Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Maria Helena Nery Garcez
A Cidade I
Sepulcros caiados
gritando grafites!
São Paulo, comoção da minha vida...
Viola que nem por fora é bela!
Cadê o toicinho daqui?
O gato comeu...
Cadê o gato?
Fugiu pro mato...
E cadê o mato?
O fogo queimou...
O fogo que a água apagou...
A água que o boi não bebeu
porque imunda das abluções infindas
de milhões de fariseus.
Há algo de muito podre no reino das Multimarcas...
Ó a grita dos grafites,
grita que aos céus se alevanta!
In: GARCEZ, Maria Helena Nery. Conta gotas. São Paulo: J. Scortecci, 1987.
NOTA: O terceiro verso cita, com alterações, o primeiro verso do poema "Inspiração" (São Paulo! comoção de minha vida...), do livro PAULICÉIA DESVAIRADA (1922), de Mário de Andrad
gritando grafites!
São Paulo, comoção da minha vida...
Viola que nem por fora é bela!
Cadê o toicinho daqui?
O gato comeu...
Cadê o gato?
Fugiu pro mato...
E cadê o mato?
O fogo queimou...
O fogo que a água apagou...
A água que o boi não bebeu
porque imunda das abluções infindas
de milhões de fariseus.
Há algo de muito podre no reino das Multimarcas...
Ó a grita dos grafites,
grita que aos céus se alevanta!
In: GARCEZ, Maria Helena Nery. Conta gotas. São Paulo: J. Scortecci, 1987.
NOTA: O terceiro verso cita, com alterações, o primeiro verso do poema "Inspiração" (São Paulo! comoção de minha vida...), do livro PAULICÉIA DESVAIRADA (1922), de Mário de Andrad
1 159
Maria Helena Nery Garcez
A Cidade I
Sepulcros caiados
gritando grafites!
São Paulo, comoção da minha vida...
Viola que nem por fora é bela!
Cadê o toicinho daqui?
O gato comeu...
Cadê o gato?
Fugiu pro mato...
E cadê o mato?
O fogo queimou...
O fogo que a água apagou...
A água que o boi não bebeu
porque imunda das abluções infindas
de milhões de fariseus.
Há algo de muito podre no reino das Multimarcas...
Ó a grita dos grafites,
grita que aos céus se alevanta!
In: GARCEZ, Maria Helena Nery. Conta gotas. São Paulo: J. Scortecci, 1987.
NOTA: O terceiro verso cita, com alterações, o primeiro verso do poema "Inspiração" (São Paulo! comoção de minha vida...), do livro PAULICÉIA DESVAIRADA (1922), de Mário de Andrad
gritando grafites!
São Paulo, comoção da minha vida...
Viola que nem por fora é bela!
Cadê o toicinho daqui?
O gato comeu...
Cadê o gato?
Fugiu pro mato...
E cadê o mato?
O fogo queimou...
O fogo que a água apagou...
A água que o boi não bebeu
porque imunda das abluções infindas
de milhões de fariseus.
Há algo de muito podre no reino das Multimarcas...
Ó a grita dos grafites,
grita que aos céus se alevanta!
In: GARCEZ, Maria Helena Nery. Conta gotas. São Paulo: J. Scortecci, 1987.
NOTA: O terceiro verso cita, com alterações, o primeiro verso do poema "Inspiração" (São Paulo! comoção de minha vida...), do livro PAULICÉIA DESVAIRADA (1922), de Mário de Andrad
1 159
Menotti del Picchia
Tarde Fazendeira
Tarde cabocla
com banzo de pretos nas sombras,
carícias de escravas mulatas
nas palmas dos longos coqueiros.
Um rouco ribombo de bombo
nos ecos; um trilo de estrídulos grilos
nas moitas; tarde cabocla
com um sol de miçangas, de gangas vermelhas
nos flancos das serras,
com um hálito fresco de folhas pisadas, de verdes pomares
pejados de frutas-de-conde, de mangas maduras,
com aros de lua nascente nos céus e nas águas,
tarde cabocla
com vagas preguiças de redes nas ramas,
com longos bocejos de luz nas encostas,
foi numa tarde como esta
que vieram ao mundo
os mestiços da raça...
Publicado no livro República dos Estados Unidos do Brasil: poema (1928). Poema integrante da série Paisagem.
In: DEL PICCHIA, Menotti. Poesias, 1907/1946. São Paulo: Martins, 1958. p.154. (Obras de Menotti del Picchia
com banzo de pretos nas sombras,
carícias de escravas mulatas
nas palmas dos longos coqueiros.
Um rouco ribombo de bombo
nos ecos; um trilo de estrídulos grilos
nas moitas; tarde cabocla
com um sol de miçangas, de gangas vermelhas
nos flancos das serras,
com um hálito fresco de folhas pisadas, de verdes pomares
pejados de frutas-de-conde, de mangas maduras,
com aros de lua nascente nos céus e nas águas,
tarde cabocla
com vagas preguiças de redes nas ramas,
com longos bocejos de luz nas encostas,
foi numa tarde como esta
que vieram ao mundo
os mestiços da raça...
Publicado no livro República dos Estados Unidos do Brasil: poema (1928). Poema integrante da série Paisagem.
In: DEL PICCHIA, Menotti. Poesias, 1907/1946. São Paulo: Martins, 1958. p.154. (Obras de Menotti del Picchia
1 963
Teófilo Dias
O Século Caminha
A Assis Brasil
O século é pujante, heróico, inexorável.
— Navio que enristou a quilha incontrastável
Às praias do porvir, lá vai talhando o mar.
Espadana-lhe em vão as bavas hediondas
O inútil preconceito; embalde em crespas ondas
Forceja por tolher-lhe o impávido marchar.
Quebrando à vaga rude a cólera, que espuma,
A — Idéia, o nauta audaz, atira-lhe, uma a uma,
As tradições do cetro e da tiara as leis;
Rota, cai do passado a trágica bandeira;
E de envolta com ela a triunfal esteira
Submerge avidamente as púrpuras dos reis.
Rasga afoito ao futuro as fundas névoas densas
O alento vingador, viril das novas crenças,
Que ruge, solto, livre, indômito e fatal.
Ó déspotas cruéis! ó Césares! é tarde!
Dobrai o régio manto orgíaco e cobarde!
É tempo! Adormecei no olvido sepulcral!
Consolai-vos! — Não mais os vossos membros rotos
Filtrarão sangue vil da história nos esgotos
Aos gritos infernais das ébrias multidões!
— No pólo social a estrela do direito
Ergueu-se, há muito já. No mortuário leito
Repousai. Já não há coroas nem brazões!
O século caminha. Os cadafalsos velhos
Ruíram. Das nações os vários evangelhos
Rasga-os, folha por folha, a garra de Satã;
E os livros feitos pó, virá uma só crença,
E unidos se verão numa harmonia imensa
Os crentes de Jesus, de Buda e do Corã.
Publicado no livro Fanfarras (1882). Poema integrante da série Revolta.
In: DIAS, Teófilo. Poesias escolhidas. Sel. introd. e notas Antonio Candido. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 196
O século é pujante, heróico, inexorável.
— Navio que enristou a quilha incontrastável
Às praias do porvir, lá vai talhando o mar.
Espadana-lhe em vão as bavas hediondas
O inútil preconceito; embalde em crespas ondas
Forceja por tolher-lhe o impávido marchar.
Quebrando à vaga rude a cólera, que espuma,
A — Idéia, o nauta audaz, atira-lhe, uma a uma,
As tradições do cetro e da tiara as leis;
Rota, cai do passado a trágica bandeira;
E de envolta com ela a triunfal esteira
Submerge avidamente as púrpuras dos reis.
Rasga afoito ao futuro as fundas névoas densas
O alento vingador, viril das novas crenças,
Que ruge, solto, livre, indômito e fatal.
Ó déspotas cruéis! ó Césares! é tarde!
Dobrai o régio manto orgíaco e cobarde!
É tempo! Adormecei no olvido sepulcral!
Consolai-vos! — Não mais os vossos membros rotos
Filtrarão sangue vil da história nos esgotos
Aos gritos infernais das ébrias multidões!
— No pólo social a estrela do direito
Ergueu-se, há muito já. No mortuário leito
Repousai. Já não há coroas nem brazões!
O século caminha. Os cadafalsos velhos
Ruíram. Das nações os vários evangelhos
Rasga-os, folha por folha, a garra de Satã;
E os livros feitos pó, virá uma só crença,
E unidos se verão numa harmonia imensa
Os crentes de Jesus, de Buda e do Corã.
Publicado no livro Fanfarras (1882). Poema integrante da série Revolta.
In: DIAS, Teófilo. Poesias escolhidas. Sel. introd. e notas Antonio Candido. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 196
1 922
Teófilo Dias
O Século Caminha
A Assis Brasil
O século é pujante, heróico, inexorável.
— Navio que enristou a quilha incontrastável
Às praias do porvir, lá vai talhando o mar.
Espadana-lhe em vão as bavas hediondas
O inútil preconceito; embalde em crespas ondas
Forceja por tolher-lhe o impávido marchar.
Quebrando à vaga rude a cólera, que espuma,
A — Idéia, o nauta audaz, atira-lhe, uma a uma,
As tradições do cetro e da tiara as leis;
Rota, cai do passado a trágica bandeira;
E de envolta com ela a triunfal esteira
Submerge avidamente as púrpuras dos reis.
Rasga afoito ao futuro as fundas névoas densas
O alento vingador, viril das novas crenças,
Que ruge, solto, livre, indômito e fatal.
Ó déspotas cruéis! ó Césares! é tarde!
Dobrai o régio manto orgíaco e cobarde!
É tempo! Adormecei no olvido sepulcral!
Consolai-vos! — Não mais os vossos membros rotos
Filtrarão sangue vil da história nos esgotos
Aos gritos infernais das ébrias multidões!
— No pólo social a estrela do direito
Ergueu-se, há muito já. No mortuário leito
Repousai. Já não há coroas nem brazões!
O século caminha. Os cadafalsos velhos
Ruíram. Das nações os vários evangelhos
Rasga-os, folha por folha, a garra de Satã;
E os livros feitos pó, virá uma só crença,
E unidos se verão numa harmonia imensa
Os crentes de Jesus, de Buda e do Corã.
Publicado no livro Fanfarras (1882). Poema integrante da série Revolta.
In: DIAS, Teófilo. Poesias escolhidas. Sel. introd. e notas Antonio Candido. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 196
O século é pujante, heróico, inexorável.
— Navio que enristou a quilha incontrastável
Às praias do porvir, lá vai talhando o mar.
Espadana-lhe em vão as bavas hediondas
O inútil preconceito; embalde em crespas ondas
Forceja por tolher-lhe o impávido marchar.
Quebrando à vaga rude a cólera, que espuma,
A — Idéia, o nauta audaz, atira-lhe, uma a uma,
As tradições do cetro e da tiara as leis;
Rota, cai do passado a trágica bandeira;
E de envolta com ela a triunfal esteira
Submerge avidamente as púrpuras dos reis.
Rasga afoito ao futuro as fundas névoas densas
O alento vingador, viril das novas crenças,
Que ruge, solto, livre, indômito e fatal.
Ó déspotas cruéis! ó Césares! é tarde!
Dobrai o régio manto orgíaco e cobarde!
É tempo! Adormecei no olvido sepulcral!
Consolai-vos! — Não mais os vossos membros rotos
Filtrarão sangue vil da história nos esgotos
Aos gritos infernais das ébrias multidões!
— No pólo social a estrela do direito
Ergueu-se, há muito já. No mortuário leito
Repousai. Já não há coroas nem brazões!
O século caminha. Os cadafalsos velhos
Ruíram. Das nações os vários evangelhos
Rasga-os, folha por folha, a garra de Satã;
E os livros feitos pó, virá uma só crença,
E unidos se verão numa harmonia imensa
Os crentes de Jesus, de Buda e do Corã.
Publicado no livro Fanfarras (1882). Poema integrante da série Revolta.
In: DIAS, Teófilo. Poesias escolhidas. Sel. introd. e notas Antonio Candido. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 196
1 922
Teófilo Dias
O Século Caminha
A Assis Brasil
O século é pujante, heróico, inexorável.
— Navio que enristou a quilha incontrastável
Às praias do porvir, lá vai talhando o mar.
Espadana-lhe em vão as bavas hediondas
O inútil preconceito; embalde em crespas ondas
Forceja por tolher-lhe o impávido marchar.
Quebrando à vaga rude a cólera, que espuma,
A — Idéia, o nauta audaz, atira-lhe, uma a uma,
As tradições do cetro e da tiara as leis;
Rota, cai do passado a trágica bandeira;
E de envolta com ela a triunfal esteira
Submerge avidamente as púrpuras dos reis.
Rasga afoito ao futuro as fundas névoas densas
O alento vingador, viril das novas crenças,
Que ruge, solto, livre, indômito e fatal.
Ó déspotas cruéis! ó Césares! é tarde!
Dobrai o régio manto orgíaco e cobarde!
É tempo! Adormecei no olvido sepulcral!
Consolai-vos! — Não mais os vossos membros rotos
Filtrarão sangue vil da história nos esgotos
Aos gritos infernais das ébrias multidões!
— No pólo social a estrela do direito
Ergueu-se, há muito já. No mortuário leito
Repousai. Já não há coroas nem brazões!
O século caminha. Os cadafalsos velhos
Ruíram. Das nações os vários evangelhos
Rasga-os, folha por folha, a garra de Satã;
E os livros feitos pó, virá uma só crença,
E unidos se verão numa harmonia imensa
Os crentes de Jesus, de Buda e do Corã.
Publicado no livro Fanfarras (1882). Poema integrante da série Revolta.
In: DIAS, Teófilo. Poesias escolhidas. Sel. introd. e notas Antonio Candido. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 196
O século é pujante, heróico, inexorável.
— Navio que enristou a quilha incontrastável
Às praias do porvir, lá vai talhando o mar.
Espadana-lhe em vão as bavas hediondas
O inútil preconceito; embalde em crespas ondas
Forceja por tolher-lhe o impávido marchar.
Quebrando à vaga rude a cólera, que espuma,
A — Idéia, o nauta audaz, atira-lhe, uma a uma,
As tradições do cetro e da tiara as leis;
Rota, cai do passado a trágica bandeira;
E de envolta com ela a triunfal esteira
Submerge avidamente as púrpuras dos reis.
Rasga afoito ao futuro as fundas névoas densas
O alento vingador, viril das novas crenças,
Que ruge, solto, livre, indômito e fatal.
Ó déspotas cruéis! ó Césares! é tarde!
Dobrai o régio manto orgíaco e cobarde!
É tempo! Adormecei no olvido sepulcral!
Consolai-vos! — Não mais os vossos membros rotos
Filtrarão sangue vil da história nos esgotos
Aos gritos infernais das ébrias multidões!
— No pólo social a estrela do direito
Ergueu-se, há muito já. No mortuário leito
Repousai. Já não há coroas nem brazões!
O século caminha. Os cadafalsos velhos
Ruíram. Das nações os vários evangelhos
Rasga-os, folha por folha, a garra de Satã;
E os livros feitos pó, virá uma só crença,
E unidos se verão numa harmonia imensa
Os crentes de Jesus, de Buda e do Corã.
Publicado no livro Fanfarras (1882). Poema integrante da série Revolta.
In: DIAS, Teófilo. Poesias escolhidas. Sel. introd. e notas Antonio Candido. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 196
1 922
Teófilo Dias
O Século Caminha
A Assis Brasil
O século é pujante, heróico, inexorável.
— Navio que enristou a quilha incontrastável
Às praias do porvir, lá vai talhando o mar.
Espadana-lhe em vão as bavas hediondas
O inútil preconceito; embalde em crespas ondas
Forceja por tolher-lhe o impávido marchar.
Quebrando à vaga rude a cólera, que espuma,
A — Idéia, o nauta audaz, atira-lhe, uma a uma,
As tradições do cetro e da tiara as leis;
Rota, cai do passado a trágica bandeira;
E de envolta com ela a triunfal esteira
Submerge avidamente as púrpuras dos reis.
Rasga afoito ao futuro as fundas névoas densas
O alento vingador, viril das novas crenças,
Que ruge, solto, livre, indômito e fatal.
Ó déspotas cruéis! ó Césares! é tarde!
Dobrai o régio manto orgíaco e cobarde!
É tempo! Adormecei no olvido sepulcral!
Consolai-vos! — Não mais os vossos membros rotos
Filtrarão sangue vil da história nos esgotos
Aos gritos infernais das ébrias multidões!
— No pólo social a estrela do direito
Ergueu-se, há muito já. No mortuário leito
Repousai. Já não há coroas nem brazões!
O século caminha. Os cadafalsos velhos
Ruíram. Das nações os vários evangelhos
Rasga-os, folha por folha, a garra de Satã;
E os livros feitos pó, virá uma só crença,
E unidos se verão numa harmonia imensa
Os crentes de Jesus, de Buda e do Corã.
Publicado no livro Fanfarras (1882). Poema integrante da série Revolta.
In: DIAS, Teófilo. Poesias escolhidas. Sel. introd. e notas Antonio Candido. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 196
O século é pujante, heróico, inexorável.
— Navio que enristou a quilha incontrastável
Às praias do porvir, lá vai talhando o mar.
Espadana-lhe em vão as bavas hediondas
O inútil preconceito; embalde em crespas ondas
Forceja por tolher-lhe o impávido marchar.
Quebrando à vaga rude a cólera, que espuma,
A — Idéia, o nauta audaz, atira-lhe, uma a uma,
As tradições do cetro e da tiara as leis;
Rota, cai do passado a trágica bandeira;
E de envolta com ela a triunfal esteira
Submerge avidamente as púrpuras dos reis.
Rasga afoito ao futuro as fundas névoas densas
O alento vingador, viril das novas crenças,
Que ruge, solto, livre, indômito e fatal.
Ó déspotas cruéis! ó Césares! é tarde!
Dobrai o régio manto orgíaco e cobarde!
É tempo! Adormecei no olvido sepulcral!
Consolai-vos! — Não mais os vossos membros rotos
Filtrarão sangue vil da história nos esgotos
Aos gritos infernais das ébrias multidões!
— No pólo social a estrela do direito
Ergueu-se, há muito já. No mortuário leito
Repousai. Já não há coroas nem brazões!
O século caminha. Os cadafalsos velhos
Ruíram. Das nações os vários evangelhos
Rasga-os, folha por folha, a garra de Satã;
E os livros feitos pó, virá uma só crença,
E unidos se verão numa harmonia imensa
Os crentes de Jesus, de Buda e do Corã.
Publicado no livro Fanfarras (1882). Poema integrante da série Revolta.
In: DIAS, Teófilo. Poesias escolhidas. Sel. introd. e notas Antonio Candido. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 196
1 922
Carlos Frydman
Metamorfose de Minha Anatomia
Na espiral heterogênea da vida,
onde vasculho e me determino,
não invento inspirações
nem ensaio sentimentos.
Na vida — mar irrequieto —
intervenho partindo dela
e ajudo a limpá-la
da poeira dos segredos.
Muitos homens
ainda são bigorna
e a vida lhes é um martelo.
Eu me insubordino
ante as pancadas que me impingiram.
Sou um par de punhos do incomensurável coletivo
martelando na bigorna da História,
moldando minha vida e as vidas
em brasas vivas.
Meu coração é uma ponte
unindo sentimentos.
Meus braços, um arco-íris
de gestos puros nas carícias
num convite claro e evidente,
buscando os deslocados, os inconsequentes,
presenteando o que me dão de ensinamentos.
(...)
In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
onde vasculho e me determino,
não invento inspirações
nem ensaio sentimentos.
Na vida — mar irrequieto —
intervenho partindo dela
e ajudo a limpá-la
da poeira dos segredos.
Muitos homens
ainda são bigorna
e a vida lhes é um martelo.
Eu me insubordino
ante as pancadas que me impingiram.
Sou um par de punhos do incomensurável coletivo
martelando na bigorna da História,
moldando minha vida e as vidas
em brasas vivas.
Meu coração é uma ponte
unindo sentimentos.
Meus braços, um arco-íris
de gestos puros nas carícias
num convite claro e evidente,
buscando os deslocados, os inconsequentes,
presenteando o que me dão de ensinamentos.
(...)
In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
996
Glauco Mattoso
Cansioneiro, 1977
viramundo vaila estrada violeiro
barravento ventania travessia disparada
arrastão veleiro saveiro jangadeiro canoeiro
caminhemos caminhando caminhada
andança chegança ponteio boiadeiro
berimbau arueira aruanda enluarada
opinião louvação cantador cirandeiro
banda sarabanda porta-estandarte batucada
incerteza insensatez inquietação
fracasso palhaço jurei errei sofri
antonico tico-tico maracangalha construção
rosa roda ronda bodas baby zambi
cadência decadência aquarela conceição
adalgisa amélia aurora irene geni
In: MATTOSO, Glauco. Memórias de um pueteiro: as melhores gozações de Glauco Mattoso. Rio de Janeiro: Ed. Trote, 1982. Poema integrante da série Sonettos Intalianos & Sonetos Ingreses
barravento ventania travessia disparada
arrastão veleiro saveiro jangadeiro canoeiro
caminhemos caminhando caminhada
andança chegança ponteio boiadeiro
berimbau arueira aruanda enluarada
opinião louvação cantador cirandeiro
banda sarabanda porta-estandarte batucada
incerteza insensatez inquietação
fracasso palhaço jurei errei sofri
antonico tico-tico maracangalha construção
rosa roda ronda bodas baby zambi
cadência decadência aquarela conceição
adalgisa amélia aurora irene geni
In: MATTOSO, Glauco. Memórias de um pueteiro: as melhores gozações de Glauco Mattoso. Rio de Janeiro: Ed. Trote, 1982. Poema integrante da série Sonettos Intalianos & Sonetos Ingreses
1 292
Glauco Mattoso
Cansioneiro, 1977
viramundo vaila estrada violeiro
barravento ventania travessia disparada
arrastão veleiro saveiro jangadeiro canoeiro
caminhemos caminhando caminhada
andança chegança ponteio boiadeiro
berimbau arueira aruanda enluarada
opinião louvação cantador cirandeiro
banda sarabanda porta-estandarte batucada
incerteza insensatez inquietação
fracasso palhaço jurei errei sofri
antonico tico-tico maracangalha construção
rosa roda ronda bodas baby zambi
cadência decadência aquarela conceição
adalgisa amélia aurora irene geni
In: MATTOSO, Glauco. Memórias de um pueteiro: as melhores gozações de Glauco Mattoso. Rio de Janeiro: Ed. Trote, 1982. Poema integrante da série Sonettos Intalianos & Sonetos Ingreses
barravento ventania travessia disparada
arrastão veleiro saveiro jangadeiro canoeiro
caminhemos caminhando caminhada
andança chegança ponteio boiadeiro
berimbau arueira aruanda enluarada
opinião louvação cantador cirandeiro
banda sarabanda porta-estandarte batucada
incerteza insensatez inquietação
fracasso palhaço jurei errei sofri
antonico tico-tico maracangalha construção
rosa roda ronda bodas baby zambi
cadência decadência aquarela conceição
adalgisa amélia aurora irene geni
In: MATTOSO, Glauco. Memórias de um pueteiro: as melhores gozações de Glauco Mattoso. Rio de Janeiro: Ed. Trote, 1982. Poema integrante da série Sonettos Intalianos & Sonetos Ingreses
1 292
Ricardo Gonçalves
O Batuque
Vagas constelações de pirilampos
Ponteiam de oiro a densa noite escura.
Há um trágico silêncio na espessura
Dos matagais e na amplidão dos campos.
O batuque dos negros apavora.
Anda o saci nas moitas, vagabundo,
E almas penadas, almas do outro mundo,
Passam gemendo pela noite em fora.
Só, no ranchinho de sapé coberto,
Encosto o ouvido à taipa esburacada,
E ouço um curiango que soluça, perto...
Lambe a fogueira os últimos gravetos,
E pela noite rola, magoada,
A cantiga nostálgica dos pretos.
In: GONÇALVES, Ricardo. Ipês: versos. Pref. Monteiro Lobato. São Paulo: Monteiro Lobato, 1922
Ponteiam de oiro a densa noite escura.
Há um trágico silêncio na espessura
Dos matagais e na amplidão dos campos.
O batuque dos negros apavora.
Anda o saci nas moitas, vagabundo,
E almas penadas, almas do outro mundo,
Passam gemendo pela noite em fora.
Só, no ranchinho de sapé coberto,
Encosto o ouvido à taipa esburacada,
E ouço um curiango que soluça, perto...
Lambe a fogueira os últimos gravetos,
E pela noite rola, magoada,
A cantiga nostálgica dos pretos.
In: GONÇALVES, Ricardo. Ipês: versos. Pref. Monteiro Lobato. São Paulo: Monteiro Lobato, 1922
1 042
Mário Faustino
Cino
Campagna italiana 1309, em plena estrada
Arre! já celebrei mulheres em três cidades,
Mas é tudo a mesma coisa;
E cantarei do sol.
Lábios, palavras, e lhes armamos armadilhas,
Sonhos, palavras, e são como jóias,
Estranhos bruxedos de velha divindade,
Corvos, noites, carícia:
E eis que não o são;
Já se tornaram almas de canção.
Olhos, sonhos, lábios, e a noite vai-se.
Em plena estrada, uma vez mais,
Elas não são.
Esquecidas, em suas torres, de nossa toada,
Uma vez por causa do vento, da revoada
Sonham rumo de nós e
Suspirando dizem, "Ah, se Cino,
Apaixonado Cino, o de olhos enrugados,
Alegre Cino, de riso rápido.
Cino ousado, Cino zombeteiro,
Frágil Cino, o mais forte de seu clã bandoleiro
Que bate as velhas vias sob o sol,
Se Cino do alaúde aqui voltasse!"
Uma vez, duas vezes, um ano —
E vagamente assim se exprimem:
"Cino?" "Oh, eh, Cino Polnesi
O cantor, não é dele que se trata?"
"Ah, sim, passou uma vez por aqui,
Sujeito atrevido, mas...
"São todos a mesma coisa, esses vagabundos
Peste! As canções eram dele?
Ou cantava as dos outros?
Mas e o senhor, Meu Senhor, como vai sua cidade?"
Mas e o senhor, "Meu Senhor", bá! por piedade!
E todos os que eu conhecia estavam fora, Meu Senhor, e tu
Eras Cino SemTerra, tal como eu sou,
O Sinistro.
Já celebrei mulheres em três cidades.
Mas é tudo a mesma coisa.
E cantarei o sol.
... eh?... a maioria delas tinha olhos cinzentos,
Mas é tudo a mesma coisa, e cantarei o sol.
'Pollo Phoibeu, panela velha, tu,
Glória da égide do Zeus do dia,
Escudo d'azul aço, o céu lá em cima
Tem por chefe tua rútila alegria!
'Pollo Phoibeu, ao longo do caminho,
Faze de teu riso nossa chanson;
Que teu fulgor ofusque nossa dor,
E que o choro da chuva tombe sem nós!
Buscando sempre o rastro recente
Rumo aos jardins do sol...
...................................
Já celebrei mulheres em três cidades
Mas é tudo a mesma coisa.
E cantarei das aves alvas
Nas águas azuis do céu,
As nuvens, o borrifo de seu mar.
Imagem - 00950001
Poema integrante da série Fontes e Correntes da Poesia Contemporânea: 13. Ezra Pound.
In: FAUSTINO, Mário. Poesia-experiência. Introd. Benedito Nunes. São Paulo: Perspectiva, 1977. (Debates, 136).
NOTA: Tradução de poema de Ezra Poun
Arre! já celebrei mulheres em três cidades,
Mas é tudo a mesma coisa;
E cantarei do sol.
Lábios, palavras, e lhes armamos armadilhas,
Sonhos, palavras, e são como jóias,
Estranhos bruxedos de velha divindade,
Corvos, noites, carícia:
E eis que não o são;
Já se tornaram almas de canção.
Olhos, sonhos, lábios, e a noite vai-se.
Em plena estrada, uma vez mais,
Elas não são.
Esquecidas, em suas torres, de nossa toada,
Uma vez por causa do vento, da revoada
Sonham rumo de nós e
Suspirando dizem, "Ah, se Cino,
Apaixonado Cino, o de olhos enrugados,
Alegre Cino, de riso rápido.
Cino ousado, Cino zombeteiro,
Frágil Cino, o mais forte de seu clã bandoleiro
Que bate as velhas vias sob o sol,
Se Cino do alaúde aqui voltasse!"
Uma vez, duas vezes, um ano —
E vagamente assim se exprimem:
"Cino?" "Oh, eh, Cino Polnesi
O cantor, não é dele que se trata?"
"Ah, sim, passou uma vez por aqui,
Sujeito atrevido, mas...
"São todos a mesma coisa, esses vagabundos
Peste! As canções eram dele?
Ou cantava as dos outros?
Mas e o senhor, Meu Senhor, como vai sua cidade?"
Mas e o senhor, "Meu Senhor", bá! por piedade!
E todos os que eu conhecia estavam fora, Meu Senhor, e tu
Eras Cino SemTerra, tal como eu sou,
O Sinistro.
Já celebrei mulheres em três cidades.
Mas é tudo a mesma coisa.
E cantarei o sol.
... eh?... a maioria delas tinha olhos cinzentos,
Mas é tudo a mesma coisa, e cantarei o sol.
'Pollo Phoibeu, panela velha, tu,
Glória da égide do Zeus do dia,
Escudo d'azul aço, o céu lá em cima
Tem por chefe tua rútila alegria!
'Pollo Phoibeu, ao longo do caminho,
Faze de teu riso nossa chanson;
Que teu fulgor ofusque nossa dor,
E que o choro da chuva tombe sem nós!
Buscando sempre o rastro recente
Rumo aos jardins do sol...
...................................
Já celebrei mulheres em três cidades
Mas é tudo a mesma coisa.
E cantarei das aves alvas
Nas águas azuis do céu,
As nuvens, o borrifo de seu mar.
Imagem - 00950001
Poema integrante da série Fontes e Correntes da Poesia Contemporânea: 13. Ezra Pound.
In: FAUSTINO, Mário. Poesia-experiência. Introd. Benedito Nunes. São Paulo: Perspectiva, 1977. (Debates, 136).
NOTA: Tradução de poema de Ezra Poun
1 359
Mário Faustino
Sextina: Altaforte
Loquitur: En Bertrans de Born
Dante Alighieri pôs este homem no inferno por
tratar-se de um provocador de desordens.
Eccovi!
Julgai-o vós!
Será que o desenterrei de novo?
A cena é em seu castelo, Altaforte. "Papiols" é seu jongleur.
"O Leopardo", a device de Ricardo Coeur de Lion.
I
Tudo prós diabos! Todo este Sul já fede a paz.
Anda cachorro bastardo, Papiols! À música!
Só sei que vivo se ouço espadas que ressoam.
Mas ah! Com os estandartes ouro e roxo e vair se opondo
Por cima de amplos campos encharcados de carmim
— Uiva meu peito então doido de júbilo.
II
Se é verão quente, encho-me então de júbilo
Quando a tormenta mata a horrenda paz,
E do negro os relâmpagos reboam seu carmim,
E os tremendos trovões rugindo-me, que música!
Doidos ventos e nuvens ululando e se opondo
Céu rachando e teus gládios, Deus, ressoam.
III
Praza aos diabos de novo que ressoem!
E os corcéis na batalha relinchando de júbilo,
De espigão na peitarra às peitarras se opondo:
Melhor o tremor de uma hora do que meses de paz
Mesa gorda, fêmeas, vinho, débil música!
Não há vinho como o sangue e seu carmim!
IV
E adoro ver o sol subir sangue-e-carmim.
E contemplo-lhe as lanças que no escuro ressoam
E transborda meu peito, dilatado de júbilo,
E rasgo minha boca de ágil música
Quando o vejo zombar, desafiando a paz,
Seu poder solitário contra o escuro se opondo.
V
Esse que teme a guerra e se acocora opondo-
Se ao que digo, não tem sangue carmim,
Só serve pra feder em feminina paz
Longe donde as aspadas trazem glória e ressoam
— Vossa morte, cadelas, recrudesce-me o júbilo
E por isso encho o ar com minha música.
VI
Papiols! papiols! Música, música!
Não há som como espadas às espadas se opondo,
Não há grito como na batalha o júbilo,
Cotovelos e espadas gotejando carmim,
Quando contra "O Leopardo" nossas cargas ressoam.
Deus maldiga quem quer que grite "Paz!"
VII
Que a música da espada os cubra de carmim!
Praza ao diabo, de novo, espadas que ressoam!
Praza ao diabo apagar o pensamento "Paz!"
Imagem - 00950001
Poema integrante da série Fontes e Correntes da Poesia Contemporânea: 13. Ezra Pound.
In: FAUSTINO, Mário. Poesia-experiência. Introd. Benedito Nunes. São Paulo: Perspectiva, 1977. (Debates, 136).
NOTA: Tradução de poema de Ezra Poun
Dante Alighieri pôs este homem no inferno por
tratar-se de um provocador de desordens.
Eccovi!
Julgai-o vós!
Será que o desenterrei de novo?
A cena é em seu castelo, Altaforte. "Papiols" é seu jongleur.
"O Leopardo", a device de Ricardo Coeur de Lion.
I
Tudo prós diabos! Todo este Sul já fede a paz.
Anda cachorro bastardo, Papiols! À música!
Só sei que vivo se ouço espadas que ressoam.
Mas ah! Com os estandartes ouro e roxo e vair se opondo
Por cima de amplos campos encharcados de carmim
— Uiva meu peito então doido de júbilo.
II
Se é verão quente, encho-me então de júbilo
Quando a tormenta mata a horrenda paz,
E do negro os relâmpagos reboam seu carmim,
E os tremendos trovões rugindo-me, que música!
Doidos ventos e nuvens ululando e se opondo
Céu rachando e teus gládios, Deus, ressoam.
III
Praza aos diabos de novo que ressoem!
E os corcéis na batalha relinchando de júbilo,
De espigão na peitarra às peitarras se opondo:
Melhor o tremor de uma hora do que meses de paz
Mesa gorda, fêmeas, vinho, débil música!
Não há vinho como o sangue e seu carmim!
IV
E adoro ver o sol subir sangue-e-carmim.
E contemplo-lhe as lanças que no escuro ressoam
E transborda meu peito, dilatado de júbilo,
E rasgo minha boca de ágil música
Quando o vejo zombar, desafiando a paz,
Seu poder solitário contra o escuro se opondo.
V
Esse que teme a guerra e se acocora opondo-
Se ao que digo, não tem sangue carmim,
Só serve pra feder em feminina paz
Longe donde as aspadas trazem glória e ressoam
— Vossa morte, cadelas, recrudesce-me o júbilo
E por isso encho o ar com minha música.
VI
Papiols! papiols! Música, música!
Não há som como espadas às espadas se opondo,
Não há grito como na batalha o júbilo,
Cotovelos e espadas gotejando carmim,
Quando contra "O Leopardo" nossas cargas ressoam.
Deus maldiga quem quer que grite "Paz!"
VII
Que a música da espada os cubra de carmim!
Praza ao diabo, de novo, espadas que ressoam!
Praza ao diabo apagar o pensamento "Paz!"
Imagem - 00950001
Poema integrante da série Fontes e Correntes da Poesia Contemporânea: 13. Ezra Pound.
In: FAUSTINO, Mário. Poesia-experiência. Introd. Benedito Nunes. São Paulo: Perspectiva, 1977. (Debates, 136).
NOTA: Tradução de poema de Ezra Poun
1 989
Glauco Mattoso
Fique Ligado, 1977
dentro de
um segundo
em primeira
mão
o terceiro
mundo
no seu
quarto
arregale
o globo e não
pisque
In: MATTOSO, Glauco. Línguas na papa: uma salada dos mais insípidos aos mais picantes poemas de Glauco Mattoso. São Paulo: Pindaiba, 1982
um segundo
em primeira
mão
o terceiro
mundo
no seu
quarto
arregale
o globo e não
pisque
In: MATTOSO, Glauco. Línguas na papa: uma salada dos mais insípidos aos mais picantes poemas de Glauco Mattoso. São Paulo: Pindaiba, 1982
1 300
Glauco Mattoso
Fique Ligado, 1977
dentro de
um segundo
em primeira
mão
o terceiro
mundo
no seu
quarto
arregale
o globo e não
pisque
In: MATTOSO, Glauco. Línguas na papa: uma salada dos mais insípidos aos mais picantes poemas de Glauco Mattoso. São Paulo: Pindaiba, 1982
um segundo
em primeira
mão
o terceiro
mundo
no seu
quarto
arregale
o globo e não
pisque
In: MATTOSO, Glauco. Línguas na papa: uma salada dos mais insípidos aos mais picantes poemas de Glauco Mattoso. São Paulo: Pindaiba, 1982
1 300
Maria Helena Nery Garcez
Gorjeios de Cá e de Lá
Tomemos uma bica, pá,
ou preferes um galão?
Depois, vamos ter à paragem,
façamos a bicha do autocarro,
obliteremos os módulos
que eles pagarão a portagem.
Isto está mesmo muito giro.
Leiamos O Morro dos Vendavais
assentados sobre o relvado
ou observemos os peões
que estão a refilar.
Será que estou mesmo na minha pátria, ó Soares?
In: GARCEZ, Maria Helena Nery. Telhado de vidro. São Paulo: J. Scortecci, 1988.
NOTA: O título parodia os versos "As aves, que aqui gorjeiam,/Não gorjeiam como lá.", da "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dia
ou preferes um galão?
Depois, vamos ter à paragem,
façamos a bicha do autocarro,
obliteremos os módulos
que eles pagarão a portagem.
Isto está mesmo muito giro.
Leiamos O Morro dos Vendavais
assentados sobre o relvado
ou observemos os peões
que estão a refilar.
Será que estou mesmo na minha pátria, ó Soares?
In: GARCEZ, Maria Helena Nery. Telhado de vidro. São Paulo: J. Scortecci, 1988.
NOTA: O título parodia os versos "As aves, que aqui gorjeiam,/Não gorjeiam como lá.", da "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dia
902
Maria Helena Nery Garcez
Gorjeios de Cá e de Lá
Tomemos uma bica, pá,
ou preferes um galão?
Depois, vamos ter à paragem,
façamos a bicha do autocarro,
obliteremos os módulos
que eles pagarão a portagem.
Isto está mesmo muito giro.
Leiamos O Morro dos Vendavais
assentados sobre o relvado
ou observemos os peões
que estão a refilar.
Será que estou mesmo na minha pátria, ó Soares?
In: GARCEZ, Maria Helena Nery. Telhado de vidro. São Paulo: J. Scortecci, 1988.
NOTA: O título parodia os versos "As aves, que aqui gorjeiam,/Não gorjeiam como lá.", da "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dia
ou preferes um galão?
Depois, vamos ter à paragem,
façamos a bicha do autocarro,
obliteremos os módulos
que eles pagarão a portagem.
Isto está mesmo muito giro.
Leiamos O Morro dos Vendavais
assentados sobre o relvado
ou observemos os peões
que estão a refilar.
Será que estou mesmo na minha pátria, ó Soares?
In: GARCEZ, Maria Helena Nery. Telhado de vidro. São Paulo: J. Scortecci, 1988.
NOTA: O título parodia os versos "As aves, que aqui gorjeiam,/Não gorjeiam como lá.", da "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dia
902
Maria Helena Nery Garcez
Gorjeios de Cá e de Lá
Tomemos uma bica, pá,
ou preferes um galão?
Depois, vamos ter à paragem,
façamos a bicha do autocarro,
obliteremos os módulos
que eles pagarão a portagem.
Isto está mesmo muito giro.
Leiamos O Morro dos Vendavais
assentados sobre o relvado
ou observemos os peões
que estão a refilar.
Será que estou mesmo na minha pátria, ó Soares?
In: GARCEZ, Maria Helena Nery. Telhado de vidro. São Paulo: J. Scortecci, 1988.
NOTA: O título parodia os versos "As aves, que aqui gorjeiam,/Não gorjeiam como lá.", da "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dia
ou preferes um galão?
Depois, vamos ter à paragem,
façamos a bicha do autocarro,
obliteremos os módulos
que eles pagarão a portagem.
Isto está mesmo muito giro.
Leiamos O Morro dos Vendavais
assentados sobre o relvado
ou observemos os peões
que estão a refilar.
Será que estou mesmo na minha pátria, ó Soares?
In: GARCEZ, Maria Helena Nery. Telhado de vidro. São Paulo: J. Scortecci, 1988.
NOTA: O título parodia os versos "As aves, que aqui gorjeiam,/Não gorjeiam como lá.", da "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dia
902
Raul Pompéia
A Mudança da Capital da República
Enquanto se debatem estas atribuições da vida popular, há filósofos admiráveis, de bastante calma para meditar a mudança da capital da República.
Foi uma das idéias da semana a da mudança, nada menos (mudança de capital...) do Rio de Janeiro para o sertão de Goiás!
Houve ingênuos que admiraram a simples transferência de um obelisco das margens do Nilo para a capital da França. A vingar a idéia de mudança da capital da República para o sítio da Formosa da Imperatriz do chapadão goiano, teremos ocasião de ver coisa muito mais espantosa, a transferência total, em conjunto ou por partes, de uma enorme cidade.
Há coisas nessa transferência que só pensar nelas perturba a imaginação. Que se levem as estátuas das praças, concebe-se — dentro de caixas apropriadas e convenientemente sólidas. Que se leve o chafariz do antigo Largo do Paço ou o zimbório da Candelária, também se concebe; basta que se o pegue por cima do chafariz com um bom guindaste pela ponta da pirâmide, pela esfera armilar e que se suspenda para cima de uma robusta carreta. O zimbório da Candelária, pega-se pela cruz. Compreende-se que vá também a caixa d'água da Carioca, desde que a montem sobre quatro rodas, como um carrinho de caixão de meninos. Pode-se até aproveitar o espaço vão e meter-lhe dentro, cautelosamente empilhados, os arcos todos do Aqueduto de Santa Tereza. Os edifícios também é fácil imaginar que irão desconjuntados, parede por parede, escada por escada, teto por teto, desde que se numerem as diferentes peças para se não confundirem. Não foi assim que veio o Teatro Apolo todinho de Paris até aqui? Que se trasladem os pequenos morros do centro da cidade, conjetura-se igualmente: são de terra: podem ir aos bocados em carroças, por exemplo, e lá no seu destino acumulam-se outra vez. Porventura não se está fazendo a mudança pouco a pouco de alguns desses morros para dentro da baía?... Mas há mudanças inconcebíveis. Como conseguirão os mudadores da capital trasladar o Corcovado?. Rochas, águas, florestas e a estrada de ferro. Como hão de poder mudar para lá, para o sertão da Formosa o Pão de Açúcar, as fortalezas, a barra, elementos decorativos da nossa bela capital que mudada sem eles não se teria mudado?!
Publicada no Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 15 dez. 1890. Título atribuído pelo Itaú Cultural.
POMPÉIA, Raul. Crônicas 4. Organização de Afrânio Coutinho. Assistência de Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1983. v. 9. p. 52-53
Foi uma das idéias da semana a da mudança, nada menos (mudança de capital...) do Rio de Janeiro para o sertão de Goiás!
Houve ingênuos que admiraram a simples transferência de um obelisco das margens do Nilo para a capital da França. A vingar a idéia de mudança da capital da República para o sítio da Formosa da Imperatriz do chapadão goiano, teremos ocasião de ver coisa muito mais espantosa, a transferência total, em conjunto ou por partes, de uma enorme cidade.
Há coisas nessa transferência que só pensar nelas perturba a imaginação. Que se levem as estátuas das praças, concebe-se — dentro de caixas apropriadas e convenientemente sólidas. Que se leve o chafariz do antigo Largo do Paço ou o zimbório da Candelária, também se concebe; basta que se o pegue por cima do chafariz com um bom guindaste pela ponta da pirâmide, pela esfera armilar e que se suspenda para cima de uma robusta carreta. O zimbório da Candelária, pega-se pela cruz. Compreende-se que vá também a caixa d'água da Carioca, desde que a montem sobre quatro rodas, como um carrinho de caixão de meninos. Pode-se até aproveitar o espaço vão e meter-lhe dentro, cautelosamente empilhados, os arcos todos do Aqueduto de Santa Tereza. Os edifícios também é fácil imaginar que irão desconjuntados, parede por parede, escada por escada, teto por teto, desde que se numerem as diferentes peças para se não confundirem. Não foi assim que veio o Teatro Apolo todinho de Paris até aqui? Que se trasladem os pequenos morros do centro da cidade, conjetura-se igualmente: são de terra: podem ir aos bocados em carroças, por exemplo, e lá no seu destino acumulam-se outra vez. Porventura não se está fazendo a mudança pouco a pouco de alguns desses morros para dentro da baía?... Mas há mudanças inconcebíveis. Como conseguirão os mudadores da capital trasladar o Corcovado?. Rochas, águas, florestas e a estrada de ferro. Como hão de poder mudar para lá, para o sertão da Formosa o Pão de Açúcar, as fortalezas, a barra, elementos decorativos da nossa bela capital que mudada sem eles não se teria mudado?!
Publicada no Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 15 dez. 1890. Título atribuído pelo Itaú Cultural.
POMPÉIA, Raul. Crônicas 4. Organização de Afrânio Coutinho. Assistência de Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1983. v. 9. p. 52-53
1 522
Raul Pompéia
A Mudança da Capital da República
Enquanto se debatem estas atribuições da vida popular, há filósofos admiráveis, de bastante calma para meditar a mudança da capital da República.
Foi uma das idéias da semana a da mudança, nada menos (mudança de capital...) do Rio de Janeiro para o sertão de Goiás!
Houve ingênuos que admiraram a simples transferência de um obelisco das margens do Nilo para a capital da França. A vingar a idéia de mudança da capital da República para o sítio da Formosa da Imperatriz do chapadão goiano, teremos ocasião de ver coisa muito mais espantosa, a transferência total, em conjunto ou por partes, de uma enorme cidade.
Há coisas nessa transferência que só pensar nelas perturba a imaginação. Que se levem as estátuas das praças, concebe-se — dentro de caixas apropriadas e convenientemente sólidas. Que se leve o chafariz do antigo Largo do Paço ou o zimbório da Candelária, também se concebe; basta que se o pegue por cima do chafariz com um bom guindaste pela ponta da pirâmide, pela esfera armilar e que se suspenda para cima de uma robusta carreta. O zimbório da Candelária, pega-se pela cruz. Compreende-se que vá também a caixa d'água da Carioca, desde que a montem sobre quatro rodas, como um carrinho de caixão de meninos. Pode-se até aproveitar o espaço vão e meter-lhe dentro, cautelosamente empilhados, os arcos todos do Aqueduto de Santa Tereza. Os edifícios também é fácil imaginar que irão desconjuntados, parede por parede, escada por escada, teto por teto, desde que se numerem as diferentes peças para se não confundirem. Não foi assim que veio o Teatro Apolo todinho de Paris até aqui? Que se trasladem os pequenos morros do centro da cidade, conjetura-se igualmente: são de terra: podem ir aos bocados em carroças, por exemplo, e lá no seu destino acumulam-se outra vez. Porventura não se está fazendo a mudança pouco a pouco de alguns desses morros para dentro da baía?... Mas há mudanças inconcebíveis. Como conseguirão os mudadores da capital trasladar o Corcovado?. Rochas, águas, florestas e a estrada de ferro. Como hão de poder mudar para lá, para o sertão da Formosa o Pão de Açúcar, as fortalezas, a barra, elementos decorativos da nossa bela capital que mudada sem eles não se teria mudado?!
Publicada no Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 15 dez. 1890. Título atribuído pelo Itaú Cultural.
POMPÉIA, Raul. Crônicas 4. Organização de Afrânio Coutinho. Assistência de Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1983. v. 9. p. 52-53
Foi uma das idéias da semana a da mudança, nada menos (mudança de capital...) do Rio de Janeiro para o sertão de Goiás!
Houve ingênuos que admiraram a simples transferência de um obelisco das margens do Nilo para a capital da França. A vingar a idéia de mudança da capital da República para o sítio da Formosa da Imperatriz do chapadão goiano, teremos ocasião de ver coisa muito mais espantosa, a transferência total, em conjunto ou por partes, de uma enorme cidade.
Há coisas nessa transferência que só pensar nelas perturba a imaginação. Que se levem as estátuas das praças, concebe-se — dentro de caixas apropriadas e convenientemente sólidas. Que se leve o chafariz do antigo Largo do Paço ou o zimbório da Candelária, também se concebe; basta que se o pegue por cima do chafariz com um bom guindaste pela ponta da pirâmide, pela esfera armilar e que se suspenda para cima de uma robusta carreta. O zimbório da Candelária, pega-se pela cruz. Compreende-se que vá também a caixa d'água da Carioca, desde que a montem sobre quatro rodas, como um carrinho de caixão de meninos. Pode-se até aproveitar o espaço vão e meter-lhe dentro, cautelosamente empilhados, os arcos todos do Aqueduto de Santa Tereza. Os edifícios também é fácil imaginar que irão desconjuntados, parede por parede, escada por escada, teto por teto, desde que se numerem as diferentes peças para se não confundirem. Não foi assim que veio o Teatro Apolo todinho de Paris até aqui? Que se trasladem os pequenos morros do centro da cidade, conjetura-se igualmente: são de terra: podem ir aos bocados em carroças, por exemplo, e lá no seu destino acumulam-se outra vez. Porventura não se está fazendo a mudança pouco a pouco de alguns desses morros para dentro da baía?... Mas há mudanças inconcebíveis. Como conseguirão os mudadores da capital trasladar o Corcovado?. Rochas, águas, florestas e a estrada de ferro. Como hão de poder mudar para lá, para o sertão da Formosa o Pão de Açúcar, as fortalezas, a barra, elementos decorativos da nossa bela capital que mudada sem eles não se teria mudado?!
Publicada no Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 15 dez. 1890. Título atribuído pelo Itaú Cultural.
POMPÉIA, Raul. Crônicas 4. Organização de Afrânio Coutinho. Assistência de Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1983. v. 9. p. 52-53
1 522
Raul Pompéia
As Greves
Depois, não carecemos de culpas reprováveis para ter a agitação popular no Rio de Janeiro. Aí estão as grèves.
Supunha-se que era privilégio das populações operárias da velha Europa. As grèves foram pouco a pouco emigrando para o nosso continente; aclimaram-se nos Estados Unidos do Norte; desceram depois pela carta geográfica e invadiram o Chile. Agora estão na capital fluminense.
É justiça, contudo, reconhecer que as nossas grèves de um povo feliz, são calmas e moderadas, quase circunspectas; o que, longe de enfraquecê-las, deve ao contrário prestigiá-las diante daquelas contra quem representam.
Em atenção a essa mesma brandura dos que reclamam, devem os patrões cuidar em atendê-los da melhor vontade.
A indústria mal começa a existir entre nós, a opinião operária, por assim dizer, começa apenas a constituir-se. Mas com o natural progresso ela há de ter voto enérgico, aqui como em toda parte, e é bom que aqueles de quem o acordo mais depende, para estabelecer-se entre o capital e o trabalho, vão desde já implantando, entre os seus subordinados, pela eqüidade das concessões, os hábitos de harmonia e mútuo bom humor indispensáveis à vida econômica da produção. E para que regatear em um dia o que no dia seguinte se vai conceder? O meio-tempo não passa de um prazo útil de azedume.
Dir-se-á que, enquanto a impaciência dos grevistas vai e vem, folgam alguns lucros. Mas a indústria não é com certeza uma coisa efêmera, que se adstrinja às vantagens de um momento.
E resistir é unicamente adiar, isto mesmo quando a resistência é profícua; e adiar é instituir a reclamação perpétua em regime; é arvorar em mal crônico uma crise passageira. Acrescendo a consciência de que a resistência fatalmente sucumbirá por fim, o que a faz insensata sobre malévola.
Reparem bem no que é a grève.
A grève é a transformação moderna da guerra.
Ë mais do que a transformação: é a própria guerra invertida. A guerra é um movimento de agressão; a grève é a imobilidade agressiva. A grève dispõe da mais poderosa das forças da natureza, a celebrada força da inércia. Pela guerra o soldado vence o inimigo; pela grève faria coisa mais difícil: venceria o comandante. Se a guerra e a grève se confundissem, por efeito de uma conspiração generosa das classes armadas, a guerra seria abolida: o monstro inquieto das ambições internacionais morreria paralítico.
Esta reforma da estratégia das lutas sociais veio da alteração da índole dos povos. A sociedade atual tem no Oriente do seu futuro uma aurora evidente de paz.
Paz no velho sentido da palavra. O progresso industrial e a decadência da guerra proporcionam-se entre si inevitavelmente. O século XIX, chamado século do operário, tem fabricado armas de guerra incomparavelmente mais do que nenhum outro; mas, apreciando-o com justiça, não custa descobrir que ela as fabrica muito mais para vender do que para matar. Não há dúvida. A paz aí vem. E porque ela promete vir, os homens foram pensando em fazer dela mesmo... como diremos? arma de guerra. Guerra aqui em sentido moderno. E, como se sabe dos compêndios de tática que a guerra é principalmente a mobilização, recorreu-se ao princípio contrário da imobilização, para conhecer-lhe a eficácia hostilizadora. O velho princípio da hostilidade é atacar; o novo princípio é não atacar, mas em compensação não fazer mais nada. Braços cruzados! tornou-se um grito de campanha mais perigoso do que o anacrônico — Às armas! Com a velha guerra corria o sangue, o que era mau; com a grève nova deixam de correr os juros, o que é mil vezes pior.
Vejam lá os chefes industriais que incômoda situação lhes pode reservar a teoria da resistência.
Entre nós porque a massa dos trabalhadores não é numerosa e a imigração de pessoal para o trabalho é quotidiana, ainda pode haver o apelo para gente nova, em substituição dos seus antecessores incontestados. Basta, porém, que se forme o povo operário domiciliado e que possa a cabala de classe girar melhor, com a intimidade de próximas e antigas camaradagens, para que já não haja outro recurso senão, como na Europa desabusada, o das absurdas coações brutais e mortíferas.
Publicada no Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 17 ago. 1890. Título atribuído pelo Itaú Cultural.
POMPÉIA, Raul. Crônicas 4. Organização de Afrânio Coutinho. Assistência de Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1983. v. 9. p. 87-88
Supunha-se que era privilégio das populações operárias da velha Europa. As grèves foram pouco a pouco emigrando para o nosso continente; aclimaram-se nos Estados Unidos do Norte; desceram depois pela carta geográfica e invadiram o Chile. Agora estão na capital fluminense.
É justiça, contudo, reconhecer que as nossas grèves de um povo feliz, são calmas e moderadas, quase circunspectas; o que, longe de enfraquecê-las, deve ao contrário prestigiá-las diante daquelas contra quem representam.
Em atenção a essa mesma brandura dos que reclamam, devem os patrões cuidar em atendê-los da melhor vontade.
A indústria mal começa a existir entre nós, a opinião operária, por assim dizer, começa apenas a constituir-se. Mas com o natural progresso ela há de ter voto enérgico, aqui como em toda parte, e é bom que aqueles de quem o acordo mais depende, para estabelecer-se entre o capital e o trabalho, vão desde já implantando, entre os seus subordinados, pela eqüidade das concessões, os hábitos de harmonia e mútuo bom humor indispensáveis à vida econômica da produção. E para que regatear em um dia o que no dia seguinte se vai conceder? O meio-tempo não passa de um prazo útil de azedume.
Dir-se-á que, enquanto a impaciência dos grevistas vai e vem, folgam alguns lucros. Mas a indústria não é com certeza uma coisa efêmera, que se adstrinja às vantagens de um momento.
E resistir é unicamente adiar, isto mesmo quando a resistência é profícua; e adiar é instituir a reclamação perpétua em regime; é arvorar em mal crônico uma crise passageira. Acrescendo a consciência de que a resistência fatalmente sucumbirá por fim, o que a faz insensata sobre malévola.
Reparem bem no que é a grève.
A grève é a transformação moderna da guerra.
Ë mais do que a transformação: é a própria guerra invertida. A guerra é um movimento de agressão; a grève é a imobilidade agressiva. A grève dispõe da mais poderosa das forças da natureza, a celebrada força da inércia. Pela guerra o soldado vence o inimigo; pela grève faria coisa mais difícil: venceria o comandante. Se a guerra e a grève se confundissem, por efeito de uma conspiração generosa das classes armadas, a guerra seria abolida: o monstro inquieto das ambições internacionais morreria paralítico.
Esta reforma da estratégia das lutas sociais veio da alteração da índole dos povos. A sociedade atual tem no Oriente do seu futuro uma aurora evidente de paz.
Paz no velho sentido da palavra. O progresso industrial e a decadência da guerra proporcionam-se entre si inevitavelmente. O século XIX, chamado século do operário, tem fabricado armas de guerra incomparavelmente mais do que nenhum outro; mas, apreciando-o com justiça, não custa descobrir que ela as fabrica muito mais para vender do que para matar. Não há dúvida. A paz aí vem. E porque ela promete vir, os homens foram pensando em fazer dela mesmo... como diremos? arma de guerra. Guerra aqui em sentido moderno. E, como se sabe dos compêndios de tática que a guerra é principalmente a mobilização, recorreu-se ao princípio contrário da imobilização, para conhecer-lhe a eficácia hostilizadora. O velho princípio da hostilidade é atacar; o novo princípio é não atacar, mas em compensação não fazer mais nada. Braços cruzados! tornou-se um grito de campanha mais perigoso do que o anacrônico — Às armas! Com a velha guerra corria o sangue, o que era mau; com a grève nova deixam de correr os juros, o que é mil vezes pior.
Vejam lá os chefes industriais que incômoda situação lhes pode reservar a teoria da resistência.
Entre nós porque a massa dos trabalhadores não é numerosa e a imigração de pessoal para o trabalho é quotidiana, ainda pode haver o apelo para gente nova, em substituição dos seus antecessores incontestados. Basta, porém, que se forme o povo operário domiciliado e que possa a cabala de classe girar melhor, com a intimidade de próximas e antigas camaradagens, para que já não haja outro recurso senão, como na Europa desabusada, o das absurdas coações brutais e mortíferas.
Publicada no Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 17 ago. 1890. Título atribuído pelo Itaú Cultural.
POMPÉIA, Raul. Crônicas 4. Organização de Afrânio Coutinho. Assistência de Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1983. v. 9. p. 87-88
1 829
Raul Pompéia
As Greves
Depois, não carecemos de culpas reprováveis para ter a agitação popular no Rio de Janeiro. Aí estão as grèves.
Supunha-se que era privilégio das populações operárias da velha Europa. As grèves foram pouco a pouco emigrando para o nosso continente; aclimaram-se nos Estados Unidos do Norte; desceram depois pela carta geográfica e invadiram o Chile. Agora estão na capital fluminense.
É justiça, contudo, reconhecer que as nossas grèves de um povo feliz, são calmas e moderadas, quase circunspectas; o que, longe de enfraquecê-las, deve ao contrário prestigiá-las diante daquelas contra quem representam.
Em atenção a essa mesma brandura dos que reclamam, devem os patrões cuidar em atendê-los da melhor vontade.
A indústria mal começa a existir entre nós, a opinião operária, por assim dizer, começa apenas a constituir-se. Mas com o natural progresso ela há de ter voto enérgico, aqui como em toda parte, e é bom que aqueles de quem o acordo mais depende, para estabelecer-se entre o capital e o trabalho, vão desde já implantando, entre os seus subordinados, pela eqüidade das concessões, os hábitos de harmonia e mútuo bom humor indispensáveis à vida econômica da produção. E para que regatear em um dia o que no dia seguinte se vai conceder? O meio-tempo não passa de um prazo útil de azedume.
Dir-se-á que, enquanto a impaciência dos grevistas vai e vem, folgam alguns lucros. Mas a indústria não é com certeza uma coisa efêmera, que se adstrinja às vantagens de um momento.
E resistir é unicamente adiar, isto mesmo quando a resistência é profícua; e adiar é instituir a reclamação perpétua em regime; é arvorar em mal crônico uma crise passageira. Acrescendo a consciência de que a resistência fatalmente sucumbirá por fim, o que a faz insensata sobre malévola.
Reparem bem no que é a grève.
A grève é a transformação moderna da guerra.
Ë mais do que a transformação: é a própria guerra invertida. A guerra é um movimento de agressão; a grève é a imobilidade agressiva. A grève dispõe da mais poderosa das forças da natureza, a celebrada força da inércia. Pela guerra o soldado vence o inimigo; pela grève faria coisa mais difícil: venceria o comandante. Se a guerra e a grève se confundissem, por efeito de uma conspiração generosa das classes armadas, a guerra seria abolida: o monstro inquieto das ambições internacionais morreria paralítico.
Esta reforma da estratégia das lutas sociais veio da alteração da índole dos povos. A sociedade atual tem no Oriente do seu futuro uma aurora evidente de paz.
Paz no velho sentido da palavra. O progresso industrial e a decadência da guerra proporcionam-se entre si inevitavelmente. O século XIX, chamado século do operário, tem fabricado armas de guerra incomparavelmente mais do que nenhum outro; mas, apreciando-o com justiça, não custa descobrir que ela as fabrica muito mais para vender do que para matar. Não há dúvida. A paz aí vem. E porque ela promete vir, os homens foram pensando em fazer dela mesmo... como diremos? arma de guerra. Guerra aqui em sentido moderno. E, como se sabe dos compêndios de tática que a guerra é principalmente a mobilização, recorreu-se ao princípio contrário da imobilização, para conhecer-lhe a eficácia hostilizadora. O velho princípio da hostilidade é atacar; o novo princípio é não atacar, mas em compensação não fazer mais nada. Braços cruzados! tornou-se um grito de campanha mais perigoso do que o anacrônico — Às armas! Com a velha guerra corria o sangue, o que era mau; com a grève nova deixam de correr os juros, o que é mil vezes pior.
Vejam lá os chefes industriais que incômoda situação lhes pode reservar a teoria da resistência.
Entre nós porque a massa dos trabalhadores não é numerosa e a imigração de pessoal para o trabalho é quotidiana, ainda pode haver o apelo para gente nova, em substituição dos seus antecessores incontestados. Basta, porém, que se forme o povo operário domiciliado e que possa a cabala de classe girar melhor, com a intimidade de próximas e antigas camaradagens, para que já não haja outro recurso senão, como na Europa desabusada, o das absurdas coações brutais e mortíferas.
Publicada no Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 17 ago. 1890. Título atribuído pelo Itaú Cultural.
POMPÉIA, Raul. Crônicas 4. Organização de Afrânio Coutinho. Assistência de Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1983. v. 9. p. 87-88
Supunha-se que era privilégio das populações operárias da velha Europa. As grèves foram pouco a pouco emigrando para o nosso continente; aclimaram-se nos Estados Unidos do Norte; desceram depois pela carta geográfica e invadiram o Chile. Agora estão na capital fluminense.
É justiça, contudo, reconhecer que as nossas grèves de um povo feliz, são calmas e moderadas, quase circunspectas; o que, longe de enfraquecê-las, deve ao contrário prestigiá-las diante daquelas contra quem representam.
Em atenção a essa mesma brandura dos que reclamam, devem os patrões cuidar em atendê-los da melhor vontade.
A indústria mal começa a existir entre nós, a opinião operária, por assim dizer, começa apenas a constituir-se. Mas com o natural progresso ela há de ter voto enérgico, aqui como em toda parte, e é bom que aqueles de quem o acordo mais depende, para estabelecer-se entre o capital e o trabalho, vão desde já implantando, entre os seus subordinados, pela eqüidade das concessões, os hábitos de harmonia e mútuo bom humor indispensáveis à vida econômica da produção. E para que regatear em um dia o que no dia seguinte se vai conceder? O meio-tempo não passa de um prazo útil de azedume.
Dir-se-á que, enquanto a impaciência dos grevistas vai e vem, folgam alguns lucros. Mas a indústria não é com certeza uma coisa efêmera, que se adstrinja às vantagens de um momento.
E resistir é unicamente adiar, isto mesmo quando a resistência é profícua; e adiar é instituir a reclamação perpétua em regime; é arvorar em mal crônico uma crise passageira. Acrescendo a consciência de que a resistência fatalmente sucumbirá por fim, o que a faz insensata sobre malévola.
Reparem bem no que é a grève.
A grève é a transformação moderna da guerra.
Ë mais do que a transformação: é a própria guerra invertida. A guerra é um movimento de agressão; a grève é a imobilidade agressiva. A grève dispõe da mais poderosa das forças da natureza, a celebrada força da inércia. Pela guerra o soldado vence o inimigo; pela grève faria coisa mais difícil: venceria o comandante. Se a guerra e a grève se confundissem, por efeito de uma conspiração generosa das classes armadas, a guerra seria abolida: o monstro inquieto das ambições internacionais morreria paralítico.
Esta reforma da estratégia das lutas sociais veio da alteração da índole dos povos. A sociedade atual tem no Oriente do seu futuro uma aurora evidente de paz.
Paz no velho sentido da palavra. O progresso industrial e a decadência da guerra proporcionam-se entre si inevitavelmente. O século XIX, chamado século do operário, tem fabricado armas de guerra incomparavelmente mais do que nenhum outro; mas, apreciando-o com justiça, não custa descobrir que ela as fabrica muito mais para vender do que para matar. Não há dúvida. A paz aí vem. E porque ela promete vir, os homens foram pensando em fazer dela mesmo... como diremos? arma de guerra. Guerra aqui em sentido moderno. E, como se sabe dos compêndios de tática que a guerra é principalmente a mobilização, recorreu-se ao princípio contrário da imobilização, para conhecer-lhe a eficácia hostilizadora. O velho princípio da hostilidade é atacar; o novo princípio é não atacar, mas em compensação não fazer mais nada. Braços cruzados! tornou-se um grito de campanha mais perigoso do que o anacrônico — Às armas! Com a velha guerra corria o sangue, o que era mau; com a grève nova deixam de correr os juros, o que é mil vezes pior.
Vejam lá os chefes industriais que incômoda situação lhes pode reservar a teoria da resistência.
Entre nós porque a massa dos trabalhadores não é numerosa e a imigração de pessoal para o trabalho é quotidiana, ainda pode haver o apelo para gente nova, em substituição dos seus antecessores incontestados. Basta, porém, que se forme o povo operário domiciliado e que possa a cabala de classe girar melhor, com a intimidade de próximas e antigas camaradagens, para que já não haja outro recurso senão, como na Europa desabusada, o das absurdas coações brutais e mortíferas.
Publicada no Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 17 ago. 1890. Título atribuído pelo Itaú Cultural.
POMPÉIA, Raul. Crônicas 4. Organização de Afrânio Coutinho. Assistência de Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1983. v. 9. p. 87-88
1 829
Raul Pompéia
As Greves
Depois, não carecemos de culpas reprováveis para ter a agitação popular no Rio de Janeiro. Aí estão as grèves.
Supunha-se que era privilégio das populações operárias da velha Europa. As grèves foram pouco a pouco emigrando para o nosso continente; aclimaram-se nos Estados Unidos do Norte; desceram depois pela carta geográfica e invadiram o Chile. Agora estão na capital fluminense.
É justiça, contudo, reconhecer que as nossas grèves de um povo feliz, são calmas e moderadas, quase circunspectas; o que, longe de enfraquecê-las, deve ao contrário prestigiá-las diante daquelas contra quem representam.
Em atenção a essa mesma brandura dos que reclamam, devem os patrões cuidar em atendê-los da melhor vontade.
A indústria mal começa a existir entre nós, a opinião operária, por assim dizer, começa apenas a constituir-se. Mas com o natural progresso ela há de ter voto enérgico, aqui como em toda parte, e é bom que aqueles de quem o acordo mais depende, para estabelecer-se entre o capital e o trabalho, vão desde já implantando, entre os seus subordinados, pela eqüidade das concessões, os hábitos de harmonia e mútuo bom humor indispensáveis à vida econômica da produção. E para que regatear em um dia o que no dia seguinte se vai conceder? O meio-tempo não passa de um prazo útil de azedume.
Dir-se-á que, enquanto a impaciência dos grevistas vai e vem, folgam alguns lucros. Mas a indústria não é com certeza uma coisa efêmera, que se adstrinja às vantagens de um momento.
E resistir é unicamente adiar, isto mesmo quando a resistência é profícua; e adiar é instituir a reclamação perpétua em regime; é arvorar em mal crônico uma crise passageira. Acrescendo a consciência de que a resistência fatalmente sucumbirá por fim, o que a faz insensata sobre malévola.
Reparem bem no que é a grève.
A grève é a transformação moderna da guerra.
Ë mais do que a transformação: é a própria guerra invertida. A guerra é um movimento de agressão; a grève é a imobilidade agressiva. A grève dispõe da mais poderosa das forças da natureza, a celebrada força da inércia. Pela guerra o soldado vence o inimigo; pela grève faria coisa mais difícil: venceria o comandante. Se a guerra e a grève se confundissem, por efeito de uma conspiração generosa das classes armadas, a guerra seria abolida: o monstro inquieto das ambições internacionais morreria paralítico.
Esta reforma da estratégia das lutas sociais veio da alteração da índole dos povos. A sociedade atual tem no Oriente do seu futuro uma aurora evidente de paz.
Paz no velho sentido da palavra. O progresso industrial e a decadência da guerra proporcionam-se entre si inevitavelmente. O século XIX, chamado século do operário, tem fabricado armas de guerra incomparavelmente mais do que nenhum outro; mas, apreciando-o com justiça, não custa descobrir que ela as fabrica muito mais para vender do que para matar. Não há dúvida. A paz aí vem. E porque ela promete vir, os homens foram pensando em fazer dela mesmo... como diremos? arma de guerra. Guerra aqui em sentido moderno. E, como se sabe dos compêndios de tática que a guerra é principalmente a mobilização, recorreu-se ao princípio contrário da imobilização, para conhecer-lhe a eficácia hostilizadora. O velho princípio da hostilidade é atacar; o novo princípio é não atacar, mas em compensação não fazer mais nada. Braços cruzados! tornou-se um grito de campanha mais perigoso do que o anacrônico — Às armas! Com a velha guerra corria o sangue, o que era mau; com a grève nova deixam de correr os juros, o que é mil vezes pior.
Vejam lá os chefes industriais que incômoda situação lhes pode reservar a teoria da resistência.
Entre nós porque a massa dos trabalhadores não é numerosa e a imigração de pessoal para o trabalho é quotidiana, ainda pode haver o apelo para gente nova, em substituição dos seus antecessores incontestados. Basta, porém, que se forme o povo operário domiciliado e que possa a cabala de classe girar melhor, com a intimidade de próximas e antigas camaradagens, para que já não haja outro recurso senão, como na Europa desabusada, o das absurdas coações brutais e mortíferas.
Publicada no Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 17 ago. 1890. Título atribuído pelo Itaú Cultural.
POMPÉIA, Raul. Crônicas 4. Organização de Afrânio Coutinho. Assistência de Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1983. v. 9. p. 87-88
Supunha-se que era privilégio das populações operárias da velha Europa. As grèves foram pouco a pouco emigrando para o nosso continente; aclimaram-se nos Estados Unidos do Norte; desceram depois pela carta geográfica e invadiram o Chile. Agora estão na capital fluminense.
É justiça, contudo, reconhecer que as nossas grèves de um povo feliz, são calmas e moderadas, quase circunspectas; o que, longe de enfraquecê-las, deve ao contrário prestigiá-las diante daquelas contra quem representam.
Em atenção a essa mesma brandura dos que reclamam, devem os patrões cuidar em atendê-los da melhor vontade.
A indústria mal começa a existir entre nós, a opinião operária, por assim dizer, começa apenas a constituir-se. Mas com o natural progresso ela há de ter voto enérgico, aqui como em toda parte, e é bom que aqueles de quem o acordo mais depende, para estabelecer-se entre o capital e o trabalho, vão desde já implantando, entre os seus subordinados, pela eqüidade das concessões, os hábitos de harmonia e mútuo bom humor indispensáveis à vida econômica da produção. E para que regatear em um dia o que no dia seguinte se vai conceder? O meio-tempo não passa de um prazo útil de azedume.
Dir-se-á que, enquanto a impaciência dos grevistas vai e vem, folgam alguns lucros. Mas a indústria não é com certeza uma coisa efêmera, que se adstrinja às vantagens de um momento.
E resistir é unicamente adiar, isto mesmo quando a resistência é profícua; e adiar é instituir a reclamação perpétua em regime; é arvorar em mal crônico uma crise passageira. Acrescendo a consciência de que a resistência fatalmente sucumbirá por fim, o que a faz insensata sobre malévola.
Reparem bem no que é a grève.
A grève é a transformação moderna da guerra.
Ë mais do que a transformação: é a própria guerra invertida. A guerra é um movimento de agressão; a grève é a imobilidade agressiva. A grève dispõe da mais poderosa das forças da natureza, a celebrada força da inércia. Pela guerra o soldado vence o inimigo; pela grève faria coisa mais difícil: venceria o comandante. Se a guerra e a grève se confundissem, por efeito de uma conspiração generosa das classes armadas, a guerra seria abolida: o monstro inquieto das ambições internacionais morreria paralítico.
Esta reforma da estratégia das lutas sociais veio da alteração da índole dos povos. A sociedade atual tem no Oriente do seu futuro uma aurora evidente de paz.
Paz no velho sentido da palavra. O progresso industrial e a decadência da guerra proporcionam-se entre si inevitavelmente. O século XIX, chamado século do operário, tem fabricado armas de guerra incomparavelmente mais do que nenhum outro; mas, apreciando-o com justiça, não custa descobrir que ela as fabrica muito mais para vender do que para matar. Não há dúvida. A paz aí vem. E porque ela promete vir, os homens foram pensando em fazer dela mesmo... como diremos? arma de guerra. Guerra aqui em sentido moderno. E, como se sabe dos compêndios de tática que a guerra é principalmente a mobilização, recorreu-se ao princípio contrário da imobilização, para conhecer-lhe a eficácia hostilizadora. O velho princípio da hostilidade é atacar; o novo princípio é não atacar, mas em compensação não fazer mais nada. Braços cruzados! tornou-se um grito de campanha mais perigoso do que o anacrônico — Às armas! Com a velha guerra corria o sangue, o que era mau; com a grève nova deixam de correr os juros, o que é mil vezes pior.
Vejam lá os chefes industriais que incômoda situação lhes pode reservar a teoria da resistência.
Entre nós porque a massa dos trabalhadores não é numerosa e a imigração de pessoal para o trabalho é quotidiana, ainda pode haver o apelo para gente nova, em substituição dos seus antecessores incontestados. Basta, porém, que se forme o povo operário domiciliado e que possa a cabala de classe girar melhor, com a intimidade de próximas e antigas camaradagens, para que já não haja outro recurso senão, como na Europa desabusada, o das absurdas coações brutais e mortíferas.
Publicada no Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 17 ago. 1890. Título atribuído pelo Itaú Cultural.
POMPÉIA, Raul. Crônicas 4. Organização de Afrânio Coutinho. Assistência de Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1983. v. 9. p. 87-88
1 829
Carlos Frydman
Martelo-Pilão
Malha, malhando,
malhando está,
o pilão não cessa,
não pode cessar.
Pão, pão,
martelo-pilão
Pão com pão
com fome é bom.
Motores, engrenagens,
correias, roldanas,
bancadas unidas
por eixos gerais.
Pão, pão,
martelo-pilão.
Pão com pão
com fome é bom.
Só param,
só cessam
quando convém
tocar
a sirene,
pela mão
do patrão.
Pão, pão,
martelo-pilão.
Pão com pão
com fome é bom.
Que apito estridente!
Estridente apito
no coração da gente
em cada um ecoou.
Pão, pão,
martelo-pilão.
Pão com pão
com fome é bom.
Malha, malhando,
malhando está.
Pesadas tonelagens
de milhões e milhares,
passando no malho,
que não cessa,
não pára,
não pode parar.
Pão, pão
martelo-pilão.
Pão com pão
com fome é bom.
(...)
In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
malhando está,
o pilão não cessa,
não pode cessar.
Pão, pão,
martelo-pilão
Pão com pão
com fome é bom.
Motores, engrenagens,
correias, roldanas,
bancadas unidas
por eixos gerais.
Pão, pão,
martelo-pilão.
Pão com pão
com fome é bom.
Só param,
só cessam
quando convém
tocar
a sirene,
pela mão
do patrão.
Pão, pão,
martelo-pilão.
Pão com pão
com fome é bom.
Que apito estridente!
Estridente apito
no coração da gente
em cada um ecoou.
Pão, pão,
martelo-pilão.
Pão com pão
com fome é bom.
Malha, malhando,
malhando está.
Pesadas tonelagens
de milhões e milhares,
passando no malho,
que não cessa,
não pára,
não pode parar.
Pão, pão
martelo-pilão.
Pão com pão
com fome é bom.
(...)
In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
1 396