Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Adriana Sampaio
Separação
Separação
Isso é uma declaração de amor:
Declaro que te quero
E isso é claro como meu desejo.
Declaro que te admiro
Todo ato teu me é visível, claro.
Declaro que cresço a cada passo
Que nossas mãos, dadas, acompanham.
Declaro que sou tua
Livremente e espontaneamente tua,
Como só meu sentimento puro
Pode lindamente me levar a ser.
Declaro que sou uma, única
E que és igualmente único para mim
Como derivados da mais pura diversidade.
Declaro toda inspiração a que me inspiras
Levando-me através da mais completa fantasia.
Declaro minha loucura
Que assim retorna mansamente
E torna essa declaração
Declaração de independência.
Isso é uma declaração de amor:
Declaro que te quero
E isso é claro como meu desejo.
Declaro que te admiro
Todo ato teu me é visível, claro.
Declaro que cresço a cada passo
Que nossas mãos, dadas, acompanham.
Declaro que sou tua
Livremente e espontaneamente tua,
Como só meu sentimento puro
Pode lindamente me levar a ser.
Declaro que sou uma, única
E que és igualmente único para mim
Como derivados da mais pura diversidade.
Declaro toda inspiração a que me inspiras
Levando-me através da mais completa fantasia.
Declaro minha loucura
Que assim retorna mansamente
E torna essa declaração
Declaração de independência.
1 059
Assis Garrido
A Frase que Matou o Operário
"Não precisamos mais do seu serviço",
Disseram-lhe os patrões, há dois meses e pouco.
E ele se foi, sob o calor abafadiço
Daquela tarde, murmurando como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço".
"Não precisamos mais do seu serviço..."
De tantos anos de trabalho era esse o troco
Que recebia. Em vez de lucro, apenas isso...
E ele consigo murmurava como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço..."
"Não precisamos mais do seu serviço..."
Tornou-se bruto e respondia, a praga e a soco,
Aos filhos e à mulher, famintos no cortiço.
E após, chorava murmurando como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço..."
"Não precisamos mais do seu serviço..."
E ele saía a ver emprego, triste e mouco,
Nada! Nenhum!... E cabisbaixo, o olhar mortiço,
Ele voltava, murmurando como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço..."
"Não precisamos mais do seu serviço..."
E cada vez sentia mais o cérebro oco.
Enforcou-se. Morreu. "Foi o diabo ou feitiço..."
E ele morreu murmurando, como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço..."
Disseram-lhe os patrões, há dois meses e pouco.
E ele se foi, sob o calor abafadiço
Daquela tarde, murmurando como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço".
"Não precisamos mais do seu serviço..."
De tantos anos de trabalho era esse o troco
Que recebia. Em vez de lucro, apenas isso...
E ele consigo murmurava como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço..."
"Não precisamos mais do seu serviço..."
Tornou-se bruto e respondia, a praga e a soco,
Aos filhos e à mulher, famintos no cortiço.
E após, chorava murmurando como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço..."
"Não precisamos mais do seu serviço..."
E ele saía a ver emprego, triste e mouco,
Nada! Nenhum!... E cabisbaixo, o olhar mortiço,
Ele voltava, murmurando como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço..."
"Não precisamos mais do seu serviço..."
E cada vez sentia mais o cérebro oco.
Enforcou-se. Morreu. "Foi o diabo ou feitiço..."
E ele morreu murmurando, como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço..."
1 150
Assis Garrido
A Frase que Matou o Operário
"Não precisamos mais do seu serviço",
Disseram-lhe os patrões, há dois meses e pouco.
E ele se foi, sob o calor abafadiço
Daquela tarde, murmurando como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço".
"Não precisamos mais do seu serviço..."
De tantos anos de trabalho era esse o troco
Que recebia. Em vez de lucro, apenas isso...
E ele consigo murmurava como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço..."
"Não precisamos mais do seu serviço..."
Tornou-se bruto e respondia, a praga e a soco,
Aos filhos e à mulher, famintos no cortiço.
E após, chorava murmurando como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço..."
"Não precisamos mais do seu serviço..."
E ele saía a ver emprego, triste e mouco,
Nada! Nenhum!... E cabisbaixo, o olhar mortiço,
Ele voltava, murmurando como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço..."
"Não precisamos mais do seu serviço..."
E cada vez sentia mais o cérebro oco.
Enforcou-se. Morreu. "Foi o diabo ou feitiço..."
E ele morreu murmurando, como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço..."
Disseram-lhe os patrões, há dois meses e pouco.
E ele se foi, sob o calor abafadiço
Daquela tarde, murmurando como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço".
"Não precisamos mais do seu serviço..."
De tantos anos de trabalho era esse o troco
Que recebia. Em vez de lucro, apenas isso...
E ele consigo murmurava como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço..."
"Não precisamos mais do seu serviço..."
Tornou-se bruto e respondia, a praga e a soco,
Aos filhos e à mulher, famintos no cortiço.
E após, chorava murmurando como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço..."
"Não precisamos mais do seu serviço..."
E ele saía a ver emprego, triste e mouco,
Nada! Nenhum!... E cabisbaixo, o olhar mortiço,
Ele voltava, murmurando como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço..."
"Não precisamos mais do seu serviço..."
E cada vez sentia mais o cérebro oco.
Enforcou-se. Morreu. "Foi o diabo ou feitiço..."
E ele morreu murmurando, como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço..."
1 150
Assis Garrido
A Frase que Matou o Operário
"Não precisamos mais do seu serviço",
Disseram-lhe os patrões, há dois meses e pouco.
E ele se foi, sob o calor abafadiço
Daquela tarde, murmurando como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço".
"Não precisamos mais do seu serviço..."
De tantos anos de trabalho era esse o troco
Que recebia. Em vez de lucro, apenas isso...
E ele consigo murmurava como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço..."
"Não precisamos mais do seu serviço..."
Tornou-se bruto e respondia, a praga e a soco,
Aos filhos e à mulher, famintos no cortiço.
E após, chorava murmurando como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço..."
"Não precisamos mais do seu serviço..."
E ele saía a ver emprego, triste e mouco,
Nada! Nenhum!... E cabisbaixo, o olhar mortiço,
Ele voltava, murmurando como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço..."
"Não precisamos mais do seu serviço..."
E cada vez sentia mais o cérebro oco.
Enforcou-se. Morreu. "Foi o diabo ou feitiço..."
E ele morreu murmurando, como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço..."
Disseram-lhe os patrões, há dois meses e pouco.
E ele se foi, sob o calor abafadiço
Daquela tarde, murmurando como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço".
"Não precisamos mais do seu serviço..."
De tantos anos de trabalho era esse o troco
Que recebia. Em vez de lucro, apenas isso...
E ele consigo murmurava como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço..."
"Não precisamos mais do seu serviço..."
Tornou-se bruto e respondia, a praga e a soco,
Aos filhos e à mulher, famintos no cortiço.
E após, chorava murmurando como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço..."
"Não precisamos mais do seu serviço..."
E ele saía a ver emprego, triste e mouco,
Nada! Nenhum!... E cabisbaixo, o olhar mortiço,
Ele voltava, murmurando como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço..."
"Não precisamos mais do seu serviço..."
E cada vez sentia mais o cérebro oco.
Enforcou-se. Morreu. "Foi o diabo ou feitiço..."
E ele morreu murmurando, como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço..."
1 150
José Augusto de Carvalho
Desmistificação
Trago nos pés o cansaço
que há em todas as estradas!
Palmilhei-as passo a passo
e nunca as dei por andadas!...
Descansei junto aos valados
Dormia comigo a lua,
e a meu lado, toda nua,
os dois, num só, abraçados!
O sol vinha com o orvalho,
acordar-nos!
Eu voltava ao meu trabalho;
ela, ao céu, já manhã cedo.
Até que à noite, em segredo,
vinha de novo abraçar-nos...
que há em todas as estradas!
Palmilhei-as passo a passo
e nunca as dei por andadas!...
Descansei junto aos valados
Dormia comigo a lua,
e a meu lado, toda nua,
os dois, num só, abraçados!
O sol vinha com o orvalho,
acordar-nos!
Eu voltava ao meu trabalho;
ela, ao céu, já manhã cedo.
Até que à noite, em segredo,
vinha de novo abraçar-nos...
854
José Augusto de Carvalho
Desmistificação
Trago nos pés o cansaço
que há em todas as estradas!
Palmilhei-as passo a passo
e nunca as dei por andadas!...
Descansei junto aos valados
Dormia comigo a lua,
e a meu lado, toda nua,
os dois, num só, abraçados!
O sol vinha com o orvalho,
acordar-nos!
Eu voltava ao meu trabalho;
ela, ao céu, já manhã cedo.
Até que à noite, em segredo,
vinha de novo abraçar-nos...
que há em todas as estradas!
Palmilhei-as passo a passo
e nunca as dei por andadas!...
Descansei junto aos valados
Dormia comigo a lua,
e a meu lado, toda nua,
os dois, num só, abraçados!
O sol vinha com o orvalho,
acordar-nos!
Eu voltava ao meu trabalho;
ela, ao céu, já manhã cedo.
Até que à noite, em segredo,
vinha de novo abraçar-nos...
854
Alexandre S. Santos
Momento de Ânimo
Em mergulhando na natureza,
sentindo o grande e o belo que verdeja,
buscando em tudo toda a profundeza,
vertendo a lágrima que em mim viceja...
No horizonte onde a alma alcança
procuro pistas de lembranças brancas,
mergulho fundo, entro numa dança,
desfaço nós onde jaziam trancas.
Minha vontade faz com que me mova
e desta cela, corpo, me absolvo.
Por esta forma o velho se renova
sem impossível crio meios, sou um polvo.
Busco nos cimos o algo que me falta;
das barreiras faço uso, me promovo;
na vida, sou vida, dou vida, sou peralta;
tropeço, levanto, como outrora e de novo.
sentindo o grande e o belo que verdeja,
buscando em tudo toda a profundeza,
vertendo a lágrima que em mim viceja...
No horizonte onde a alma alcança
procuro pistas de lembranças brancas,
mergulho fundo, entro numa dança,
desfaço nós onde jaziam trancas.
Minha vontade faz com que me mova
e desta cela, corpo, me absolvo.
Por esta forma o velho se renova
sem impossível crio meios, sou um polvo.
Busco nos cimos o algo que me falta;
das barreiras faço uso, me promovo;
na vida, sou vida, dou vida, sou peralta;
tropeço, levanto, como outrora e de novo.
1 056
Maria João
Um amor proibido
Estou silenciosa, de frente para a ponte
atrevendo-me, sem me atrever a atravessá-la
Tu olhas-me carinhoso, do outro lado,
atrevendo-te, sem te atreveres a atravessá-la
o meu coração mantém-se embrulhado em
seda branca
Incapaz de respirar ou ver
Estou parada neste homem, sem me mover,
à espera
Uma poeira laranja invade devagar
esta paisagem estrangeira
e o meu coração estoira
Então, enquanto o dia entra pela noite
eu abro a gaveta da minha bravura
e firme passo sobre o preconceito das gentes
Um passo
depois outro
amorosamente atravessando a ponte
atrevendo-me, sem me atrever a atravessá-la
Tu olhas-me carinhoso, do outro lado,
atrevendo-te, sem te atreveres a atravessá-la
o meu coração mantém-se embrulhado em
seda branca
Incapaz de respirar ou ver
Estou parada neste homem, sem me mover,
à espera
Uma poeira laranja invade devagar
esta paisagem estrangeira
e o meu coração estoira
Então, enquanto o dia entra pela noite
eu abro a gaveta da minha bravura
e firme passo sobre o preconceito das gentes
Um passo
depois outro
amorosamente atravessando a ponte
1 051
Marcial
Como nunca te vi cercada de homens
I,91
Como nunca te vi, ó Bassa, cercada de homens
e de nenhuma amante as más-linguas te acusavam,
e como à tua volta só havia donzelas
prontas ao teu serviço, mas de macho… nem cheiro,
cheguei, confesso, a crer-te uma Lucrécia.
Mas afinal, Bassa, – que horror! – tu fodia-las todas,
tu ousavas fazer amor cona com cona,
quase parecias um homem, ó Venus monstruosa!
Forjaste um enigma digno da tebana esfinge:
como haver adultério onde não existe homem!
Como nunca te vi, ó Bassa, cercada de homens
e de nenhuma amante as más-linguas te acusavam,
e como à tua volta só havia donzelas
prontas ao teu serviço, mas de macho… nem cheiro,
cheguei, confesso, a crer-te uma Lucrécia.
Mas afinal, Bassa, – que horror! – tu fodia-las todas,
tu ousavas fazer amor cona com cona,
quase parecias um homem, ó Venus monstruosa!
Forjaste um enigma digno da tebana esfinge:
como haver adultério onde não existe homem!
1 124
Renier Dias Pereira
Help!
Help!
-8 DE DEZEMBRO DE 1980-
Abra os seus olhos
para você mesmo e
verá que o sonho não acabou
continua resistente a todo tempo
O homem livre como um pássaro
que se esqueceu de lembrar que esquece
a poesia é apunhalada pelas costas
mas continua resistente a toda realidade
Viver com cada olhar oculto
ela é a mulher perfeita
está dentro de mim
e continua resistente as divisões
Parou de fazer poesia para
pertencer a ela. noite de
dias difíceis. ontem haverá
paz nesse mundo desfalque.
-8 DE DEZEMBRO DE 1980-
Abra os seus olhos
para você mesmo e
verá que o sonho não acabou
continua resistente a todo tempo
O homem livre como um pássaro
que se esqueceu de lembrar que esquece
a poesia é apunhalada pelas costas
mas continua resistente a toda realidade
Viver com cada olhar oculto
ela é a mulher perfeita
está dentro de mim
e continua resistente as divisões
Parou de fazer poesia para
pertencer a ela. noite de
dias difíceis. ontem haverá
paz nesse mundo desfalque.
1 108
António Lobo de Carvalho
Soneto I
Ao Paca do Rio de Janeiro, indo de Lisboa são, do muito gálico que trouxe
Putaria do sul, gentinha fraca,
Convosco falo, cagaçais do Rio;
Que vendo ao longe as vergas de um navio
Altos vivas cantais ao vosso Paca:
Não tarda muito, vai numa sumaca
Que em horror do pirata e do gentio,
No tope leva um piçalhão de brio,
Que o vento açouta ao modo da matraca:
Vista a senha, rapai todas a crica,
Que o duro batedor, que nunca enjoa,
Lá no signo de virgo em terra fica:
Que para esfrega de uma moça boa
Sararam-lhe os colhões e cresceu-lhe a pica
Por milagre das deusas de Lisboa.
A vila de Guimarães, que é a pátria do amor
Olha tu, Guimarães, das cortes velhas
Nenhuma a primazia te disputa;
Ainda que baixa, és terrinha enxuta,
Onde são bem chuchadas as botelhas:
Panelas, socos, nabos e cemelhas
Do país foram sempre a melhor fruta;
Só dos dois animais o frade, e a puta,
Podas ter de alquiler três mil parelhas!
Daí vêm os heróis de marca e selo,
Que indo as honras buscar ao chão acima,
Acabam laureados de capelo:
Assim Jove imortal, que os bons estima,
Te ponha a mesma mão pelo cabelo,
Que pôs há tempos em Calhau de Lima.
Putaria do sul, gentinha fraca,
Convosco falo, cagaçais do Rio;
Que vendo ao longe as vergas de um navio
Altos vivas cantais ao vosso Paca:
Não tarda muito, vai numa sumaca
Que em horror do pirata e do gentio,
No tope leva um piçalhão de brio,
Que o vento açouta ao modo da matraca:
Vista a senha, rapai todas a crica,
Que o duro batedor, que nunca enjoa,
Lá no signo de virgo em terra fica:
Que para esfrega de uma moça boa
Sararam-lhe os colhões e cresceu-lhe a pica
Por milagre das deusas de Lisboa.
A vila de Guimarães, que é a pátria do amor
Olha tu, Guimarães, das cortes velhas
Nenhuma a primazia te disputa;
Ainda que baixa, és terrinha enxuta,
Onde são bem chuchadas as botelhas:
Panelas, socos, nabos e cemelhas
Do país foram sempre a melhor fruta;
Só dos dois animais o frade, e a puta,
Podas ter de alquiler três mil parelhas!
Daí vêm os heróis de marca e selo,
Que indo as honras buscar ao chão acima,
Acabam laureados de capelo:
Assim Jove imortal, que os bons estima,
Te ponha a mesma mão pelo cabelo,
Que pôs há tempos em Calhau de Lima.
1 405
Nuno Guimarães
Um Fruto Anunciado
Um fruto anunciado
numa operária que trabalha no amor.
Um que rompe a terra após a chuva
e de novo lhe cai. Amargo arado.
Fruto solar. De sol e cálcio.
alcalino até ao coração.
O tanque resumido. Ou corpo húmido.
Toda a luz que cabe numa boca
De limos de volume. Espaço claro
e habitado em rio na garganta.
Um fruto, um claustro anunciado
num corpo de operário em combustão.
numa operária que trabalha no amor.
Um que rompe a terra após a chuva
e de novo lhe cai. Amargo arado.
Fruto solar. De sol e cálcio.
alcalino até ao coração.
O tanque resumido. Ou corpo húmido.
Toda a luz que cabe numa boca
De limos de volume. Espaço claro
e habitado em rio na garganta.
Um fruto, um claustro anunciado
num corpo de operário em combustão.
1 114
Ronaldo Cagiano
Pórtico
Na velha ponte
de Cataguases,
belvedere entre montanhas
vislumbro uma lâmina mordaz
na incontida fugacidade das águas
do Rio Pomba.
O leito que escorre inexorável
diante dos meus olhos,
carrega histórias & cansaços
numa retroviagem sem tamanho
diante do menino perplexo
que a tudo esgarça
com inquirição ou pranto.
A cidade, as pessoas, o vário tempo
são remotas cintilações de antanho,
mas ainda perdura
no mofo das amuradas
nos vetustos oitizeiros da rua
nos trilhos da velha estação
a oficina de sonhos
que hiberna no rigor
de tantos (des)caminhos.
de Cataguases,
belvedere entre montanhas
vislumbro uma lâmina mordaz
na incontida fugacidade das águas
do Rio Pomba.
O leito que escorre inexorável
diante dos meus olhos,
carrega histórias & cansaços
numa retroviagem sem tamanho
diante do menino perplexo
que a tudo esgarça
com inquirição ou pranto.
A cidade, as pessoas, o vário tempo
são remotas cintilações de antanho,
mas ainda perdura
no mofo das amuradas
nos vetustos oitizeiros da rua
nos trilhos da velha estação
a oficina de sonhos
que hiberna no rigor
de tantos (des)caminhos.
812
António Lobo de Carvalho
Soneto II
A certas moças que traziam engodados os basbaques, que por elas deixavam cardar
Há certas semi-putas nesta terra,
A quem lerdos basbaques fazem tolas;
Que vivendo de ganchos, e gaiolas,
As honradas pretendem fazer guerra:
As Dauphnis (por exemplo) andam na berra
Entre quatro afectados mariolas,
Que espertas devem ser, mas são patolas,
Que a sagaz cambadinha em vida enterra:
Quem as vê lambisgóias, faladoras,
O chiste já sediço repetindo,
Se é bolónio, ele crê que são doutoras:
O laberco porém, que esta medindo
Quanto dista de putas a senhoras,
Caga nelas, e deles se vai rindo.
Há certas semi-putas nesta terra,
A quem lerdos basbaques fazem tolas;
Que vivendo de ganchos, e gaiolas,
As honradas pretendem fazer guerra:
As Dauphnis (por exemplo) andam na berra
Entre quatro afectados mariolas,
Que espertas devem ser, mas são patolas,
Que a sagaz cambadinha em vida enterra:
Quem as vê lambisgóias, faladoras,
O chiste já sediço repetindo,
Se é bolónio, ele crê que são doutoras:
O laberco porém, que esta medindo
Quanto dista de putas a senhoras,
Caga nelas, e deles se vai rindo.
1 124
Nuno Guimarães
Pela Escrita
Através dela somos divididos
E somos portadores da divisão.
Por ela aprendemos um país
Apreendido.
Dela passamos para nós:
Tornamo-nos, assim, subvertidos.
Por ela quebramos os limites
Do conhecimento.
Má consciência nas palavras.
E nos actos.
Do acto à escrita, intensidade:
A escrita é o acto mais atento.
E somos portadores da divisão.
Por ela aprendemos um país
Apreendido.
Dela passamos para nós:
Tornamo-nos, assim, subvertidos.
Por ela quebramos os limites
Do conhecimento.
Má consciência nas palavras.
E nos actos.
Do acto à escrita, intensidade:
A escrita é o acto mais atento.
1 292
Nuno Guimarães
Pela Escrita
Através dela somos divididos
E somos portadores da divisão.
Por ela aprendemos um país
Apreendido.
Dela passamos para nós:
Tornamo-nos, assim, subvertidos.
Por ela quebramos os limites
Do conhecimento.
Má consciência nas palavras.
E nos actos.
Do acto à escrita, intensidade:
A escrita é o acto mais atento.
E somos portadores da divisão.
Por ela aprendemos um país
Apreendido.
Dela passamos para nós:
Tornamo-nos, assim, subvertidos.
Por ela quebramos os limites
Do conhecimento.
Má consciência nas palavras.
E nos actos.
Do acto à escrita, intensidade:
A escrita é o acto mais atento.
1 292
Nuno Guimarães
Pela Escrita
Através dela somos divididos
E somos portadores da divisão.
Por ela aprendemos um país
Apreendido.
Dela passamos para nós:
Tornamo-nos, assim, subvertidos.
Por ela quebramos os limites
Do conhecimento.
Má consciência nas palavras.
E nos actos.
Do acto à escrita, intensidade:
A escrita é o acto mais atento.
E somos portadores da divisão.
Por ela aprendemos um país
Apreendido.
Dela passamos para nós:
Tornamo-nos, assim, subvertidos.
Por ela quebramos os limites
Do conhecimento.
Má consciência nas palavras.
E nos actos.
Do acto à escrita, intensidade:
A escrita é o acto mais atento.
1 292
Marcial
Apesar de teres colhões depilados
IX,27
Apesar, ó Cresto, de teres colhões depilados,
um caralho que parece um pescoço de abutre,
uma cabeça mais lisa que cu de prostituta,
de não teres nas pernas o mais ligeiro pêlo,
de sempre aos lábios brancos aplicares a pinça,
falas constantemente em Cúrios e Camilos,
em Quíncios, Numas e Ancos, esses heróis cabeludos
de que os livros estão cheios, e com palavras duras
lanças ameaças e investes com teatros e modas!
Mas se acaso te surge à frente algum panasca
recém-saído das mãos do pedagogo,
cujo pénis já inchado o técnico soltou
logo o chamas e o levas, e … Quase tenho vergonha, ó Cresto,
de dizer o que faz essa língua de Catão!
Apesar, ó Cresto, de teres colhões depilados,
um caralho que parece um pescoço de abutre,
uma cabeça mais lisa que cu de prostituta,
de não teres nas pernas o mais ligeiro pêlo,
de sempre aos lábios brancos aplicares a pinça,
falas constantemente em Cúrios e Camilos,
em Quíncios, Numas e Ancos, esses heróis cabeludos
de que os livros estão cheios, e com palavras duras
lanças ameaças e investes com teatros e modas!
Mas se acaso te surge à frente algum panasca
recém-saído das mãos do pedagogo,
cujo pénis já inchado o técnico soltou
logo o chamas e o levas, e … Quase tenho vergonha, ó Cresto,
de dizer o que faz essa língua de Catão!
849
Natália Correia
Véspera do Prodígio
Além do
sol, além do Sete-Estrelo
Uma última Tule me subentende.
O caminho pra mim não sei. Sabe-lo
Será ciência que a morrer se aprende?
Passo ou sou? Deuses, quem quebra o selo?
Quando entro em mim outrem me surpreende
Que um génio zombador tem por modelo.
Onde o esquivo lar desse duende?
Seja quem for o eu que em mim recluso
Alheio fado cumpre, é vácuo o uso
Que do Dom de pensar em vão fazemos.
Melhor é ir. Atravessar o muro,
Seguir na barca que passa o golfo escuro
E ao Grande Enigma abandonar os remos.
sol, além do Sete-Estrelo
Uma última Tule me subentende.
O caminho pra mim não sei. Sabe-lo
Será ciência que a morrer se aprende?
Passo ou sou? Deuses, quem quebra o selo?
Quando entro em mim outrem me surpreende
Que um génio zombador tem por modelo.
Onde o esquivo lar desse duende?
Seja quem for o eu que em mim recluso
Alheio fado cumpre, é vácuo o uso
Que do Dom de pensar em vão fazemos.
Melhor é ir. Atravessar o muro,
Seguir na barca que passa o golfo escuro
E ao Grande Enigma abandonar os remos.
1 994
Marcial
Se a coisa te não maça ou enfastia
I,97
Se a coisa te não maça ou enfastia, escazonte
eu te peço, ao meu caro Materno estas breves palavras
diz ao ouvido, de modo que ele apenas oiça.
Aquele apreciador de capotes sombrios,
que se veste de lã e de trajes conzentos,
que chama aos que usam roupas vermelhas maricas
e acha os tecidos cor de ametista próprios de mulheres,
por mais que gabe as vestes simples, e sempre use
sombrias cores, é esverdeado nos costumes.
Por que o julgo invertido?, perguntarás tu.
Tomamos banho juntos: nunca olha para cima,
mas com olhos vorazes contempla os paneleiros
e cresce-lhe água na boca ao ver caralhos.
Queres saber quem é ele? Já me escapou o seu nome.
Se a coisa te não maça ou enfastia, escazonte
eu te peço, ao meu caro Materno estas breves palavras
diz ao ouvido, de modo que ele apenas oiça.
Aquele apreciador de capotes sombrios,
que se veste de lã e de trajes conzentos,
que chama aos que usam roupas vermelhas maricas
e acha os tecidos cor de ametista próprios de mulheres,
por mais que gabe as vestes simples, e sempre use
sombrias cores, é esverdeado nos costumes.
Por que o julgo invertido?, perguntarás tu.
Tomamos banho juntos: nunca olha para cima,
mas com olhos vorazes contempla os paneleiros
e cresce-lhe água na boca ao ver caralhos.
Queres saber quem é ele? Já me escapou o seu nome.
1 046
Nuno Guimarães
Os Amorados
Na amurada dos navios, na improcedência
Das aves sem lugar, desalojados,
Vão.
E se descobrem um sinal ou um resíduo
Da terra original, é só a móvel,
A geográfica terra do sistema.
Tomados já de amor, in amorados,
Buscam só a morada, sem prefixo.
E, no entanto, há mapas, há sistemas
De orientação indica dores:
É ali, em tal lugar, em tal
Memória.
Um mito embalsamaram
No coração sem metafísica.
Entre sinais de voo e de metáfora
Entre um cantar e a sua escrita.
Palavras que rebentam....
Palavras que rebentam. Aflorando
A pedra, a solidão, deslizam, vagas,
Gramaticais, roendo inconformadas
As arestas, o atrito, puras. Quando
Nos líquidos, no éter, na distancia,
Diluem-se e morrem acabadas.
Não nos corpos, nas rugas, nas arcadas:
Combatem, rumorosas, cal e cântico.
É dificil atarem corpo e vida
Aos que vivem e morrem subjacentes
Subjazendo, talhados para mina.
Mas despertadas, bem ou mal medidas,
Rebentam em ogiva, funcionais
Chamas supostamente adormecidas.
Das aves sem lugar, desalojados,
Vão.
E se descobrem um sinal ou um resíduo
Da terra original, é só a móvel,
A geográfica terra do sistema.
Tomados já de amor, in amorados,
Buscam só a morada, sem prefixo.
E, no entanto, há mapas, há sistemas
De orientação indica dores:
É ali, em tal lugar, em tal
Memória.
Um mito embalsamaram
No coração sem metafísica.
Entre sinais de voo e de metáfora
Entre um cantar e a sua escrita.
Palavras que rebentam....
Palavras que rebentam. Aflorando
A pedra, a solidão, deslizam, vagas,
Gramaticais, roendo inconformadas
As arestas, o atrito, puras. Quando
Nos líquidos, no éter, na distancia,
Diluem-se e morrem acabadas.
Não nos corpos, nas rugas, nas arcadas:
Combatem, rumorosas, cal e cântico.
É dificil atarem corpo e vida
Aos que vivem e morrem subjacentes
Subjazendo, talhados para mina.
Mas despertadas, bem ou mal medidas,
Rebentam em ogiva, funcionais
Chamas supostamente adormecidas.
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Juscelino Vieira Mendes
Sestina do Shema
I
São palavras ordenadas por Deus
para alcançar de Suas criaturas o coração
que está longe pós-queda sem poder,
com arrogância e tristeza nalma.
Portanto do único Senhor ouve
a fim de que possa ser
II
É suprema a graça daquele ser
que busca, na sapiência, e ouve;
que ama, com exaltação, ao único Deus;
que O adora de todo coração
e com profundidade e beleza de toda a sua alma
recebe Suas palavras de poder
III
e, intimando à prole desse poder,
assentado em casa e com o fervor do coração;
andando pelo caminho aberto por esse grande Deus;
deitando, para o descanso e ronovação do seu ser;
levantando de manhã, ouve!
E atando as palavras ordenadas por sinal na sua mão,
com alegria nalma
IV
entre os seus olhos, que são as portas dessa alma,
e por testeiras que identificam O Deus,
escritas serão nos umbrais de seu coração.
Da casa, cuja entrada, dignificará o seu ser;
nas portas, para que tenha poder.
Portanto, ouve!
V
Por que, Israel, não ouve,
para o bem de sua alma?
Se na boa terra o introduziu Deus,
que havia jurado a seus pais, poder!
Emanado de Seu Ser,
de Seu Coração!
VI
Quem amou dAbraão o coração?
Quem tornou a Isaque um ser?
Quem do Senhor recebeu poder?
Quem edificou a sua alma?
Portanto, Israel, Ouve!
Porque a tudo ordenou Deus...
VII
que o tornará um ser de poder
e de alma edificada para o bem do coração
se ouve, Israel, quem o tirou da casa da servidão: Deus.
2 de janeiro de 1997.
Poema baseado no texto bíblico de Deuteronômio 6:4-9 - "Por algum tempo durante o período do Segundo Templo, esta passagem bíblica foi escolhida para ser recitada duas vezes ao dia, pela manhã e à noite, por todos os judeus. Conhecida pela sua palavra inicial, Shemá, começa assim: "Escuta, ó Israel, o Senhor é nosso Deus, o Senhor é Um". Este versículo tornou-se o lema do judaísmo. É a primeira frase a ser ensinada a uma criança judia, e a última a ser pronunciada antes de morrer." Os Judeus e o Judaísmo, pág. 268, de David J. Goldberg e John D. Rayner - Trad. Paulo Geiger e Carlos André Oighenstein - Rio de Janeiro: Xenon Ed., 1989.
São palavras ordenadas por Deus
para alcançar de Suas criaturas o coração
que está longe pós-queda sem poder,
com arrogância e tristeza nalma.
Portanto do único Senhor ouve
a fim de que possa ser
II
É suprema a graça daquele ser
que busca, na sapiência, e ouve;
que ama, com exaltação, ao único Deus;
que O adora de todo coração
e com profundidade e beleza de toda a sua alma
recebe Suas palavras de poder
III
e, intimando à prole desse poder,
assentado em casa e com o fervor do coração;
andando pelo caminho aberto por esse grande Deus;
deitando, para o descanso e ronovação do seu ser;
levantando de manhã, ouve!
E atando as palavras ordenadas por sinal na sua mão,
com alegria nalma
IV
entre os seus olhos, que são as portas dessa alma,
e por testeiras que identificam O Deus,
escritas serão nos umbrais de seu coração.
Da casa, cuja entrada, dignificará o seu ser;
nas portas, para que tenha poder.
Portanto, ouve!
V
Por que, Israel, não ouve,
para o bem de sua alma?
Se na boa terra o introduziu Deus,
que havia jurado a seus pais, poder!
Emanado de Seu Ser,
de Seu Coração!
VI
Quem amou dAbraão o coração?
Quem tornou a Isaque um ser?
Quem do Senhor recebeu poder?
Quem edificou a sua alma?
Portanto, Israel, Ouve!
Porque a tudo ordenou Deus...
VII
que o tornará um ser de poder
e de alma edificada para o bem do coração
se ouve, Israel, quem o tirou da casa da servidão: Deus.
2 de janeiro de 1997.
Poema baseado no texto bíblico de Deuteronômio 6:4-9 - "Por algum tempo durante o período do Segundo Templo, esta passagem bíblica foi escolhida para ser recitada duas vezes ao dia, pela manhã e à noite, por todos os judeus. Conhecida pela sua palavra inicial, Shemá, começa assim: "Escuta, ó Israel, o Senhor é nosso Deus, o Senhor é Um". Este versículo tornou-se o lema do judaísmo. É a primeira frase a ser ensinada a uma criança judia, e a última a ser pronunciada antes de morrer." Os Judeus e o Judaísmo, pág. 268, de David J. Goldberg e John D. Rayner - Trad. Paulo Geiger e Carlos André Oighenstein - Rio de Janeiro: Xenon Ed., 1989.
981
Juscelino Vieira Mendes
Chuva
Chuva, chove
Cai, mata, desce veloz
Torrencial, matinal
Desgraçadamente sobre eles, nós, todos...
Inunda, transborda rios: de sangue!
De água, sem cessar...
Continua matando, transbordando
No estado do Rio; do Paraná; de São Paulo e do Ceará...
Nada de água; água prá nada.
Fogem de lá prá cá... enchente...ingente, indigente!
Para morrerem de sede; de fome
Sem amor, de dor, de saudade.
Sem saudade; de amor...
Continua caindo, sempre
Molhando, invadindo
matando-os; não eles...
Não latifundiários; não os bons
Somente os maus
Desce, chove
cresce, enche
Mata a fome: de fome
Uns, outros, todos...
(...e inunda-me também o coração!).
enchente de janeiro de 1977.
Cai, mata, desce veloz
Torrencial, matinal
Desgraçadamente sobre eles, nós, todos...
Inunda, transborda rios: de sangue!
De água, sem cessar...
Continua matando, transbordando
No estado do Rio; do Paraná; de São Paulo e do Ceará...
Nada de água; água prá nada.
Fogem de lá prá cá... enchente...ingente, indigente!
Para morrerem de sede; de fome
Sem amor, de dor, de saudade.
Sem saudade; de amor...
Continua caindo, sempre
Molhando, invadindo
matando-os; não eles...
Não latifundiários; não os bons
Somente os maus
Desce, chove
cresce, enche
Mata a fome: de fome
Uns, outros, todos...
(...e inunda-me também o coração!).
enchente de janeiro de 1977.
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