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Poemas neste tema

Natureza e Elementos

Pedro Oom

Pedro Oom

O coelhinho que nasceu numa couve

Era uma vez um coelhinho que nasceu numa couve. Como os pais do coelhinho nunca mais aparecessem, a couve passou a cuidar dele como se do seu próprio filho se tratasse.
Com ervinhas tenras que cresciam ao seu redor a couve foi criando o coelhinho dentro do seu seio até que ele passou a procurar a sua própria alimentação.
O coelhinho, que tinha um coração muito bondoso, retribuindo o afecto que a couve lhe dedicava considerava-a como sua verdadeira mãe.
A mãe couve e o seu filhinho adoptivo foram vivendo muito felizes até que um dia uma praga de gafanhotos se abateu sobre aquelas terras.
O coelhinho ao ver que aqueles insectos vorazes devoravam tudo o que era verde cobriu com o seu próprio corpo o corpo da mãe couve e assim conseguiu que os gafanhotos pouco dano lhe fizessem.
Quando aqueles insectos daninhos levantaram voo os campos em volta passaram a ser um imenso deserto de areias e pedra.
O pobre coelhinho, que sempre tinha vivido nas proximidades da sua mãe couve, teve de se deslocar para muitos quilómetros de distância a fim de procurar comida.
Mas já nada havia que se pudesse mastigar sobre aquelas terras.
Passaram muitos dias e o pobre coelhinho estava cada vez mais magro e faminto.
Então a mãe couve disse-lhe assim:
– Ouve meu filho: é a lei da vida que os velhos têm de dar o lugar aos novos, por isso só vejo uma solução; assim como tu viveste durante algum tempo no meu seio, passarei a ser eu agora a viver dentro do teu. Compreendes, meu filho, o que eu quero dizer?
O pobre coelhinho compreendeu e, embora com grande tristeza na alma, não teve outro remédio, comeu a mãe.
Pedro Oom
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Sylvia Beirute é uma poeta portuguesa, nascida em 1984 no Porto, e residente no Algarve, sul de Portugal. Escreve regularmente para o seu espaço Uma Casa em Beirute.
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1 368
Wisława Szymborska

Wisława Szymborska

Gente na ponte

Estranho planeta e nele estranha gente.
Cedem ao tempo e não o querem reconhecer.
Têm maneiras de mostrar como se opõem.
Fazem desenhos como o que se segue:

Nada de especial à primeira vista.
Vê-se a água.
Vê-se uma de suas margens.
Uma canoa que com dificuldade avança na corrente.
Sobre a água uma ponte e gente nessa ponte.
Gente que nitidamente acelera o passo
porque de uma nuvem negra
a chuva desatou forte a fustigar.

O que há nisto de especial é que isto é tudo.
A nuvem não muda de forma nem de cor.
A chuva não cai mais forte nem se interrompe.
A canoa navega imobilizada.
Essa gente na ponte vai correndo
no exacto lugar de há um bocado.

É difícil deixar de comentar:
Não é de modo algum um desenho inocente.
Aqui o tempo foi suspenso.
Deixaram de contar com os seus direitos.
Privaram-no de influência sobre os acontecimentos.
Menosprezam-no e insultaram-no.

Por conta de um rebelde,
um tal de Hiroshige Utagawy
(ser este que de resto
já há muito e como devia ser se foi)
o tempo tropeçou e caiu.

Talvez se trate só de uma partida insignificante,
um cisco apenas à escala das galáxias,
pelo sim, contudo, e pelo não
acrescentemos o que segue:

Revela-se aqui ser de bom-tom
apreciar devidamente este desenho,
fascinar-se a gente com ele e comover-se há gerações.

Há aqueles para os quais nem isto basta.
Chegam até a ouvir a chuva murmurar,
sentem-lhe o frio nas costas e pescoços,
olham a gente e a ponte
como se também se vissem nela,
no mesmo correr para o que nunca é mais que isso,
uma estrada sem fim, a vencer pelos séculos,
e crêem na sua desfaçatez
que é isso na realidade o que acontece.



Traduções de Júlio Sousa Gomes, publicadas no livro Paisagem com Grão de Areia, Lisboa: Relógio d’água, 1996.
1 969
Birago Diop

Birago Diop

Viático

Em um dos três canários
dos três canários nos quais certas noites ressurgem
as almas serenas,
o sopro dos ancestrais,
dos ancestrais que foram homens,
dos ancestrais que foram sábios,
Mãe encharcou três dedos,
três dedos de sua mão esquerda:
o polegar, o indicador e o maior.
Eu encharquei três dedos,
três dedos de minha mão direita:
o polegar, o indicador e o maior.

Com seus três dedos vermelhos de sangue,
de sangue de cachorro
de sangue de touro
de sangue de bode,
Mãe me tocou três vezes.
Tocou minha testa com o polegar,
com o indicador o meu peito esquerdo
e meu umbigo com seu dedo maior.
Eu estendi meus dedos rubros de sangue,
de sangue de cachorro,
de sangue de touro
de sangue de bode.
Eu estendi meus três dedos aos ventos,
ao vento do Norte, ao vento do Nascente,
ao vento do Sul, ao vento do Poente;
e ergui meus três dedos na direção da Lua,
da Lua cheia, a Lua cheia e nua
quando ela foi ao fundo do canário maior.

Afundei meus três dedos na areia,
Na areia que se arrefecera.
Então Mãe disse: “Vai pelo Mundo, vai,
Ao longo da Vida Eles estarão em seus passos”.

Desde então eu vou,
eu vou pelas sendas,
pelas sendas e pelas estradas,
para além do mar e mais além, mais longe ainda,
para além do mar e mais além, mais longe ainda,
para além do mar e para além do além.
E quando chego perto da gente ruim,
os Homens de coração negro,
quando me aproximo dos invejosos,
os Homens de coração negro,
à minha frente avançam os Sopros dos meus Ancestrais.


:


Viatique

Dans un des trois canaris
des trois canaris où reviennent certains soirs
les âmes satisfaites et sereines,
les souffles des ancêtres,
des ancêtres qui furent des hommes
des aïeux qui furent des sages,
Mère a trempé trois doigts,
trois doigts de sa main gauche:
le pouce, l'index et le majeur;
Moi j'ai trempé trois doigts:
trois doigts de la main droite:
le pouce, l'index et le majeur.
Avec ses trois doigts rouge de sang,
de sang de chien,
de sang de taureau,
de sang de bouc,
Mère m'a touché mon front avec son pouce,
Avec l'index mon sein gauche
Et mon nombril avec son majeur.
Moi j'ai tendu mes doigts rouges de sang,
de sang de chien,
de sang de taureau,
de sang de bouc.
J'ai tendu mes trois doigts aux vents
aux vents du Nord, aux vents du Levant
aux vents du Sud, aux vents du Couchant;
Et j'ai levé mes trois doigts vers la Lune,
vers la Lune pleine, la Lune pleine et nue
Quand elle fut au fond du plus grand canari.

Après j'ai enfoncé mes trois doigts dans le sable
dans le sable qui s'était refroidi.
Alors Mère a dit: "Va par le Monde, Va!
Dans la vie ils seront sur tes pas."

Depuis je vais
je vais par les sentiers
par les sentiers et sur les routes,
par-delà la mer et plus loin, plus loin encore,
par-delà la mer et par-delà l'au-delà;
Et lorsque j'approche les méchants,
les Hommes au coeur noir,
lorsque j'approche les envieux,
les Hommes au coeur noir
Devant moi s'avancent les Souffles des Aïeux.



1 244
Birago Diop

Birago Diop

Viático

Em um dos três canários
dos três canários nos quais certas noites ressurgem
as almas serenas,
o sopro dos ancestrais,
dos ancestrais que foram homens,
dos ancestrais que foram sábios,
Mãe encharcou três dedos,
três dedos de sua mão esquerda:
o polegar, o indicador e o maior.
Eu encharquei três dedos,
três dedos de minha mão direita:
o polegar, o indicador e o maior.

Com seus três dedos vermelhos de sangue,
de sangue de cachorro
de sangue de touro
de sangue de bode,
Mãe me tocou três vezes.
Tocou minha testa com o polegar,
com o indicador o meu peito esquerdo
e meu umbigo com seu dedo maior.
Eu estendi meus dedos rubros de sangue,
de sangue de cachorro,
de sangue de touro
de sangue de bode.
Eu estendi meus três dedos aos ventos,
ao vento do Norte, ao vento do Nascente,
ao vento do Sul, ao vento do Poente;
e ergui meus três dedos na direção da Lua,
da Lua cheia, a Lua cheia e nua
quando ela foi ao fundo do canário maior.

Afundei meus três dedos na areia,
Na areia que se arrefecera.
Então Mãe disse: “Vai pelo Mundo, vai,
Ao longo da Vida Eles estarão em seus passos”.

Desde então eu vou,
eu vou pelas sendas,
pelas sendas e pelas estradas,
para além do mar e mais além, mais longe ainda,
para além do mar e mais além, mais longe ainda,
para além do mar e para além do além.
E quando chego perto da gente ruim,
os Homens de coração negro,
quando me aproximo dos invejosos,
os Homens de coração negro,
à minha frente avançam os Sopros dos meus Ancestrais.


:


Viatique

Dans un des trois canaris
des trois canaris où reviennent certains soirs
les âmes satisfaites et sereines,
les souffles des ancêtres,
des ancêtres qui furent des hommes
des aïeux qui furent des sages,
Mère a trempé trois doigts,
trois doigts de sa main gauche:
le pouce, l'index et le majeur;
Moi j'ai trempé trois doigts:
trois doigts de la main droite:
le pouce, l'index et le majeur.
Avec ses trois doigts rouge de sang,
de sang de chien,
de sang de taureau,
de sang de bouc,
Mère m'a touché mon front avec son pouce,
Avec l'index mon sein gauche
Et mon nombril avec son majeur.
Moi j'ai tendu mes doigts rouges de sang,
de sang de chien,
de sang de taureau,
de sang de bouc.
J'ai tendu mes trois doigts aux vents
aux vents du Nord, aux vents du Levant
aux vents du Sud, aux vents du Couchant;
Et j'ai levé mes trois doigts vers la Lune,
vers la Lune pleine, la Lune pleine et nue
Quand elle fut au fond du plus grand canari.

Après j'ai enfoncé mes trois doigts dans le sable
dans le sable qui s'était refroidi.
Alors Mère a dit: "Va par le Monde, Va!
Dans la vie ils seront sur tes pas."

Depuis je vais
je vais par les sentiers
par les sentiers et sur les routes,
par-delà la mer et plus loin, plus loin encore,
par-delà la mer et par-delà l'au-delà;
Et lorsque j'approche les méchants,
les Hommes au coeur noir,
lorsque j'approche les envieux,
les Hommes au coeur noir
Devant moi s'avancent les Souffles des Aïeux.



1 244
Orpingalik

Orpingalik

Meu fôlego

Esta é minha canção: canção poderosa.
Unaija-unaija.
Desde o outono deito-me aqui,
desamparado e doente,
como se fosse filho de mim mesmo.
Em angústia, desejaria que minha mulher
tivesse outra cabana,
outro homem por refúgio,
firme e seguro como o gelo do inverno.
Unaija-unaija.
E desejaria que minha mulher
encontrasse protetor melhor,
agora que me faltam as forças
para erguer-me da cama.
Unaija-unaija.
Você conhece a si mesmo?
Como você entende pouco de si!
Estirado e débil sobre meu banco,
minha única força está em minha memória.
Unaija-unaija.
Caça! Grande caça,
correndo adiante de mim,
permita-me reviver aquilo.
Deixe-me esquecer minha fraqueza
remembrando o passado.
Unaija-unaija.
Eu trago à memória aquele grande branco,
o urso polar,
aproximando-se com patas erguidas,
seu focinho na neve -
convencido, enquanto me atacava,
que entre nós dois
ele era o único macho.
Unaija-unaija.
Lançou-me ao solo repetidamente:
mas exausto por fim,
sentou-se sobre um banco de gelo,
e lá descansaria
insciente de que eu o terminaria.
Ele pensava ser o único macho em redor.
Mas eu estava ali,
Unaija-unaija.
Nem hei de esquecer o grande oleoso,
o leão-marinho que matei
em uma placa de gelo antes da aurora,
enquanto meus amigos em casa
deitavam-se como com os mortos,
frágeis com a fome,
famintos na má sorte.
Apressei-me para casa,
carregado de carne e óleo,
como se estivesse correndo sobre o gelo
em busca de uma fenda para respirar.
Era porém leão-marinho experiente
que me cheirara imediatamente -
mas antes que pudesse fugir
minha lança enterrava-se
em sua garganta.
É como foi.
Agora deito-me em meu banco,
doente demais para sequer
conseguir óleo para a lâmpada de minha mulher.
O tempo, o tempo mal parece passar,
mesmo que aurora siga aurora,
e a primavera aproxime-se da vila.
Unaija-unaija.
Quanto tempo mais devo deitar-me aqui?
Quanto tempo? Quanto tempo ela terá
que implorar por óleo para sua lâmpada,
peles de rena para seu corpo,
e carne para sua comida?
Eu, desastre débil:
ela, mulher indefesa.
Unaija-unaija.
Você conhece a si mesmo?
Como você entende pouco de si!
Aurora segue aurora,
e a primavera aproxima-se da vila.
Unaija-unaija.
.
.
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834
Patrizia Vicinelli

Patrizia Vicinelli

De outro ponto foram vistas as estações

De outro ponto foram vistas as estações
até ali desconhecidas
só então pôde sentar-se e admirar
o sentido da alternância.
Por sua raiz gasosa transforma-lhe
a base visível
e o purifica a trajetória
de noite e dia a luz,
o céu.
Funde-se a mulher à sua sombra
e no entanto treme ao fogo do início
assim se desloca em seus passos
Ísis ao horizonte meta
assim ela foge à sua distância.
Por que não filtra a espera aromada
ou seja deter-se
sua ânsia vaza haverá fim
de perfil pôr o que a mantém unida
aquela que arranca a raiz, um sopro.
Batem então no ferro a matéria de si
e o plasma cada ângulo contínuo
da vista
uma distância de seu centro exata
a define.
Nos diversos planos da linguagem
é envolto
e assim gera as formas de sua busca
ele aprendeu como deixar-se sulcar
e ser cingido pelos rastros.
Com um lance de olhos sentia
a presença simultânea de tudo o
que na terra cresce
e esta consciência da situação atual
o ajudava como uma disciplina.
O que não está completo força
o modo de avançar,
meta, meta, queimado e requeimado,
durante a costa dos milênios.
Incessante foi visto renascer e morrer
o mundo até onde
não houve mais tempo nem luz bastante
para seguir os paradoxos demoníacos
ora lançado como dura pedra mole
nas águas do rio,
agitando dentro cacos de realidades díspares.
Enquanto isso cantam no peito os vultos
de seus sonhos
muda de manhã em albas até douradas,
qual certeza virá de mundos paralelos, atritos
postos sobre ou sob, vinculantes.
Deslizando longamente sobre o flanco
da pirâmide atávica
o bloqueia quando quer como exercício
e entretanto a miséria do homem
é consumada dentro de si, na arca
de seu espaço interior
buscava violar o que de inadequado
se recompõe a cada instante.
A atração dinâmica do fazer faltou
naquele ponto
e ao final da mais demorada dança
o abandono e o silêncio
da grandiosa solidão
o tornava eterno,
como assentado sobre um ponto raso
da terra, sob as estrelas.
Não era mais convocado à batalha
fazia muito tempo.
Meu silêncio é talvez o único início,
disse o homem sedento, e sentou-se
a olhar a evidência de seu destino.
O cavaleiro que observa a lua
não busca nem espera nada.
Bebia aquele vinho macio de agosto
e deixava a porta aberta
sobre a laguna quente de fim de agosto,
música em violas daquele tempo, vinho de Graal.
Perguntava-se se não era fantasia sua,
enquanto risos de jovens mulheres
bêbadas fendiam o ar.
Enrubesce-lhe o silêncio o vinho
e lhe dá corpo
respirando bate o ritmo da mente
no ar intacto
ora em círculo o olhar, a perda
o desvela,
um perfeito paralelepípedo de uma batalha
naval do settecento,
de sombras feitas de esfumaturas.
Em setembro além da luz tão baixa
e rasante há névoa
e o cheiro de funghi porcini aspirados
longamente, como nas ceias de inverno,
dentro de envelopes plásticos.
A configuração do mal tão conhecida
era então impalpável, parecia
não ter rastros.
No entanto a lua ao primeiro dia minguante
estende a noite sem pressa,
a estrutura em seu conjunto
ainda é esfera, depois vai mudar.
Já pensa que o santo Graal é demasiado
distante, e o copo está se ofuscando
de rubro _qualquer coisa, senhor, mas me empurra
adiante_, novamente o copo vibra vermelho
e a lua entre as árvores cai com a neblina certa
até os pinhos e as acácias, mas não os grilos, não
as aranhas, as libélulas até ontem mesmo.
Não há chegada não há parada não
há partida, mas a sucessão sem trégua.
Isto sim, que a cada nível se suceda
um outro, por geração espontânea,
o soubera pela roda que girava
enquanto os mundos findavam, em voltas.
(tradução de Maurício Santana Dias)
:
Da un altro punto furono viste le stagioni
fino lì sconosciute
solo allora poté sedersi ad ammirare
il senso dell’alternanza.
Dalla sua radice gassosa ne muta
la base visibile
e lo cimenta la traiettoria
di notte e giorno la luce,
il cielo.
È fusa la donna alla sua ombra
eppure trema al fuoco dell’inizio
così se li sposta i suoi passi
Iside all’orizzonte mèta
ora essa fugge la sua lontananza.
Perché non cola l’attesa profumata
ossia fermarsi
la sua ansia volta avrà la fine
di profilo porre cosa la tiene unita
quella che stacca la radice, un alito.
Batte allora sul ferro la materia di sé
e lo plasma ogni angolo continuo
della vista
una distanza del suo centro esatta
la definisce.
I piani diversi del linguaggio
ne è avvolto
così genera le forme della sua ricerca
egli ha imparato come lasciarsi solcare
ad essere cinto dalle tracce.
Con un colpo d’occhio sentiva
la presenza simultanea di tutto ciò
che nella terra cresce
e questa coscienza della situazione attuale
lo aiutava come una disciplina.
Ciò che non è compiuto spinge
il modo del procedere,
mèta, mèta, arsi e riarsi,
durante la costa dei millenni.
Incessante se lo vide rinascere e morire
il mondo fino a dove
non ci fu più tempo né abbastanza luce
per seguitare i paradossi demoniaci
sbalzato come dura pietra molle ora
nelle acque del fiume,
si agitava dentro pezzi di realtà dissimili.
Nel mentre cantano nel petto i volti
dei suoi sogni
muta al mattino in albe anche dorate,
quale certezza venga da mondi paralleli, attriti
posti sopra o sotto, vincolanti.
Scivolando lungamente sul fianco
della piramide atavica
lo blocca quando vuole come esercizio
e intanto la miseria dell’uomo
va consumata dentro di sé, nell’arca
del suo spazio interiore
intendeva infrangere ciò che da inadeguato
si ricompone ad ogni istante.
L’attrazione dinamica del fare mancò
a quel punto
e alla fine della danza più lunga,
l’abbandono e il silenzio
della grandiosa solitudine
lo rendeva eterno,
come collocatosu di un punto raso
della terra, sotto le stelle.
Non era più chiamato in battaglia
da tanto tempo.
Il mio inizio è forse il solo inizio,
disse l’uomo assetato, e si sedette
a guardare l’evidenza del suo destino.
Il cavaliere che guarda la luna,
non cerca e non aspetta niente.
Beveva quel soffice vino d’agosto
e teneva la porta aperta
sulla laguna afosa della fine d’agosto,
musica in viole di quel tempo, vino di Graal.
Si chiedeva se non fosse una sua fantasia
mentre risa fendevano l’aria,
di giovani donne ubriache.
Arrossisce il suo silenzio il vino
e gli dà corpo
col respiro batte il ritmo della mente
nell’aria intatta
ora a cerchio lo sguardo, la perdita
lo svela,
un parallelepipedo di una battaglia navale
del settecento,
esatto d’ombre fatte di sfumature.
In settembre oltre la luce così bassa
e radente c’è nebbia
e l’odore di funghi porcini annusati
a lungo, come nelle cene d’inverno
dentro le buste di plastica.
La configurazione del male così conosciuta
era allora impalpabile, sembrava
non ci fosse traccia.
Intanto la luna al primo giorno calante
porge la notte in adagio,
la struttura tutto sommato
è tonda ora, poi cambierà.
Già pensa che il santo Graal è troppo
lontano, e il bicchiere si sta offuscando
di rosso, – qualsiasi cosa signore, ma spingimi
avanti – nuovamente il bicchiere brilla rosso
e la luna fra gli alberi cade con la certa nebbia
fino ai pini e alle acacie, ma non i grilli, non
i ragni, le libellule fino a ieri poi.
Non c’è arrivo non c’è sosta non
c’è partenza, ma il succedersi senza tregua.
Questo sì, che ad ogni livello ne succeda
un altro, per generazione spontanea
l’aveva saputo dalla ruota che girava
mentre i mondi finivano, a volte.
deOpere (1994).
850
Vasco Graça Moura

Vasco Graça Moura

Praias

1
na praia lá do guincho as velas
de windsurf saltam sobre as ondas
e o meu olhar, equestre,
pula nos peitos das banhistas, enquanto
um cachorro tenta agarrar a cauda.

nos feriados tudo é insuportável
menos o sol e o mar
apesar das famílias.
e sustendo as gaivotas na mais alta
imaginação, porque hoje não vi nenhuma,

o vento traz de tudo
e antónio nobre e lorca às pandas roupas
que modelam os corpos em míticas figuras
com o seu drapejado esvoaçante,
entre dunas e lixo e vendedores de gelados.

restaria o campo, mas
«no campo não há bicas nem paperbacks»
diz uma amiga minha e tem razão.
que seria de nós, bucólicos, sem esses indicadores da alma? dou

lume a uma italiana e enquanto
ela agradece ocorre-me que despi-la já não é
cosa mentale; faz-me lembrar o algarve, mas no verão
o algarve é a continuação
da política por outros meios. antes
a nortada, os surfistas,
na crista da onda, a areia que entra no poema,
e o regresso mais cedo, quando já não se
aguenta.

2
agora que passaste muito queimada do sol
o vento vem pela estrada até à duna
com uma folha de jornal desdobrada
aos baldões e as vozes dos piqueniques.

tu desceste da moto e foste
comprar um gelado, afastando impaciente
algumas crianças. era a impostura
para a sede, avivada pelos guarda-sóis

de cor berrante. nas rochas havia
alguns pares esfregando-se
mais ou menos à vista. penduraste
os óculos de sol no decote da blusa

e o gelado avançou para os teus dentes muito brancos.
tudo isto dava uma fotografia
com o teu peito em grande plano
e a cena reflectida nos óculos escuros.
2 488
Vasco Graça Moura

Vasco Graça Moura

Praias

1
na praia lá do guincho as velas
de windsurf saltam sobre as ondas
e o meu olhar, equestre,
pula nos peitos das banhistas, enquanto
um cachorro tenta agarrar a cauda.

nos feriados tudo é insuportável
menos o sol e o mar
apesar das famílias.
e sustendo as gaivotas na mais alta
imaginação, porque hoje não vi nenhuma,

o vento traz de tudo
e antónio nobre e lorca às pandas roupas
que modelam os corpos em míticas figuras
com o seu drapejado esvoaçante,
entre dunas e lixo e vendedores de gelados.

restaria o campo, mas
«no campo não há bicas nem paperbacks»
diz uma amiga minha e tem razão.
que seria de nós, bucólicos, sem esses indicadores da alma? dou

lume a uma italiana e enquanto
ela agradece ocorre-me que despi-la já não é
cosa mentale; faz-me lembrar o algarve, mas no verão
o algarve é a continuação
da política por outros meios. antes
a nortada, os surfistas,
na crista da onda, a areia que entra no poema,
e o regresso mais cedo, quando já não se
aguenta.

2
agora que passaste muito queimada do sol
o vento vem pela estrada até à duna
com uma folha de jornal desdobrada
aos baldões e as vozes dos piqueniques.

tu desceste da moto e foste
comprar um gelado, afastando impaciente
algumas crianças. era a impostura
para a sede, avivada pelos guarda-sóis

de cor berrante. nas rochas havia
alguns pares esfregando-se
mais ou menos à vista. penduraste
os óculos de sol no decote da blusa

e o gelado avançou para os teus dentes muito brancos.
tudo isto dava uma fotografia
com o teu peito em grande plano
e a cena reflectida nos óculos escuros.
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