Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
José Bonifácio de Andrada e Silva
Ode aos Baianos
Altiva musa, ó tu que nunca incenso
Queimaste em nobre altar ao despotismo;
Nem insanos encômios proferiste
De cruéis demagogos;
Ambição de poder, orgulho e fausto
Que os servis amam tanto, nunca, ó musa,
Acenderam teu estro — a só virtude
Soube inspirar louvores.
Na abóbada do templo da memória
Nunca comprados cantos retumbaram:
Ali! vem, ó musa, vem: na lira doiro
Não cantarei horrores.
Arbitrária fortuna! desprezível
Mais quessas almas vis, que a ti se humilham,
Prosterne-se a teus pés o Brasil todo;
Eu, nem curvo o joelho.
Beijem o pé que esmaga, a mão que açoita
Escravos nados, sem saber, sem brio;
Que o bárbaro Tapuia, deslumbrado,
O deus do mal adora.
Não — reduzir-me a pó, roubar-me tudo,
Porém nunca aviltar-me pode o fado;
Quem a morte não teme, nada teme
Eu nisto só confio.
Inchado do poder, de orgulho e sanha,
Treme o vizir, se o grão-senhor carrega,
Porque mal digeriu, sobrolho iroso,
Ou mal dormiu a sesta.
Embora nos degraus do excelso trono
Rasteje a lesma para ver se abate
A virtude que odeia — a mim me alenta
Do que valho a certeza.
E vós também, BAIANOS, desprezastes
Ameaças, carinhos — desfizestes
As cabalas, que pérfidos urdiram
Inda no meu desterro.
Duas vezes, BAIANOS, me escolhestes
Para a voz levantar a pró da pátria
Na assembléia geral; mas duas vezes
Foram baldados votos.
Porém enquanto me animar o peito
Este sopro de vida, que inda dura,
O nome da BAHIA, agradecido,
Repetirei com júbilo.
Amei a liberdade, e a independência
Da doce cara pátria, a quem o Luso
Oprimia sem dó, com riso e mofa —
Eis o meu crime todo.
Cingida a fronte de sangüentos loiros,
Horror jamais inspirará meu nome;
Nunca a viúva há de pedir-me esposo,
Nem seu pai a criança.
Nunca aspirei a flagelar humanos —
Meu nome acabe, para sempre acabe,
Se para o libertar do eterno olvido
Forem precisos crimes.
Morrerei no desterro em terra estranha,
Que no Brasil só vis escravos medram —
Para mim o Brasil não é mais pátria,
Pois faltou a justiça.
Vales e serras, altas matas, rios,
Nunca mais vos verei — sonhei outrora
Poderia entre vós morrer contente;
Mas não — monstros o vedam.
Não verei mais a viração suave
Parar o aéreo vôo, e de mil flores
Roubar aromas, e brincar travessa
Co trêmulo raminho.
Oh! país sem igual, país mimoso!
Se habitassem em ti sabedoria,
Justiça, altivo brio, que enobrecem
Dos homens a existência;
De estranha emolução aceso o peito,
Lá me ia formando a fantasia
Projetos vil para vencer vil ócio,
Para criar prodígios!
Jardins, vergéis, umbrosas alamedas,
Frescas grutas então, piscosos lagos,
E pingues campos, sempre verdes prados
Um novo Éden fariam.
Doces visões! fugi! — ferinas almas
Querem que em França um desterrado morra:
Já vejo o gênio da certeira morte
Ir afiando a foice.
Galicana donzela, lacrimosa,
Trajando roupas lutuosas longas,
De meu pobre sepulcro a tosca loisa
Só cobrirá de flores.
Que o Brasil inclemente (ingrato ou fraco)
As minhas cinzas um buraco nega:
Talvez tempo virá que inda pranteie
Por mim com dor pungente.
Exulta, velha Europa: o novo Império,
Obra-prima do Céu! por fado ímpio
Não será mais o teu rival ativo
Em comércio e marinha.
Aquele, que gigante inda no berço
Se mostrava às nações, no berço mesmo
É já cadáver de cruéis harpias,
De malfazejas fúrias.
Como, ó Deus! que portento! a Urânia Vênus
Ante mim se apresenta? Riso meigo
Banha-me a linda boca, que escurece
Fino coral nas cores.
"Eu consultei os fados, que não incutem
(Assim me fala piedosa a deusa):
"Das trevas surgirá sereno dia
"Para ti, para a pátria.
"O constante varão, que ama a virtude,
"Cos berros da borrasca não se assusta,
"Nem como folha de álamo rejeite
"Treme à face dos males.
"Escapaste a cachopos mil ocultos,
"Em que há de naufragar como até agora,
"Tanto áulico perverso — em França, amigo,
"Foi teu desterro um porto.
"Os teus BAIANOS, nobres e briosos,
"Gratos serão a quem lhes deu socorro
"Contra o bárbaro Luso, e a liberdade
"Meteu no solo escravo.
"Há de enfim essa gente generosa
"As trevas dissipar, salvar o Império;
"Por eles liberdade paz, justiça
"Serão nervos do Estado.
"Qual a palmeira que domina ufana
"Os altos topos da floresta espessa:
"Tal bem presto há de ser no mundo novo
"O Brasil bem-fadado.
"Em vão de paixões vis cruzados ramos
"Tentarão impedir do sol os raios —
"A luz vai penetrando a copa opaca;
"O chão brotará flores."
Calou-se então — voou. E as soltas tranças
Em torno espalham mil sabeus perfumes,
E os zéfiros as asas adejando
Vazam dos ares rosas.
Queimaste em nobre altar ao despotismo;
Nem insanos encômios proferiste
De cruéis demagogos;
Ambição de poder, orgulho e fausto
Que os servis amam tanto, nunca, ó musa,
Acenderam teu estro — a só virtude
Soube inspirar louvores.
Na abóbada do templo da memória
Nunca comprados cantos retumbaram:
Ali! vem, ó musa, vem: na lira doiro
Não cantarei horrores.
Arbitrária fortuna! desprezível
Mais quessas almas vis, que a ti se humilham,
Prosterne-se a teus pés o Brasil todo;
Eu, nem curvo o joelho.
Beijem o pé que esmaga, a mão que açoita
Escravos nados, sem saber, sem brio;
Que o bárbaro Tapuia, deslumbrado,
O deus do mal adora.
Não — reduzir-me a pó, roubar-me tudo,
Porém nunca aviltar-me pode o fado;
Quem a morte não teme, nada teme
Eu nisto só confio.
Inchado do poder, de orgulho e sanha,
Treme o vizir, se o grão-senhor carrega,
Porque mal digeriu, sobrolho iroso,
Ou mal dormiu a sesta.
Embora nos degraus do excelso trono
Rasteje a lesma para ver se abate
A virtude que odeia — a mim me alenta
Do que valho a certeza.
E vós também, BAIANOS, desprezastes
Ameaças, carinhos — desfizestes
As cabalas, que pérfidos urdiram
Inda no meu desterro.
Duas vezes, BAIANOS, me escolhestes
Para a voz levantar a pró da pátria
Na assembléia geral; mas duas vezes
Foram baldados votos.
Porém enquanto me animar o peito
Este sopro de vida, que inda dura,
O nome da BAHIA, agradecido,
Repetirei com júbilo.
Amei a liberdade, e a independência
Da doce cara pátria, a quem o Luso
Oprimia sem dó, com riso e mofa —
Eis o meu crime todo.
Cingida a fronte de sangüentos loiros,
Horror jamais inspirará meu nome;
Nunca a viúva há de pedir-me esposo,
Nem seu pai a criança.
Nunca aspirei a flagelar humanos —
Meu nome acabe, para sempre acabe,
Se para o libertar do eterno olvido
Forem precisos crimes.
Morrerei no desterro em terra estranha,
Que no Brasil só vis escravos medram —
Para mim o Brasil não é mais pátria,
Pois faltou a justiça.
Vales e serras, altas matas, rios,
Nunca mais vos verei — sonhei outrora
Poderia entre vós morrer contente;
Mas não — monstros o vedam.
Não verei mais a viração suave
Parar o aéreo vôo, e de mil flores
Roubar aromas, e brincar travessa
Co trêmulo raminho.
Oh! país sem igual, país mimoso!
Se habitassem em ti sabedoria,
Justiça, altivo brio, que enobrecem
Dos homens a existência;
De estranha emolução aceso o peito,
Lá me ia formando a fantasia
Projetos vil para vencer vil ócio,
Para criar prodígios!
Jardins, vergéis, umbrosas alamedas,
Frescas grutas então, piscosos lagos,
E pingues campos, sempre verdes prados
Um novo Éden fariam.
Doces visões! fugi! — ferinas almas
Querem que em França um desterrado morra:
Já vejo o gênio da certeira morte
Ir afiando a foice.
Galicana donzela, lacrimosa,
Trajando roupas lutuosas longas,
De meu pobre sepulcro a tosca loisa
Só cobrirá de flores.
Que o Brasil inclemente (ingrato ou fraco)
As minhas cinzas um buraco nega:
Talvez tempo virá que inda pranteie
Por mim com dor pungente.
Exulta, velha Europa: o novo Império,
Obra-prima do Céu! por fado ímpio
Não será mais o teu rival ativo
Em comércio e marinha.
Aquele, que gigante inda no berço
Se mostrava às nações, no berço mesmo
É já cadáver de cruéis harpias,
De malfazejas fúrias.
Como, ó Deus! que portento! a Urânia Vênus
Ante mim se apresenta? Riso meigo
Banha-me a linda boca, que escurece
Fino coral nas cores.
"Eu consultei os fados, que não incutem
(Assim me fala piedosa a deusa):
"Das trevas surgirá sereno dia
"Para ti, para a pátria.
"O constante varão, que ama a virtude,
"Cos berros da borrasca não se assusta,
"Nem como folha de álamo rejeite
"Treme à face dos males.
"Escapaste a cachopos mil ocultos,
"Em que há de naufragar como até agora,
"Tanto áulico perverso — em França, amigo,
"Foi teu desterro um porto.
"Os teus BAIANOS, nobres e briosos,
"Gratos serão a quem lhes deu socorro
"Contra o bárbaro Luso, e a liberdade
"Meteu no solo escravo.
"Há de enfim essa gente generosa
"As trevas dissipar, salvar o Império;
"Por eles liberdade paz, justiça
"Serão nervos do Estado.
"Qual a palmeira que domina ufana
"Os altos topos da floresta espessa:
"Tal bem presto há de ser no mundo novo
"O Brasil bem-fadado.
"Em vão de paixões vis cruzados ramos
"Tentarão impedir do sol os raios —
"A luz vai penetrando a copa opaca;
"O chão brotará flores."
Calou-se então — voou. E as soltas tranças
Em torno espalham mil sabeus perfumes,
E os zéfiros as asas adejando
Vazam dos ares rosas.
2 142
J. B. Sayeg
Máquina de Fazer Gorjeio
Eu já te disse
ele é um passarinho lento
toda manhã em nossa janela,
não lhe preste qualquer atenção,
para não criar nenhuma dependência,
pois um dia ele se acabará
como tudo nesta cidade se consome,
sobretudo, quando se sabe,
não é um pássaro,
mas um brinquedo de corda,
proferindo-se a senha, um estranho gorjeio
sai do mecanismo
querendo comunicar-se,
toda a vez que se vira a manivela.
(do livro Pantomimas e Animação, 1989).
ele é um passarinho lento
toda manhã em nossa janela,
não lhe preste qualquer atenção,
para não criar nenhuma dependência,
pois um dia ele se acabará
como tudo nesta cidade se consome,
sobretudo, quando se sabe,
não é um pássaro,
mas um brinquedo de corda,
proferindo-se a senha, um estranho gorjeio
sai do mecanismo
querendo comunicar-se,
toda a vez que se vira a manivela.
(do livro Pantomimas e Animação, 1989).
965
Ivan Junqueira
Palimpsesto
A Antônio Carlos Secchin
Eu vi um sábio numa esfera,
os olhos postos sobre os dédalos
de um hermético palimpsesto,
tatear as letras e as hipérboles
de um antiqüíssimo alfabeto.
Sob a grafia seca e austera
algo aflorava, mais secreto,
por entre grifos e quimeras,
como se um código babélico
em suas runas contivesse
tudo o que ali, durante séculos,
houvesse escrito a mão terrestre.
Sabia o sábio que o mistério
jamais emerge à flor da pele;
por isso, aos poucos, a epiderme
daquele códice amarelo
ia arrancando como pétalas
e, por debaixo, outros arquétipos
se articulavam, claras vértebras
de um esqueleto mais completo.
Sabia mais: que o que se escreve,
com a sinistra ou com a destra,
uma outra mão o faz na véspera,
e que o artista, em sua inépcia,
somente o crê quando o reescreve.
Depois tangeu, em tom profético:
"Nunca busqueis nessa odisséia
senão o anzol daquele nexo
que fisga o presente e o pretérito
entre os corais do palimpsesto."
E para espanto de um intérprete
que lhe bebia o mel do verbo,
pôs-se a brincar, dentro da esfera,
com duendes, górgonas e insetos.
Eu vi um sábio numa esfera,
os olhos postos sobre os dédalos
de um hermético palimpsesto,
tatear as letras e as hipérboles
de um antiqüíssimo alfabeto.
Sob a grafia seca e austera
algo aflorava, mais secreto,
por entre grifos e quimeras,
como se um código babélico
em suas runas contivesse
tudo o que ali, durante séculos,
houvesse escrito a mão terrestre.
Sabia o sábio que o mistério
jamais emerge à flor da pele;
por isso, aos poucos, a epiderme
daquele códice amarelo
ia arrancando como pétalas
e, por debaixo, outros arquétipos
se articulavam, claras vértebras
de um esqueleto mais completo.
Sabia mais: que o que se escreve,
com a sinistra ou com a destra,
uma outra mão o faz na véspera,
e que o artista, em sua inépcia,
somente o crê quando o reescreve.
Depois tangeu, em tom profético:
"Nunca busqueis nessa odisséia
senão o anzol daquele nexo
que fisga o presente e o pretérito
entre os corais do palimpsesto."
E para espanto de um intérprete
que lhe bebia o mel do verbo,
pôs-se a brincar, dentro da esfera,
com duendes, górgonas e insetos.
1 540
Ivan Junqueira
Palimpsesto
A Antônio Carlos Secchin
Eu vi um sábio numa esfera,
os olhos postos sobre os dédalos
de um hermético palimpsesto,
tatear as letras e as hipérboles
de um antiqüíssimo alfabeto.
Sob a grafia seca e austera
algo aflorava, mais secreto,
por entre grifos e quimeras,
como se um código babélico
em suas runas contivesse
tudo o que ali, durante séculos,
houvesse escrito a mão terrestre.
Sabia o sábio que o mistério
jamais emerge à flor da pele;
por isso, aos poucos, a epiderme
daquele códice amarelo
ia arrancando como pétalas
e, por debaixo, outros arquétipos
se articulavam, claras vértebras
de um esqueleto mais completo.
Sabia mais: que o que se escreve,
com a sinistra ou com a destra,
uma outra mão o faz na véspera,
e que o artista, em sua inépcia,
somente o crê quando o reescreve.
Depois tangeu, em tom profético:
"Nunca busqueis nessa odisséia
senão o anzol daquele nexo
que fisga o presente e o pretérito
entre os corais do palimpsesto."
E para espanto de um intérprete
que lhe bebia o mel do verbo,
pôs-se a brincar, dentro da esfera,
com duendes, górgonas e insetos.
Eu vi um sábio numa esfera,
os olhos postos sobre os dédalos
de um hermético palimpsesto,
tatear as letras e as hipérboles
de um antiqüíssimo alfabeto.
Sob a grafia seca e austera
algo aflorava, mais secreto,
por entre grifos e quimeras,
como se um código babélico
em suas runas contivesse
tudo o que ali, durante séculos,
houvesse escrito a mão terrestre.
Sabia o sábio que o mistério
jamais emerge à flor da pele;
por isso, aos poucos, a epiderme
daquele códice amarelo
ia arrancando como pétalas
e, por debaixo, outros arquétipos
se articulavam, claras vértebras
de um esqueleto mais completo.
Sabia mais: que o que se escreve,
com a sinistra ou com a destra,
uma outra mão o faz na véspera,
e que o artista, em sua inépcia,
somente o crê quando o reescreve.
Depois tangeu, em tom profético:
"Nunca busqueis nessa odisséia
senão o anzol daquele nexo
que fisga o presente e o pretérito
entre os corais do palimpsesto."
E para espanto de um intérprete
que lhe bebia o mel do verbo,
pôs-se a brincar, dentro da esfera,
com duendes, górgonas e insetos.
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João Alexandre Júnior
Flúvio-Cosmo-Variantes
Há um mini-Jesus Cristo
inútil em minha cela
enquanto as apostas dobram:
— trinta dinheiros
na Besta do Apocalipse!
Passeio na dominical monotonia
pelos corredores do jornal:
— um Messias eletrônico
engenha novos furos
no cinturão de Von Hallen
em defesa da segurança nacional
da gravidez telúrica.
Maiakovsky reclama direitos autorais
(a verdade leninista
continua a mais vendida).
Nova estrela-arauto
reformula o comercial do Salvador
e em cadeia via Intelstar
anuncia à Aldeia Global:
...Pioneer acusa! ...Pioneer acusa!
Júpiter, a Outra Terra Prometida
...e a estrela é a salvação.
Clandestina felicidade de Clarisse,
sem rosto, branca, choca um ovo,
sem cor, sem promessa,
de síntese marxista.
Poesia faz Manchete
e os Campos abstratos
são o radical secreto do amor-tese
(fez-se do Paulo a síntese de mendigo).
inútil em minha cela
enquanto as apostas dobram:
— trinta dinheiros
na Besta do Apocalipse!
Passeio na dominical monotonia
pelos corredores do jornal:
— um Messias eletrônico
engenha novos furos
no cinturão de Von Hallen
em defesa da segurança nacional
da gravidez telúrica.
Maiakovsky reclama direitos autorais
(a verdade leninista
continua a mais vendida).
Nova estrela-arauto
reformula o comercial do Salvador
e em cadeia via Intelstar
anuncia à Aldeia Global:
...Pioneer acusa! ...Pioneer acusa!
Júpiter, a Outra Terra Prometida
...e a estrela é a salvação.
Clandestina felicidade de Clarisse,
sem rosto, branca, choca um ovo,
sem cor, sem promessa,
de síntese marxista.
Poesia faz Manchete
e os Campos abstratos
são o radical secreto do amor-tese
(fez-se do Paulo a síntese de mendigo).
756
João Alexandre Júnior
Flúvio-Cosmo-Variantes
Há um mini-Jesus Cristo
inútil em minha cela
enquanto as apostas dobram:
— trinta dinheiros
na Besta do Apocalipse!
Passeio na dominical monotonia
pelos corredores do jornal:
— um Messias eletrônico
engenha novos furos
no cinturão de Von Hallen
em defesa da segurança nacional
da gravidez telúrica.
Maiakovsky reclama direitos autorais
(a verdade leninista
continua a mais vendida).
Nova estrela-arauto
reformula o comercial do Salvador
e em cadeia via Intelstar
anuncia à Aldeia Global:
...Pioneer acusa! ...Pioneer acusa!
Júpiter, a Outra Terra Prometida
...e a estrela é a salvação.
Clandestina felicidade de Clarisse,
sem rosto, branca, choca um ovo,
sem cor, sem promessa,
de síntese marxista.
Poesia faz Manchete
e os Campos abstratos
são o radical secreto do amor-tese
(fez-se do Paulo a síntese de mendigo).
inútil em minha cela
enquanto as apostas dobram:
— trinta dinheiros
na Besta do Apocalipse!
Passeio na dominical monotonia
pelos corredores do jornal:
— um Messias eletrônico
engenha novos furos
no cinturão de Von Hallen
em defesa da segurança nacional
da gravidez telúrica.
Maiakovsky reclama direitos autorais
(a verdade leninista
continua a mais vendida).
Nova estrela-arauto
reformula o comercial do Salvador
e em cadeia via Intelstar
anuncia à Aldeia Global:
...Pioneer acusa! ...Pioneer acusa!
Júpiter, a Outra Terra Prometida
...e a estrela é a salvação.
Clandestina felicidade de Clarisse,
sem rosto, branca, choca um ovo,
sem cor, sem promessa,
de síntese marxista.
Poesia faz Manchete
e os Campos abstratos
são o radical secreto do amor-tese
(fez-se do Paulo a síntese de mendigo).
756
João Alexandre Júnior
Flúvio-Cosmo-Variantes
Há um mini-Jesus Cristo
inútil em minha cela
enquanto as apostas dobram:
— trinta dinheiros
na Besta do Apocalipse!
Passeio na dominical monotonia
pelos corredores do jornal:
— um Messias eletrônico
engenha novos furos
no cinturão de Von Hallen
em defesa da segurança nacional
da gravidez telúrica.
Maiakovsky reclama direitos autorais
(a verdade leninista
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Nova estrela-arauto
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e em cadeia via Intelstar
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...Pioneer acusa! ...Pioneer acusa!
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...e a estrela é a salvação.
Clandestina felicidade de Clarisse,
sem rosto, branca, choca um ovo,
sem cor, sem promessa,
de síntese marxista.
Poesia faz Manchete
e os Campos abstratos
são o radical secreto do amor-tese
(fez-se do Paulo a síntese de mendigo).
inútil em minha cela
enquanto as apostas dobram:
— trinta dinheiros
na Besta do Apocalipse!
Passeio na dominical monotonia
pelos corredores do jornal:
— um Messias eletrônico
engenha novos furos
no cinturão de Von Hallen
em defesa da segurança nacional
da gravidez telúrica.
Maiakovsky reclama direitos autorais
(a verdade leninista
continua a mais vendida).
Nova estrela-arauto
reformula o comercial do Salvador
e em cadeia via Intelstar
anuncia à Aldeia Global:
...Pioneer acusa! ...Pioneer acusa!
Júpiter, a Outra Terra Prometida
...e a estrela é a salvação.
Clandestina felicidade de Clarisse,
sem rosto, branca, choca um ovo,
sem cor, sem promessa,
de síntese marxista.
Poesia faz Manchete
e os Campos abstratos
são o radical secreto do amor-tese
(fez-se do Paulo a síntese de mendigo).
756
João Borges de Barros
Soneto
Tão brilhante não é quando amanhece
Do Sol, vencendo névoas, a luz pura,
Dissipando do Inverno a estação dura,
A Primavera tanto não floresce:
Como a luz que as idéias enriquece,
Como a pomba que os frutos assegura,
Nesta, que do descuido a sombra escura
Removendo, Academia hoje aparece.
Nasce pois, brilha já e o tempo avaro
Do progresso feliz nunca te prive,
Como já cometeu, Liceu preclaro,
Um númen mais sublime hoje revive,
Do luso Jove enfim no régio amparo,
Abre flor, Sol renasce, Fênix vive.
Do Sol, vencendo névoas, a luz pura,
Dissipando do Inverno a estação dura,
A Primavera tanto não floresce:
Como a luz que as idéias enriquece,
Como a pomba que os frutos assegura,
Nesta, que do descuido a sombra escura
Removendo, Academia hoje aparece.
Nasce pois, brilha já e o tempo avaro
Do progresso feliz nunca te prive,
Como já cometeu, Liceu preclaro,
Um númen mais sublime hoje revive,
Do luso Jove enfim no régio amparo,
Abre flor, Sol renasce, Fênix vive.
1 153
João Borges de Barros
Soneto
Tão brilhante não é quando amanhece
Do Sol, vencendo névoas, a luz pura,
Dissipando do Inverno a estação dura,
A Primavera tanto não floresce:
Como a luz que as idéias enriquece,
Como a pomba que os frutos assegura,
Nesta, que do descuido a sombra escura
Removendo, Academia hoje aparece.
Nasce pois, brilha já e o tempo avaro
Do progresso feliz nunca te prive,
Como já cometeu, Liceu preclaro,
Um númen mais sublime hoje revive,
Do luso Jove enfim no régio amparo,
Abre flor, Sol renasce, Fênix vive.
Do Sol, vencendo névoas, a luz pura,
Dissipando do Inverno a estação dura,
A Primavera tanto não floresce:
Como a luz que as idéias enriquece,
Como a pomba que os frutos assegura,
Nesta, que do descuido a sombra escura
Removendo, Academia hoje aparece.
Nasce pois, brilha já e o tempo avaro
Do progresso feliz nunca te prive,
Como já cometeu, Liceu preclaro,
Um númen mais sublime hoje revive,
Do luso Jove enfim no régio amparo,
Abre flor, Sol renasce, Fênix vive.
1 153
Jônatas Batista
A Aranha
Estende o fio fino e a fina trama tece
a diligente aranha, em contínuo labor.
E, a trabalhar, assim, naturalmente esquece
a atormentada lida — o sofrimento e a dor.
E vai e vem e volve e, em volteios, parece
que uma dansa executa, em medido rigor...
Por fim, se imobiliza ou finge que adormece,
à carícia da luz, no mórbido calor...
O cérebro trabalha: — O pensamento é a teia
que se estende, se liga e prende e se enrodeia
em torno dessa oculta e diligente aranha...
O poeta, em fios de ouro, as malhas urde e tece...
No labor que o fascina, a própria mágoa esquece
e a crias a sorrir, moscas de luz apanha...
a diligente aranha, em contínuo labor.
E, a trabalhar, assim, naturalmente esquece
a atormentada lida — o sofrimento e a dor.
E vai e vem e volve e, em volteios, parece
que uma dansa executa, em medido rigor...
Por fim, se imobiliza ou finge que adormece,
à carícia da luz, no mórbido calor...
O cérebro trabalha: — O pensamento é a teia
que se estende, se liga e prende e se enrodeia
em torno dessa oculta e diligente aranha...
O poeta, em fios de ouro, as malhas urde e tece...
No labor que o fascina, a própria mágoa esquece
e a crias a sorrir, moscas de luz apanha...
1 156
Myriam Fraga
Banquete
O vinho
que eu bebo
É o preço
De um homem.
O prato que eu como,
Sem fome,
É o salário
Da fome
De um homem.
Mas,
O sonho que eu travo
Com fúria nos dentes
É somente a metade
Do sonho
De um homem.
que eu bebo
É o preço
De um homem.
O prato que eu como,
Sem fome,
É o salário
Da fome
De um homem.
Mas,
O sonho que eu travo
Com fúria nos dentes
É somente a metade
Do sonho
De um homem.
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Myriam Fraga
Banquete
O vinho
que eu bebo
É o preço
De um homem.
O prato que eu como,
Sem fome,
É o salário
Da fome
De um homem.
Mas,
O sonho que eu travo
Com fúria nos dentes
É somente a metade
Do sonho
De um homem.
que eu bebo
É o preço
De um homem.
O prato que eu como,
Sem fome,
É o salário
Da fome
De um homem.
Mas,
O sonho que eu travo
Com fúria nos dentes
É somente a metade
Do sonho
De um homem.
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Myriam Fraga
Banquete
O vinho
que eu bebo
É o preço
De um homem.
O prato que eu como,
Sem fome,
É o salário
Da fome
De um homem.
Mas,
O sonho que eu travo
Com fúria nos dentes
É somente a metade
Do sonho
De um homem.
que eu bebo
É o preço
De um homem.
O prato que eu como,
Sem fome,
É o salário
Da fome
De um homem.
Mas,
O sonho que eu travo
Com fúria nos dentes
É somente a metade
Do sonho
De um homem.
1 135
J. B. Sayeg
No Tempo do Forte Verde
Na sala de jantar
um pouco acima
da cristaleira
o capacete da revolução.
E bem ao lado da terrina
de louça clara adornada
com frutos levemente esmaltados
o pente de balas de fuzil
espetava o dourado ocre do metal.
Foi quando olhei para a rua
e uma bandeira inflava levemente
ao ruflar de longínquos tambores.
Outra vez olhei para o interior
onde as mulheres costuravam.
Pude constatar que o verde
realmente era uma cor
muito forte.
( de Cavalos ao Sol, 1982)
um pouco acima
da cristaleira
o capacete da revolução.
E bem ao lado da terrina
de louça clara adornada
com frutos levemente esmaltados
o pente de balas de fuzil
espetava o dourado ocre do metal.
Foi quando olhei para a rua
e uma bandeira inflava levemente
ao ruflar de longínquos tambores.
Outra vez olhei para o interior
onde as mulheres costuravam.
Pude constatar que o verde
realmente era uma cor
muito forte.
( de Cavalos ao Sol, 1982)
954
J. B. Sayeg
No Tempo do Forte Verde
Na sala de jantar
um pouco acima
da cristaleira
o capacete da revolução.
E bem ao lado da terrina
de louça clara adornada
com frutos levemente esmaltados
o pente de balas de fuzil
espetava o dourado ocre do metal.
Foi quando olhei para a rua
e uma bandeira inflava levemente
ao ruflar de longínquos tambores.
Outra vez olhei para o interior
onde as mulheres costuravam.
Pude constatar que o verde
realmente era uma cor
muito forte.
( de Cavalos ao Sol, 1982)
um pouco acima
da cristaleira
o capacete da revolução.
E bem ao lado da terrina
de louça clara adornada
com frutos levemente esmaltados
o pente de balas de fuzil
espetava o dourado ocre do metal.
Foi quando olhei para a rua
e uma bandeira inflava levemente
ao ruflar de longínquos tambores.
Outra vez olhei para o interior
onde as mulheres costuravam.
Pude constatar que o verde
realmente era uma cor
muito forte.
( de Cavalos ao Sol, 1982)
954
J. B. Sayeg
No Tempo do Forte Verde
Na sala de jantar
um pouco acima
da cristaleira
o capacete da revolução.
E bem ao lado da terrina
de louça clara adornada
com frutos levemente esmaltados
o pente de balas de fuzil
espetava o dourado ocre do metal.
Foi quando olhei para a rua
e uma bandeira inflava levemente
ao ruflar de longínquos tambores.
Outra vez olhei para o interior
onde as mulheres costuravam.
Pude constatar que o verde
realmente era uma cor
muito forte.
( de Cavalos ao Sol, 1982)
um pouco acima
da cristaleira
o capacete da revolução.
E bem ao lado da terrina
de louça clara adornada
com frutos levemente esmaltados
o pente de balas de fuzil
espetava o dourado ocre do metal.
Foi quando olhei para a rua
e uma bandeira inflava levemente
ao ruflar de longínquos tambores.
Outra vez olhei para o interior
onde as mulheres costuravam.
Pude constatar que o verde
realmente era uma cor
muito forte.
( de Cavalos ao Sol, 1982)
954
Myriam Fraga
Minogram
Não te mires no espelho
Côncavo das virtudes.
Esquece o labirinto.
Não cogites,
Devora
Côncavo das virtudes.
Esquece o labirinto.
Não cogites,
Devora
1 271
João Álvares Soares
Soneto
Com troféu sempre augusto, e relevante
Se vence a si quem nunca foi vencido;
Que a vencer a Alexandre é bem sabido
Só Alexandre pode ser bastante
De todos vencedor sempre triunfante,
Para alcançar renome mais subido,
Deixa-se a si de si mesmo rendido
Vencendo a quem venceu sempre arrogante.
Modesto, continente, e recatado
Se absteve de Cupido ao tenro pranto
E sem ver deixa ao Cego desarmado:
Assim vence com digno e novo espanto,
A Marte, quando encara o rosto irado,
A Vênus, quando evita o doce encanto.
Se vence a si quem nunca foi vencido;
Que a vencer a Alexandre é bem sabido
Só Alexandre pode ser bastante
De todos vencedor sempre triunfante,
Para alcançar renome mais subido,
Deixa-se a si de si mesmo rendido
Vencendo a quem venceu sempre arrogante.
Modesto, continente, e recatado
Se absteve de Cupido ao tenro pranto
E sem ver deixa ao Cego desarmado:
Assim vence com digno e novo espanto,
A Marte, quando encara o rosto irado,
A Vênus, quando evita o doce encanto.
484
Ildásio Tavares
Glosa
Mote
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . ."
Gil Vicente
Houve tempo e sacrifício
Houve sonho e muita lida
Mas no trato do ofício
Só houve ilusões perdidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas... "
Há vozes que sempre falam
Na escura noite envolvidas
Mas todas vozes se calam
E se perdem diluídas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "
Nosso corpo fez-se estrume,
Nossas forças são tolhidas,
Nossa espada está sem gume,
Nossas dores repetidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas..."
Sempre à margem dos processos
Nossas bocas são retidas
Para nós só há inversos
Todas luzes são vendidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas.
Estruturas poderosas
Todas podres, corrompidas
Nos compram e vendem gulosas
Cada vez mais entupidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "
Nem sangue de muitas mortes
Nos trouxe a luz escondida,
Poderes sempre mais fortes
Nos levaram de vencida —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "
Nas trevas de há muito e tanto
Marchamos safras sofridas,
Amargando nosso canto
Em vozes enrouquecidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "
Distante brilha esperança
De promessas esquecidas;
Atrás ficou a lembrança
De derrotas cometidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . ."
Mas em cores diferentes
As danças serão corridas
Não pensem os poderosos
Que as almas nos têm vencidas
Somos muitos e teimosos
Nossas cabeças erguidas
Sob o fardo dos milênios
Marcham tenções decididas,
Várias faces, vários gênios,
todos faces retorcidas, —
Nós teremos a chegança
Será nossa a esperança,
Nós teremos nossas vidas.
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . ."
Gil Vicente
Houve tempo e sacrifício
Houve sonho e muita lida
Mas no trato do ofício
Só houve ilusões perdidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas... "
Há vozes que sempre falam
Na escura noite envolvidas
Mas todas vozes se calam
E se perdem diluídas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "
Nosso corpo fez-se estrume,
Nossas forças são tolhidas,
Nossa espada está sem gume,
Nossas dores repetidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas..."
Sempre à margem dos processos
Nossas bocas são retidas
Para nós só há inversos
Todas luzes são vendidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas.
Estruturas poderosas
Todas podres, corrompidas
Nos compram e vendem gulosas
Cada vez mais entupidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "
Nem sangue de muitas mortes
Nos trouxe a luz escondida,
Poderes sempre mais fortes
Nos levaram de vencida —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "
Nas trevas de há muito e tanto
Marchamos safras sofridas,
Amargando nosso canto
Em vozes enrouquecidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "
Distante brilha esperança
De promessas esquecidas;
Atrás ficou a lembrança
De derrotas cometidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . ."
Mas em cores diferentes
As danças serão corridas
Não pensem os poderosos
Que as almas nos têm vencidas
Somos muitos e teimosos
Nossas cabeças erguidas
Sob o fardo dos milênios
Marcham tenções decididas,
Várias faces, vários gênios,
todos faces retorcidas, —
Nós teremos a chegança
Será nossa a esperança,
Nós teremos nossas vidas.
1 147
Ildásio Tavares
Glosa
Mote
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . ."
Gil Vicente
Houve tempo e sacrifício
Houve sonho e muita lida
Mas no trato do ofício
Só houve ilusões perdidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas... "
Há vozes que sempre falam
Na escura noite envolvidas
Mas todas vozes se calam
E se perdem diluídas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "
Nosso corpo fez-se estrume,
Nossas forças são tolhidas,
Nossa espada está sem gume,
Nossas dores repetidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas..."
Sempre à margem dos processos
Nossas bocas são retidas
Para nós só há inversos
Todas luzes são vendidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas.
Estruturas poderosas
Todas podres, corrompidas
Nos compram e vendem gulosas
Cada vez mais entupidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "
Nem sangue de muitas mortes
Nos trouxe a luz escondida,
Poderes sempre mais fortes
Nos levaram de vencida —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "
Nas trevas de há muito e tanto
Marchamos safras sofridas,
Amargando nosso canto
Em vozes enrouquecidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "
Distante brilha esperança
De promessas esquecidas;
Atrás ficou a lembrança
De derrotas cometidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . ."
Mas em cores diferentes
As danças serão corridas
Não pensem os poderosos
Que as almas nos têm vencidas
Somos muitos e teimosos
Nossas cabeças erguidas
Sob o fardo dos milênios
Marcham tenções decididas,
Várias faces, vários gênios,
todos faces retorcidas, —
Nós teremos a chegança
Será nossa a esperança,
Nós teremos nossas vidas.
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . ."
Gil Vicente
Houve tempo e sacrifício
Houve sonho e muita lida
Mas no trato do ofício
Só houve ilusões perdidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas... "
Há vozes que sempre falam
Na escura noite envolvidas
Mas todas vozes se calam
E se perdem diluídas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "
Nosso corpo fez-se estrume,
Nossas forças são tolhidas,
Nossa espada está sem gume,
Nossas dores repetidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas..."
Sempre à margem dos processos
Nossas bocas são retidas
Para nós só há inversos
Todas luzes são vendidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas.
Estruturas poderosas
Todas podres, corrompidas
Nos compram e vendem gulosas
Cada vez mais entupidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "
Nem sangue de muitas mortes
Nos trouxe a luz escondida,
Poderes sempre mais fortes
Nos levaram de vencida —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "
Nas trevas de há muito e tanto
Marchamos safras sofridas,
Amargando nosso canto
Em vozes enrouquecidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "
Distante brilha esperança
De promessas esquecidas;
Atrás ficou a lembrança
De derrotas cometidas —
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . . "
"Nós somos vida das gentes
E morte de nossas vidas. . ."
Mas em cores diferentes
As danças serão corridas
Não pensem os poderosos
Que as almas nos têm vencidas
Somos muitos e teimosos
Nossas cabeças erguidas
Sob o fardo dos milênios
Marcham tenções decididas,
Várias faces, vários gênios,
todos faces retorcidas, —
Nós teremos a chegança
Será nossa a esperança,
Nós teremos nossas vidas.
1 147
Jaime Gralheiro
Fernão Mendes Pinto
Somos um povo de saltadores/poetas.
O salto/assalto é a nossa vocação.
De salto passámos as barreiras, as metas
Que vão desde as Berlengas, para além de Ceilão.
De salto vencemos Cabos,
Ultrapassámos Esperanças.
De salto perdemos Montes Pirinéus
E o alto mar!
De salto conquistámos Franças e Aranganças
E enfrentámos Deus
Com as mãos a abanar.
De salto voámos
Nas rotas do sonho.
De salto rastejámos
À procura do pão.
De salto chegamos,
De salto partimos os cornos
E ardemos nos fornos
Da Stª. Inquisição.
Foi o salto, o assalto,
Foi a estrada, o asfalto,
O carreiro, o mar alto
Que nos abriu a porta;
Foi o filho, foi a fome,
A mulher, o renome,
A vaidade dum "home";
Foi a nossa avó torta
Que não tinha na horta
Caldo para nos dar.
Foi o mar... Foi o mar...
Ai a cruz das caravelas,
Cruz da Stª. Inquisição,
Ai a cruz do Tormentório
Da pimenta e Mazagão.
Ai a cruz que nos puseram
Sexta-feira de paixão.
Ai a cruz que arrastamos
Mundo fora: este Calvário,
Sem Cirinéu nem sudário,
Que a ela nos deite a mão.
Ai a cruz! ai maldição!
Porque a terra nos negou
Um canto de amor e pão,
Eternamente metidos
Nesta vã "peregrinação"
Sempre atrás do vil metal,
Eu, Fernão Mendes Pinto,
Cheirando ao bagaço e ao tinto,
Eu é que sou
Portugal!
O salto/assalto é a nossa vocação.
De salto passámos as barreiras, as metas
Que vão desde as Berlengas, para além de Ceilão.
De salto vencemos Cabos,
Ultrapassámos Esperanças.
De salto perdemos Montes Pirinéus
E o alto mar!
De salto conquistámos Franças e Aranganças
E enfrentámos Deus
Com as mãos a abanar.
De salto voámos
Nas rotas do sonho.
De salto rastejámos
À procura do pão.
De salto chegamos,
De salto partimos os cornos
E ardemos nos fornos
Da Stª. Inquisição.
Foi o salto, o assalto,
Foi a estrada, o asfalto,
O carreiro, o mar alto
Que nos abriu a porta;
Foi o filho, foi a fome,
A mulher, o renome,
A vaidade dum "home";
Foi a nossa avó torta
Que não tinha na horta
Caldo para nos dar.
Foi o mar... Foi o mar...
Ai a cruz das caravelas,
Cruz da Stª. Inquisição,
Ai a cruz do Tormentório
Da pimenta e Mazagão.
Ai a cruz que nos puseram
Sexta-feira de paixão.
Ai a cruz que arrastamos
Mundo fora: este Calvário,
Sem Cirinéu nem sudário,
Que a ela nos deite a mão.
Ai a cruz! ai maldição!
Porque a terra nos negou
Um canto de amor e pão,
Eternamente metidos
Nesta vã "peregrinação"
Sempre atrás do vil metal,
Eu, Fernão Mendes Pinto,
Cheirando ao bagaço e ao tinto,
Eu é que sou
Portugal!
1 415
Jaime Gralheiro
Fernão Mendes Pinto
Somos um povo de saltadores/poetas.
O salto/assalto é a nossa vocação.
De salto passámos as barreiras, as metas
Que vão desde as Berlengas, para além de Ceilão.
De salto vencemos Cabos,
Ultrapassámos Esperanças.
De salto perdemos Montes Pirinéus
E o alto mar!
De salto conquistámos Franças e Aranganças
E enfrentámos Deus
Com as mãos a abanar.
De salto voámos
Nas rotas do sonho.
De salto rastejámos
À procura do pão.
De salto chegamos,
De salto partimos os cornos
E ardemos nos fornos
Da Stª. Inquisição.
Foi o salto, o assalto,
Foi a estrada, o asfalto,
O carreiro, o mar alto
Que nos abriu a porta;
Foi o filho, foi a fome,
A mulher, o renome,
A vaidade dum "home";
Foi a nossa avó torta
Que não tinha na horta
Caldo para nos dar.
Foi o mar... Foi o mar...
Ai a cruz das caravelas,
Cruz da Stª. Inquisição,
Ai a cruz do Tormentório
Da pimenta e Mazagão.
Ai a cruz que nos puseram
Sexta-feira de paixão.
Ai a cruz que arrastamos
Mundo fora: este Calvário,
Sem Cirinéu nem sudário,
Que a ela nos deite a mão.
Ai a cruz! ai maldição!
Porque a terra nos negou
Um canto de amor e pão,
Eternamente metidos
Nesta vã "peregrinação"
Sempre atrás do vil metal,
Eu, Fernão Mendes Pinto,
Cheirando ao bagaço e ao tinto,
Eu é que sou
Portugal!
O salto/assalto é a nossa vocação.
De salto passámos as barreiras, as metas
Que vão desde as Berlengas, para além de Ceilão.
De salto vencemos Cabos,
Ultrapassámos Esperanças.
De salto perdemos Montes Pirinéus
E o alto mar!
De salto conquistámos Franças e Aranganças
E enfrentámos Deus
Com as mãos a abanar.
De salto voámos
Nas rotas do sonho.
De salto rastejámos
À procura do pão.
De salto chegamos,
De salto partimos os cornos
E ardemos nos fornos
Da Stª. Inquisição.
Foi o salto, o assalto,
Foi a estrada, o asfalto,
O carreiro, o mar alto
Que nos abriu a porta;
Foi o filho, foi a fome,
A mulher, o renome,
A vaidade dum "home";
Foi a nossa avó torta
Que não tinha na horta
Caldo para nos dar.
Foi o mar... Foi o mar...
Ai a cruz das caravelas,
Cruz da Stª. Inquisição,
Ai a cruz do Tormentório
Da pimenta e Mazagão.
Ai a cruz que nos puseram
Sexta-feira de paixão.
Ai a cruz que arrastamos
Mundo fora: este Calvário,
Sem Cirinéu nem sudário,
Que a ela nos deite a mão.
Ai a cruz! ai maldição!
Porque a terra nos negou
Um canto de amor e pão,
Eternamente metidos
Nesta vã "peregrinação"
Sempre atrás do vil metal,
Eu, Fernão Mendes Pinto,
Cheirando ao bagaço e ao tinto,
Eu é que sou
Portugal!
1 415
Jaime Gralheiro
Fernão Mendes Pinto
Somos um povo de saltadores/poetas.
O salto/assalto é a nossa vocação.
De salto passámos as barreiras, as metas
Que vão desde as Berlengas, para além de Ceilão.
De salto vencemos Cabos,
Ultrapassámos Esperanças.
De salto perdemos Montes Pirinéus
E o alto mar!
De salto conquistámos Franças e Aranganças
E enfrentámos Deus
Com as mãos a abanar.
De salto voámos
Nas rotas do sonho.
De salto rastejámos
À procura do pão.
De salto chegamos,
De salto partimos os cornos
E ardemos nos fornos
Da Stª. Inquisição.
Foi o salto, o assalto,
Foi a estrada, o asfalto,
O carreiro, o mar alto
Que nos abriu a porta;
Foi o filho, foi a fome,
A mulher, o renome,
A vaidade dum "home";
Foi a nossa avó torta
Que não tinha na horta
Caldo para nos dar.
Foi o mar... Foi o mar...
Ai a cruz das caravelas,
Cruz da Stª. Inquisição,
Ai a cruz do Tormentório
Da pimenta e Mazagão.
Ai a cruz que nos puseram
Sexta-feira de paixão.
Ai a cruz que arrastamos
Mundo fora: este Calvário,
Sem Cirinéu nem sudário,
Que a ela nos deite a mão.
Ai a cruz! ai maldição!
Porque a terra nos negou
Um canto de amor e pão,
Eternamente metidos
Nesta vã "peregrinação"
Sempre atrás do vil metal,
Eu, Fernão Mendes Pinto,
Cheirando ao bagaço e ao tinto,
Eu é que sou
Portugal!
O salto/assalto é a nossa vocação.
De salto passámos as barreiras, as metas
Que vão desde as Berlengas, para além de Ceilão.
De salto vencemos Cabos,
Ultrapassámos Esperanças.
De salto perdemos Montes Pirinéus
E o alto mar!
De salto conquistámos Franças e Aranganças
E enfrentámos Deus
Com as mãos a abanar.
De salto voámos
Nas rotas do sonho.
De salto rastejámos
À procura do pão.
De salto chegamos,
De salto partimos os cornos
E ardemos nos fornos
Da Stª. Inquisição.
Foi o salto, o assalto,
Foi a estrada, o asfalto,
O carreiro, o mar alto
Que nos abriu a porta;
Foi o filho, foi a fome,
A mulher, o renome,
A vaidade dum "home";
Foi a nossa avó torta
Que não tinha na horta
Caldo para nos dar.
Foi o mar... Foi o mar...
Ai a cruz das caravelas,
Cruz da Stª. Inquisição,
Ai a cruz do Tormentório
Da pimenta e Mazagão.
Ai a cruz que nos puseram
Sexta-feira de paixão.
Ai a cruz que arrastamos
Mundo fora: este Calvário,
Sem Cirinéu nem sudário,
Que a ela nos deite a mão.
Ai a cruz! ai maldição!
Porque a terra nos negou
Um canto de amor e pão,
Eternamente metidos
Nesta vã "peregrinação"
Sempre atrás do vil metal,
Eu, Fernão Mendes Pinto,
Cheirando ao bagaço e ao tinto,
Eu é que sou
Portugal!
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Jaime Gralheiro
Fernão Mendes Pinto
Somos um povo de saltadores/poetas.
O salto/assalto é a nossa vocação.
De salto passámos as barreiras, as metas
Que vão desde as Berlengas, para além de Ceilão.
De salto vencemos Cabos,
Ultrapassámos Esperanças.
De salto perdemos Montes Pirinéus
E o alto mar!
De salto conquistámos Franças e Aranganças
E enfrentámos Deus
Com as mãos a abanar.
De salto voámos
Nas rotas do sonho.
De salto rastejámos
À procura do pão.
De salto chegamos,
De salto partimos os cornos
E ardemos nos fornos
Da Stª. Inquisição.
Foi o salto, o assalto,
Foi a estrada, o asfalto,
O carreiro, o mar alto
Que nos abriu a porta;
Foi o filho, foi a fome,
A mulher, o renome,
A vaidade dum "home";
Foi a nossa avó torta
Que não tinha na horta
Caldo para nos dar.
Foi o mar... Foi o mar...
Ai a cruz das caravelas,
Cruz da Stª. Inquisição,
Ai a cruz do Tormentório
Da pimenta e Mazagão.
Ai a cruz que nos puseram
Sexta-feira de paixão.
Ai a cruz que arrastamos
Mundo fora: este Calvário,
Sem Cirinéu nem sudário,
Que a ela nos deite a mão.
Ai a cruz! ai maldição!
Porque a terra nos negou
Um canto de amor e pão,
Eternamente metidos
Nesta vã "peregrinação"
Sempre atrás do vil metal,
Eu, Fernão Mendes Pinto,
Cheirando ao bagaço e ao tinto,
Eu é que sou
Portugal!
O salto/assalto é a nossa vocação.
De salto passámos as barreiras, as metas
Que vão desde as Berlengas, para além de Ceilão.
De salto vencemos Cabos,
Ultrapassámos Esperanças.
De salto perdemos Montes Pirinéus
E o alto mar!
De salto conquistámos Franças e Aranganças
E enfrentámos Deus
Com as mãos a abanar.
De salto voámos
Nas rotas do sonho.
De salto rastejámos
À procura do pão.
De salto chegamos,
De salto partimos os cornos
E ardemos nos fornos
Da Stª. Inquisição.
Foi o salto, o assalto,
Foi a estrada, o asfalto,
O carreiro, o mar alto
Que nos abriu a porta;
Foi o filho, foi a fome,
A mulher, o renome,
A vaidade dum "home";
Foi a nossa avó torta
Que não tinha na horta
Caldo para nos dar.
Foi o mar... Foi o mar...
Ai a cruz das caravelas,
Cruz da Stª. Inquisição,
Ai a cruz do Tormentório
Da pimenta e Mazagão.
Ai a cruz que nos puseram
Sexta-feira de paixão.
Ai a cruz que arrastamos
Mundo fora: este Calvário,
Sem Cirinéu nem sudário,
Que a ela nos deite a mão.
Ai a cruz! ai maldição!
Porque a terra nos negou
Um canto de amor e pão,
Eternamente metidos
Nesta vã "peregrinação"
Sempre atrás do vil metal,
Eu, Fernão Mendes Pinto,
Cheirando ao bagaço e ao tinto,
Eu é que sou
Portugal!
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