Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Marcus Accioly
4 [Antes de pintar as pintas
Antes de pintar as pintas
o animal-rei Leopardo
tendo juba pardacenta
se dizia o Leão-Pardo.
In: ACCIOLY, Marcus. O jogo dos bichos. Il. Libório. São Paulo: Melhoramentos, 1990. p.7. (Série trava língua
o animal-rei Leopardo
tendo juba pardacenta
se dizia o Leão-Pardo.
In: ACCIOLY, Marcus. O jogo dos bichos. Il. Libório. São Paulo: Melhoramentos, 1990. p.7. (Série trava língua
1 425
Carlos Frydman
Cascata
O chiado das águas
compõe cantigas
ancestralmente perenes.
Parece um segredar sem mágoas
num renascer insistente.
A correnteza reabilita-se
brincando em cada queda
e um frescor salpica,
inebria e recompõe,
o que perdemos
nas encruzilhadas.
Murmúrios espontâneos,
cantam alegrias em cada pedra
e despontamos em sonhos perdidos.
O tempo é retomado
num frescor,
inebriando securas.
Todo passado é presente,
no gorjeio das águas inspiradas,
reabilitando nossas vidas jogadas...
In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
compõe cantigas
ancestralmente perenes.
Parece um segredar sem mágoas
num renascer insistente.
A correnteza reabilita-se
brincando em cada queda
e um frescor salpica,
inebria e recompõe,
o que perdemos
nas encruzilhadas.
Murmúrios espontâneos,
cantam alegrias em cada pedra
e despontamos em sonhos perdidos.
O tempo é retomado
num frescor,
inebriando securas.
Todo passado é presente,
no gorjeio das águas inspiradas,
reabilitando nossas vidas jogadas...
In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
1 620
Carlos Frydman
Primeiro Canto ao Mar
Mar,
exortação serena,
corpo sensual, dadivoso,
ondulando desejos
em busca dos segredos.
Na carícia sedutora e amena,
no arfar incontido que aconchega,
seio de mulher inebriante,
ninando vidas extasiadas;
presença etérea, uterina,
benevolente ventre que recria.
Tristes saudosos das águas,
atracados em nossas securas intermitentes,
somos navegadores estranhos, distanciados,
em nossos portos desolados.
Fugitivos da existência inexistente,
introjetamo-nos no regresso desaprendido,
em busca das brisas em nós esvaída,
nas águas que secamos.
E, ante o mar amado,
somos amantes esmaecidos,
no amor que não alimentamos.
Agora,
buscamos a amada
que na lembrança ainda se banha,
de nossos desejos afastada,
o mar benevolente
faz carícias vagas
de amor tênue
onde vagamos.
In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
exortação serena,
corpo sensual, dadivoso,
ondulando desejos
em busca dos segredos.
Na carícia sedutora e amena,
no arfar incontido que aconchega,
seio de mulher inebriante,
ninando vidas extasiadas;
presença etérea, uterina,
benevolente ventre que recria.
Tristes saudosos das águas,
atracados em nossas securas intermitentes,
somos navegadores estranhos, distanciados,
em nossos portos desolados.
Fugitivos da existência inexistente,
introjetamo-nos no regresso desaprendido,
em busca das brisas em nós esvaída,
nas águas que secamos.
E, ante o mar amado,
somos amantes esmaecidos,
no amor que não alimentamos.
Agora,
buscamos a amada
que na lembrança ainda se banha,
de nossos desejos afastada,
o mar benevolente
faz carícias vagas
de amor tênue
onde vagamos.
In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
773
Carlos Felipe Moisés
Lagartixa
para Margarida
O peito é de vidro.
Os olhos, porcelana
delicada e astuta.
Da língua escorre
o néctar sutil.
As patas são de estanho
mas sabem se mover
imóveis: mal flutuam.
O ventre é quase nada,
pura transparência
onde se esconde o dorso
e seus andaimes.
Não tem entranhas.
A pele
de tão fina
já não é: limita
semovente
o nada de fora
e o quase nada
de dentro.
O peito é de vidro
mas às vezes se desmancha
em pétalas.
Dentro
pulsa um coração
que imobiliza
tudo em torno.
O rabo, sim,
é feito de algo
insuspeitado:
nuvem
algas
milhares de roldanas
e desejos
enrodilhados na engrenagem
que espaneja o chão
e foge
para o céu aberto.
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Subsolo. São Paulo: Massao Ohno, 1989
O peito é de vidro.
Os olhos, porcelana
delicada e astuta.
Da língua escorre
o néctar sutil.
As patas são de estanho
mas sabem se mover
imóveis: mal flutuam.
O ventre é quase nada,
pura transparência
onde se esconde o dorso
e seus andaimes.
Não tem entranhas.
A pele
de tão fina
já não é: limita
semovente
o nada de fora
e o quase nada
de dentro.
O peito é de vidro
mas às vezes se desmancha
em pétalas.
Dentro
pulsa um coração
que imobiliza
tudo em torno.
O rabo, sim,
é feito de algo
insuspeitado:
nuvem
algas
milhares de roldanas
e desejos
enrodilhados na engrenagem
que espaneja o chão
e foge
para o céu aberto.
In: MOISÉS, Carlos Felipe. Subsolo. São Paulo: Massao Ohno, 1989
859
Marcus Accioly
21 [Quase uma cobra com pés
Quase uma cobra com pés
ao lixar-se a lagartixa
largando o rabo do corpo
se tornava a Larga-Lixa.
In: ACCIOLY, Marcus. O jogo dos bichos. Il. Libório. São Paulo: Melhoramentos, 1990. p.15. (Série trava língua
ao lixar-se a lagartixa
largando o rabo do corpo
se tornava a Larga-Lixa.
In: ACCIOLY, Marcus. O jogo dos bichos. Il. Libório. São Paulo: Melhoramentos, 1990. p.15. (Série trava língua
1 280
Carlos Frydman
Chuvisco Espanhol
Para Priscila Marie Netto Soares
Há chuviscos
em obliquidade precisa,
brincando, variando
na gravidade das tardes.
Há chuviscos
sem pressa,
indiferentes ao tempo
que nos levam
sem percebermos.
Sendo véus diáfanos, os chuviscos
clareiam anseios abandonados.
Sendo lantejoulas cristalinas,
projetam recordações nubladas.
Sendo tules de odaliscas
de natureza amainada,
casam com meu amor circunspecto
em meus ímpetos serenados.
Tomado pelo chuvisco
penso numa tarde flamenca
e vislumbro uma triste espanhola.
Seu olhar é envolvente e aguçado
e seu corpo esguio é enlaçado
num atávico chale rendado.
Ela ignora meu amor silente
mas me envolve num sonho realista
porque me conformo em sonhá-la
perdido num chuvisco,
afogado
em meus desejos contidos.
In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
Há chuviscos
em obliquidade precisa,
brincando, variando
na gravidade das tardes.
Há chuviscos
sem pressa,
indiferentes ao tempo
que nos levam
sem percebermos.
Sendo véus diáfanos, os chuviscos
clareiam anseios abandonados.
Sendo lantejoulas cristalinas,
projetam recordações nubladas.
Sendo tules de odaliscas
de natureza amainada,
casam com meu amor circunspecto
em meus ímpetos serenados.
Tomado pelo chuvisco
penso numa tarde flamenca
e vislumbro uma triste espanhola.
Seu olhar é envolvente e aguçado
e seu corpo esguio é enlaçado
num atávico chale rendado.
Ela ignora meu amor silente
mas me envolve num sonho realista
porque me conformo em sonhá-la
perdido num chuvisco,
afogado
em meus desejos contidos.
In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
990
Marcus Accioly
Predamar
Na véspera do sol
Ou antevéspera,
Deslogo quando os ventos
Soltos despertam,
O canto, céu de nuvens,
Bando de araras,
Entreabre as suas plumas
E acende as barras.
Quando a luz de verão
Do solão rubro
Na árvore do mar
Abre o seu fruto,
O canto, vela aberta
No mar de fora,
Inventa outra manhã
Dentro da aurora.
Quando o ouriço do sol
Rosa-dos-ventos
Remoinha no mar
Seus cataventos,
O canto, asa de garça,
Espuma branca,
Debruça sobre a praia
Sua varanda.
Aprendido-aprendiz
O canto escuta
A máquina do mar
Formando as lutas
As sirenes dos búzios
Os altos ventos
A voz-sempre do mar
E outros silêncios.
O canto, agulha e linha
Tecendo a rede
Com seu fio mais lógico,
Malha de peixe,
Calculando os espaços
No metro igual
Preciso e matemático
De João Cabral.
O canto, lente aquática
Que sabe as cores
Do arco-íris do sol,
Das antiflores,
Do oceano da América
E outras lembranças
Que debruçam Drummond
No mar da infância.
O canto, anzol de pesca,
Manuel Bandeira,
Arpão-fisga-espinhel,
Fruta praieira,
Flor-de-coral, cal-virgem,
Peixes marinhos,
Covos do mar, gaiolas
Sem passarinhos.
O canto, ondas diversas,
Jorge de Lima,
Piso do céu, maralto
Chovido em cima,
Vento, boca-de-barra
Que chama os rios,
Mar que devora os portos
E os seus navios
(...)
Poema integrante da série Feira de Pássaros - Canto III.
In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.140-142. (Tempoesia, 18)
NOTA: Poema composto de 3 partes, indicadas pelo sinal de parágrafo (§), todas compostas de 4 oitavas. Referência ao poema "América", do livro A ROSA DO POVO (1945), de Carlos Drummond de Andrad
Ou antevéspera,
Deslogo quando os ventos
Soltos despertam,
O canto, céu de nuvens,
Bando de araras,
Entreabre as suas plumas
E acende as barras.
Quando a luz de verão
Do solão rubro
Na árvore do mar
Abre o seu fruto,
O canto, vela aberta
No mar de fora,
Inventa outra manhã
Dentro da aurora.
Quando o ouriço do sol
Rosa-dos-ventos
Remoinha no mar
Seus cataventos,
O canto, asa de garça,
Espuma branca,
Debruça sobre a praia
Sua varanda.
Aprendido-aprendiz
O canto escuta
A máquina do mar
Formando as lutas
As sirenes dos búzios
Os altos ventos
A voz-sempre do mar
E outros silêncios.
O canto, agulha e linha
Tecendo a rede
Com seu fio mais lógico,
Malha de peixe,
Calculando os espaços
No metro igual
Preciso e matemático
De João Cabral.
O canto, lente aquática
Que sabe as cores
Do arco-íris do sol,
Das antiflores,
Do oceano da América
E outras lembranças
Que debruçam Drummond
No mar da infância.
O canto, anzol de pesca,
Manuel Bandeira,
Arpão-fisga-espinhel,
Fruta praieira,
Flor-de-coral, cal-virgem,
Peixes marinhos,
Covos do mar, gaiolas
Sem passarinhos.
O canto, ondas diversas,
Jorge de Lima,
Piso do céu, maralto
Chovido em cima,
Vento, boca-de-barra
Que chama os rios,
Mar que devora os portos
E os seus navios
(...)
Poema integrante da série Feira de Pássaros - Canto III.
In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.140-142. (Tempoesia, 18)
NOTA: Poema composto de 3 partes, indicadas pelo sinal de parágrafo (§), todas compostas de 4 oitavas. Referência ao poema "América", do livro A ROSA DO POVO (1945), de Carlos Drummond de Andrad
1 605
Marcus Accioly
Predamar
Na véspera do sol
Ou antevéspera,
Deslogo quando os ventos
Soltos despertam,
O canto, céu de nuvens,
Bando de araras,
Entreabre as suas plumas
E acende as barras.
Quando a luz de verão
Do solão rubro
Na árvore do mar
Abre o seu fruto,
O canto, vela aberta
No mar de fora,
Inventa outra manhã
Dentro da aurora.
Quando o ouriço do sol
Rosa-dos-ventos
Remoinha no mar
Seus cataventos,
O canto, asa de garça,
Espuma branca,
Debruça sobre a praia
Sua varanda.
Aprendido-aprendiz
O canto escuta
A máquina do mar
Formando as lutas
As sirenes dos búzios
Os altos ventos
A voz-sempre do mar
E outros silêncios.
O canto, agulha e linha
Tecendo a rede
Com seu fio mais lógico,
Malha de peixe,
Calculando os espaços
No metro igual
Preciso e matemático
De João Cabral.
O canto, lente aquática
Que sabe as cores
Do arco-íris do sol,
Das antiflores,
Do oceano da América
E outras lembranças
Que debruçam Drummond
No mar da infância.
O canto, anzol de pesca,
Manuel Bandeira,
Arpão-fisga-espinhel,
Fruta praieira,
Flor-de-coral, cal-virgem,
Peixes marinhos,
Covos do mar, gaiolas
Sem passarinhos.
O canto, ondas diversas,
Jorge de Lima,
Piso do céu, maralto
Chovido em cima,
Vento, boca-de-barra
Que chama os rios,
Mar que devora os portos
E os seus navios
(...)
Poema integrante da série Feira de Pássaros - Canto III.
In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.140-142. (Tempoesia, 18)
NOTA: Poema composto de 3 partes, indicadas pelo sinal de parágrafo (§), todas compostas de 4 oitavas. Referência ao poema "América", do livro A ROSA DO POVO (1945), de Carlos Drummond de Andrad
Ou antevéspera,
Deslogo quando os ventos
Soltos despertam,
O canto, céu de nuvens,
Bando de araras,
Entreabre as suas plumas
E acende as barras.
Quando a luz de verão
Do solão rubro
Na árvore do mar
Abre o seu fruto,
O canto, vela aberta
No mar de fora,
Inventa outra manhã
Dentro da aurora.
Quando o ouriço do sol
Rosa-dos-ventos
Remoinha no mar
Seus cataventos,
O canto, asa de garça,
Espuma branca,
Debruça sobre a praia
Sua varanda.
Aprendido-aprendiz
O canto escuta
A máquina do mar
Formando as lutas
As sirenes dos búzios
Os altos ventos
A voz-sempre do mar
E outros silêncios.
O canto, agulha e linha
Tecendo a rede
Com seu fio mais lógico,
Malha de peixe,
Calculando os espaços
No metro igual
Preciso e matemático
De João Cabral.
O canto, lente aquática
Que sabe as cores
Do arco-íris do sol,
Das antiflores,
Do oceano da América
E outras lembranças
Que debruçam Drummond
No mar da infância.
O canto, anzol de pesca,
Manuel Bandeira,
Arpão-fisga-espinhel,
Fruta praieira,
Flor-de-coral, cal-virgem,
Peixes marinhos,
Covos do mar, gaiolas
Sem passarinhos.
O canto, ondas diversas,
Jorge de Lima,
Piso do céu, maralto
Chovido em cima,
Vento, boca-de-barra
Que chama os rios,
Mar que devora os portos
E os seus navios
(...)
Poema integrante da série Feira de Pássaros - Canto III.
In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.140-142. (Tempoesia, 18)
NOTA: Poema composto de 3 partes, indicadas pelo sinal de parágrafo (§), todas compostas de 4 oitavas. Referência ao poema "América", do livro A ROSA DO POVO (1945), de Carlos Drummond de Andrad
1 605
Marcus Accioly
Predamar
Na véspera do sol
Ou antevéspera,
Deslogo quando os ventos
Soltos despertam,
O canto, céu de nuvens,
Bando de araras,
Entreabre as suas plumas
E acende as barras.
Quando a luz de verão
Do solão rubro
Na árvore do mar
Abre o seu fruto,
O canto, vela aberta
No mar de fora,
Inventa outra manhã
Dentro da aurora.
Quando o ouriço do sol
Rosa-dos-ventos
Remoinha no mar
Seus cataventos,
O canto, asa de garça,
Espuma branca,
Debruça sobre a praia
Sua varanda.
Aprendido-aprendiz
O canto escuta
A máquina do mar
Formando as lutas
As sirenes dos búzios
Os altos ventos
A voz-sempre do mar
E outros silêncios.
O canto, agulha e linha
Tecendo a rede
Com seu fio mais lógico,
Malha de peixe,
Calculando os espaços
No metro igual
Preciso e matemático
De João Cabral.
O canto, lente aquática
Que sabe as cores
Do arco-íris do sol,
Das antiflores,
Do oceano da América
E outras lembranças
Que debruçam Drummond
No mar da infância.
O canto, anzol de pesca,
Manuel Bandeira,
Arpão-fisga-espinhel,
Fruta praieira,
Flor-de-coral, cal-virgem,
Peixes marinhos,
Covos do mar, gaiolas
Sem passarinhos.
O canto, ondas diversas,
Jorge de Lima,
Piso do céu, maralto
Chovido em cima,
Vento, boca-de-barra
Que chama os rios,
Mar que devora os portos
E os seus navios
(...)
Poema integrante da série Feira de Pássaros - Canto III.
In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.140-142. (Tempoesia, 18)
NOTA: Poema composto de 3 partes, indicadas pelo sinal de parágrafo (§), todas compostas de 4 oitavas. Referência ao poema "América", do livro A ROSA DO POVO (1945), de Carlos Drummond de Andrad
Ou antevéspera,
Deslogo quando os ventos
Soltos despertam,
O canto, céu de nuvens,
Bando de araras,
Entreabre as suas plumas
E acende as barras.
Quando a luz de verão
Do solão rubro
Na árvore do mar
Abre o seu fruto,
O canto, vela aberta
No mar de fora,
Inventa outra manhã
Dentro da aurora.
Quando o ouriço do sol
Rosa-dos-ventos
Remoinha no mar
Seus cataventos,
O canto, asa de garça,
Espuma branca,
Debruça sobre a praia
Sua varanda.
Aprendido-aprendiz
O canto escuta
A máquina do mar
Formando as lutas
As sirenes dos búzios
Os altos ventos
A voz-sempre do mar
E outros silêncios.
O canto, agulha e linha
Tecendo a rede
Com seu fio mais lógico,
Malha de peixe,
Calculando os espaços
No metro igual
Preciso e matemático
De João Cabral.
O canto, lente aquática
Que sabe as cores
Do arco-íris do sol,
Das antiflores,
Do oceano da América
E outras lembranças
Que debruçam Drummond
No mar da infância.
O canto, anzol de pesca,
Manuel Bandeira,
Arpão-fisga-espinhel,
Fruta praieira,
Flor-de-coral, cal-virgem,
Peixes marinhos,
Covos do mar, gaiolas
Sem passarinhos.
O canto, ondas diversas,
Jorge de Lima,
Piso do céu, maralto
Chovido em cima,
Vento, boca-de-barra
Que chama os rios,
Mar que devora os portos
E os seus navios
(...)
Poema integrante da série Feira de Pássaros - Canto III.
In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.140-142. (Tempoesia, 18)
NOTA: Poema composto de 3 partes, indicadas pelo sinal de parágrafo (§), todas compostas de 4 oitavas. Referência ao poema "América", do livro A ROSA DO POVO (1945), de Carlos Drummond de Andrad
1 605
Manoel de Barros
Exercícios Adjetivos
(...)
Rolinhas-casimiras
Rolas
pisam
a manhã
Lagartixas pastam
o sobrado
Um leque de peixe abana o rio
Meninos atrás de gralhas contraem piolhos de
cerrados
Um lagarto de pernas areientas
medra na beira de um livro
Adeus rolinhas-casimiras.
O poeta descerra um cardume de nuvens
A estrada se abre como um pertence
Vermelhas trevas
O veneno ingerido pela mosca deixa
a curta raiz de sua existência
exposta às vermelhas trevas
Silêncio rubro
Crista de silêncio rubro, o galo
com frisos gelados de adaga no bico
madruga a veredas batidas
Modos ávidos
Os modos ávidos de um caracol subir
a uma parede com nódoas de idade e chuvas:
é como viajar à nascente dos insetos
Visgo tátil
O visgo tátil do canto é como
a aranha que urde sua doce alfombra
nas orvalhadas vaginas das violetas
Os caramujos-flores
Os caramujos-flores são um ramo de caramujos
que só saem de noite para passear
De preferência procuram paredes sujas, onde se
pregam e se pastam
Não sabemos ao certo, aliás, se pastam eles
essas paredes
Ou se são por elas pastados
Provavelmente se compensem
Paredes e caramujos se entendem por devaneios
Difícil imaginar uma devoração mútua
Antes diria que usam de uma transubstanciação:
paredes emprestam seus musgos aos caramujos-flores
E os caramujos-flores às paredes sua gosma
Assim desabrocham como os bestegos
(...)
Publicado no livro Arranjos para Assobio (1982).
In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
Rolinhas-casimiras
Rolas
pisam
a manhã
Lagartixas pastam
o sobrado
Um leque de peixe abana o rio
Meninos atrás de gralhas contraem piolhos de
cerrados
Um lagarto de pernas areientas
medra na beira de um livro
Adeus rolinhas-casimiras.
O poeta descerra um cardume de nuvens
A estrada se abre como um pertence
Vermelhas trevas
O veneno ingerido pela mosca deixa
a curta raiz de sua existência
exposta às vermelhas trevas
Silêncio rubro
Crista de silêncio rubro, o galo
com frisos gelados de adaga no bico
madruga a veredas batidas
Modos ávidos
Os modos ávidos de um caracol subir
a uma parede com nódoas de idade e chuvas:
é como viajar à nascente dos insetos
Visgo tátil
O visgo tátil do canto é como
a aranha que urde sua doce alfombra
nas orvalhadas vaginas das violetas
Os caramujos-flores
Os caramujos-flores são um ramo de caramujos
que só saem de noite para passear
De preferência procuram paredes sujas, onde se
pregam e se pastam
Não sabemos ao certo, aliás, se pastam eles
essas paredes
Ou se são por elas pastados
Provavelmente se compensem
Paredes e caramujos se entendem por devaneios
Difícil imaginar uma devoração mútua
Antes diria que usam de uma transubstanciação:
paredes emprestam seus musgos aos caramujos-flores
E os caramujos-flores às paredes sua gosma
Assim desabrocham como os bestegos
(...)
Publicado no livro Arranjos para Assobio (1982).
In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
3 622
Manoel de Barros
Exercícios Adjetivos
(...)
Rolinhas-casimiras
Rolas
pisam
a manhã
Lagartixas pastam
o sobrado
Um leque de peixe abana o rio
Meninos atrás de gralhas contraem piolhos de
cerrados
Um lagarto de pernas areientas
medra na beira de um livro
Adeus rolinhas-casimiras.
O poeta descerra um cardume de nuvens
A estrada se abre como um pertence
Vermelhas trevas
O veneno ingerido pela mosca deixa
a curta raiz de sua existência
exposta às vermelhas trevas
Silêncio rubro
Crista de silêncio rubro, o galo
com frisos gelados de adaga no bico
madruga a veredas batidas
Modos ávidos
Os modos ávidos de um caracol subir
a uma parede com nódoas de idade e chuvas:
é como viajar à nascente dos insetos
Visgo tátil
O visgo tátil do canto é como
a aranha que urde sua doce alfombra
nas orvalhadas vaginas das violetas
Os caramujos-flores
Os caramujos-flores são um ramo de caramujos
que só saem de noite para passear
De preferência procuram paredes sujas, onde se
pregam e se pastam
Não sabemos ao certo, aliás, se pastam eles
essas paredes
Ou se são por elas pastados
Provavelmente se compensem
Paredes e caramujos se entendem por devaneios
Difícil imaginar uma devoração mútua
Antes diria que usam de uma transubstanciação:
paredes emprestam seus musgos aos caramujos-flores
E os caramujos-flores às paredes sua gosma
Assim desabrocham como os bestegos
(...)
Publicado no livro Arranjos para Assobio (1982).
In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
Rolinhas-casimiras
Rolas
pisam
a manhã
Lagartixas pastam
o sobrado
Um leque de peixe abana o rio
Meninos atrás de gralhas contraem piolhos de
cerrados
Um lagarto de pernas areientas
medra na beira de um livro
Adeus rolinhas-casimiras.
O poeta descerra um cardume de nuvens
A estrada se abre como um pertence
Vermelhas trevas
O veneno ingerido pela mosca deixa
a curta raiz de sua existência
exposta às vermelhas trevas
Silêncio rubro
Crista de silêncio rubro, o galo
com frisos gelados de adaga no bico
madruga a veredas batidas
Modos ávidos
Os modos ávidos de um caracol subir
a uma parede com nódoas de idade e chuvas:
é como viajar à nascente dos insetos
Visgo tátil
O visgo tátil do canto é como
a aranha que urde sua doce alfombra
nas orvalhadas vaginas das violetas
Os caramujos-flores
Os caramujos-flores são um ramo de caramujos
que só saem de noite para passear
De preferência procuram paredes sujas, onde se
pregam e se pastam
Não sabemos ao certo, aliás, se pastam eles
essas paredes
Ou se são por elas pastados
Provavelmente se compensem
Paredes e caramujos se entendem por devaneios
Difícil imaginar uma devoração mútua
Antes diria que usam de uma transubstanciação:
paredes emprestam seus musgos aos caramujos-flores
E os caramujos-flores às paredes sua gosma
Assim desabrocham como os bestegos
(...)
Publicado no livro Arranjos para Assobio (1982).
In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
3 622
Manoel de Barros
Exercícios Adjetivos
(...)
Rolinhas-casimiras
Rolas
pisam
a manhã
Lagartixas pastam
o sobrado
Um leque de peixe abana o rio
Meninos atrás de gralhas contraem piolhos de
cerrados
Um lagarto de pernas areientas
medra na beira de um livro
Adeus rolinhas-casimiras.
O poeta descerra um cardume de nuvens
A estrada se abre como um pertence
Vermelhas trevas
O veneno ingerido pela mosca deixa
a curta raiz de sua existência
exposta às vermelhas trevas
Silêncio rubro
Crista de silêncio rubro, o galo
com frisos gelados de adaga no bico
madruga a veredas batidas
Modos ávidos
Os modos ávidos de um caracol subir
a uma parede com nódoas de idade e chuvas:
é como viajar à nascente dos insetos
Visgo tátil
O visgo tátil do canto é como
a aranha que urde sua doce alfombra
nas orvalhadas vaginas das violetas
Os caramujos-flores
Os caramujos-flores são um ramo de caramujos
que só saem de noite para passear
De preferência procuram paredes sujas, onde se
pregam e se pastam
Não sabemos ao certo, aliás, se pastam eles
essas paredes
Ou se são por elas pastados
Provavelmente se compensem
Paredes e caramujos se entendem por devaneios
Difícil imaginar uma devoração mútua
Antes diria que usam de uma transubstanciação:
paredes emprestam seus musgos aos caramujos-flores
E os caramujos-flores às paredes sua gosma
Assim desabrocham como os bestegos
(...)
Publicado no livro Arranjos para Assobio (1982).
In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
Rolinhas-casimiras
Rolas
pisam
a manhã
Lagartixas pastam
o sobrado
Um leque de peixe abana o rio
Meninos atrás de gralhas contraem piolhos de
cerrados
Um lagarto de pernas areientas
medra na beira de um livro
Adeus rolinhas-casimiras.
O poeta descerra um cardume de nuvens
A estrada se abre como um pertence
Vermelhas trevas
O veneno ingerido pela mosca deixa
a curta raiz de sua existência
exposta às vermelhas trevas
Silêncio rubro
Crista de silêncio rubro, o galo
com frisos gelados de adaga no bico
madruga a veredas batidas
Modos ávidos
Os modos ávidos de um caracol subir
a uma parede com nódoas de idade e chuvas:
é como viajar à nascente dos insetos
Visgo tátil
O visgo tátil do canto é como
a aranha que urde sua doce alfombra
nas orvalhadas vaginas das violetas
Os caramujos-flores
Os caramujos-flores são um ramo de caramujos
que só saem de noite para passear
De preferência procuram paredes sujas, onde se
pregam e se pastam
Não sabemos ao certo, aliás, se pastam eles
essas paredes
Ou se são por elas pastados
Provavelmente se compensem
Paredes e caramujos se entendem por devaneios
Difícil imaginar uma devoração mútua
Antes diria que usam de uma transubstanciação:
paredes emprestam seus musgos aos caramujos-flores
E os caramujos-flores às paredes sua gosma
Assim desabrocham como os bestegos
(...)
Publicado no livro Arranjos para Assobio (1982).
In: BARROS, Manoel de. Gramática expositiva do chão: poesia quase toda. Introd. Berta Waldman. Il. Poty. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 199
3 622
Carlos Frydman
Nós
Para Luzia Salvi Frydman
Quando nos deparamos
meu outono era imenso
— um descampado queimado
um vazio sem ventos.
Tua afogada primavera trazia
brisas ao meu íntimo naufrágio.
Fertilizaste minha estiagem
numa repentina sementeira.
Havia um sol adormecido
em teu olhar distante, perdido,
abrandando minhas quimeras.
Nossos beijos foram temerosos
envoltos de incertezas.
Éramos cativos de tempos amargos,
fugidos de encontros vagos.
Despertamos um clamor de desejos sufocados,
e nos bebemos... e nos buscamos...
Nossas feições turvas e solitárias,
nossos peitos, campo fértil abandonado
— duas almas fugitivas enlaçaram-se.
Mas,
por sermos cativos inconformados
de longos tempos contritos,
nossos braços vacilaram nos abraços
e cruzamos nossos caminhos desencontrados.
Nossos primeiros atos,
com poucas palavras, harmonizaram-se.
Cresceu uma crença buscada,
e nossos corpos se confluíram
como dois rios incendiados
em nosso amor secreto e profundo,
onde no amor serenamos.
In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
Quando nos deparamos
meu outono era imenso
— um descampado queimado
um vazio sem ventos.
Tua afogada primavera trazia
brisas ao meu íntimo naufrágio.
Fertilizaste minha estiagem
numa repentina sementeira.
Havia um sol adormecido
em teu olhar distante, perdido,
abrandando minhas quimeras.
Nossos beijos foram temerosos
envoltos de incertezas.
Éramos cativos de tempos amargos,
fugidos de encontros vagos.
Despertamos um clamor de desejos sufocados,
e nos bebemos... e nos buscamos...
Nossas feições turvas e solitárias,
nossos peitos, campo fértil abandonado
— duas almas fugitivas enlaçaram-se.
Mas,
por sermos cativos inconformados
de longos tempos contritos,
nossos braços vacilaram nos abraços
e cruzamos nossos caminhos desencontrados.
Nossos primeiros atos,
com poucas palavras, harmonizaram-se.
Cresceu uma crença buscada,
e nossos corpos se confluíram
como dois rios incendiados
em nosso amor secreto e profundo,
onde no amor serenamos.
In: FRYDMAN, Carlos. Sintonia: poesia. Pref. Fábio Lucas. Apres. Henrique L. Alves. Campinas: Pontes, 1990
1 203
Marcus Accioly
A Terra
O Sertão
A — O Sertão principia
Depois que acaba a terra,
Ou, sendo mais exato,
Onde começa a pedra.
E segue o Sertão-Alto:
Pejeú, Moxotó,
Onde termina o mundo
E então começa o sol.
Ou desce o Sertão-Baixo
Do rio São Francisco,
Que ostenta uma paisagem
De pássaros e bichos.
Embora o tempo durma
Os sonos da estiagem,
Nas curtas invernadas
O verde abre a folhagem.
E quando as águas descem
Das cabeceiras curvas,
A pedra ressuscita
Lavrada pelas chuvas.
Poema integrante da série A Pedra Lavrada - Canto I.
In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.23. (Tempoesia, 18)
NOTA: Poema composto de 6 partes: O Sertão, A Caatinga, O Agreste, A Mata-Seca, A Mata-Úmida e O Litoral, todas elas compostas de 5 quadra
A — O Sertão principia
Depois que acaba a terra,
Ou, sendo mais exato,
Onde começa a pedra.
E segue o Sertão-Alto:
Pejeú, Moxotó,
Onde termina o mundo
E então começa o sol.
Ou desce o Sertão-Baixo
Do rio São Francisco,
Que ostenta uma paisagem
De pássaros e bichos.
Embora o tempo durma
Os sonos da estiagem,
Nas curtas invernadas
O verde abre a folhagem.
E quando as águas descem
Das cabeceiras curvas,
A pedra ressuscita
Lavrada pelas chuvas.
Poema integrante da série A Pedra Lavrada - Canto I.
In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.23. (Tempoesia, 18)
NOTA: Poema composto de 6 partes: O Sertão, A Caatinga, O Agreste, A Mata-Seca, A Mata-Úmida e O Litoral, todas elas compostas de 5 quadra
3 210
Marcus Accioly
A Terra
O Sertão
A — O Sertão principia
Depois que acaba a terra,
Ou, sendo mais exato,
Onde começa a pedra.
E segue o Sertão-Alto:
Pejeú, Moxotó,
Onde termina o mundo
E então começa o sol.
Ou desce o Sertão-Baixo
Do rio São Francisco,
Que ostenta uma paisagem
De pássaros e bichos.
Embora o tempo durma
Os sonos da estiagem,
Nas curtas invernadas
O verde abre a folhagem.
E quando as águas descem
Das cabeceiras curvas,
A pedra ressuscita
Lavrada pelas chuvas.
Poema integrante da série A Pedra Lavrada - Canto I.
In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.23. (Tempoesia, 18)
NOTA: Poema composto de 6 partes: O Sertão, A Caatinga, O Agreste, A Mata-Seca, A Mata-Úmida e O Litoral, todas elas compostas de 5 quadra
A — O Sertão principia
Depois que acaba a terra,
Ou, sendo mais exato,
Onde começa a pedra.
E segue o Sertão-Alto:
Pejeú, Moxotó,
Onde termina o mundo
E então começa o sol.
Ou desce o Sertão-Baixo
Do rio São Francisco,
Que ostenta uma paisagem
De pássaros e bichos.
Embora o tempo durma
Os sonos da estiagem,
Nas curtas invernadas
O verde abre a folhagem.
E quando as águas descem
Das cabeceiras curvas,
A pedra ressuscita
Lavrada pelas chuvas.
Poema integrante da série A Pedra Lavrada - Canto I.
In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.23. (Tempoesia, 18)
NOTA: Poema composto de 6 partes: O Sertão, A Caatinga, O Agreste, A Mata-Seca, A Mata-Úmida e O Litoral, todas elas compostas de 5 quadra
3 210
Marcus Accioly
A Terra
O Sertão
A — O Sertão principia
Depois que acaba a terra,
Ou, sendo mais exato,
Onde começa a pedra.
E segue o Sertão-Alto:
Pejeú, Moxotó,
Onde termina o mundo
E então começa o sol.
Ou desce o Sertão-Baixo
Do rio São Francisco,
Que ostenta uma paisagem
De pássaros e bichos.
Embora o tempo durma
Os sonos da estiagem,
Nas curtas invernadas
O verde abre a folhagem.
E quando as águas descem
Das cabeceiras curvas,
A pedra ressuscita
Lavrada pelas chuvas.
Poema integrante da série A Pedra Lavrada - Canto I.
In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.23. (Tempoesia, 18)
NOTA: Poema composto de 6 partes: O Sertão, A Caatinga, O Agreste, A Mata-Seca, A Mata-Úmida e O Litoral, todas elas compostas de 5 quadra
A — O Sertão principia
Depois que acaba a terra,
Ou, sendo mais exato,
Onde começa a pedra.
E segue o Sertão-Alto:
Pejeú, Moxotó,
Onde termina o mundo
E então começa o sol.
Ou desce o Sertão-Baixo
Do rio São Francisco,
Que ostenta uma paisagem
De pássaros e bichos.
Embora o tempo durma
Os sonos da estiagem,
Nas curtas invernadas
O verde abre a folhagem.
E quando as águas descem
Das cabeceiras curvas,
A pedra ressuscita
Lavrada pelas chuvas.
Poema integrante da série A Pedra Lavrada - Canto I.
In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.23. (Tempoesia, 18)
NOTA: Poema composto de 6 partes: O Sertão, A Caatinga, O Agreste, A Mata-Seca, A Mata-Úmida e O Litoral, todas elas compostas de 5 quadra
3 210
Marcus Accioly
A Terra
O Sertão
A — O Sertão principia
Depois que acaba a terra,
Ou, sendo mais exato,
Onde começa a pedra.
E segue o Sertão-Alto:
Pejeú, Moxotó,
Onde termina o mundo
E então começa o sol.
Ou desce o Sertão-Baixo
Do rio São Francisco,
Que ostenta uma paisagem
De pássaros e bichos.
Embora o tempo durma
Os sonos da estiagem,
Nas curtas invernadas
O verde abre a folhagem.
E quando as águas descem
Das cabeceiras curvas,
A pedra ressuscita
Lavrada pelas chuvas.
Poema integrante da série A Pedra Lavrada - Canto I.
In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.23. (Tempoesia, 18)
NOTA: Poema composto de 6 partes: O Sertão, A Caatinga, O Agreste, A Mata-Seca, A Mata-Úmida e O Litoral, todas elas compostas de 5 quadra
A — O Sertão principia
Depois que acaba a terra,
Ou, sendo mais exato,
Onde começa a pedra.
E segue o Sertão-Alto:
Pejeú, Moxotó,
Onde termina o mundo
E então começa o sol.
Ou desce o Sertão-Baixo
Do rio São Francisco,
Que ostenta uma paisagem
De pássaros e bichos.
Embora o tempo durma
Os sonos da estiagem,
Nas curtas invernadas
O verde abre a folhagem.
E quando as águas descem
Das cabeceiras curvas,
A pedra ressuscita
Lavrada pelas chuvas.
Poema integrante da série A Pedra Lavrada - Canto I.
In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.23. (Tempoesia, 18)
NOTA: Poema composto de 6 partes: O Sertão, A Caatinga, O Agreste, A Mata-Seca, A Mata-Úmida e O Litoral, todas elas compostas de 5 quadra
3 210
Olga Savary
Ouro Preto
Para Lilli Correia de Araújo
Ouro Preto no inverno, uma manhã,
é cicatriz
No alto, a praça nítida
e o bairro de Antônio Dias,
embaixo, derruído em bruma.
Por entre a cortina azul
filtra-se o azul no azul
do vidro da janela antiga:
— Bom dia, magia.
(Deitada vejo tudo — intacta —
como uma boneca de corda
sem corda há muito tempo).
Ouro Preto, 08 de julho de 1970
In: SAVARY, Olga. Espelho provisório. Pref. Ferreira Gullar. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1970
Ouro Preto no inverno, uma manhã,
é cicatriz
No alto, a praça nítida
e o bairro de Antônio Dias,
embaixo, derruído em bruma.
Por entre a cortina azul
filtra-se o azul no azul
do vidro da janela antiga:
— Bom dia, magia.
(Deitada vejo tudo — intacta —
como uma boneca de corda
sem corda há muito tempo).
Ouro Preto, 08 de julho de 1970
In: SAVARY, Olga. Espelho provisório. Pref. Ferreira Gullar. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1970
1 561
Olga Savary
Gazel
De amor, criei (incriado)
este jardim secreto
de rosas fechadas em seu tédio
e espero
aquele que virá e há de decifrar
hieróglifos de ternura desenhados
pela lua em meu corpo — seu legado.
O amado pedirá em minha boca
o segredo desvendado a todas as perguntas.
Eu lhe responderei sem palavras
mas com o perigoso silêncio parecido
ao rumor da água caindo
sem cessar.
Belém, julho de 1953
In: SAVARY, Olga. Espelho provisório. Pref. Ferreira Gullar. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1970
este jardim secreto
de rosas fechadas em seu tédio
e espero
aquele que virá e há de decifrar
hieróglifos de ternura desenhados
pela lua em meu corpo — seu legado.
O amado pedirá em minha boca
o segredo desvendado a todas as perguntas.
Eu lhe responderei sem palavras
mas com o perigoso silêncio parecido
ao rumor da água caindo
sem cessar.
Belém, julho de 1953
In: SAVARY, Olga. Espelho provisório. Pref. Ferreira Gullar. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1970
1 999
Olga Savary
Gazel
De amor, criei (incriado)
este jardim secreto
de rosas fechadas em seu tédio
e espero
aquele que virá e há de decifrar
hieróglifos de ternura desenhados
pela lua em meu corpo — seu legado.
O amado pedirá em minha boca
o segredo desvendado a todas as perguntas.
Eu lhe responderei sem palavras
mas com o perigoso silêncio parecido
ao rumor da água caindo
sem cessar.
Belém, julho de 1953
In: SAVARY, Olga. Espelho provisório. Pref. Ferreira Gullar. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1970
este jardim secreto
de rosas fechadas em seu tédio
e espero
aquele que virá e há de decifrar
hieróglifos de ternura desenhados
pela lua em meu corpo — seu legado.
O amado pedirá em minha boca
o segredo desvendado a todas as perguntas.
Eu lhe responderei sem palavras
mas com o perigoso silêncio parecido
ao rumor da água caindo
sem cessar.
Belém, julho de 1953
In: SAVARY, Olga. Espelho provisório. Pref. Ferreira Gullar. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1970
1 999
Marcus Accioly
LXXIX - Do Meio-Termo
Cortador de cana,
não me cortes, não,
que eu não sou sozinho
mas um batalhão.
Capineiro, acorda,
desce dessa rede,
desenterra a moça
do cabelo verde.
Casa-de-farinha,
roda o caititu,
ai, cuia do céu,
lua de beiju.
Xô-xô-xô, galinha,
crista de crueira,
teus ovos são seixos,
pedras da ladeira.
Cuche-cuche, porco,
lambuzado em mel,
troco a tua argola
pelo meu anel.
Cambiteiro velho,
leva no teu burro
esse Bicho brabo
que morreu de murro.
In: ACCIOLY, Marcus. Guriatã: um cordel para menino. II. José Cavalcanti e Ferreira [Dila]. 2.ed. São Paulo: Melhoramentos, 1988. p.150-151. (Série biblioteca juvenil
não me cortes, não,
que eu não sou sozinho
mas um batalhão.
Capineiro, acorda,
desce dessa rede,
desenterra a moça
do cabelo verde.
Casa-de-farinha,
roda o caititu,
ai, cuia do céu,
lua de beiju.
Xô-xô-xô, galinha,
crista de crueira,
teus ovos são seixos,
pedras da ladeira.
Cuche-cuche, porco,
lambuzado em mel,
troco a tua argola
pelo meu anel.
Cambiteiro velho,
leva no teu burro
esse Bicho brabo
que morreu de murro.
In: ACCIOLY, Marcus. Guriatã: um cordel para menino. II. José Cavalcanti e Ferreira [Dila]. 2.ed. São Paulo: Melhoramentos, 1988. p.150-151. (Série biblioteca juvenil
1 471
Sosigenes Costa
A Chuva Vem Cair na Ingauíra
Cada pingo d'água
é um cabelo da chuva.
Cada gole de água do arco-íris
é um aguaceiro.
Essa lagoa é o copo
por onde bebe um gigante.
Para a boca do arco-íris
só uma taça redonda.
Para a sede de um gigante
só a água de um pote rodeado de flores.
É na Lagoa dos Cocos
que o arco-íris bebe água.
Fui ver um dia
esse copo de flores.
Estômagos cheios
da água de um coco,
as nuvens vêm vindo.
Barriga pesada
com a água de um coco,
as nuvens vêm vindo.
Lagoa dos cocos,
Bandeja redonda cheia de copos de água.
Hi! vem chuva como cabelo de sapo.
Cada pingo d'água
é um cabelo da chuva.
Cada gole de água do arco-íris
é um aguaceiro.
E cada gota de orvalho
é um diamante pingo d'água.
Hi! vem chuva como cabelo de sapo.
Aqueles pássaros enormes,
que não podem voar direito,
de tanta água na barriga,
vão cair nesta volta do rio.
Adília, minha irmã, prepare-se:
Sobre a nossa casa vão cair do céu
sete copos de água.
Teu banho de hoje, Sinhá,
será dentro de um copo d'água.
(1940)
Publicado no livro Obra Poética (1958).
In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
é um cabelo da chuva.
Cada gole de água do arco-íris
é um aguaceiro.
Essa lagoa é o copo
por onde bebe um gigante.
Para a boca do arco-íris
só uma taça redonda.
Para a sede de um gigante
só a água de um pote rodeado de flores.
É na Lagoa dos Cocos
que o arco-íris bebe água.
Fui ver um dia
esse copo de flores.
Estômagos cheios
da água de um coco,
as nuvens vêm vindo.
Barriga pesada
com a água de um coco,
as nuvens vêm vindo.
Lagoa dos cocos,
Bandeja redonda cheia de copos de água.
Hi! vem chuva como cabelo de sapo.
Cada pingo d'água
é um cabelo da chuva.
Cada gole de água do arco-íris
é um aguaceiro.
E cada gota de orvalho
é um diamante pingo d'água.
Hi! vem chuva como cabelo de sapo.
Aqueles pássaros enormes,
que não podem voar direito,
de tanta água na barriga,
vão cair nesta volta do rio.
Adília, minha irmã, prepare-se:
Sobre a nossa casa vão cair do céu
sete copos de água.
Teu banho de hoje, Sinhá,
será dentro de um copo d'água.
(1940)
Publicado no livro Obra Poética (1958).
In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
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Sosigenes Costa
A Chuva Vem Cair na Ingauíra
Cada pingo d'água
é um cabelo da chuva.
Cada gole de água do arco-íris
é um aguaceiro.
Essa lagoa é o copo
por onde bebe um gigante.
Para a boca do arco-íris
só uma taça redonda.
Para a sede de um gigante
só a água de um pote rodeado de flores.
É na Lagoa dos Cocos
que o arco-íris bebe água.
Fui ver um dia
esse copo de flores.
Estômagos cheios
da água de um coco,
as nuvens vêm vindo.
Barriga pesada
com a água de um coco,
as nuvens vêm vindo.
Lagoa dos cocos,
Bandeja redonda cheia de copos de água.
Hi! vem chuva como cabelo de sapo.
Cada pingo d'água
é um cabelo da chuva.
Cada gole de água do arco-íris
é um aguaceiro.
E cada gota de orvalho
é um diamante pingo d'água.
Hi! vem chuva como cabelo de sapo.
Aqueles pássaros enormes,
que não podem voar direito,
de tanta água na barriga,
vão cair nesta volta do rio.
Adília, minha irmã, prepare-se:
Sobre a nossa casa vão cair do céu
sete copos de água.
Teu banho de hoje, Sinhá,
será dentro de um copo d'água.
(1940)
Publicado no livro Obra Poética (1958).
In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
é um cabelo da chuva.
Cada gole de água do arco-íris
é um aguaceiro.
Essa lagoa é o copo
por onde bebe um gigante.
Para a boca do arco-íris
só uma taça redonda.
Para a sede de um gigante
só a água de um pote rodeado de flores.
É na Lagoa dos Cocos
que o arco-íris bebe água.
Fui ver um dia
esse copo de flores.
Estômagos cheios
da água de um coco,
as nuvens vêm vindo.
Barriga pesada
com a água de um coco,
as nuvens vêm vindo.
Lagoa dos cocos,
Bandeja redonda cheia de copos de água.
Hi! vem chuva como cabelo de sapo.
Cada pingo d'água
é um cabelo da chuva.
Cada gole de água do arco-íris
é um aguaceiro.
E cada gota de orvalho
é um diamante pingo d'água.
Hi! vem chuva como cabelo de sapo.
Aqueles pássaros enormes,
que não podem voar direito,
de tanta água na barriga,
vão cair nesta volta do rio.
Adília, minha irmã, prepare-se:
Sobre a nossa casa vão cair do céu
sete copos de água.
Teu banho de hoje, Sinhá,
será dentro de um copo d'água.
(1940)
Publicado no livro Obra Poética (1958).
In: COSTA, Sosígenes. Obra poética. 2.ed. rev. e aum. por José Paulo Paes. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 197
1 262
Marcus Accioly
Os Bichos
O Jumento
I — Pestanas de nuvens no olhão do sol vivo
Um céu de dragões entre espadas vermelhas
As folhas de abano das grandes orelhas
Os cascos rachados no solo exaustivo
A seca o nordeste o oceano arbustivo
O poço das águas que a sede descobre
Os ossos debaixo dos pêlos de cobre
A sempre-odisséia do audaz-andarilho
O pasto de areia e sabugo de milho
E o zurro-relógio do horário de pobre.
Poema integrante da série A Pedra Lavrada - Canto I.
In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.65. (Tempoesia, 18)
NOTA: Poema composto de 8 décimas, cada uma dedicada a um animal: A Onça, O Boi, O Cavalo, O Jumento, O Carneiro, A Cabra, A Cobra e O Cachorr
I — Pestanas de nuvens no olhão do sol vivo
Um céu de dragões entre espadas vermelhas
As folhas de abano das grandes orelhas
Os cascos rachados no solo exaustivo
A seca o nordeste o oceano arbustivo
O poço das águas que a sede descobre
Os ossos debaixo dos pêlos de cobre
A sempre-odisséia do audaz-andarilho
O pasto de areia e sabugo de milho
E o zurro-relógio do horário de pobre.
Poema integrante da série A Pedra Lavrada - Canto I.
In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.65. (Tempoesia, 18)
NOTA: Poema composto de 8 décimas, cada uma dedicada a um animal: A Onça, O Boi, O Cavalo, O Jumento, O Carneiro, A Cabra, A Cobra e O Cachorr
1 844