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Poemas neste tema

Sociedade e Mundo

Raul Pompéia

Raul Pompéia

A Mudança da Capital da República

Enquanto se debatem estas atribuições da vida popular, há filósofos admiráveis, de bastante calma para meditar a mudança da capital da República.

Foi uma das idéias da semana a da mudança, nada menos (mudança de capital...) do Rio de Janeiro para o sertão de Goiás!

Houve ingênuos que admiraram a simples transferência de um obelisco das margens do Nilo para a capital da França. A vingar a idéia de mudança da capital da República para o sítio da Formosa da Imperatriz do chapadão goiano, teremos ocasião de ver coisa muito mais espantosa, a transferência total, em conjunto ou por partes, de uma enorme cidade.

Há coisas nessa transferência que só pensar nelas perturba a imaginação. Que se levem as estátuas das praças, concebe-se — dentro de caixas apropriadas e convenientemente sólidas. Que se leve o chafariz do antigo Largo do Paço ou o zimbório da Candelária, também se concebe; basta que se o pegue por cima do chafariz com um bom guindaste pela ponta da pirâmide, pela esfera armilar e que se suspenda para cima de uma robusta carreta. O zimbório da Candelária, pega-se pela cruz. Compreende-se que vá também a caixa d'água da Carioca, desde que a montem sobre quatro rodas, como um carrinho de caixão de meninos. Pode-se até aproveitar o espaço vão e meter-lhe dentro, cautelosamente empilhados, os arcos todos do Aqueduto de Santa Tereza. Os edifícios também é fácil imaginar que irão desconjuntados, parede por parede, escada por escada, teto por teto, desde que se numerem as diferentes peças para se não confundirem. Não foi assim que veio o Teatro Apolo todinho de Paris até aqui? Que se trasladem os pequenos morros do centro da cidade, conjetura-se igualmente: são de terra: podem ir aos bocados em carroças, por exemplo, e lá no seu destino acumulam-se outra vez. Porventura não se está fazendo a mudança pouco a pouco de alguns desses morros para dentro da baía?... Mas há mudanças inconcebíveis. Como conseguirão os mudadores da capital trasladar o Corcovado?. Rochas, águas, florestas e a estrada de ferro. Como hão de poder mudar para lá, para o sertão da Formosa o Pão de Açúcar, as fortalezas, a barra, elementos decorativos da nossa bela capital que mudada sem eles não se teria mudado?!

Publicada no Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 15 dez. 1890. Título atribuído pelo Itaú Cultural.
POMPÉIA, Raul. Crônicas 4. Organização de Afrânio Coutinho. Assistência de Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1983. v. 9. p. 52-53
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Raul Pompéia

Raul Pompéia

A Mudança da Capital da República

Enquanto se debatem estas atribuições da vida popular, há filósofos admiráveis, de bastante calma para meditar a mudança da capital da República.

Foi uma das idéias da semana a da mudança, nada menos (mudança de capital...) do Rio de Janeiro para o sertão de Goiás!

Houve ingênuos que admiraram a simples transferência de um obelisco das margens do Nilo para a capital da França. A vingar a idéia de mudança da capital da República para o sítio da Formosa da Imperatriz do chapadão goiano, teremos ocasião de ver coisa muito mais espantosa, a transferência total, em conjunto ou por partes, de uma enorme cidade.

Há coisas nessa transferência que só pensar nelas perturba a imaginação. Que se levem as estátuas das praças, concebe-se — dentro de caixas apropriadas e convenientemente sólidas. Que se leve o chafariz do antigo Largo do Paço ou o zimbório da Candelária, também se concebe; basta que se o pegue por cima do chafariz com um bom guindaste pela ponta da pirâmide, pela esfera armilar e que se suspenda para cima de uma robusta carreta. O zimbório da Candelária, pega-se pela cruz. Compreende-se que vá também a caixa d'água da Carioca, desde que a montem sobre quatro rodas, como um carrinho de caixão de meninos. Pode-se até aproveitar o espaço vão e meter-lhe dentro, cautelosamente empilhados, os arcos todos do Aqueduto de Santa Tereza. Os edifícios também é fácil imaginar que irão desconjuntados, parede por parede, escada por escada, teto por teto, desde que se numerem as diferentes peças para se não confundirem. Não foi assim que veio o Teatro Apolo todinho de Paris até aqui? Que se trasladem os pequenos morros do centro da cidade, conjetura-se igualmente: são de terra: podem ir aos bocados em carroças, por exemplo, e lá no seu destino acumulam-se outra vez. Porventura não se está fazendo a mudança pouco a pouco de alguns desses morros para dentro da baía?... Mas há mudanças inconcebíveis. Como conseguirão os mudadores da capital trasladar o Corcovado?. Rochas, águas, florestas e a estrada de ferro. Como hão de poder mudar para lá, para o sertão da Formosa o Pão de Açúcar, as fortalezas, a barra, elementos decorativos da nossa bela capital que mudada sem eles não se teria mudado?!

Publicada no Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 15 dez. 1890. Título atribuído pelo Itaú Cultural.
POMPÉIA, Raul. Crônicas 4. Organização de Afrânio Coutinho. Assistência de Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1983. v. 9. p. 52-53
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Paulo Setúbal

Paulo Setúbal

A Terra da Promissão

Soldados e viageiros, à roda do fogo, nos pousos, desfiavam, como a chuçar a cobiça dos ouvintes, todo um rol diabólico de maravilhas. Narravam-se coisas embasbacantes. Muita gente contava, debaixo de juras, que havia nas minas tanto ouro, tanto que "no Cuyabá, até as pedras dos fogoens, onde se punham as panellas, eram de ouro". Ainda: "para se colher ouro, não é necessario mais do que arrancar touceiras de capim; nella vêm pegadas as folhetas". Grande verdade. O ouro de Cuiabá era todo de aluvião. Andava solto à flor da terra. Por isso, comentando aqueles relatos, afirmava o cronista com justeza: "isto de arrancar-se capim e virem granetes de ouro pegados ás raizes, é certo; foi coisa vista muitas vezes, tanto nas lavras do Sutil, como nas da Conceição".

Mas não ficava só nisso. Havia muitas e incríveis gabolices. Chegou-se mesmo a dizer, "naquellas exageraçoens fabullozas", que, "no Cuyabá, em vez de grãos de chumbo, serviam-se os caçadores, nas espingardas, de grãos de ouro para matar veados..."

A conseqüência dessas falas espicaçantes era uma só e fatal: canalizar para essas terras, tão fantasticamente abarrotadas de riquezas, densa caudal de aventureiros. E foi, de fato, densa e torrenciosa, a caudal de gente que alagou Cuiabá. Os cronistas, sem excetuar um único, narram com destaque essa desabalada carreira para as minas, "divulgada a noticia pellos povoados (lá diz Barbosa de Sá), foi tal o movimento que cauzou nos animos, que das Minas-geraes, do Rio de janeiro, de toda a Capitania de Sam Paulo, se aballaram muitas e muitas gentes. Deixavam cazas e, fazendas, deixavam molheres e filhos, deixavam tudo, botando-se para aquelles sertoens como se fora a terra da promissan ou o Parahyzo incoberto em que Deus poz os nossos primeiros paes".

Cuiabá, não há dúvida, tornou-se a aspiração mais fascinante dos sertanejos. Era a "terra da promissan!". De São Paulo, mais particularmente, o êxodo para lá foi verdadeira loucura. Pode-se dizer que, na vila, não ficou homem válido. Partiu tudo. "O que soube, logo que aqui cheguei (mandava dizer ao Rei, numa carta, o governador Rodrigo César) é que tinham ido para aquellas minas mais de dois mil paulistas". Só naquelas lavras, segundo arrolamento, "havia naquelle armo (o que espanta!) duas cazas de truque, onze fornos e dois mil seiscentos e sete escravos".

Mas todos os forasteiros, brancos e negros, escravos e forros, vindos ali à busca do ouro, chuçados pela só fome das riquezas, não pensavam jamais em lavouras e sementeiras. Parece isso extraordinário, mas é verdade. Passavam dia e noite nas catas. Ninguém tinha tempo para abrir roças. Ninguém tinha tempo para cuidar de criação. Por isso, naquelas lavras, "não havia porcos, não havia gallinhas, não havia nada. Faltava o milho em toda a povoação". Os gêneros vinham de fora, lá do longínquo São Paulo, em monção. Mas quase sempre, nos vaivéns terríveis daquelas duras varações — "chegavam as fazendas já podres; morria muita gente de fome".

As coisas atingiam, está visto, preços verdadeiramente fabulosos.


Publicada no livro O Ouro de Cuiabá (1933).

SETÚBAL, Paulo. O ouro de Cuiabá: crônicas. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 1956. p. 51-53. (Obras de Paulo Setúbal, 8)
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Paulo Setúbal

Paulo Setúbal

A Terra da Promissão

Soldados e viageiros, à roda do fogo, nos pousos, desfiavam, como a chuçar a cobiça dos ouvintes, todo um rol diabólico de maravilhas. Narravam-se coisas embasbacantes. Muita gente contava, debaixo de juras, que havia nas minas tanto ouro, tanto que "no Cuyabá, até as pedras dos fogoens, onde se punham as panellas, eram de ouro". Ainda: "para se colher ouro, não é necessario mais do que arrancar touceiras de capim; nella vêm pegadas as folhetas". Grande verdade. O ouro de Cuiabá era todo de aluvião. Andava solto à flor da terra. Por isso, comentando aqueles relatos, afirmava o cronista com justeza: "isto de arrancar-se capim e virem granetes de ouro pegados ás raizes, é certo; foi coisa vista muitas vezes, tanto nas lavras do Sutil, como nas da Conceição".

Mas não ficava só nisso. Havia muitas e incríveis gabolices. Chegou-se mesmo a dizer, "naquellas exageraçoens fabullozas", que, "no Cuyabá, em vez de grãos de chumbo, serviam-se os caçadores, nas espingardas, de grãos de ouro para matar veados..."

A conseqüência dessas falas espicaçantes era uma só e fatal: canalizar para essas terras, tão fantasticamente abarrotadas de riquezas, densa caudal de aventureiros. E foi, de fato, densa e torrenciosa, a caudal de gente que alagou Cuiabá. Os cronistas, sem excetuar um único, narram com destaque essa desabalada carreira para as minas, "divulgada a noticia pellos povoados (lá diz Barbosa de Sá), foi tal o movimento que cauzou nos animos, que das Minas-geraes, do Rio de janeiro, de toda a Capitania de Sam Paulo, se aballaram muitas e muitas gentes. Deixavam cazas e, fazendas, deixavam molheres e filhos, deixavam tudo, botando-se para aquelles sertoens como se fora a terra da promissan ou o Parahyzo incoberto em que Deus poz os nossos primeiros paes".

Cuiabá, não há dúvida, tornou-se a aspiração mais fascinante dos sertanejos. Era a "terra da promissan!". De São Paulo, mais particularmente, o êxodo para lá foi verdadeira loucura. Pode-se dizer que, na vila, não ficou homem válido. Partiu tudo. "O que soube, logo que aqui cheguei (mandava dizer ao Rei, numa carta, o governador Rodrigo César) é que tinham ido para aquellas minas mais de dois mil paulistas". Só naquelas lavras, segundo arrolamento, "havia naquelle armo (o que espanta!) duas cazas de truque, onze fornos e dois mil seiscentos e sete escravos".

Mas todos os forasteiros, brancos e negros, escravos e forros, vindos ali à busca do ouro, chuçados pela só fome das riquezas, não pensavam jamais em lavouras e sementeiras. Parece isso extraordinário, mas é verdade. Passavam dia e noite nas catas. Ninguém tinha tempo para abrir roças. Ninguém tinha tempo para cuidar de criação. Por isso, naquelas lavras, "não havia porcos, não havia gallinhas, não havia nada. Faltava o milho em toda a povoação". Os gêneros vinham de fora, lá do longínquo São Paulo, em monção. Mas quase sempre, nos vaivéns terríveis daquelas duras varações — "chegavam as fazendas já podres; morria muita gente de fome".

As coisas atingiam, está visto, preços verdadeiramente fabulosos.


Publicada no livro O Ouro de Cuiabá (1933).

SETÚBAL, Paulo. O ouro de Cuiabá: crônicas. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 1956. p. 51-53. (Obras de Paulo Setúbal, 8)
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Joaquim Cardozo

Joaquim Cardozo

As Janelas, as Escadas, as Pontes e as Estradas

II
(As estradas e as pontes)

As estradas não param. Para longe, que vão,
Vão, sem se mover/cansar. Permanentemente vão;
Quem quiser vai com elas, usa tudo o que é delas
Porque são boas, tão boas, tão amigas
Que ajudam a quem quiser correr,
A quem quiser simplesmente andar,
Ou, tropegamente, caminhar apenas...
Vão para o fim do olhar, em todas as direções desse fim;
— Rugosas, em rodeiras de lama, filmando um movimento
— Lisas, escorrendo ao seu leito, líquido-pastoso
Contêm as rodas, os pés acertam, amparam, as muletas.
Dirigem
A velocidade-serpente, de anéis sucessivos,
Sempre desiguais, serpente de que amortecem o veneno...

As estradas saltam sobre os rios e os vales profundos
Em seus saltos de pontes, com distensões de músculos
Estáticos; imobilizam a vertigem dos abismos.

Pontes que são saltos de vara
Sobre os profundos paralisados;
E o rumor que por elas vai

Não consegue despertá-las do equilíbrio:
Seu sono-silêncio, seu sono-limite.

Os rios, embaixo caminham: estradas moventes
Com agitações de animal, às vezes mansas
às vezes selvagens
Caminham, escadas rolantes sempre descendo;
Colubreiam, coleiam...

As pontes são partes da estrada, são apertos de mãos
Que transportam de um lado para outro lado
— São São Cristóvão de cimento e ferro.

Mãos de duros nervos, de veias metálicas
Onde corre um sangue de quase eterna
Origem; são pulsos que vibram
No mesmo ritmo das estradas
No mesmo ritmo dos que passam
— Talvez, como eu, nunca para mais passar...

As estradas são cordas de um instrumento
Vibrando à passagem dos motores,
Deixando no ar nova música
Onde há ritmos de horizontes
margeantes
Entre os sons das árvores marginantes.

Os rios às vezes se revoltam
Reúnem todas as suas águas
E investem sobre as pontes-algemas
Contra as estradas — muralhas de cárcere —
E se espalham felizes na planície
Em inundações gloriosas.

Imagem - 00100003


In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.181-182. Poema integrante da série Mundos Paralelos.

NOTA: Poema composto de 2 parte
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Paulo Setúbal

Paulo Setúbal

As Gentes das Lavras

Quantas lavras! As de "S. João", as de "Cocaes", as da "Chapada", as de "Jacey", as da "Conceição", as do "Sutil"... Tudo a jorrar ouro! Ouro, às arrobas, do melhor, mais puro, diziam, que o das Gerais. Esse ouro, como um clarim, conclamava sem cessar as gentes. Forasteiros e naturais, nortistas e sulistas, vinha tudo, por esses sertões afora — e sabe Deus como! — atrás do ouro de Cuiabá. Não havia barreiras que os fizessem estacar. Não havia perigos que os fizessem refletir. Nada! Nem os matos, nem os rios, nem as feras, nem a indiada, nem a fome, nem as misérias infinitas, horrorizantes da jornada.

Cuiabá tornou-se o açude onde se aglutinava a escumalha lodosa do Brasil. Era o desaguadouro de todos os aventureiros. E que aventureiros! Bandidos, fugidos às justiças, jogadores, matadores sanguinários, ladrões, salteadores. Ralé vil, ralé imunda, ralé repugnante.

E que vida, no Cuiabá, heterogênea e bruta! Nas tascas, onde havia sempre "mulheres bastardas e jogos de parar", desencadeavam-se tragédias selvagens, violentíssimas, em que fuzilavam facões e toledanas. Assassínio era coisa de todo o dia. Roubos também. Toda a gente roubava! Os negros, com perícias pasmosas, surripiavam ouro das bateias e iam, nos dias de folga, emborrachar-se com ele nas tavernas. Os índios, que sempre foram racialmente falsos, escondiam na boca os granetes que podiam e, à noite, muito às ocultas; entregavam-no aos ourives a troco de pedaços de fumo. Mulatas quitandeiras, com os tabuleiros à cabeça, viviam nas catas a vender broinhas aos escravos. Os escravos pagavam-nas com folhetas roubadas aos amos. Até os padres, contaminados pela fúria das riquezas, contrabandeavam. Rodrigo César, para cortar tudo aquilo, todas aquelas mortes, todos aqueles roubos, todo aquele contrabando, lançava, ininterruptamente, bandos sobre bandos. Ninguém mais, ordenava o Governador, "havendo de fazer jornada a Cuyabá, não a faça sem licença minha e sem tirar o paçaporte na secretaria do Governo". E mandava fechar as baiúcas de jogo. E proibia, sob penas carrancudas, que partissem forasteiros para as minas. E negros sem dono. E índios avulsos. E mulheres de vida fácil. E padres castelhanos. Estes, sob pretexto algum, mesmo sob pretexto de missão, não tinham sequer permissão de atravessar as minas. Mas os bandos, por mais rigorosos, eram vãos. O ouro de Cuiabá enlouquecia. Que importavam aquelas proibições? Toda a gente, para atingir o metal satânico, as fraudava. E não havia meio de impedir a fraude. Por isso, cada ano, as monções partiam repletas. E cada ano, nos povoados, contavam-se as misérias e os padecimentos dessas monções.


Publicada no livro O Ouro de Cuiabá (1933).

SETÚBAL, Paulo. O ouro de Cuiabá: crônicas. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 1956. p. 61-63. (Obras de Paulo Setúbal, 8)
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Paulo Setúbal

Paulo Setúbal

As Gentes das Lavras

Quantas lavras! As de "S. João", as de "Cocaes", as da "Chapada", as de "Jacey", as da "Conceição", as do "Sutil"... Tudo a jorrar ouro! Ouro, às arrobas, do melhor, mais puro, diziam, que o das Gerais. Esse ouro, como um clarim, conclamava sem cessar as gentes. Forasteiros e naturais, nortistas e sulistas, vinha tudo, por esses sertões afora — e sabe Deus como! — atrás do ouro de Cuiabá. Não havia barreiras que os fizessem estacar. Não havia perigos que os fizessem refletir. Nada! Nem os matos, nem os rios, nem as feras, nem a indiada, nem a fome, nem as misérias infinitas, horrorizantes da jornada.

Cuiabá tornou-se o açude onde se aglutinava a escumalha lodosa do Brasil. Era o desaguadouro de todos os aventureiros. E que aventureiros! Bandidos, fugidos às justiças, jogadores, matadores sanguinários, ladrões, salteadores. Ralé vil, ralé imunda, ralé repugnante.

E que vida, no Cuiabá, heterogênea e bruta! Nas tascas, onde havia sempre "mulheres bastardas e jogos de parar", desencadeavam-se tragédias selvagens, violentíssimas, em que fuzilavam facões e toledanas. Assassínio era coisa de todo o dia. Roubos também. Toda a gente roubava! Os negros, com perícias pasmosas, surripiavam ouro das bateias e iam, nos dias de folga, emborrachar-se com ele nas tavernas. Os índios, que sempre foram racialmente falsos, escondiam na boca os granetes que podiam e, à noite, muito às ocultas; entregavam-no aos ourives a troco de pedaços de fumo. Mulatas quitandeiras, com os tabuleiros à cabeça, viviam nas catas a vender broinhas aos escravos. Os escravos pagavam-nas com folhetas roubadas aos amos. Até os padres, contaminados pela fúria das riquezas, contrabandeavam. Rodrigo César, para cortar tudo aquilo, todas aquelas mortes, todos aqueles roubos, todo aquele contrabando, lançava, ininterruptamente, bandos sobre bandos. Ninguém mais, ordenava o Governador, "havendo de fazer jornada a Cuyabá, não a faça sem licença minha e sem tirar o paçaporte na secretaria do Governo". E mandava fechar as baiúcas de jogo. E proibia, sob penas carrancudas, que partissem forasteiros para as minas. E negros sem dono. E índios avulsos. E mulheres de vida fácil. E padres castelhanos. Estes, sob pretexto algum, mesmo sob pretexto de missão, não tinham sequer permissão de atravessar as minas. Mas os bandos, por mais rigorosos, eram vãos. O ouro de Cuiabá enlouquecia. Que importavam aquelas proibições? Toda a gente, para atingir o metal satânico, as fraudava. E não havia meio de impedir a fraude. Por isso, cada ano, as monções partiam repletas. E cada ano, nos povoados, contavam-se as misérias e os padecimentos dessas monções.


Publicada no livro O Ouro de Cuiabá (1933).

SETÚBAL, Paulo. O ouro de Cuiabá: crônicas. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 1956. p. 61-63. (Obras de Paulo Setúbal, 8)
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Paulo Setúbal

Paulo Setúbal

As Gentes das Lavras

Quantas lavras! As de "S. João", as de "Cocaes", as da "Chapada", as de "Jacey", as da "Conceição", as do "Sutil"... Tudo a jorrar ouro! Ouro, às arrobas, do melhor, mais puro, diziam, que o das Gerais. Esse ouro, como um clarim, conclamava sem cessar as gentes. Forasteiros e naturais, nortistas e sulistas, vinha tudo, por esses sertões afora — e sabe Deus como! — atrás do ouro de Cuiabá. Não havia barreiras que os fizessem estacar. Não havia perigos que os fizessem refletir. Nada! Nem os matos, nem os rios, nem as feras, nem a indiada, nem a fome, nem as misérias infinitas, horrorizantes da jornada.

Cuiabá tornou-se o açude onde se aglutinava a escumalha lodosa do Brasil. Era o desaguadouro de todos os aventureiros. E que aventureiros! Bandidos, fugidos às justiças, jogadores, matadores sanguinários, ladrões, salteadores. Ralé vil, ralé imunda, ralé repugnante.

E que vida, no Cuiabá, heterogênea e bruta! Nas tascas, onde havia sempre "mulheres bastardas e jogos de parar", desencadeavam-se tragédias selvagens, violentíssimas, em que fuzilavam facões e toledanas. Assassínio era coisa de todo o dia. Roubos também. Toda a gente roubava! Os negros, com perícias pasmosas, surripiavam ouro das bateias e iam, nos dias de folga, emborrachar-se com ele nas tavernas. Os índios, que sempre foram racialmente falsos, escondiam na boca os granetes que podiam e, à noite, muito às ocultas; entregavam-no aos ourives a troco de pedaços de fumo. Mulatas quitandeiras, com os tabuleiros à cabeça, viviam nas catas a vender broinhas aos escravos. Os escravos pagavam-nas com folhetas roubadas aos amos. Até os padres, contaminados pela fúria das riquezas, contrabandeavam. Rodrigo César, para cortar tudo aquilo, todas aquelas mortes, todos aqueles roubos, todo aquele contrabando, lançava, ininterruptamente, bandos sobre bandos. Ninguém mais, ordenava o Governador, "havendo de fazer jornada a Cuyabá, não a faça sem licença minha e sem tirar o paçaporte na secretaria do Governo". E mandava fechar as baiúcas de jogo. E proibia, sob penas carrancudas, que partissem forasteiros para as minas. E negros sem dono. E índios avulsos. E mulheres de vida fácil. E padres castelhanos. Estes, sob pretexto algum, mesmo sob pretexto de missão, não tinham sequer permissão de atravessar as minas. Mas os bandos, por mais rigorosos, eram vãos. O ouro de Cuiabá enlouquecia. Que importavam aquelas proibições? Toda a gente, para atingir o metal satânico, as fraudava. E não havia meio de impedir a fraude. Por isso, cada ano, as monções partiam repletas. E cada ano, nos povoados, contavam-se as misérias e os padecimentos dessas monções.


Publicada no livro O Ouro de Cuiabá (1933).

SETÚBAL, Paulo. O ouro de Cuiabá: crônicas. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 1956. p. 61-63. (Obras de Paulo Setúbal, 8)
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