Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Carlos Frydman
Questionário
Meus ávidos olhos fotografam sentimentos;
minhalma, porém, nem sempre os revela com exatidão
O certo é que sou um barco,
carregando uma crescente carga humana e ativa,
densa e colorida.
Trago evidente um contínuo horizonte,
embora proibido de aportar nos portos da sofreguidão.
(...)
Hoje, quando volto ao mundo do egoísmo,
ao mundo do medo e do fetichismo,
te peço, encantadora aeromoça,
de nebulosa e inconsequente expressão,
que respondas meu questionário informal,
proposto por meu conturbado coração:
Como apreciar-te,
Neste sorriso multi-adestrado?
Como encontrar-te,
nesta fosforescência do grande nada?
Como será tua meiguice
em tua bondade-assalariada?
Como será o brilho dos teus olhos
sem o reflexo dos "neons"
das más intenções?
Que dirás ao teu noivo,
ao teu marido, ao teu amante,
depois de multifazer tuas atenções,
depois de estudar
um mundo de feições,
depois de viver
tantas efêmeras aproximações?
Ainda tens noção profunda do que é a firmeza
em tua profissionalidade aérea?
Como sabes o que preferem;
se um sorriso sensual ou teu olhar de pureza?
Estarás feliz na rota íntima que vôas?
Poderás voar ao além do pão de cada dia,
ao além dos "nylons" que te amaciam,
ao além dos cosméticos que te escondem?
....................................................
Venho voando dum mundo
de curtas asas para ilusões
e encontro teus olhos
perdidos em "neons".
Aeroporto de Zurich, 22/10/1962
In: Nossa Voz, São Paulo, 29 nov. 196
minhalma, porém, nem sempre os revela com exatidão
O certo é que sou um barco,
carregando uma crescente carga humana e ativa,
densa e colorida.
Trago evidente um contínuo horizonte,
embora proibido de aportar nos portos da sofreguidão.
(...)
Hoje, quando volto ao mundo do egoísmo,
ao mundo do medo e do fetichismo,
te peço, encantadora aeromoça,
de nebulosa e inconsequente expressão,
que respondas meu questionário informal,
proposto por meu conturbado coração:
Como apreciar-te,
Neste sorriso multi-adestrado?
Como encontrar-te,
nesta fosforescência do grande nada?
Como será tua meiguice
em tua bondade-assalariada?
Como será o brilho dos teus olhos
sem o reflexo dos "neons"
das más intenções?
Que dirás ao teu noivo,
ao teu marido, ao teu amante,
depois de multifazer tuas atenções,
depois de estudar
um mundo de feições,
depois de viver
tantas efêmeras aproximações?
Ainda tens noção profunda do que é a firmeza
em tua profissionalidade aérea?
Como sabes o que preferem;
se um sorriso sensual ou teu olhar de pureza?
Estarás feliz na rota íntima que vôas?
Poderás voar ao além do pão de cada dia,
ao além dos "nylons" que te amaciam,
ao além dos cosméticos que te escondem?
....................................................
Venho voando dum mundo
de curtas asas para ilusões
e encontro teus olhos
perdidos em "neons".
Aeroporto de Zurich, 22/10/1962
In: Nossa Voz, São Paulo, 29 nov. 196
1 042
Raul Pompéia
A Mudança da Capital da República
Enquanto se debatem estas atribuições da vida popular, há filósofos admiráveis, de bastante calma para meditar a mudança da capital da República.
Foi uma das idéias da semana a da mudança, nada menos (mudança de capital...) do Rio de Janeiro para o sertão de Goiás!
Houve ingênuos que admiraram a simples transferência de um obelisco das margens do Nilo para a capital da França. A vingar a idéia de mudança da capital da República para o sítio da Formosa da Imperatriz do chapadão goiano, teremos ocasião de ver coisa muito mais espantosa, a transferência total, em conjunto ou por partes, de uma enorme cidade.
Há coisas nessa transferência que só pensar nelas perturba a imaginação. Que se levem as estátuas das praças, concebe-se — dentro de caixas apropriadas e convenientemente sólidas. Que se leve o chafariz do antigo Largo do Paço ou o zimbório da Candelária, também se concebe; basta que se o pegue por cima do chafariz com um bom guindaste pela ponta da pirâmide, pela esfera armilar e que se suspenda para cima de uma robusta carreta. O zimbório da Candelária, pega-se pela cruz. Compreende-se que vá também a caixa d'água da Carioca, desde que a montem sobre quatro rodas, como um carrinho de caixão de meninos. Pode-se até aproveitar o espaço vão e meter-lhe dentro, cautelosamente empilhados, os arcos todos do Aqueduto de Santa Tereza. Os edifícios também é fácil imaginar que irão desconjuntados, parede por parede, escada por escada, teto por teto, desde que se numerem as diferentes peças para se não confundirem. Não foi assim que veio o Teatro Apolo todinho de Paris até aqui? Que se trasladem os pequenos morros do centro da cidade, conjetura-se igualmente: são de terra: podem ir aos bocados em carroças, por exemplo, e lá no seu destino acumulam-se outra vez. Porventura não se está fazendo a mudança pouco a pouco de alguns desses morros para dentro da baía?... Mas há mudanças inconcebíveis. Como conseguirão os mudadores da capital trasladar o Corcovado?. Rochas, águas, florestas e a estrada de ferro. Como hão de poder mudar para lá, para o sertão da Formosa o Pão de Açúcar, as fortalezas, a barra, elementos decorativos da nossa bela capital que mudada sem eles não se teria mudado?!
Publicada no Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 15 dez. 1890. Título atribuído pelo Itaú Cultural.
POMPÉIA, Raul. Crônicas 4. Organização de Afrânio Coutinho. Assistência de Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1983. v. 9. p. 52-53
Foi uma das idéias da semana a da mudança, nada menos (mudança de capital...) do Rio de Janeiro para o sertão de Goiás!
Houve ingênuos que admiraram a simples transferência de um obelisco das margens do Nilo para a capital da França. A vingar a idéia de mudança da capital da República para o sítio da Formosa da Imperatriz do chapadão goiano, teremos ocasião de ver coisa muito mais espantosa, a transferência total, em conjunto ou por partes, de uma enorme cidade.
Há coisas nessa transferência que só pensar nelas perturba a imaginação. Que se levem as estátuas das praças, concebe-se — dentro de caixas apropriadas e convenientemente sólidas. Que se leve o chafariz do antigo Largo do Paço ou o zimbório da Candelária, também se concebe; basta que se o pegue por cima do chafariz com um bom guindaste pela ponta da pirâmide, pela esfera armilar e que se suspenda para cima de uma robusta carreta. O zimbório da Candelária, pega-se pela cruz. Compreende-se que vá também a caixa d'água da Carioca, desde que a montem sobre quatro rodas, como um carrinho de caixão de meninos. Pode-se até aproveitar o espaço vão e meter-lhe dentro, cautelosamente empilhados, os arcos todos do Aqueduto de Santa Tereza. Os edifícios também é fácil imaginar que irão desconjuntados, parede por parede, escada por escada, teto por teto, desde que se numerem as diferentes peças para se não confundirem. Não foi assim que veio o Teatro Apolo todinho de Paris até aqui? Que se trasladem os pequenos morros do centro da cidade, conjetura-se igualmente: são de terra: podem ir aos bocados em carroças, por exemplo, e lá no seu destino acumulam-se outra vez. Porventura não se está fazendo a mudança pouco a pouco de alguns desses morros para dentro da baía?... Mas há mudanças inconcebíveis. Como conseguirão os mudadores da capital trasladar o Corcovado?. Rochas, águas, florestas e a estrada de ferro. Como hão de poder mudar para lá, para o sertão da Formosa o Pão de Açúcar, as fortalezas, a barra, elementos decorativos da nossa bela capital que mudada sem eles não se teria mudado?!
Publicada no Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 15 dez. 1890. Título atribuído pelo Itaú Cultural.
POMPÉIA, Raul. Crônicas 4. Organização de Afrânio Coutinho. Assistência de Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1983. v. 9. p. 52-53
1 514
Raul Pompéia
A Mudança da Capital da República
Enquanto se debatem estas atribuições da vida popular, há filósofos admiráveis, de bastante calma para meditar a mudança da capital da República.
Foi uma das idéias da semana a da mudança, nada menos (mudança de capital...) do Rio de Janeiro para o sertão de Goiás!
Houve ingênuos que admiraram a simples transferência de um obelisco das margens do Nilo para a capital da França. A vingar a idéia de mudança da capital da República para o sítio da Formosa da Imperatriz do chapadão goiano, teremos ocasião de ver coisa muito mais espantosa, a transferência total, em conjunto ou por partes, de uma enorme cidade.
Há coisas nessa transferência que só pensar nelas perturba a imaginação. Que se levem as estátuas das praças, concebe-se — dentro de caixas apropriadas e convenientemente sólidas. Que se leve o chafariz do antigo Largo do Paço ou o zimbório da Candelária, também se concebe; basta que se o pegue por cima do chafariz com um bom guindaste pela ponta da pirâmide, pela esfera armilar e que se suspenda para cima de uma robusta carreta. O zimbório da Candelária, pega-se pela cruz. Compreende-se que vá também a caixa d'água da Carioca, desde que a montem sobre quatro rodas, como um carrinho de caixão de meninos. Pode-se até aproveitar o espaço vão e meter-lhe dentro, cautelosamente empilhados, os arcos todos do Aqueduto de Santa Tereza. Os edifícios também é fácil imaginar que irão desconjuntados, parede por parede, escada por escada, teto por teto, desde que se numerem as diferentes peças para se não confundirem. Não foi assim que veio o Teatro Apolo todinho de Paris até aqui? Que se trasladem os pequenos morros do centro da cidade, conjetura-se igualmente: são de terra: podem ir aos bocados em carroças, por exemplo, e lá no seu destino acumulam-se outra vez. Porventura não se está fazendo a mudança pouco a pouco de alguns desses morros para dentro da baía?... Mas há mudanças inconcebíveis. Como conseguirão os mudadores da capital trasladar o Corcovado?. Rochas, águas, florestas e a estrada de ferro. Como hão de poder mudar para lá, para o sertão da Formosa o Pão de Açúcar, as fortalezas, a barra, elementos decorativos da nossa bela capital que mudada sem eles não se teria mudado?!
Publicada no Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 15 dez. 1890. Título atribuído pelo Itaú Cultural.
POMPÉIA, Raul. Crônicas 4. Organização de Afrânio Coutinho. Assistência de Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1983. v. 9. p. 52-53
Foi uma das idéias da semana a da mudança, nada menos (mudança de capital...) do Rio de Janeiro para o sertão de Goiás!
Houve ingênuos que admiraram a simples transferência de um obelisco das margens do Nilo para a capital da França. A vingar a idéia de mudança da capital da República para o sítio da Formosa da Imperatriz do chapadão goiano, teremos ocasião de ver coisa muito mais espantosa, a transferência total, em conjunto ou por partes, de uma enorme cidade.
Há coisas nessa transferência que só pensar nelas perturba a imaginação. Que se levem as estátuas das praças, concebe-se — dentro de caixas apropriadas e convenientemente sólidas. Que se leve o chafariz do antigo Largo do Paço ou o zimbório da Candelária, também se concebe; basta que se o pegue por cima do chafariz com um bom guindaste pela ponta da pirâmide, pela esfera armilar e que se suspenda para cima de uma robusta carreta. O zimbório da Candelária, pega-se pela cruz. Compreende-se que vá também a caixa d'água da Carioca, desde que a montem sobre quatro rodas, como um carrinho de caixão de meninos. Pode-se até aproveitar o espaço vão e meter-lhe dentro, cautelosamente empilhados, os arcos todos do Aqueduto de Santa Tereza. Os edifícios também é fácil imaginar que irão desconjuntados, parede por parede, escada por escada, teto por teto, desde que se numerem as diferentes peças para se não confundirem. Não foi assim que veio o Teatro Apolo todinho de Paris até aqui? Que se trasladem os pequenos morros do centro da cidade, conjetura-se igualmente: são de terra: podem ir aos bocados em carroças, por exemplo, e lá no seu destino acumulam-se outra vez. Porventura não se está fazendo a mudança pouco a pouco de alguns desses morros para dentro da baía?... Mas há mudanças inconcebíveis. Como conseguirão os mudadores da capital trasladar o Corcovado?. Rochas, águas, florestas e a estrada de ferro. Como hão de poder mudar para lá, para o sertão da Formosa o Pão de Açúcar, as fortalezas, a barra, elementos decorativos da nossa bela capital que mudada sem eles não se teria mudado?!
Publicada no Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 15 dez. 1890. Título atribuído pelo Itaú Cultural.
POMPÉIA, Raul. Crônicas 4. Organização de Afrânio Coutinho. Assistência de Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1983. v. 9. p. 52-53
1 514
Evaristo da Veiga
Bilhete em Verso ao Thomaz
Bonjour Mr. Thomaz, comment se porte:
Je suis ravi de voir que o seu visage
Dá de bonne santé toda a apparencia:
Moi pour votre service; aqui lhe trago
Mon paquet poetique, que he composto,
D'un rang, ou rango de versinhos soltos,
E d'um Ode; oh que Ode! coisa boa!
Quatorze estrophes tem todas inteiras,
Sem que lhe falte ao menos um só verso:
As sílabas também (ou je me trompe)
Não tem falta nenhua, nem sobejo;
Contei-as duas vezes pelos dedos,
Duas vezes me deo a conta certa.
Não arrepare nesta Francezia,
Que e'est l'usage cá da nova escola,
Que se moquant do ranço dos antigos,
Já banirão das suas livrarias
Andrade, Coito, Barros, e Lucena,
Que serião peut être bons Authores,
Se soubessem Francez; se que dois dedos;
Mas assim fazem dó, Je vous demande
Pardon da secatura; e como finda
Aqui o meu papel, também eu findo.
6 de julho de 1821.
In: VEIGA, Evaristo da. Poesias de Evaristo Ferreira da Veiga. Rio de Janeiro: Officinas Graphicas da Biblioteca Nacional, 1915. p.6
Je suis ravi de voir que o seu visage
Dá de bonne santé toda a apparencia:
Moi pour votre service; aqui lhe trago
Mon paquet poetique, que he composto,
D'un rang, ou rango de versinhos soltos,
E d'um Ode; oh que Ode! coisa boa!
Quatorze estrophes tem todas inteiras,
Sem que lhe falte ao menos um só verso:
As sílabas também (ou je me trompe)
Não tem falta nenhua, nem sobejo;
Contei-as duas vezes pelos dedos,
Duas vezes me deo a conta certa.
Não arrepare nesta Francezia,
Que e'est l'usage cá da nova escola,
Que se moquant do ranço dos antigos,
Já banirão das suas livrarias
Andrade, Coito, Barros, e Lucena,
Que serião peut être bons Authores,
Se soubessem Francez; se que dois dedos;
Mas assim fazem dó, Je vous demande
Pardon da secatura; e como finda
Aqui o meu papel, também eu findo.
6 de julho de 1821.
In: VEIGA, Evaristo da. Poesias de Evaristo Ferreira da Veiga. Rio de Janeiro: Officinas Graphicas da Biblioteca Nacional, 1915. p.6
1 177
Paulo Setúbal
A Terra da Promissão
Soldados e viageiros, à roda do fogo, nos pousos, desfiavam, como a chuçar a cobiça dos ouvintes, todo um rol diabólico de maravilhas. Narravam-se coisas embasbacantes. Muita gente contava, debaixo de juras, que havia nas minas tanto ouro, tanto que "no Cuyabá, até as pedras dos fogoens, onde se punham as panellas, eram de ouro". Ainda: "para se colher ouro, não é necessario mais do que arrancar touceiras de capim; nella vêm pegadas as folhetas". Grande verdade. O ouro de Cuiabá era todo de aluvião. Andava solto à flor da terra. Por isso, comentando aqueles relatos, afirmava o cronista com justeza: "isto de arrancar-se capim e virem granetes de ouro pegados ás raizes, é certo; foi coisa vista muitas vezes, tanto nas lavras do Sutil, como nas da Conceição".
Mas não ficava só nisso. Havia muitas e incríveis gabolices. Chegou-se mesmo a dizer, "naquellas exageraçoens fabullozas", que, "no Cuyabá, em vez de grãos de chumbo, serviam-se os caçadores, nas espingardas, de grãos de ouro para matar veados..."
A conseqüência dessas falas espicaçantes era uma só e fatal: canalizar para essas terras, tão fantasticamente abarrotadas de riquezas, densa caudal de aventureiros. E foi, de fato, densa e torrenciosa, a caudal de gente que alagou Cuiabá. Os cronistas, sem excetuar um único, narram com destaque essa desabalada carreira para as minas, "divulgada a noticia pellos povoados (lá diz Barbosa de Sá), foi tal o movimento que cauzou nos animos, que das Minas-geraes, do Rio de janeiro, de toda a Capitania de Sam Paulo, se aballaram muitas e muitas gentes. Deixavam cazas e, fazendas, deixavam molheres e filhos, deixavam tudo, botando-se para aquelles sertoens como se fora a terra da promissan ou o Parahyzo incoberto em que Deus poz os nossos primeiros paes".
Cuiabá, não há dúvida, tornou-se a aspiração mais fascinante dos sertanejos. Era a "terra da promissan!". De São Paulo, mais particularmente, o êxodo para lá foi verdadeira loucura. Pode-se dizer que, na vila, não ficou homem válido. Partiu tudo. "O que soube, logo que aqui cheguei (mandava dizer ao Rei, numa carta, o governador Rodrigo César) é que tinham ido para aquellas minas mais de dois mil paulistas". Só naquelas lavras, segundo arrolamento, "havia naquelle armo (o que espanta!) duas cazas de truque, onze fornos e dois mil seiscentos e sete escravos".
Mas todos os forasteiros, brancos e negros, escravos e forros, vindos ali à busca do ouro, chuçados pela só fome das riquezas, não pensavam jamais em lavouras e sementeiras. Parece isso extraordinário, mas é verdade. Passavam dia e noite nas catas. Ninguém tinha tempo para abrir roças. Ninguém tinha tempo para cuidar de criação. Por isso, naquelas lavras, "não havia porcos, não havia gallinhas, não havia nada. Faltava o milho em toda a povoação". Os gêneros vinham de fora, lá do longínquo São Paulo, em monção. Mas quase sempre, nos vaivéns terríveis daquelas duras varações — "chegavam as fazendas já podres; morria muita gente de fome".
As coisas atingiam, está visto, preços verdadeiramente fabulosos.
Publicada no livro O Ouro de Cuiabá (1933).
SETÚBAL, Paulo. O ouro de Cuiabá: crônicas. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 1956. p. 51-53. (Obras de Paulo Setúbal, 8)
Mas não ficava só nisso. Havia muitas e incríveis gabolices. Chegou-se mesmo a dizer, "naquellas exageraçoens fabullozas", que, "no Cuyabá, em vez de grãos de chumbo, serviam-se os caçadores, nas espingardas, de grãos de ouro para matar veados..."
A conseqüência dessas falas espicaçantes era uma só e fatal: canalizar para essas terras, tão fantasticamente abarrotadas de riquezas, densa caudal de aventureiros. E foi, de fato, densa e torrenciosa, a caudal de gente que alagou Cuiabá. Os cronistas, sem excetuar um único, narram com destaque essa desabalada carreira para as minas, "divulgada a noticia pellos povoados (lá diz Barbosa de Sá), foi tal o movimento que cauzou nos animos, que das Minas-geraes, do Rio de janeiro, de toda a Capitania de Sam Paulo, se aballaram muitas e muitas gentes. Deixavam cazas e, fazendas, deixavam molheres e filhos, deixavam tudo, botando-se para aquelles sertoens como se fora a terra da promissan ou o Parahyzo incoberto em que Deus poz os nossos primeiros paes".
Cuiabá, não há dúvida, tornou-se a aspiração mais fascinante dos sertanejos. Era a "terra da promissan!". De São Paulo, mais particularmente, o êxodo para lá foi verdadeira loucura. Pode-se dizer que, na vila, não ficou homem válido. Partiu tudo. "O que soube, logo que aqui cheguei (mandava dizer ao Rei, numa carta, o governador Rodrigo César) é que tinham ido para aquellas minas mais de dois mil paulistas". Só naquelas lavras, segundo arrolamento, "havia naquelle armo (o que espanta!) duas cazas de truque, onze fornos e dois mil seiscentos e sete escravos".
Mas todos os forasteiros, brancos e negros, escravos e forros, vindos ali à busca do ouro, chuçados pela só fome das riquezas, não pensavam jamais em lavouras e sementeiras. Parece isso extraordinário, mas é verdade. Passavam dia e noite nas catas. Ninguém tinha tempo para abrir roças. Ninguém tinha tempo para cuidar de criação. Por isso, naquelas lavras, "não havia porcos, não havia gallinhas, não havia nada. Faltava o milho em toda a povoação". Os gêneros vinham de fora, lá do longínquo São Paulo, em monção. Mas quase sempre, nos vaivéns terríveis daquelas duras varações — "chegavam as fazendas já podres; morria muita gente de fome".
As coisas atingiam, está visto, preços verdadeiramente fabulosos.
Publicada no livro O Ouro de Cuiabá (1933).
SETÚBAL, Paulo. O ouro de Cuiabá: crônicas. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 1956. p. 51-53. (Obras de Paulo Setúbal, 8)
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Paulo Setúbal
A Terra da Promissão
Soldados e viageiros, à roda do fogo, nos pousos, desfiavam, como a chuçar a cobiça dos ouvintes, todo um rol diabólico de maravilhas. Narravam-se coisas embasbacantes. Muita gente contava, debaixo de juras, que havia nas minas tanto ouro, tanto que "no Cuyabá, até as pedras dos fogoens, onde se punham as panellas, eram de ouro". Ainda: "para se colher ouro, não é necessario mais do que arrancar touceiras de capim; nella vêm pegadas as folhetas". Grande verdade. O ouro de Cuiabá era todo de aluvião. Andava solto à flor da terra. Por isso, comentando aqueles relatos, afirmava o cronista com justeza: "isto de arrancar-se capim e virem granetes de ouro pegados ás raizes, é certo; foi coisa vista muitas vezes, tanto nas lavras do Sutil, como nas da Conceição".
Mas não ficava só nisso. Havia muitas e incríveis gabolices. Chegou-se mesmo a dizer, "naquellas exageraçoens fabullozas", que, "no Cuyabá, em vez de grãos de chumbo, serviam-se os caçadores, nas espingardas, de grãos de ouro para matar veados..."
A conseqüência dessas falas espicaçantes era uma só e fatal: canalizar para essas terras, tão fantasticamente abarrotadas de riquezas, densa caudal de aventureiros. E foi, de fato, densa e torrenciosa, a caudal de gente que alagou Cuiabá. Os cronistas, sem excetuar um único, narram com destaque essa desabalada carreira para as minas, "divulgada a noticia pellos povoados (lá diz Barbosa de Sá), foi tal o movimento que cauzou nos animos, que das Minas-geraes, do Rio de janeiro, de toda a Capitania de Sam Paulo, se aballaram muitas e muitas gentes. Deixavam cazas e, fazendas, deixavam molheres e filhos, deixavam tudo, botando-se para aquelles sertoens como se fora a terra da promissan ou o Parahyzo incoberto em que Deus poz os nossos primeiros paes".
Cuiabá, não há dúvida, tornou-se a aspiração mais fascinante dos sertanejos. Era a "terra da promissan!". De São Paulo, mais particularmente, o êxodo para lá foi verdadeira loucura. Pode-se dizer que, na vila, não ficou homem válido. Partiu tudo. "O que soube, logo que aqui cheguei (mandava dizer ao Rei, numa carta, o governador Rodrigo César) é que tinham ido para aquellas minas mais de dois mil paulistas". Só naquelas lavras, segundo arrolamento, "havia naquelle armo (o que espanta!) duas cazas de truque, onze fornos e dois mil seiscentos e sete escravos".
Mas todos os forasteiros, brancos e negros, escravos e forros, vindos ali à busca do ouro, chuçados pela só fome das riquezas, não pensavam jamais em lavouras e sementeiras. Parece isso extraordinário, mas é verdade. Passavam dia e noite nas catas. Ninguém tinha tempo para abrir roças. Ninguém tinha tempo para cuidar de criação. Por isso, naquelas lavras, "não havia porcos, não havia gallinhas, não havia nada. Faltava o milho em toda a povoação". Os gêneros vinham de fora, lá do longínquo São Paulo, em monção. Mas quase sempre, nos vaivéns terríveis daquelas duras varações — "chegavam as fazendas já podres; morria muita gente de fome".
As coisas atingiam, está visto, preços verdadeiramente fabulosos.
Publicada no livro O Ouro de Cuiabá (1933).
SETÚBAL, Paulo. O ouro de Cuiabá: crônicas. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 1956. p. 51-53. (Obras de Paulo Setúbal, 8)
Mas não ficava só nisso. Havia muitas e incríveis gabolices. Chegou-se mesmo a dizer, "naquellas exageraçoens fabullozas", que, "no Cuyabá, em vez de grãos de chumbo, serviam-se os caçadores, nas espingardas, de grãos de ouro para matar veados..."
A conseqüência dessas falas espicaçantes era uma só e fatal: canalizar para essas terras, tão fantasticamente abarrotadas de riquezas, densa caudal de aventureiros. E foi, de fato, densa e torrenciosa, a caudal de gente que alagou Cuiabá. Os cronistas, sem excetuar um único, narram com destaque essa desabalada carreira para as minas, "divulgada a noticia pellos povoados (lá diz Barbosa de Sá), foi tal o movimento que cauzou nos animos, que das Minas-geraes, do Rio de janeiro, de toda a Capitania de Sam Paulo, se aballaram muitas e muitas gentes. Deixavam cazas e, fazendas, deixavam molheres e filhos, deixavam tudo, botando-se para aquelles sertoens como se fora a terra da promissan ou o Parahyzo incoberto em que Deus poz os nossos primeiros paes".
Cuiabá, não há dúvida, tornou-se a aspiração mais fascinante dos sertanejos. Era a "terra da promissan!". De São Paulo, mais particularmente, o êxodo para lá foi verdadeira loucura. Pode-se dizer que, na vila, não ficou homem válido. Partiu tudo. "O que soube, logo que aqui cheguei (mandava dizer ao Rei, numa carta, o governador Rodrigo César) é que tinham ido para aquellas minas mais de dois mil paulistas". Só naquelas lavras, segundo arrolamento, "havia naquelle armo (o que espanta!) duas cazas de truque, onze fornos e dois mil seiscentos e sete escravos".
Mas todos os forasteiros, brancos e negros, escravos e forros, vindos ali à busca do ouro, chuçados pela só fome das riquezas, não pensavam jamais em lavouras e sementeiras. Parece isso extraordinário, mas é verdade. Passavam dia e noite nas catas. Ninguém tinha tempo para abrir roças. Ninguém tinha tempo para cuidar de criação. Por isso, naquelas lavras, "não havia porcos, não havia gallinhas, não havia nada. Faltava o milho em toda a povoação". Os gêneros vinham de fora, lá do longínquo São Paulo, em monção. Mas quase sempre, nos vaivéns terríveis daquelas duras varações — "chegavam as fazendas já podres; morria muita gente de fome".
As coisas atingiam, está visto, preços verdadeiramente fabulosos.
Publicada no livro O Ouro de Cuiabá (1933).
SETÚBAL, Paulo. O ouro de Cuiabá: crônicas. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 1956. p. 51-53. (Obras de Paulo Setúbal, 8)
1 464
Joaquim Cardozo
As Janelas, as Escadas, as Pontes e as Estradas
II
(As estradas e as pontes)
As estradas não param. Para longe, que vão,
Vão, sem se mover/cansar. Permanentemente vão;
Quem quiser vai com elas, usa tudo o que é delas
Porque são boas, tão boas, tão amigas
Que ajudam a quem quiser correr,
A quem quiser simplesmente andar,
Ou, tropegamente, caminhar apenas...
Vão para o fim do olhar, em todas as direções desse fim;
— Rugosas, em rodeiras de lama, filmando um movimento
— Lisas, escorrendo ao seu leito, líquido-pastoso
Contêm as rodas, os pés acertam, amparam, as muletas.
Dirigem
A velocidade-serpente, de anéis sucessivos,
Sempre desiguais, serpente de que amortecem o veneno...
As estradas saltam sobre os rios e os vales profundos
Em seus saltos de pontes, com distensões de músculos
Estáticos; imobilizam a vertigem dos abismos.
Pontes que são saltos de vara
Sobre os profundos paralisados;
E o rumor que por elas vai
Não consegue despertá-las do equilíbrio:
Seu sono-silêncio, seu sono-limite.
Os rios, embaixo caminham: estradas moventes
Com agitações de animal, às vezes mansas
às vezes selvagens
Caminham, escadas rolantes sempre descendo;
Colubreiam, coleiam...
As pontes são partes da estrada, são apertos de mãos
Que transportam de um lado para outro lado
— São São Cristóvão de cimento e ferro.
Mãos de duros nervos, de veias metálicas
Onde corre um sangue de quase eterna
Origem; são pulsos que vibram
No mesmo ritmo das estradas
No mesmo ritmo dos que passam
— Talvez, como eu, nunca para mais passar...
As estradas são cordas de um instrumento
Vibrando à passagem dos motores,
Deixando no ar nova música
Onde há ritmos de horizontes
margeantes
Entre os sons das árvores marginantes.
Os rios às vezes se revoltam
Reúnem todas as suas águas
E investem sobre as pontes-algemas
Contra as estradas — muralhas de cárcere —
E se espalham felizes na planície
Em inundações gloriosas.
Imagem - 00100003
In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.181-182. Poema integrante da série Mundos Paralelos.
NOTA: Poema composto de 2 parte
(As estradas e as pontes)
As estradas não param. Para longe, que vão,
Vão, sem se mover/cansar. Permanentemente vão;
Quem quiser vai com elas, usa tudo o que é delas
Porque são boas, tão boas, tão amigas
Que ajudam a quem quiser correr,
A quem quiser simplesmente andar,
Ou, tropegamente, caminhar apenas...
Vão para o fim do olhar, em todas as direções desse fim;
— Rugosas, em rodeiras de lama, filmando um movimento
— Lisas, escorrendo ao seu leito, líquido-pastoso
Contêm as rodas, os pés acertam, amparam, as muletas.
Dirigem
A velocidade-serpente, de anéis sucessivos,
Sempre desiguais, serpente de que amortecem o veneno...
As estradas saltam sobre os rios e os vales profundos
Em seus saltos de pontes, com distensões de músculos
Estáticos; imobilizam a vertigem dos abismos.
Pontes que são saltos de vara
Sobre os profundos paralisados;
E o rumor que por elas vai
Não consegue despertá-las do equilíbrio:
Seu sono-silêncio, seu sono-limite.
Os rios, embaixo caminham: estradas moventes
Com agitações de animal, às vezes mansas
às vezes selvagens
Caminham, escadas rolantes sempre descendo;
Colubreiam, coleiam...
As pontes são partes da estrada, são apertos de mãos
Que transportam de um lado para outro lado
— São São Cristóvão de cimento e ferro.
Mãos de duros nervos, de veias metálicas
Onde corre um sangue de quase eterna
Origem; são pulsos que vibram
No mesmo ritmo das estradas
No mesmo ritmo dos que passam
— Talvez, como eu, nunca para mais passar...
As estradas são cordas de um instrumento
Vibrando à passagem dos motores,
Deixando no ar nova música
Onde há ritmos de horizontes
margeantes
Entre os sons das árvores marginantes.
Os rios às vezes se revoltam
Reúnem todas as suas águas
E investem sobre as pontes-algemas
Contra as estradas — muralhas de cárcere —
E se espalham felizes na planície
Em inundações gloriosas.
Imagem - 00100003
In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.181-182. Poema integrante da série Mundos Paralelos.
NOTA: Poema composto de 2 parte
1 449
Paulo Setúbal
As Gentes das Lavras
Quantas lavras! As de "S. João", as de "Cocaes", as da "Chapada", as de "Jacey", as da "Conceição", as do "Sutil"... Tudo a jorrar ouro! Ouro, às arrobas, do melhor, mais puro, diziam, que o das Gerais. Esse ouro, como um clarim, conclamava sem cessar as gentes. Forasteiros e naturais, nortistas e sulistas, vinha tudo, por esses sertões afora — e sabe Deus como! — atrás do ouro de Cuiabá. Não havia barreiras que os fizessem estacar. Não havia perigos que os fizessem refletir. Nada! Nem os matos, nem os rios, nem as feras, nem a indiada, nem a fome, nem as misérias infinitas, horrorizantes da jornada.
Cuiabá tornou-se o açude onde se aglutinava a escumalha lodosa do Brasil. Era o desaguadouro de todos os aventureiros. E que aventureiros! Bandidos, fugidos às justiças, jogadores, matadores sanguinários, ladrões, salteadores. Ralé vil, ralé imunda, ralé repugnante.
E que vida, no Cuiabá, heterogênea e bruta! Nas tascas, onde havia sempre "mulheres bastardas e jogos de parar", desencadeavam-se tragédias selvagens, violentíssimas, em que fuzilavam facões e toledanas. Assassínio era coisa de todo o dia. Roubos também. Toda a gente roubava! Os negros, com perícias pasmosas, surripiavam ouro das bateias e iam, nos dias de folga, emborrachar-se com ele nas tavernas. Os índios, que sempre foram racialmente falsos, escondiam na boca os granetes que podiam e, à noite, muito às ocultas; entregavam-no aos ourives a troco de pedaços de fumo. Mulatas quitandeiras, com os tabuleiros à cabeça, viviam nas catas a vender broinhas aos escravos. Os escravos pagavam-nas com folhetas roubadas aos amos. Até os padres, contaminados pela fúria das riquezas, contrabandeavam. Rodrigo César, para cortar tudo aquilo, todas aquelas mortes, todos aqueles roubos, todo aquele contrabando, lançava, ininterruptamente, bandos sobre bandos. Ninguém mais, ordenava o Governador, "havendo de fazer jornada a Cuyabá, não a faça sem licença minha e sem tirar o paçaporte na secretaria do Governo". E mandava fechar as baiúcas de jogo. E proibia, sob penas carrancudas, que partissem forasteiros para as minas. E negros sem dono. E índios avulsos. E mulheres de vida fácil. E padres castelhanos. Estes, sob pretexto algum, mesmo sob pretexto de missão, não tinham sequer permissão de atravessar as minas. Mas os bandos, por mais rigorosos, eram vãos. O ouro de Cuiabá enlouquecia. Que importavam aquelas proibições? Toda a gente, para atingir o metal satânico, as fraudava. E não havia meio de impedir a fraude. Por isso, cada ano, as monções partiam repletas. E cada ano, nos povoados, contavam-se as misérias e os padecimentos dessas monções.
Publicada no livro O Ouro de Cuiabá (1933).
SETÚBAL, Paulo. O ouro de Cuiabá: crônicas. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 1956. p. 61-63. (Obras de Paulo Setúbal, 8)
Cuiabá tornou-se o açude onde se aglutinava a escumalha lodosa do Brasil. Era o desaguadouro de todos os aventureiros. E que aventureiros! Bandidos, fugidos às justiças, jogadores, matadores sanguinários, ladrões, salteadores. Ralé vil, ralé imunda, ralé repugnante.
E que vida, no Cuiabá, heterogênea e bruta! Nas tascas, onde havia sempre "mulheres bastardas e jogos de parar", desencadeavam-se tragédias selvagens, violentíssimas, em que fuzilavam facões e toledanas. Assassínio era coisa de todo o dia. Roubos também. Toda a gente roubava! Os negros, com perícias pasmosas, surripiavam ouro das bateias e iam, nos dias de folga, emborrachar-se com ele nas tavernas. Os índios, que sempre foram racialmente falsos, escondiam na boca os granetes que podiam e, à noite, muito às ocultas; entregavam-no aos ourives a troco de pedaços de fumo. Mulatas quitandeiras, com os tabuleiros à cabeça, viviam nas catas a vender broinhas aos escravos. Os escravos pagavam-nas com folhetas roubadas aos amos. Até os padres, contaminados pela fúria das riquezas, contrabandeavam. Rodrigo César, para cortar tudo aquilo, todas aquelas mortes, todos aqueles roubos, todo aquele contrabando, lançava, ininterruptamente, bandos sobre bandos. Ninguém mais, ordenava o Governador, "havendo de fazer jornada a Cuyabá, não a faça sem licença minha e sem tirar o paçaporte na secretaria do Governo". E mandava fechar as baiúcas de jogo. E proibia, sob penas carrancudas, que partissem forasteiros para as minas. E negros sem dono. E índios avulsos. E mulheres de vida fácil. E padres castelhanos. Estes, sob pretexto algum, mesmo sob pretexto de missão, não tinham sequer permissão de atravessar as minas. Mas os bandos, por mais rigorosos, eram vãos. O ouro de Cuiabá enlouquecia. Que importavam aquelas proibições? Toda a gente, para atingir o metal satânico, as fraudava. E não havia meio de impedir a fraude. Por isso, cada ano, as monções partiam repletas. E cada ano, nos povoados, contavam-se as misérias e os padecimentos dessas monções.
Publicada no livro O Ouro de Cuiabá (1933).
SETÚBAL, Paulo. O ouro de Cuiabá: crônicas. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 1956. p. 61-63. (Obras de Paulo Setúbal, 8)
1 384
Paulo Setúbal
As Gentes das Lavras
Quantas lavras! As de "S. João", as de "Cocaes", as da "Chapada", as de "Jacey", as da "Conceição", as do "Sutil"... Tudo a jorrar ouro! Ouro, às arrobas, do melhor, mais puro, diziam, que o das Gerais. Esse ouro, como um clarim, conclamava sem cessar as gentes. Forasteiros e naturais, nortistas e sulistas, vinha tudo, por esses sertões afora — e sabe Deus como! — atrás do ouro de Cuiabá. Não havia barreiras que os fizessem estacar. Não havia perigos que os fizessem refletir. Nada! Nem os matos, nem os rios, nem as feras, nem a indiada, nem a fome, nem as misérias infinitas, horrorizantes da jornada.
Cuiabá tornou-se o açude onde se aglutinava a escumalha lodosa do Brasil. Era o desaguadouro de todos os aventureiros. E que aventureiros! Bandidos, fugidos às justiças, jogadores, matadores sanguinários, ladrões, salteadores. Ralé vil, ralé imunda, ralé repugnante.
E que vida, no Cuiabá, heterogênea e bruta! Nas tascas, onde havia sempre "mulheres bastardas e jogos de parar", desencadeavam-se tragédias selvagens, violentíssimas, em que fuzilavam facões e toledanas. Assassínio era coisa de todo o dia. Roubos também. Toda a gente roubava! Os negros, com perícias pasmosas, surripiavam ouro das bateias e iam, nos dias de folga, emborrachar-se com ele nas tavernas. Os índios, que sempre foram racialmente falsos, escondiam na boca os granetes que podiam e, à noite, muito às ocultas; entregavam-no aos ourives a troco de pedaços de fumo. Mulatas quitandeiras, com os tabuleiros à cabeça, viviam nas catas a vender broinhas aos escravos. Os escravos pagavam-nas com folhetas roubadas aos amos. Até os padres, contaminados pela fúria das riquezas, contrabandeavam. Rodrigo César, para cortar tudo aquilo, todas aquelas mortes, todos aqueles roubos, todo aquele contrabando, lançava, ininterruptamente, bandos sobre bandos. Ninguém mais, ordenava o Governador, "havendo de fazer jornada a Cuyabá, não a faça sem licença minha e sem tirar o paçaporte na secretaria do Governo". E mandava fechar as baiúcas de jogo. E proibia, sob penas carrancudas, que partissem forasteiros para as minas. E negros sem dono. E índios avulsos. E mulheres de vida fácil. E padres castelhanos. Estes, sob pretexto algum, mesmo sob pretexto de missão, não tinham sequer permissão de atravessar as minas. Mas os bandos, por mais rigorosos, eram vãos. O ouro de Cuiabá enlouquecia. Que importavam aquelas proibições? Toda a gente, para atingir o metal satânico, as fraudava. E não havia meio de impedir a fraude. Por isso, cada ano, as monções partiam repletas. E cada ano, nos povoados, contavam-se as misérias e os padecimentos dessas monções.
Publicada no livro O Ouro de Cuiabá (1933).
SETÚBAL, Paulo. O ouro de Cuiabá: crônicas. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 1956. p. 61-63. (Obras de Paulo Setúbal, 8)
Cuiabá tornou-se o açude onde se aglutinava a escumalha lodosa do Brasil. Era o desaguadouro de todos os aventureiros. E que aventureiros! Bandidos, fugidos às justiças, jogadores, matadores sanguinários, ladrões, salteadores. Ralé vil, ralé imunda, ralé repugnante.
E que vida, no Cuiabá, heterogênea e bruta! Nas tascas, onde havia sempre "mulheres bastardas e jogos de parar", desencadeavam-se tragédias selvagens, violentíssimas, em que fuzilavam facões e toledanas. Assassínio era coisa de todo o dia. Roubos também. Toda a gente roubava! Os negros, com perícias pasmosas, surripiavam ouro das bateias e iam, nos dias de folga, emborrachar-se com ele nas tavernas. Os índios, que sempre foram racialmente falsos, escondiam na boca os granetes que podiam e, à noite, muito às ocultas; entregavam-no aos ourives a troco de pedaços de fumo. Mulatas quitandeiras, com os tabuleiros à cabeça, viviam nas catas a vender broinhas aos escravos. Os escravos pagavam-nas com folhetas roubadas aos amos. Até os padres, contaminados pela fúria das riquezas, contrabandeavam. Rodrigo César, para cortar tudo aquilo, todas aquelas mortes, todos aqueles roubos, todo aquele contrabando, lançava, ininterruptamente, bandos sobre bandos. Ninguém mais, ordenava o Governador, "havendo de fazer jornada a Cuyabá, não a faça sem licença minha e sem tirar o paçaporte na secretaria do Governo". E mandava fechar as baiúcas de jogo. E proibia, sob penas carrancudas, que partissem forasteiros para as minas. E negros sem dono. E índios avulsos. E mulheres de vida fácil. E padres castelhanos. Estes, sob pretexto algum, mesmo sob pretexto de missão, não tinham sequer permissão de atravessar as minas. Mas os bandos, por mais rigorosos, eram vãos. O ouro de Cuiabá enlouquecia. Que importavam aquelas proibições? Toda a gente, para atingir o metal satânico, as fraudava. E não havia meio de impedir a fraude. Por isso, cada ano, as monções partiam repletas. E cada ano, nos povoados, contavam-se as misérias e os padecimentos dessas monções.
Publicada no livro O Ouro de Cuiabá (1933).
SETÚBAL, Paulo. O ouro de Cuiabá: crônicas. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 1956. p. 61-63. (Obras de Paulo Setúbal, 8)
1 384
Paulo Setúbal
As Gentes das Lavras
Quantas lavras! As de "S. João", as de "Cocaes", as da "Chapada", as de "Jacey", as da "Conceição", as do "Sutil"... Tudo a jorrar ouro! Ouro, às arrobas, do melhor, mais puro, diziam, que o das Gerais. Esse ouro, como um clarim, conclamava sem cessar as gentes. Forasteiros e naturais, nortistas e sulistas, vinha tudo, por esses sertões afora — e sabe Deus como! — atrás do ouro de Cuiabá. Não havia barreiras que os fizessem estacar. Não havia perigos que os fizessem refletir. Nada! Nem os matos, nem os rios, nem as feras, nem a indiada, nem a fome, nem as misérias infinitas, horrorizantes da jornada.
Cuiabá tornou-se o açude onde se aglutinava a escumalha lodosa do Brasil. Era o desaguadouro de todos os aventureiros. E que aventureiros! Bandidos, fugidos às justiças, jogadores, matadores sanguinários, ladrões, salteadores. Ralé vil, ralé imunda, ralé repugnante.
E que vida, no Cuiabá, heterogênea e bruta! Nas tascas, onde havia sempre "mulheres bastardas e jogos de parar", desencadeavam-se tragédias selvagens, violentíssimas, em que fuzilavam facões e toledanas. Assassínio era coisa de todo o dia. Roubos também. Toda a gente roubava! Os negros, com perícias pasmosas, surripiavam ouro das bateias e iam, nos dias de folga, emborrachar-se com ele nas tavernas. Os índios, que sempre foram racialmente falsos, escondiam na boca os granetes que podiam e, à noite, muito às ocultas; entregavam-no aos ourives a troco de pedaços de fumo. Mulatas quitandeiras, com os tabuleiros à cabeça, viviam nas catas a vender broinhas aos escravos. Os escravos pagavam-nas com folhetas roubadas aos amos. Até os padres, contaminados pela fúria das riquezas, contrabandeavam. Rodrigo César, para cortar tudo aquilo, todas aquelas mortes, todos aqueles roubos, todo aquele contrabando, lançava, ininterruptamente, bandos sobre bandos. Ninguém mais, ordenava o Governador, "havendo de fazer jornada a Cuyabá, não a faça sem licença minha e sem tirar o paçaporte na secretaria do Governo". E mandava fechar as baiúcas de jogo. E proibia, sob penas carrancudas, que partissem forasteiros para as minas. E negros sem dono. E índios avulsos. E mulheres de vida fácil. E padres castelhanos. Estes, sob pretexto algum, mesmo sob pretexto de missão, não tinham sequer permissão de atravessar as minas. Mas os bandos, por mais rigorosos, eram vãos. O ouro de Cuiabá enlouquecia. Que importavam aquelas proibições? Toda a gente, para atingir o metal satânico, as fraudava. E não havia meio de impedir a fraude. Por isso, cada ano, as monções partiam repletas. E cada ano, nos povoados, contavam-se as misérias e os padecimentos dessas monções.
Publicada no livro O Ouro de Cuiabá (1933).
SETÚBAL, Paulo. O ouro de Cuiabá: crônicas. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 1956. p. 61-63. (Obras de Paulo Setúbal, 8)
Cuiabá tornou-se o açude onde se aglutinava a escumalha lodosa do Brasil. Era o desaguadouro de todos os aventureiros. E que aventureiros! Bandidos, fugidos às justiças, jogadores, matadores sanguinários, ladrões, salteadores. Ralé vil, ralé imunda, ralé repugnante.
E que vida, no Cuiabá, heterogênea e bruta! Nas tascas, onde havia sempre "mulheres bastardas e jogos de parar", desencadeavam-se tragédias selvagens, violentíssimas, em que fuzilavam facões e toledanas. Assassínio era coisa de todo o dia. Roubos também. Toda a gente roubava! Os negros, com perícias pasmosas, surripiavam ouro das bateias e iam, nos dias de folga, emborrachar-se com ele nas tavernas. Os índios, que sempre foram racialmente falsos, escondiam na boca os granetes que podiam e, à noite, muito às ocultas; entregavam-no aos ourives a troco de pedaços de fumo. Mulatas quitandeiras, com os tabuleiros à cabeça, viviam nas catas a vender broinhas aos escravos. Os escravos pagavam-nas com folhetas roubadas aos amos. Até os padres, contaminados pela fúria das riquezas, contrabandeavam. Rodrigo César, para cortar tudo aquilo, todas aquelas mortes, todos aqueles roubos, todo aquele contrabando, lançava, ininterruptamente, bandos sobre bandos. Ninguém mais, ordenava o Governador, "havendo de fazer jornada a Cuyabá, não a faça sem licença minha e sem tirar o paçaporte na secretaria do Governo". E mandava fechar as baiúcas de jogo. E proibia, sob penas carrancudas, que partissem forasteiros para as minas. E negros sem dono. E índios avulsos. E mulheres de vida fácil. E padres castelhanos. Estes, sob pretexto algum, mesmo sob pretexto de missão, não tinham sequer permissão de atravessar as minas. Mas os bandos, por mais rigorosos, eram vãos. O ouro de Cuiabá enlouquecia. Que importavam aquelas proibições? Toda a gente, para atingir o metal satânico, as fraudava. E não havia meio de impedir a fraude. Por isso, cada ano, as monções partiam repletas. E cada ano, nos povoados, contavam-se as misérias e os padecimentos dessas monções.
Publicada no livro O Ouro de Cuiabá (1933).
SETÚBAL, Paulo. O ouro de Cuiabá: crônicas. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 1956. p. 61-63. (Obras de Paulo Setúbal, 8)
1 384
Bruno de Menezes
Os Esponsais das Icamiabas - Lenda Amazônica, 1952
Vai ser a Grande Noite...
No lago Jaci-uaruá,
a lua reflete sortilégios de esplendor,
que, para as Icamiabas, é um rito de amor...
Quando a hora chegar
de seus breves esponsais,
querem estar purificadas
e serem desposadas
no mistério da selva,
enquanto a Lua brilhar...
Mergulhando os corpos ágeis,
de amorosas guerreiras,
no capitoso banho lustral,
que a "Mãe das Pedras Verdes"
lhes traga do seio das águas
os símbolos nupciais
no adeus do ante-manhã...
Lendários esponsais...
O esposo de uma noite irá voltar...
E, para que em seus anelos,
lembrança desse amor possa guardar,
num longo trancelim de seus cabelos,
a esposa Icamiaba dá-lhe o Muiraquitã...
In: MENEZES, Bruno de. Obras completas. Belém: Secretaria de Estado da Cultura, 1993. v.1, p.495. (Lendo o Pará, 14
No lago Jaci-uaruá,
a lua reflete sortilégios de esplendor,
que, para as Icamiabas, é um rito de amor...
Quando a hora chegar
de seus breves esponsais,
querem estar purificadas
e serem desposadas
no mistério da selva,
enquanto a Lua brilhar...
Mergulhando os corpos ágeis,
de amorosas guerreiras,
no capitoso banho lustral,
que a "Mãe das Pedras Verdes"
lhes traga do seio das águas
os símbolos nupciais
no adeus do ante-manhã...
Lendários esponsais...
O esposo de uma noite irá voltar...
E, para que em seus anelos,
lembrança desse amor possa guardar,
num longo trancelim de seus cabelos,
a esposa Icamiaba dá-lhe o Muiraquitã...
In: MENEZES, Bruno de. Obras completas. Belém: Secretaria de Estado da Cultura, 1993. v.1, p.495. (Lendo o Pará, 14
3 332
Bruno de Menezes
Maria D'Aparecida, 1963
Ai, ai, Brasil,
das gostosuras morenas!
Para que sapoti, Ângela Maria,
pó de canela, tanta
coisa apetecida,
se tens Maria D'Aparecida,
que os franceses recomendam:
"Regardez-la bien et retenez son nom"!
Ai, ai, Brasil,
de alma branca por dentro,
todo moreno por fora!
Pra que coco da Bahia,
se tens Maria D'Aparecida,
morena Iemanjá nascida
no areal da Guanabara?
Ai, ai, Brasil,
do canto do uirapuru,
de outros pássaros-feitiço!
Para que solos alados
de sabiás do poeta,
se tens Maria D'Aparecida,
que traz, na voz languescida,
moreno, dourado mel?
Ai, ai, Brasil,
de nossas brasileirinhas
que em Paris fazem cartaz!
Pra que café adoçado,
cheiroso, bom, que convida,
se tens Maria D'Aparecida,
das convivas a mais fina?
Ai, ai, Brasil,
da beleza, do talento,
como arte em "performance"!
Tudo isto sintonizado
na nossa brasileirinha
de alma em canção diluída,
Maria D'Aparecida!
In: MENEZES, Bruno de. Obras completas. Belém: Secretaria de Estado da Cultura, 1993. v.1, p.528-529. (Lendo o Pará, 14)
NOTA: Último poema feito em Belém. Intérprete vocal de Villa-Lobos, W. Henrique e Ernani Braga, com seu programa "Brasil em Paris, Maria D'Aparecida se tornou, segundo os franceses, a mais parisiense dos brasileiros
das gostosuras morenas!
Para que sapoti, Ângela Maria,
pó de canela, tanta
coisa apetecida,
se tens Maria D'Aparecida,
que os franceses recomendam:
"Regardez-la bien et retenez son nom"!
Ai, ai, Brasil,
de alma branca por dentro,
todo moreno por fora!
Pra que coco da Bahia,
se tens Maria D'Aparecida,
morena Iemanjá nascida
no areal da Guanabara?
Ai, ai, Brasil,
do canto do uirapuru,
de outros pássaros-feitiço!
Para que solos alados
de sabiás do poeta,
se tens Maria D'Aparecida,
que traz, na voz languescida,
moreno, dourado mel?
Ai, ai, Brasil,
de nossas brasileirinhas
que em Paris fazem cartaz!
Pra que café adoçado,
cheiroso, bom, que convida,
se tens Maria D'Aparecida,
das convivas a mais fina?
Ai, ai, Brasil,
da beleza, do talento,
como arte em "performance"!
Tudo isto sintonizado
na nossa brasileirinha
de alma em canção diluída,
Maria D'Aparecida!
In: MENEZES, Bruno de. Obras completas. Belém: Secretaria de Estado da Cultura, 1993. v.1, p.528-529. (Lendo o Pará, 14)
NOTA: Último poema feito em Belém. Intérprete vocal de Villa-Lobos, W. Henrique e Ernani Braga, com seu programa "Brasil em Paris, Maria D'Aparecida se tornou, segundo os franceses, a mais parisiense dos brasileiros
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Bruno de Menezes
Maria D'Aparecida, 1963
Ai, ai, Brasil,
das gostosuras morenas!
Para que sapoti, Ângela Maria,
pó de canela, tanta
coisa apetecida,
se tens Maria D'Aparecida,
que os franceses recomendam:
"Regardez-la bien et retenez son nom"!
Ai, ai, Brasil,
de alma branca por dentro,
todo moreno por fora!
Pra que coco da Bahia,
se tens Maria D'Aparecida,
morena Iemanjá nascida
no areal da Guanabara?
Ai, ai, Brasil,
do canto do uirapuru,
de outros pássaros-feitiço!
Para que solos alados
de sabiás do poeta,
se tens Maria D'Aparecida,
que traz, na voz languescida,
moreno, dourado mel?
Ai, ai, Brasil,
de nossas brasileirinhas
que em Paris fazem cartaz!
Pra que café adoçado,
cheiroso, bom, que convida,
se tens Maria D'Aparecida,
das convivas a mais fina?
Ai, ai, Brasil,
da beleza, do talento,
como arte em "performance"!
Tudo isto sintonizado
na nossa brasileirinha
de alma em canção diluída,
Maria D'Aparecida!
In: MENEZES, Bruno de. Obras completas. Belém: Secretaria de Estado da Cultura, 1993. v.1, p.528-529. (Lendo o Pará, 14)
NOTA: Último poema feito em Belém. Intérprete vocal de Villa-Lobos, W. Henrique e Ernani Braga, com seu programa "Brasil em Paris, Maria D'Aparecida se tornou, segundo os franceses, a mais parisiense dos brasileiros
das gostosuras morenas!
Para que sapoti, Ângela Maria,
pó de canela, tanta
coisa apetecida,
se tens Maria D'Aparecida,
que os franceses recomendam:
"Regardez-la bien et retenez son nom"!
Ai, ai, Brasil,
de alma branca por dentro,
todo moreno por fora!
Pra que coco da Bahia,
se tens Maria D'Aparecida,
morena Iemanjá nascida
no areal da Guanabara?
Ai, ai, Brasil,
do canto do uirapuru,
de outros pássaros-feitiço!
Para que solos alados
de sabiás do poeta,
se tens Maria D'Aparecida,
que traz, na voz languescida,
moreno, dourado mel?
Ai, ai, Brasil,
de nossas brasileirinhas
que em Paris fazem cartaz!
Pra que café adoçado,
cheiroso, bom, que convida,
se tens Maria D'Aparecida,
das convivas a mais fina?
Ai, ai, Brasil,
da beleza, do talento,
como arte em "performance"!
Tudo isto sintonizado
na nossa brasileirinha
de alma em canção diluída,
Maria D'Aparecida!
In: MENEZES, Bruno de. Obras completas. Belém: Secretaria de Estado da Cultura, 1993. v.1, p.528-529. (Lendo o Pará, 14)
NOTA: Último poema feito em Belém. Intérprete vocal de Villa-Lobos, W. Henrique e Ernani Braga, com seu programa "Brasil em Paris, Maria D'Aparecida se tornou, segundo os franceses, a mais parisiense dos brasileiros
2 947
Carlos Vogt
Currículo Mínimo
Sonho primário
Crescer para ser grande
Disciplina ginasial
Educação moral e cínica
Obrigação colegial
Disciplina cívica e oral
Consequência universitária
Problemas brasileiros
In: VOGT, Carlos. Geração: poemas. Il. João Baptista da Costa Aguiar. São Paulo: Brasiliense, 1985
Crescer para ser grande
Disciplina ginasial
Educação moral e cínica
Obrigação colegial
Disciplina cívica e oral
Consequência universitária
Problemas brasileiros
In: VOGT, Carlos. Geração: poemas. Il. João Baptista da Costa Aguiar. São Paulo: Brasiliense, 1985
1 074
Ulisses Tavares
rola a bola
rola a bola
livre o drible
defesa surpresa
apela na canela
salta uma falta
sem tevê juiz não vê
escorrego já no prego
chute estoura pra fora
craque no ataque
quero e recupero
sede de rede
fé no pé
cara a cara
com o goleiro
pronto o apronto
chutar pra marcar
puxa vida
apitaram
o fim da partida
do gol que quase fiz
cumprimento a torcida
lembranças à mamãezinha do juiz.
In: TAVARES, Ulisses. Aos poucos fico louco. Il. Ota. Rio de Janeiro: Globo, 1987
livre o drible
defesa surpresa
apela na canela
salta uma falta
sem tevê juiz não vê
escorrego já no prego
chute estoura pra fora
craque no ataque
quero e recupero
sede de rede
fé no pé
cara a cara
com o goleiro
pronto o apronto
chutar pra marcar
puxa vida
apitaram
o fim da partida
do gol que quase fiz
cumprimento a torcida
lembranças à mamãezinha do juiz.
In: TAVARES, Ulisses. Aos poucos fico louco. Il. Ota. Rio de Janeiro: Globo, 1987
3 247
Luís Delfino
A Saída
O galo canta: o ar, que freme, é quente:
Desce ruflando pelo vale o vento;
Há no horizonte os rolos de uma enchente
Do mar, que invade e doura o firmamento.
Toca a sineta; vem saindo a gente
Da senzala, num jorro sonolento:
Depois da reza, a passo tardo e lento,
Enxada ao ombro, dois a dois em frente,
Ao eito vão pelo carreiro aberto:
O mato cheira, rumorejam ninhos
No cafezal, de branca flor coberto...
Há um grande chilrar de passarinhos...
E enquanto o escravo vai... segue-o de perto
A risada da luz pelos caminhos...
Publicado no livro Rosas negras (1938).
In: DELFINO, Luiz. Os melhores poemas. Sel. Lauro Junkes. São Paulo: Global, 1991. p.74. (Os Melhores poemas, 23
Desce ruflando pelo vale o vento;
Há no horizonte os rolos de uma enchente
Do mar, que invade e doura o firmamento.
Toca a sineta; vem saindo a gente
Da senzala, num jorro sonolento:
Depois da reza, a passo tardo e lento,
Enxada ao ombro, dois a dois em frente,
Ao eito vão pelo carreiro aberto:
O mato cheira, rumorejam ninhos
No cafezal, de branca flor coberto...
Há um grande chilrar de passarinhos...
E enquanto o escravo vai... segue-o de perto
A risada da luz pelos caminhos...
Publicado no livro Rosas negras (1938).
In: DELFINO, Luiz. Os melhores poemas. Sel. Lauro Junkes. São Paulo: Global, 1991. p.74. (Os Melhores poemas, 23
1 743
Odylo Costa Filho
Os Objetos
No fechado silêncio dos objetos
mais simples mora um toque de magia.
De um só tijolo nasce a casa: afetos,
barro, sol, água, mesa, moradia,
e a presença tenaz das mãos humanas,
afeiçoando o mistério da existência
e dando às coisas mais quotidianas
senso de vida — e de sobrevivência.
Chardin, quando há dois séculos viveu,
uma arraia pintou, disforme, aberta
em sangue e dentes, agressiva e forte.
Veio o tempo e com ele emudeceu
muita glória que a moda julgou certa.
Aquela arraia sobrevive à morte.
Poema integrante da série Os Mirantes do Ilhéu.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Boca da noite. Rio de Janeiro: Salamandra, 1979
mais simples mora um toque de magia.
De um só tijolo nasce a casa: afetos,
barro, sol, água, mesa, moradia,
e a presença tenaz das mãos humanas,
afeiçoando o mistério da existência
e dando às coisas mais quotidianas
senso de vida — e de sobrevivência.
Chardin, quando há dois séculos viveu,
uma arraia pintou, disforme, aberta
em sangue e dentes, agressiva e forte.
Veio o tempo e com ele emudeceu
muita glória que a moda julgou certa.
Aquela arraia sobrevive à morte.
Poema integrante da série Os Mirantes do Ilhéu.
In: COSTA, FILHO, Odylo. Boca da noite. Rio de Janeiro: Salamandra, 1979
1 328
Frei Francisco de São Carlos
Canto VI [Voltando ao Austro, os bosques senhoreia
(...)
Voltando ao Austro, os bosques senhoreia
A ilustre povoação de Paulicéia,
Aprazível lugar, cuja campanha
O Tamandaaí cercando banha,
Cujos alunos, fortes e briosos
Rios transpondo, montes escabrosos,
Átropos insultando e os seus perigos,
Sem rotina segura, sem abrigos,
De Panteras e Serpes assaltados,
E do indígena bruto; além cansados,
Darão com as terras pingues e abundantes
Das veias d'oiro ricas, e diamantes.
Aqueles que forrando o peito duro
De triplicado bronze, o mar escuro
De Hele na aventureira faia arando,
Voltam de Colcos ledos, transportando
D'oiro a lã; não disputem as conquistas,
Que hão de tentar os ínclitos Paulistas.
(...)
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Frei Francisco de São Carlos. In: ---. Antologia dos poetas brasileiros da Fase Colonial. São Paulo: Perspectiva, 1979. p.413-414. (Textos, 2
Voltando ao Austro, os bosques senhoreia
A ilustre povoação de Paulicéia,
Aprazível lugar, cuja campanha
O Tamandaaí cercando banha,
Cujos alunos, fortes e briosos
Rios transpondo, montes escabrosos,
Átropos insultando e os seus perigos,
Sem rotina segura, sem abrigos,
De Panteras e Serpes assaltados,
E do indígena bruto; além cansados,
Darão com as terras pingues e abundantes
Das veias d'oiro ricas, e diamantes.
Aqueles que forrando o peito duro
De triplicado bronze, o mar escuro
De Hele na aventureira faia arando,
Voltam de Colcos ledos, transportando
D'oiro a lã; não disputem as conquistas,
Que hão de tentar os ínclitos Paulistas.
(...)
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Frei Francisco de São Carlos. In: ---. Antologia dos poetas brasileiros da Fase Colonial. São Paulo: Perspectiva, 1979. p.413-414. (Textos, 2
1 132
Frei Francisco de São Carlos
Canto VI [Voltando ao Austro, os bosques senhoreia
(...)
Voltando ao Austro, os bosques senhoreia
A ilustre povoação de Paulicéia,
Aprazível lugar, cuja campanha
O Tamandaaí cercando banha,
Cujos alunos, fortes e briosos
Rios transpondo, montes escabrosos,
Átropos insultando e os seus perigos,
Sem rotina segura, sem abrigos,
De Panteras e Serpes assaltados,
E do indígena bruto; além cansados,
Darão com as terras pingues e abundantes
Das veias d'oiro ricas, e diamantes.
Aqueles que forrando o peito duro
De triplicado bronze, o mar escuro
De Hele na aventureira faia arando,
Voltam de Colcos ledos, transportando
D'oiro a lã; não disputem as conquistas,
Que hão de tentar os ínclitos Paulistas.
(...)
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Frei Francisco de São Carlos. In: ---. Antologia dos poetas brasileiros da Fase Colonial. São Paulo: Perspectiva, 1979. p.413-414. (Textos, 2
Voltando ao Austro, os bosques senhoreia
A ilustre povoação de Paulicéia,
Aprazível lugar, cuja campanha
O Tamandaaí cercando banha,
Cujos alunos, fortes e briosos
Rios transpondo, montes escabrosos,
Átropos insultando e os seus perigos,
Sem rotina segura, sem abrigos,
De Panteras e Serpes assaltados,
E do indígena bruto; além cansados,
Darão com as terras pingues e abundantes
Das veias d'oiro ricas, e diamantes.
Aqueles que forrando o peito duro
De triplicado bronze, o mar escuro
De Hele na aventureira faia arando,
Voltam de Colcos ledos, transportando
D'oiro a lã; não disputem as conquistas,
Que hão de tentar os ínclitos Paulistas.
(...)
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Frei Francisco de São Carlos. In: ---. Antologia dos poetas brasileiros da Fase Colonial. São Paulo: Perspectiva, 1979. p.413-414. (Textos, 2
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Frei Francisco de São Carlos
Canto VI [Voltando ao Austro, os bosques senhoreia
(...)
Voltando ao Austro, os bosques senhoreia
A ilustre povoação de Paulicéia,
Aprazível lugar, cuja campanha
O Tamandaaí cercando banha,
Cujos alunos, fortes e briosos
Rios transpondo, montes escabrosos,
Átropos insultando e os seus perigos,
Sem rotina segura, sem abrigos,
De Panteras e Serpes assaltados,
E do indígena bruto; além cansados,
Darão com as terras pingues e abundantes
Das veias d'oiro ricas, e diamantes.
Aqueles que forrando o peito duro
De triplicado bronze, o mar escuro
De Hele na aventureira faia arando,
Voltam de Colcos ledos, transportando
D'oiro a lã; não disputem as conquistas,
Que hão de tentar os ínclitos Paulistas.
(...)
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Frei Francisco de São Carlos. In: ---. Antologia dos poetas brasileiros da Fase Colonial. São Paulo: Perspectiva, 1979. p.413-414. (Textos, 2
Voltando ao Austro, os bosques senhoreia
A ilustre povoação de Paulicéia,
Aprazível lugar, cuja campanha
O Tamandaaí cercando banha,
Cujos alunos, fortes e briosos
Rios transpondo, montes escabrosos,
Átropos insultando e os seus perigos,
Sem rotina segura, sem abrigos,
De Panteras e Serpes assaltados,
E do indígena bruto; além cansados,
Darão com as terras pingues e abundantes
Das veias d'oiro ricas, e diamantes.
Aqueles que forrando o peito duro
De triplicado bronze, o mar escuro
De Hele na aventureira faia arando,
Voltam de Colcos ledos, transportando
D'oiro a lã; não disputem as conquistas,
Que hão de tentar os ínclitos Paulistas.
(...)
Publicado no livro A Assunção (1819).
In: HOLANDA, Sérgio Buarque de. Frei Francisco de São Carlos. In: ---. Antologia dos poetas brasileiros da Fase Colonial. São Paulo: Perspectiva, 1979. p.413-414. (Textos, 2
1 132
Raul Pompéia
Indústria
Que la fournaise flambe, et que les lourds marteaux,
Nuit et jour et sans fin, tourmentent les métaux!
A. BRIZEUX.
O homem bate-se contra o mundo. Cada força viva é um inimigo.
À parte a luta das paixões, trava-se na sociedade a batalha
perene das indústrias.
Combate-se contra o tempo que atrasa e contra a distância que
afasta.
A locomotiva atravessa as planícies como um turbilhão de ferro; a
rede nervosa da telegrafia cria a simultaneidade e a solidariedade
na face do globo; o steamer suprime o oceano; o milagre de
Guttemberg precipita em tempestade as idéias, reduzindo o esforço
cerebral; exacerbam-se os ímpetos produtores do solo, com a energia
vertiginosa das máquinas. Vibram as cidades ao rumor homérico das
caldeiras. Cada dia, o combate ganha uma nova feição e o ventre
fecundo, o ventre inexaurível das forjas, para as novas pugnas,
produz novas armas.
Bendita febre industrial!
Bendito o operário, mártir das indústrias!
Estenda-se por todo o firmamento o fumo que paira sobre as
cidades, vele aos nossos olhos os abismos da amplidão e os signos
impenetráveis das esferas.
Publicado no livro Canções sem Metro (1900). Poema integrante da série III - O Ventre.
In: POMPÉIA, Raul. Obras: canções sem metro. Org. Afrânio Coutinho. Assistência Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1982. .4, p.69. (Vera Cruz, 324c
Nuit et jour et sans fin, tourmentent les métaux!
A. BRIZEUX.
O homem bate-se contra o mundo. Cada força viva é um inimigo.
À parte a luta das paixões, trava-se na sociedade a batalha
perene das indústrias.
Combate-se contra o tempo que atrasa e contra a distância que
afasta.
A locomotiva atravessa as planícies como um turbilhão de ferro; a
rede nervosa da telegrafia cria a simultaneidade e a solidariedade
na face do globo; o steamer suprime o oceano; o milagre de
Guttemberg precipita em tempestade as idéias, reduzindo o esforço
cerebral; exacerbam-se os ímpetos produtores do solo, com a energia
vertiginosa das máquinas. Vibram as cidades ao rumor homérico das
caldeiras. Cada dia, o combate ganha uma nova feição e o ventre
fecundo, o ventre inexaurível das forjas, para as novas pugnas,
produz novas armas.
Bendita febre industrial!
Bendito o operário, mártir das indústrias!
Estenda-se por todo o firmamento o fumo que paira sobre as
cidades, vele aos nossos olhos os abismos da amplidão e os signos
impenetráveis das esferas.
Publicado no livro Canções sem Metro (1900). Poema integrante da série III - O Ventre.
In: POMPÉIA, Raul. Obras: canções sem metro. Org. Afrânio Coutinho. Assistência Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1982. .4, p.69. (Vera Cruz, 324c
2 305
Raul Pompéia
Indústria
Que la fournaise flambe, et que les lourds marteaux,
Nuit et jour et sans fin, tourmentent les métaux!
A. BRIZEUX.
O homem bate-se contra o mundo. Cada força viva é um inimigo.
À parte a luta das paixões, trava-se na sociedade a batalha
perene das indústrias.
Combate-se contra o tempo que atrasa e contra a distância que
afasta.
A locomotiva atravessa as planícies como um turbilhão de ferro; a
rede nervosa da telegrafia cria a simultaneidade e a solidariedade
na face do globo; o steamer suprime o oceano; o milagre de
Guttemberg precipita em tempestade as idéias, reduzindo o esforço
cerebral; exacerbam-se os ímpetos produtores do solo, com a energia
vertiginosa das máquinas. Vibram as cidades ao rumor homérico das
caldeiras. Cada dia, o combate ganha uma nova feição e o ventre
fecundo, o ventre inexaurível das forjas, para as novas pugnas,
produz novas armas.
Bendita febre industrial!
Bendito o operário, mártir das indústrias!
Estenda-se por todo o firmamento o fumo que paira sobre as
cidades, vele aos nossos olhos os abismos da amplidão e os signos
impenetráveis das esferas.
Publicado no livro Canções sem Metro (1900). Poema integrante da série III - O Ventre.
In: POMPÉIA, Raul. Obras: canções sem metro. Org. Afrânio Coutinho. Assistência Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1982. .4, p.69. (Vera Cruz, 324c
Nuit et jour et sans fin, tourmentent les métaux!
A. BRIZEUX.
O homem bate-se contra o mundo. Cada força viva é um inimigo.
À parte a luta das paixões, trava-se na sociedade a batalha
perene das indústrias.
Combate-se contra o tempo que atrasa e contra a distância que
afasta.
A locomotiva atravessa as planícies como um turbilhão de ferro; a
rede nervosa da telegrafia cria a simultaneidade e a solidariedade
na face do globo; o steamer suprime o oceano; o milagre de
Guttemberg precipita em tempestade as idéias, reduzindo o esforço
cerebral; exacerbam-se os ímpetos produtores do solo, com a energia
vertiginosa das máquinas. Vibram as cidades ao rumor homérico das
caldeiras. Cada dia, o combate ganha uma nova feição e o ventre
fecundo, o ventre inexaurível das forjas, para as novas pugnas,
produz novas armas.
Bendita febre industrial!
Bendito o operário, mártir das indústrias!
Estenda-se por todo o firmamento o fumo que paira sobre as
cidades, vele aos nossos olhos os abismos da amplidão e os signos
impenetráveis das esferas.
Publicado no livro Canções sem Metro (1900). Poema integrante da série III - O Ventre.
In: POMPÉIA, Raul. Obras: canções sem metro. Org. Afrânio Coutinho. Assistência Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1982. .4, p.69. (Vera Cruz, 324c
2 305
Raul Pompéia
Indústria
Que la fournaise flambe, et que les lourds marteaux,
Nuit et jour et sans fin, tourmentent les métaux!
A. BRIZEUX.
O homem bate-se contra o mundo. Cada força viva é um inimigo.
À parte a luta das paixões, trava-se na sociedade a batalha
perene das indústrias.
Combate-se contra o tempo que atrasa e contra a distância que
afasta.
A locomotiva atravessa as planícies como um turbilhão de ferro; a
rede nervosa da telegrafia cria a simultaneidade e a solidariedade
na face do globo; o steamer suprime o oceano; o milagre de
Guttemberg precipita em tempestade as idéias, reduzindo o esforço
cerebral; exacerbam-se os ímpetos produtores do solo, com a energia
vertiginosa das máquinas. Vibram as cidades ao rumor homérico das
caldeiras. Cada dia, o combate ganha uma nova feição e o ventre
fecundo, o ventre inexaurível das forjas, para as novas pugnas,
produz novas armas.
Bendita febre industrial!
Bendito o operário, mártir das indústrias!
Estenda-se por todo o firmamento o fumo que paira sobre as
cidades, vele aos nossos olhos os abismos da amplidão e os signos
impenetráveis das esferas.
Publicado no livro Canções sem Metro (1900). Poema integrante da série III - O Ventre.
In: POMPÉIA, Raul. Obras: canções sem metro. Org. Afrânio Coutinho. Assistência Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1982. .4, p.69. (Vera Cruz, 324c
Nuit et jour et sans fin, tourmentent les métaux!
A. BRIZEUX.
O homem bate-se contra o mundo. Cada força viva é um inimigo.
À parte a luta das paixões, trava-se na sociedade a batalha
perene das indústrias.
Combate-se contra o tempo que atrasa e contra a distância que
afasta.
A locomotiva atravessa as planícies como um turbilhão de ferro; a
rede nervosa da telegrafia cria a simultaneidade e a solidariedade
na face do globo; o steamer suprime o oceano; o milagre de
Guttemberg precipita em tempestade as idéias, reduzindo o esforço
cerebral; exacerbam-se os ímpetos produtores do solo, com a energia
vertiginosa das máquinas. Vibram as cidades ao rumor homérico das
caldeiras. Cada dia, o combate ganha uma nova feição e o ventre
fecundo, o ventre inexaurível das forjas, para as novas pugnas,
produz novas armas.
Bendita febre industrial!
Bendito o operário, mártir das indústrias!
Estenda-se por todo o firmamento o fumo que paira sobre as
cidades, vele aos nossos olhos os abismos da amplidão e os signos
impenetráveis das esferas.
Publicado no livro Canções sem Metro (1900). Poema integrante da série III - O Ventre.
In: POMPÉIA, Raul. Obras: canções sem metro. Org. Afrânio Coutinho. Assistência Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1982. .4, p.69. (Vera Cruz, 324c
2 305
Zuca Sardan
Drama nos Bastidores
O palhaço afinal
muito sem graça
era mesmo
além de careca
ladrão de mulher:
Só numa matinê
sumiu com cinco
bem gostosinhas...
Chamaram o delegado
que prendeu por engano
o domador de leões.
O palhaço se esbodegou
de rir e rolou
no camarim dos fundos
com duas mulheres nuas
e um prato de goiabada...
até o macaco
andou tirando umas casquinhas...
Este mundo anda mesmo
uma falta de vergonha...
In: SARDAN, Zuca. Ás de colete. Pref. Alcides Villaça. Il. do autor. 2.ed.ampinas: Ed. da Unicamp, 1994. p.113. (Matéria de poesia
muito sem graça
era mesmo
além de careca
ladrão de mulher:
Só numa matinê
sumiu com cinco
bem gostosinhas...
Chamaram o delegado
que prendeu por engano
o domador de leões.
O palhaço se esbodegou
de rir e rolou
no camarim dos fundos
com duas mulheres nuas
e um prato de goiabada...
até o macaco
andou tirando umas casquinhas...
Este mundo anda mesmo
uma falta de vergonha...
In: SARDAN, Zuca. Ás de colete. Pref. Alcides Villaça. Il. do autor. 2.ed.ampinas: Ed. da Unicamp, 1994. p.113. (Matéria de poesia
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