Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Ruy Belo
Espaço para a canção
As noites desmedidas de novembro
abertas sobre a queixa rígida das árvores
inauguram o outono sobre a terra
Adeus ó meu verão impiedoso
ó limpidez da água sobre as pedras
ó inúmeros galos da manhã
ó tempestade agreste de alegria
É o país da música é a fome da noite
impossível estar só razoável rapaz
meu príncipe da própria juventude
Nos cabelos de vento do mar morto do destino
fundo antigo de água conchas e areias
no centro solitário deste solo
ante a solenidade sensual do sono
eu olho os paralelipípedos do nada
não me detenho nos umbrais das trevas
caminho numa mesma direcção
Onde o cheiro da esteva sobre a vila
o trigo para o campo do olhar
as estrelas abertas pelo céu?
Ponho os pés sobre as folhas no asfalto
espero por dezembro mês para morrer
evoco a luz discreta das doenças de outrora
Aqui os cisnes são da cor da cinza
e o vento devasta o país dos pauis
quando perto do chão a última cigarra
anuncia a definitiva solidão
Que é momentos puros de outra vida
da luminosa luz como ferro em fusão
do silêncio como a nossa melhor obra?
Eu te saúdo outono punitivo
sinal desse silêncio que me não permite
desistir de cantar enquanto vivo
Que o vento a névoa a folha e sobretudo o chão
caibam dentro do espaço da minha canção
abertas sobre a queixa rígida das árvores
inauguram o outono sobre a terra
Adeus ó meu verão impiedoso
ó limpidez da água sobre as pedras
ó inúmeros galos da manhã
ó tempestade agreste de alegria
É o país da música é a fome da noite
impossível estar só razoável rapaz
meu príncipe da própria juventude
Nos cabelos de vento do mar morto do destino
fundo antigo de água conchas e areias
no centro solitário deste solo
ante a solenidade sensual do sono
eu olho os paralelipípedos do nada
não me detenho nos umbrais das trevas
caminho numa mesma direcção
Onde o cheiro da esteva sobre a vila
o trigo para o campo do olhar
as estrelas abertas pelo céu?
Ponho os pés sobre as folhas no asfalto
espero por dezembro mês para morrer
evoco a luz discreta das doenças de outrora
Aqui os cisnes são da cor da cinza
e o vento devasta o país dos pauis
quando perto do chão a última cigarra
anuncia a definitiva solidão
Que é momentos puros de outra vida
da luminosa luz como ferro em fusão
do silêncio como a nossa melhor obra?
Eu te saúdo outono punitivo
sinal desse silêncio que me não permite
desistir de cantar enquanto vivo
Que o vento a névoa a folha e sobretudo o chão
caibam dentro do espaço da minha canção
4 454
Vasco Graça Moura
Junto ao retrato
era vermelha a rosa
que a minha mulher cortou para pôr junto ao retrato
de minha mãe, que fazia anos ontem.
era de um fulgor surdo e recatado,
a implodir tantas coisas já sem nome
para o interior macio das pétalas.
"pus uma rosa do jardim junto ao retrato
da tua mãe", disse ela então ao telefone,
"uma rosa vermelha muito bonita", acrescentou
com uma leve sombra na voz e era sombria
a rosa, mesmo ao telefone, por ser o dia
dos seus anos. e era sombrio recordá-la.
uma flor pode ser de uma obscura incandescência
junto de alguém. prende-se a delicados filamentos da memória
como a cabelos enredados. era sombria a rosa
sobre a cabeça branca, o olhar bondoso, as feições plácidas,
o que de minha mãe não se desfigorou
e a rosa iluminava devagar,
junto ao retrato.
que a minha mulher cortou para pôr junto ao retrato
de minha mãe, que fazia anos ontem.
era de um fulgor surdo e recatado,
a implodir tantas coisas já sem nome
para o interior macio das pétalas.
"pus uma rosa do jardim junto ao retrato
da tua mãe", disse ela então ao telefone,
"uma rosa vermelha muito bonita", acrescentou
com uma leve sombra na voz e era sombria
a rosa, mesmo ao telefone, por ser o dia
dos seus anos. e era sombrio recordá-la.
uma flor pode ser de uma obscura incandescência
junto de alguém. prende-se a delicados filamentos da memória
como a cabelos enredados. era sombria a rosa
sobre a cabeça branca, o olhar bondoso, as feições plácidas,
o que de minha mãe não se desfigorou
e a rosa iluminava devagar,
junto ao retrato.
2 275
Vasco Graça Moura
As aves migram em Setembro
as aves migram em setembro.
nem vou com elas, nem
guardo delas
a mínima memória.
escurece mais cedo,
o tempo não se rouba,
escoa-se como o frio
por uma camisola
até dentro da pele.
as aves migram
calmamente, eu
permaneço aqui
de guarda à água lisa que viu passar seus bandos
e em que hás-de debruçar-te.
nem vou com elas, nem
guardo delas
a mínima memória.
escurece mais cedo,
o tempo não se rouba,
escoa-se como o frio
por uma camisola
até dentro da pele.
as aves migram
calmamente, eu
permaneço aqui
de guarda à água lisa que viu passar seus bandos
e em que hás-de debruçar-te.
3 348
Juan Gelman
Ancorado em Paris
Do que tenho saudades é do velho leão do zoo,
tomávamos sempre café no Bois de Boulogne,
contava-me as suas aventuras na Rodésia do Sul
mas mentia, era evidente que nunca tinha ido além do Sahara
Seja como for, encantava-me a sua elegância,
a sua maneira de encolher os ombros diante das mesquinharias da vida,
olhava os franceses pela vidraça do café
e dizia "os idiotas fazem filhos".
Os dois ou três caçadores ingleses que tinha comido
provocavam nele remorsos e até melancolia
"as coisas que um tipo faz para viver" pensava
mirando as melenas no espelho do café.
Sim, tenho muitas saudades dele,
nunca pagava a conta,
mas indicava a gorjeta a ser deixada
e os garçons cumprimentavam-no com especial deferência.
Despedíamos-nos na orla do crepúsculo,
ele regresava a son bureau, como dizia,
não sem antes me advertir com uma pata no meu ombro
"tem cuidado, meu filho, com a Paris nocturna"
Tenho realmente muitas saudades dele,
os seus olhos enchiam-se às vezes de deserto
mas sabia calar-se como um irmão
quando emocionado, emocionado,
eu lhe falava de Carlitos Gardel.
tomávamos sempre café no Bois de Boulogne,
contava-me as suas aventuras na Rodésia do Sul
mas mentia, era evidente que nunca tinha ido além do Sahara
Seja como for, encantava-me a sua elegância,
a sua maneira de encolher os ombros diante das mesquinharias da vida,
olhava os franceses pela vidraça do café
e dizia "os idiotas fazem filhos".
Os dois ou três caçadores ingleses que tinha comido
provocavam nele remorsos e até melancolia
"as coisas que um tipo faz para viver" pensava
mirando as melenas no espelho do café.
Sim, tenho muitas saudades dele,
nunca pagava a conta,
mas indicava a gorjeta a ser deixada
e os garçons cumprimentavam-no com especial deferência.
Despedíamos-nos na orla do crepúsculo,
ele regresava a son bureau, como dizia,
não sem antes me advertir com uma pata no meu ombro
"tem cuidado, meu filho, com a Paris nocturna"
Tenho realmente muitas saudades dele,
os seus olhos enchiam-se às vezes de deserto
mas sabia calar-se como um irmão
quando emocionado, emocionado,
eu lhe falava de Carlitos Gardel.
1 681
Luís Filipe Castro Mendes
ANOITECER NO GANGES
Lembras-te da «pequenina luz bruxuleante» do verso de Sena?
Anoitece no Ganges, tudo nos é tão estranho aqui, e no entanto,
vinda de onde não sabemos, de uma casa, de uma ruína, de um templo,
vem uma pequena luz chamar-nos para dizer do nosso comum destino.
Vou contar: íamos para Belur,
onde ensinaram Ramakrishna e Vivekananda,
compenetrados, atentos aos pormenores do caminho fluvial
(os ghats, o povo que lava e queima os seus mortos no rio,
com troncos e tábuas, mas sem caixão) e íamos a meditar em coisas muito sérias
e muito hindus e multiculturais.
Mas de repente tudo o que nos rodeava perdeu o seu sentido,
porque anoitecia simplesmente e uma luz nos chamava dentre o lusco-fusco.
Uma pequenina luz bruxuleante. Just a little light…
Tudo se tornou ao mesmo tempo mais comum e mais simples na sua estranheza
São momentos em que entendemos que somos da mesma gente,
neste país de tão diversa gente…
Mas só porque uma luz se acendeu na margem do Ganges
entre Calcutá e Belur – uma pequena luz vitoriosa!
1 072
Juan Gelman
Uma mulher e um homem
Uma mulher e um homem levados pela vida,
uma mulher e um homem cara a cara
moram na noite, transbordam por suas mãos,
se ouvem subir livres na sombra,
suas cabeças descansam numa bela infância
que eles criaram juntos, em pleno dia de sol, de luz,
uma mulher e um homem arados por seus lábios
enchem a noite lenta com toda sua memória,
uma mulher e um homem mais belos no outro
ocupam seu lugar na terra
1 849
Luís Filipe Castro Mendes
Os Argonautas
Bichos da terra tão pequenos,
esgravatando à roda do mundo,
atarantados, sem rumo:
só e apenas isso,
agora e em todos os tempos.
1 422
Luís Filipe Castro Mendes
Bichos da terra tão pequenos
Bichos da terra tão pequenos,
esgravatando à roda do mundo,
atarantados, sem rumo: só e apenas isso,
agora e em todos os tempos.
esgravatando à roda do mundo,
atarantados, sem rumo: só e apenas isso,
agora e em todos os tempos.
1 064
Virgilio Pires
Reminiscência
Quem não se lembra dos bailes da bola preta?
ritmos brasileiros fox mazurcas
E a morna a sublimar paixões
Ao longe na Achada o roncar cadenciado
Dos tambores da Tabanca
No campo de futebol ali pertinho
O Vitória sucumbia perante um Trovadores
Em que o Chabali era o rei
O mundo em guerra
E na terra amaldiçoada
Sem canhões sem Hitler
O povo morria de olhos voltados para o céu
Num gesto clamor secular
Que o hábito tornou ritual
Chuva! Fome! Chuva! Fome!
Quem não se lembra dos bailes da bola preta?
A sala decorada com bolas pretas
Os ritmos brasileiros a transportar os pares
Para o "Rio de Janeiro cidade maravilhosa"
Mazurcas com passos rigorosamente medidos
E a morna morna no violino crioulo do Djédji
Há muitos anos
Os nazis perderam a guerra
A Tabanca desapareceu
Anatematizada como vergonhosa reminescência africana
O Chabali morreu
Surgiram outras guerras
Outros tiranos outros ídolos outros ritmos
E na terra amaldiçoada
O ano passado hoje e sempre
O povo continua com os olhos voltados para o céu
Num gesto ritual
Clamor súplice para outros homens e para Deus
Chuva! Chuva! Chuva!
ritmos brasileiros fox mazurcas
E a morna a sublimar paixões
Ao longe na Achada o roncar cadenciado
Dos tambores da Tabanca
No campo de futebol ali pertinho
O Vitória sucumbia perante um Trovadores
Em que o Chabali era o rei
O mundo em guerra
E na terra amaldiçoada
Sem canhões sem Hitler
O povo morria de olhos voltados para o céu
Num gesto clamor secular
Que o hábito tornou ritual
Chuva! Fome! Chuva! Fome!
Quem não se lembra dos bailes da bola preta?
A sala decorada com bolas pretas
Os ritmos brasileiros a transportar os pares
Para o "Rio de Janeiro cidade maravilhosa"
Mazurcas com passos rigorosamente medidos
E a morna morna no violino crioulo do Djédji
Há muitos anos
Os nazis perderam a guerra
A Tabanca desapareceu
Anatematizada como vergonhosa reminescência africana
O Chabali morreu
Surgiram outras guerras
Outros tiranos outros ídolos outros ritmos
E na terra amaldiçoada
O ano passado hoje e sempre
O povo continua com os olhos voltados para o céu
Num gesto ritual
Clamor súplice para outros homens e para Deus
Chuva! Chuva! Chuva!
1 010
Herberto Helder
As Musas Cegas - Ii
Apagaram-se as luzes. É a primavera cercada
pelas vozes.
E enquanto dorme o leite, a minha casa
pousa no silêncio e arde pouco a pouco.
No círculo de pétalas veementes cai a cabeça —
e as palavras nascem.
— Límpidas, amargas.
Eis um tempo que começa: este é o tempo.
E se alguém morre num lugar de searas imperfeitas,
é o pensamento que verga de flores actuais e frias.
A confusão espalha sobre a carne o recôndito peso do ouro.
E estrelas algures aniquilam-se para um campo sublevado
de seivas, para a noite que estremece
fundamente.
Melancolia com sua forma severa e arguta,
com maçãs dobradas à sombra do rubor.
Aqui está a primavera entre luas excepcionais e pedras soando
com a primeira música de água.
Apagaram-se as luzes. E eu sorrio, leve e destruído,
com esta coroa recente de ideias, esta mão
que na treva procura o vinho dos mortos, a mesa
onde o coração se consome devagar.
Algumas noites amei enquanto rodavam ribeiras
antigas, degrau a degrau subi o corpo daquela que se enchera
de minúsculas folhas eternas como uma árvore.
Degrau a degrau devorei a alegria —
eu, de garganta aberta como quem vai morrer entre águas
desvairadas, entre jarros transbordando
húmidos astros.
Algumas vezes amei lentamente porque havia de morrer
com os olhos queimados pelo poder da lua.
Por isso é de noite, é primavera de noite, e ao longe
procuro no meu silêncio uma outra forma
dos séculos. Esta é a alegria coberta de pólen, é
a casa ligeira colocada num espaço
de profundo fogo.
E apagaram-se as luzes.
— Onde aguardas por mim, espécie de ar transparente
para levantar as mãos? onde te pões sobre a minha palavra,
espécie de boca recolhida no começo?
E é tão certo o dia que se elabora.
Então eu beijo, degrau a degrau, a escadaria daquele corpo.
E não chames mais por mim,
pensamento agachado nas ogivas da noite.
E primavera. Arde além rodeada pelo sal,
por inúmeras laranjas.
Hoje descubro as grandes razões da loucura,
os dias que nunca se cortarão como hastes sazonadas.
Há lugares onde esperar a primavera
como tendo na alma o corpo todo nu.
Apagaram-se as luzes: é o tempo sôfrego
que principia. — É preciso cantar como se alguém
soubesse como cantar.
pelas vozes.
E enquanto dorme o leite, a minha casa
pousa no silêncio e arde pouco a pouco.
No círculo de pétalas veementes cai a cabeça —
e as palavras nascem.
— Límpidas, amargas.
Eis um tempo que começa: este é o tempo.
E se alguém morre num lugar de searas imperfeitas,
é o pensamento que verga de flores actuais e frias.
A confusão espalha sobre a carne o recôndito peso do ouro.
E estrelas algures aniquilam-se para um campo sublevado
de seivas, para a noite que estremece
fundamente.
Melancolia com sua forma severa e arguta,
com maçãs dobradas à sombra do rubor.
Aqui está a primavera entre luas excepcionais e pedras soando
com a primeira música de água.
Apagaram-se as luzes. E eu sorrio, leve e destruído,
com esta coroa recente de ideias, esta mão
que na treva procura o vinho dos mortos, a mesa
onde o coração se consome devagar.
Algumas noites amei enquanto rodavam ribeiras
antigas, degrau a degrau subi o corpo daquela que se enchera
de minúsculas folhas eternas como uma árvore.
Degrau a degrau devorei a alegria —
eu, de garganta aberta como quem vai morrer entre águas
desvairadas, entre jarros transbordando
húmidos astros.
Algumas vezes amei lentamente porque havia de morrer
com os olhos queimados pelo poder da lua.
Por isso é de noite, é primavera de noite, e ao longe
procuro no meu silêncio uma outra forma
dos séculos. Esta é a alegria coberta de pólen, é
a casa ligeira colocada num espaço
de profundo fogo.
E apagaram-se as luzes.
— Onde aguardas por mim, espécie de ar transparente
para levantar as mãos? onde te pões sobre a minha palavra,
espécie de boca recolhida no começo?
E é tão certo o dia que se elabora.
Então eu beijo, degrau a degrau, a escadaria daquele corpo.
E não chames mais por mim,
pensamento agachado nas ogivas da noite.
E primavera. Arde além rodeada pelo sal,
por inúmeras laranjas.
Hoje descubro as grandes razões da loucura,
os dias que nunca se cortarão como hastes sazonadas.
Há lugares onde esperar a primavera
como tendo na alma o corpo todo nu.
Apagaram-se as luzes: é o tempo sôfrego
que principia. — É preciso cantar como se alguém
soubesse como cantar.
5 437
Mário Dionísio
Bom dia marinheiro
Bom dia marinheiro
há milénios sentado
nesse navio pirata
Traço-te o vulto a roxo
um claro azul nos olhos de água
ponho e a toda a volta um frémito vermelho
O teu cachimbo é agora uma sereia de prata
toda roída dum lado
por um cancro de estrelas que é só mágoa
e sobressalto frouxo
de cascos podres balouçando balouçante
ao som da lenda sem sabor dum cavaleiro
andante ridículo e ausente
no céu de chumbo onde passa lentamente um bombardeiro
com a morte no bojo
Águas fundas de amor e desencontro do que tanto se crê que não se crê
nestes fundos de lodo feitos sarça
não ardente mas fria de desespero e nojo
mesquinhamente tudo se disfarça
e desvirtua e se destrói e dói e ameaça
Que horror dizer bom dia ou até já
dizer adeus
ao que mais ninguém vê
há milénios sentado
nesse navio pirata
Traço-te o vulto a roxo
um claro azul nos olhos de água
ponho e a toda a volta um frémito vermelho
O teu cachimbo é agora uma sereia de prata
toda roída dum lado
por um cancro de estrelas que é só mágoa
e sobressalto frouxo
de cascos podres balouçando balouçante
ao som da lenda sem sabor dum cavaleiro
andante ridículo e ausente
no céu de chumbo onde passa lentamente um bombardeiro
com a morte no bojo
Águas fundas de amor e desencontro do que tanto se crê que não se crê
nestes fundos de lodo feitos sarça
não ardente mas fria de desespero e nojo
mesquinhamente tudo se disfarça
e desvirtua e se destrói e dói e ameaça
Que horror dizer bom dia ou até já
dizer adeus
ao que mais ninguém vê
2 026
Jorge Viegas
Nirvana
Ser como uma árvore na paisagem,
Existir, existir sem sofrimento.
Buscar na placidez o alimento,
Tornar menos pesada a minha imagem.
Estar, mas num estar que é viagem.
Iluminar o sol, esporear o vento,
deixar adormecer o pensamento,
Não haver marcas da minha passagem.
Esboroar-me na terra humilde e fria
Sem o suor negro da melancolia
A orlar-me a testa, a inundar-me os nervos.
Poeta que não sou, vida que não tive
Permiti que o sono que em mim vive
Se torne o mais humilde dos meus servos.
Existir, existir sem sofrimento.
Buscar na placidez o alimento,
Tornar menos pesada a minha imagem.
Estar, mas num estar que é viagem.
Iluminar o sol, esporear o vento,
deixar adormecer o pensamento,
Não haver marcas da minha passagem.
Esboroar-me na terra humilde e fria
Sem o suor negro da melancolia
A orlar-me a testa, a inundar-me os nervos.
Poeta que não sou, vida que não tive
Permiti que o sono que em mim vive
Se torne o mais humilde dos meus servos.
1 329
Jorge Viegas
Nirvana
Ser como uma árvore na paisagem,
Existir, existir sem sofrimento.
Buscar na placidez o alimento,
Tornar menos pesada a minha imagem.
Estar, mas num estar que é viagem.
Iluminar o sol, esporear o vento,
deixar adormecer o pensamento,
Não haver marcas da minha passagem.
Esboroar-me na terra humilde e fria
Sem o suor negro da melancolia
A orlar-me a testa, a inundar-me os nervos.
Poeta que não sou, vida que não tive
Permiti que o sono que em mim vive
Se torne o mais humilde dos meus servos.
Existir, existir sem sofrimento.
Buscar na placidez o alimento,
Tornar menos pesada a minha imagem.
Estar, mas num estar que é viagem.
Iluminar o sol, esporear o vento,
deixar adormecer o pensamento,
Não haver marcas da minha passagem.
Esboroar-me na terra humilde e fria
Sem o suor negro da melancolia
A orlar-me a testa, a inundar-me os nervos.
Poeta que não sou, vida que não tive
Permiti que o sono que em mim vive
Se torne o mais humilde dos meus servos.
1 329
Mário Dionísio
Casa deserta
Ah nada pior que a casa deserta,
sozinha, sozinha.
O fogão apagado e tudo sem interesse.
O mundo lá longe, para lá da floresta.
E o vento soprando
a chuva caindo
a casa deserta...
Ah nada pior que estes dias e dias,
de cachimbo aceso, com as mãos inertes,
com todas as estradas inteiramente barradas,
ouvindo a floresta.
Com tudo lá longe, na casa deserta,
o vento soprando
e a chuva caindo, na noite caindo...
Há uma cancela que range nos gonzos
um velho cão de guarda que ladra sem motivo-
parece que é gente que vem a entrar...
E é só vento soprando, soprando
e a chuva caindo...
Mudaram muita vez as folhas da floresta.
Os olhos do homem são olhos de doido.
Fogão apagado, aceso o cachimbo, o mundo lá longe.
E o vento soprando
a chuva caindo
a casa deserta...
sozinha, sozinha.
O fogão apagado e tudo sem interesse.
O mundo lá longe, para lá da floresta.
E o vento soprando
a chuva caindo
a casa deserta...
Ah nada pior que estes dias e dias,
de cachimbo aceso, com as mãos inertes,
com todas as estradas inteiramente barradas,
ouvindo a floresta.
Com tudo lá longe, na casa deserta,
o vento soprando
e a chuva caindo, na noite caindo...
Há uma cancela que range nos gonzos
um velho cão de guarda que ladra sem motivo-
parece que é gente que vem a entrar...
E é só vento soprando, soprando
e a chuva caindo...
Mudaram muita vez as folhas da floresta.
Os olhos do homem são olhos de doido.
Fogão apagado, aceso o cachimbo, o mundo lá longe.
E o vento soprando
a chuva caindo
a casa deserta...
2 227
António Tomé
Nunca é tarde
Quando no cais só fica ancorada
A indiferença e já não resta nada
Senão as ilusões a que te agarras.
Ouve a voz inefável das guitarras
Tingindo de paixão a madrugada
No fim duma viagem povoada
Do canto indecifrável das cigarras.
Saberás então que há sempre um começo
No profano rio em que a vida arde,
E é nessa maré viva que estremeço.
Mas, ainda que saibas que nunca é tarde,
Não tardes, que sem ti eu anoiteço,
E não peças jamais ao rio que aguarde.
A indiferença e já não resta nada
Senão as ilusões a que te agarras.
Ouve a voz inefável das guitarras
Tingindo de paixão a madrugada
No fim duma viagem povoada
Do canto indecifrável das cigarras.
Saberás então que há sempre um começo
No profano rio em que a vida arde,
E é nessa maré viva que estremeço.
Mas, ainda que saibas que nunca é tarde,
Não tardes, que sem ti eu anoiteço,
E não peças jamais ao rio que aguarde.
1 229
José Augusto de Carvalho
A recusa!
Recuso ser, na noite, a sombra que desenha
a angústia indefinida e fria deste cais.
O que tiver de vir, se mais houver, que venha,
Mostrengo, Adamastor e Fim do Nunca Mais!
O leme se quebrou. Ao vento, as rotas velas
ensaiam os sinais das barcas à deriva.
Que velhas perdições?! Na consciência delas,
assombram predições doendo em carne viva.
Que venham os pinhais gritar o desafio
do tempo por haver que acena o amanhecer
além deste torpor indefinido e frio!
Que venha a tentação sortílega tecer,
com arte com engenho, o já lendário fio
da espera que germina um novo acontecer!...
20 de Abril de 2010
Viana do Alentejo
912
Mário Dionísio
Pregão
Dum gesto alcançámos a terra.
Os montes, os mares, as estrelas, as nuvens, as almas, os deuses e as
sombras.
- o cortejo multissecular das sombras.
Antes
os braços eram curtos e terminavam por duas mãos pequenas.
Hoje
não há padrão que os meça,
prolongados nos montes e na viva complicação das máquinas,
nas chaminés voltadas para o céu.
Antes
as bocas eram breves para o beijo da casa.
Hoje
dilataram-se infinitamente no sorriso sublime e sem limites da
universalidade.
Todos os músculos estalaram.
Todos os olhos gritaram.
Todas as bocas gritaram.
Todos os pulmões se abriram ao olfacto sadio da terra húmida.
Terra.
Terra da partida e do regresso.
Terra!
Serão baixos todos os andaimes de biliões de andares,
fracas todas as asas,
para a nossa paixão da estratosfera:
para o caminho da terra que nos fará eternos.
Fraca nomenclatura de todos os tratados
para o nosso mundo de amor.
Os chicotes quebraram-se, vencidos,
vergados sobre a terra como nós até hoje.
Uma vida nova começa neste instante.
E agora, que dum gesto alcançámos a terra, nós seremos enfim o nosso próprio poema.
Os montes, os mares, as estrelas, as nuvens, as almas, os deuses e as
sombras.
- o cortejo multissecular das sombras.
Antes
os braços eram curtos e terminavam por duas mãos pequenas.
Hoje
não há padrão que os meça,
prolongados nos montes e na viva complicação das máquinas,
nas chaminés voltadas para o céu.
Antes
as bocas eram breves para o beijo da casa.
Hoje
dilataram-se infinitamente no sorriso sublime e sem limites da
universalidade.
Todos os músculos estalaram.
Todos os olhos gritaram.
Todas as bocas gritaram.
Todos os pulmões se abriram ao olfacto sadio da terra húmida.
Terra.
Terra da partida e do regresso.
Terra!
Serão baixos todos os andaimes de biliões de andares,
fracas todas as asas,
para a nossa paixão da estratosfera:
para o caminho da terra que nos fará eternos.
Fraca nomenclatura de todos os tratados
para o nosso mundo de amor.
Os chicotes quebraram-se, vencidos,
vergados sobre a terra como nós até hoje.
Uma vida nova começa neste instante.
E agora, que dum gesto alcançámos a terra, nós seremos enfim o nosso próprio poema.
1 565
Teobaldo Virgínio
Rota longa
Irei na rota branca
da rosa de espuma
na hora madrugada
promissora da brisa.
Rota longa rota longa
Irei com a pétala ressequida
da tórrida paisagem
para além das distâncias secas.
Rota longa rota longa
Rota longa de espuma
vou irei espalhar minhas pétalas ressequidas
na hora madrugada
das correntes desatadas.
Rota longa rota longa
Vou irei sem detença
para além das distâncias secas
em busca do abraço ancorado
na outra margem da curva líquida.
Rota longa rota longa
Vou irei na hora alta desta vigília
e a manhã clara acontecerá.
Rota longa rota longa
Vou irei contra todas as cadeias protestantes do meu rumo
em cada protesto que embarco
na ondulação que se desatraca.
da rosa de espuma
na hora madrugada
promissora da brisa.
Rota longa rota longa
Irei com a pétala ressequida
da tórrida paisagem
para além das distâncias secas.
Rota longa rota longa
Rota longa de espuma
vou irei espalhar minhas pétalas ressequidas
na hora madrugada
das correntes desatadas.
Rota longa rota longa
Vou irei sem detença
para além das distâncias secas
em busca do abraço ancorado
na outra margem da curva líquida.
Rota longa rota longa
Vou irei na hora alta desta vigília
e a manhã clara acontecerá.
Rota longa rota longa
Vou irei contra todas as cadeias protestantes do meu rumo
em cada protesto que embarco
na ondulação que se desatraca.
1 161
Mário Dionísio
No cais
Ó quarteirões de casas escuras
sem cortinados nas janelas
O dia é como a noite a noite é como o dia
e o Tejo aqui ao lado traz nas águas
pedaços de óleo e restos da cidade
Ó quarteirões de casas escuras
por trás de montes de carvão
que sabeis vós das nuvens dos poetas?
As vossas nuvens são de fumo
do fumo negro dos navios de carga
e de outros fumos negros da cidade
Ruas sem nome Iguais iguais
como estas mãos e essas mãos
como estes pés e esses pés
que a vida deformou
Ó quarteirões de casas escuras
o que enche aqui o ar é este grito repetido
dos guindastes no cais
e a matraca repetida dos comboios
de mercadorias
Ó quarteirões de casas escuras
os barracões engolem homens
os barracões vomitam homens
Rio
foste tu que inspiraste as ninfas ao Poeta?
Rio
és tu que inspiras os poetas?
Ó quarteirões de casas escuras
é impossível que não haja
nenhum sonho escondido e adormecido lá no fundo
destas vidraças partidas Que não haja
nenhum riso abafado nos barris de alcatrão
E nenhum canto aqui nestas águas do rio
nestas águas soturnas soturnas tão soturnas do rio
Velho sentado à porta da taberna
há tantos anos sentado com a perna de pau
à porta da taberna
com teu cachimbo e tua voz tão serena contando
histórias antigas e lendárias
à porta da taberna
Dá teu lugar a outro A qualquer outro
que quebre o fado do velho gramofone da taberna
e conte histórias um pouco mais felizes e mais claras
em vez do vinho na taberna
sem cortinados nas janelas
O dia é como a noite a noite é como o dia
e o Tejo aqui ao lado traz nas águas
pedaços de óleo e restos da cidade
Ó quarteirões de casas escuras
por trás de montes de carvão
que sabeis vós das nuvens dos poetas?
As vossas nuvens são de fumo
do fumo negro dos navios de carga
e de outros fumos negros da cidade
Ruas sem nome Iguais iguais
como estas mãos e essas mãos
como estes pés e esses pés
que a vida deformou
Ó quarteirões de casas escuras
o que enche aqui o ar é este grito repetido
dos guindastes no cais
e a matraca repetida dos comboios
de mercadorias
Ó quarteirões de casas escuras
os barracões engolem homens
os barracões vomitam homens
Rio
foste tu que inspiraste as ninfas ao Poeta?
Rio
és tu que inspiras os poetas?
Ó quarteirões de casas escuras
é impossível que não haja
nenhum sonho escondido e adormecido lá no fundo
destas vidraças partidas Que não haja
nenhum riso abafado nos barris de alcatrão
E nenhum canto aqui nestas águas do rio
nestas águas soturnas soturnas tão soturnas do rio
Velho sentado à porta da taberna
há tantos anos sentado com a perna de pau
à porta da taberna
com teu cachimbo e tua voz tão serena contando
histórias antigas e lendárias
à porta da taberna
Dá teu lugar a outro A qualquer outro
que quebre o fado do velho gramofone da taberna
e conte histórias um pouco mais felizes e mais claras
em vez do vinho na taberna
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Fernando Couto
Na agreste paisagem
Na agreste paisagem de dunas
expira a vastidão da savana.
No areal se sepulta o choro do mar
em seu clamor e seu soluço
e a fúria do vento largo
veste de saliva os arbustos sobreviventes.
Mangal de raizes nuas
doí-me o desespero dos teus dedos
ainda longos e cravados à terra.
Na orla do tempo, as aves marinhas
contemplam os despojos com olhos tranquilos
e nos conturbamo-nos à vista
dos despojos e do jeito dos pássaros.
Aqui, só nos vemos
a delgada fímbria do encontro
da morte e da vida
e conturbamo-nos.
E, amando-nos,
avivamos o traço esguio e sinuoso
dessa fímbria de encontro de morte e da vida
expira a vastidão da savana.
No areal se sepulta o choro do mar
em seu clamor e seu soluço
e a fúria do vento largo
veste de saliva os arbustos sobreviventes.
Mangal de raizes nuas
doí-me o desespero dos teus dedos
ainda longos e cravados à terra.
Na orla do tempo, as aves marinhas
contemplam os despojos com olhos tranquilos
e nos conturbamo-nos à vista
dos despojos e do jeito dos pássaros.
Aqui, só nos vemos
a delgada fímbria do encontro
da morte e da vida
e conturbamo-nos.
E, amando-nos,
avivamos o traço esguio e sinuoso
dessa fímbria de encontro de morte e da vida
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Fernando Couto
Na agreste paisagem
Na agreste paisagem de dunas
expira a vastidão da savana.
No areal se sepulta o choro do mar
em seu clamor e seu soluço
e a fúria do vento largo
veste de saliva os arbustos sobreviventes.
Mangal de raizes nuas
doí-me o desespero dos teus dedos
ainda longos e cravados à terra.
Na orla do tempo, as aves marinhas
contemplam os despojos com olhos tranquilos
e nos conturbamo-nos à vista
dos despojos e do jeito dos pássaros.
Aqui, só nos vemos
a delgada fímbria do encontro
da morte e da vida
e conturbamo-nos.
E, amando-nos,
avivamos o traço esguio e sinuoso
dessa fímbria de encontro de morte e da vida
expira a vastidão da savana.
No areal se sepulta o choro do mar
em seu clamor e seu soluço
e a fúria do vento largo
veste de saliva os arbustos sobreviventes.
Mangal de raizes nuas
doí-me o desespero dos teus dedos
ainda longos e cravados à terra.
Na orla do tempo, as aves marinhas
contemplam os despojos com olhos tranquilos
e nos conturbamo-nos à vista
dos despojos e do jeito dos pássaros.
Aqui, só nos vemos
a delgada fímbria do encontro
da morte e da vida
e conturbamo-nos.
E, amando-nos,
avivamos o traço esguio e sinuoso
dessa fímbria de encontro de morte e da vida
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Francisco José Tenreiro
Ciclo do álcool
1
Quando seu Silva Costa
Chegou na ilha
Trouxe uma garrafa de aguardente
Para o primeiro comércio.
A terra era tão vasta
Havia tanto calor
Que a água
Parecia não ter potência
Para acalmar a sede da sua garganta.
Seu Silva Costa
Bebeu metade...
E sua garganta ganhou palavra
Para o primeiro comércio.
2
A lua batendo nos palmares
Tem carícias de sonho
Nos olhos de Sam Márinha.
Silêncio!
O mar batendo nas rochas
È o eco da ilha.
Silêncio!
Lá no longe
Soluçam as cubatas
Batidas dum luar sem sonho.
Silêncio!
No canto da rua
Os brancos estão fazendo negócio
A golpes de champagne!
3
Mãe Negra contou:
"eu disse:
filhinho
beba isso coisa não...
Filhinho riu tanto tanto!..."
Nhá Rita calou-se.
Só os olhos e as rugas
Estremeceram um sorriso longínquo.
- E depois Mãe-Negra?
"Oh!
Filhinho
Entrou no vinhateiro
Vinhateiro entrou nele..."
Os olhos de nhá Rita
Estão avermelhando de tristeza.
"Hum!
Filhinho
Ficou esquecendo sua mãe!.
Quando seu Silva Costa
Chegou na ilha
Trouxe uma garrafa de aguardente
Para o primeiro comércio.
A terra era tão vasta
Havia tanto calor
Que a água
Parecia não ter potência
Para acalmar a sede da sua garganta.
Seu Silva Costa
Bebeu metade...
E sua garganta ganhou palavra
Para o primeiro comércio.
2
A lua batendo nos palmares
Tem carícias de sonho
Nos olhos de Sam Márinha.
Silêncio!
O mar batendo nas rochas
È o eco da ilha.
Silêncio!
Lá no longe
Soluçam as cubatas
Batidas dum luar sem sonho.
Silêncio!
No canto da rua
Os brancos estão fazendo negócio
A golpes de champagne!
3
Mãe Negra contou:
"eu disse:
filhinho
beba isso coisa não...
Filhinho riu tanto tanto!..."
Nhá Rita calou-se.
Só os olhos e as rugas
Estremeceram um sorriso longínquo.
- E depois Mãe-Negra?
"Oh!
Filhinho
Entrou no vinhateiro
Vinhateiro entrou nele..."
Os olhos de nhá Rita
Estão avermelhando de tristeza.
"Hum!
Filhinho
Ficou esquecendo sua mãe!.
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David Mestre
África
É neste silêncio neste assalto do vento a
navegar a floresta neste sol neste amor
neste vegetal cobrir-me de verde e ser
catana cerce a executar o ânimo
afagar as mulheres no regresso da lavra
fazer das mãos a festa sonora do sexo
na cultivação do milho
É neste grito rente ao corpo frágil das
folhas que mais em ti me venço e
moro nas grandes batalhas da vida
no extenso vale das nossas angústias
no duelo cíclico das nossas intenções
navegar a floresta neste sol neste amor
neste vegetal cobrir-me de verde e ser
catana cerce a executar o ânimo
afagar as mulheres no regresso da lavra
fazer das mãos a festa sonora do sexo
na cultivação do milho
É neste grito rente ao corpo frágil das
folhas que mais em ti me venço e
moro nas grandes batalhas da vida
no extenso vale das nossas angústias
no duelo cíclico das nossas intenções
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Cândido da Velha
As idades da pedra - II
As pálidas luas das tuas ma~os negras,
os olhos da paisagem insular,
teu corpo conspirando com a noite,
(beijo africano de hu'midas presso~es),
toda a claridade da hora aprofundada
no ventre generoso e farto.
A viagem regressiva aos ancestrais:
O reencontro para la' da linha quebrada,
oculta no tempo; justificac,a~o
de sermos outra vez humanos, simples,
tudo nas pa'lidas palmas das ma~os
quando, materna, apresentaste o peito
à concha do ouvido para que ouvisse
o rumor da noite longinqua
e permitiste ao sono que viesse, ama'vel,
na grande verdade a nosso respeito.
e em toda aquela aurora sem mentira
arborizando o corpo quebrantado
ansia'vamos o dia para celebrarmos
o cacimbo matinal em nosso olhar
no fresco odor da casa de madeira.
os olhos da paisagem insular,
teu corpo conspirando com a noite,
(beijo africano de hu'midas presso~es),
toda a claridade da hora aprofundada
no ventre generoso e farto.
A viagem regressiva aos ancestrais:
O reencontro para la' da linha quebrada,
oculta no tempo; justificac,a~o
de sermos outra vez humanos, simples,
tudo nas pa'lidas palmas das ma~os
quando, materna, apresentaste o peito
à concha do ouvido para que ouvisse
o rumor da noite longinqua
e permitiste ao sono que viesse, ama'vel,
na grande verdade a nosso respeito.
e em toda aquela aurora sem mentira
arborizando o corpo quebrantado
ansia'vamos o dia para celebrarmos
o cacimbo matinal em nosso olhar
no fresco odor da casa de madeira.
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