Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Xue Tao
Canção contemplando a primavera
(I)
As flores abrem, mesmo sem apreço
as flores caem, com ou sem lamento
Se da saudade indagas, quando faltas:
quando se abrem as flores, quando caem
(II)
Colhi ervinhas, fiz um nó-do-amor
para entregar a ele, o que me entende
Da primavera enfim a dor partia
e vêm os pássaros, seu canto triste
(III)
Ao sopro do dia envelhecem as flores
Longe o momento, tão longa a espera
Nenhum laço une amor e amante
trança o vazio meu nó-do-amor
(IV)
Insuportáveis os galhos repletos,
flores demais! Saudades às pencas
Plena manhã, o espelho reflete
à primavera as lágrimas, o vento
806
Sosigenes Costa
A Cabeleira da Musa
No teu cabelo há tardes outonais
amarelando o rio e os arvoredos.
Há cidades de mármores e rochedos
de açúcar-candi, bronzes e cristais.
No teu cabelo rútilo há milhões
de abelhas roxas fabricando favos
para o mel que roubam dos craveiros bravos
dos jardins levantinos de anões.
No teu cabelo há trêmulos trigais
de espigas fulvas e há gentis vinhedos
que molhas de perfume com teus dedos
com trinta anéis de pérola ovais.
No teu cabelo se abrem dos pavões
as estreladas caudas, dentre as rosas.
E brilham nela as pedras preciosas:
rubis, safiras, sárdios, cabuchões.
Nele há brondões, revérberos, fanais.
Pois isso atrai cornígeros besouros.
Por isso pombas e canários louros,
sempre de noite, feiticeira atrai.
No teu cabelo há reinos de sultões.
Teu cabelo relumbra como uns matos
cheio de olhos fosfóricos de gatos
e de escamas de fogo dos dragões.
Na tua cabeleira há catedrais.
No teu cabelo rola e ferve estranha
cascata de falerno e de champanha
por entre alabastrinos jasminais.
No teu cabelo vive uma serpente
que descasca por hora uma imponente
pele conteúdo bíblica signais.
No teu divino e esplêndido cabelo
rugem tigres de azul-celeste pêlo
e de unhas de ouro, lúcidas, fatais.
No teu cabelo. Musa Helena e saiba,
queimam-se incenso e nardo azul da Arábia
e outras sortes e espécies aromais.
No teu cabelo há um céu com muitas luas
iluminando cem mulheres nuas
que se banham num lago entre juncais.
No teu cabelo há sílfides e bruxos
dançando dentro dos jorros de repuxos
e há templos de âmbar louro e há muito mais:
Há globos de ouro e estames de açucenas
e cem faisões de prateadas penas,
- Filha do sol, princesa dos corais!
1 009
Sosigenes Costa
A Cabeleira da Musa
No teu cabelo há tardes outonais
amarelando o rio e os arvoredos.
Há cidades de mármores e rochedos
de açúcar-candi, bronzes e cristais.
No teu cabelo rútilo há milhões
de abelhas roxas fabricando favos
para o mel que roubam dos craveiros bravos
dos jardins levantinos de anões.
No teu cabelo há trêmulos trigais
de espigas fulvas e há gentis vinhedos
que molhas de perfume com teus dedos
com trinta anéis de pérola ovais.
No teu cabelo se abrem dos pavões
as estreladas caudas, dentre as rosas.
E brilham nela as pedras preciosas:
rubis, safiras, sárdios, cabuchões.
Nele há brondões, revérberos, fanais.
Pois isso atrai cornígeros besouros.
Por isso pombas e canários louros,
sempre de noite, feiticeira atrai.
No teu cabelo há reinos de sultões.
Teu cabelo relumbra como uns matos
cheio de olhos fosfóricos de gatos
e de escamas de fogo dos dragões.
Na tua cabeleira há catedrais.
No teu cabelo rola e ferve estranha
cascata de falerno e de champanha
por entre alabastrinos jasminais.
No teu cabelo vive uma serpente
que descasca por hora uma imponente
pele conteúdo bíblica signais.
No teu divino e esplêndido cabelo
rugem tigres de azul-celeste pêlo
e de unhas de ouro, lúcidas, fatais.
No teu cabelo. Musa Helena e saiba,
queimam-se incenso e nardo azul da Arábia
e outras sortes e espécies aromais.
No teu cabelo há um céu com muitas luas
iluminando cem mulheres nuas
que se banham num lago entre juncais.
No teu cabelo há sílfides e bruxos
dançando dentro dos jorros de repuxos
e há templos de âmbar louro e há muito mais:
Há globos de ouro e estames de açucenas
e cem faisões de prateadas penas,
- Filha do sol, princesa dos corais!
1 009
Sosigenes Costa
A Cabeleira da Musa
No teu cabelo há tardes outonais
amarelando o rio e os arvoredos.
Há cidades de mármores e rochedos
de açúcar-candi, bronzes e cristais.
No teu cabelo rútilo há milhões
de abelhas roxas fabricando favos
para o mel que roubam dos craveiros bravos
dos jardins levantinos de anões.
No teu cabelo há trêmulos trigais
de espigas fulvas e há gentis vinhedos
que molhas de perfume com teus dedos
com trinta anéis de pérola ovais.
No teu cabelo se abrem dos pavões
as estreladas caudas, dentre as rosas.
E brilham nela as pedras preciosas:
rubis, safiras, sárdios, cabuchões.
Nele há brondões, revérberos, fanais.
Pois isso atrai cornígeros besouros.
Por isso pombas e canários louros,
sempre de noite, feiticeira atrai.
No teu cabelo há reinos de sultões.
Teu cabelo relumbra como uns matos
cheio de olhos fosfóricos de gatos
e de escamas de fogo dos dragões.
Na tua cabeleira há catedrais.
No teu cabelo rola e ferve estranha
cascata de falerno e de champanha
por entre alabastrinos jasminais.
No teu cabelo vive uma serpente
que descasca por hora uma imponente
pele conteúdo bíblica signais.
No teu divino e esplêndido cabelo
rugem tigres de azul-celeste pêlo
e de unhas de ouro, lúcidas, fatais.
No teu cabelo. Musa Helena e saiba,
queimam-se incenso e nardo azul da Arábia
e outras sortes e espécies aromais.
No teu cabelo há um céu com muitas luas
iluminando cem mulheres nuas
que se banham num lago entre juncais.
No teu cabelo há sílfides e bruxos
dançando dentro dos jorros de repuxos
e há templos de âmbar louro e há muito mais:
Há globos de ouro e estames de açucenas
e cem faisões de prateadas penas,
- Filha do sol, princesa dos corais!
1 009
Sandro Penna
O mar é todo azul
O mar é todo azul.
O mar é todo calmo.
Em mim há quase um urro
de gozo. E tudo é calmo.
:
Il mare è tutto azzurro.
Il mare è tutto calmo.
Nel cuore è quasi un urlo
di gioia. E tutto è calmo
de Poesie (1939)
O mar é todo calmo.
Em mim há quase um urro
de gozo. E tudo é calmo.
:
Il mare è tutto azzurro.
Il mare è tutto calmo.
Nel cuore è quasi un urlo
di gioia. E tutto è calmo
de Poesie (1939)
1 116
Isabel Câmara
I.
I.
Se por acaso ao cruzar a luz
teu pé não se apegar a mim e o
trespassar em ti a espada
fruto masculino prazer de dolorosa e umbrática sombra
Saiba que por ti
ignorantemente passei sem querer
sem que sequer presumisses
e se supunhas
então era eu o tempo devido
fossem Outroras ou não
quando Aurora
(ah sacra palavra)
Aurora
AURORA
que em inglês também pressupõe pés sujos
de americanos forjadores de matracas...
...não fique aí parado
escoou – foi para baixo e sumiu na Noite
DAWN
E quando todo lógico-poema
não quiser assinalar-se à ponta da escrita
aquieta-te pássaro e força o prazer de pássaro
olhando à revelia o céu
porém ali
sentadinho mas num poleirinho.
II.
Se fosse moça (se moça fora) não teria nome
chamar-se-ia em boa gramática
de escrita antiga apenas Moça.
Só se faria maiúsculo o m de três pernas
que duas já devera de ter por causa dos sustos
e do medo de perder. A terceira perda
a perna terceira
tecera infindável
o recomeço
para o Futuro...
Quanta estranheza senhor Deus
nas orações de dona Rozenda.
Toda Ave-Maria era um coroar-se de rei
e de salve-rainhas a perder de vista
Depois
se por acaso alguém perdesse o dom de Ver
A Visão
até isso era um coroar-se da Vida
943
Isabel Câmara
I.
I.
Se por acaso ao cruzar a luz
teu pé não se apegar a mim e o
trespassar em ti a espada
fruto masculino prazer de dolorosa e umbrática sombra
Saiba que por ti
ignorantemente passei sem querer
sem que sequer presumisses
e se supunhas
então era eu o tempo devido
fossem Outroras ou não
quando Aurora
(ah sacra palavra)
Aurora
AURORA
que em inglês também pressupõe pés sujos
de americanos forjadores de matracas...
...não fique aí parado
escoou – foi para baixo e sumiu na Noite
DAWN
E quando todo lógico-poema
não quiser assinalar-se à ponta da escrita
aquieta-te pássaro e força o prazer de pássaro
olhando à revelia o céu
porém ali
sentadinho mas num poleirinho.
II.
Se fosse moça (se moça fora) não teria nome
chamar-se-ia em boa gramática
de escrita antiga apenas Moça.
Só se faria maiúsculo o m de três pernas
que duas já devera de ter por causa dos sustos
e do medo de perder. A terceira perda
a perna terceira
tecera infindável
o recomeço
para o Futuro...
Quanta estranheza senhor Deus
nas orações de dona Rozenda.
Toda Ave-Maria era um coroar-se de rei
e de salve-rainhas a perder de vista
Depois
se por acaso alguém perdesse o dom de Ver
A Visão
até isso era um coroar-se da Vida
943
Jack Spicer
Língua Coisa
Este oceano, humilhante em seus disfarces
Resiste a tudo.
Nem um sintoniza na poesia. O oceano
Emite ondas para a sintonia de ninguém. Gota
Ou tromba d´água. Omite
Significados.
É
Manteiga e pão
Pimenta e sal. A morte
Que os jovens almejam. Sem mira
Alveja as margens. Sinais sem mira, alvos. Nem
Um sintoniza na poesia.
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Thing Language
This ocean, humiliating in its disguises
Tougher than anything.
No one listens to poetry. The ocean
Does not mean to be listened to. A drop
Or crash of water. It means
Nothing.
It
Is bread and butter
Pepper and salt. The death
That young men hope for. Aimlessly
It pounds the shore. White and aimless signals. No
One listens to poetry.
692
Sosigenes Costa
A chuva vem cair na Ingauíra
Cada pingo d'água
é um cabelo da chuva.
Cada gole de água do arco-íris
é um aguaceiro.
Essa lagoa é o copo
por onde bebe um gigante.
Para a boca do arco-íris
só uma taça redonda.
Para a sede de um gigante
só a água de um pote rodeado de flores.
É na Lagoa dos Cocos
que o arco-íris bebe água.
Fui ver um dia
esse copo de flores.
Estômagos cheios
da água de um coco,
as nuvens vêm vindo.
Barriga pesada
com a água de um coco,
as nuvens vêm vindo.
Lagoa dos cocos,
Bandeja redonda cheia de copos de água.
Hi! vem chuva como cabelo de sapo.
Cada pingo d'água
é um cabelo da chuva.
Cada gole de água do arco-íris
é um aguaceiro.
E cada gota de orvalho
é um diamante pingo d'água.
Hi! vem chuva como cabelo de sapo.
Aqueles pássaros enormes,
que não podem voar direito,
de tanta água na barriga,
vão cair nesta volta do rio.
Adília, minha irmã, prepare-se:
Sobre a nossa casa vão cair do céu
sete copos de água.
Teu banho de hoje, Sinhá,
será dentro de um copo d'água.
969
Sosigenes Costa
A chuva vem cair na Ingauíra
Cada pingo d'água
é um cabelo da chuva.
Cada gole de água do arco-íris
é um aguaceiro.
Essa lagoa é o copo
por onde bebe um gigante.
Para a boca do arco-íris
só uma taça redonda.
Para a sede de um gigante
só a água de um pote rodeado de flores.
É na Lagoa dos Cocos
que o arco-íris bebe água.
Fui ver um dia
esse copo de flores.
Estômagos cheios
da água de um coco,
as nuvens vêm vindo.
Barriga pesada
com a água de um coco,
as nuvens vêm vindo.
Lagoa dos cocos,
Bandeja redonda cheia de copos de água.
Hi! vem chuva como cabelo de sapo.
Cada pingo d'água
é um cabelo da chuva.
Cada gole de água do arco-íris
é um aguaceiro.
E cada gota de orvalho
é um diamante pingo d'água.
Hi! vem chuva como cabelo de sapo.
Aqueles pássaros enormes,
que não podem voar direito,
de tanta água na barriga,
vão cair nesta volta do rio.
Adília, minha irmã, prepare-se:
Sobre a nossa casa vão cair do céu
sete copos de água.
Teu banho de hoje, Sinhá,
será dentro de um copo d'água.
969
Christopher Okigbo
A Passagem
Diante de ti, mãe Idoto,
eu me posto nu;
Diante de tua presença aquosa,
Um pródigo
Encostado na acácia,
Absorto em tua lenda.
Sob teu domínio eu aguardo
Descalço,
Sentinela para a senha
No portão celeste;
Das profundezas meu grito:
Dá ouvidos e atenta...
Água escura dos primórdios.
Raios, violáceos e curtos, perfurando a tristeza,
Sugerem o fogo que é sonhado.
Arco-íris na distância, arqueado como cobra em bote à presa,
Sugere a chuva que é sonhada.
À estufa
A solidão me convida,
Uma alvéloa, para contar
O conto da mata-em-cipós;
Nectarinia, em luto
Por uma mãe entre galhos.
Sol e chuva num combate único;
Sobre uma só perna,
Em silêncio na passagem,
O jovem pássaro na passagem.
Rostos silenciosos nas encruzilhadas:
Festividade em negro...
Rostos em negro como longas negras
Colunas de formigas,
Detrás da torre do sino,
Entrando no ardente jardim
Onde todas as estradas se encontram:
Festividade em negro...
Oh Ana às maçanetas do painel alongado,
Ouve-nos às encruzilhadas nas grandes dobradiças
Onde os tocadores de orgão nas galerias
Ensaiam o doce velho fragmento, a sós -
Marcas de folhas de laranjeira impressas nas páginas,
Desbotar da luz de anos entrelaçados no couro:
Pois estamos à escuta nos campos de milho,
Entre os instrumentos de sopro,
Escutando o vento debruçar-se sobre
O seu mais doce fragmento...
(tradução de Ricardo Domeneck)
906
Christopher Okigbo
A Passagem
Diante de ti, mãe Idoto,
eu me posto nu;
Diante de tua presença aquosa,
Um pródigo
Encostado na acácia,
Absorto em tua lenda.
Sob teu domínio eu aguardo
Descalço,
Sentinela para a senha
No portão celeste;
Das profundezas meu grito:
Dá ouvidos e atenta...
Água escura dos primórdios.
Raios, violáceos e curtos, perfurando a tristeza,
Sugerem o fogo que é sonhado.
Arco-íris na distância, arqueado como cobra em bote à presa,
Sugere a chuva que é sonhada.
À estufa
A solidão me convida,
Uma alvéloa, para contar
O conto da mata-em-cipós;
Nectarinia, em luto
Por uma mãe entre galhos.
Sol e chuva num combate único;
Sobre uma só perna,
Em silêncio na passagem,
O jovem pássaro na passagem.
Rostos silenciosos nas encruzilhadas:
Festividade em negro...
Rostos em negro como longas negras
Colunas de formigas,
Detrás da torre do sino,
Entrando no ardente jardim
Onde todas as estradas se encontram:
Festividade em negro...
Oh Ana às maçanetas do painel alongado,
Ouve-nos às encruzilhadas nas grandes dobradiças
Onde os tocadores de orgão nas galerias
Ensaiam o doce velho fragmento, a sós -
Marcas de folhas de laranjeira impressas nas páginas,
Desbotar da luz de anos entrelaçados no couro:
Pois estamos à escuta nos campos de milho,
Entre os instrumentos de sopro,
Escutando o vento debruçar-se sobre
O seu mais doce fragmento...
(tradução de Ricardo Domeneck)
906
Jean Follain
Cão com alunos
Por diversão os alunos quebram o gelo
ao longo de uma trilha
próxima à ferrovia
cobertos de roupas pesadas
de velha lã escura
e cintos de couro batido
o cão que os segue
não tem mais tigela donde comer tarde
ele é velho
pois tem a idade deles
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
Chien aux écoliers
Jean Follain
Les écoliers par jeu brisent la glace
dans un sentier
près du chemin de fer
on les a lourdement habillés
d’anciens lainages sombres
et ceinturés de cuirs fourbus
le chien qui les suit
n’a plus d’écuelle où manger tard
il est vieux
car il a leur âge
750
Giuseppe Ungaretti
Campo
Villa di Garda, abril de 1918
A terra
se cobriu
de tenra
leveza
Como uma esposa
nova
oferece
atônita
ao filho
o pudor
sorridente
de mãe
(tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti)
:
Prato
Villa di Garda aprile 1918
La terra
s'è velata
di tenera
leggerezza
Come una sposa
novella
offre
allibita
alla sua creatura
il pudore
sorridente
di madre
A terra
se cobriu
de tenra
leveza
Como uma esposa
nova
oferece
atônita
ao filho
o pudor
sorridente
de mãe
(tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti)
:
Prato
Villa di Garda aprile 1918
La terra
s'è velata
di tenera
leggerezza
Come una sposa
novella
offre
allibita
alla sua creatura
il pudore
sorridente
di madre
1 170
Jean-Baptiste Tati Loutard
Notícias de minha mãe
Me alço alto agora na árvore das estações;
Embaixo, contemplo a terra firme do passado.
Quando os campos se abriam às semeaduras,
Antes que o baobá não ofereça o ombro ao passarinhos
Ao primeiro sinal do sol,
São esses os passos que cantavam ao meu redor:
Grãos de sininhos ritmando minhas abluções.
Me alço alto agora na árvore das estações.
Saiba através desse décimo quinto dia de lua
Que são as lágrimas – até aqui –
Que coroam tua ausência,
Alegam gota a gota tua imagem
Tão pesada sobre minha pupila;
À noite em minha esteira eu velo toda encharcada de ti
Como se tu me habitasses uma segunda vez.
(tradução de Leo Gonçalves)
:
Nouvelles de ma mère
Jean-Baptiste Tati Loutard
Je suis maintenant très haut dans l’arbre des saiasons;
En bas je contemple la terre ferme du passé.
Quando les champs s’ouvraient aux semailles,
Avant que le baobab n’épaule quelques oiseaux
Au premier signal du soleil,
Ce sont tes pas qui chantaient autor de moi:
Grains de clochettes rythmant mes ablutions.
Je suis maintenant très haut dans l’arbre des saisons.
Apprends par ce quinzième jour de lune,
Que ce sont les larmes – jusqu’ici –
Qui comblent ton absence,
Allègent goutte à goutte ton image
Trop lourde sur ma pupille;
Le soir sur ma natte je veille toute trempée de toi
Comme si tu m’habitais une seconde fois.
(do livro Poèmes de la mer, 1968)
.
.
.
954
Maura Lopes Cançado
Era outono - não mudou de estação.
Era outono - não mudou de estação.
Águas tremiam eternizadas na planura dos lagos,
como no ar tremeluziam palavras.
Lentes espelhavam figuras catatônicas -
e nas extremidades dos dias, novas claridades
entravam - não de todo límpidas.
Rios solenes, leitos profundos, grave caminhar.
Se tive consciência é mistério dos nautas
- imagens elevadas até o desconhecido:
Não esmaguei prováveis flores da Primavera;
não mudou de estação.
(15/01/1960)
810
Maura Lopes Cançado
Era outono - não mudou de estação.
Era outono - não mudou de estação.
Águas tremiam eternizadas na planura dos lagos,
como no ar tremeluziam palavras.
Lentes espelhavam figuras catatônicas -
e nas extremidades dos dias, novas claridades
entravam - não de todo límpidas.
Rios solenes, leitos profundos, grave caminhar.
Se tive consciência é mistério dos nautas
- imagens elevadas até o desconhecido:
Não esmaguei prováveis flores da Primavera;
não mudou de estação.
(15/01/1960)
810
Bessie Head
Autorretrato
Idealista
E, no fundo,
Apática e indiferente
Minhoca,
Lançando-se, tremente,
Gaguejando, em hesitação,
Firme, irresponsável, impaciente,
Estática, plácida,
Sem direção certa,
Com direção certa,
Isolada, como destroço
Na rebentação do oceano em ressaca,
Lançada à crista de uma onda
Altissonante e desorientadora,
Engolfada nas profundezas anônimas,
Ah! contradição
ISTO eu sou.
678
Christopher Okigbo
A árvore
A raiz atingiu
Um veio de pedra.
A seiva seca no caule
Em ascensão:
O sangue seca na veia
Como seiva.
(tradução de Ricardo Domeneck)
The Tree
Christopher Okigbo
THE ROOT has struck
A layer of rock;
The sap dries out in the stem
Upwards:
The blood dries out in the vein
Like sap.
.
.
.
Um veio de pedra.
A seiva seca no caule
Em ascensão:
O sangue seca na veia
Como seiva.
(tradução de Ricardo Domeneck)
The Tree
Christopher Okigbo
THE ROOT has struck
A layer of rock;
The sap dries out in the stem
Upwards:
The blood dries out in the vein
Like sap.
.
.
.
945
Paulo Colina
Solitude
Dentro desta noite cúmplice
tudo se funde
em meus ouvidos:
o assobio plano do vento
e as ondas pontuais das vozes
e gargalhadas
no interior dos bares.
Já estive em três deles. E até agora,
nenhuma cadeira me aqueceu direito;
nada do que bebi me caiu bem.
As horas se arrastam ao rés dos edifícios
do centro capital,
alheios à soturna clausura das palavras
dentro de mim.
Pelas ruas,
cada ponto de ônibus
é um cão vadio roendo silêncios.
Meu peito é um vão
por onde toda a cidade transita.
954
Bella Akhmadúlina
Separação
Hoje nos separamos para sempre
e isso faz o mundo transformar-se.
Tudo nele anuncia a traição:
os rios vão se afastando das margens,
as nuvens vão se afastando do céu,
a mão direita olha para a esquerda
e arrogante diz: “Vou embora, adeus!”
Abril não mais prepara o mês de maio,
mês de maio que nunca mais verás,
e as flores se desfolham, feitas pó.
É a derrota do azul para o amarelo!
Já as últimas flores se esturricam,
comprimento e largura não há mais,
o branco, em estertor, já agoniza,
deixando um arco-íris de orfãzinhas.
A natureza afoga em sua tristeza,
a maré baixa sobe pela margem,
calam-se os sons e isso porque nós,
você e eu, pra sempre nos deixamos.
/// tradução de Lauro Machado Coelho, incluída no volume Poesia Soviética (São Paulo: Algol Editora, 2007).
.
.
.
1 008
Jack Spicer
Para Mac
Estrela-do-mar morta numa praia
Com seus cinco braços
Representando os cinco sentidos
Representando as piadas que não contamos um ao outro
Chame a terra de chão
Chame as pessoas de humanas
Mas deixe a criatura estirada
No chão dos nossos sentidos
Como um amor
Prefigurado no mar
Que morreu
E foi à água
Todos os oceanos
De emoções. Todos os oceanos de emoções
Estão cheios de tais estrelas
Por que
Esta que está morta teria tamanha importância?
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
For Mac
A dead starfish on a beach
He has five branches
Representing the five senses
Representing the jokes we did not tell each other
Call the earth flat
Call other people human
But let the creature lie
Flat upon our senses
Like a love
Prefigured in the sea
That died
And went to water
All the oceans
Of emotion. All the oceans of emotion
Are full of such fish
Why
Is this dead one of such importance?
Com seus cinco braços
Representando os cinco sentidos
Representando as piadas que não contamos um ao outro
Chame a terra de chão
Chame as pessoas de humanas
Mas deixe a criatura estirada
No chão dos nossos sentidos
Como um amor
Prefigurado no mar
Que morreu
E foi à água
Todos os oceanos
De emoções. Todos os oceanos de emoções
Estão cheios de tais estrelas
Por que
Esta que está morta teria tamanha importância?
(tradução de Ricardo Domeneck)
:
For Mac
A dead starfish on a beach
He has five branches
Representing the five senses
Representing the jokes we did not tell each other
Call the earth flat
Call other people human
But let the creature lie
Flat upon our senses
Like a love
Prefigured in the sea
That died
And went to water
All the oceans
Of emotion. All the oceans of emotion
Are full of such fish
Why
Is this dead one of such importance?
777
Tchicaya U Tam'si
Através de tempo e rio
Um dia será preciso se pôr
a andar alto os ventos
como as folhas das árvores
para o estrume para o fogo
que importa
outras eras farão de nossas almas
silícios
porto para os pés desnudos
estaremos em todos os caminhos
porto para a sede
porto para o amor
porto para o tempo
nós vimos a areia
nós vimos a espuma
que a ignora
vimos os rios e as árvores
quem dirá
nós acreditamos
nós acreditamos
quem negará
pegamos carpas enchemos as redes
bastava um gesto com o polegar
o mundo estava salvo pelo silêncio
mas então
o mar salta a espuma
mas então
a espuma derruba o mar
ao longe se vão os sete rios
para saber a quem cantam as folhas
resta ainda um rio
e a chave dos sonhos nos seus flancos
mas quanto a saber por que
cantam as folhas
ah mágoa mágoa
hurra as trovoadas
caminhar com punhos fechados
caminhar
contar as estrelas
e saltar acima das jângals
para tanto não ser hiena nem jiboia
depois aplaudir um rio
e as corças e as zebras e as gazelas
depois saltar com ele alto a lâmina
a formiga diz
vou esfolar o búfalo
ah deixe o rio
venha cá mulher-rã
as libélulas dançavam
veladas de azul e de pólen
resta o rio
e o arco-íris
à beira um ancião
ancião lava tua chaga
mas diz a minha mãe diz a meu pai
eis-me mulher-jacaré
ó mãe amante-crocodilo
ó pai mulher-jacaré
ancião lava tua chaga
os peixes das águas avistaram essas lágrimas
cuspiram para salvar aquelas lágrimas
mas as gaivotas fecharam a cara
pobre afogada guarda teu leito de rio
resta-nos esse rio
e o arco-íris
em relevo
dos papagaios portadores de totens
a savana entre seus troncos
faz dançar fulvos viscosos
e eu gritei
por sobre as jângal
fica a direitura do caminho esquecido
mas eis a areia
ao longe é o mar
mas eis o ovo
uma crista ao redor
de sua vida
se calar ou simplesmente chorar
a criança dorme
a mãe se esquece
a coruja ulula
a lua está tranquila
o tempo passa
a lua desaparece
a flor d’água se quebra
a criança dorme
morre sua mãe
os jacarés partiam a água
com a cauda
a coruja ressona não espere a noite
pois não basta gritar estupro
assim saltou o astro inicial
pois o escorpião nunca foi um vicioso
mil formigas vão esfolar o búfalo
que degolou o cordeiro diante dos homens
café bananas algodão tapioca
morre morre quem quiser
não basta recriar o estupro
uma manhã
uma clara manhã
não mais totens e seus papagaios
uma manhã
uma clara manhã
não mais folhas em parte alguma
ao longe se foram
sete rios de ondas perdidas
a criança dorme
o atabaque sua
a lua está tranquila
o tempo passa
sobre suas montarias de silêncios
(tradução de Leo Gonçalves)
À travers temps et fleuve
Tchicaya U Tam´si
Un jour il faudra se prendre
marcher haut les vents
comme les feuilles des arbres
pour un fumier pour un feu
qu’importe
d’autres âges feront de nos âmes
des silex
gare aux pieds nus
nous serons sur tous les chemins
gare à la soif
gare à l’amour
gare au temps
nous avons vu le sable
nous avons vu l’écueil
qui l’ignore
nous avons les fleuves et les arbres
qui le dira
nous avons cru
nous avons cru
qui le niera
nous avons pris des carpes plein nos filets
il suffisait d’un coup de pouce
le monde était sauvé par le silence
mais voici
la mer saute l’écueil
mais voici
l’écueil culbute la mer
au loin s’en vont les sept fleuves
à savoir pour qui chantent les feuilles
il reste un fleuve
et la clé des songes dans ses flancs
mais quant à savoir pourquoi
chantent les feuilles
ah chagrin chagrin
hourra les tonneres
marcher les poings fermés
marcher d’abord
compter les étoiles
et sauter par-dessus les jungles
pour cela n’être ni hyène ni python
puis applaudir un fleuve
et les biches et les zèbres et les gazelles
puis bondir avec lui haut la lame
la fourmi dit
je vais dépecer le buffle
hé quitte le fleuve
viens-t’en femme grenouille
les libellules dansaient
voilées d’azur et de pollent
il reste le fleuve
et l’arc-en-ciel
en bordure un vieil homme
vieil homme lave ta plaie
mais dis à ma mère dis à mon père
me voici femme caïman
me voici amante-crocodile
ô mère amante-crocodile
ô père femme-caïman
vieil homme lave ta plaie
les poissons de l’eau ont vu ces larmes
ils ont craché pour sauver ces larmes-là
mais les mouettes ont fait la moue
pauvre noyée garde ton lit de fleuve
il nous reste ce fleuve
et l’arc-en-ciel
en saillie
des perroquets porteurs de totems
la brousse entre ses troncs
fait danser des fleuves visqueux
et j’ai crié
par-dessus les jungles
est la droiture du chemin oublié
mais voici le sable
au loin est la mer
mais voici l’œuf
une coquille entoure
sa vie
se taire ou simplement pleurer
l’enfant dort
la mère s’oublie
la chouette ulule
la lune est tranquille
le temps passe
la lune disparaît
la fleur d’eau se brise
l’enfant dort
se meurt sa mère
les caïmans cassaient l’eau
avec leur queues
le hibou somnole n’attendez la nuit
car il ne suffit pas de crier au viol
ainsi a sauté l’astre initial
car le scorpion ne fut jamais vicieux
un mille de fourmis va dépecer le buffle
qui a égorgé l’agneau devant les hommes
café bananes coton tapioca
meure meure qui voudra
il ne suffit pas de recréer le viol
un matin
un clair matin
plus de totems et leurs perroquets
un matin
un clair matin
plus de feuilles nulle parte
au loin s’en sont allés
sept fleuves à flots perdus
l’enfant dort
le tam-tam s’ébruite
la lune est tranquille
le temps passe
sur ses montures de silences
(1957)
a andar alto os ventos
como as folhas das árvores
para o estrume para o fogo
que importa
outras eras farão de nossas almas
silícios
porto para os pés desnudos
estaremos em todos os caminhos
porto para a sede
porto para o amor
porto para o tempo
nós vimos a areia
nós vimos a espuma
que a ignora
vimos os rios e as árvores
quem dirá
nós acreditamos
nós acreditamos
quem negará
pegamos carpas enchemos as redes
bastava um gesto com o polegar
o mundo estava salvo pelo silêncio
mas então
o mar salta a espuma
mas então
a espuma derruba o mar
ao longe se vão os sete rios
para saber a quem cantam as folhas
resta ainda um rio
e a chave dos sonhos nos seus flancos
mas quanto a saber por que
cantam as folhas
ah mágoa mágoa
hurra as trovoadas
caminhar com punhos fechados
caminhar
contar as estrelas
e saltar acima das jângals
para tanto não ser hiena nem jiboia
depois aplaudir um rio
e as corças e as zebras e as gazelas
depois saltar com ele alto a lâmina
a formiga diz
vou esfolar o búfalo
ah deixe o rio
venha cá mulher-rã
as libélulas dançavam
veladas de azul e de pólen
resta o rio
e o arco-íris
à beira um ancião
ancião lava tua chaga
mas diz a minha mãe diz a meu pai
eis-me mulher-jacaré
ó mãe amante-crocodilo
ó pai mulher-jacaré
ancião lava tua chaga
os peixes das águas avistaram essas lágrimas
cuspiram para salvar aquelas lágrimas
mas as gaivotas fecharam a cara
pobre afogada guarda teu leito de rio
resta-nos esse rio
e o arco-íris
em relevo
dos papagaios portadores de totens
a savana entre seus troncos
faz dançar fulvos viscosos
e eu gritei
por sobre as jângal
fica a direitura do caminho esquecido
mas eis a areia
ao longe é o mar
mas eis o ovo
uma crista ao redor
de sua vida
se calar ou simplesmente chorar
a criança dorme
a mãe se esquece
a coruja ulula
a lua está tranquila
o tempo passa
a lua desaparece
a flor d’água se quebra
a criança dorme
morre sua mãe
os jacarés partiam a água
com a cauda
a coruja ressona não espere a noite
pois não basta gritar estupro
assim saltou o astro inicial
pois o escorpião nunca foi um vicioso
mil formigas vão esfolar o búfalo
que degolou o cordeiro diante dos homens
café bananas algodão tapioca
morre morre quem quiser
não basta recriar o estupro
uma manhã
uma clara manhã
não mais totens e seus papagaios
uma manhã
uma clara manhã
não mais folhas em parte alguma
ao longe se foram
sete rios de ondas perdidas
a criança dorme
o atabaque sua
a lua está tranquila
o tempo passa
sobre suas montarias de silêncios
(tradução de Leo Gonçalves)
:
À travers temps et fleuve
Tchicaya U Tam´si
Un jour il faudra se prendre
marcher haut les vents
comme les feuilles des arbres
pour un fumier pour un feu
qu’importe
d’autres âges feront de nos âmes
des silex
gare aux pieds nus
nous serons sur tous les chemins
gare à la soif
gare à l’amour
gare au temps
nous avons vu le sable
nous avons vu l’écueil
qui l’ignore
nous avons les fleuves et les arbres
qui le dira
nous avons cru
nous avons cru
qui le niera
nous avons pris des carpes plein nos filets
il suffisait d’un coup de pouce
le monde était sauvé par le silence
mais voici
la mer saute l’écueil
mais voici
l’écueil culbute la mer
au loin s’en vont les sept fleuves
à savoir pour qui chantent les feuilles
il reste un fleuve
et la clé des songes dans ses flancs
mais quant à savoir pourquoi
chantent les feuilles
ah chagrin chagrin
hourra les tonneres
marcher les poings fermés
marcher d’abord
compter les étoiles
et sauter par-dessus les jungles
pour cela n’être ni hyène ni python
puis applaudir un fleuve
et les biches et les zèbres et les gazelles
puis bondir avec lui haut la lame
la fourmi dit
je vais dépecer le buffle
hé quitte le fleuve
viens-t’en femme grenouille
les libellules dansaient
voilées d’azur et de pollent
il reste le fleuve
et l’arc-en-ciel
en bordure un vieil homme
vieil homme lave ta plaie
mais dis à ma mère dis à mon père
me voici femme caïman
me voici amante-crocodile
ô mère amante-crocodile
ô père femme-caïman
vieil homme lave ta plaie
les poissons de l’eau ont vu ces larmes
ils ont craché pour sauver ces larmes-là
mais les mouettes ont fait la moue
pauvre noyée garde ton lit de fleuve
il nous reste ce fleuve
et l’arc-en-ciel
en saillie
des perroquets porteurs de totems
la brousse entre ses troncs
fait danser des fleuves visqueux
et j’ai crié
par-dessus les jungles
est la droiture du chemin oublié
mais voici le sable
au loin est la mer
mais voici l’œuf
une coquille entoure
sa vie
se taire ou simplement pleurer
l’enfant dort
la mère s’oublie
la chouette ulule
la lune est tranquille
le temps passe
la lune disparaît
la fleur d’eau se brise
l’enfant dort
se meurt sa mère
les caïmans cassaient l’eau
avec leur queues
le hibou somnole n’attendez la nuit
car il ne suffit pas de crier au viol
ainsi a sauté l’astre initial
car le scorpion ne fut jamais vicieux
un mille de fourmis va dépecer le buffle
qui a égorgé l’agneau devant les hommes
café bananes coton tapioca
meure meure qui voudra
il ne suffit pas de recréer le viol
un matin
un clair matin
plus de totems et leurs perroquets
un matin
un clair matin
plus de feuilles nulle parte
au loin s’en sont allés
sept fleuves à flots perdus
l’enfant dort
le tam-tam s’ébruite
la lune est tranquille
le temps passe
sur ses montures de silences
(1957)
937
Tchicaya U Tam'si
Através de tempo e rio
Um dia será preciso se pôr
a andar alto os ventos
como as folhas das árvores
para o estrume para o fogo
que importa
outras eras farão de nossas almas
silícios
porto para os pés desnudos
estaremos em todos os caminhos
porto para a sede
porto para o amor
porto para o tempo
nós vimos a areia
nós vimos a espuma
que a ignora
vimos os rios e as árvores
quem dirá
nós acreditamos
nós acreditamos
quem negará
pegamos carpas enchemos as redes
bastava um gesto com o polegar
o mundo estava salvo pelo silêncio
mas então
o mar salta a espuma
mas então
a espuma derruba o mar
ao longe se vão os sete rios
para saber a quem cantam as folhas
resta ainda um rio
e a chave dos sonhos nos seus flancos
mas quanto a saber por que
cantam as folhas
ah mágoa mágoa
hurra as trovoadas
caminhar com punhos fechados
caminhar
contar as estrelas
e saltar acima das jângals
para tanto não ser hiena nem jiboia
depois aplaudir um rio
e as corças e as zebras e as gazelas
depois saltar com ele alto a lâmina
a formiga diz
vou esfolar o búfalo
ah deixe o rio
venha cá mulher-rã
as libélulas dançavam
veladas de azul e de pólen
resta o rio
e o arco-íris
à beira um ancião
ancião lava tua chaga
mas diz a minha mãe diz a meu pai
eis-me mulher-jacaré
ó mãe amante-crocodilo
ó pai mulher-jacaré
ancião lava tua chaga
os peixes das águas avistaram essas lágrimas
cuspiram para salvar aquelas lágrimas
mas as gaivotas fecharam a cara
pobre afogada guarda teu leito de rio
resta-nos esse rio
e o arco-íris
em relevo
dos papagaios portadores de totens
a savana entre seus troncos
faz dançar fulvos viscosos
e eu gritei
por sobre as jângal
fica a direitura do caminho esquecido
mas eis a areia
ao longe é o mar
mas eis o ovo
uma crista ao redor
de sua vida
se calar ou simplesmente chorar
a criança dorme
a mãe se esquece
a coruja ulula
a lua está tranquila
o tempo passa
a lua desaparece
a flor d’água se quebra
a criança dorme
morre sua mãe
os jacarés partiam a água
com a cauda
a coruja ressona não espere a noite
pois não basta gritar estupro
assim saltou o astro inicial
pois o escorpião nunca foi um vicioso
mil formigas vão esfolar o búfalo
que degolou o cordeiro diante dos homens
café bananas algodão tapioca
morre morre quem quiser
não basta recriar o estupro
uma manhã
uma clara manhã
não mais totens e seus papagaios
uma manhã
uma clara manhã
não mais folhas em parte alguma
ao longe se foram
sete rios de ondas perdidas
a criança dorme
o atabaque sua
a lua está tranquila
o tempo passa
sobre suas montarias de silêncios
(tradução de Leo Gonçalves)
À travers temps et fleuve
Tchicaya U Tam´si
Un jour il faudra se prendre
marcher haut les vents
comme les feuilles des arbres
pour un fumier pour un feu
qu’importe
d’autres âges feront de nos âmes
des silex
gare aux pieds nus
nous serons sur tous les chemins
gare à la soif
gare à l’amour
gare au temps
nous avons vu le sable
nous avons vu l’écueil
qui l’ignore
nous avons les fleuves et les arbres
qui le dira
nous avons cru
nous avons cru
qui le niera
nous avons pris des carpes plein nos filets
il suffisait d’un coup de pouce
le monde était sauvé par le silence
mais voici
la mer saute l’écueil
mais voici
l’écueil culbute la mer
au loin s’en vont les sept fleuves
à savoir pour qui chantent les feuilles
il reste un fleuve
et la clé des songes dans ses flancs
mais quant à savoir pourquoi
chantent les feuilles
ah chagrin chagrin
hourra les tonneres
marcher les poings fermés
marcher d’abord
compter les étoiles
et sauter par-dessus les jungles
pour cela n’être ni hyène ni python
puis applaudir un fleuve
et les biches et les zèbres et les gazelles
puis bondir avec lui haut la lame
la fourmi dit
je vais dépecer le buffle
hé quitte le fleuve
viens-t’en femme grenouille
les libellules dansaient
voilées d’azur et de pollent
il reste le fleuve
et l’arc-en-ciel
en bordure un vieil homme
vieil homme lave ta plaie
mais dis à ma mère dis à mon père
me voici femme caïman
me voici amante-crocodile
ô mère amante-crocodile
ô père femme-caïman
vieil homme lave ta plaie
les poissons de l’eau ont vu ces larmes
ils ont craché pour sauver ces larmes-là
mais les mouettes ont fait la moue
pauvre noyée garde ton lit de fleuve
il nous reste ce fleuve
et l’arc-en-ciel
en saillie
des perroquets porteurs de totems
la brousse entre ses troncs
fait danser des fleuves visqueux
et j’ai crié
par-dessus les jungles
est la droiture du chemin oublié
mais voici le sable
au loin est la mer
mais voici l’œuf
une coquille entoure
sa vie
se taire ou simplement pleurer
l’enfant dort
la mère s’oublie
la chouette ulule
la lune est tranquille
le temps passe
la lune disparaît
la fleur d’eau se brise
l’enfant dort
se meurt sa mère
les caïmans cassaient l’eau
avec leur queues
le hibou somnole n’attendez la nuit
car il ne suffit pas de crier au viol
ainsi a sauté l’astre initial
car le scorpion ne fut jamais vicieux
un mille de fourmis va dépecer le buffle
qui a égorgé l’agneau devant les hommes
café bananes coton tapioca
meure meure qui voudra
il ne suffit pas de recréer le viol
un matin
un clair matin
plus de totems et leurs perroquets
un matin
un clair matin
plus de feuilles nulle parte
au loin s’en sont allés
sept fleuves à flots perdus
l’enfant dort
le tam-tam s’ébruite
la lune est tranquille
le temps passe
sur ses montures de silences
(1957)
a andar alto os ventos
como as folhas das árvores
para o estrume para o fogo
que importa
outras eras farão de nossas almas
silícios
porto para os pés desnudos
estaremos em todos os caminhos
porto para a sede
porto para o amor
porto para o tempo
nós vimos a areia
nós vimos a espuma
que a ignora
vimos os rios e as árvores
quem dirá
nós acreditamos
nós acreditamos
quem negará
pegamos carpas enchemos as redes
bastava um gesto com o polegar
o mundo estava salvo pelo silêncio
mas então
o mar salta a espuma
mas então
a espuma derruba o mar
ao longe se vão os sete rios
para saber a quem cantam as folhas
resta ainda um rio
e a chave dos sonhos nos seus flancos
mas quanto a saber por que
cantam as folhas
ah mágoa mágoa
hurra as trovoadas
caminhar com punhos fechados
caminhar
contar as estrelas
e saltar acima das jângals
para tanto não ser hiena nem jiboia
depois aplaudir um rio
e as corças e as zebras e as gazelas
depois saltar com ele alto a lâmina
a formiga diz
vou esfolar o búfalo
ah deixe o rio
venha cá mulher-rã
as libélulas dançavam
veladas de azul e de pólen
resta o rio
e o arco-íris
à beira um ancião
ancião lava tua chaga
mas diz a minha mãe diz a meu pai
eis-me mulher-jacaré
ó mãe amante-crocodilo
ó pai mulher-jacaré
ancião lava tua chaga
os peixes das águas avistaram essas lágrimas
cuspiram para salvar aquelas lágrimas
mas as gaivotas fecharam a cara
pobre afogada guarda teu leito de rio
resta-nos esse rio
e o arco-íris
em relevo
dos papagaios portadores de totens
a savana entre seus troncos
faz dançar fulvos viscosos
e eu gritei
por sobre as jângal
fica a direitura do caminho esquecido
mas eis a areia
ao longe é o mar
mas eis o ovo
uma crista ao redor
de sua vida
se calar ou simplesmente chorar
a criança dorme
a mãe se esquece
a coruja ulula
a lua está tranquila
o tempo passa
a lua desaparece
a flor d’água se quebra
a criança dorme
morre sua mãe
os jacarés partiam a água
com a cauda
a coruja ressona não espere a noite
pois não basta gritar estupro
assim saltou o astro inicial
pois o escorpião nunca foi um vicioso
mil formigas vão esfolar o búfalo
que degolou o cordeiro diante dos homens
café bananas algodão tapioca
morre morre quem quiser
não basta recriar o estupro
uma manhã
uma clara manhã
não mais totens e seus papagaios
uma manhã
uma clara manhã
não mais folhas em parte alguma
ao longe se foram
sete rios de ondas perdidas
a criança dorme
o atabaque sua
a lua está tranquila
o tempo passa
sobre suas montarias de silêncios
(tradução de Leo Gonçalves)
:
À travers temps et fleuve
Tchicaya U Tam´si
Un jour il faudra se prendre
marcher haut les vents
comme les feuilles des arbres
pour un fumier pour un feu
qu’importe
d’autres âges feront de nos âmes
des silex
gare aux pieds nus
nous serons sur tous les chemins
gare à la soif
gare à l’amour
gare au temps
nous avons vu le sable
nous avons vu l’écueil
qui l’ignore
nous avons les fleuves et les arbres
qui le dira
nous avons cru
nous avons cru
qui le niera
nous avons pris des carpes plein nos filets
il suffisait d’un coup de pouce
le monde était sauvé par le silence
mais voici
la mer saute l’écueil
mais voici
l’écueil culbute la mer
au loin s’en vont les sept fleuves
à savoir pour qui chantent les feuilles
il reste un fleuve
et la clé des songes dans ses flancs
mais quant à savoir pourquoi
chantent les feuilles
ah chagrin chagrin
hourra les tonneres
marcher les poings fermés
marcher d’abord
compter les étoiles
et sauter par-dessus les jungles
pour cela n’être ni hyène ni python
puis applaudir un fleuve
et les biches et les zèbres et les gazelles
puis bondir avec lui haut la lame
la fourmi dit
je vais dépecer le buffle
hé quitte le fleuve
viens-t’en femme grenouille
les libellules dansaient
voilées d’azur et de pollent
il reste le fleuve
et l’arc-en-ciel
en bordure un vieil homme
vieil homme lave ta plaie
mais dis à ma mère dis à mon père
me voici femme caïman
me voici amante-crocodile
ô mère amante-crocodile
ô père femme-caïman
vieil homme lave ta plaie
les poissons de l’eau ont vu ces larmes
ils ont craché pour sauver ces larmes-là
mais les mouettes ont fait la moue
pauvre noyée garde ton lit de fleuve
il nous reste ce fleuve
et l’arc-en-ciel
en saillie
des perroquets porteurs de totems
la brousse entre ses troncs
fait danser des fleuves visqueux
et j’ai crié
par-dessus les jungles
est la droiture du chemin oublié
mais voici le sable
au loin est la mer
mais voici l’œuf
une coquille entoure
sa vie
se taire ou simplement pleurer
l’enfant dort
la mère s’oublie
la chouette ulule
la lune est tranquille
le temps passe
la lune disparaît
la fleur d’eau se brise
l’enfant dort
se meurt sa mère
les caïmans cassaient l’eau
avec leur queues
le hibou somnole n’attendez la nuit
car il ne suffit pas de crier au viol
ainsi a sauté l’astre initial
car le scorpion ne fut jamais vicieux
un mille de fourmis va dépecer le buffle
qui a égorgé l’agneau devant les hommes
café bananes coton tapioca
meure meure qui voudra
il ne suffit pas de recréer le viol
un matin
un clair matin
plus de totems et leurs perroquets
un matin
un clair matin
plus de feuilles nulle parte
au loin s’en sont allés
sept fleuves à flots perdus
l’enfant dort
le tam-tam s’ébruite
la lune est tranquille
le temps passe
sur ses montures de silences
(1957)
937