Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Paula Nei
A Justiça
A Justiça de um povo generoso,
Pesando sobre a negra escravidão,
Esmagou-a de um modo glorioso,
Sufocando-a com a Lei da Abolição.
Esse passado tétrico, horroroso,
Da mais nefanda e torpe instituição,
Rolou no chão, no abismo pavoroso,
Assombrado com a luz da redenção.
Não mais dos homens os fatais horrores,
Não mais o vil zumbir das vergastadas,
Salpicando de sangue o chão e as flores!
Não mais escravos pelas esplanadas!
São todos livres! Não há mais senhores!
Foi-se a noite, só temos alvoradas.
Pesando sobre a negra escravidão,
Esmagou-a de um modo glorioso,
Sufocando-a com a Lei da Abolição.
Esse passado tétrico, horroroso,
Da mais nefanda e torpe instituição,
Rolou no chão, no abismo pavoroso,
Assombrado com a luz da redenção.
Não mais dos homens os fatais horrores,
Não mais o vil zumbir das vergastadas,
Salpicando de sangue o chão e as flores!
Não mais escravos pelas esplanadas!
São todos livres! Não há mais senhores!
Foi-se a noite, só temos alvoradas.
825
Paula Nei
A Justiça
A Justiça de um povo generoso,
Pesando sobre a negra escravidão,
Esmagou-a de um modo glorioso,
Sufocando-a com a Lei da Abolição.
Esse passado tétrico, horroroso,
Da mais nefanda e torpe instituição,
Rolou no chão, no abismo pavoroso,
Assombrado com a luz da redenção.
Não mais dos homens os fatais horrores,
Não mais o vil zumbir das vergastadas,
Salpicando de sangue o chão e as flores!
Não mais escravos pelas esplanadas!
São todos livres! Não há mais senhores!
Foi-se a noite, só temos alvoradas.
Pesando sobre a negra escravidão,
Esmagou-a de um modo glorioso,
Sufocando-a com a Lei da Abolição.
Esse passado tétrico, horroroso,
Da mais nefanda e torpe instituição,
Rolou no chão, no abismo pavoroso,
Assombrado com a luz da redenção.
Não mais dos homens os fatais horrores,
Não mais o vil zumbir das vergastadas,
Salpicando de sangue o chão e as flores!
Não mais escravos pelas esplanadas!
São todos livres! Não há mais senhores!
Foi-se a noite, só temos alvoradas.
825
Paula Nei
A Justiça
A Justiça de um povo generoso,
Pesando sobre a negra escravidão,
Esmagou-a de um modo glorioso,
Sufocando-a com a Lei da Abolição.
Esse passado tétrico, horroroso,
Da mais nefanda e torpe instituição,
Rolou no chão, no abismo pavoroso,
Assombrado com a luz da redenção.
Não mais dos homens os fatais horrores,
Não mais o vil zumbir das vergastadas,
Salpicando de sangue o chão e as flores!
Não mais escravos pelas esplanadas!
São todos livres! Não há mais senhores!
Foi-se a noite, só temos alvoradas.
Pesando sobre a negra escravidão,
Esmagou-a de um modo glorioso,
Sufocando-a com a Lei da Abolição.
Esse passado tétrico, horroroso,
Da mais nefanda e torpe instituição,
Rolou no chão, no abismo pavoroso,
Assombrado com a luz da redenção.
Não mais dos homens os fatais horrores,
Não mais o vil zumbir das vergastadas,
Salpicando de sangue o chão e as flores!
Não mais escravos pelas esplanadas!
São todos livres! Não há mais senhores!
Foi-se a noite, só temos alvoradas.
825
Fernando Py
Confissão
A lvan Junqueira
Não direi do desgaste a que me exponho
no trabalho e suor de me conter
sob muros agressivos e silêncio
cuja acidez dentro de mim escalda
e me castiga as vísceras e a pele.
Darei parcos indícios dessa algema
que vai mordendo, abutre, o sangue e os nervos
e me abate e renasce ao infinito.
Percebo presos ao asfalto os pés
e, feras, sobre mim convergem brasas
rugindo. E pedregulhos, galhos de árvore,
limitam-me a visão e me povoam
a memória de cifras e destroços.
Não direi do desgaste a que me exponho
no trabalho e suor de me conter
sob muros agressivos e silêncio
cuja acidez dentro de mim escalda
e me castiga as vísceras e a pele.
Darei parcos indícios dessa algema
que vai mordendo, abutre, o sangue e os nervos
e me abate e renasce ao infinito.
Percebo presos ao asfalto os pés
e, feras, sobre mim convergem brasas
rugindo. E pedregulhos, galhos de árvore,
limitam-me a visão e me povoam
a memória de cifras e destroços.
986
Fernando Py
Confissão
A lvan Junqueira
Não direi do desgaste a que me exponho
no trabalho e suor de me conter
sob muros agressivos e silêncio
cuja acidez dentro de mim escalda
e me castiga as vísceras e a pele.
Darei parcos indícios dessa algema
que vai mordendo, abutre, o sangue e os nervos
e me abate e renasce ao infinito.
Percebo presos ao asfalto os pés
e, feras, sobre mim convergem brasas
rugindo. E pedregulhos, galhos de árvore,
limitam-me a visão e me povoam
a memória de cifras e destroços.
Não direi do desgaste a que me exponho
no trabalho e suor de me conter
sob muros agressivos e silêncio
cuja acidez dentro de mim escalda
e me castiga as vísceras e a pele.
Darei parcos indícios dessa algema
que vai mordendo, abutre, o sangue e os nervos
e me abate e renasce ao infinito.
Percebo presos ao asfalto os pés
e, feras, sobre mim convergem brasas
rugindo. E pedregulhos, galhos de árvore,
limitam-me a visão e me povoam
a memória de cifras e destroços.
986
Silvino Pirauá de Lima
Necrológio de Francisco Romano
Na era 91
No centro paraibano,
Dentro do termo de Patos,
Em março do dito ano,
No primeiro desse mês
Morreu Francisco Romano.
Ele, antes de morrer,
Tinha em casa destinado
De ir buscar uma imagem
Com quem tinha se pegado,
Mas antes dessa viagem.
Primeiro foi ao roçado.
Pegou o chapéu, saiu
Com uma faca na mão
E uma foice no ombro,
Foi tapar um boqueirão,
Embora fosse domingo,
Mas havia precisão.
Justamente foi o tempo
De a hora lhe ser chegada...
Romano dentro da roça,
Morreu de morte apressada:
Apagou-se aquele esprito,
Seu corpo virou em nada.
Foi num dia de domingo
Esse caso acontecido...
Nesse dia, às quatro horas,
Foi Jesus Cristo servido:
Duma morte violenta
Romano foi falecido.
De bruço caiu em terra
Com a tal faca na mão,
A outra mão sobre o peito,
Em riba do coração,
A foice do outro lado,
Bem junto dele, no chão.
Nesse entre, um filho dele,
Tendo de ir ao roçado,
Pra dar água a uns animais,
Por seu mano ter mandado,
Chegou, foi vendo o cadave
No chão, morto, istoporado.
O menino, quando viu,
Ficou cheio de agonia
De ver seu querido pai
Se acabar naquele dia...
Foi levar a notiça à mãe,
Coitada, que não sabia!
Choroso voltou pra trás
Do caso que aconteceu,
Foi chegando e foi dizendo:
- "Ruim notiça trago eu!
Minha mãe, meus irmãozinho,
Meu querido pai morreu!"
Em casa o choro foi tanto
Que fez um grande alarido,
A mulher correu pra roça,
À procura do marido,
Não morreu de sentimento
Porque Deus não foi servido.
Atrás da pobre mulher
O povo todo seguiu...
Quando ela viu o cadave
Por cima dele caiu,
A prece que fez ao céu
Parece que Deus ouviu.
Voltaram tristes pra casa,
O choro ninguém continha,
Romano veio numa rede,
A mulher em braços vinha,
Mandaram comprar mortalha
Na rua, de noitezinha.
Eu senti a morte dele,
Que ninguém não esperava!
Quando me veio a notiça
Que Romano morto estava,
Logo me veio à lembrança
O tempo em que nós cantava.
Conheço, desde esse dia,
Cantador entusiasmado...
Todo mundo quer cantar,
Cada qual dá seu recado
Porque quem se respeitava
Ja está em cinzas tornado!
No centro paraibano,
Dentro do termo de Patos,
Em março do dito ano,
No primeiro desse mês
Morreu Francisco Romano.
Ele, antes de morrer,
Tinha em casa destinado
De ir buscar uma imagem
Com quem tinha se pegado,
Mas antes dessa viagem.
Primeiro foi ao roçado.
Pegou o chapéu, saiu
Com uma faca na mão
E uma foice no ombro,
Foi tapar um boqueirão,
Embora fosse domingo,
Mas havia precisão.
Justamente foi o tempo
De a hora lhe ser chegada...
Romano dentro da roça,
Morreu de morte apressada:
Apagou-se aquele esprito,
Seu corpo virou em nada.
Foi num dia de domingo
Esse caso acontecido...
Nesse dia, às quatro horas,
Foi Jesus Cristo servido:
Duma morte violenta
Romano foi falecido.
De bruço caiu em terra
Com a tal faca na mão,
A outra mão sobre o peito,
Em riba do coração,
A foice do outro lado,
Bem junto dele, no chão.
Nesse entre, um filho dele,
Tendo de ir ao roçado,
Pra dar água a uns animais,
Por seu mano ter mandado,
Chegou, foi vendo o cadave
No chão, morto, istoporado.
O menino, quando viu,
Ficou cheio de agonia
De ver seu querido pai
Se acabar naquele dia...
Foi levar a notiça à mãe,
Coitada, que não sabia!
Choroso voltou pra trás
Do caso que aconteceu,
Foi chegando e foi dizendo:
- "Ruim notiça trago eu!
Minha mãe, meus irmãozinho,
Meu querido pai morreu!"
Em casa o choro foi tanto
Que fez um grande alarido,
A mulher correu pra roça,
À procura do marido,
Não morreu de sentimento
Porque Deus não foi servido.
Atrás da pobre mulher
O povo todo seguiu...
Quando ela viu o cadave
Por cima dele caiu,
A prece que fez ao céu
Parece que Deus ouviu.
Voltaram tristes pra casa,
O choro ninguém continha,
Romano veio numa rede,
A mulher em braços vinha,
Mandaram comprar mortalha
Na rua, de noitezinha.
Eu senti a morte dele,
Que ninguém não esperava!
Quando me veio a notiça
Que Romano morto estava,
Logo me veio à lembrança
O tempo em que nós cantava.
Conheço, desde esse dia,
Cantador entusiasmado...
Todo mundo quer cantar,
Cada qual dá seu recado
Porque quem se respeitava
Ja está em cinzas tornado!
1 343
Pedro Marato
Voto
Corrompe-te um vício de humanidade.
Se teu verso repousar na pedra,
Na cúpula do tempo ressoar,
Gradua-lhe o tom de eternidade,
Em poeira de renúncia.
Se de humano o vício suplantares,
Implanta essa avareza
no gesto sem afago e cruel,
pois é necessário roubar ao convívio,
todo o traço de intimidade.
Hostil já não reputes
o veio corrosivo da cal,
no ardor de seu repouso sobre a pele.
A indolência da bondade
faz tombar as lágrimas,
úteis à higiene de teu rosto.
Se teu verso repousar na pedra,
Na cúpula do tempo ressoar,
Gradua-lhe o tom de eternidade,
Em poeira de renúncia.
Se de humano o vício suplantares,
Implanta essa avareza
no gesto sem afago e cruel,
pois é necessário roubar ao convívio,
todo o traço de intimidade.
Hostil já não reputes
o veio corrosivo da cal,
no ardor de seu repouso sobre a pele.
A indolência da bondade
faz tombar as lágrimas,
úteis à higiene de teu rosto.
766
Quirino dos Santos
O Saci
(Lenda)
"Que tens tu, oh, Mariquinhas,
Por que é essa palidez?
Tristeza que nunca tinhas
Te pousa na linda tez.
Ainda há pouco no terreiro
Saltavas a traquinar;
Nesse teu rosto trigueiro
Não se via um só pesar;
Sorrias sempre contente,
já hoje não sorris;
Cozias tão diligente
Cantando sempre feliz.
Já hoje tua cantiga
É toda cheia de dor,
E Aninhas, tua amiga
Não buscas mais com amor.
No quintal as tuas flores
Todas pendem a morrer;
Do sol os quentes ardores
Não lhes vais arrefecer.
Que tens tu, oh, Mariquinhas,
Por que é essa palidez?
Tristeza que nunca tinhas
Te pousa na linda tez!
Mariquinhas, minha neta,
A causa toda já sei,
De andares tão inquieta;
Agora já adivinhei!
Aquela vasta silveira
Além dos campos ali,
É assombrada a noite inteira
Por um medonho Saci.
É ele que vem horrendo
Montar nos bons animais;
A noite toda correndo
Ai! quanto susto nos faz!
Foi ali ele que tu o viste,
Que a tua face beijou...
Depois disso é que assim triste
A minha neta ficou.
Mariquinhas, minha neta,
Neta do meu coração,
Não quero te ver inquieta,
Inquieta mais assim, não!
Vai contrita e humilhada
Te prostrar aos pés de Deus;
Expiar, jura, emendada
Os graves pecados teus.
Que hás de ter infinito
Prazer imenso a fruir,
E o Sererê maldito
Para longe há de fugir.
Eia pois, oh Mariquinhas,
Finda a tua palidez;
Tristeza que nunca tinhas
Não tenhas mais desta vez!"
Assim falou a velhinha
No seu sisudo falar;
Aconselhou a netinha
E logo pôs-se a rezar!
Mariquinhas magoada
Não responde à velha, não!
Ai! pobre, de envergonhada
Ficou a olhar para o chão.
Mas de noite a janelinha
Do seu quarto se entreabriu,
E houve quem visse asinha
Que um vulto a ela assumiu!
Como ela deixa a desoras
Um vulto junto de si?!
Venham cá dizer-me agora
Que não seria o Saci!...
"Que tens tu, oh, Mariquinhas,
Por que é essa palidez?
Tristeza que nunca tinhas
Te pousa na linda tez.
Ainda há pouco no terreiro
Saltavas a traquinar;
Nesse teu rosto trigueiro
Não se via um só pesar;
Sorrias sempre contente,
já hoje não sorris;
Cozias tão diligente
Cantando sempre feliz.
Já hoje tua cantiga
É toda cheia de dor,
E Aninhas, tua amiga
Não buscas mais com amor.
No quintal as tuas flores
Todas pendem a morrer;
Do sol os quentes ardores
Não lhes vais arrefecer.
Que tens tu, oh, Mariquinhas,
Por que é essa palidez?
Tristeza que nunca tinhas
Te pousa na linda tez!
Mariquinhas, minha neta,
A causa toda já sei,
De andares tão inquieta;
Agora já adivinhei!
Aquela vasta silveira
Além dos campos ali,
É assombrada a noite inteira
Por um medonho Saci.
É ele que vem horrendo
Montar nos bons animais;
A noite toda correndo
Ai! quanto susto nos faz!
Foi ali ele que tu o viste,
Que a tua face beijou...
Depois disso é que assim triste
A minha neta ficou.
Mariquinhas, minha neta,
Neta do meu coração,
Não quero te ver inquieta,
Inquieta mais assim, não!
Vai contrita e humilhada
Te prostrar aos pés de Deus;
Expiar, jura, emendada
Os graves pecados teus.
Que hás de ter infinito
Prazer imenso a fruir,
E o Sererê maldito
Para longe há de fugir.
Eia pois, oh Mariquinhas,
Finda a tua palidez;
Tristeza que nunca tinhas
Não tenhas mais desta vez!"
Assim falou a velhinha
No seu sisudo falar;
Aconselhou a netinha
E logo pôs-se a rezar!
Mariquinhas magoada
Não responde à velha, não!
Ai! pobre, de envergonhada
Ficou a olhar para o chão.
Mas de noite a janelinha
Do seu quarto se entreabriu,
E houve quem visse asinha
Que um vulto a ela assumiu!
Como ela deixa a desoras
Um vulto junto de si?!
Venham cá dizer-me agora
Que não seria o Saci!...
1 069
Paulo Roberto Cecchetti
Haicai
Solidão
Essa solidão
à mesa, em pleno almoço:
mastigar a vida!
Motocicleta
Na rua de lua,
um vaga-lume eletrônico:
a motocicleta.
Essa solidão
à mesa, em pleno almoço:
mastigar a vida!
Motocicleta
Na rua de lua,
um vaga-lume eletrônico:
a motocicleta.
794
Paulo Silva Ribeiro
Idiotinhas
Idiotinhas
Sorriso solto
De coisa nenhuma,
Tênis da moda
Marca na sola,
Inteligência coisa fora de moda,
O Papo que sempre rola
É beber coca-cola,
E falar de namoro na escola...
Idiotinhas
Não são só eles ou elas,
Mas são todos
Que não veêm
O que está acontecendo lá fora...
E assim vai se passando
As horas neste país
De aurora juvenis
Que não acorda
Para ver os farrapos
De sua gente
Espalhado por este continente
Chamado Brasil.
Sorriso solto
De coisa nenhuma,
Tênis da moda
Marca na sola,
Inteligência coisa fora de moda,
O Papo que sempre rola
É beber coca-cola,
E falar de namoro na escola...
Idiotinhas
Não são só eles ou elas,
Mas são todos
Que não veêm
O que está acontecendo lá fora...
E assim vai se passando
As horas neste país
De aurora juvenis
Que não acorda
Para ver os farrapos
De sua gente
Espalhado por este continente
Chamado Brasil.
861
Paulo Silva Ribeiro
Idiotinhas
Idiotinhas
Sorriso solto
De coisa nenhuma,
Tênis da moda
Marca na sola,
Inteligência coisa fora de moda,
O Papo que sempre rola
É beber coca-cola,
E falar de namoro na escola...
Idiotinhas
Não são só eles ou elas,
Mas são todos
Que não veêm
O que está acontecendo lá fora...
E assim vai se passando
As horas neste país
De aurora juvenis
Que não acorda
Para ver os farrapos
De sua gente
Espalhado por este continente
Chamado Brasil.
Sorriso solto
De coisa nenhuma,
Tênis da moda
Marca na sola,
Inteligência coisa fora de moda,
O Papo que sempre rola
É beber coca-cola,
E falar de namoro na escola...
Idiotinhas
Não são só eles ou elas,
Mas são todos
Que não veêm
O que está acontecendo lá fora...
E assim vai se passando
As horas neste país
De aurora juvenis
Que não acorda
Para ver os farrapos
De sua gente
Espalhado por este continente
Chamado Brasil.
861
Paulo Silva Ribeiro
Idiotinhas
Idiotinhas
Sorriso solto
De coisa nenhuma,
Tênis da moda
Marca na sola,
Inteligência coisa fora de moda,
O Papo que sempre rola
É beber coca-cola,
E falar de namoro na escola...
Idiotinhas
Não são só eles ou elas,
Mas são todos
Que não veêm
O que está acontecendo lá fora...
E assim vai se passando
As horas neste país
De aurora juvenis
Que não acorda
Para ver os farrapos
De sua gente
Espalhado por este continente
Chamado Brasil.
Sorriso solto
De coisa nenhuma,
Tênis da moda
Marca na sola,
Inteligência coisa fora de moda,
O Papo que sempre rola
É beber coca-cola,
E falar de namoro na escola...
Idiotinhas
Não são só eles ou elas,
Mas são todos
Que não veêm
O que está acontecendo lá fora...
E assim vai se passando
As horas neste país
De aurora juvenis
Que não acorda
Para ver os farrapos
De sua gente
Espalhado por este continente
Chamado Brasil.
861
Paulo Silva Ribeiro
Idiotinhas
Idiotinhas
Sorriso solto
De coisa nenhuma,
Tênis da moda
Marca na sola,
Inteligência coisa fora de moda,
O Papo que sempre rola
É beber coca-cola,
E falar de namoro na escola...
Idiotinhas
Não são só eles ou elas,
Mas são todos
Que não veêm
O que está acontecendo lá fora...
E assim vai se passando
As horas neste país
De aurora juvenis
Que não acorda
Para ver os farrapos
De sua gente
Espalhado por este continente
Chamado Brasil.
Sorriso solto
De coisa nenhuma,
Tênis da moda
Marca na sola,
Inteligência coisa fora de moda,
O Papo que sempre rola
É beber coca-cola,
E falar de namoro na escola...
Idiotinhas
Não são só eles ou elas,
Mas são todos
Que não veêm
O que está acontecendo lá fora...
E assim vai se passando
As horas neste país
De aurora juvenis
Que não acorda
Para ver os farrapos
De sua gente
Espalhado por este continente
Chamado Brasil.
861
Papiniano Carlos
Bom Dia, Afonso Duarte
Nas ruas exaustas de morte e silêncio,
entre rios mortos e áspera solidão,
passeio contigo, Afonso Duarte.
Sob teu rosto grave, teus nevados cabelos,
seara cansada de tantas espigas,
couves e rosas, Afonso Duarte.
Um galo canta longínquo, ou é tua voz
a seiva do chão, oculta e milenária,
a cantar ainda, Afonso Duarte?
Em teu jardim de angústia (ao longe o mar) colho
no ramo quebrado nossa ave imperecível
e a dor da Pátria, Afonso Duarte.
E vendo-te, raiz e flor, a meio do teu povo,
(eu mesmo cavo e sou quem poda a vida)
só te digo: Bom-dia, Afonso Duarte.
entre rios mortos e áspera solidão,
passeio contigo, Afonso Duarte.
Sob teu rosto grave, teus nevados cabelos,
seara cansada de tantas espigas,
couves e rosas, Afonso Duarte.
Um galo canta longínquo, ou é tua voz
a seiva do chão, oculta e milenária,
a cantar ainda, Afonso Duarte?
Em teu jardim de angústia (ao longe o mar) colho
no ramo quebrado nossa ave imperecível
e a dor da Pátria, Afonso Duarte.
E vendo-te, raiz e flor, a meio do teu povo,
(eu mesmo cavo e sou quem poda a vida)
só te digo: Bom-dia, Afonso Duarte.
1 700
Oswald de Andrade
O Gramático
Os negros discutiam
Que o cavalo sipantou
Mas o que mais sabia
Disse que era
Sipantarrou.
Que o cavalo sipantou
Mas o que mais sabia
Disse que era
Sipantarrou.
5 910
Fernando Rocha Peres
Fatos Documentados
Revisão de Gregório
(entrevista concedida ao jornal A Tarde)
O historiador e poeta Fernando da Rocha Peres, aborda adiante, em entrevista, fatos documentados e lendas relativas a Gregório de Mattos e Guerra, revelando que aaproximação temática entre a obra do poeta doséculo XVII e a do seu contemporâneo, o padre Antônio Vieira, será tema de seus próximos estudos.
P - Ao que parece, novos dados biográficos sobre Gregório de Mattos estão condicionados ao aparecimento de novos documentos. Por que alguns registros-chave, como o de batismo e óbito do poeta não são encontrados?
R - As lacunas sobre a vida de Gregório de Mattos de certo modo já foram preenchidas, quando fiz a revisão da biografia escrita no século XVIII por Manuel Pereira Rabelo. Se estes dados, de registro de nascimento e óbito, não foram encontrados é porque essa documentação deve ter perecido. A certidão de batismo deveria estar aqui, no arquivo da cúria metropolitana, e hoje não se encontra mais. O registro de óbito deveria estar em Recife, onde ele faleceu. Eu estive pesquisando aqui na Bahia, em Pernambuco, em Portugal e o que pude encontrar sobre Gregório de Mattos foi, como disse Antônio Houaiss, o suficiente para uma reescritura da biografia do poeta. Creio que a data de nascimento e a de morte já estão suficientemente fixadas.
P - Nestes 13 anos desde a publicação da revisão biográfica de Gregório de Mattos, de sua autoria, surgiram muitos dados novos?
O que poderia ser acrescentado em uma nova edição?
R - Esses fatos novos já surgiram e foram acrescentados em outras publicações que fiz. Alguns documentos estão, como costumo dizer, na encubadora, porque, em verdade, um trabalho em cima de fontes primárias é um trabalho lento. Temos que checar as informações documentais de todas as maneiras possíveis. De 1983 para cá, muita coisa já foi acrescentada. Por exemplo, o fato de Gregório de Mattos ter sido provedor da Santa Casa de Misericórdia de uma vila portuguesa, Alcácias do Sal, onde ele foi juiz de fora. A descoberta de uma terceira sentença dele, publicada pelo jurista do século XVII Emanuel Alvares Pegas. O levantamento que fiz mais sistemático sobre a família extensiva do poeta, da questão referente ao processo inquisitorial contra ele, de 1685. Todos esses dados serão acrescidos a uma nova edição ou, quem sabe, a um desenho novo do poeta.
P - Que tipo de documentação se encontra no Brasil? Há informações sobre a passagem do poeta no Colégio da Bahia, dos jesuítas?
R - Infelizmente não existe nada, porque quando os jesuítas saíram daqui, no século XVIII, deixaram a biblioteca e o arquivo. Vilhena, cronista da Bahia do século XVIII, nos informa que os papéis do colégio foram vendidos para serem usados como embrulho de gêneros na área do Terreiro de Jesus e no Pelourinho. Toda documentação primária, levantei basicamente em Portugal, em Coimbra e em Lisboa. Há aqui um registro no arquivo da Santa Casa da Misericórdia da Bahia, quando ele entrou para irmão da Santa Casa. Este é o único documento primário. As outras informações relativas a Gregório existentes na Bahia estão, algumas delas, publicadas nas atas e cartas da Câmara da Cidade do Salvador, hoje a Câmara de Vereadores. Há muita informação sobre ele, que foi procurador da Bahia, defendeu os interesses dos proprietários de engenho de cana e defendeu o quanto pode a criação de uma universidade na Bahia, no século XVII. Registros não só dele, também de seu pai, avô, e irmãos estavam em documentos cujos originais já não existem mais, mas por sorte foram publicados pela Prefeitura Municipal da Cidade de Salvador.
P - E sobre o magistrado Gregorio de Mattos?
R - Sobre o juiz de fora, juiz do cível, representante do Brasil nas cortes, há documentação em elementos da língua espanhola, vocábulos africanos, indígenas e do português falado no Brasil, são traços particulares do poeta?
R - Gregório de Mattos usou sobretudo os termos indígenas e africanos no sentido pejorativo, para estabelecer uma comparação negativa com determinados elementos importantes da sociedade baiana da época, que se davam ares de grande destaque. Quando utiliza esse vocabulário - que enriquece muito sua poesia - o faz com o sentido satírico e não com a preocupação barroca de acrescentar elementos múltiplos à criação. Mas ele realmente ampliou os meios expressionais da poesia barroca do Brasil, pela incorporação de vocábulos indígenas e africanos.
P - Para o crítico, torna-se difícil se desvencilhar da personalidade de Gregório para concentrar-se numa análise que se detenha no texto, ou mesmo intertextual?
R - A obra de Gregório de Mattos sobreviveu através de apógrafos. Não há um único poema assinado por Gregório entre os mais de 700 que James Amado reuniu nos sete volumes da edição das obras completas. Aspectos da vida do poeta se harmonizam com a visão satírica que os poemas revelam. Na mesma época, existiram poetas dessa linha satírica, cuja linguagem se aproxima muito da de Gregório de Mattos. Mas, certas situações só poderiam ter sido vividas por um poeta satírico que aqui estivesse radicado.
Saber, por exemplo, que ele foi demitido do cargo de tesoureiro da Sé, pouco depois de chegar à Bahia, lança luz sobre o fato dele ter uma aversão profunda pelo clero. As informações biográficas estabelecem certos nexos que ajudam a compreender a poesia satírica de Gregório de Mattos e conceber que realmente um poeta como ele a escreveu. O estilo de época era muito universal, os procedimentos poéticos do barroco, os recursos retóricos, os tropos eram uniformes entre a poesia portuguesa, a castelhana e, naturalmente, a poesia brasileira, da época. Esta recebia influência natural, um processo normal de intertextualidade, das duas outras - sobretudo da poesia castelhana, que influênciou também poesia portuguesa. O gongorismo foi avassalador. Já o quevedismo é a particularidade satírica de Gregório de Mattos. Embora Quevedo tivesse, por exemplo, escrito poemas de uma inquietação religiosa, sobretudo uma obsessão com a idéia da morte, do aniquilamento físico do homem. Esse problema de apógrafos não atinge só á obra de Gregório. Há uma boa quantidade de poemas de Quevedo e do próprio Gôngora que não foram publicados com assinatura, sobre os quais existe grande controvérsia.
P - Quando a posição ideológica do poeta contrária às instituições estabelecidas se afirma?
R - As pesquisas, inclusive realizadas pelo professor Fernando Peres, mostram que Gregório de Mattos ocupou cargos importantes na magistratura de Lisboa, o que para um brasileiro, na época, era de grande significado. Ele casou-se com a filha de um magistrado importante, o que deve ter facilitado seu acesso, mas não bastaria para que ele fosse nomeado magistrado em Lisboa. É no retorno ao Brasil que o lado satírico se aguça, embora atribuam a ele um poema escrito em Portugal chamado Marinicolas. Poderia afirmar com convicção, pelo estudo que fiz, que o Gregório importante para a literatura brasileira nasce com a volta à Bahia. Há uma mudança na sua conduta de vida, concepção de mundo e nas suas relações sociais. Ele começa a ser o homem que ia com os amigos fazer grandes caçadas e farras no Recôncavo, ou nos bairros afastados de Salvador daquela época - Brotas, Rio Vermelho... - nomeados na poesia dele. Passa a atacar os padres, os representantes do poder constituído, as relações econômicas Brasil-Portugal . Era um homem de família rica, mas um produtor rural brasileiro prejudicado pela política portuguesa. Em alguns poemas, ele denuncia inclusive que as naus de Portugal vinham cheias de pedras e voltavam abarrotadas com as riquezas da terra. Até por esse aspecto sua poesia é importante, porque já revela uma certa consciência anti-colonialista se formando nas elites econômicas brasileiras da época. Muitos críticos dizem que Gregório não tinha sentimento patriótico. Como nós temos hoje em dia, certamente n
(entrevista concedida ao jornal A Tarde)
O historiador e poeta Fernando da Rocha Peres, aborda adiante, em entrevista, fatos documentados e lendas relativas a Gregório de Mattos e Guerra, revelando que aaproximação temática entre a obra do poeta doséculo XVII e a do seu contemporâneo, o padre Antônio Vieira, será tema de seus próximos estudos.
P - Ao que parece, novos dados biográficos sobre Gregório de Mattos estão condicionados ao aparecimento de novos documentos. Por que alguns registros-chave, como o de batismo e óbito do poeta não são encontrados?
R - As lacunas sobre a vida de Gregório de Mattos de certo modo já foram preenchidas, quando fiz a revisão da biografia escrita no século XVIII por Manuel Pereira Rabelo. Se estes dados, de registro de nascimento e óbito, não foram encontrados é porque essa documentação deve ter perecido. A certidão de batismo deveria estar aqui, no arquivo da cúria metropolitana, e hoje não se encontra mais. O registro de óbito deveria estar em Recife, onde ele faleceu. Eu estive pesquisando aqui na Bahia, em Pernambuco, em Portugal e o que pude encontrar sobre Gregório de Mattos foi, como disse Antônio Houaiss, o suficiente para uma reescritura da biografia do poeta. Creio que a data de nascimento e a de morte já estão suficientemente fixadas.
P - Nestes 13 anos desde a publicação da revisão biográfica de Gregório de Mattos, de sua autoria, surgiram muitos dados novos?
O que poderia ser acrescentado em uma nova edição?
R - Esses fatos novos já surgiram e foram acrescentados em outras publicações que fiz. Alguns documentos estão, como costumo dizer, na encubadora, porque, em verdade, um trabalho em cima de fontes primárias é um trabalho lento. Temos que checar as informações documentais de todas as maneiras possíveis. De 1983 para cá, muita coisa já foi acrescentada. Por exemplo, o fato de Gregório de Mattos ter sido provedor da Santa Casa de Misericórdia de uma vila portuguesa, Alcácias do Sal, onde ele foi juiz de fora. A descoberta de uma terceira sentença dele, publicada pelo jurista do século XVII Emanuel Alvares Pegas. O levantamento que fiz mais sistemático sobre a família extensiva do poeta, da questão referente ao processo inquisitorial contra ele, de 1685. Todos esses dados serão acrescidos a uma nova edição ou, quem sabe, a um desenho novo do poeta.
P - Que tipo de documentação se encontra no Brasil? Há informações sobre a passagem do poeta no Colégio da Bahia, dos jesuítas?
R - Infelizmente não existe nada, porque quando os jesuítas saíram daqui, no século XVIII, deixaram a biblioteca e o arquivo. Vilhena, cronista da Bahia do século XVIII, nos informa que os papéis do colégio foram vendidos para serem usados como embrulho de gêneros na área do Terreiro de Jesus e no Pelourinho. Toda documentação primária, levantei basicamente em Portugal, em Coimbra e em Lisboa. Há aqui um registro no arquivo da Santa Casa da Misericórdia da Bahia, quando ele entrou para irmão da Santa Casa. Este é o único documento primário. As outras informações relativas a Gregório existentes na Bahia estão, algumas delas, publicadas nas atas e cartas da Câmara da Cidade do Salvador, hoje a Câmara de Vereadores. Há muita informação sobre ele, que foi procurador da Bahia, defendeu os interesses dos proprietários de engenho de cana e defendeu o quanto pode a criação de uma universidade na Bahia, no século XVII. Registros não só dele, também de seu pai, avô, e irmãos estavam em documentos cujos originais já não existem mais, mas por sorte foram publicados pela Prefeitura Municipal da Cidade de Salvador.
P - E sobre o magistrado Gregorio de Mattos?
R - Sobre o juiz de fora, juiz do cível, representante do Brasil nas cortes, há documentação em elementos da língua espanhola, vocábulos africanos, indígenas e do português falado no Brasil, são traços particulares do poeta?
R - Gregório de Mattos usou sobretudo os termos indígenas e africanos no sentido pejorativo, para estabelecer uma comparação negativa com determinados elementos importantes da sociedade baiana da época, que se davam ares de grande destaque. Quando utiliza esse vocabulário - que enriquece muito sua poesia - o faz com o sentido satírico e não com a preocupação barroca de acrescentar elementos múltiplos à criação. Mas ele realmente ampliou os meios expressionais da poesia barroca do Brasil, pela incorporação de vocábulos indígenas e africanos.
P - Para o crítico, torna-se difícil se desvencilhar da personalidade de Gregório para concentrar-se numa análise que se detenha no texto, ou mesmo intertextual?
R - A obra de Gregório de Mattos sobreviveu através de apógrafos. Não há um único poema assinado por Gregório entre os mais de 700 que James Amado reuniu nos sete volumes da edição das obras completas. Aspectos da vida do poeta se harmonizam com a visão satírica que os poemas revelam. Na mesma época, existiram poetas dessa linha satírica, cuja linguagem se aproxima muito da de Gregório de Mattos. Mas, certas situações só poderiam ter sido vividas por um poeta satírico que aqui estivesse radicado.
Saber, por exemplo, que ele foi demitido do cargo de tesoureiro da Sé, pouco depois de chegar à Bahia, lança luz sobre o fato dele ter uma aversão profunda pelo clero. As informações biográficas estabelecem certos nexos que ajudam a compreender a poesia satírica de Gregório de Mattos e conceber que realmente um poeta como ele a escreveu. O estilo de época era muito universal, os procedimentos poéticos do barroco, os recursos retóricos, os tropos eram uniformes entre a poesia portuguesa, a castelhana e, naturalmente, a poesia brasileira, da época. Esta recebia influência natural, um processo normal de intertextualidade, das duas outras - sobretudo da poesia castelhana, que influênciou também poesia portuguesa. O gongorismo foi avassalador. Já o quevedismo é a particularidade satírica de Gregório de Mattos. Embora Quevedo tivesse, por exemplo, escrito poemas de uma inquietação religiosa, sobretudo uma obsessão com a idéia da morte, do aniquilamento físico do homem. Esse problema de apógrafos não atinge só á obra de Gregório. Há uma boa quantidade de poemas de Quevedo e do próprio Gôngora que não foram publicados com assinatura, sobre os quais existe grande controvérsia.
P - Quando a posição ideológica do poeta contrária às instituições estabelecidas se afirma?
R - As pesquisas, inclusive realizadas pelo professor Fernando Peres, mostram que Gregório de Mattos ocupou cargos importantes na magistratura de Lisboa, o que para um brasileiro, na época, era de grande significado. Ele casou-se com a filha de um magistrado importante, o que deve ter facilitado seu acesso, mas não bastaria para que ele fosse nomeado magistrado em Lisboa. É no retorno ao Brasil que o lado satírico se aguça, embora atribuam a ele um poema escrito em Portugal chamado Marinicolas. Poderia afirmar com convicção, pelo estudo que fiz, que o Gregório importante para a literatura brasileira nasce com a volta à Bahia. Há uma mudança na sua conduta de vida, concepção de mundo e nas suas relações sociais. Ele começa a ser o homem que ia com os amigos fazer grandes caçadas e farras no Recôncavo, ou nos bairros afastados de Salvador daquela época - Brotas, Rio Vermelho... - nomeados na poesia dele. Passa a atacar os padres, os representantes do poder constituído, as relações econômicas Brasil-Portugal . Era um homem de família rica, mas um produtor rural brasileiro prejudicado pela política portuguesa. Em alguns poemas, ele denuncia inclusive que as naus de Portugal vinham cheias de pedras e voltavam abarrotadas com as riquezas da terra. Até por esse aspecto sua poesia é importante, porque já revela uma certa consciência anti-colonialista se formando nas elites econômicas brasileiras da época. Muitos críticos dizem que Gregório não tinha sentimento patriótico. Como nós temos hoje em dia, certamente n
1 829
Fernando Rocha Peres
Fatos Documentados
Revisão de Gregório
(entrevista concedida ao jornal A Tarde)
O historiador e poeta Fernando da Rocha Peres, aborda adiante, em entrevista, fatos documentados e lendas relativas a Gregório de Mattos e Guerra, revelando que aaproximação temática entre a obra do poeta doséculo XVII e a do seu contemporâneo, o padre Antônio Vieira, será tema de seus próximos estudos.
P - Ao que parece, novos dados biográficos sobre Gregório de Mattos estão condicionados ao aparecimento de novos documentos. Por que alguns registros-chave, como o de batismo e óbito do poeta não são encontrados?
R - As lacunas sobre a vida de Gregório de Mattos de certo modo já foram preenchidas, quando fiz a revisão da biografia escrita no século XVIII por Manuel Pereira Rabelo. Se estes dados, de registro de nascimento e óbito, não foram encontrados é porque essa documentação deve ter perecido. A certidão de batismo deveria estar aqui, no arquivo da cúria metropolitana, e hoje não se encontra mais. O registro de óbito deveria estar em Recife, onde ele faleceu. Eu estive pesquisando aqui na Bahia, em Pernambuco, em Portugal e o que pude encontrar sobre Gregório de Mattos foi, como disse Antônio Houaiss, o suficiente para uma reescritura da biografia do poeta. Creio que a data de nascimento e a de morte já estão suficientemente fixadas.
P - Nestes 13 anos desde a publicação da revisão biográfica de Gregório de Mattos, de sua autoria, surgiram muitos dados novos?
O que poderia ser acrescentado em uma nova edição?
R - Esses fatos novos já surgiram e foram acrescentados em outras publicações que fiz. Alguns documentos estão, como costumo dizer, na encubadora, porque, em verdade, um trabalho em cima de fontes primárias é um trabalho lento. Temos que checar as informações documentais de todas as maneiras possíveis. De 1983 para cá, muita coisa já foi acrescentada. Por exemplo, o fato de Gregório de Mattos ter sido provedor da Santa Casa de Misericórdia de uma vila portuguesa, Alcácias do Sal, onde ele foi juiz de fora. A descoberta de uma terceira sentença dele, publicada pelo jurista do século XVII Emanuel Alvares Pegas. O levantamento que fiz mais sistemático sobre a família extensiva do poeta, da questão referente ao processo inquisitorial contra ele, de 1685. Todos esses dados serão acrescidos a uma nova edição ou, quem sabe, a um desenho novo do poeta.
P - Que tipo de documentação se encontra no Brasil? Há informações sobre a passagem do poeta no Colégio da Bahia, dos jesuítas?
R - Infelizmente não existe nada, porque quando os jesuítas saíram daqui, no século XVIII, deixaram a biblioteca e o arquivo. Vilhena, cronista da Bahia do século XVIII, nos informa que os papéis do colégio foram vendidos para serem usados como embrulho de gêneros na área do Terreiro de Jesus e no Pelourinho. Toda documentação primária, levantei basicamente em Portugal, em Coimbra e em Lisboa. Há aqui um registro no arquivo da Santa Casa da Misericórdia da Bahia, quando ele entrou para irmão da Santa Casa. Este é o único documento primário. As outras informações relativas a Gregório existentes na Bahia estão, algumas delas, publicadas nas atas e cartas da Câmara da Cidade do Salvador, hoje a Câmara de Vereadores. Há muita informação sobre ele, que foi procurador da Bahia, defendeu os interesses dos proprietários de engenho de cana e defendeu o quanto pode a criação de uma universidade na Bahia, no século XVII. Registros não só dele, também de seu pai, avô, e irmãos estavam em documentos cujos originais já não existem mais, mas por sorte foram publicados pela Prefeitura Municipal da Cidade de Salvador.
P - E sobre o magistrado Gregorio de Mattos?
R - Sobre o juiz de fora, juiz do cível, representante do Brasil nas cortes, há documentação em elementos da língua espanhola, vocábulos africanos, indígenas e do português falado no Brasil, são traços particulares do poeta?
R - Gregório de Mattos usou sobretudo os termos indígenas e africanos no sentido pejorativo, para estabelecer uma comparação negativa com determinados elementos importantes da sociedade baiana da época, que se davam ares de grande destaque. Quando utiliza esse vocabulário - que enriquece muito sua poesia - o faz com o sentido satírico e não com a preocupação barroca de acrescentar elementos múltiplos à criação. Mas ele realmente ampliou os meios expressionais da poesia barroca do Brasil, pela incorporação de vocábulos indígenas e africanos.
P - Para o crítico, torna-se difícil se desvencilhar da personalidade de Gregório para concentrar-se numa análise que se detenha no texto, ou mesmo intertextual?
R - A obra de Gregório de Mattos sobreviveu através de apógrafos. Não há um único poema assinado por Gregório entre os mais de 700 que James Amado reuniu nos sete volumes da edição das obras completas. Aspectos da vida do poeta se harmonizam com a visão satírica que os poemas revelam. Na mesma época, existiram poetas dessa linha satírica, cuja linguagem se aproxima muito da de Gregório de Mattos. Mas, certas situações só poderiam ter sido vividas por um poeta satírico que aqui estivesse radicado.
Saber, por exemplo, que ele foi demitido do cargo de tesoureiro da Sé, pouco depois de chegar à Bahia, lança luz sobre o fato dele ter uma aversão profunda pelo clero. As informações biográficas estabelecem certos nexos que ajudam a compreender a poesia satírica de Gregório de Mattos e conceber que realmente um poeta como ele a escreveu. O estilo de época era muito universal, os procedimentos poéticos do barroco, os recursos retóricos, os tropos eram uniformes entre a poesia portuguesa, a castelhana e, naturalmente, a poesia brasileira, da época. Esta recebia influência natural, um processo normal de intertextualidade, das duas outras - sobretudo da poesia castelhana, que influênciou também poesia portuguesa. O gongorismo foi avassalador. Já o quevedismo é a particularidade satírica de Gregório de Mattos. Embora Quevedo tivesse, por exemplo, escrito poemas de uma inquietação religiosa, sobretudo uma obsessão com a idéia da morte, do aniquilamento físico do homem. Esse problema de apógrafos não atinge só á obra de Gregório. Há uma boa quantidade de poemas de Quevedo e do próprio Gôngora que não foram publicados com assinatura, sobre os quais existe grande controvérsia.
P - Quando a posição ideológica do poeta contrária às instituições estabelecidas se afirma?
R - As pesquisas, inclusive realizadas pelo professor Fernando Peres, mostram que Gregório de Mattos ocupou cargos importantes na magistratura de Lisboa, o que para um brasileiro, na época, era de grande significado. Ele casou-se com a filha de um magistrado importante, o que deve ter facilitado seu acesso, mas não bastaria para que ele fosse nomeado magistrado em Lisboa. É no retorno ao Brasil que o lado satírico se aguça, embora atribuam a ele um poema escrito em Portugal chamado Marinicolas. Poderia afirmar com convicção, pelo estudo que fiz, que o Gregório importante para a literatura brasileira nasce com a volta à Bahia. Há uma mudança na sua conduta de vida, concepção de mundo e nas suas relações sociais. Ele começa a ser o homem que ia com os amigos fazer grandes caçadas e farras no Recôncavo, ou nos bairros afastados de Salvador daquela época - Brotas, Rio Vermelho... - nomeados na poesia dele. Passa a atacar os padres, os representantes do poder constituído, as relações econômicas Brasil-Portugal . Era um homem de família rica, mas um produtor rural brasileiro prejudicado pela política portuguesa. Em alguns poemas, ele denuncia inclusive que as naus de Portugal vinham cheias de pedras e voltavam abarrotadas com as riquezas da terra. Até por esse aspecto sua poesia é importante, porque já revela uma certa consciência anti-colonialista se formando nas elites econômicas brasileiras da época. Muitos críticos dizem que Gregório não tinha sentimento patriótico. Como nós temos hoje em dia, certamente n
(entrevista concedida ao jornal A Tarde)
O historiador e poeta Fernando da Rocha Peres, aborda adiante, em entrevista, fatos documentados e lendas relativas a Gregório de Mattos e Guerra, revelando que aaproximação temática entre a obra do poeta doséculo XVII e a do seu contemporâneo, o padre Antônio Vieira, será tema de seus próximos estudos.
P - Ao que parece, novos dados biográficos sobre Gregório de Mattos estão condicionados ao aparecimento de novos documentos. Por que alguns registros-chave, como o de batismo e óbito do poeta não são encontrados?
R - As lacunas sobre a vida de Gregório de Mattos de certo modo já foram preenchidas, quando fiz a revisão da biografia escrita no século XVIII por Manuel Pereira Rabelo. Se estes dados, de registro de nascimento e óbito, não foram encontrados é porque essa documentação deve ter perecido. A certidão de batismo deveria estar aqui, no arquivo da cúria metropolitana, e hoje não se encontra mais. O registro de óbito deveria estar em Recife, onde ele faleceu. Eu estive pesquisando aqui na Bahia, em Pernambuco, em Portugal e o que pude encontrar sobre Gregório de Mattos foi, como disse Antônio Houaiss, o suficiente para uma reescritura da biografia do poeta. Creio que a data de nascimento e a de morte já estão suficientemente fixadas.
P - Nestes 13 anos desde a publicação da revisão biográfica de Gregório de Mattos, de sua autoria, surgiram muitos dados novos?
O que poderia ser acrescentado em uma nova edição?
R - Esses fatos novos já surgiram e foram acrescentados em outras publicações que fiz. Alguns documentos estão, como costumo dizer, na encubadora, porque, em verdade, um trabalho em cima de fontes primárias é um trabalho lento. Temos que checar as informações documentais de todas as maneiras possíveis. De 1983 para cá, muita coisa já foi acrescentada. Por exemplo, o fato de Gregório de Mattos ter sido provedor da Santa Casa de Misericórdia de uma vila portuguesa, Alcácias do Sal, onde ele foi juiz de fora. A descoberta de uma terceira sentença dele, publicada pelo jurista do século XVII Emanuel Alvares Pegas. O levantamento que fiz mais sistemático sobre a família extensiva do poeta, da questão referente ao processo inquisitorial contra ele, de 1685. Todos esses dados serão acrescidos a uma nova edição ou, quem sabe, a um desenho novo do poeta.
P - Que tipo de documentação se encontra no Brasil? Há informações sobre a passagem do poeta no Colégio da Bahia, dos jesuítas?
R - Infelizmente não existe nada, porque quando os jesuítas saíram daqui, no século XVIII, deixaram a biblioteca e o arquivo. Vilhena, cronista da Bahia do século XVIII, nos informa que os papéis do colégio foram vendidos para serem usados como embrulho de gêneros na área do Terreiro de Jesus e no Pelourinho. Toda documentação primária, levantei basicamente em Portugal, em Coimbra e em Lisboa. Há aqui um registro no arquivo da Santa Casa da Misericórdia da Bahia, quando ele entrou para irmão da Santa Casa. Este é o único documento primário. As outras informações relativas a Gregório existentes na Bahia estão, algumas delas, publicadas nas atas e cartas da Câmara da Cidade do Salvador, hoje a Câmara de Vereadores. Há muita informação sobre ele, que foi procurador da Bahia, defendeu os interesses dos proprietários de engenho de cana e defendeu o quanto pode a criação de uma universidade na Bahia, no século XVII. Registros não só dele, também de seu pai, avô, e irmãos estavam em documentos cujos originais já não existem mais, mas por sorte foram publicados pela Prefeitura Municipal da Cidade de Salvador.
P - E sobre o magistrado Gregorio de Mattos?
R - Sobre o juiz de fora, juiz do cível, representante do Brasil nas cortes, há documentação em elementos da língua espanhola, vocábulos africanos, indígenas e do português falado no Brasil, são traços particulares do poeta?
R - Gregório de Mattos usou sobretudo os termos indígenas e africanos no sentido pejorativo, para estabelecer uma comparação negativa com determinados elementos importantes da sociedade baiana da época, que se davam ares de grande destaque. Quando utiliza esse vocabulário - que enriquece muito sua poesia - o faz com o sentido satírico e não com a preocupação barroca de acrescentar elementos múltiplos à criação. Mas ele realmente ampliou os meios expressionais da poesia barroca do Brasil, pela incorporação de vocábulos indígenas e africanos.
P - Para o crítico, torna-se difícil se desvencilhar da personalidade de Gregório para concentrar-se numa análise que se detenha no texto, ou mesmo intertextual?
R - A obra de Gregório de Mattos sobreviveu através de apógrafos. Não há um único poema assinado por Gregório entre os mais de 700 que James Amado reuniu nos sete volumes da edição das obras completas. Aspectos da vida do poeta se harmonizam com a visão satírica que os poemas revelam. Na mesma época, existiram poetas dessa linha satírica, cuja linguagem se aproxima muito da de Gregório de Mattos. Mas, certas situações só poderiam ter sido vividas por um poeta satírico que aqui estivesse radicado.
Saber, por exemplo, que ele foi demitido do cargo de tesoureiro da Sé, pouco depois de chegar à Bahia, lança luz sobre o fato dele ter uma aversão profunda pelo clero. As informações biográficas estabelecem certos nexos que ajudam a compreender a poesia satírica de Gregório de Mattos e conceber que realmente um poeta como ele a escreveu. O estilo de época era muito universal, os procedimentos poéticos do barroco, os recursos retóricos, os tropos eram uniformes entre a poesia portuguesa, a castelhana e, naturalmente, a poesia brasileira, da época. Esta recebia influência natural, um processo normal de intertextualidade, das duas outras - sobretudo da poesia castelhana, que influênciou também poesia portuguesa. O gongorismo foi avassalador. Já o quevedismo é a particularidade satírica de Gregório de Mattos. Embora Quevedo tivesse, por exemplo, escrito poemas de uma inquietação religiosa, sobretudo uma obsessão com a idéia da morte, do aniquilamento físico do homem. Esse problema de apógrafos não atinge só á obra de Gregório. Há uma boa quantidade de poemas de Quevedo e do próprio Gôngora que não foram publicados com assinatura, sobre os quais existe grande controvérsia.
P - Quando a posição ideológica do poeta contrária às instituições estabelecidas se afirma?
R - As pesquisas, inclusive realizadas pelo professor Fernando Peres, mostram que Gregório de Mattos ocupou cargos importantes na magistratura de Lisboa, o que para um brasileiro, na época, era de grande significado. Ele casou-se com a filha de um magistrado importante, o que deve ter facilitado seu acesso, mas não bastaria para que ele fosse nomeado magistrado em Lisboa. É no retorno ao Brasil que o lado satírico se aguça, embora atribuam a ele um poema escrito em Portugal chamado Marinicolas. Poderia afirmar com convicção, pelo estudo que fiz, que o Gregório importante para a literatura brasileira nasce com a volta à Bahia. Há uma mudança na sua conduta de vida, concepção de mundo e nas suas relações sociais. Ele começa a ser o homem que ia com os amigos fazer grandes caçadas e farras no Recôncavo, ou nos bairros afastados de Salvador daquela época - Brotas, Rio Vermelho... - nomeados na poesia dele. Passa a atacar os padres, os representantes do poder constituído, as relações econômicas Brasil-Portugal . Era um homem de família rica, mas um produtor rural brasileiro prejudicado pela política portuguesa. Em alguns poemas, ele denuncia inclusive que as naus de Portugal vinham cheias de pedras e voltavam abarrotadas com as riquezas da terra. Até por esse aspecto sua poesia é importante, porque já revela uma certa consciência anti-colonialista se formando nas elites econômicas brasileiras da época. Muitos críticos dizem que Gregório não tinha sentimento patriótico. Como nós temos hoje em dia, certamente n
1 829
Otávio Ramos
Retratos do Brasil
São Paulo (SP)
Quinze milhões e meio de capiaus juntos.
Sendo alguns capiais de vanguarda.
E outros doutorados pela USP.
Rio de Janeiro (RJ)
Os nossos nordestinos são melhores
do que os nordestinos dos outros.
Salvador (BA)
Escritores bermudam no litoral sensual.
Caro escritor:
Nesse calor você merece uma cerveja.
Curitiba (PR)
Pinhais.
Pôsters do polonês papa em plena pólis.
Paredes. Prateleiras. Penteadeiras.
Papa-ceia. Papa-fila. Papa-defunto.
Papada.
Belo Horizonte (MG)
O novo Shopping-center rouba
meninas bonitas do
ônibus que vai para a Universidade.
Quinze milhões e meio de capiaus juntos.
Sendo alguns capiais de vanguarda.
E outros doutorados pela USP.
Rio de Janeiro (RJ)
Os nossos nordestinos são melhores
do que os nordestinos dos outros.
Salvador (BA)
Escritores bermudam no litoral sensual.
Caro escritor:
Nesse calor você merece uma cerveja.
Curitiba (PR)
Pinhais.
Pôsters do polonês papa em plena pólis.
Paredes. Prateleiras. Penteadeiras.
Papa-ceia. Papa-fila. Papa-defunto.
Papada.
Belo Horizonte (MG)
O novo Shopping-center rouba
meninas bonitas do
ônibus que vai para a Universidade.
890
Pedro de Alcântara
A Imperatriz
Corda que estala em harpa mal tangida,
Assim te vais, ó doce companheira
Da fortuna e do exílio, verdadeira
Metade de minhalma entristecida.
De augusto e velho tronco, haste partida
E transplantada à terra brasileira,
Lá te fizeste à sombra hospitaleira
Em que todo o infortúnio achou guarida.
Feriu-te a ingratidão no seu delírio;
Caíste; e eu fico a sós neste abandono,
Do teu sepulcro vacilante círio.
Como foste feliz! Dorme o teu sono.
Mãe do povo, acabou-se-te o martírio;
Filha de reis, ganhaste um grande trono!
Assim te vais, ó doce companheira
Da fortuna e do exílio, verdadeira
Metade de minhalma entristecida.
De augusto e velho tronco, haste partida
E transplantada à terra brasileira,
Lá te fizeste à sombra hospitaleira
Em que todo o infortúnio achou guarida.
Feriu-te a ingratidão no seu delírio;
Caíste; e eu fico a sós neste abandono,
Do teu sepulcro vacilante círio.
Como foste feliz! Dorme o teu sono.
Mãe do povo, acabou-se-te o martírio;
Filha de reis, ganhaste um grande trono!
1 950
Pe. Osvaldo Chaves
Sonho Medieval
Véspera de São José. Em Fortaleza. No Ceará.
As duas torres magras da Prainha
Estiram os pescoços para cima:
Duas garrafas brancas cheias de luar!
São dois poetas hirtos, absortos no infinito,
Cismando à beira-mar!
E com os olhos perdidos na luz rala
Sonham o sonho medieval
Das grandes catedrais,
Essas catedrais monumentais
Que falando a linguagem
Das ogivas e dos vitrais
Só elas falavam;
Porque naquele tempo o homem
Só ouvia,
Só podia
Entender
o que falasse do grandioso,
Do que há de sublime
No ideal religioso.
E a Prainha está sonhando,
Tão satisfeita por julgar que abriga
O coração da Idade-Média orando!
E as sombras vão cada vez mais baixando...
E a igrejinha, tão linda,
Sonha ainda.
E no sonho levanta um dos seus dedos góticos
Cheios de escamas batidos pelo malho do luar:
Um dedo colegial, taful,
Borrado de tinta azul.
Um dedo sonâmbulo
Que ela põe na boca da noite de asas de jaçanã
Para ao mar reclamar
Um momento de pausa no seu rataplã!
E o mar se cala
Para ouvir a sua fala...
Então diante do silêncio sentinela,
Do silêncio vespertino,
Ele começa dando a palavra
Ao badalo solene dum grande sino,
O Centenário
Que entoa o hino
Milenário
Do universo cristão;
Assim
Para o coração
Da Idade-Média ouvir:
"Adágio, andante, allegro, largo, maestoso..."
E lentamente as badaladas pelo espaço lá se vão...
"Marziale" agora, "prestíssimo, scherzo, molt piano",
Vão também muito além do sentimento humano,
Lá para onde os sinos,
Mínúsculos,
Franzinos,
Da humana razão em vão badalarão!
Este além, porém, aonde elas vão
E a fé que tem o coração cristão
E a melodia que os ares corta, num frenesi,
São acordes sem nomes,
Alguma coisa de Carlos Gomes
No prelúdio do Guarani!
E o Centenário continua,
À luz da lua,
Dobrando, badalando, bimbalhando,
Desmanchando-se em hinos
Ao sonzinho infantil de mais três sinos
Argentinos,
Cristalinos,
Que pulam, pinotam, saracoteiam
Em tomo de si mesmos
De boca aberta, gritando,
Assombrados com o Centenário
Virando e revirando!
De fato
É tão grande o aparato
Daquele declamador de badaladas,
Que quando recita os seus poemas de bronze
Parece com uma boca escancarada
Que engoliu ferozmente o próprio corpo;
Uma boca enorme, colossal,
Cuja língua secou de tanto badalar
Contra os rígidos beiços de metal!
E a Prainha acordou do sonho medieval,
No dia seguinte,
Cheinha de fiéis do século vinte.
Fortaleza, março de 1946.
As duas torres magras da Prainha
Estiram os pescoços para cima:
Duas garrafas brancas cheias de luar!
São dois poetas hirtos, absortos no infinito,
Cismando à beira-mar!
E com os olhos perdidos na luz rala
Sonham o sonho medieval
Das grandes catedrais,
Essas catedrais monumentais
Que falando a linguagem
Das ogivas e dos vitrais
Só elas falavam;
Porque naquele tempo o homem
Só ouvia,
Só podia
Entender
o que falasse do grandioso,
Do que há de sublime
No ideal religioso.
E a Prainha está sonhando,
Tão satisfeita por julgar que abriga
O coração da Idade-Média orando!
E as sombras vão cada vez mais baixando...
E a igrejinha, tão linda,
Sonha ainda.
E no sonho levanta um dos seus dedos góticos
Cheios de escamas batidos pelo malho do luar:
Um dedo colegial, taful,
Borrado de tinta azul.
Um dedo sonâmbulo
Que ela põe na boca da noite de asas de jaçanã
Para ao mar reclamar
Um momento de pausa no seu rataplã!
E o mar se cala
Para ouvir a sua fala...
Então diante do silêncio sentinela,
Do silêncio vespertino,
Ele começa dando a palavra
Ao badalo solene dum grande sino,
O Centenário
Que entoa o hino
Milenário
Do universo cristão;
Assim
Para o coração
Da Idade-Média ouvir:
"Adágio, andante, allegro, largo, maestoso..."
E lentamente as badaladas pelo espaço lá se vão...
"Marziale" agora, "prestíssimo, scherzo, molt piano",
Vão também muito além do sentimento humano,
Lá para onde os sinos,
Mínúsculos,
Franzinos,
Da humana razão em vão badalarão!
Este além, porém, aonde elas vão
E a fé que tem o coração cristão
E a melodia que os ares corta, num frenesi,
São acordes sem nomes,
Alguma coisa de Carlos Gomes
No prelúdio do Guarani!
E o Centenário continua,
À luz da lua,
Dobrando, badalando, bimbalhando,
Desmanchando-se em hinos
Ao sonzinho infantil de mais três sinos
Argentinos,
Cristalinos,
Que pulam, pinotam, saracoteiam
Em tomo de si mesmos
De boca aberta, gritando,
Assombrados com o Centenário
Virando e revirando!
De fato
É tão grande o aparato
Daquele declamador de badaladas,
Que quando recita os seus poemas de bronze
Parece com uma boca escancarada
Que engoliu ferozmente o próprio corpo;
Uma boca enorme, colossal,
Cuja língua secou de tanto badalar
Contra os rígidos beiços de metal!
E a Prainha acordou do sonho medieval,
No dia seguinte,
Cheinha de fiéis do século vinte.
Fortaleza, março de 1946.
921
Raimundo Oswald Cavalcante Barroso
A Vida no Cárcere
A vida no cárcere é limitada.
Nosso corredor é bem estreito.
Apenas no sábado
temos visita.
Dela saímos
exaustos de tanto viver
a semana em poucas horas.
Nosso corredor é bem estreito.
Apenas no sábado
temos visita.
Dela saímos
exaustos de tanto viver
a semana em poucas horas.
920
Paulo F. Cunha
Solidão
Eu me examino na solidão ,
abro todos os contatos
comigo mesmo
Quantas vezes me envaideço ,
outras tantas me entristeço ,
com a visão que tenho de mim.
Ouço os ruídos da rua
que me arranham o corpo ,
que me ferem os tímpanos ,
que me apertam a cabeça
quando estou posto em solidão .
Os ruidos são tão claros
quanto escura a percepção
de mim mesmo .
Solidão é guerrear sem armadura ,
fazendo do coração a bomba
e da cabeça ,em riste , a lança .
Solidão , como te evito ,
solidão como te quero .
abro todos os contatos
comigo mesmo
Quantas vezes me envaideço ,
outras tantas me entristeço ,
com a visão que tenho de mim.
Ouço os ruídos da rua
que me arranham o corpo ,
que me ferem os tímpanos ,
que me apertam a cabeça
quando estou posto em solidão .
Os ruidos são tão claros
quanto escura a percepção
de mim mesmo .
Solidão é guerrear sem armadura ,
fazendo do coração a bomba
e da cabeça ,em riste , a lança .
Solidão , como te evito ,
solidão como te quero .
769
Raimundo Oswald Cavalcante Barroso
Lembrança
A lua te recordará
a branca noite
em que ela se despiu
e, vermelha,
se fez cúmplice
do nosso amor.
O mar te lembrará
nosso costume
de caminhar nas tardes
até o horizonte,
pois que o mar
também é cúmplice
dos namorados distantes.
E quando vires, amor,
num vão de céu
uma estrela,
tu não chorarás,
porque, então,
aprenderás o meu caminho.
Mas, quando o povo
andar triste pelos becos,
tu saberás do meu luto
e sentirás a dor
da dura separação.
Porém, se a multidão
ensaiar um canto,
tu saberás do meu riso
e nela me encontrarás.
a branca noite
em que ela se despiu
e, vermelha,
se fez cúmplice
do nosso amor.
O mar te lembrará
nosso costume
de caminhar nas tardes
até o horizonte,
pois que o mar
também é cúmplice
dos namorados distantes.
E quando vires, amor,
num vão de céu
uma estrela,
tu não chorarás,
porque, então,
aprenderás o meu caminho.
Mas, quando o povo
andar triste pelos becos,
tu saberás do meu luto
e sentirás a dor
da dura separação.
Porém, se a multidão
ensaiar um canto,
tu saberás do meu riso
e nela me encontrarás.
797
Pêro de Andrade Caminha
Epístola XVIII
Queixo-me, douro Andrade, duns indoutos
Que o que às vezes lêem mal, pior entendem,
Querem julgar como se fossem doutos.
Tão facilmente a seu gosto repreendem
As vigílias alheias, que eu me espanto
Como eles de si mesmos não se ofendem.
O verso ou mau ou bom, o escrito, ou canto
Que o espírito custa estudo, e tempo, e lima
Julgam como que não custassem tanto.
A livre prosa ou obrigada rima
Por seu juízo e só entendimento
Assim a têm em desprezo, assim em estima.
Se lhes perguntas pelo fundamento,
Respondem só, que bem não lhes parece.
Querem que obrigue o seu contentamento.
Que me dizes, Francisco, a quem conhece
O mundo por tão raro, e em cujo espírito
Apolo claramente se enriquece?
Com quais julgas que deve ser escrito
Aquele de juízo tão ousado,
Que quer assim julgar o alheio escrito?
O sisudo, o prudente, o atentado,
O douto, antes que julgue tudo atenta,
Por não ser seu juízo mal julgado.
Ante os olhos primeiro representa
A obrigação do verso, e a natureza,
Vê se ofende a invenção, ou se contenta.
Com livre espírito nota, e com pureza
Os conceitos, as frases, as figuras,
E se na língua tem cópia ou pobreza.
Se as palavras são próprias, se são puras,
Se as busca claras para o que pretende,
Ou se ásperas, difíciles, e escuras.
O decoro se o guarda, ou se o entende,
E se matéria é bem ou mal seguida,
Se abranda, ou afeiçoa, ou move, e acende.
Se toma imitação bem escolhida,
Se o estilo é sempre grave, ou sempre brando,
Se a sentença a bom tempo, ou mau trazida.
Se se vai longamente dilatando,
Ou se diz o que quer tão brevemente
Que ou não se entende bem, ou vai cansando.
Quem tudo isto, Francisco, nota, e sente
Com claríssimo juízo, e peito puro,
E o mais que enjeita a musa, e o que consente;
Julgue, ria, repreenda, e este seguro
Que deve inteiramente de ser crido,
E eu, destes sós espíritos trato, e curo.
Destes quero ser antes repreendido,
Destes como tu és, ó raro Andrade,
Que dos outros louvado e recebido.
Aprende-se com estes a verdade
Do que Apolo promete, e a musa ensina,
A quem dá a repreensão autoridade.
O espírito que não voa, nem atina
O bem, ou mal do que se canta, e escreve,
Quando bem, ou mal julga desatina.
Se dá razão, mais fria a dá que neve,
Sem fundamento louva, e assim reprova,
Quem em juízo apressado à razão leve.
A repreensão no mundo não é nova,
Mas quem melhor entende, mais de espaço
O mau repreende, ou o melhor aprova.
Têm as línguas agudas mais que daço
Estes que querem ser graves censores,
Se lhes armas, caem logo em qualquer laço.
Juízos vãos, indoutos repreensores,
Não sofrem musas ser assim tratadas,
Nem recebem de vós inda louvores.
Tende-os guardados, tende bem guardadas
As leves repreensões que usais em tudo,
Para as coisas das musas não tocadas.
Sem elas todo peito há de mudo,
E raríssimo aquele, antes só, peito
Que não se deva ant elas chamar rudo.
Seja meu verso, sem nenhum respeito
Daqueles, a que Febo maior parte
Tem de si dado, ou repreendido, ou aceito.
Seja de ti, Francisco, que guardar-te
Quis par honra da musa portuguesa,
E para entre os mais raros mais mostrar-te.
Tu segue confiado aquela empresa
Que tão felicemente começaste,
Segue-a com pronto espírito, e alma acesa,
A vitória Caríssima que achaste,
Digna do raro engenho que em tudo usas,
E usaste sempre em tudo o que cantaste;
Confiado em teu conselho, e no das musas
A segue, e em tua lima, e espírito claro,
E assim mais haverá espantos que escusas
Em teu verso, e em teu canto douto e raro.
Que o que às vezes lêem mal, pior entendem,
Querem julgar como se fossem doutos.
Tão facilmente a seu gosto repreendem
As vigílias alheias, que eu me espanto
Como eles de si mesmos não se ofendem.
O verso ou mau ou bom, o escrito, ou canto
Que o espírito custa estudo, e tempo, e lima
Julgam como que não custassem tanto.
A livre prosa ou obrigada rima
Por seu juízo e só entendimento
Assim a têm em desprezo, assim em estima.
Se lhes perguntas pelo fundamento,
Respondem só, que bem não lhes parece.
Querem que obrigue o seu contentamento.
Que me dizes, Francisco, a quem conhece
O mundo por tão raro, e em cujo espírito
Apolo claramente se enriquece?
Com quais julgas que deve ser escrito
Aquele de juízo tão ousado,
Que quer assim julgar o alheio escrito?
O sisudo, o prudente, o atentado,
O douto, antes que julgue tudo atenta,
Por não ser seu juízo mal julgado.
Ante os olhos primeiro representa
A obrigação do verso, e a natureza,
Vê se ofende a invenção, ou se contenta.
Com livre espírito nota, e com pureza
Os conceitos, as frases, as figuras,
E se na língua tem cópia ou pobreza.
Se as palavras são próprias, se são puras,
Se as busca claras para o que pretende,
Ou se ásperas, difíciles, e escuras.
O decoro se o guarda, ou se o entende,
E se matéria é bem ou mal seguida,
Se abranda, ou afeiçoa, ou move, e acende.
Se toma imitação bem escolhida,
Se o estilo é sempre grave, ou sempre brando,
Se a sentença a bom tempo, ou mau trazida.
Se se vai longamente dilatando,
Ou se diz o que quer tão brevemente
Que ou não se entende bem, ou vai cansando.
Quem tudo isto, Francisco, nota, e sente
Com claríssimo juízo, e peito puro,
E o mais que enjeita a musa, e o que consente;
Julgue, ria, repreenda, e este seguro
Que deve inteiramente de ser crido,
E eu, destes sós espíritos trato, e curo.
Destes quero ser antes repreendido,
Destes como tu és, ó raro Andrade,
Que dos outros louvado e recebido.
Aprende-se com estes a verdade
Do que Apolo promete, e a musa ensina,
A quem dá a repreensão autoridade.
O espírito que não voa, nem atina
O bem, ou mal do que se canta, e escreve,
Quando bem, ou mal julga desatina.
Se dá razão, mais fria a dá que neve,
Sem fundamento louva, e assim reprova,
Quem em juízo apressado à razão leve.
A repreensão no mundo não é nova,
Mas quem melhor entende, mais de espaço
O mau repreende, ou o melhor aprova.
Têm as línguas agudas mais que daço
Estes que querem ser graves censores,
Se lhes armas, caem logo em qualquer laço.
Juízos vãos, indoutos repreensores,
Não sofrem musas ser assim tratadas,
Nem recebem de vós inda louvores.
Tende-os guardados, tende bem guardadas
As leves repreensões que usais em tudo,
Para as coisas das musas não tocadas.
Sem elas todo peito há de mudo,
E raríssimo aquele, antes só, peito
Que não se deva ant elas chamar rudo.
Seja meu verso, sem nenhum respeito
Daqueles, a que Febo maior parte
Tem de si dado, ou repreendido, ou aceito.
Seja de ti, Francisco, que guardar-te
Quis par honra da musa portuguesa,
E para entre os mais raros mais mostrar-te.
Tu segue confiado aquela empresa
Que tão felicemente começaste,
Segue-a com pronto espírito, e alma acesa,
A vitória Caríssima que achaste,
Digna do raro engenho que em tudo usas,
E usaste sempre em tudo o que cantaste;
Confiado em teu conselho, e no das musas
A segue, e em tua lima, e espírito claro,
E assim mais haverá espantos que escusas
Em teu verso, e em teu canto douto e raro.
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