Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Thiago de Mello
Lição de Escuridão
Caboclo companheiro meu de várzea,
contigo cada dia um pouco aprendo
as ciências desta selva que nos une.
Contigo, que me ensinas o caminho dos ventos,
me levas a ler, nas lonjuras do céu,
os recados escritos pelas nuvens,
me avisas do perigo dos remansos
e quando devo desviar de viés a proa da canoa
para varar as ondas de perfil.
Sabes o nome e o segredo de todas as árvores,
a paragem calada que os peixes preferem
quando as águas começam a crescer.
Pelo canto, a cor do bico, o jeito de voar.
identificas todos os pássaros da selva.
Sozinho (eu mais Deus, tu me explicas).
atravessas a noite no centro da mata.
corajoso e paciente na tocaia da caça.
a traição dos felinos não te vence.
Contigo aprendo as leis da escuridão,
quando me apontas na distância da margem,
viajando na noite sem estrelas,
a boca (ainda não consigo ver) do Lago Grande
de onde me fui pequenino e te deixei.
De novo no chão da infância,
contigo aprendo também
que ainda não tens olhos para ver
as raízes de tua vida escura,
não sabes quais são os dentes que te devoram
nem os cipós que te amarram à servidão.
Nos teus olhos opacos
aprendo o que nos distingue.
Já repartes comigo a ciência e a paciência.
Quero contigo repartir a esperança,
estrela vigilante em minha fronte
e em teu olhar apenas um tição
encharcado de engano e cativeiro.
Barreirinha, 1981
Publicado no livro Mormaço na Floresta (1981).
In: MELLO, Thiago de. Vento geral, 1951/1981: doze livros de poemas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 198
contigo cada dia um pouco aprendo
as ciências desta selva que nos une.
Contigo, que me ensinas o caminho dos ventos,
me levas a ler, nas lonjuras do céu,
os recados escritos pelas nuvens,
me avisas do perigo dos remansos
e quando devo desviar de viés a proa da canoa
para varar as ondas de perfil.
Sabes o nome e o segredo de todas as árvores,
a paragem calada que os peixes preferem
quando as águas começam a crescer.
Pelo canto, a cor do bico, o jeito de voar.
identificas todos os pássaros da selva.
Sozinho (eu mais Deus, tu me explicas).
atravessas a noite no centro da mata.
corajoso e paciente na tocaia da caça.
a traição dos felinos não te vence.
Contigo aprendo as leis da escuridão,
quando me apontas na distância da margem,
viajando na noite sem estrelas,
a boca (ainda não consigo ver) do Lago Grande
de onde me fui pequenino e te deixei.
De novo no chão da infância,
contigo aprendo também
que ainda não tens olhos para ver
as raízes de tua vida escura,
não sabes quais são os dentes que te devoram
nem os cipós que te amarram à servidão.
Nos teus olhos opacos
aprendo o que nos distingue.
Já repartes comigo a ciência e a paciência.
Quero contigo repartir a esperança,
estrela vigilante em minha fronte
e em teu olhar apenas um tição
encharcado de engano e cativeiro.
Barreirinha, 1981
Publicado no livro Mormaço na Floresta (1981).
In: MELLO, Thiago de. Vento geral, 1951/1981: doze livros de poemas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 198
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Thiago de Mello
Lição de Escuridão
Caboclo companheiro meu de várzea,
contigo cada dia um pouco aprendo
as ciências desta selva que nos une.
Contigo, que me ensinas o caminho dos ventos,
me levas a ler, nas lonjuras do céu,
os recados escritos pelas nuvens,
me avisas do perigo dos remansos
e quando devo desviar de viés a proa da canoa
para varar as ondas de perfil.
Sabes o nome e o segredo de todas as árvores,
a paragem calada que os peixes preferem
quando as águas começam a crescer.
Pelo canto, a cor do bico, o jeito de voar.
identificas todos os pássaros da selva.
Sozinho (eu mais Deus, tu me explicas).
atravessas a noite no centro da mata.
corajoso e paciente na tocaia da caça.
a traição dos felinos não te vence.
Contigo aprendo as leis da escuridão,
quando me apontas na distância da margem,
viajando na noite sem estrelas,
a boca (ainda não consigo ver) do Lago Grande
de onde me fui pequenino e te deixei.
De novo no chão da infância,
contigo aprendo também
que ainda não tens olhos para ver
as raízes de tua vida escura,
não sabes quais são os dentes que te devoram
nem os cipós que te amarram à servidão.
Nos teus olhos opacos
aprendo o que nos distingue.
Já repartes comigo a ciência e a paciência.
Quero contigo repartir a esperança,
estrela vigilante em minha fronte
e em teu olhar apenas um tição
encharcado de engano e cativeiro.
Barreirinha, 1981
Publicado no livro Mormaço na Floresta (1981).
In: MELLO, Thiago de. Vento geral, 1951/1981: doze livros de poemas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 198
contigo cada dia um pouco aprendo
as ciências desta selva que nos une.
Contigo, que me ensinas o caminho dos ventos,
me levas a ler, nas lonjuras do céu,
os recados escritos pelas nuvens,
me avisas do perigo dos remansos
e quando devo desviar de viés a proa da canoa
para varar as ondas de perfil.
Sabes o nome e o segredo de todas as árvores,
a paragem calada que os peixes preferem
quando as águas começam a crescer.
Pelo canto, a cor do bico, o jeito de voar.
identificas todos os pássaros da selva.
Sozinho (eu mais Deus, tu me explicas).
atravessas a noite no centro da mata.
corajoso e paciente na tocaia da caça.
a traição dos felinos não te vence.
Contigo aprendo as leis da escuridão,
quando me apontas na distância da margem,
viajando na noite sem estrelas,
a boca (ainda não consigo ver) do Lago Grande
de onde me fui pequenino e te deixei.
De novo no chão da infância,
contigo aprendo também
que ainda não tens olhos para ver
as raízes de tua vida escura,
não sabes quais são os dentes que te devoram
nem os cipós que te amarram à servidão.
Nos teus olhos opacos
aprendo o que nos distingue.
Já repartes comigo a ciência e a paciência.
Quero contigo repartir a esperança,
estrela vigilante em minha fronte
e em teu olhar apenas um tição
encharcado de engano e cativeiro.
Barreirinha, 1981
Publicado no livro Mormaço na Floresta (1981).
In: MELLO, Thiago de. Vento geral, 1951/1981: doze livros de poemas. 2.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 198
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Luís Gama
Lá Vai Verso!
Quero também ser poeta,
Bem pouco, ou nada me importa,
Se a minha veia é discreta,
Se a via que sigo é torta.
F. X. DE NOVAIS
Alta noite, sentindo o meu bestunto
Pejado, qual vulcão de flama ardente,
Leve pluma empunhei, incontinente
O fio das idéias fui traçando.
As Ninfas invoquei para que vissem
Do meu estro voraz o ardimento;
E depois, revoando ao firmamento,
Fossem do Vate o nome apregoando.
Ó Musa da Guiné, cor de azeviche,
Estátua de granito denegrido,
Ante quem o Leão se põe rendido,
Despido do furor de atroz braveza;
Empresta-me o cabaço d'urucungo,
Ensina-me a brandir tua marimba,
Inspira-me a ciência da candimba,
Às vias me conduz d'alta grandeza.
Quero a glória abater de antigos vates,
Do tempo dos heróis armipotentes;
Os Homeros, Camões — aurifulgentes,
Decantando os Barões da minha Pátria!
Quero gravar em lúcidas colunas
Obscuro poder da parvoíce,
E a fama levar da vil sandice
A longínquas regiões da velha Báctria!
Quero que o mundo me encarando veja
Um retumbante Orfeu de carapinha,
Que a Lira desprezando, por mesquinha,
Ao som decanta de Marimba augusta;
E, qual outro Arion entre os Delfins,
Os ávidos piratas embaindo —
As ferrenhas palhetas vai brandindo,
Com estilo que presa a Líbia adusta.
Com sabença profunda irei cantando
Altos feitos da gente luminosa,
Que a trapaça movendo portentosa
À mente assombra, e pasma à natureza!
Espertos eleitores de encomenda,
Deputados, Ministros, Senadores,
Galfarros Diplomatas — chuchadores,
De quem reza a cartilha da esperteza.
Caducas Tartarugas — desfrutáveis,
Velharrões tabaquentos — sem juízo,
Irrisórios fidalgos — de improviso,
Finórios traficantes — patriotas;
Espertos maganões de mão ligeira,
Emproados juízes de trapaça,
E outros que de honrados têm fumaça,
Mas que são refinados agiotas.
Nem eu próprio à festança escaparei;
Com foros de Africano fidalgote,
Montado num Barão com ar de zote —
Ao rufo do tambor e dos zabumbas,
Ao som de mil aplausos retumbantes,
Entre os netos da Ginga, meus parentes,
Pulando de prazer e de contentes —
Nas danças entrarei d'altas caiumbas.
Imagem - 00270001
Publicado no livro Primeiras trovas burlescas de Getulino (1859).
In: GAMA, Luiz. Trovas burlescas e escritos em prosa. Org. Fernando Góes. São Paulo: Cultura, 1944. p.19-20. (Últimas gerações, 4
Bem pouco, ou nada me importa,
Se a minha veia é discreta,
Se a via que sigo é torta.
F. X. DE NOVAIS
Alta noite, sentindo o meu bestunto
Pejado, qual vulcão de flama ardente,
Leve pluma empunhei, incontinente
O fio das idéias fui traçando.
As Ninfas invoquei para que vissem
Do meu estro voraz o ardimento;
E depois, revoando ao firmamento,
Fossem do Vate o nome apregoando.
Ó Musa da Guiné, cor de azeviche,
Estátua de granito denegrido,
Ante quem o Leão se põe rendido,
Despido do furor de atroz braveza;
Empresta-me o cabaço d'urucungo,
Ensina-me a brandir tua marimba,
Inspira-me a ciência da candimba,
Às vias me conduz d'alta grandeza.
Quero a glória abater de antigos vates,
Do tempo dos heróis armipotentes;
Os Homeros, Camões — aurifulgentes,
Decantando os Barões da minha Pátria!
Quero gravar em lúcidas colunas
Obscuro poder da parvoíce,
E a fama levar da vil sandice
A longínquas regiões da velha Báctria!
Quero que o mundo me encarando veja
Um retumbante Orfeu de carapinha,
Que a Lira desprezando, por mesquinha,
Ao som decanta de Marimba augusta;
E, qual outro Arion entre os Delfins,
Os ávidos piratas embaindo —
As ferrenhas palhetas vai brandindo,
Com estilo que presa a Líbia adusta.
Com sabença profunda irei cantando
Altos feitos da gente luminosa,
Que a trapaça movendo portentosa
À mente assombra, e pasma à natureza!
Espertos eleitores de encomenda,
Deputados, Ministros, Senadores,
Galfarros Diplomatas — chuchadores,
De quem reza a cartilha da esperteza.
Caducas Tartarugas — desfrutáveis,
Velharrões tabaquentos — sem juízo,
Irrisórios fidalgos — de improviso,
Finórios traficantes — patriotas;
Espertos maganões de mão ligeira,
Emproados juízes de trapaça,
E outros que de honrados têm fumaça,
Mas que são refinados agiotas.
Nem eu próprio à festança escaparei;
Com foros de Africano fidalgote,
Montado num Barão com ar de zote —
Ao rufo do tambor e dos zabumbas,
Ao som de mil aplausos retumbantes,
Entre os netos da Ginga, meus parentes,
Pulando de prazer e de contentes —
Nas danças entrarei d'altas caiumbas.
Imagem - 00270001
Publicado no livro Primeiras trovas burlescas de Getulino (1859).
In: GAMA, Luiz. Trovas burlescas e escritos em prosa. Org. Fernando Góes. São Paulo: Cultura, 1944. p.19-20. (Últimas gerações, 4
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Luís Gama
Lá Vai Verso!
Quero também ser poeta,
Bem pouco, ou nada me importa,
Se a minha veia é discreta,
Se a via que sigo é torta.
F. X. DE NOVAIS
Alta noite, sentindo o meu bestunto
Pejado, qual vulcão de flama ardente,
Leve pluma empunhei, incontinente
O fio das idéias fui traçando.
As Ninfas invoquei para que vissem
Do meu estro voraz o ardimento;
E depois, revoando ao firmamento,
Fossem do Vate o nome apregoando.
Ó Musa da Guiné, cor de azeviche,
Estátua de granito denegrido,
Ante quem o Leão se põe rendido,
Despido do furor de atroz braveza;
Empresta-me o cabaço d'urucungo,
Ensina-me a brandir tua marimba,
Inspira-me a ciência da candimba,
Às vias me conduz d'alta grandeza.
Quero a glória abater de antigos vates,
Do tempo dos heróis armipotentes;
Os Homeros, Camões — aurifulgentes,
Decantando os Barões da minha Pátria!
Quero gravar em lúcidas colunas
Obscuro poder da parvoíce,
E a fama levar da vil sandice
A longínquas regiões da velha Báctria!
Quero que o mundo me encarando veja
Um retumbante Orfeu de carapinha,
Que a Lira desprezando, por mesquinha,
Ao som decanta de Marimba augusta;
E, qual outro Arion entre os Delfins,
Os ávidos piratas embaindo —
As ferrenhas palhetas vai brandindo,
Com estilo que presa a Líbia adusta.
Com sabença profunda irei cantando
Altos feitos da gente luminosa,
Que a trapaça movendo portentosa
À mente assombra, e pasma à natureza!
Espertos eleitores de encomenda,
Deputados, Ministros, Senadores,
Galfarros Diplomatas — chuchadores,
De quem reza a cartilha da esperteza.
Caducas Tartarugas — desfrutáveis,
Velharrões tabaquentos — sem juízo,
Irrisórios fidalgos — de improviso,
Finórios traficantes — patriotas;
Espertos maganões de mão ligeira,
Emproados juízes de trapaça,
E outros que de honrados têm fumaça,
Mas que são refinados agiotas.
Nem eu próprio à festança escaparei;
Com foros de Africano fidalgote,
Montado num Barão com ar de zote —
Ao rufo do tambor e dos zabumbas,
Ao som de mil aplausos retumbantes,
Entre os netos da Ginga, meus parentes,
Pulando de prazer e de contentes —
Nas danças entrarei d'altas caiumbas.
Imagem - 00270001
Publicado no livro Primeiras trovas burlescas de Getulino (1859).
In: GAMA, Luiz. Trovas burlescas e escritos em prosa. Org. Fernando Góes. São Paulo: Cultura, 1944. p.19-20. (Últimas gerações, 4
Bem pouco, ou nada me importa,
Se a minha veia é discreta,
Se a via que sigo é torta.
F. X. DE NOVAIS
Alta noite, sentindo o meu bestunto
Pejado, qual vulcão de flama ardente,
Leve pluma empunhei, incontinente
O fio das idéias fui traçando.
As Ninfas invoquei para que vissem
Do meu estro voraz o ardimento;
E depois, revoando ao firmamento,
Fossem do Vate o nome apregoando.
Ó Musa da Guiné, cor de azeviche,
Estátua de granito denegrido,
Ante quem o Leão se põe rendido,
Despido do furor de atroz braveza;
Empresta-me o cabaço d'urucungo,
Ensina-me a brandir tua marimba,
Inspira-me a ciência da candimba,
Às vias me conduz d'alta grandeza.
Quero a glória abater de antigos vates,
Do tempo dos heróis armipotentes;
Os Homeros, Camões — aurifulgentes,
Decantando os Barões da minha Pátria!
Quero gravar em lúcidas colunas
Obscuro poder da parvoíce,
E a fama levar da vil sandice
A longínquas regiões da velha Báctria!
Quero que o mundo me encarando veja
Um retumbante Orfeu de carapinha,
Que a Lira desprezando, por mesquinha,
Ao som decanta de Marimba augusta;
E, qual outro Arion entre os Delfins,
Os ávidos piratas embaindo —
As ferrenhas palhetas vai brandindo,
Com estilo que presa a Líbia adusta.
Com sabença profunda irei cantando
Altos feitos da gente luminosa,
Que a trapaça movendo portentosa
À mente assombra, e pasma à natureza!
Espertos eleitores de encomenda,
Deputados, Ministros, Senadores,
Galfarros Diplomatas — chuchadores,
De quem reza a cartilha da esperteza.
Caducas Tartarugas — desfrutáveis,
Velharrões tabaquentos — sem juízo,
Irrisórios fidalgos — de improviso,
Finórios traficantes — patriotas;
Espertos maganões de mão ligeira,
Emproados juízes de trapaça,
E outros que de honrados têm fumaça,
Mas que são refinados agiotas.
Nem eu próprio à festança escaparei;
Com foros de Africano fidalgote,
Montado num Barão com ar de zote —
Ao rufo do tambor e dos zabumbas,
Ao som de mil aplausos retumbantes,
Entre os netos da Ginga, meus parentes,
Pulando de prazer e de contentes —
Nas danças entrarei d'altas caiumbas.
Imagem - 00270001
Publicado no livro Primeiras trovas burlescas de Getulino (1859).
In: GAMA, Luiz. Trovas burlescas e escritos em prosa. Org. Fernando Góes. São Paulo: Cultura, 1944. p.19-20. (Últimas gerações, 4
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Luís Gama
Lá Vai Verso!
Quero também ser poeta,
Bem pouco, ou nada me importa,
Se a minha veia é discreta,
Se a via que sigo é torta.
F. X. DE NOVAIS
Alta noite, sentindo o meu bestunto
Pejado, qual vulcão de flama ardente,
Leve pluma empunhei, incontinente
O fio das idéias fui traçando.
As Ninfas invoquei para que vissem
Do meu estro voraz o ardimento;
E depois, revoando ao firmamento,
Fossem do Vate o nome apregoando.
Ó Musa da Guiné, cor de azeviche,
Estátua de granito denegrido,
Ante quem o Leão se põe rendido,
Despido do furor de atroz braveza;
Empresta-me o cabaço d'urucungo,
Ensina-me a brandir tua marimba,
Inspira-me a ciência da candimba,
Às vias me conduz d'alta grandeza.
Quero a glória abater de antigos vates,
Do tempo dos heróis armipotentes;
Os Homeros, Camões — aurifulgentes,
Decantando os Barões da minha Pátria!
Quero gravar em lúcidas colunas
Obscuro poder da parvoíce,
E a fama levar da vil sandice
A longínquas regiões da velha Báctria!
Quero que o mundo me encarando veja
Um retumbante Orfeu de carapinha,
Que a Lira desprezando, por mesquinha,
Ao som decanta de Marimba augusta;
E, qual outro Arion entre os Delfins,
Os ávidos piratas embaindo —
As ferrenhas palhetas vai brandindo,
Com estilo que presa a Líbia adusta.
Com sabença profunda irei cantando
Altos feitos da gente luminosa,
Que a trapaça movendo portentosa
À mente assombra, e pasma à natureza!
Espertos eleitores de encomenda,
Deputados, Ministros, Senadores,
Galfarros Diplomatas — chuchadores,
De quem reza a cartilha da esperteza.
Caducas Tartarugas — desfrutáveis,
Velharrões tabaquentos — sem juízo,
Irrisórios fidalgos — de improviso,
Finórios traficantes — patriotas;
Espertos maganões de mão ligeira,
Emproados juízes de trapaça,
E outros que de honrados têm fumaça,
Mas que são refinados agiotas.
Nem eu próprio à festança escaparei;
Com foros de Africano fidalgote,
Montado num Barão com ar de zote —
Ao rufo do tambor e dos zabumbas,
Ao som de mil aplausos retumbantes,
Entre os netos da Ginga, meus parentes,
Pulando de prazer e de contentes —
Nas danças entrarei d'altas caiumbas.
Imagem - 00270001
Publicado no livro Primeiras trovas burlescas de Getulino (1859).
In: GAMA, Luiz. Trovas burlescas e escritos em prosa. Org. Fernando Góes. São Paulo: Cultura, 1944. p.19-20. (Últimas gerações, 4
Bem pouco, ou nada me importa,
Se a minha veia é discreta,
Se a via que sigo é torta.
F. X. DE NOVAIS
Alta noite, sentindo o meu bestunto
Pejado, qual vulcão de flama ardente,
Leve pluma empunhei, incontinente
O fio das idéias fui traçando.
As Ninfas invoquei para que vissem
Do meu estro voraz o ardimento;
E depois, revoando ao firmamento,
Fossem do Vate o nome apregoando.
Ó Musa da Guiné, cor de azeviche,
Estátua de granito denegrido,
Ante quem o Leão se põe rendido,
Despido do furor de atroz braveza;
Empresta-me o cabaço d'urucungo,
Ensina-me a brandir tua marimba,
Inspira-me a ciência da candimba,
Às vias me conduz d'alta grandeza.
Quero a glória abater de antigos vates,
Do tempo dos heróis armipotentes;
Os Homeros, Camões — aurifulgentes,
Decantando os Barões da minha Pátria!
Quero gravar em lúcidas colunas
Obscuro poder da parvoíce,
E a fama levar da vil sandice
A longínquas regiões da velha Báctria!
Quero que o mundo me encarando veja
Um retumbante Orfeu de carapinha,
Que a Lira desprezando, por mesquinha,
Ao som decanta de Marimba augusta;
E, qual outro Arion entre os Delfins,
Os ávidos piratas embaindo —
As ferrenhas palhetas vai brandindo,
Com estilo que presa a Líbia adusta.
Com sabença profunda irei cantando
Altos feitos da gente luminosa,
Que a trapaça movendo portentosa
À mente assombra, e pasma à natureza!
Espertos eleitores de encomenda,
Deputados, Ministros, Senadores,
Galfarros Diplomatas — chuchadores,
De quem reza a cartilha da esperteza.
Caducas Tartarugas — desfrutáveis,
Velharrões tabaquentos — sem juízo,
Irrisórios fidalgos — de improviso,
Finórios traficantes — patriotas;
Espertos maganões de mão ligeira,
Emproados juízes de trapaça,
E outros que de honrados têm fumaça,
Mas que são refinados agiotas.
Nem eu próprio à festança escaparei;
Com foros de Africano fidalgote,
Montado num Barão com ar de zote —
Ao rufo do tambor e dos zabumbas,
Ao som de mil aplausos retumbantes,
Entre os netos da Ginga, meus parentes,
Pulando de prazer e de contentes —
Nas danças entrarei d'altas caiumbas.
Imagem - 00270001
Publicado no livro Primeiras trovas burlescas de Getulino (1859).
In: GAMA, Luiz. Trovas burlescas e escritos em prosa. Org. Fernando Góes. São Paulo: Cultura, 1944. p.19-20. (Últimas gerações, 4
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João Cabral de Melo Neto
Menino de Engenho
A cana cortada é uma foice.
Cortada num ângulo agudo,
ganha o gume afiado da foice
que a corta em foice, um dar-se mútuo.
Menino, o gume de uma cana
cortou-me ao quase de cegar-me,
e uma cicatriz, que não guardo,
soube dentro de mim guardar-se.
A cicatriz não tenho mais;
o inoculado, tenho ainda;
nunca soube é se o inoculado
(então) é vírus ou vacina.
Publicado no livro A escola das facas (1980).
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.417-418. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
Cortada num ângulo agudo,
ganha o gume afiado da foice
que a corta em foice, um dar-se mútuo.
Menino, o gume de uma cana
cortou-me ao quase de cegar-me,
e uma cicatriz, que não guardo,
soube dentro de mim guardar-se.
A cicatriz não tenho mais;
o inoculado, tenho ainda;
nunca soube é se o inoculado
(então) é vírus ou vacina.
Publicado no livro A escola das facas (1980).
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.417-418. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
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4
Álvares de Azevedo
Spleen e Charutos - III Vagabundo
Eat, drink and love; what can the rest avail us?
BYRON. Don Juan.
Eu durmo e vivo ao sol como um cigano,
Fumando meu cigarro vaporoso;
Nas noites de verão namoro estrelas;
Sou pobre, sou mendigo, e sou ditoso!
Ando roto, sem bolsos nem dinheiro;
Mas tenho na viola uma riqueza:
Canto à lua de noite serenatas,
E quem vive de amor não tem pobreza.
Não invejo ninguém, nem ouço a raiva
Nas cavernas do peito, sufocante,
Quando à noite na treva em mim se entornam
Os reflexos do baile fascinante.
Namoro e sou feliz nos meus amores;
Sou garboso e rapaz... uma criada
Abrasada de amor por um soneto
Já um beijo me deu subindo a escada....
Oito dias lá vão que ando cismado
Na donzela que ali defronte mora.
Ela ao ver-me sorri tão docemente!
Desconfio que a moça me namora!..
Tenho por meu palácio as longas ruas;
Passeio a gosto e durmo sem temores;
Quando bebo, sou rei como um poeta,
E o vinho faz sonhar com os amores.
O degrau das igrejas é meu trono,
Minha pátria é o vento que respiro,
Minha mãe é a lua macilenta,
E a preguiça a mulher por quem suspiro.
Escrevo na parede as minhas rimas,
De painéis a carvão adorno a rua;
Como as aves do céu e as flores puras
Abro meu peito ao sol e durmo à lua.
Sinto-me um coração de lazzaroni;
Sou filho do calor, odeio o frio;
Não creio no diabo nem nos santos...
Rezo a Nossa Senhora, e sou vadio!
Ora, se por aí alguma bela
Bem doirada e amante da preguiça
Quiser a nívea mão unir à minha
Há de achar-me na Sé, domingo, à Missa.
Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853). Poema integrante da série Segunda Parte.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
BYRON. Don Juan.
Eu durmo e vivo ao sol como um cigano,
Fumando meu cigarro vaporoso;
Nas noites de verão namoro estrelas;
Sou pobre, sou mendigo, e sou ditoso!
Ando roto, sem bolsos nem dinheiro;
Mas tenho na viola uma riqueza:
Canto à lua de noite serenatas,
E quem vive de amor não tem pobreza.
Não invejo ninguém, nem ouço a raiva
Nas cavernas do peito, sufocante,
Quando à noite na treva em mim se entornam
Os reflexos do baile fascinante.
Namoro e sou feliz nos meus amores;
Sou garboso e rapaz... uma criada
Abrasada de amor por um soneto
Já um beijo me deu subindo a escada....
Oito dias lá vão que ando cismado
Na donzela que ali defronte mora.
Ela ao ver-me sorri tão docemente!
Desconfio que a moça me namora!..
Tenho por meu palácio as longas ruas;
Passeio a gosto e durmo sem temores;
Quando bebo, sou rei como um poeta,
E o vinho faz sonhar com os amores.
O degrau das igrejas é meu trono,
Minha pátria é o vento que respiro,
Minha mãe é a lua macilenta,
E a preguiça a mulher por quem suspiro.
Escrevo na parede as minhas rimas,
De painéis a carvão adorno a rua;
Como as aves do céu e as flores puras
Abro meu peito ao sol e durmo à lua.
Sinto-me um coração de lazzaroni;
Sou filho do calor, odeio o frio;
Não creio no diabo nem nos santos...
Rezo a Nossa Senhora, e sou vadio!
Ora, se por aí alguma bela
Bem doirada e amante da preguiça
Quiser a nívea mão unir à minha
Há de achar-me na Sé, domingo, à Missa.
Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853). Poema integrante da série Segunda Parte.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
2 945
4
Afonso Schmidt
Caras Sujas
Ao longo destas avenidas,
recordação de velhas lendas,
cantam as chácaras floridas
com suas líricas vivendas.
Lá dentro, há risos, jogos, danças,
crástinas, módulas fanfarras,
um pandemônio de crianças,
um zangarreio de cigarras.
Fora, penduram-se na grade
os pobres, como gafanhotos;
têm dos outros a mesma idade.
mas estão pálidos e rotos.
Chora a injustiça da cidade
na cara suja dos garotos.
Publicado no livro Janelas abertas (1911).
In: SCHMIDT, Afonso. Poesia. Ed. definitiva. São Paulo: Ed. Nacional, 194
recordação de velhas lendas,
cantam as chácaras floridas
com suas líricas vivendas.
Lá dentro, há risos, jogos, danças,
crástinas, módulas fanfarras,
um pandemônio de crianças,
um zangarreio de cigarras.
Fora, penduram-se na grade
os pobres, como gafanhotos;
têm dos outros a mesma idade.
mas estão pálidos e rotos.
Chora a injustiça da cidade
na cara suja dos garotos.
Publicado no livro Janelas abertas (1911).
In: SCHMIDT, Afonso. Poesia. Ed. definitiva. São Paulo: Ed. Nacional, 194
2 325
4
Afonso Schmidt
Caras Sujas
Ao longo destas avenidas,
recordação de velhas lendas,
cantam as chácaras floridas
com suas líricas vivendas.
Lá dentro, há risos, jogos, danças,
crástinas, módulas fanfarras,
um pandemônio de crianças,
um zangarreio de cigarras.
Fora, penduram-se na grade
os pobres, como gafanhotos;
têm dos outros a mesma idade.
mas estão pálidos e rotos.
Chora a injustiça da cidade
na cara suja dos garotos.
Publicado no livro Janelas abertas (1911).
In: SCHMIDT, Afonso. Poesia. Ed. definitiva. São Paulo: Ed. Nacional, 194
recordação de velhas lendas,
cantam as chácaras floridas
com suas líricas vivendas.
Lá dentro, há risos, jogos, danças,
crástinas, módulas fanfarras,
um pandemônio de crianças,
um zangarreio de cigarras.
Fora, penduram-se na grade
os pobres, como gafanhotos;
têm dos outros a mesma idade.
mas estão pálidos e rotos.
Chora a injustiça da cidade
na cara suja dos garotos.
Publicado no livro Janelas abertas (1911).
In: SCHMIDT, Afonso. Poesia. Ed. definitiva. São Paulo: Ed. Nacional, 194
2 325
4
Gonçalves de Magalhães
Entr'ato
(...)
"No Brasil, como sabes, qualquer zote
Um formado doutor se conceitua;
Quem pra trolha nasceu, ou pro rabote
Não creias que consulte a sorte sua;
Toda a baixa gentalha deste lote
Em política ao menos se insinua.
O vadio, o pedante, o mentecapto
Pra os públicos empregos julga-se apto.
"Não é com má tenção qu'isto te digo,
Mas sim porqu'ad reum o caso o pede,
Tu mesmo terás dito lá contigo
Que o pedantismo no Brasil tem sede:
Quem tem um Governante por amigo
Alcança tudo que deseja, e pede,
Não se gradua o mérito e a virtude,
Pra escravo, e adulador basta que estude.
"Há muito qu'este mal nos assolapa
E tem feito o Brasil andar à-toa;
Toma um alvar de patriota a capa,
E defensor da Pátria se apregoa.
Dos patriotas é tão grande o mapa
Quanto o dos asnos, qu'ela galardoa;
Quem talentos não tem, nem tem ofício
Um emprego requer em sacrifício
"Era o tempo da nossa Independência
Em que certa Família dominava,
E, como hoje se faz, por influência
D'algum patrono, tudo se alcançava.
Do nosso Herói não foi baldada a agência,
E como patriota se inculcava
Alegando ser Jovem Fluminense,
Pôde um lugar obter de Amanuense.
(...)
"Mas coitado! uma idéia o afligia,
Era o seu mau estado monetário;
Nada tinha de seu; e ele bem via
Que tudo no Brasil era precário.
Seu lugar d'um Ministro dependia;
Sendo tudo interino e arbitrário,
Tudo cair podia num instante,
Quanto mais ele, mísero pedante!
(...)
Publicado no livro Episódio da Infernal Comédia ou Da Minha Viagem ao Inferno (1836).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Org. rev. e notas Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 194
"No Brasil, como sabes, qualquer zote
Um formado doutor se conceitua;
Quem pra trolha nasceu, ou pro rabote
Não creias que consulte a sorte sua;
Toda a baixa gentalha deste lote
Em política ao menos se insinua.
O vadio, o pedante, o mentecapto
Pra os públicos empregos julga-se apto.
"Não é com má tenção qu'isto te digo,
Mas sim porqu'ad reum o caso o pede,
Tu mesmo terás dito lá contigo
Que o pedantismo no Brasil tem sede:
Quem tem um Governante por amigo
Alcança tudo que deseja, e pede,
Não se gradua o mérito e a virtude,
Pra escravo, e adulador basta que estude.
"Há muito qu'este mal nos assolapa
E tem feito o Brasil andar à-toa;
Toma um alvar de patriota a capa,
E defensor da Pátria se apregoa.
Dos patriotas é tão grande o mapa
Quanto o dos asnos, qu'ela galardoa;
Quem talentos não tem, nem tem ofício
Um emprego requer em sacrifício
"Era o tempo da nossa Independência
Em que certa Família dominava,
E, como hoje se faz, por influência
D'algum patrono, tudo se alcançava.
Do nosso Herói não foi baldada a agência,
E como patriota se inculcava
Alegando ser Jovem Fluminense,
Pôde um lugar obter de Amanuense.
(...)
"Mas coitado! uma idéia o afligia,
Era o seu mau estado monetário;
Nada tinha de seu; e ele bem via
Que tudo no Brasil era precário.
Seu lugar d'um Ministro dependia;
Sendo tudo interino e arbitrário,
Tudo cair podia num instante,
Quanto mais ele, mísero pedante!
(...)
Publicado no livro Episódio da Infernal Comédia ou Da Minha Viagem ao Inferno (1836).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Org. rev. e notas Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 194
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4
Gonçalves de Magalhães
Entr'ato
(...)
"No Brasil, como sabes, qualquer zote
Um formado doutor se conceitua;
Quem pra trolha nasceu, ou pro rabote
Não creias que consulte a sorte sua;
Toda a baixa gentalha deste lote
Em política ao menos se insinua.
O vadio, o pedante, o mentecapto
Pra os públicos empregos julga-se apto.
"Não é com má tenção qu'isto te digo,
Mas sim porqu'ad reum o caso o pede,
Tu mesmo terás dito lá contigo
Que o pedantismo no Brasil tem sede:
Quem tem um Governante por amigo
Alcança tudo que deseja, e pede,
Não se gradua o mérito e a virtude,
Pra escravo, e adulador basta que estude.
"Há muito qu'este mal nos assolapa
E tem feito o Brasil andar à-toa;
Toma um alvar de patriota a capa,
E defensor da Pátria se apregoa.
Dos patriotas é tão grande o mapa
Quanto o dos asnos, qu'ela galardoa;
Quem talentos não tem, nem tem ofício
Um emprego requer em sacrifício
"Era o tempo da nossa Independência
Em que certa Família dominava,
E, como hoje se faz, por influência
D'algum patrono, tudo se alcançava.
Do nosso Herói não foi baldada a agência,
E como patriota se inculcava
Alegando ser Jovem Fluminense,
Pôde um lugar obter de Amanuense.
(...)
"Mas coitado! uma idéia o afligia,
Era o seu mau estado monetário;
Nada tinha de seu; e ele bem via
Que tudo no Brasil era precário.
Seu lugar d'um Ministro dependia;
Sendo tudo interino e arbitrário,
Tudo cair podia num instante,
Quanto mais ele, mísero pedante!
(...)
Publicado no livro Episódio da Infernal Comédia ou Da Minha Viagem ao Inferno (1836).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Org. rev. e notas Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 194
"No Brasil, como sabes, qualquer zote
Um formado doutor se conceitua;
Quem pra trolha nasceu, ou pro rabote
Não creias que consulte a sorte sua;
Toda a baixa gentalha deste lote
Em política ao menos se insinua.
O vadio, o pedante, o mentecapto
Pra os públicos empregos julga-se apto.
"Não é com má tenção qu'isto te digo,
Mas sim porqu'ad reum o caso o pede,
Tu mesmo terás dito lá contigo
Que o pedantismo no Brasil tem sede:
Quem tem um Governante por amigo
Alcança tudo que deseja, e pede,
Não se gradua o mérito e a virtude,
Pra escravo, e adulador basta que estude.
"Há muito qu'este mal nos assolapa
E tem feito o Brasil andar à-toa;
Toma um alvar de patriota a capa,
E defensor da Pátria se apregoa.
Dos patriotas é tão grande o mapa
Quanto o dos asnos, qu'ela galardoa;
Quem talentos não tem, nem tem ofício
Um emprego requer em sacrifício
"Era o tempo da nossa Independência
Em que certa Família dominava,
E, como hoje se faz, por influência
D'algum patrono, tudo se alcançava.
Do nosso Herói não foi baldada a agência,
E como patriota se inculcava
Alegando ser Jovem Fluminense,
Pôde um lugar obter de Amanuense.
(...)
"Mas coitado! uma idéia o afligia,
Era o seu mau estado monetário;
Nada tinha de seu; e ele bem via
Que tudo no Brasil era precário.
Seu lugar d'um Ministro dependia;
Sendo tudo interino e arbitrário,
Tudo cair podia num instante,
Quanto mais ele, mísero pedante!
(...)
Publicado no livro Episódio da Infernal Comédia ou Da Minha Viagem ao Inferno (1836).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Org. rev. e notas Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 194
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Gonçalves de Magalhães
Entr'ato
(...)
"No Brasil, como sabes, qualquer zote
Um formado doutor se conceitua;
Quem pra trolha nasceu, ou pro rabote
Não creias que consulte a sorte sua;
Toda a baixa gentalha deste lote
Em política ao menos se insinua.
O vadio, o pedante, o mentecapto
Pra os públicos empregos julga-se apto.
"Não é com má tenção qu'isto te digo,
Mas sim porqu'ad reum o caso o pede,
Tu mesmo terás dito lá contigo
Que o pedantismo no Brasil tem sede:
Quem tem um Governante por amigo
Alcança tudo que deseja, e pede,
Não se gradua o mérito e a virtude,
Pra escravo, e adulador basta que estude.
"Há muito qu'este mal nos assolapa
E tem feito o Brasil andar à-toa;
Toma um alvar de patriota a capa,
E defensor da Pátria se apregoa.
Dos patriotas é tão grande o mapa
Quanto o dos asnos, qu'ela galardoa;
Quem talentos não tem, nem tem ofício
Um emprego requer em sacrifício
"Era o tempo da nossa Independência
Em que certa Família dominava,
E, como hoje se faz, por influência
D'algum patrono, tudo se alcançava.
Do nosso Herói não foi baldada a agência,
E como patriota se inculcava
Alegando ser Jovem Fluminense,
Pôde um lugar obter de Amanuense.
(...)
"Mas coitado! uma idéia o afligia,
Era o seu mau estado monetário;
Nada tinha de seu; e ele bem via
Que tudo no Brasil era precário.
Seu lugar d'um Ministro dependia;
Sendo tudo interino e arbitrário,
Tudo cair podia num instante,
Quanto mais ele, mísero pedante!
(...)
Publicado no livro Episódio da Infernal Comédia ou Da Minha Viagem ao Inferno (1836).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Org. rev. e notas Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 194
"No Brasil, como sabes, qualquer zote
Um formado doutor se conceitua;
Quem pra trolha nasceu, ou pro rabote
Não creias que consulte a sorte sua;
Toda a baixa gentalha deste lote
Em política ao menos se insinua.
O vadio, o pedante, o mentecapto
Pra os públicos empregos julga-se apto.
"Não é com má tenção qu'isto te digo,
Mas sim porqu'ad reum o caso o pede,
Tu mesmo terás dito lá contigo
Que o pedantismo no Brasil tem sede:
Quem tem um Governante por amigo
Alcança tudo que deseja, e pede,
Não se gradua o mérito e a virtude,
Pra escravo, e adulador basta que estude.
"Há muito qu'este mal nos assolapa
E tem feito o Brasil andar à-toa;
Toma um alvar de patriota a capa,
E defensor da Pátria se apregoa.
Dos patriotas é tão grande o mapa
Quanto o dos asnos, qu'ela galardoa;
Quem talentos não tem, nem tem ofício
Um emprego requer em sacrifício
"Era o tempo da nossa Independência
Em que certa Família dominava,
E, como hoje se faz, por influência
D'algum patrono, tudo se alcançava.
Do nosso Herói não foi baldada a agência,
E como patriota se inculcava
Alegando ser Jovem Fluminense,
Pôde um lugar obter de Amanuense.
(...)
"Mas coitado! uma idéia o afligia,
Era o seu mau estado monetário;
Nada tinha de seu; e ele bem via
Que tudo no Brasil era precário.
Seu lugar d'um Ministro dependia;
Sendo tudo interino e arbitrário,
Tudo cair podia num instante,
Quanto mais ele, mísero pedante!
(...)
Publicado no livro Episódio da Infernal Comédia ou Da Minha Viagem ao Inferno (1836).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Org. rev. e notas Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 194
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4
Bárbara Heliodora
Conselhos a Meus Filhos
Meninos, eu vou dictar
As regras do bem viver,
Não basta somente ler,
É preciso ponderar,
Que a lição não faz saber,
Quem faz sabios é o pensar.
Neste tormentoso mar
D'ondas de contradicções,
Ninguem soletre feições,
Que sempre se ha de enganar;
De caras a corações
A muitas legoas que andar.
Applicai ao conversar
Todos os cinco sentidos,
Que as paredes têm ouvidos,
E também podem fallar:
Ha bixinhos escondidos,
Que só vivem de escutar.
Quem quer males evitar
Evite-lhe a occasião,
Que os males por si virão,
Sem ninguem os procurar;
E antes que ronque o trovão,
Manda a prudencia ferrar.
Não vos deixeis enganar
Por amigos, nem amigas;
Rapazes e raparigas
Não sabem mais, que asnear;
As conversas, e as intrigas
Servem de precipitar.
Sempre vos deveis guiar
Pelos antigos conselhos,
Que dizem, que ratos velhos
Não ha modo de os caçar:
Não batam ferros vermelhos,
Deixem um pouco esfriar.
Se é tempo de professar
De taful o quarto voto,
Procurai capote roto
Pé de banco de um brilhar,
Que seja sabio piloto
Nas regras de calcular.
Se vos mandarem chamar
Pâra ver uma funcção,
Respondei sempre que não,
Que tendes em que cuidar:
Assim se entende o rifão.
Quem está bem, deixa-se estar.
Devei-vos acautelar
Em jogos de paro e tópo,
Promptos em passar o copo
Nas angolinas do azar:
Taes as fábulas de Esopo,
Que vós deveis estudar.
Quem fala, escreve no ar,
Sem pôr virgulas nem pontos,
E póde quem conta os contos,
Mil pontos accrescentar;
Fica um rebanho de tontos
Sem nenhum adivinhar.
Com Deus e o rei não brincar,
É servir e obedecer,
Amar por muito temer
Mâs temer por muito amar,
Santo temor de offender
A quem se deve adorar!
Até aqui pode bastar,
Mais havia que dizer;
Mâs eu tenho que fazer,
Não me posso demorar,
E quem sabe discorrer
Póde o resto adivinhar.
As regras do bem viver,
Não basta somente ler,
É preciso ponderar,
Que a lição não faz saber,
Quem faz sabios é o pensar.
Neste tormentoso mar
D'ondas de contradicções,
Ninguem soletre feições,
Que sempre se ha de enganar;
De caras a corações
A muitas legoas que andar.
Applicai ao conversar
Todos os cinco sentidos,
Que as paredes têm ouvidos,
E também podem fallar:
Ha bixinhos escondidos,
Que só vivem de escutar.
Quem quer males evitar
Evite-lhe a occasião,
Que os males por si virão,
Sem ninguem os procurar;
E antes que ronque o trovão,
Manda a prudencia ferrar.
Não vos deixeis enganar
Por amigos, nem amigas;
Rapazes e raparigas
Não sabem mais, que asnear;
As conversas, e as intrigas
Servem de precipitar.
Sempre vos deveis guiar
Pelos antigos conselhos,
Que dizem, que ratos velhos
Não ha modo de os caçar:
Não batam ferros vermelhos,
Deixem um pouco esfriar.
Se é tempo de professar
De taful o quarto voto,
Procurai capote roto
Pé de banco de um brilhar,
Que seja sabio piloto
Nas regras de calcular.
Se vos mandarem chamar
Pâra ver uma funcção,
Respondei sempre que não,
Que tendes em que cuidar:
Assim se entende o rifão.
Quem está bem, deixa-se estar.
Devei-vos acautelar
Em jogos de paro e tópo,
Promptos em passar o copo
Nas angolinas do azar:
Taes as fábulas de Esopo,
Que vós deveis estudar.
Quem fala, escreve no ar,
Sem pôr virgulas nem pontos,
E póde quem conta os contos,
Mil pontos accrescentar;
Fica um rebanho de tontos
Sem nenhum adivinhar.
Com Deus e o rei não brincar,
É servir e obedecer,
Amar por muito temer
Mâs temer por muito amar,
Santo temor de offender
A quem se deve adorar!
Até aqui pode bastar,
Mais havia que dizer;
Mâs eu tenho que fazer,
Não me posso demorar,
E quem sabe discorrer
Póde o resto adivinhar.
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4
Bárbara Heliodora
Conselhos a Meus Filhos
Meninos, eu vou dictar
As regras do bem viver,
Não basta somente ler,
É preciso ponderar,
Que a lição não faz saber,
Quem faz sabios é o pensar.
Neste tormentoso mar
D'ondas de contradicções,
Ninguem soletre feições,
Que sempre se ha de enganar;
De caras a corações
A muitas legoas que andar.
Applicai ao conversar
Todos os cinco sentidos,
Que as paredes têm ouvidos,
E também podem fallar:
Ha bixinhos escondidos,
Que só vivem de escutar.
Quem quer males evitar
Evite-lhe a occasião,
Que os males por si virão,
Sem ninguem os procurar;
E antes que ronque o trovão,
Manda a prudencia ferrar.
Não vos deixeis enganar
Por amigos, nem amigas;
Rapazes e raparigas
Não sabem mais, que asnear;
As conversas, e as intrigas
Servem de precipitar.
Sempre vos deveis guiar
Pelos antigos conselhos,
Que dizem, que ratos velhos
Não ha modo de os caçar:
Não batam ferros vermelhos,
Deixem um pouco esfriar.
Se é tempo de professar
De taful o quarto voto,
Procurai capote roto
Pé de banco de um brilhar,
Que seja sabio piloto
Nas regras de calcular.
Se vos mandarem chamar
Pâra ver uma funcção,
Respondei sempre que não,
Que tendes em que cuidar:
Assim se entende o rifão.
Quem está bem, deixa-se estar.
Devei-vos acautelar
Em jogos de paro e tópo,
Promptos em passar o copo
Nas angolinas do azar:
Taes as fábulas de Esopo,
Que vós deveis estudar.
Quem fala, escreve no ar,
Sem pôr virgulas nem pontos,
E póde quem conta os contos,
Mil pontos accrescentar;
Fica um rebanho de tontos
Sem nenhum adivinhar.
Com Deus e o rei não brincar,
É servir e obedecer,
Amar por muito temer
Mâs temer por muito amar,
Santo temor de offender
A quem se deve adorar!
Até aqui pode bastar,
Mais havia que dizer;
Mâs eu tenho que fazer,
Não me posso demorar,
E quem sabe discorrer
Póde o resto adivinhar.
As regras do bem viver,
Não basta somente ler,
É preciso ponderar,
Que a lição não faz saber,
Quem faz sabios é o pensar.
Neste tormentoso mar
D'ondas de contradicções,
Ninguem soletre feições,
Que sempre se ha de enganar;
De caras a corações
A muitas legoas que andar.
Applicai ao conversar
Todos os cinco sentidos,
Que as paredes têm ouvidos,
E também podem fallar:
Ha bixinhos escondidos,
Que só vivem de escutar.
Quem quer males evitar
Evite-lhe a occasião,
Que os males por si virão,
Sem ninguem os procurar;
E antes que ronque o trovão,
Manda a prudencia ferrar.
Não vos deixeis enganar
Por amigos, nem amigas;
Rapazes e raparigas
Não sabem mais, que asnear;
As conversas, e as intrigas
Servem de precipitar.
Sempre vos deveis guiar
Pelos antigos conselhos,
Que dizem, que ratos velhos
Não ha modo de os caçar:
Não batam ferros vermelhos,
Deixem um pouco esfriar.
Se é tempo de professar
De taful o quarto voto,
Procurai capote roto
Pé de banco de um brilhar,
Que seja sabio piloto
Nas regras de calcular.
Se vos mandarem chamar
Pâra ver uma funcção,
Respondei sempre que não,
Que tendes em que cuidar:
Assim se entende o rifão.
Quem está bem, deixa-se estar.
Devei-vos acautelar
Em jogos de paro e tópo,
Promptos em passar o copo
Nas angolinas do azar:
Taes as fábulas de Esopo,
Que vós deveis estudar.
Quem fala, escreve no ar,
Sem pôr virgulas nem pontos,
E póde quem conta os contos,
Mil pontos accrescentar;
Fica um rebanho de tontos
Sem nenhum adivinhar.
Com Deus e o rei não brincar,
É servir e obedecer,
Amar por muito temer
Mâs temer por muito amar,
Santo temor de offender
A quem se deve adorar!
Até aqui pode bastar,
Mais havia que dizer;
Mâs eu tenho que fazer,
Não me posso demorar,
E quem sabe discorrer
Póde o resto adivinhar.
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José Albano
III [Amar é desejar o sofrimento
Amar é desejar o sofrimento
E contentar-se só de ter sofrido,
Sem um suspiro vão, sem um gemido,
No mal mais doloroso e mais cruento.
É vagar desta vida tão isento
É deste mundo enfim tão esquecido,
É pôr o seu cuidar num só sentido
E todo o seu sentir num só tormento.
É nascer qual humilde carpinteiro,
De rudes pescadores rodeado,
Caminhando ao suplício derradeiro.
É viver sem carinho nem agrado,
É ser enfim vendido por dinheiro,
E entre ladrões morrer crucificado.
Publicado no livro Antologia Poética (1918). Poema integrante da série Dez Sonetos Escolhidos Pelo Autor.
In: ALBANO, José. Rimas: poesia reunida e prefaciada por Manuel Bandeira. Pref. Bernardo de Mendonça. 3.ed. acrescida de perfis biográficos, estudos críticos e bibliografia. Rio de Janeiro: Graphia, 1993. p.58. (Série Revisões, 3
E contentar-se só de ter sofrido,
Sem um suspiro vão, sem um gemido,
No mal mais doloroso e mais cruento.
É vagar desta vida tão isento
É deste mundo enfim tão esquecido,
É pôr o seu cuidar num só sentido
E todo o seu sentir num só tormento.
É nascer qual humilde carpinteiro,
De rudes pescadores rodeado,
Caminhando ao suplício derradeiro.
É viver sem carinho nem agrado,
É ser enfim vendido por dinheiro,
E entre ladrões morrer crucificado.
Publicado no livro Antologia Poética (1918). Poema integrante da série Dez Sonetos Escolhidos Pelo Autor.
In: ALBANO, José. Rimas: poesia reunida e prefaciada por Manuel Bandeira. Pref. Bernardo de Mendonça. 3.ed. acrescida de perfis biográficos, estudos críticos e bibliografia. Rio de Janeiro: Graphia, 1993. p.58. (Série Revisões, 3
2 924
4
João Cabral de Melo Neto
O Sertanejo Falando
A fala a nível do sertanejo engana:
as palavras dele vêm, como rebuçadas
(palavras confeito, pílula), na glace
de uma entonação lisa, de adocicada.
Enquanto que sob ela, dura e endurece
o caroço de pedra, a amêndoa pétrea,
dessa árvore pedrenta (o sertanejo)
incapaz de não se expressar em pedra.
2.
Daí porque o sertanejo fala pouco:
as palavras de pedra ulceram a boca
e no idioma pedra se fala doloroso;
o natural desse idioma fala à força.
Daí também porque ele fala devagar:
tem de pegar as palavras com cuidado,
confeitá-las na língua, rebuçá-las;
pois toma tempo todo esse trabalho.
Publicado no livro A educação pela pedra (1966)
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.335-336. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
as palavras dele vêm, como rebuçadas
(palavras confeito, pílula), na glace
de uma entonação lisa, de adocicada.
Enquanto que sob ela, dura e endurece
o caroço de pedra, a amêndoa pétrea,
dessa árvore pedrenta (o sertanejo)
incapaz de não se expressar em pedra.
2.
Daí porque o sertanejo fala pouco:
as palavras de pedra ulceram a boca
e no idioma pedra se fala doloroso;
o natural desse idioma fala à força.
Daí também porque ele fala devagar:
tem de pegar as palavras com cuidado,
confeitá-las na língua, rebuçá-las;
pois toma tempo todo esse trabalho.
Publicado no livro A educação pela pedra (1966)
In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.335-336. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
7 721
4
Juó Bananére
Amore co Amore si Paga
Pra Migna Anamurada
Xinguê, Xigaste! Vigna afatigada i triste
I triste i afatigada io vigna;
Tu tigna a arma povolada di sogno,
I a arma povolada di sogno io tigna.
Ti amê, m'amasti! Bunitigno io éra
I tu tambê era bunitigna;
Tu tigna uma garigna di féra
E io di féra tigna una garigna.
Una veiz ti begiê a linda mó,
I a migna tambê vucê begió.
Vucê mi apisô nu pé, e io non pisé no da signora.
Moltos abbraccio mi deu vucê,
Moltos abbraccio io tambê ti dê.
U fóra vucê mi deu, e io tambê ti dê u fóra.
In: BANANÉRE, Juó. La divina increnca. 2.ed. Pref. Mário Leite. São Paulo: Folco Masucci, 1966
NOTA: Paródia do soneto "Nel Mezzo del Camin...", da série Sarças de Fogo, do livro POESIAS (1888), de Olavo Bila
Xinguê, Xigaste! Vigna afatigada i triste
I triste i afatigada io vigna;
Tu tigna a arma povolada di sogno,
I a arma povolada di sogno io tigna.
Ti amê, m'amasti! Bunitigno io éra
I tu tambê era bunitigna;
Tu tigna uma garigna di féra
E io di féra tigna una garigna.
Una veiz ti begiê a linda mó,
I a migna tambê vucê begió.
Vucê mi apisô nu pé, e io non pisé no da signora.
Moltos abbraccio mi deu vucê,
Moltos abbraccio io tambê ti dê.
U fóra vucê mi deu, e io tambê ti dê u fóra.
In: BANANÉRE, Juó. La divina increnca. 2.ed. Pref. Mário Leite. São Paulo: Folco Masucci, 1966
NOTA: Paródia do soneto "Nel Mezzo del Camin...", da série Sarças de Fogo, do livro POESIAS (1888), de Olavo Bila
4 891
4
Chacal
Caleidoscópio Cinemascope
a vida é um cristal
que se reflete em pedaços
a vida como ela é
é a coleção dos cacos
vi um filme que Aladim
da lâmpada tirava um gênio
ele era James Dean
que tinha a cabeça a prêmio
eu parti do Irajá
passando por Paraty
eu ainda chego lá
até onde quero ir
vi um filme que Fellini
fez num ensaio de orquestra
tinha tiro de canhão
e acabava numa festa
se no mato me perdi
nesse mato me acharei
entre mais de mil picadas
numa delas sou o rei
eu vi Deus e o diabo
dançando na terra do sol
Glauber Rocha era o máximo
tão bom quanto rock-and-roll
minha estrada é um filme
cheio de amor e ódio
pra onde quer que me vire
cinemascope caleidoscópio.
In: CHACAL. Comício de tudo: poesia e prosa. São Paulo: Brasiliense, 1986. p.112-113. (Cantadas literárias, 48
que se reflete em pedaços
a vida como ela é
é a coleção dos cacos
vi um filme que Aladim
da lâmpada tirava um gênio
ele era James Dean
que tinha a cabeça a prêmio
eu parti do Irajá
passando por Paraty
eu ainda chego lá
até onde quero ir
vi um filme que Fellini
fez num ensaio de orquestra
tinha tiro de canhão
e acabava numa festa
se no mato me perdi
nesse mato me acharei
entre mais de mil picadas
numa delas sou o rei
eu vi Deus e o diabo
dançando na terra do sol
Glauber Rocha era o máximo
tão bom quanto rock-and-roll
minha estrada é um filme
cheio de amor e ódio
pra onde quer que me vire
cinemascope caleidoscópio.
In: CHACAL. Comício de tudo: poesia e prosa. São Paulo: Brasiliense, 1986. p.112-113. (Cantadas literárias, 48
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4
Luiz de Miranda
Tonho Tropeiro
a Geraldo Vandré
I
Tonho tropeiro cavalga
entre lendas e o instante
burocrático (democrático)
Surgiu no morro morrente
do desmorre, onde dorme
o sol, e as tempestades recolhem
os braços sobre o baço
Suas esporas fizeram estrada
no campo de terra lavrada
seus pés cruzaram chão
que nem dá pra contar
Tonho tropeiro, fruto do campo
uma prece, um canto
a revolta da relva
explodiu verde no espaço
uma prece, um canto
a noite engoliu o dia
uma prece, um canto
um morria, outro nascia
uma prece, um canto
é hora de sombras e assombros
uma luta é uma luta
II
arado
arando
campo
mil discos arando a terra
mil valas abertas na noite
mil corpos cobrindo a terra
dorsalmente em decúbito.
um ruído escasso
um ruído distante
um som de silêncio
a tropa estende-se na estepe
a trova estendida esteve
a estrela, repórter da noite
estende um chamado estranho
a lua espia de longe
até parece um monge
o tropeiro estende o corpo
o silêncio profundo das horas
noturnas estende seu manto.
três berros
três velas
três sustos
um olho buscando luz
um pé buscando apoio
um corpo buscando ação
(...)
Publicado no livro Andança (1969). Poema integrante da série No Instante.
In: MIRANDA, Luiz de. Poesia reunida, 1967/1992. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Porto Alegre: IEL, 1992. p.452-453
NOTA: Poema composto de 3 parte
I
Tonho tropeiro cavalga
entre lendas e o instante
burocrático (democrático)
Surgiu no morro morrente
do desmorre, onde dorme
o sol, e as tempestades recolhem
os braços sobre o baço
Suas esporas fizeram estrada
no campo de terra lavrada
seus pés cruzaram chão
que nem dá pra contar
Tonho tropeiro, fruto do campo
uma prece, um canto
a revolta da relva
explodiu verde no espaço
uma prece, um canto
a noite engoliu o dia
uma prece, um canto
um morria, outro nascia
uma prece, um canto
é hora de sombras e assombros
uma luta é uma luta
II
arado
arando
campo
mil discos arando a terra
mil valas abertas na noite
mil corpos cobrindo a terra
dorsalmente em decúbito.
um ruído escasso
um ruído distante
um som de silêncio
a tropa estende-se na estepe
a trova estendida esteve
a estrela, repórter da noite
estende um chamado estranho
a lua espia de longe
até parece um monge
o tropeiro estende o corpo
o silêncio profundo das horas
noturnas estende seu manto.
três berros
três velas
três sustos
um olho buscando luz
um pé buscando apoio
um corpo buscando ação
(...)
Publicado no livro Andança (1969). Poema integrante da série No Instante.
In: MIRANDA, Luiz de. Poesia reunida, 1967/1992. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Porto Alegre: IEL, 1992. p.452-453
NOTA: Poema composto de 3 parte
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4
Luiz de Miranda
Tonho Tropeiro
a Geraldo Vandré
I
Tonho tropeiro cavalga
entre lendas e o instante
burocrático (democrático)
Surgiu no morro morrente
do desmorre, onde dorme
o sol, e as tempestades recolhem
os braços sobre o baço
Suas esporas fizeram estrada
no campo de terra lavrada
seus pés cruzaram chão
que nem dá pra contar
Tonho tropeiro, fruto do campo
uma prece, um canto
a revolta da relva
explodiu verde no espaço
uma prece, um canto
a noite engoliu o dia
uma prece, um canto
um morria, outro nascia
uma prece, um canto
é hora de sombras e assombros
uma luta é uma luta
II
arado
arando
campo
mil discos arando a terra
mil valas abertas na noite
mil corpos cobrindo a terra
dorsalmente em decúbito.
um ruído escasso
um ruído distante
um som de silêncio
a tropa estende-se na estepe
a trova estendida esteve
a estrela, repórter da noite
estende um chamado estranho
a lua espia de longe
até parece um monge
o tropeiro estende o corpo
o silêncio profundo das horas
noturnas estende seu manto.
três berros
três velas
três sustos
um olho buscando luz
um pé buscando apoio
um corpo buscando ação
(...)
Publicado no livro Andança (1969). Poema integrante da série No Instante.
In: MIRANDA, Luiz de. Poesia reunida, 1967/1992. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Porto Alegre: IEL, 1992. p.452-453
NOTA: Poema composto de 3 parte
I
Tonho tropeiro cavalga
entre lendas e o instante
burocrático (democrático)
Surgiu no morro morrente
do desmorre, onde dorme
o sol, e as tempestades recolhem
os braços sobre o baço
Suas esporas fizeram estrada
no campo de terra lavrada
seus pés cruzaram chão
que nem dá pra contar
Tonho tropeiro, fruto do campo
uma prece, um canto
a revolta da relva
explodiu verde no espaço
uma prece, um canto
a noite engoliu o dia
uma prece, um canto
um morria, outro nascia
uma prece, um canto
é hora de sombras e assombros
uma luta é uma luta
II
arado
arando
campo
mil discos arando a terra
mil valas abertas na noite
mil corpos cobrindo a terra
dorsalmente em decúbito.
um ruído escasso
um ruído distante
um som de silêncio
a tropa estende-se na estepe
a trova estendida esteve
a estrela, repórter da noite
estende um chamado estranho
a lua espia de longe
até parece um monge
o tropeiro estende o corpo
o silêncio profundo das horas
noturnas estende seu manto.
três berros
três velas
três sustos
um olho buscando luz
um pé buscando apoio
um corpo buscando ação
(...)
Publicado no livro Andança (1969). Poema integrante da série No Instante.
In: MIRANDA, Luiz de. Poesia reunida, 1967/1992. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Porto Alegre: IEL, 1992. p.452-453
NOTA: Poema composto de 3 parte
1 603
4
Sousândrade
Canto Décimo [II
(...)
(Comissários em Filadélfia expondo a CARIOCA
de PEDRO AMÉRICO, QUAKERS admirados:)
— Antedilúvio 'plesiosaurus,'
Indústria nossa na Exposição...
— Oh Ponza! que coxas!
Que trouxas!
De azul vidro é o sol patagão!
(...)
In: SOUSÂNDRADE. O Guesa. Londres: Cooke e Halsted, The Moorfields Press, 1888
NOTA: Poema inacabado, composto de 13 canto
(Comissários em Filadélfia expondo a CARIOCA
de PEDRO AMÉRICO, QUAKERS admirados:)
— Antedilúvio 'plesiosaurus,'
Indústria nossa na Exposição...
— Oh Ponza! que coxas!
Que trouxas!
De azul vidro é o sol patagão!
(...)
In: SOUSÂNDRADE. O Guesa. Londres: Cooke e Halsted, The Moorfields Press, 1888
NOTA: Poema inacabado, composto de 13 canto
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4
Juvenal Galeno
O Caipora
— No meio da mata, menino, não corras,
Que o vil caipora
Agora,
Nesta hora
Passeia montado no seu caititu;
E arteiro e malino
Se encontra o menino...
Ai dele! que o leva no seu grande uru!
Menino, não corras
Na mata a brincar,
Que o vil caipora
Te pode levar.
Seus olhos pequenos são negros, e feros,
Quais d'onça, luzentes,
Ardentes...
E os dentes
São como os do mero, ferinos, cruéis;
E o duro cabelo,
Assim, como o pêlo
Dos bravos queixadas, que são-lhe fiéis.
Menino, não corras
Na mata a brincar,
Que o vil caipora
Te pode levar.
Qu'ousado e valente o tal caboclinho,
De penas coberto,
Esperto...
Decerto
Se vê-te quer fumo, pedir-t'o lá vem;
Se acaso lh'o negas,
Se não lh'o entregas,
Quem é que te salva? Lá vais ao moquém!
Menino, não corras
Na mata a brincar,
Que o vil caipora
Te pode levar.
Se acaso te encontra... lá vais para a grota
Debalde lutando,
Gritando,
Chorando,
Na embira amarrado do seu grande uru!
Não corras menino,
Que o índio malino
Na mata passeia no seu caititu!
E o louco menino
Não quis escutar;
Fugindo de casa
Não pôde voltar.
In: GALENO, Juvenal. Lendas e canções populares, 1859/1865. Introd. F. Alves de Andrade. 4.ed. Fortaleza: Casa de Juvenal Galeno, 197
Que o vil caipora
Agora,
Nesta hora
Passeia montado no seu caititu;
E arteiro e malino
Se encontra o menino...
Ai dele! que o leva no seu grande uru!
Menino, não corras
Na mata a brincar,
Que o vil caipora
Te pode levar.
Seus olhos pequenos são negros, e feros,
Quais d'onça, luzentes,
Ardentes...
E os dentes
São como os do mero, ferinos, cruéis;
E o duro cabelo,
Assim, como o pêlo
Dos bravos queixadas, que são-lhe fiéis.
Menino, não corras
Na mata a brincar,
Que o vil caipora
Te pode levar.
Qu'ousado e valente o tal caboclinho,
De penas coberto,
Esperto...
Decerto
Se vê-te quer fumo, pedir-t'o lá vem;
Se acaso lh'o negas,
Se não lh'o entregas,
Quem é que te salva? Lá vais ao moquém!
Menino, não corras
Na mata a brincar,
Que o vil caipora
Te pode levar.
Se acaso te encontra... lá vais para a grota
Debalde lutando,
Gritando,
Chorando,
Na embira amarrado do seu grande uru!
Não corras menino,
Que o índio malino
Na mata passeia no seu caititu!
E o louco menino
Não quis escutar;
Fugindo de casa
Não pôde voltar.
In: GALENO, Juvenal. Lendas e canções populares, 1859/1865. Introd. F. Alves de Andrade. 4.ed. Fortaleza: Casa de Juvenal Galeno, 197
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4
Junqueira Freire
O Hino da Cabocla
(Canção nacional)
Sou índia, sou virgem, sou linda, sou débil,
— É quando vós outros, ó tapes, dizeis!
Sabei, bravos tapes! — que eu sei com destreza
Cravar minhas setas no peito dos reis!
Sabei que não canto somente prazeres,
Sabei que não gemo somente de amores:
Sabei que nem sempre vagueio nos bosques,
Sabei que nem sempres me adorno de flores.
Meus lábios não beijam os lábios do amante,
Meus lábios combatem tirânicas leis:
Meus lábios são como trovões estupendos,
Que cospem coriscos na face dos reis!
Quem viu-me nas liças, quem viu-me covarde,
Aos silvos da flecha — quem viu-me escorar?
Eu sou como a onça, pequena e valente,
Eu sei os perigos da guerra afrontar!
Enchi meus carcases de agudas taquaras,
Que iguais nas florestas jamais achareis;
E dessa taquaras fatais é que pendem
As vidas infames de todos os reis.
Sou índia, não nego: — meus finos cabelos
— Qual juba ferina — bem longos que são!
Porém esse peito, que férvido pulsa,
É másculo, ó tapes! — ou é de um leão!
(...)
Publicado no livro Obras Póstumas (1868*). Poema integrante da série Contradições Poéticas.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.6
Sou índia, sou virgem, sou linda, sou débil,
— É quando vós outros, ó tapes, dizeis!
Sabei, bravos tapes! — que eu sei com destreza
Cravar minhas setas no peito dos reis!
Sabei que não canto somente prazeres,
Sabei que não gemo somente de amores:
Sabei que nem sempre vagueio nos bosques,
Sabei que nem sempres me adorno de flores.
Meus lábios não beijam os lábios do amante,
Meus lábios combatem tirânicas leis:
Meus lábios são como trovões estupendos,
Que cospem coriscos na face dos reis!
Quem viu-me nas liças, quem viu-me covarde,
Aos silvos da flecha — quem viu-me escorar?
Eu sou como a onça, pequena e valente,
Eu sei os perigos da guerra afrontar!
Enchi meus carcases de agudas taquaras,
Que iguais nas florestas jamais achareis;
E dessa taquaras fatais é que pendem
As vidas infames de todos os reis.
Sou índia, não nego: — meus finos cabelos
— Qual juba ferina — bem longos que são!
Porém esse peito, que férvido pulsa,
É másculo, ó tapes! — ou é de um leão!
(...)
Publicado no livro Obras Póstumas (1868*). Poema integrante da série Contradições Poéticas.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.6
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4
Junqueira Freire
O Hino da Cabocla
(Canção nacional)
Sou índia, sou virgem, sou linda, sou débil,
— É quando vós outros, ó tapes, dizeis!
Sabei, bravos tapes! — que eu sei com destreza
Cravar minhas setas no peito dos reis!
Sabei que não canto somente prazeres,
Sabei que não gemo somente de amores:
Sabei que nem sempre vagueio nos bosques,
Sabei que nem sempres me adorno de flores.
Meus lábios não beijam os lábios do amante,
Meus lábios combatem tirânicas leis:
Meus lábios são como trovões estupendos,
Que cospem coriscos na face dos reis!
Quem viu-me nas liças, quem viu-me covarde,
Aos silvos da flecha — quem viu-me escorar?
Eu sou como a onça, pequena e valente,
Eu sei os perigos da guerra afrontar!
Enchi meus carcases de agudas taquaras,
Que iguais nas florestas jamais achareis;
E dessa taquaras fatais é que pendem
As vidas infames de todos os reis.
Sou índia, não nego: — meus finos cabelos
— Qual juba ferina — bem longos que são!
Porém esse peito, que férvido pulsa,
É másculo, ó tapes! — ou é de um leão!
(...)
Publicado no livro Obras Póstumas (1868*). Poema integrante da série Contradições Poéticas.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.6
Sou índia, sou virgem, sou linda, sou débil,
— É quando vós outros, ó tapes, dizeis!
Sabei, bravos tapes! — que eu sei com destreza
Cravar minhas setas no peito dos reis!
Sabei que não canto somente prazeres,
Sabei que não gemo somente de amores:
Sabei que nem sempre vagueio nos bosques,
Sabei que nem sempres me adorno de flores.
Meus lábios não beijam os lábios do amante,
Meus lábios combatem tirânicas leis:
Meus lábios são como trovões estupendos,
Que cospem coriscos na face dos reis!
Quem viu-me nas liças, quem viu-me covarde,
Aos silvos da flecha — quem viu-me escorar?
Eu sou como a onça, pequena e valente,
Eu sei os perigos da guerra afrontar!
Enchi meus carcases de agudas taquaras,
Que iguais nas florestas jamais achareis;
E dessa taquaras fatais é que pendem
As vidas infames de todos os reis.
Sou índia, não nego: — meus finos cabelos
— Qual juba ferina — bem longos que são!
Porém esse peito, que férvido pulsa,
É másculo, ó tapes! — ou é de um leão!
(...)
Publicado no livro Obras Póstumas (1868*). Poema integrante da série Contradições Poéticas.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.2, p.6
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