Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Alex Brasil
Ci fi lização
A igreja está morta,
e os vermes se multiplicam sobre seu cadáver.
Deus está sendo cuspido no Oriente Médio,
na Índia, no Irã,
na boca do Papa,
nas Américas humilhadas por caciques de quepe e fuzil.
Está surgindo uma nova era de gerações sem causa,
sem destino,
acorrentadas e tangidas
por capitalistas tiranos;
por falsos profetas...
Está surgindo a era
em que morrerão as baleias e os humanos,
e serão poucos, muito poucos o verde e os poetas.
e os vermes se multiplicam sobre seu cadáver.
Deus está sendo cuspido no Oriente Médio,
na Índia, no Irã,
na boca do Papa,
nas Américas humilhadas por caciques de quepe e fuzil.
Está surgindo uma nova era de gerações sem causa,
sem destino,
acorrentadas e tangidas
por capitalistas tiranos;
por falsos profetas...
Está surgindo a era
em que morrerão as baleias e os humanos,
e serão poucos, muito poucos o verde e os poetas.
987
Ronaldo Cagiano
Retroviagem
Adiada a chegada
o mar é só vertigem
o porto está distante.
A noite nos oceanos
é uma tragédia de negrumes
onde se perdem
os homens ávidos de idílios
entre cetáceos ressabiados
e atlânticas saudades.
A estrela que me acompanha
(ou a persigo, em solitária romaria?)
restabelece o ancoradouro
que precocemente fugiu
das garras tênues
de um viandante inconcluso.
Mais inquieta é a esperança
se nela não navego
ou galopam outros sonhos.
A geografia dessas águas
fabrica desafios, enquanto no rosto
mareja o sacrifício da espera.
o mar é só vertigem
o porto está distante.
A noite nos oceanos
é uma tragédia de negrumes
onde se perdem
os homens ávidos de idílios
entre cetáceos ressabiados
e atlânticas saudades.
A estrela que me acompanha
(ou a persigo, em solitária romaria?)
restabelece o ancoradouro
que precocemente fugiu
das garras tênues
de um viandante inconcluso.
Mais inquieta é a esperança
se nela não navego
ou galopam outros sonhos.
A geografia dessas águas
fabrica desafios, enquanto no rosto
mareja o sacrifício da espera.
974
Natália Correia
Véspera do Prodígio
Além do
sol, além do Sete-Estrelo
Uma última Tule me subentende.
O caminho pra mim não sei. Sabe-lo
Será ciência que a morrer se aprende?
Passo ou sou? Deuses, quem quebra o selo?
Quando entro em mim outrem me surpreende
Que um génio zombador tem por modelo.
Onde o esquivo lar desse duende?
Seja quem for o eu que em mim recluso
Alheio fado cumpre, é vácuo o uso
Que do Dom de pensar em vão fazemos.
Melhor é ir. Atravessar o muro,
Seguir na barca que passa o golfo escuro
E ao Grande Enigma abandonar os remos.
sol, além do Sete-Estrelo
Uma última Tule me subentende.
O caminho pra mim não sei. Sabe-lo
Será ciência que a morrer se aprende?
Passo ou sou? Deuses, quem quebra o selo?
Quando entro em mim outrem me surpreende
Que um génio zombador tem por modelo.
Onde o esquivo lar desse duende?
Seja quem for o eu que em mim recluso
Alheio fado cumpre, é vácuo o uso
Que do Dom de pensar em vão fazemos.
Melhor é ir. Atravessar o muro,
Seguir na barca que passa o golfo escuro
E ao Grande Enigma abandonar os remos.
1 978
Nuno Guimarães
Os Amorados
Na amurada dos navios, na improcedência
Das aves sem lugar, desalojados,
Vão.
E se descobrem um sinal ou um resíduo
Da terra original, é só a móvel,
A geográfica terra do sistema.
Tomados já de amor, in amorados,
Buscam só a morada, sem prefixo.
E, no entanto, há mapas, há sistemas
De orientação indica dores:
É ali, em tal lugar, em tal
Memória.
Um mito embalsamaram
No coração sem metafísica.
Entre sinais de voo e de metáfora
Entre um cantar e a sua escrita.
Palavras que rebentam....
Palavras que rebentam. Aflorando
A pedra, a solidão, deslizam, vagas,
Gramaticais, roendo inconformadas
As arestas, o atrito, puras. Quando
Nos líquidos, no éter, na distancia,
Diluem-se e morrem acabadas.
Não nos corpos, nas rugas, nas arcadas:
Combatem, rumorosas, cal e cântico.
É dificil atarem corpo e vida
Aos que vivem e morrem subjacentes
Subjazendo, talhados para mina.
Mas despertadas, bem ou mal medidas,
Rebentam em ogiva, funcionais
Chamas supostamente adormecidas.
Das aves sem lugar, desalojados,
Vão.
E se descobrem um sinal ou um resíduo
Da terra original, é só a móvel,
A geográfica terra do sistema.
Tomados já de amor, in amorados,
Buscam só a morada, sem prefixo.
E, no entanto, há mapas, há sistemas
De orientação indica dores:
É ali, em tal lugar, em tal
Memória.
Um mito embalsamaram
No coração sem metafísica.
Entre sinais de voo e de metáfora
Entre um cantar e a sua escrita.
Palavras que rebentam....
Palavras que rebentam. Aflorando
A pedra, a solidão, deslizam, vagas,
Gramaticais, roendo inconformadas
As arestas, o atrito, puras. Quando
Nos líquidos, no éter, na distancia,
Diluem-se e morrem acabadas.
Não nos corpos, nas rugas, nas arcadas:
Combatem, rumorosas, cal e cântico.
É dificil atarem corpo e vida
Aos que vivem e morrem subjacentes
Subjazendo, talhados para mina.
Mas despertadas, bem ou mal medidas,
Rebentam em ogiva, funcionais
Chamas supostamente adormecidas.
1 242
Ronaldo Cagiano
Pórtico
Na velha ponte
de Cataguases,
belvedere entre montanhas
vislumbro uma lâmina mordaz
na incontida fugacidade das águas
do Rio Pomba.
O leito que escorre inexorável
diante dos meus olhos,
carrega histórias & cansaços
numa retroviagem sem tamanho
diante do menino perplexo
que a tudo esgarça
com inquirição ou pranto.
A cidade, as pessoas, o vário tempo
são remotas cintilações de antanho,
mas ainda perdura
no mofo das amuradas
nos vetustos oitizeiros da rua
nos trilhos da velha estação
a oficina de sonhos
que hiberna no rigor
de tantos (des)caminhos.
de Cataguases,
belvedere entre montanhas
vislumbro uma lâmina mordaz
na incontida fugacidade das águas
do Rio Pomba.
O leito que escorre inexorável
diante dos meus olhos,
carrega histórias & cansaços
numa retroviagem sem tamanho
diante do menino perplexo
que a tudo esgarça
com inquirição ou pranto.
A cidade, as pessoas, o vário tempo
são remotas cintilações de antanho,
mas ainda perdura
no mofo das amuradas
nos vetustos oitizeiros da rua
nos trilhos da velha estação
a oficina de sonhos
que hiberna no rigor
de tantos (des)caminhos.
805
Luís António Cajazeira Ramos
Soneto Contemporâneo
Aos coeternos.
Penetra surdamente no reino das palavras,
que outro valor mais alto se alevanta.
Drummond/Camões
Que vem a ser fazer poesia de seu tempo?
Eu faço a do momento, a poesia de hoje.
Eu faço sempre hoje, pois meu tempo é hoje.
Toda a poesia é hoje, pois hoje é seu tempo.
Hoje é sempre o momento de fazer poesia.
Choveu hoje? faz sol hoje? que dia é hoje?
Meteorologia e calendário não, hoje.
Hoje não! Hoje é dia de fazer poesia.
De hoje que Camões é de hoje também!
Carlos Drummond de Andrade é de hoje também.
Todos são de hoje, destacados do tempo.
Não me venham com necessidade de ser
linguagem nova, tudo novo, tudo a ser,
pois na poesia estou destacado do tempo.
Penetra surdamente no reino das palavras,
que outro valor mais alto se alevanta.
Drummond/Camões
Que vem a ser fazer poesia de seu tempo?
Eu faço a do momento, a poesia de hoje.
Eu faço sempre hoje, pois meu tempo é hoje.
Toda a poesia é hoje, pois hoje é seu tempo.
Hoje é sempre o momento de fazer poesia.
Choveu hoje? faz sol hoje? que dia é hoje?
Meteorologia e calendário não, hoje.
Hoje não! Hoje é dia de fazer poesia.
De hoje que Camões é de hoje também!
Carlos Drummond de Andrade é de hoje também.
Todos são de hoje, destacados do tempo.
Não me venham com necessidade de ser
linguagem nova, tudo novo, tudo a ser,
pois na poesia estou destacado do tempo.
2 213
Raimundo Bento Sotero
Além do mal
Não levo em conta o mal que me fizeste,
Que o ódio é um sentimento tão mesquinho;
Como a vingança, um vegetal daninho
Que viça na aridez de um peito agreste.
Por isso, cada mágoa que me deste,
Uma a uma, fui largando no caminho,
Como a flor que se livra do espinho
Que rebenta do tronco mais silvestre.
A despeito do mal que me causaste,
Já não guardo rancor de minha parte
E em troca dos espinhos te dou flores
E te perdôo os males cometidos,
Que o perdão reconforta os oprimidos
E mata de remorso os opressores.
Que o ódio é um sentimento tão mesquinho;
Como a vingança, um vegetal daninho
Que viça na aridez de um peito agreste.
Por isso, cada mágoa que me deste,
Uma a uma, fui largando no caminho,
Como a flor que se livra do espinho
Que rebenta do tronco mais silvestre.
A despeito do mal que me causaste,
Já não guardo rancor de minha parte
E em troca dos espinhos te dou flores
E te perdôo os males cometidos,
Que o perdão reconforta os oprimidos
E mata de remorso os opressores.
1 082
Nuno Guimarães
Um Fruto Anunciado
Um fruto anunciado
numa operária que trabalha no amor.
Um que rompe a terra após a chuva
e de novo lhe cai. Amargo arado.
Fruto solar. De sol e cálcio.
alcalino até ao coração.
O tanque resumido. Ou corpo húmido.
Toda a luz que cabe numa boca
De limos de volume. Espaço claro
e habitado em rio na garganta.
Um fruto, um claustro anunciado
num corpo de operário em combustão.
numa operária que trabalha no amor.
Um que rompe a terra após a chuva
e de novo lhe cai. Amargo arado.
Fruto solar. De sol e cálcio.
alcalino até ao coração.
O tanque resumido. Ou corpo húmido.
Toda a luz que cabe numa boca
De limos de volume. Espaço claro
e habitado em rio na garganta.
Um fruto, um claustro anunciado
num corpo de operário em combustão.
1 111
Marcial
Como nunca te vi cercada de homens
I,91
Como nunca te vi, ó Bassa, cercada de homens
e de nenhuma amante as más-linguas te acusavam,
e como à tua volta só havia donzelas
prontas ao teu serviço, mas de macho… nem cheiro,
cheguei, confesso, a crer-te uma Lucrécia.
Mas afinal, Bassa, – que horror! – tu fodia-las todas,
tu ousavas fazer amor cona com cona,
quase parecias um homem, ó Venus monstruosa!
Forjaste um enigma digno da tebana esfinge:
como haver adultério onde não existe homem!
Como nunca te vi, ó Bassa, cercada de homens
e de nenhuma amante as más-linguas te acusavam,
e como à tua volta só havia donzelas
prontas ao teu serviço, mas de macho… nem cheiro,
cheguei, confesso, a crer-te uma Lucrécia.
Mas afinal, Bassa, – que horror! – tu fodia-las todas,
tu ousavas fazer amor cona com cona,
quase parecias um homem, ó Venus monstruosa!
Forjaste um enigma digno da tebana esfinge:
como haver adultério onde não existe homem!
1 117
Renier Dias Pereira
Help!
Help!
-8 DE DEZEMBRO DE 1980-
Abra os seus olhos
para você mesmo e
verá que o sonho não acabou
continua resistente a todo tempo
O homem livre como um pássaro
que se esqueceu de lembrar que esquece
a poesia é apunhalada pelas costas
mas continua resistente a toda realidade
Viver com cada olhar oculto
ela é a mulher perfeita
está dentro de mim
e continua resistente as divisões
Parou de fazer poesia para
pertencer a ela. noite de
dias difíceis. ontem haverá
paz nesse mundo desfalque.
-8 DE DEZEMBRO DE 1980-
Abra os seus olhos
para você mesmo e
verá que o sonho não acabou
continua resistente a todo tempo
O homem livre como um pássaro
que se esqueceu de lembrar que esquece
a poesia é apunhalada pelas costas
mas continua resistente a toda realidade
Viver com cada olhar oculto
ela é a mulher perfeita
está dentro de mim
e continua resistente as divisões
Parou de fazer poesia para
pertencer a ela. noite de
dias difíceis. ontem haverá
paz nesse mundo desfalque.
1 099
Marcial
Apesar de teres colhões depilados
IX,27
Apesar, ó Cresto, de teres colhões depilados,
um caralho que parece um pescoço de abutre,
uma cabeça mais lisa que cu de prostituta,
de não teres nas pernas o mais ligeiro pêlo,
de sempre aos lábios brancos aplicares a pinça,
falas constantemente em Cúrios e Camilos,
em Quíncios, Numas e Ancos, esses heróis cabeludos
de que os livros estão cheios, e com palavras duras
lanças ameaças e investes com teatros e modas!
Mas se acaso te surge à frente algum panasca
recém-saído das mãos do pedagogo,
cujo pénis já inchado o técnico soltou
logo o chamas e o levas, e … Quase tenho vergonha, ó Cresto,
de dizer o que faz essa língua de Catão!
Apesar, ó Cresto, de teres colhões depilados,
um caralho que parece um pescoço de abutre,
uma cabeça mais lisa que cu de prostituta,
de não teres nas pernas o mais ligeiro pêlo,
de sempre aos lábios brancos aplicares a pinça,
falas constantemente em Cúrios e Camilos,
em Quíncios, Numas e Ancos, esses heróis cabeludos
de que os livros estão cheios, e com palavras duras
lanças ameaças e investes com teatros e modas!
Mas se acaso te surge à frente algum panasca
recém-saído das mãos do pedagogo,
cujo pénis já inchado o técnico soltou
logo o chamas e o levas, e … Quase tenho vergonha, ó Cresto,
de dizer o que faz essa língua de Catão!
839
Maria João
Um amor proibido
Estou silenciosa, de frente para a ponte
atrevendo-me, sem me atrever a atravessá-la
Tu olhas-me carinhoso, do outro lado,
atrevendo-te, sem te atreveres a atravessá-la
o meu coração mantém-se embrulhado em
seda branca
Incapaz de respirar ou ver
Estou parada neste homem, sem me mover,
à espera
Uma poeira laranja invade devagar
esta paisagem estrangeira
e o meu coração estoira
Então, enquanto o dia entra pela noite
eu abro a gaveta da minha bravura
e firme passo sobre o preconceito das gentes
Um passo
depois outro
amorosamente atravessando a ponte
atrevendo-me, sem me atrever a atravessá-la
Tu olhas-me carinhoso, do outro lado,
atrevendo-te, sem te atreveres a atravessá-la
o meu coração mantém-se embrulhado em
seda branca
Incapaz de respirar ou ver
Estou parada neste homem, sem me mover,
à espera
Uma poeira laranja invade devagar
esta paisagem estrangeira
e o meu coração estoira
Então, enquanto o dia entra pela noite
eu abro a gaveta da minha bravura
e firme passo sobre o preconceito das gentes
Um passo
depois outro
amorosamente atravessando a ponte
1 040
Bocage
Liberdade, onde estás? Quem te demora?
Liberdade, onde estás? Quem te demora?
Quem faz que o teu influxo em nós não caia?
Porque (triste de mim!), porque não raia
Já na esfera de Lísia a tua aurora?
Da santa redenção é vinda a hora
A esta parte do mundo, que desmaia.
Oh!, venha... Oh!, venha, e trémulo descaia
Despotismo feroz, que nos devora!
Eia! Acode ao mortal que, frio e mudo,
Oculta o pátrio amor, torce a vontade,
E em fingir, por temor, empenha estudo.
Movam nossos grilhões tua piedade;
Nosso númen tu és, e glória, e tudo,
Mãe do génio e prazer, ó Liberdade!
Quem faz que o teu influxo em nós não caia?
Porque (triste de mim!), porque não raia
Já na esfera de Lísia a tua aurora?
Da santa redenção é vinda a hora
A esta parte do mundo, que desmaia.
Oh!, venha... Oh!, venha, e trémulo descaia
Despotismo feroz, que nos devora!
Eia! Acode ao mortal que, frio e mudo,
Oculta o pátrio amor, torce a vontade,
E em fingir, por temor, empenha estudo.
Movam nossos grilhões tua piedade;
Nosso númen tu és, e glória, e tudo,
Mãe do génio e prazer, ó Liberdade!
1 834
Bocage
Liberdade, onde estás? Quem te demora?
Liberdade, onde estás? Quem te demora?
Quem faz que o teu influxo em nós não caia?
Porque (triste de mim!), porque não raia
Já na esfera de Lísia a tua aurora?
Da santa redenção é vinda a hora
A esta parte do mundo, que desmaia.
Oh!, venha... Oh!, venha, e trémulo descaia
Despotismo feroz, que nos devora!
Eia! Acode ao mortal que, frio e mudo,
Oculta o pátrio amor, torce a vontade,
E em fingir, por temor, empenha estudo.
Movam nossos grilhões tua piedade;
Nosso númen tu és, e glória, e tudo,
Mãe do génio e prazer, ó Liberdade!
Quem faz que o teu influxo em nós não caia?
Porque (triste de mim!), porque não raia
Já na esfera de Lísia a tua aurora?
Da santa redenção é vinda a hora
A esta parte do mundo, que desmaia.
Oh!, venha... Oh!, venha, e trémulo descaia
Despotismo feroz, que nos devora!
Eia! Acode ao mortal que, frio e mudo,
Oculta o pátrio amor, torce a vontade,
E em fingir, por temor, empenha estudo.
Movam nossos grilhões tua piedade;
Nosso númen tu és, e glória, e tudo,
Mãe do génio e prazer, ó Liberdade!
1 834
Bocage
Liberdade, onde estás? Quem te demora?
Liberdade, onde estás? Quem te demora?
Quem faz que o teu influxo em nós não caia?
Porque (triste de mim!), porque não raia
Já na esfera de Lísia a tua aurora?
Da santa redenção é vinda a hora
A esta parte do mundo, que desmaia.
Oh!, venha... Oh!, venha, e trémulo descaia
Despotismo feroz, que nos devora!
Eia! Acode ao mortal que, frio e mudo,
Oculta o pátrio amor, torce a vontade,
E em fingir, por temor, empenha estudo.
Movam nossos grilhões tua piedade;
Nosso númen tu és, e glória, e tudo,
Mãe do génio e prazer, ó Liberdade!
Quem faz que o teu influxo em nós não caia?
Porque (triste de mim!), porque não raia
Já na esfera de Lísia a tua aurora?
Da santa redenção é vinda a hora
A esta parte do mundo, que desmaia.
Oh!, venha... Oh!, venha, e trémulo descaia
Despotismo feroz, que nos devora!
Eia! Acode ao mortal que, frio e mudo,
Oculta o pátrio amor, torce a vontade,
E em fingir, por temor, empenha estudo.
Movam nossos grilhões tua piedade;
Nosso númen tu és, e glória, e tudo,
Mãe do génio e prazer, ó Liberdade!
1 834
Marcial
Se a coisa te não maça ou enfastia
I,97
Se a coisa te não maça ou enfastia, escazonte
eu te peço, ao meu caro Materno estas breves palavras
diz ao ouvido, de modo que ele apenas oiça.
Aquele apreciador de capotes sombrios,
que se veste de lã e de trajes conzentos,
que chama aos que usam roupas vermelhas maricas
e acha os tecidos cor de ametista próprios de mulheres,
por mais que gabe as vestes simples, e sempre use
sombrias cores, é esverdeado nos costumes.
Por que o julgo invertido?, perguntarás tu.
Tomamos banho juntos: nunca olha para cima,
mas com olhos vorazes contempla os paneleiros
e cresce-lhe água na boca ao ver caralhos.
Queres saber quem é ele? Já me escapou o seu nome.
Se a coisa te não maça ou enfastia, escazonte
eu te peço, ao meu caro Materno estas breves palavras
diz ao ouvido, de modo que ele apenas oiça.
Aquele apreciador de capotes sombrios,
que se veste de lã e de trajes conzentos,
que chama aos que usam roupas vermelhas maricas
e acha os tecidos cor de ametista próprios de mulheres,
por mais que gabe as vestes simples, e sempre use
sombrias cores, é esverdeado nos costumes.
Por que o julgo invertido?, perguntarás tu.
Tomamos banho juntos: nunca olha para cima,
mas com olhos vorazes contempla os paneleiros
e cresce-lhe água na boca ao ver caralhos.
Queres saber quem é ele? Já me escapou o seu nome.
1 039
Nuno Guimarães
Pela Escrita
Através dela somos divididos
E somos portadores da divisão.
Por ela aprendemos um país
Apreendido.
Dela passamos para nós:
Tornamo-nos, assim, subvertidos.
Por ela quebramos os limites
Do conhecimento.
Má consciência nas palavras.
E nos actos.
Do acto à escrita, intensidade:
A escrita é o acto mais atento.
E somos portadores da divisão.
Por ela aprendemos um país
Apreendido.
Dela passamos para nós:
Tornamo-nos, assim, subvertidos.
Por ela quebramos os limites
Do conhecimento.
Má consciência nas palavras.
E nos actos.
Do acto à escrita, intensidade:
A escrita é o acto mais atento.
1 281
Nuno Guimarães
Pela Escrita
Através dela somos divididos
E somos portadores da divisão.
Por ela aprendemos um país
Apreendido.
Dela passamos para nós:
Tornamo-nos, assim, subvertidos.
Por ela quebramos os limites
Do conhecimento.
Má consciência nas palavras.
E nos actos.
Do acto à escrita, intensidade:
A escrita é o acto mais atento.
E somos portadores da divisão.
Por ela aprendemos um país
Apreendido.
Dela passamos para nós:
Tornamo-nos, assim, subvertidos.
Por ela quebramos os limites
Do conhecimento.
Má consciência nas palavras.
E nos actos.
Do acto à escrita, intensidade:
A escrita é o acto mais atento.
1 281
Nuno Guimarães
Pela Escrita
Através dela somos divididos
E somos portadores da divisão.
Por ela aprendemos um país
Apreendido.
Dela passamos para nós:
Tornamo-nos, assim, subvertidos.
Por ela quebramos os limites
Do conhecimento.
Má consciência nas palavras.
E nos actos.
Do acto à escrita, intensidade:
A escrita é o acto mais atento.
E somos portadores da divisão.
Por ela aprendemos um país
Apreendido.
Dela passamos para nós:
Tornamo-nos, assim, subvertidos.
Por ela quebramos os limites
Do conhecimento.
Má consciência nas palavras.
E nos actos.
Do acto à escrita, intensidade:
A escrita é o acto mais atento.
1 281
Ana Paula Ribeiro Tavares
Rapariga
Cresce comigo o boi com que me vão trocar
Amarraram-me já às costas, a tábua Eylekessa
Filha de Tembo
organizo o milho
Trago nas pernas as pulseiras pesadas
Dos dias que passaram...
Sou do clã do boi -
Dos meus ancestrais ficou-me a paciência
O sono profundo de deserto.
A falta de limite...
Da mistura do boi e da árvore
a efervescencia
o desejo
a intranquilidade
a proximidade
do mar
Filha de Huco
Com a sua primeira esposa
Uma vaca sagrada,
concedeu-me
o favor das suas tetas úberes.
Luanda, 84
Amarraram-me já às costas, a tábua Eylekessa
Filha de Tembo
organizo o milho
Trago nas pernas as pulseiras pesadas
Dos dias que passaram...
Sou do clã do boi -
Dos meus ancestrais ficou-me a paciência
O sono profundo de deserto.
A falta de limite...
Da mistura do boi e da árvore
a efervescencia
o desejo
a intranquilidade
a proximidade
do mar
Filha de Huco
Com a sua primeira esposa
Uma vaca sagrada,
concedeu-me
o favor das suas tetas úberes.
Luanda, 84
3 771
Amador Ribeiro Neto
Poesia de Nêumanne é seca e exuberante
O jornalista e poeta reúne em livro seus melhores poemas e traduções de poesia
O jornalista e poeta José Nêumanne, paraibano de Uiraúna, acaba de publicar Solos do Silêncio - Poesia Reunida, uma antologia - em que pese o subtítulo - organizada pelo próprio poeta, com seus melhores poemas. Uma obra repleta de dedicatórias e de referências, evidenciando, de imediato, as ligações biobibliográficas do autor. Direto do sertão para o mundo, numa fala de muitas línguas. Ao final do volume, uma antologia bilíngüe, selecionada e traduzida pelo poeta. Yeats, Rimbaud, René Char, Joan Brossa, Octavio Paz. E até Bob Dylan. Aliás, o poeta publica poemas que ele mesmo chama de "letras", uma clara alusão à música popular. Um poeta em busca de parcerias musicais? Por que não?
Entre as referências de sua poesia, aquelas feitas à Paraíba, em particular, são muito importantes. O Estado possui uma respeitável produção artística, infelizmente, quase sempre, à margem da produção cultural do País. Convém lembrar que são nomes de destaque na Paraíba de hoje, por exemplo, Ariano Suassuna (teatro e literatura), Ascendino Leite (literatura), Antônio Dias (artes plásticas), Bráulio Tavares (literatura e música popular), Elba Ramalho, Zé Ramalho, Herbert Vianna, Vital Farias (música popular), entre outros. Além da unanimidade de crítica e público, o compositor e intérprete "revelação" Chico César.
A poesia de Nêumanne nasce do sertão e se desenvolve na cidade. Traz as marcas da vida do poeta, mescladas nas memórias da infância e nas vivências jornalísticas da cidade grande.
Vivências que vão do silêncio fumegante do sertão ao farfalhar sereno das árvores das serras e da beira-mar. Das páginas nervosas do jornalismo ao mundo mágico dos deuses da mitologia clássica.
Das incursões líricas de um eu amoroso às denúncias sociais de um eu engajado.
Assim se apresenta a poesia de Nêumanne: seca e exuberante. Sempre acompanhando os movimentos da natureza nordestina e das cidades mundo afora. Na Espanha de Gaudí o poeta ouve as vozes da Serra da Borborema e vê desdobrarem-se os passos ritmados dos seus dançarinos, mundialmente conhecidos.
Os nomes mais expressivos da arte paraibana são lembrados pelo poeta com muita propriedade. Destaco dois, a título de ilustração: o do renomado poeta Sérgio de Castro Pinto, autor de O Cerco da Memória, comemorando 25 anos de poesia, e o de Carlos Aranha, ativista cultural que integrou as fileiras do Tropicalismo e hoje é uma das inteligências mais inquietas do jornalismo da Paraíba.
A poesia de Nêumanne é assim: de um lado a dicção coloquial dos repentistas, generosa e fluente. De outro, os versos econômicos, quase monossilábicos, à semelhança dos cacos de fala do personagem Fabiano, de Vidas Secas.
Para José Paulo Paes, os poemas de José Nêumanne, na sua grande maioria, são verbais, mas "nunca são verbosos". Por isso mesmo prefere os marcados por "certa concisão epigramática".
De fato, a veia incisiva do jornalista pulsa também no poeta. Versos-cactos irrompem em chicotadas rápidas e secas. Poemas explodem na cara do leitor. O tiro certeiro ganha o alvo. Um exemplo encontramos no poema In Love, que é quase um Catulo revisitado com a irreverência oswaldiana: "- Juro amar-te./- Tesconjuro!".
Ivan Junqueira não tem dúvidas. Diz: "O que li é bom. É bom sobretudo porque me presta uma informação essencial: Nêumanne é poeta."
O título do livro pede mais de uma leitura. Solos, referindo-se ao chão, à terra. Solos, referindo-se ao ato de solar em música: uma só voz ou um só instrumento. Sempre, como denominador comum, o silêncio. No chão, na música. Na terra esturricada, áspera. Na delicadeza e no virtuosismo de um destaque musical. Um chão. Uma música. O grotesco e o sublime. Ou vice-versa.
Amador Ribeiro Neto é mestre em Teoria Literária pela USP, doutorando em Semiótica na PUC-SP e professor do Departamento de Letras da UFPB
(in Caderno 2, O Estado de São Paulo, 10.10.96)
Leia obra poética de Frederico Barbosa
O jornalista e poeta José Nêumanne, paraibano de Uiraúna, acaba de publicar Solos do Silêncio - Poesia Reunida, uma antologia - em que pese o subtítulo - organizada pelo próprio poeta, com seus melhores poemas. Uma obra repleta de dedicatórias e de referências, evidenciando, de imediato, as ligações biobibliográficas do autor. Direto do sertão para o mundo, numa fala de muitas línguas. Ao final do volume, uma antologia bilíngüe, selecionada e traduzida pelo poeta. Yeats, Rimbaud, René Char, Joan Brossa, Octavio Paz. E até Bob Dylan. Aliás, o poeta publica poemas que ele mesmo chama de "letras", uma clara alusão à música popular. Um poeta em busca de parcerias musicais? Por que não?
Entre as referências de sua poesia, aquelas feitas à Paraíba, em particular, são muito importantes. O Estado possui uma respeitável produção artística, infelizmente, quase sempre, à margem da produção cultural do País. Convém lembrar que são nomes de destaque na Paraíba de hoje, por exemplo, Ariano Suassuna (teatro e literatura), Ascendino Leite (literatura), Antônio Dias (artes plásticas), Bráulio Tavares (literatura e música popular), Elba Ramalho, Zé Ramalho, Herbert Vianna, Vital Farias (música popular), entre outros. Além da unanimidade de crítica e público, o compositor e intérprete "revelação" Chico César.
A poesia de Nêumanne nasce do sertão e se desenvolve na cidade. Traz as marcas da vida do poeta, mescladas nas memórias da infância e nas vivências jornalísticas da cidade grande.
Vivências que vão do silêncio fumegante do sertão ao farfalhar sereno das árvores das serras e da beira-mar. Das páginas nervosas do jornalismo ao mundo mágico dos deuses da mitologia clássica.
Das incursões líricas de um eu amoroso às denúncias sociais de um eu engajado.
Assim se apresenta a poesia de Nêumanne: seca e exuberante. Sempre acompanhando os movimentos da natureza nordestina e das cidades mundo afora. Na Espanha de Gaudí o poeta ouve as vozes da Serra da Borborema e vê desdobrarem-se os passos ritmados dos seus dançarinos, mundialmente conhecidos.
Os nomes mais expressivos da arte paraibana são lembrados pelo poeta com muita propriedade. Destaco dois, a título de ilustração: o do renomado poeta Sérgio de Castro Pinto, autor de O Cerco da Memória, comemorando 25 anos de poesia, e o de Carlos Aranha, ativista cultural que integrou as fileiras do Tropicalismo e hoje é uma das inteligências mais inquietas do jornalismo da Paraíba.
A poesia de Nêumanne é assim: de um lado a dicção coloquial dos repentistas, generosa e fluente. De outro, os versos econômicos, quase monossilábicos, à semelhança dos cacos de fala do personagem Fabiano, de Vidas Secas.
Para José Paulo Paes, os poemas de José Nêumanne, na sua grande maioria, são verbais, mas "nunca são verbosos". Por isso mesmo prefere os marcados por "certa concisão epigramática".
De fato, a veia incisiva do jornalista pulsa também no poeta. Versos-cactos irrompem em chicotadas rápidas e secas. Poemas explodem na cara do leitor. O tiro certeiro ganha o alvo. Um exemplo encontramos no poema In Love, que é quase um Catulo revisitado com a irreverência oswaldiana: "- Juro amar-te./- Tesconjuro!".
Ivan Junqueira não tem dúvidas. Diz: "O que li é bom. É bom sobretudo porque me presta uma informação essencial: Nêumanne é poeta."
O título do livro pede mais de uma leitura. Solos, referindo-se ao chão, à terra. Solos, referindo-se ao ato de solar em música: uma só voz ou um só instrumento. Sempre, como denominador comum, o silêncio. No chão, na música. Na terra esturricada, áspera. Na delicadeza e no virtuosismo de um destaque musical. Um chão. Uma música. O grotesco e o sublime. Ou vice-versa.
Amador Ribeiro Neto é mestre em Teoria Literária pela USP, doutorando em Semiótica na PUC-SP e professor do Departamento de Letras da UFPB
(in Caderno 2, O Estado de São Paulo, 10.10.96)
Leia obra poética de Frederico Barbosa
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António de Navarro
Poema VI
Arvores, folhas, águas, cousas de África,
Deveis ter uma alma, uma força,
Mas eu não vos emocionei ainda
E, — por conseguinte — sou-vos a fuga duma corça.
Deveis ter uma poesia qualquer,
Mas eu apenas sinto a poesia aqui
No homem branco, que a não sente,
Não afeiçoar a natureza a si.
E essa luta de carne força
Contra a força da natureza
É linda, tem beleza,
Mas eu vi há dias numa corça,
Numa pequena gazela,
Que me lambeu os dedos,
A coisa mais bela
Que eu senti — eu que procuro os bruxedos,
As confidências nupciais
Da vida e do meu ser!
Entendemo-nos pouco,
Terras de África — é que eu toco
Instrumento de corda em que os meus nervos são
A matéria e o som, a música e a pauta.
Eu, em suma, toco no coração
Que dou à vida, distraído e sem cauta
Prevenção, e vós requebrai-vos num batuque
Álacre, sim, mas dum som que é como um estuque
Denso e opaco, e a minha casa
Gosto-a mais asa,
Caiada de nuvens naturais, como o acaso indique.
Deveis ter uma alma, uma força,
Mas eu não vos emocionei ainda
E, — por conseguinte — sou-vos a fuga duma corça.
Deveis ter uma poesia qualquer,
Mas eu apenas sinto a poesia aqui
No homem branco, que a não sente,
Não afeiçoar a natureza a si.
E essa luta de carne força
Contra a força da natureza
É linda, tem beleza,
Mas eu vi há dias numa corça,
Numa pequena gazela,
Que me lambeu os dedos,
A coisa mais bela
Que eu senti — eu que procuro os bruxedos,
As confidências nupciais
Da vida e do meu ser!
Entendemo-nos pouco,
Terras de África — é que eu toco
Instrumento de corda em que os meus nervos são
A matéria e o som, a música e a pauta.
Eu, em suma, toco no coração
Que dou à vida, distraído e sem cauta
Prevenção, e vós requebrai-vos num batuque
Álacre, sim, mas dum som que é como um estuque
Denso e opaco, e a minha casa
Gosto-a mais asa,
Caiada de nuvens naturais, como o acaso indique.
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António de Navarro
Poema VI
Arvores, folhas, águas, cousas de África,
Deveis ter uma alma, uma força,
Mas eu não vos emocionei ainda
E, — por conseguinte — sou-vos a fuga duma corça.
Deveis ter uma poesia qualquer,
Mas eu apenas sinto a poesia aqui
No homem branco, que a não sente,
Não afeiçoar a natureza a si.
E essa luta de carne força
Contra a força da natureza
É linda, tem beleza,
Mas eu vi há dias numa corça,
Numa pequena gazela,
Que me lambeu os dedos,
A coisa mais bela
Que eu senti — eu que procuro os bruxedos,
As confidências nupciais
Da vida e do meu ser!
Entendemo-nos pouco,
Terras de África — é que eu toco
Instrumento de corda em que os meus nervos são
A matéria e o som, a música e a pauta.
Eu, em suma, toco no coração
Que dou à vida, distraído e sem cauta
Prevenção, e vós requebrai-vos num batuque
Álacre, sim, mas dum som que é como um estuque
Denso e opaco, e a minha casa
Gosto-a mais asa,
Caiada de nuvens naturais, como o acaso indique.
Deveis ter uma alma, uma força,
Mas eu não vos emocionei ainda
E, — por conseguinte — sou-vos a fuga duma corça.
Deveis ter uma poesia qualquer,
Mas eu apenas sinto a poesia aqui
No homem branco, que a não sente,
Não afeiçoar a natureza a si.
E essa luta de carne força
Contra a força da natureza
É linda, tem beleza,
Mas eu vi há dias numa corça,
Numa pequena gazela,
Que me lambeu os dedos,
A coisa mais bela
Que eu senti — eu que procuro os bruxedos,
As confidências nupciais
Da vida e do meu ser!
Entendemo-nos pouco,
Terras de África — é que eu toco
Instrumento de corda em que os meus nervos são
A matéria e o som, a música e a pauta.
Eu, em suma, toco no coração
Que dou à vida, distraído e sem cauta
Prevenção, e vós requebrai-vos num batuque
Álacre, sim, mas dum som que é como um estuque
Denso e opaco, e a minha casa
Gosto-a mais asa,
Caiada de nuvens naturais, como o acaso indique.
1 000
Juscelino Vieira Mendes
Morreu Sem Constrangimento
(Tragédia em três atos)
"Eu pensei que ciúme era uma idéia. Não é. É uma dor.
Mas eu não me senti, como eles se sentem, num melodrama
da Broadway. Eu não queria matar ninguém. Eu só queria morrer."
Floyd Dell
Houve quem dissesse
que matou e morreu
por amor, como se se pudesse
matar e morrer, aniquilando o eu
Ódio o tornou cego
Impulso do Id é o que restou
Não aceitou o controle do ego
Matou - Não amou!...
Estreitamento da consciência
sobrou apenas sentimento
Agiu sem Providência
e viveu tão pouco tempo
Martirizou-se; tornou-se pura violência
em tórrida manhã de dezembro:
Matou, Morreu, Morremos - Sem Constrangimento...
11 de dezembro de 1995
NOTA:
Morte prematura
No dia 11 de dezembro, Christian Hartmann, 21, matou com seis tiros a ex-namorada Renata Cristina Francisco Alves, 20, e feriu gravemente Winston Goldoni, 23, com quem Renata estava namorando. Depois, se matou com um tiro na boca. Tudo numa sala de computadores da Escola Politécnica da USP. Eles cursavam engenharia macatrônica. Christian e Renata tiveram um relacionamento em 94, e ele já a havia ameaçado de morte.
Folha de São Paulo, página 18, 11/12/95.
"Eu pensei que ciúme era uma idéia. Não é. É uma dor.
Mas eu não me senti, como eles se sentem, num melodrama
da Broadway. Eu não queria matar ninguém. Eu só queria morrer."
Floyd Dell
Houve quem dissesse
que matou e morreu
por amor, como se se pudesse
matar e morrer, aniquilando o eu
Ódio o tornou cego
Impulso do Id é o que restou
Não aceitou o controle do ego
Matou - Não amou!...
Estreitamento da consciência
sobrou apenas sentimento
Agiu sem Providência
e viveu tão pouco tempo
Martirizou-se; tornou-se pura violência
em tórrida manhã de dezembro:
Matou, Morreu, Morremos - Sem Constrangimento...
11 de dezembro de 1995
NOTA:
Morte prematura
No dia 11 de dezembro, Christian Hartmann, 21, matou com seis tiros a ex-namorada Renata Cristina Francisco Alves, 20, e feriu gravemente Winston Goldoni, 23, com quem Renata estava namorando. Depois, se matou com um tiro na boca. Tudo numa sala de computadores da Escola Politécnica da USP. Eles cursavam engenharia macatrônica. Christian e Renata tiveram um relacionamento em 94, e ele já a havia ameaçado de morte.
Folha de São Paulo, página 18, 11/12/95.
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