas eu tenho que fazer,
Não me posso demorar
E quem sabe discorrer,
Pode o resto adivinhar.
In: PARNASO brasileiro; ou, Coleção das melhores poesias dos poetas do Brasil, tanto inéditas, como já impressas. Org. Cônego Januário da Cunha Barbosa. Rio de Janeiro: Tip. Imperial e Nacional, 1830. v.1, caderno 4, p.74-76
NOTAS: Poema composto de 12 sextilha
Se é tempo de professar
De taful o quarto voto,
Procurai capote roto,
Pé de banco de um bilhar,
Que seja sábio piloto
Nas regras de calcular.
VIII.
Se vos mandarem chamar
Para ver uma função,
Respondei sempre que não,
Que tendes em que cuidar;
Assim se entende o rifão:
Quem está bem deixa-se estar.
IX.
Deveis-vos acautelar,
Em jogos de paro e topo
Prontos em passar o copo
Nas angolinhas do azar;
Tais as fábulas de Esopo,
Que vós deveis estudar.
X.
Quem fala, escreve no ar,
Sem pôr vírgulas nos pontos,
E pode quem conta os contos,
Mil pontos acrescentar:
Fica um rebanho de tontos
Sem nenhum adivinhar.
XI.
Com Deus e o rei não brincar,
É servir e obedecer,
Amar por muito temer,
Mas temer por muito amar,
Santo temor de ofender
A quem se deve adorar!
XII.
Até aqui pode bastar,
Mais havia o que dizer;
Mas eu tenho que fazer,
Não me posso demorar
E quem sabe discorrer,
Pode o resto adivinhar.
In: PARNASO brasileiro; ou, Coleção das melhores poesias dos poetas do Brasil, tanto inéditas, como já impressas. Org. Cônego Januário da Cunha Barbosa. Rio de Janeiro: Tip. Imperial e Nacional, 1830. v.1, caderno 4, p.74-76
NOTAS: Poema composto de 12 sextilha
1 805
Bárbara Heliodora
Conselhos a Meus Filhos [2
VII.
Se é tempo de professar
De taful o quarto voto,
Procurai capote roto,
Pé de banco de um bilhar,
Que seja sábio piloto
Nas regras de calcular.
VIII.
Se vos mandarem chamar
Para ver uma função,
Respondei sempre que não,
Que tendes em que cuidar;
Assim se entende o rifão:
Quem está bem deixa-se estar.
IX.
Deveis-vos acautelar,
Em jogos de paro e topo
Prontos em passar o copo
Nas angolinhas do azar;
Tais as fábulas de Esopo,
Que vós deveis estudar.
X.
Quem fala, escreve no ar,
Sem pôr vírgulas nos pontos,
E pode quem conta os contos,
Mil pontos acrescentar:
Fica um rebanho de tontos
Sem nenhum adivinhar.
XI.
Com Deus e o rei não brincar,
É servir e obedecer,
Amar por muito temer,
Mas temer por muito amar,
Santo temor de ofender
A quem se deve adorar!
XII.
Até aqui pode bastar,
Mais havia o que dizer;
Mas eu tenho que fazer,
Não me posso demorar
E quem sabe discorrer,
Pode o resto adivinhar.
In: PARNASO brasileiro; ou, Coleção das melhores poesias dos poetas do Brasil, tanto inéditas, como já impressas. Org. Cônego Januário da Cunha Barbosa. Rio de Janeiro: Tip. Imperial e Nacional, 1830. v.1, caderno 4, p.74-76
NOTAS: Poema composto de 12 sextilha
Se é tempo de professar
De taful o quarto voto,
Procurai capote roto,
Pé de banco de um bilhar,
Que seja sábio piloto
Nas regras de calcular.
VIII.
Se vos mandarem chamar
Para ver uma função,
Respondei sempre que não,
Que tendes em que cuidar;
Assim se entende o rifão:
Quem está bem deixa-se estar.
IX.
Deveis-vos acautelar,
Em jogos de paro e topo
Prontos em passar o copo
Nas angolinhas do azar;
Tais as fábulas de Esopo,
Que vós deveis estudar.
X.
Quem fala, escreve no ar,
Sem pôr vírgulas nos pontos,
E pode quem conta os contos,
Mil pontos acrescentar:
Fica um rebanho de tontos
Sem nenhum adivinhar.
XI.
Com Deus e o rei não brincar,
É servir e obedecer,
Amar por muito temer,
Mas temer por muito amar,
Santo temor de ofender
A quem se deve adorar!
XII.
Até aqui pode bastar,
Mais havia o que dizer;
Mas eu tenho que fazer,
Não me posso demorar
E quem sabe discorrer,
Pode o resto adivinhar.
In: PARNASO brasileiro; ou, Coleção das melhores poesias dos poetas do Brasil, tanto inéditas, como já impressas. Org. Cônego Januário da Cunha Barbosa. Rio de Janeiro: Tip. Imperial e Nacional, 1830. v.1, caderno 4, p.74-76
NOTAS: Poema composto de 12 sextilha
1 805
Luís Guimarães Júnior
José de Alencar
No teu regaço, oh Pátria angustiosa,
Oh grande Mãe! oh Niobe! consente
Que caia minha lágrima pungente
E suspire minha alma dolorosa;
Tua serena fronte majestosa
Curva-se a terra — lívida e plangente:
Perdeste a nívea corda, a fibra algente
De tua agreste Lira luminosa.
Quem cantará agora esse obscuro
Idílio da floresta, — ingênuo tema
Que ele criou — tão mavioso e puro?
Quem guiará as asas do Poema
Com mais doçura? Oh Bardos do futuro,
Eu vos pergunto em nome de Iracema!
Poema integrante da série Segunda Parte: Os Poetas Mortos.
In: GUIMARÃES JÚNIOR, Luiz. Sonetos e rimas: lírica. 3.ed. Pref. Fialho d'Almeida. Lisboa: Liv. Clássica Ed. de A. M. Teixeira, 191
Oh grande Mãe! oh Niobe! consente
Que caia minha lágrima pungente
E suspire minha alma dolorosa;
Tua serena fronte majestosa
Curva-se a terra — lívida e plangente:
Perdeste a nívea corda, a fibra algente
De tua agreste Lira luminosa.
Quem cantará agora esse obscuro
Idílio da floresta, — ingênuo tema
Que ele criou — tão mavioso e puro?
Quem guiará as asas do Poema
Com mais doçura? Oh Bardos do futuro,
Eu vos pergunto em nome de Iracema!
Poema integrante da série Segunda Parte: Os Poetas Mortos.
In: GUIMARÃES JÚNIOR, Luiz. Sonetos e rimas: lírica. 3.ed. Pref. Fialho d'Almeida. Lisboa: Liv. Clássica Ed. de A. M. Teixeira, 191
1 382
Henriqueta Lisboa
A Face Lívida [De súbito cessou a vida
.De súbito cessou a vida.
Foram simples palavras breves.
Tudo continuou como estava.
O mesmo teto, o mesmo vento,
o mesmo espaço, os mesmos gestos,
Porém como que eternizados.
Unção, calor, surpresa, risos
tudo eram chapas fotográficas
há muito tempo reveladas.
Todas as cousas tinham sido
e se mantinham sem reserva
numa sucessão automática.
Passos caminhavam no assoalho,
talheres batiam nos dentes,
janelas se abriam, fechavam.
Vinham noites e vinham luas,
madrugadas com sino e chuva.
Sapatos iam na enxurrada.
Meninas chegavam gritando.
Nasciam flores de esmeralda
no asfalto! mas sem esperança.
Jornais prometiam com zelo
em grandes tópicos vermelhos
o fim de uma guerra. Guerra?...
Os que não sabiam falavam.
Quem não sentia tinha o pranto.
(O pranto era ainda o recurso
de velhas cousas coniventes.)
Nem o menor sinal de vida.
Tão-só no fundo espelho a face
lívida, a face lívida.
Publicado no livro A Face Lívida: poesia, 1941/1945 (1945).
In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
Foram simples palavras breves.
Tudo continuou como estava.
O mesmo teto, o mesmo vento,
o mesmo espaço, os mesmos gestos,
Porém como que eternizados.
Unção, calor, surpresa, risos
tudo eram chapas fotográficas
há muito tempo reveladas.
Todas as cousas tinham sido
e se mantinham sem reserva
numa sucessão automática.
Passos caminhavam no assoalho,
talheres batiam nos dentes,
janelas se abriam, fechavam.
Vinham noites e vinham luas,
madrugadas com sino e chuva.
Sapatos iam na enxurrada.
Meninas chegavam gritando.
Nasciam flores de esmeralda
no asfalto! mas sem esperança.
Jornais prometiam com zelo
em grandes tópicos vermelhos
o fim de uma guerra. Guerra?...
Os que não sabiam falavam.
Quem não sentia tinha o pranto.
(O pranto era ainda o recurso
de velhas cousas coniventes.)
Nem o menor sinal de vida.
Tão-só no fundo espelho a face
lívida, a face lívida.
Publicado no livro A Face Lívida: poesia, 1941/1945 (1945).
In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
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