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Poemas neste tema

Sociedade e Mundo

Fontoura Xavier

Fontoura Xavier

O Saltimbanco Régio

I

"Calai-vos fariseus! A Roma dos Tibérios,
Quem disse que sepulta a ossada dos impérios?
Porque não mais atira ao pó do Coliseu
A crença de um cristão e os ossos de um ateu
Para servir de estrume ao ventre de uma fera?
A velha cortesã deixou de ser o que era,
Mas preza o riso e a farsa jovial,
Do franco tilintar dos guizos do jogral.
- Se olvidas as bacanais dos Césares devassos,
Aplaude as contorções dos Césares palhaços.


II

Silêncio! Fez-se ouvir-se o último sinal!
"À cena, ergue-se a "claque", o artista imperial!"
E o grande saltimbanco, entusiasmado, ufano,
Não quis que o esperasse o aplauso do romano...
Oh quadro deslumbrante e digno do porvir!
Logo ao saltar em cena o artista a se esgrimir
Um pasmo convulsivo estremeceu as almas
E fê-las rebentar numa explosão de palmas.
O sábio, respirando indômito ovações,
Achava em si um que de magros histriões.
Mas tanto lhe soara o grito do sucesso
Que ao cabo se imagina um Ursus-rei professo.
E a sede de mais glória e a sôfrega ambição
Fizeram-lhe anunciar ao mundo outra função.


III

Outrora quando um monstro, um César, um bandido,
Sentia o coração de rei prostituído
Pulsa-lhe sob o tédio, armado a gladiador,
Descia ao Coliseu - satânico de horror -
Para embeber sedento a cólera da hiena
No sangue dos plebeus a espadanar na arena.
Franqueava às multidões os pórticos reais
Desfeitas ao clarão das régias bacanais,
E dentre o tumultuar ciclópico do vício
O César engendrara um fogo de artifício.
Essa alma surda à voz do plectro coração
Queria mergulhar em chamas a paixão!
"Ao fogo!"
e em derredor, extático, surpreso,
O mundo via arder uma cidade em peso;
Enquanto descansava o rei nas alvas cãs
Nos braços ébrios, nus, das ébrias barregãs,
Co'a horizontal placidez medonha de um Cerbero !
Festins de Trimalcião e diversões de Nero.
Mas hoje o imperador tem outras ambições
Não desce a digladiar com tigres e leões
Nem arroja o seu nome ao nada, ao vilipêndio
Com Roma ao crepitar o fantástico incêndio...
P'ra dar o nome ao sec'lo, ao povo, a u'a nação
Atira-se a uma praça e sagra-se histrião!


IV

É outro Coliseu: mais vasto, mais fecundo
Tem Roma por cenário e por platéia o mundo.
É mais variada a festa. A um tempo o imperador
É sábio, poliglota, artista e professor,
Acróbata, truão, frascário, rei e mestre,
D. Juan, Robert, Falstaff e Benoiton eqüestre.
Oh! deve ser imenso, esplêndido o festim
Onde vai exibir-se o célebre arlequim,
Colher, longe da pátria, além, n'outro horizonte.
Mais um florão gentil que orne a heróica fronte.
A Roma meretriz essa imortal galé
Que um deus acorrentara a um poste Santa - Sé,
Heróico vencedor, colérico, iracundo,
Temendo em saturnais lhe submergisse o mundo
Dir-se-ia que olvidou a prece do cristão
Para entregar-se nua ao novo Trimalcião
Que ouviu novo estertor de servos gladiadores
Na liça triunfal de vis batalhadores
E ergueu-se dos lençóis do papa Mastaí
Bradando à Religião:
"Ao Circo ! eu não morri!"
E santo e majestoso e nobre e gigantesco!



Ó vós, que amais ouvir do herói funambulesco
Na cômica ascenção da mímica sem par,
As doidas expansões da gargalhada alvar;
Ó vos, que desfolhais a rosa do deboche;
Ó vós, que odiais o tédio e as tentações do "spleen",
não recuseis um "bravo!" ao deus do trampolim.
Calai-vos fariseus ! A Roma dos Tibérios
Não digam que sepulta a ossada dos impérios,
Porque não mais atira ao pó do Coliseu
A crença de um cristão e os ossos de um ateu
Para servir de estrume ao ventre de uma fera;
A velha cotesã deixou de ser o que era
Mas inda preza o riso e a farsa jovial
Ao franco tilintar dos guizos do jogral.
- Se olvidas as bacanais dos Césares devassos,
Aplaude as contorções dos Césares palhaços!

Texto enviado por Fernando Dias Campos Neto, sobrinho-bisneto do poeta, por e-mail, em 01 abr. 2002
1 374
Fontoura Xavier

Fontoura Xavier

O Saltimbanco Régio

I

"Calai-vos fariseus! A Roma dos Tibérios,
Quem disse que sepulta a ossada dos impérios?
Porque não mais atira ao pó do Coliseu
A crença de um cristão e os ossos de um ateu
Para servir de estrume ao ventre de uma fera?
A velha cortesã deixou de ser o que era,
Mas preza o riso e a farsa jovial,
Do franco tilintar dos guizos do jogral.
- Se olvidas as bacanais dos Césares devassos,
Aplaude as contorções dos Césares palhaços.


II

Silêncio! Fez-se ouvir-se o último sinal!
"À cena, ergue-se a "claque", o artista imperial!"
E o grande saltimbanco, entusiasmado, ufano,
Não quis que o esperasse o aplauso do romano...
Oh quadro deslumbrante e digno do porvir!
Logo ao saltar em cena o artista a se esgrimir
Um pasmo convulsivo estremeceu as almas
E fê-las rebentar numa explosão de palmas.
O sábio, respirando indômito ovações,
Achava em si um que de magros histriões.
Mas tanto lhe soara o grito do sucesso
Que ao cabo se imagina um Ursus-rei professo.
E a sede de mais glória e a sôfrega ambição
Fizeram-lhe anunciar ao mundo outra função.


III

Outrora quando um monstro, um César, um bandido,
Sentia o coração de rei prostituído
Pulsa-lhe sob o tédio, armado a gladiador,
Descia ao Coliseu - satânico de horror -
Para embeber sedento a cólera da hiena
No sangue dos plebeus a espadanar na arena.
Franqueava às multidões os pórticos reais
Desfeitas ao clarão das régias bacanais,
E dentre o tumultuar ciclópico do vício
O César engendrara um fogo de artifício.
Essa alma surda à voz do plectro coração
Queria mergulhar em chamas a paixão!
"Ao fogo!"
e em derredor, extático, surpreso,
O mundo via arder uma cidade em peso;
Enquanto descansava o rei nas alvas cãs
Nos braços ébrios, nus, das ébrias barregãs,
Co'a horizontal placidez medonha de um Cerbero !
Festins de Trimalcião e diversões de Nero.
Mas hoje o imperador tem outras ambições
Não desce a digladiar com tigres e leões
Nem arroja o seu nome ao nada, ao vilipêndio
Com Roma ao crepitar o fantástico incêndio...
P'ra dar o nome ao sec'lo, ao povo, a u'a nação
Atira-se a uma praça e sagra-se histrião!


IV

É outro Coliseu: mais vasto, mais fecundo
Tem Roma por cenário e por platéia o mundo.
É mais variada a festa. A um tempo o imperador
É sábio, poliglota, artista e professor,
Acróbata, truão, frascário, rei e mestre,
D. Juan, Robert, Falstaff e Benoiton eqüestre.
Oh! deve ser imenso, esplêndido o festim
Onde vai exibir-se o célebre arlequim,
Colher, longe da pátria, além, n'outro horizonte.
Mais um florão gentil que orne a heróica fronte.
A Roma meretriz essa imortal galé
Que um deus acorrentara a um poste Santa - Sé,
Heróico vencedor, colérico, iracundo,
Temendo em saturnais lhe submergisse o mundo
Dir-se-ia que olvidou a prece do cristão
Para entregar-se nua ao novo Trimalcião
Que ouviu novo estertor de servos gladiadores
Na liça triunfal de vis batalhadores
E ergueu-se dos lençóis do papa Mastaí
Bradando à Religião:
"Ao Circo ! eu não morri!"
E santo e majestoso e nobre e gigantesco!



Ó vós, que amais ouvir do herói funambulesco
Na cômica ascenção da mímica sem par,
As doidas expansões da gargalhada alvar;
Ó vos, que desfolhais a rosa do deboche;
Ó vós, que odiais o tédio e as tentações do "spleen",
não recuseis um "bravo!" ao deus do trampolim.
Calai-vos fariseus ! A Roma dos Tibérios
Não digam que sepulta a ossada dos impérios,
Porque não mais atira ao pó do Coliseu
A crença de um cristão e os ossos de um ateu
Para servir de estrume ao ventre de uma fera;
A velha cotesã deixou de ser o que era
Mas inda preza o riso e a farsa jovial
Ao franco tilintar dos guizos do jogral.
- Se olvidas as bacanais dos Césares devassos,
Aplaude as contorções dos Césares palhaços!

Texto enviado por Fernando Dias Campos Neto, sobrinho-bisneto do poeta, por e-mail, em 01 abr. 2002
1 374
Fontoura Xavier

Fontoura Xavier

O Saltimbanco Régio

I

"Calai-vos fariseus! A Roma dos Tibérios,
Quem disse que sepulta a ossada dos impérios?
Porque não mais atira ao pó do Coliseu
A crença de um cristão e os ossos de um ateu
Para servir de estrume ao ventre de uma fera?
A velha cortesã deixou de ser o que era,
Mas preza o riso e a farsa jovial,
Do franco tilintar dos guizos do jogral.
- Se olvidas as bacanais dos Césares devassos,
Aplaude as contorções dos Césares palhaços.


II

Silêncio! Fez-se ouvir-se o último sinal!
"À cena, ergue-se a "claque", o artista imperial!"
E o grande saltimbanco, entusiasmado, ufano,
Não quis que o esperasse o aplauso do romano...
Oh quadro deslumbrante e digno do porvir!
Logo ao saltar em cena o artista a se esgrimir
Um pasmo convulsivo estremeceu as almas
E fê-las rebentar numa explosão de palmas.
O sábio, respirando indômito ovações,
Achava em si um que de magros histriões.
Mas tanto lhe soara o grito do sucesso
Que ao cabo se imagina um Ursus-rei professo.
E a sede de mais glória e a sôfrega ambição
Fizeram-lhe anunciar ao mundo outra função.


III

Outrora quando um monstro, um César, um bandido,
Sentia o coração de rei prostituído
Pulsa-lhe sob o tédio, armado a gladiador,
Descia ao Coliseu - satânico de horror -
Para embeber sedento a cólera da hiena
No sangue dos plebeus a espadanar na arena.
Franqueava às multidões os pórticos reais
Desfeitas ao clarão das régias bacanais,
E dentre o tumultuar ciclópico do vício
O César engendrara um fogo de artifício.
Essa alma surda à voz do plectro coração
Queria mergulhar em chamas a paixão!
"Ao fogo!"
e em derredor, extático, surpreso,
O mundo via arder uma cidade em peso;
Enquanto descansava o rei nas alvas cãs
Nos braços ébrios, nus, das ébrias barregãs,
Co'a horizontal placidez medonha de um Cerbero !
Festins de Trimalcião e diversões de Nero.
Mas hoje o imperador tem outras ambições
Não desce a digladiar com tigres e leões
Nem arroja o seu nome ao nada, ao vilipêndio
Com Roma ao crepitar o fantástico incêndio...
P'ra dar o nome ao sec'lo, ao povo, a u'a nação
Atira-se a uma praça e sagra-se histrião!


IV

É outro Coliseu: mais vasto, mais fecundo
Tem Roma por cenário e por platéia o mundo.
É mais variada a festa. A um tempo o imperador
É sábio, poliglota, artista e professor,
Acróbata, truão, frascário, rei e mestre,
D. Juan, Robert, Falstaff e Benoiton eqüestre.
Oh! deve ser imenso, esplêndido o festim
Onde vai exibir-se o célebre arlequim,
Colher, longe da pátria, além, n'outro horizonte.
Mais um florão gentil que orne a heróica fronte.
A Roma meretriz essa imortal galé
Que um deus acorrentara a um poste Santa - Sé,
Heróico vencedor, colérico, iracundo,
Temendo em saturnais lhe submergisse o mundo
Dir-se-ia que olvidou a prece do cristão
Para entregar-se nua ao novo Trimalcião
Que ouviu novo estertor de servos gladiadores
Na liça triunfal de vis batalhadores
E ergueu-se dos lençóis do papa Mastaí
Bradando à Religião:
"Ao Circo ! eu não morri!"
E santo e majestoso e nobre e gigantesco!



Ó vós, que amais ouvir do herói funambulesco
Na cômica ascenção da mímica sem par,
As doidas expansões da gargalhada alvar;
Ó vos, que desfolhais a rosa do deboche;
Ó vós, que odiais o tédio e as tentações do "spleen",
não recuseis um "bravo!" ao deus do trampolim.
Calai-vos fariseus ! A Roma dos Tibérios
Não digam que sepulta a ossada dos impérios,
Porque não mais atira ao pó do Coliseu
A crença de um cristão e os ossos de um ateu
Para servir de estrume ao ventre de uma fera;
A velha cotesã deixou de ser o que era
Mas inda preza o riso e a farsa jovial
Ao franco tilintar dos guizos do jogral.
- Se olvidas as bacanais dos Césares devassos,
Aplaude as contorções dos Césares palhaços!

Texto enviado por Fernando Dias Campos Neto, sobrinho-bisneto do poeta, por e-mail, em 01 abr. 2002
1 374
Carlos Frydman

Carlos Frydman

Asfalto

Quando andares cabisbaixo
com a carga de um dia... de dois dias...
de não sei quantos dias...
ou com a carga de uma vida,
vê o asfalto como fala
e compartilha...

Fala claro seu negrume
calado, mas premente,
de ecléticos vestígios
passados e presentes,
civilizados e degradantes,
rolando ao vento,
deleitando os fatalistas,
os retardatários e fatigados,
os impelidos, os submissos e os contrafeitos
pelo impacto compacto;
enquanto,
ao mesmo compasso
descompassado do tempo,
nas mesmas ruas
com itinerários diferentes,
marcham seres em seus caminhos,
amando, acreditando,
na escolha emaranhada
de seus destinos,
embora para todos
o asfalto é negro,
submisso e prestadio.
Quando tiveres sede de paisagens
e te faltar a gênese do horizonte,
especialmente num dia chuvoso,
vê como o asfalto apanha e enriquece
os sensacionalistas clarões dos fosforescentes,
e faz numa só sequência
um guache trêmulo, refletido,
deixando as lágrimas da chuva
arrastarem a lama;
e a vida prevalece
em seu elaborado destino.

Solidão... vazio...
quanta esperança... quanto estio
em teu negrume
— asfalto amigo,
que Mário soube tragar
da "Paulicéia Desvairada"
e onde muito me apaixonei.

(...)

Minha Paulicéia novaiorquina, moscovita,
plagiadora londrina,
colmeia universal,
expressão nítida do advento,
rosário de alegria e de luto,
que me fizeste amante
e companheiro consequente.

Asfalto,
amo tua noite onde rondam
desolações e aconchegos
em teu negro seio.

Incansavelmente te perpassam
mágoas na agitação afogadas,
multidões nostálgicas,
alegrias ilusórias em correntezas diluídas,
homens cavalgando semelhantes
e calafetados contra a verdade;
e homens destemidos no prisma da esperança,
mesmo quando a bruma
parece fechar o caminho em cada esquina.

(...)

Imagem - 00700004


In: FRYDMAN, Carlos. Os caminhos da memória. Apres. Carlos Burlamáqui Kopke. Il. João Suzuki. São Paulo: Fulgor, 1965
1 070
Machado de Assis

Machado de Assis

8 de Outubro de 1893

Segunda-feira desta semana, o livreiro Garnier saiu pela primeira vez de casa para ir a outra parte que não a livraria. Revertere ad locum tuum – está escrito no alto da porta do cemitério de S. João Batista. Não, murmurou ele talvez dentro do caixão mortuário, quando percebeu para onde o iam conduzindo, não é este o meu lugar; o meu lugar é ri a Rua do Ouvidor 71, ao pé de uma carteira de trabalho, ao fundo, à esquerda; é ali que estão os meus livros, a minha correspondência, as minhas notas, toda a minha escrituração.

Durante meio século, Garnier não fez outra coisa senão estar ali, naquele mesmo lugar, trabalhando. Já enfermo desde alguns anos, com a morte no peito, descia todos os dias de Santa Teresa para a loja, de onde regressava antes de cair a noite. Uma tarde, ao encontrá-lo na rua, quando se recolhia, andando vagaroso, com os seus pés direitos, metido em um sobretudo, perguntei-lhe por que não descansava algum tempo. Respondeu-me com outra pergunta: Pourriez-vous résister, si vous étiez forcé de ne plus faire ce que vous auridez fait pendant cinquante ans? Na véspera da morte, se estou bem informado, achando-se de pé, ainda planejou descer na manhã seguinte, para dar uma vista de olhos à livraria.

Essa livraria é uma das últimas casas da Rua do Ouvidor; falo de uma rua anterior e acabada. Não cito os nomes das que se foram, porque não as conhecereis, vós que sois mais rapazes que eu, e abristes os olhos em uma rua animada e populosa, onde se vendem, ao par de belas jóias, excelentes queijos. Uma das últimas figuras desaparecidas foi o Bernardo, o perpétuo Bernardo, cujo nome achei ligado aos charutos do Duque de Caxias, que tinha fama de os fumar únicos, ou quase únicos. Há casas como a Laenimert e o Jornal do Comércio, que ficaram e prosperaram, embora os fundadores se fossem; a maior parte, porém, desfizeram-se com os donos.

Garnier é das figuras derradeiras. Não aparecia muito; durante os 30 anos das nossas relações, conheci-o sempre no mesmo lugar, ao fundo da livraria, que a princípio era em outra casa, n. 69, abaixo da Rua Nova. Não pude conhecê-lo na da Quitanda, onde se estabeleceu primeiro. A carteira é que pode ser a mesma, como o banco alto onde ele repousava, às vezes, de estar em pé. Aí vivia sempre, pena na mão, diante de um grande livro, notas soltas, cartas que assinava ou lia. Com o gesto obsequioso, a fala lenta, os olhos mansos, atendia a toda gente. Gostava de conversar o seu pouco. Neste caso, quando a pessoa amiga chegava, se não era dia de mala, ou se o trabalho ia adiantado e não era urgente, tirava logo os óculos, deixando ver no centro do nariz uma depressão do longo uso deles. Depois vinham duas cadeiras. Pouco sabia da política da terra, acompanhava a de França, mas só o ouvi falar com interesse por ocasião da guerra de 1870. O francês sentiu-se francês. Não sei se tinha partido: presumo que haveria trazido da pátria, quando aqui aportou, as simpatias da classe média para com a monarquia orleanista. Não gostava do império napoleônico. Aceitou a república, e era grande admirador de Gambetta.

Daquelas conversações tranqüilas, algumas longas, estão mortos quase todos os interlocutores, Liais, Fernandes Pinheiro, Macedo, Joaquim Norberto, José de Alencar, para só indicar estes. De resto, a livraria era um ponto de conversação e de encontro. Pouco me dei com Macedo, o mais popular dos nossos autores, pela Moreninha e pelo Fantasma branco, romance e comédia que fizeram as delícias de uma geração inteira. Com José de Alencar foi diferente; ali travamos as nossas relações literárias. Sentados os dois, em frente à rua, quantas vezes tratamos daqueles negócios de arte e poesia, de estilo e imaginação, que valem todas as canseiras deste mundo. Muitos outros iam ao mesmo ponto de palestra. Não os cito, porque teria de nomear um cemitério, e os cemitérios são tristes, não em si mesmos, ao contrário. Quando outro dia fui a enterrar o nosso velho livreiro, vi entrar no de S. João Batista, já acabada a cerimônia e o trabalho, um bando de crianças que iam divertir-se. Iam alegres, como quem não pisa memórias nem saudades. As figuras sepulcrais eram, para elas, lindas bonecas de pedra; todos esses mármores faziam um mundo único, sem embargo das suas flores mofinas, ou por elas mesmas, tal é a visão dos primeiros anos. Não citemos nomes.

Nem mortos, nem vivos. Vivos há-os ainda, e dos bons, que alguma coisa se lembrarão daquela casa e do homem que a fez e perfez. Editar obras jurídicas ou escolares não é mui difícil; a necessidade é grande, a procura certa. Gamier, que fez custosas edições dessas, foi também editor de obras literárias, o primeiro e o maior de todos. Os seus catálogos estão cheios dos nomes principais, entre os nossos homens de letras. Macedo e Alencar, que eram os mais fecundos, sem igualdade de mérito, Bernardo Guimarães, que também produziu muito nos seus últimos anos, figuram ao pé de outros, que entraram já consagrados, ou acharam naquela casa a porta da publicidade e o caminho da reputação.

Não é mister lembrar o que era essa livraria tão copiosa e tão variada, em que havia tudo, desde a teologia até à novela, o livro clássico, a composição recente, a ciência e a imaginação, a moral e a técnica. já a achei feita; mas vi-a crescer ainda mais, por longos anos. Quem a vê agora, fechadas as portas, trancados os mostradores, a espera da justiça, do inventário e dos herdeiros, há de sentir que falta alguma coisa à rua. Com efeito, falta uma grande parte dela, e bem pode ser que não volte, se a casa não conservar a mesma tradição e o mesmo espírito.

Pessoalmente, que proveito deram a esse homem as suas labutações? 0 gosto do trabalho, um gosto que se transformou em pena, porque no dia em que devera libertar-se dele, não pôde mais: o instrumento da riqueza era também o do castigo. Esta é uma das misericórdias da Divina Natureza. Não importa: laboremus. Valha sequer a memória, ainda que perdida nas páginas dos dicionários biográficos. Perdure a notícia, ao menos, de alguém que neste país novo ocupou a vida inteira em criar uma indústria liberal, ganhar alguns milhares de contos de réis, para ir afinal dormir em sete palmos de uma sepultura perpétua. Perpétua!


ASSIS, Machado de. A semana: crônicas, 1892-1893. Organização, introdução e notas de John Gledson. São Paulo: Hucitec, 1996. P. 310-312. (Literatura brasileira, 2).
NOTAS: Baptiste Louis Garnier (1823-1893), que chegou ao Brasil em 1844, e foi o mais importante editor brasileiro do século XIX. Foi o editor do próprio Machado. A Casa Sousa Laemmert foi fundada po Eduard Laemmert (1806-1880) e outros em 1827. Foi vendida e reorganizada como o nome de Laemmert e Cia. Em 1891. O Jornal do Comercio fora fundado por Pierre Plancher em 1827, e vendi mais de uma vez. Léon Gambetta (1838-1882), político republicano francês, dos mais importantes no período da fundação da Terceira República. Emmanuel Liais (1826-1900), astrônomo e geógrafo francês, que passou muitos anos no Brasil, onde chegou em 1858, publicando várias obras de natureza científica sobre o país; Cônego Joaquim Fernandes Pinheiro (1826-1876), escritor, autor de várias obras de história do Brasil, como a História do Brasil contada aos meninos (1870); e Joaquim Norberto de Sousa Silva (1820-1891) historiador e autor da História da conjuração mineira (1873). Fantasma branco, peça de 1856, o bastante popular para ser representada no Rio em julho de 1893
2 657
Joaquim Cardozo

Joaquim Cardozo

As Janelas, as Escadas, as Pontes e as Estradas

II
(As estradas e as pontes)

As estradas não param. Para longe, que vão,
Vão, sem se mover/cansar. Permanentemente vão;
Quem quiser vai com elas, usa tudo o que é delas
Porque são boas, tão boas, tão amigas
Que ajudam a quem quiser correr,
A quem quiser simplesmente andar,
Ou, tropegamente, caminhar apenas...
Vão para o fim do olhar, em todas as direções desse fim;
— Rugosas, em rodeiras de lama, filmando um movimento
— Lisas, escorrendo ao seu leito, líquido-pastoso
Contêm as rodas, os pés acertam, amparam, as muletas.
Dirigem
A velocidade-serpente, de anéis sucessivos,
Sempre desiguais, serpente de que amortecem o veneno...

As estradas saltam sobre os rios e os vales profundos
Em seus saltos de pontes, com distensões de músculos
Estáticos; imobilizam a vertigem dos abismos.

Pontes que são saltos de vara
Sobre os profundos paralisados;
E o rumor que por elas vai

Não consegue despertá-las do equilíbrio:
Seu sono-silêncio, seu sono-limite.

Os rios, embaixo caminham: estradas moventes
Com agitações de animal, às vezes mansas
às vezes selvagens
Caminham, escadas rolantes sempre descendo;
Colubreiam, coleiam...

As pontes são partes da estrada, são apertos de mãos
Que transportam de um lado para outro lado
— São São Cristóvão de cimento e ferro.

Mãos de duros nervos, de veias metálicas
Onde corre um sangue de quase eterna
Origem; são pulsos que vibram
No mesmo ritmo das estradas
No mesmo ritmo dos que passam
— Talvez, como eu, nunca para mais passar...

As estradas são cordas de um instrumento
Vibrando à passagem dos motores,
Deixando no ar nova música
Onde há ritmos de horizontes
margeantes
Entre os sons das árvores marginantes.

Os rios às vezes se revoltam
Reúnem todas as suas águas
E investem sobre as pontes-algemas
Contra as estradas — muralhas de cárcere —
E se espalham felizes na planície
Em inundações gloriosas.

Imagem - 00100003


In: CARDOZO, Joaquim. Poesias completas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979. p.181-182. Poema integrante da série Mundos Paralelos.

NOTA: Poema composto de 2 parte
1 469
Raul Pompéia

Raul Pompéia

Viação Urbana

Sem sair do assunto de viação urbana.

Os carros do Rio de Janeiro fazem a sua vida e a sua sociedade a par da população humana, infelizmente algumas vezes por cima dela; uma vida interessante cheia de episódios, de animação, de variedade.

Os veículos têm o seu caráter e vive cada um a seu modo; uns são aristocráticos, outros são plebeus; uns são ativos, outros são lerdos; há ricos e pobres, modestos e arrogantes, honrados e perversos. Têm suas paixões: o caminhão odeia o bond, o bond odeia a vitória. Brigam freqüentemente, sempre tal qual a sociedade dos homens, o mais forte, mesmo o mais injusto, tomando-lhe o lugar, ou esmagando o mais fraco. Através dessas intrigas rodantes, passa a honrada carroça, séria, com a sua carga de granito talhado a balançar de cadeias de ferro, rude e válida como o trabalho. Ninguém lhe toque, ela vai séria e grave o seu caminho: O bond bate-lhe tanto pior: perde a plataforma. O landau brazonado roça-lhe insolente, com o pára-lama mete-lhe a lanterna à cara: perde o pára-lama, perde a lanterna.

Fora da intriga geral, passa também o carrinho do pão, madrugador e ativo, como que a gritar com o estrépito das rodas que a atividade é que dá o pão; passa o tílburi leviano e célere, salvando-se da sua fraqueza pela celeridade, como os veados esquivando-se, fugindo, passando sempre adiante; esperto como um bom arranjador da vida, furtando aqui e ali um pouco de trilho ao bond, como a mostrar que a esperteza e a consciência não são geralmente predicadas complementares. Mas o que mais interessa da vida dos veículos é a hipótese referida em que eles, que fazem a vida ao lado da vida da população humana, dão muita vez para fazê-la por cima. ..

Mais interessante porque mais gravemente nos afeta, e porque é um ponto de discussão.

É a questão da responsabilidade dos cocheiros.

Ainda esta semana, no Campo da Aclamação, deu-se um horrível desastre. A vítima foi uma mulher. Contundida por um carro da Companhia de São Cristóvão, teve o coração varado por um fragmento das costelas, que se lhe quebraram com a pancada do veículo, e sucumbiu imediatamente. A crônica dos desastres de rua nesta cidade exagera-se, salvas as proporções, sobre qualquer estatística congênere dos centros mais populosos, registrando todos os dias tristes incidentes resultados da imprudência dos cocheiros.

Reclamam-se providências, inventam-se e adotam-se salva-vidas, mas a epidemia dos sinistros de rua não cessa.

Indagando-se as causas de semelhante mal, considerando que já se tem atendido a alguma coisa a esse respeito e o mal não decresce, pode-se com quase certeza o descobrir-lhe a principal origem na impunidade dos cocheiros.

Glosando o tema da imprudência dos transeuntes, a imprensa tem concorrido para esse regime de injustiça que a favorece aos culpados dos sinistros de rua, com revoltante violação do princípio da segurança pública.

O transeunte, dizem, tem obrigação de ver por onde passa, de ser atento e prudente. Porventura entenderá quem assim diz, que os conselheiros gratuitos têm mais interesse em que um desastre não se dê do que quem pode ser vítima dele? E a atenção porventura é coisa que imponha como um dever? E não é patente que aquele que segue, preocupado com os seus graves negócios, absorvido por qualquer preocupação de sentimento ou de interesse, tem direito a que a sociedade vele por ele, proteja-lhe os imprudentes descuidos da sua preocupação.

Porventura poupa ele despesas de segurança, pagas pelos impostos que o estado a seu favor aplica e aproveita?

Ao condutor de um veículo, entretanto, que é remunerado para estar atento, que faz profissão da sua habilidade em guiar, livre de solavancos e desvios, o seu carro, inocenta-se, a pretexto de que o público deve ter cuidado em não se meter embaixo das rodas.

A respeito disto de prudência do transeunte, é de notar que as vítimas dos desastres de rua produzido pelos veículos são em maior número mulheres e crianças, exatamente criaturas às quais chega a assistir o direito da imprudência.

A opinião seria outra, se para a crítica desta espécie de crimes desculpados, cuja arma é o peso de uma carruagem, se recordasse um costume, apenas, dos cocheiros, o que eles têm de "espantar" para abrir caminho ao seu carro, de espantar precipitando a carreira dos seus animais sobre o transeunte que lhe passa um tanto demorado por diante das parelhas.

Assustado efetivamente o pobre, muitas vezes uma velha, um mendigo, um miserável semi-ébrio, ameaçado literalmente de morte, escapa-se o mais depressa que pode e o desastre às vezes se evita. Não seria, contudo, muito mais natural que os cocheiros procedessem por outra manobra, refreando a carreira do seu carro, estacando o belo galope de seus cavalos, e esperando, com a paciência de quem faz por salvar a vida de um homem, que se lhe tenha desfeito em caminho toda a probabilidade do mais horrível homicídio?

Publicada no Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 15 jun. 1890. Título atribuído pelo Itaú Cultural.
POMPÉIA, Raul. Crônicas 2. Organização de Afrânio Coutinho. Assistência de Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1983. v. 6. p. 365-366
1 724
Raul Pompéia

Raul Pompéia

Viação Urbana

Sem sair do assunto de viação urbana.

Os carros do Rio de Janeiro fazem a sua vida e a sua sociedade a par da população humana, infelizmente algumas vezes por cima dela; uma vida interessante cheia de episódios, de animação, de variedade.

Os veículos têm o seu caráter e vive cada um a seu modo; uns são aristocráticos, outros são plebeus; uns são ativos, outros são lerdos; há ricos e pobres, modestos e arrogantes, honrados e perversos. Têm suas paixões: o caminhão odeia o bond, o bond odeia a vitória. Brigam freqüentemente, sempre tal qual a sociedade dos homens, o mais forte, mesmo o mais injusto, tomando-lhe o lugar, ou esmagando o mais fraco. Através dessas intrigas rodantes, passa a honrada carroça, séria, com a sua carga de granito talhado a balançar de cadeias de ferro, rude e válida como o trabalho. Ninguém lhe toque, ela vai séria e grave o seu caminho: O bond bate-lhe tanto pior: perde a plataforma. O landau brazonado roça-lhe insolente, com o pára-lama mete-lhe a lanterna à cara: perde o pára-lama, perde a lanterna.

Fora da intriga geral, passa também o carrinho do pão, madrugador e ativo, como que a gritar com o estrépito das rodas que a atividade é que dá o pão; passa o tílburi leviano e célere, salvando-se da sua fraqueza pela celeridade, como os veados esquivando-se, fugindo, passando sempre adiante; esperto como um bom arranjador da vida, furtando aqui e ali um pouco de trilho ao bond, como a mostrar que a esperteza e a consciência não são geralmente predicadas complementares. Mas o que mais interessa da vida dos veículos é a hipótese referida em que eles, que fazem a vida ao lado da vida da população humana, dão muita vez para fazê-la por cima. ..

Mais interessante porque mais gravemente nos afeta, e porque é um ponto de discussão.

É a questão da responsabilidade dos cocheiros.

Ainda esta semana, no Campo da Aclamação, deu-se um horrível desastre. A vítima foi uma mulher. Contundida por um carro da Companhia de São Cristóvão, teve o coração varado por um fragmento das costelas, que se lhe quebraram com a pancada do veículo, e sucumbiu imediatamente. A crônica dos desastres de rua nesta cidade exagera-se, salvas as proporções, sobre qualquer estatística congênere dos centros mais populosos, registrando todos os dias tristes incidentes resultados da imprudência dos cocheiros.

Reclamam-se providências, inventam-se e adotam-se salva-vidas, mas a epidemia dos sinistros de rua não cessa.

Indagando-se as causas de semelhante mal, considerando que já se tem atendido a alguma coisa a esse respeito e o mal não decresce, pode-se com quase certeza o descobrir-lhe a principal origem na impunidade dos cocheiros.

Glosando o tema da imprudência dos transeuntes, a imprensa tem concorrido para esse regime de injustiça que a favorece aos culpados dos sinistros de rua, com revoltante violação do princípio da segurança pública.

O transeunte, dizem, tem obrigação de ver por onde passa, de ser atento e prudente. Porventura entenderá quem assim diz, que os conselheiros gratuitos têm mais interesse em que um desastre não se dê do que quem pode ser vítima dele? E a atenção porventura é coisa que imponha como um dever? E não é patente que aquele que segue, preocupado com os seus graves negócios, absorvido por qualquer preocupação de sentimento ou de interesse, tem direito a que a sociedade vele por ele, proteja-lhe os imprudentes descuidos da sua preocupação.

Porventura poupa ele despesas de segurança, pagas pelos impostos que o estado a seu favor aplica e aproveita?

Ao condutor de um veículo, entretanto, que é remunerado para estar atento, que faz profissão da sua habilidade em guiar, livre de solavancos e desvios, o seu carro, inocenta-se, a pretexto de que o público deve ter cuidado em não se meter embaixo das rodas.

A respeito disto de prudência do transeunte, é de notar que as vítimas dos desastres de rua produzido pelos veículos são em maior número mulheres e crianças, exatamente criaturas às quais chega a assistir o direito da imprudência.

A opinião seria outra, se para a crítica desta espécie de crimes desculpados, cuja arma é o peso de uma carruagem, se recordasse um costume, apenas, dos cocheiros, o que eles têm de "espantar" para abrir caminho ao seu carro, de espantar precipitando a carreira dos seus animais sobre o transeunte que lhe passa um tanto demorado por diante das parelhas.

Assustado efetivamente o pobre, muitas vezes uma velha, um mendigo, um miserável semi-ébrio, ameaçado literalmente de morte, escapa-se o mais depressa que pode e o desastre às vezes se evita. Não seria, contudo, muito mais natural que os cocheiros procedessem por outra manobra, refreando a carreira do seu carro, estacando o belo galope de seus cavalos, e esperando, com a paciência de quem faz por salvar a vida de um homem, que se lhe tenha desfeito em caminho toda a probabilidade do mais horrível homicídio?

Publicada no Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 15 jun. 1890. Título atribuído pelo Itaú Cultural.
POMPÉIA, Raul. Crônicas 2. Organização de Afrânio Coutinho. Assistência de Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1983. v. 6. p. 365-366
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Raul Pompéia

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Viação Urbana

Sem sair do assunto de viação urbana.

Os carros do Rio de Janeiro fazem a sua vida e a sua sociedade a par da população humana, infelizmente algumas vezes por cima dela; uma vida interessante cheia de episódios, de animação, de variedade.

Os veículos têm o seu caráter e vive cada um a seu modo; uns são aristocráticos, outros são plebeus; uns são ativos, outros são lerdos; há ricos e pobres, modestos e arrogantes, honrados e perversos. Têm suas paixões: o caminhão odeia o bond, o bond odeia a vitória. Brigam freqüentemente, sempre tal qual a sociedade dos homens, o mais forte, mesmo o mais injusto, tomando-lhe o lugar, ou esmagando o mais fraco. Através dessas intrigas rodantes, passa a honrada carroça, séria, com a sua carga de granito talhado a balançar de cadeias de ferro, rude e válida como o trabalho. Ninguém lhe toque, ela vai séria e grave o seu caminho: O bond bate-lhe tanto pior: perde a plataforma. O landau brazonado roça-lhe insolente, com o pára-lama mete-lhe a lanterna à cara: perde o pára-lama, perde a lanterna.

Fora da intriga geral, passa também o carrinho do pão, madrugador e ativo, como que a gritar com o estrépito das rodas que a atividade é que dá o pão; passa o tílburi leviano e célere, salvando-se da sua fraqueza pela celeridade, como os veados esquivando-se, fugindo, passando sempre adiante; esperto como um bom arranjador da vida, furtando aqui e ali um pouco de trilho ao bond, como a mostrar que a esperteza e a consciência não são geralmente predicadas complementares. Mas o que mais interessa da vida dos veículos é a hipótese referida em que eles, que fazem a vida ao lado da vida da população humana, dão muita vez para fazê-la por cima. ..

Mais interessante porque mais gravemente nos afeta, e porque é um ponto de discussão.

É a questão da responsabilidade dos cocheiros.

Ainda esta semana, no Campo da Aclamação, deu-se um horrível desastre. A vítima foi uma mulher. Contundida por um carro da Companhia de São Cristóvão, teve o coração varado por um fragmento das costelas, que se lhe quebraram com a pancada do veículo, e sucumbiu imediatamente. A crônica dos desastres de rua nesta cidade exagera-se, salvas as proporções, sobre qualquer estatística congênere dos centros mais populosos, registrando todos os dias tristes incidentes resultados da imprudência dos cocheiros.

Reclamam-se providências, inventam-se e adotam-se salva-vidas, mas a epidemia dos sinistros de rua não cessa.

Indagando-se as causas de semelhante mal, considerando que já se tem atendido a alguma coisa a esse respeito e o mal não decresce, pode-se com quase certeza o descobrir-lhe a principal origem na impunidade dos cocheiros.

Glosando o tema da imprudência dos transeuntes, a imprensa tem concorrido para esse regime de injustiça que a favorece aos culpados dos sinistros de rua, com revoltante violação do princípio da segurança pública.

O transeunte, dizem, tem obrigação de ver por onde passa, de ser atento e prudente. Porventura entenderá quem assim diz, que os conselheiros gratuitos têm mais interesse em que um desastre não se dê do que quem pode ser vítima dele? E a atenção porventura é coisa que imponha como um dever? E não é patente que aquele que segue, preocupado com os seus graves negócios, absorvido por qualquer preocupação de sentimento ou de interesse, tem direito a que a sociedade vele por ele, proteja-lhe os imprudentes descuidos da sua preocupação.

Porventura poupa ele despesas de segurança, pagas pelos impostos que o estado a seu favor aplica e aproveita?

Ao condutor de um veículo, entretanto, que é remunerado para estar atento, que faz profissão da sua habilidade em guiar, livre de solavancos e desvios, o seu carro, inocenta-se, a pretexto de que o público deve ter cuidado em não se meter embaixo das rodas.

A respeito disto de prudência do transeunte, é de notar que as vítimas dos desastres de rua produzido pelos veículos são em maior número mulheres e crianças, exatamente criaturas às quais chega a assistir o direito da imprudência.

A opinião seria outra, se para a crítica desta espécie de crimes desculpados, cuja arma é o peso de uma carruagem, se recordasse um costume, apenas, dos cocheiros, o que eles têm de "espantar" para abrir caminho ao seu carro, de espantar precipitando a carreira dos seus animais sobre o transeunte que lhe passa um tanto demorado por diante das parelhas.

Assustado efetivamente o pobre, muitas vezes uma velha, um mendigo, um miserável semi-ébrio, ameaçado literalmente de morte, escapa-se o mais depressa que pode e o desastre às vezes se evita. Não seria, contudo, muito mais natural que os cocheiros procedessem por outra manobra, refreando a carreira do seu carro, estacando o belo galope de seus cavalos, e esperando, com a paciência de quem faz por salvar a vida de um homem, que se lhe tenha desfeito em caminho toda a probabilidade do mais horrível homicídio?

Publicada no Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 15 jun. 1890. Título atribuído pelo Itaú Cultural.
POMPÉIA, Raul. Crônicas 2. Organização de Afrânio Coutinho. Assistência de Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1983. v. 6. p. 365-366
1 724
Paulo Setúbal

Paulo Setúbal

A Veluda

(...)
As minas de Cuiabá morriam. O ouro fácil, que os lavageiros catavam à flor da terra, desaparecera. Só à custa de escavações profundas, com penosos tratos de água, conseguiam agora os mineiros arrancar do seio pedrento da terra o metal cobiçado. As catas dos ribeirões, os veios e os tabuleiros, isto é, as que ficavam nos veios da correnteza ou nos tabuleiros das margens, essas secaram de vez. O ouro, quando havia, era apenas nas grupiaras, que se encravavam nas encostas ásperas dos morros. Mas as grandes perfurações para topá-lo, a canalização da água até essas longes e íngremes encostas, eram obras tão difíceis e tão rudes, que as despesas com a lavagem não mais compensava a colheita dos grãos. Além de tais despesas, que eram tremendo sorvedouro, havia ainda o fisco. Ah, o fisco! Polvo fantástico, insaciável, Portugal constringia os mineiros, desalmadamente, com mil tentáculos de ferro, numa rede feroz de tributos insuportáveis. "Por mais engravecer os males de Cuyabá, D. Rodrigo Cezar, a pretexto de bem servir o seu Rei, armou um aparelho fiscal de ventosas, de tal maneira sugadoras, que, antes de findar o anno, a villa começou a definhar-se, derreada por tantos soffrimentos".

Principiou a decadência das minas. Um rancho, no Cuiabá, que, a princípio, custava a soma respeitável de 500 oitavas, passou a valer a bagatela de 50. Uma roça de mantimentos que se pagava 4.000 oitavas, passou a ser vendida por 100. A ruína das minas foi completa. Tornou-se preciso abandonar Cuiabá. Urgia buscar paragens mais rendosas.

Os irmãos Paes de Barros, Artur e Fernando, dois intrépidos sorocabanos, encabeçaram o movimento. Meteram-se eles, à frente de audaciosa entrada, pelo sertão adentro.

Lá foram.

De novo, na terra inóspita, o mesmo rol de sacrifícios pasmantes. As mesmas canseiras, o mesmo áspero romper matos, as mesmas fomes, as mesmas lutas com bugres, as mesmas febres malignas, a mesma tragédia cruciante do sertão. Nessa arrancada, como consigna a crônica, "toparam elles logo que baixaram a planície, com mattas virgens, de arvoredo muito elevado e corpulento, que, entrando a penetral-o, o foram apelidando de matto-grosso; e este nome de 'Matto-Grosso' é o nome que ainda hoje conserva todo aquelle districto".

Os paulistas, "venceram léguas e léguas daquella espessura", deram nas margens do Guaporé. Descobriram ouro aí. As minas de Vila-Bela principiaram, com abundância e estrondo, a jorrar o metal sonhado. "Partiu no mesmo anno monção desta villa para São Paulo com oito canoas, 140 pessoas e 80 arrobas de ouro, já vindo todo das minas de Matto-Grosso".

Novamente; ferretoados por cobiças insaciáveis, levas e levas de aventureiros, num rush febrento, rumaram a caminho das lavras novas. "No mesmo mez, despejou o povo da villa de Cuyabá para Matto-Grosso, em setenta e tantas canoas, rio abaixo, em que, foram melhor de mil e quinhentas pessoas". Com esse tremendo êxodo, em que, assim, numa só monção, seguiu para as longínquas e tentadoras minas tão densa caudal de mineiros, "se despovoou o Cuyabá, ficando sitios, cazas, lavras, tudo deserto. Restaram na villa apenas sete brancos, entre seculares e clerigos, e alguns carijós; de gente preta, só algum pagem que servia a seu senhor".

Mato Grosso! Vila Bela! Eis, por volta de 1734, o esbraseante eldorado que tentava todas as ambições. Paulistas para lá afluíram às chusmas. E baianos. E reinóis. E castelhanos. E gentes de toda a parte. Ia tudo, numa alucinação, atrás do ouro dos Paes de Barros.
(...)


Publicada no livro O Ouro de Cuiabá (1933). Segundo o autor, trata-se de "história verdadeira, ouvida na infância, ouvida repetidas vezes, com nomes e detalhes que lhe davam realce e autenticidade."

SETÚBAL, Paulo. O ouro de Cuiabá: crônicas. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 1956. p. 183-186. (Obras de Paulo Setúbal, 8)
1 275
Paulo Setúbal

Paulo Setúbal

A Veluda

(...)
As minas de Cuiabá morriam. O ouro fácil, que os lavageiros catavam à flor da terra, desaparecera. Só à custa de escavações profundas, com penosos tratos de água, conseguiam agora os mineiros arrancar do seio pedrento da terra o metal cobiçado. As catas dos ribeirões, os veios e os tabuleiros, isto é, as que ficavam nos veios da correnteza ou nos tabuleiros das margens, essas secaram de vez. O ouro, quando havia, era apenas nas grupiaras, que se encravavam nas encostas ásperas dos morros. Mas as grandes perfurações para topá-lo, a canalização da água até essas longes e íngremes encostas, eram obras tão difíceis e tão rudes, que as despesas com a lavagem não mais compensava a colheita dos grãos. Além de tais despesas, que eram tremendo sorvedouro, havia ainda o fisco. Ah, o fisco! Polvo fantástico, insaciável, Portugal constringia os mineiros, desalmadamente, com mil tentáculos de ferro, numa rede feroz de tributos insuportáveis. "Por mais engravecer os males de Cuyabá, D. Rodrigo Cezar, a pretexto de bem servir o seu Rei, armou um aparelho fiscal de ventosas, de tal maneira sugadoras, que, antes de findar o anno, a villa começou a definhar-se, derreada por tantos soffrimentos".

Principiou a decadência das minas. Um rancho, no Cuiabá, que, a princípio, custava a soma respeitável de 500 oitavas, passou a valer a bagatela de 50. Uma roça de mantimentos que se pagava 4.000 oitavas, passou a ser vendida por 100. A ruína das minas foi completa. Tornou-se preciso abandonar Cuiabá. Urgia buscar paragens mais rendosas.

Os irmãos Paes de Barros, Artur e Fernando, dois intrépidos sorocabanos, encabeçaram o movimento. Meteram-se eles, à frente de audaciosa entrada, pelo sertão adentro.

Lá foram.

De novo, na terra inóspita, o mesmo rol de sacrifícios pasmantes. As mesmas canseiras, o mesmo áspero romper matos, as mesmas fomes, as mesmas lutas com bugres, as mesmas febres malignas, a mesma tragédia cruciante do sertão. Nessa arrancada, como consigna a crônica, "toparam elles logo que baixaram a planície, com mattas virgens, de arvoredo muito elevado e corpulento, que, entrando a penetral-o, o foram apelidando de matto-grosso; e este nome de 'Matto-Grosso' é o nome que ainda hoje conserva todo aquelle districto".

Os paulistas, "venceram léguas e léguas daquella espessura", deram nas margens do Guaporé. Descobriram ouro aí. As minas de Vila-Bela principiaram, com abundância e estrondo, a jorrar o metal sonhado. "Partiu no mesmo anno monção desta villa para São Paulo com oito canoas, 140 pessoas e 80 arrobas de ouro, já vindo todo das minas de Matto-Grosso".

Novamente; ferretoados por cobiças insaciáveis, levas e levas de aventureiros, num rush febrento, rumaram a caminho das lavras novas. "No mesmo mez, despejou o povo da villa de Cuyabá para Matto-Grosso, em setenta e tantas canoas, rio abaixo, em que, foram melhor de mil e quinhentas pessoas". Com esse tremendo êxodo, em que, assim, numa só monção, seguiu para as longínquas e tentadoras minas tão densa caudal de mineiros, "se despovoou o Cuyabá, ficando sitios, cazas, lavras, tudo deserto. Restaram na villa apenas sete brancos, entre seculares e clerigos, e alguns carijós; de gente preta, só algum pagem que servia a seu senhor".

Mato Grosso! Vila Bela! Eis, por volta de 1734, o esbraseante eldorado que tentava todas as ambições. Paulistas para lá afluíram às chusmas. E baianos. E reinóis. E castelhanos. E gentes de toda a parte. Ia tudo, numa alucinação, atrás do ouro dos Paes de Barros.
(...)


Publicada no livro O Ouro de Cuiabá (1933). Segundo o autor, trata-se de "história verdadeira, ouvida na infância, ouvida repetidas vezes, com nomes e detalhes que lhe davam realce e autenticidade."

SETÚBAL, Paulo. O ouro de Cuiabá: crônicas. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 1956. p. 183-186. (Obras de Paulo Setúbal, 8)
1 275
Paulo Setúbal

Paulo Setúbal

A Veluda

(...)
As minas de Cuiabá morriam. O ouro fácil, que os lavageiros catavam à flor da terra, desaparecera. Só à custa de escavações profundas, com penosos tratos de água, conseguiam agora os mineiros arrancar do seio pedrento da terra o metal cobiçado. As catas dos ribeirões, os veios e os tabuleiros, isto é, as que ficavam nos veios da correnteza ou nos tabuleiros das margens, essas secaram de vez. O ouro, quando havia, era apenas nas grupiaras, que se encravavam nas encostas ásperas dos morros. Mas as grandes perfurações para topá-lo, a canalização da água até essas longes e íngremes encostas, eram obras tão difíceis e tão rudes, que as despesas com a lavagem não mais compensava a colheita dos grãos. Além de tais despesas, que eram tremendo sorvedouro, havia ainda o fisco. Ah, o fisco! Polvo fantástico, insaciável, Portugal constringia os mineiros, desalmadamente, com mil tentáculos de ferro, numa rede feroz de tributos insuportáveis. "Por mais engravecer os males de Cuyabá, D. Rodrigo Cezar, a pretexto de bem servir o seu Rei, armou um aparelho fiscal de ventosas, de tal maneira sugadoras, que, antes de findar o anno, a villa começou a definhar-se, derreada por tantos soffrimentos".

Principiou a decadência das minas. Um rancho, no Cuiabá, que, a princípio, custava a soma respeitável de 500 oitavas, passou a valer a bagatela de 50. Uma roça de mantimentos que se pagava 4.000 oitavas, passou a ser vendida por 100. A ruína das minas foi completa. Tornou-se preciso abandonar Cuiabá. Urgia buscar paragens mais rendosas.

Os irmãos Paes de Barros, Artur e Fernando, dois intrépidos sorocabanos, encabeçaram o movimento. Meteram-se eles, à frente de audaciosa entrada, pelo sertão adentro.

Lá foram.

De novo, na terra inóspita, o mesmo rol de sacrifícios pasmantes. As mesmas canseiras, o mesmo áspero romper matos, as mesmas fomes, as mesmas lutas com bugres, as mesmas febres malignas, a mesma tragédia cruciante do sertão. Nessa arrancada, como consigna a crônica, "toparam elles logo que baixaram a planície, com mattas virgens, de arvoredo muito elevado e corpulento, que, entrando a penetral-o, o foram apelidando de matto-grosso; e este nome de 'Matto-Grosso' é o nome que ainda hoje conserva todo aquelle districto".

Os paulistas, "venceram léguas e léguas daquella espessura", deram nas margens do Guaporé. Descobriram ouro aí. As minas de Vila-Bela principiaram, com abundância e estrondo, a jorrar o metal sonhado. "Partiu no mesmo anno monção desta villa para São Paulo com oito canoas, 140 pessoas e 80 arrobas de ouro, já vindo todo das minas de Matto-Grosso".

Novamente; ferretoados por cobiças insaciáveis, levas e levas de aventureiros, num rush febrento, rumaram a caminho das lavras novas. "No mesmo mez, despejou o povo da villa de Cuyabá para Matto-Grosso, em setenta e tantas canoas, rio abaixo, em que, foram melhor de mil e quinhentas pessoas". Com esse tremendo êxodo, em que, assim, numa só monção, seguiu para as longínquas e tentadoras minas tão densa caudal de mineiros, "se despovoou o Cuyabá, ficando sitios, cazas, lavras, tudo deserto. Restaram na villa apenas sete brancos, entre seculares e clerigos, e alguns carijós; de gente preta, só algum pagem que servia a seu senhor".

Mato Grosso! Vila Bela! Eis, por volta de 1734, o esbraseante eldorado que tentava todas as ambições. Paulistas para lá afluíram às chusmas. E baianos. E reinóis. E castelhanos. E gentes de toda a parte. Ia tudo, numa alucinação, atrás do ouro dos Paes de Barros.
(...)


Publicada no livro O Ouro de Cuiabá (1933). Segundo o autor, trata-se de "história verdadeira, ouvida na infância, ouvida repetidas vezes, com nomes e detalhes que lhe davam realce e autenticidade."

SETÚBAL, Paulo. O ouro de Cuiabá: crônicas. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 1956. p. 183-186. (Obras de Paulo Setúbal, 8)
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Paulo Setúbal

Paulo Setúbal

Quem Lucrava?

Mas quem, na verdade, lucrava com esse vasto ouro? Com esse ouro brasileiro, extorquido com tanta ganância e molhado de tanta lágrima? O Brasil? Não. Portugal? Fato incrível: também não. Portugal não lucrou coisa alguma com aquela caudalosa riqueza. "O inglez sentava-se com o Rei á mesa e aplaudia o desperdício: porque todo o ouro do Brasil passava apenas por Portugal, indo fundear em Inglaterra, em pagamento da farinha e dos generos alimentícios com que elle nos alimentava e vestia. A industria nacional constava de operas e devoções. Por isso nem todo o ouro do Brasil bastou: a divida nacional cresceu (!) e Lisboa, para não morrer de sede, teve de pagar com um imposto especial a construção do seu acqueducto".

"Nem todo o ouro do Brasil bastou! A divida nacional cresceu!" Mal acredita a gente no que lê. Será possível? Talvez, numa crise de mau humor, tomado subitamente de parcialidade, deixasse o notabilíssimo escritor tombar da pena a frase azeda. Mas não. Vêde Coelho da Rocha: "No reinado seguinte ao de D. João V, para occorrer ás necessidades do Estado e atrazo dos pagamentos, abriu o governo um empréstimo de dez milhões de cruzados a juro de cinco por cento". Ao que pondera o Pinheiro Chagas: "Parece incrível que, tendo D. João V nas minas do Brasil um banqueiro tão commodo, fosse durante o seu governo que o Estado contrahisse mais empréstimos". "De forma que o reinado, em que as torrentes de ouro do Brasil verdadeiramente inundaram Portugal, foi aquelle em que o Paiz ficou mais empenhado e em que se deixou mais vasio o thesouro".

Que triste destino teve o ouro do Brasil! Ouro fatídico! Não serviu de nada, absolutamente nada, para a colônia que o produziu com sangue. Mas também não serviu de nada, absolutamente nada, para o país afortunado que o recebeu aos jorros.

Apenas — pálido consolo! — como relíquias evocadoras daquelas grandezas magníficas, "hoje (escreve saudosamente A. Pimentel), quando os coches de D. João V se estadeiam em alguma das grandes solemnidades officiaes, como que se desdobram aos nossos olhos todo o esplendor dessa corte que o ouro e os diamantes do Brasil egualaram ás riquezas phantasticas do Oriente ..."

E é só.

Convenhamos que é muito pouco.


Publicada no livro O Ouro de Cuiabá (1933).

SETÚBAL, Paulo. O ouro de Cuiabá: crônicas. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 1956. p. 110-112. (Obras de Paulo Setúbal, 8)
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Paulo Setúbal

Paulo Setúbal

Quem Lucrava?

Mas quem, na verdade, lucrava com esse vasto ouro? Com esse ouro brasileiro, extorquido com tanta ganância e molhado de tanta lágrima? O Brasil? Não. Portugal? Fato incrível: também não. Portugal não lucrou coisa alguma com aquela caudalosa riqueza. "O inglez sentava-se com o Rei á mesa e aplaudia o desperdício: porque todo o ouro do Brasil passava apenas por Portugal, indo fundear em Inglaterra, em pagamento da farinha e dos generos alimentícios com que elle nos alimentava e vestia. A industria nacional constava de operas e devoções. Por isso nem todo o ouro do Brasil bastou: a divida nacional cresceu (!) e Lisboa, para não morrer de sede, teve de pagar com um imposto especial a construção do seu acqueducto".

"Nem todo o ouro do Brasil bastou! A divida nacional cresceu!" Mal acredita a gente no que lê. Será possível? Talvez, numa crise de mau humor, tomado subitamente de parcialidade, deixasse o notabilíssimo escritor tombar da pena a frase azeda. Mas não. Vêde Coelho da Rocha: "No reinado seguinte ao de D. João V, para occorrer ás necessidades do Estado e atrazo dos pagamentos, abriu o governo um empréstimo de dez milhões de cruzados a juro de cinco por cento". Ao que pondera o Pinheiro Chagas: "Parece incrível que, tendo D. João V nas minas do Brasil um banqueiro tão commodo, fosse durante o seu governo que o Estado contrahisse mais empréstimos". "De forma que o reinado, em que as torrentes de ouro do Brasil verdadeiramente inundaram Portugal, foi aquelle em que o Paiz ficou mais empenhado e em que se deixou mais vasio o thesouro".

Que triste destino teve o ouro do Brasil! Ouro fatídico! Não serviu de nada, absolutamente nada, para a colônia que o produziu com sangue. Mas também não serviu de nada, absolutamente nada, para o país afortunado que o recebeu aos jorros.

Apenas — pálido consolo! — como relíquias evocadoras daquelas grandezas magníficas, "hoje (escreve saudosamente A. Pimentel), quando os coches de D. João V se estadeiam em alguma das grandes solemnidades officiaes, como que se desdobram aos nossos olhos todo o esplendor dessa corte que o ouro e os diamantes do Brasil egualaram ás riquezas phantasticas do Oriente ..."

E é só.

Convenhamos que é muito pouco.


Publicada no livro O Ouro de Cuiabá (1933).

SETÚBAL, Paulo. O ouro de Cuiabá: crônicas. 5. ed. São Paulo: Saraiva, 1956. p. 110-112. (Obras de Paulo Setúbal, 8)
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Olavo Bilac

Olavo Bilac

O Bond

NÃO ME FALTARIAM ASSUNTOS com que atulhar o bojo de uma larga crônica, bem nutrida e bem variada, neste sábado em que escrevo — um sábado alegre e quente, um sol que cobre de tons de ouro e topázio os nossos feios telhados do século atrasado. Mas não quero outro assunto senão este: o bond, — o bond amável e modesto, veículo da democracia, igualador de castas, nivelador de fortunas, — o bond despretensioso, de que, anteontem, festejamos o 35° aniversário natalício.

Natalício sim, — porque, para o Rio de janeiro, o bond nasceu há trinta e cinco anos, somente. E a cidade ainda está cheia de gente que se lembra das gôndolas pesadas e oscilantes, que se arrastavam aos trancos, morosas e feias como grandes hipopótamos.

O bond, assim que nasceu, matou a "gôndola", e a "diligência", limitou despoticamente a esfera da ação das caleças e dos coupés, tomou conta de toda da cidade, — e só por generosidade ainda admite a concorrência, aliás bem pouco forte, do tilbury. Em trinta e cinco anos, esse operário da democracia estendeu por todas as zonas da urbs o aranhol dos seus trilhos metálicos, e senhoreou-se de todas as ruas urbanas e suburbanas, povoando bairros afastados, criando bairros novos, alargando de dia em dia o âmbito da capital, estabelecendo comunicações entre todos os alvéolos da nossa imensa colméia. São dele as ruas, são dele as praças, tudo é dele, atualmente. De dia e de noite, indo e vindo, ao ronrom da corrente elétrica, ou ao rumoroso patear dos muares sobre as pedras, aí passa ele, o triunfador, — o servidor dos ricos, a providência dos pobres, a vida e a animação da cidade.

Haja sol ou chova, labute ou durma a cidade, o trabalho metódico do bond não cessa: e alta noite, ou alta madrugada, quando já os mais terríveis notívagos se meteram no vale dos lençóis, ainda ele está cumprindo o seu fadário, deslizando sobre os trilhos, abrindo clareiras na treva com as suas lanternas vermelhas ou azuis, acordando os ecos das ruas desertas, velando incansável pela comodidade, pelo conforto, pelo serviço da população. Cheio ou vazio, com passageiros suspensos em pencas das balaustradas ou abrigando apenas dois ou três viajantes sonolentos, — a sua marcha é a mesma, certa e pausada, num ritmo regular que é a expressão perfeita de regularidade da sua missão na terra...

Trinta e cinco anos... Para celebrar esse aniversário, a Jardim Botânico, que se orgulha da sua decania, da sua dignidade de primaz das companhias de bonds, organizou festas alegres, com muita música e muita luz, — e com muita satisfação dos empregados, que tiveram lunch, relevações de penas, pequenos favores amáveis, e até uma proclamação do gerente, falando em "vestais", em "fogo sagrado", e em outras cousas igualmente lindas e retóricas.

No largo do Machado, vi ontem um bond, encostado ao jardim, fulgurante e garrido, emergindo de entre tufos de folhagens, constelado de lâmpadas elétricas, apendoado de flâmulas, e ressoante de músicas festivas. Confesso que gostei imensamente dessa apoteose do Bond. Era bem justo que o glorificassem, — a esse belo companheiro e servidor da nossa atividade. Naquela apoteose, vibrava a alma agradecida de toda a população.

Por mim, não me lembro das "gôndolas", nem do dia em que os primeiros bonds partiram da rua do Ouvidor. Nesse tempo, eu ainda era um pirralho de dois anos e tanto, mais ocupado em ensaiar a língua tatibitate do que em tomar conhecimento de progressos. Mas o Jornal do Commercio, esse venerando ancestral (que, se me não engano, em fins de abril de 1500, já dava minuciosa notícia da ancoragem da esquadra de Cabral em Porto Seguro), contou em 10 de outubro de 1868 o que foi a festa da inauguração.

O trajeto (disse o velho Jornal) fez-se entre alas de povo, achando-se também as janelas guarnecidas de espectadores; os carros são cômodos e largos, sem por isso ocuparem mais espaço da rua do que as gôndolas, porque as rodas giram debaixo da caixa, e uma só parelha de bestas puxa aquela pesada máquina suavemente sobre os trilhos, sem abalo para o passageiro, que quase não sente o movimento.

Essas palavras podem parecer hoje frias e secas: mas, naquele tempo, e Gritas pela gente do Jornal, deviam ser o cúmulo do entusiasmo... Daquele reduto da Circunspecção, daquele templo da Prudência, só podia sair louvores bem calculados e medidos. Tanto assim que o final da notícia revelava uma reserva cautelosa:

Cumpre deixar que a experiência fale por si, mas, tanto quanto desde já pode conjecturar-se, o que devemos desejar é que a mesma facilidade da locomoção se estenda a outros arrabaldes da cidade.

Vejam só o que é o hábito! Naqueles primeiros dias da existência dos bonds tudo parecia bem: era um espanto ver que as rodas giravam debaixo das caixas, e que os carros não ocupavam mais espaço do que as gôndolas, e que uma só parelha de bestas bastava para puxar a pesada máquina, e que o passageiro quase não sentia o movimento!

Cotejem-se esses elogios com as queixas de hoje, — e ter-se-á, mas uma vez, a confirmação desta grande lei, que é tão verdadeira para as cousas do espírito como para as cousas do corpo: "as exigências aumentam na razão direta das concessões." Se naquele tempo tudo parecia bom, hoje tudo parece mau: o movimento é moroso, os solavancos são terríveis, luz é escassa, os condutores só merecem censura, os horários nunca são cumpridos, e tudo anda à matroca...

Tudo isso é natural: depois da luz do azeite, já a luz do querosene não nos satisfez, como depois da luz do querosene não nos satisfez a luz do gás, e a mesma luz da eletricidade já nos está parecendo insuficiente...

Mas que te importa que digamos mal de ti, condescendente e impassível bond? Tu não dás ouvidos às nossas recriminações, e vais alargando o teu domínio, dilatando o teu aranhol, suprimindo as distâncias, confraternizando pela aproximação o saco do Alferes e Botafogo, a Vila Guarani e o Cosme Velho, e reinando como senhor absoluto e indispensável sobre a nossa vida.

E deixa-me dizer-te aqui, nesta coluna repousada, que não te amo apenas pelos serviços materiais que nos prestas, senão também pelos teus grandes serviços morais.

Tu és o Karl Marx dos veículos, o Benoit Malon dos transportes. Sem dar mostras do que fazes, tu vais passando a rasoura nos preconceitos, e pondo todas as classes no mesmo nível. Tu és um grande Socialista, ó bond amável!

Os ricos, atendendo à tua comodidade e apreciando a tua barateza, abandonam por ti as carruagens de luxo, e preferem ao trote dos cavalos de raça o trote das tuas bestas ou a suave carreira da tua corrente elétrica. Assim, nos teus bancos, acotovelam-se as classes, ombreiam as castas, flanqueiam-se a opulência e a penúria; sobre os teus assentos esfregam-se igualmente os impecáveis fundilhos das calças dos janotas e os fundilhos remendados das calças dos operários; e, nessa vizinhança igualadora, roçam-se as sedas das grandes damas nas chitas desbotadas, das criadas de servir. Aí, ao lado do capitalista gotoso, senta-se o trabalhador esfomeado; a costureirinha humilde, que nem sempre janta, acha lugar ao lado da matrona opulenta, carregada de banhas e de apólices; o estudante brejeiro encosta-se ao estadista grave; o poeta, que tem a alma cheia de rimas, toca com o joelho o joelho do banqueiro, que tem a carteira cheia de notas de quinhentos mil-réis; aí a miséria respira com a riqueza, e ambas se expõem aos mesmos solavancos, e arreliam-se com as mesmas demoras, e sufocam-se com a mesma poeira... Tu és um grande apóstolo do Socialismo, ó bond modesto! tu destruíste os preconceitos de raça e de cor, tu baralhaste na mesma expansão de vida o orgulho dos fortes e a humildade dos fracos, as ambições e os desinteresses, a beleza e a fealdade, a saúde e a invalidez...

E, além disso, amo-te porque és, juntam
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Olavo Bilac

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O Bond

NÃO ME FALTARIAM ASSUNTOS com que atulhar o bojo de uma larga crônica, bem nutrida e bem variada, neste sábado em que escrevo — um sábado alegre e quente, um sol que cobre de tons de ouro e topázio os nossos feios telhados do século atrasado. Mas não quero outro assunto senão este: o bond, — o bond amável e modesto, veículo da democracia, igualador de castas, nivelador de fortunas, — o bond despretensioso, de que, anteontem, festejamos o 35° aniversário natalício.

Natalício sim, — porque, para o Rio de janeiro, o bond nasceu há trinta e cinco anos, somente. E a cidade ainda está cheia de gente que se lembra das gôndolas pesadas e oscilantes, que se arrastavam aos trancos, morosas e feias como grandes hipopótamos.

O bond, assim que nasceu, matou a "gôndola", e a "diligência", limitou despoticamente a esfera da ação das caleças e dos coupés, tomou conta de toda da cidade, — e só por generosidade ainda admite a concorrência, aliás bem pouco forte, do tilbury. Em trinta e cinco anos, esse operário da democracia estendeu por todas as zonas da urbs o aranhol dos seus trilhos metálicos, e senhoreou-se de todas as ruas urbanas e suburbanas, povoando bairros afastados, criando bairros novos, alargando de dia em dia o âmbito da capital, estabelecendo comunicações entre todos os alvéolos da nossa imensa colméia. São dele as ruas, são dele as praças, tudo é dele, atualmente. De dia e de noite, indo e vindo, ao ronrom da corrente elétrica, ou ao rumoroso patear dos muares sobre as pedras, aí passa ele, o triunfador, — o servidor dos ricos, a providência dos pobres, a vida e a animação da cidade.

Haja sol ou chova, labute ou durma a cidade, o trabalho metódico do bond não cessa: e alta noite, ou alta madrugada, quando já os mais terríveis notívagos se meteram no vale dos lençóis, ainda ele está cumprindo o seu fadário, deslizando sobre os trilhos, abrindo clareiras na treva com as suas lanternas vermelhas ou azuis, acordando os ecos das ruas desertas, velando incansável pela comodidade, pelo conforto, pelo serviço da população. Cheio ou vazio, com passageiros suspensos em pencas das balaustradas ou abrigando apenas dois ou três viajantes sonolentos, — a sua marcha é a mesma, certa e pausada, num ritmo regular que é a expressão perfeita de regularidade da sua missão na terra...

Trinta e cinco anos... Para celebrar esse aniversário, a Jardim Botânico, que se orgulha da sua decania, da sua dignidade de primaz das companhias de bonds, organizou festas alegres, com muita música e muita luz, — e com muita satisfação dos empregados, que tiveram lunch, relevações de penas, pequenos favores amáveis, e até uma proclamação do gerente, falando em "vestais", em "fogo sagrado", e em outras cousas igualmente lindas e retóricas.

No largo do Machado, vi ontem um bond, encostado ao jardim, fulgurante e garrido, emergindo de entre tufos de folhagens, constelado de lâmpadas elétricas, apendoado de flâmulas, e ressoante de músicas festivas. Confesso que gostei imensamente dessa apoteose do Bond. Era bem justo que o glorificassem, — a esse belo companheiro e servidor da nossa atividade. Naquela apoteose, vibrava a alma agradecida de toda a população.

Por mim, não me lembro das "gôndolas", nem do dia em que os primeiros bonds partiram da rua do Ouvidor. Nesse tempo, eu ainda era um pirralho de dois anos e tanto, mais ocupado em ensaiar a língua tatibitate do que em tomar conhecimento de progressos. Mas o Jornal do Commercio, esse venerando ancestral (que, se me não engano, em fins de abril de 1500, já dava minuciosa notícia da ancoragem da esquadra de Cabral em Porto Seguro), contou em 10 de outubro de 1868 o que foi a festa da inauguração.

O trajeto (disse o velho Jornal) fez-se entre alas de povo, achando-se também as janelas guarnecidas de espectadores; os carros são cômodos e largos, sem por isso ocuparem mais espaço da rua do que as gôndolas, porque as rodas giram debaixo da caixa, e uma só parelha de bestas puxa aquela pesada máquina suavemente sobre os trilhos, sem abalo para o passageiro, que quase não sente o movimento.

Essas palavras podem parecer hoje frias e secas: mas, naquele tempo, e Gritas pela gente do Jornal, deviam ser o cúmulo do entusiasmo... Daquele reduto da Circunspecção, daquele templo da Prudência, só podia sair louvores bem calculados e medidos. Tanto assim que o final da notícia revelava uma reserva cautelosa:

Cumpre deixar que a experiência fale por si, mas, tanto quanto desde já pode conjecturar-se, o que devemos desejar é que a mesma facilidade da locomoção se estenda a outros arrabaldes da cidade.

Vejam só o que é o hábito! Naqueles primeiros dias da existência dos bonds tudo parecia bem: era um espanto ver que as rodas giravam debaixo das caixas, e que os carros não ocupavam mais espaço do que as gôndolas, e que uma só parelha de bestas bastava para puxar a pesada máquina, e que o passageiro quase não sentia o movimento!

Cotejem-se esses elogios com as queixas de hoje, — e ter-se-á, mas uma vez, a confirmação desta grande lei, que é tão verdadeira para as cousas do espírito como para as cousas do corpo: "as exigências aumentam na razão direta das concessões." Se naquele tempo tudo parecia bom, hoje tudo parece mau: o movimento é moroso, os solavancos são terríveis, luz é escassa, os condutores só merecem censura, os horários nunca são cumpridos, e tudo anda à matroca...

Tudo isso é natural: depois da luz do azeite, já a luz do querosene não nos satisfez, como depois da luz do querosene não nos satisfez a luz do gás, e a mesma luz da eletricidade já nos está parecendo insuficiente...

Mas que te importa que digamos mal de ti, condescendente e impassível bond? Tu não dás ouvidos às nossas recriminações, e vais alargando o teu domínio, dilatando o teu aranhol, suprimindo as distâncias, confraternizando pela aproximação o saco do Alferes e Botafogo, a Vila Guarani e o Cosme Velho, e reinando como senhor absoluto e indispensável sobre a nossa vida.

E deixa-me dizer-te aqui, nesta coluna repousada, que não te amo apenas pelos serviços materiais que nos prestas, senão também pelos teus grandes serviços morais.

Tu és o Karl Marx dos veículos, o Benoit Malon dos transportes. Sem dar mostras do que fazes, tu vais passando a rasoura nos preconceitos, e pondo todas as classes no mesmo nível. Tu és um grande Socialista, ó bond amável!

Os ricos, atendendo à tua comodidade e apreciando a tua barateza, abandonam por ti as carruagens de luxo, e preferem ao trote dos cavalos de raça o trote das tuas bestas ou a suave carreira da tua corrente elétrica. Assim, nos teus bancos, acotovelam-se as classes, ombreiam as castas, flanqueiam-se a opulência e a penúria; sobre os teus assentos esfregam-se igualmente os impecáveis fundilhos das calças dos janotas e os fundilhos remendados das calças dos operários; e, nessa vizinhança igualadora, roçam-se as sedas das grandes damas nas chitas desbotadas, das criadas de servir. Aí, ao lado do capitalista gotoso, senta-se o trabalhador esfomeado; a costureirinha humilde, que nem sempre janta, acha lugar ao lado da matrona opulenta, carregada de banhas e de apólices; o estudante brejeiro encosta-se ao estadista grave; o poeta, que tem a alma cheia de rimas, toca com o joelho o joelho do banqueiro, que tem a carteira cheia de notas de quinhentos mil-réis; aí a miséria respira com a riqueza, e ambas se expõem aos mesmos solavancos, e arreliam-se com as mesmas demoras, e sufocam-se com a mesma poeira... Tu és um grande apóstolo do Socialismo, ó bond modesto! tu destruíste os preconceitos de raça e de cor, tu baralhaste na mesma expansão de vida o orgulho dos fortes e a humildade dos fracos, as ambições e os desinteresses, a beleza e a fealdade, a saúde e a invalidez...

E, além disso, amo-te porque és, juntam
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