Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Marcus Accioly
Predamar
Na véspera do sol
Ou antevéspera,
Deslogo quando os ventos
Soltos despertam,
O canto, céu de nuvens,
Bando de araras,
Entreabre as suas plumas
E acende as barras.
Quando a luz de verão
Do solão rubro
Na árvore do mar
Abre o seu fruto,
O canto, vela aberta
No mar de fora,
Inventa outra manhã
Dentro da aurora.
Quando o ouriço do sol
Rosa-dos-ventos
Remoinha no mar
Seus cataventos,
O canto, asa de garça,
Espuma branca,
Debruça sobre a praia
Sua varanda.
Aprendido-aprendiz
O canto escuta
A máquina do mar
Formando as lutas
As sirenes dos búzios
Os altos ventos
A voz-sempre do mar
E outros silêncios.
O canto, agulha e linha
Tecendo a rede
Com seu fio mais lógico,
Malha de peixe,
Calculando os espaços
No metro igual
Preciso e matemático
De João Cabral.
O canto, lente aquática
Que sabe as cores
Do arco-íris do sol,
Das antiflores,
Do oceano da América
E outras lembranças
Que debruçam Drummond
No mar da infância.
O canto, anzol de pesca,
Manuel Bandeira,
Arpão-fisga-espinhel,
Fruta praieira,
Flor-de-coral, cal-virgem,
Peixes marinhos,
Covos do mar, gaiolas
Sem passarinhos.
O canto, ondas diversas,
Jorge de Lima,
Piso do céu, maralto
Chovido em cima,
Vento, boca-de-barra
Que chama os rios,
Mar que devora os portos
E os seus navios
(...)
Poema integrante da série Feira de Pássaros - Canto III.
In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.140-142. (Tempoesia, 18)
NOTA: Poema composto de 3 partes, indicadas pelo sinal de parágrafo (§), todas compostas de 4 oitavas. Referência ao poema "América", do livro A ROSA DO POVO (1945), de Carlos Drummond de Andrad
Ou antevéspera,
Deslogo quando os ventos
Soltos despertam,
O canto, céu de nuvens,
Bando de araras,
Entreabre as suas plumas
E acende as barras.
Quando a luz de verão
Do solão rubro
Na árvore do mar
Abre o seu fruto,
O canto, vela aberta
No mar de fora,
Inventa outra manhã
Dentro da aurora.
Quando o ouriço do sol
Rosa-dos-ventos
Remoinha no mar
Seus cataventos,
O canto, asa de garça,
Espuma branca,
Debruça sobre a praia
Sua varanda.
Aprendido-aprendiz
O canto escuta
A máquina do mar
Formando as lutas
As sirenes dos búzios
Os altos ventos
A voz-sempre do mar
E outros silêncios.
O canto, agulha e linha
Tecendo a rede
Com seu fio mais lógico,
Malha de peixe,
Calculando os espaços
No metro igual
Preciso e matemático
De João Cabral.
O canto, lente aquática
Que sabe as cores
Do arco-íris do sol,
Das antiflores,
Do oceano da América
E outras lembranças
Que debruçam Drummond
No mar da infância.
O canto, anzol de pesca,
Manuel Bandeira,
Arpão-fisga-espinhel,
Fruta praieira,
Flor-de-coral, cal-virgem,
Peixes marinhos,
Covos do mar, gaiolas
Sem passarinhos.
O canto, ondas diversas,
Jorge de Lima,
Piso do céu, maralto
Chovido em cima,
Vento, boca-de-barra
Que chama os rios,
Mar que devora os portos
E os seus navios
(...)
Poema integrante da série Feira de Pássaros - Canto III.
In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.140-142. (Tempoesia, 18)
NOTA: Poema composto de 3 partes, indicadas pelo sinal de parágrafo (§), todas compostas de 4 oitavas. Referência ao poema "América", do livro A ROSA DO POVO (1945), de Carlos Drummond de Andrad
1 597
Marcus Accioly
Predamar
Na véspera do sol
Ou antevéspera,
Deslogo quando os ventos
Soltos despertam,
O canto, céu de nuvens,
Bando de araras,
Entreabre as suas plumas
E acende as barras.
Quando a luz de verão
Do solão rubro
Na árvore do mar
Abre o seu fruto,
O canto, vela aberta
No mar de fora,
Inventa outra manhã
Dentro da aurora.
Quando o ouriço do sol
Rosa-dos-ventos
Remoinha no mar
Seus cataventos,
O canto, asa de garça,
Espuma branca,
Debruça sobre a praia
Sua varanda.
Aprendido-aprendiz
O canto escuta
A máquina do mar
Formando as lutas
As sirenes dos búzios
Os altos ventos
A voz-sempre do mar
E outros silêncios.
O canto, agulha e linha
Tecendo a rede
Com seu fio mais lógico,
Malha de peixe,
Calculando os espaços
No metro igual
Preciso e matemático
De João Cabral.
O canto, lente aquática
Que sabe as cores
Do arco-íris do sol,
Das antiflores,
Do oceano da América
E outras lembranças
Que debruçam Drummond
No mar da infância.
O canto, anzol de pesca,
Manuel Bandeira,
Arpão-fisga-espinhel,
Fruta praieira,
Flor-de-coral, cal-virgem,
Peixes marinhos,
Covos do mar, gaiolas
Sem passarinhos.
O canto, ondas diversas,
Jorge de Lima,
Piso do céu, maralto
Chovido em cima,
Vento, boca-de-barra
Que chama os rios,
Mar que devora os portos
E os seus navios
(...)
Poema integrante da série Feira de Pássaros - Canto III.
In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.140-142. (Tempoesia, 18)
NOTA: Poema composto de 3 partes, indicadas pelo sinal de parágrafo (§), todas compostas de 4 oitavas. Referência ao poema "América", do livro A ROSA DO POVO (1945), de Carlos Drummond de Andrad
Ou antevéspera,
Deslogo quando os ventos
Soltos despertam,
O canto, céu de nuvens,
Bando de araras,
Entreabre as suas plumas
E acende as barras.
Quando a luz de verão
Do solão rubro
Na árvore do mar
Abre o seu fruto,
O canto, vela aberta
No mar de fora,
Inventa outra manhã
Dentro da aurora.
Quando o ouriço do sol
Rosa-dos-ventos
Remoinha no mar
Seus cataventos,
O canto, asa de garça,
Espuma branca,
Debruça sobre a praia
Sua varanda.
Aprendido-aprendiz
O canto escuta
A máquina do mar
Formando as lutas
As sirenes dos búzios
Os altos ventos
A voz-sempre do mar
E outros silêncios.
O canto, agulha e linha
Tecendo a rede
Com seu fio mais lógico,
Malha de peixe,
Calculando os espaços
No metro igual
Preciso e matemático
De João Cabral.
O canto, lente aquática
Que sabe as cores
Do arco-íris do sol,
Das antiflores,
Do oceano da América
E outras lembranças
Que debruçam Drummond
No mar da infância.
O canto, anzol de pesca,
Manuel Bandeira,
Arpão-fisga-espinhel,
Fruta praieira,
Flor-de-coral, cal-virgem,
Peixes marinhos,
Covos do mar, gaiolas
Sem passarinhos.
O canto, ondas diversas,
Jorge de Lima,
Piso do céu, maralto
Chovido em cima,
Vento, boca-de-barra
Que chama os rios,
Mar que devora os portos
E os seus navios
(...)
Poema integrante da série Feira de Pássaros - Canto III.
In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.140-142. (Tempoesia, 18)
NOTA: Poema composto de 3 partes, indicadas pelo sinal de parágrafo (§), todas compostas de 4 oitavas. Referência ao poema "América", do livro A ROSA DO POVO (1945), de Carlos Drummond de Andrad
1 597
Marcus Accioly
Predamar
Na véspera do sol
Ou antevéspera,
Deslogo quando os ventos
Soltos despertam,
O canto, céu de nuvens,
Bando de araras,
Entreabre as suas plumas
E acende as barras.
Quando a luz de verão
Do solão rubro
Na árvore do mar
Abre o seu fruto,
O canto, vela aberta
No mar de fora,
Inventa outra manhã
Dentro da aurora.
Quando o ouriço do sol
Rosa-dos-ventos
Remoinha no mar
Seus cataventos,
O canto, asa de garça,
Espuma branca,
Debruça sobre a praia
Sua varanda.
Aprendido-aprendiz
O canto escuta
A máquina do mar
Formando as lutas
As sirenes dos búzios
Os altos ventos
A voz-sempre do mar
E outros silêncios.
O canto, agulha e linha
Tecendo a rede
Com seu fio mais lógico,
Malha de peixe,
Calculando os espaços
No metro igual
Preciso e matemático
De João Cabral.
O canto, lente aquática
Que sabe as cores
Do arco-íris do sol,
Das antiflores,
Do oceano da América
E outras lembranças
Que debruçam Drummond
No mar da infância.
O canto, anzol de pesca,
Manuel Bandeira,
Arpão-fisga-espinhel,
Fruta praieira,
Flor-de-coral, cal-virgem,
Peixes marinhos,
Covos do mar, gaiolas
Sem passarinhos.
O canto, ondas diversas,
Jorge de Lima,
Piso do céu, maralto
Chovido em cima,
Vento, boca-de-barra
Que chama os rios,
Mar que devora os portos
E os seus navios
(...)
Poema integrante da série Feira de Pássaros - Canto III.
In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.140-142. (Tempoesia, 18)
NOTA: Poema composto de 3 partes, indicadas pelo sinal de parágrafo (§), todas compostas de 4 oitavas. Referência ao poema "América", do livro A ROSA DO POVO (1945), de Carlos Drummond de Andrad
Ou antevéspera,
Deslogo quando os ventos
Soltos despertam,
O canto, céu de nuvens,
Bando de araras,
Entreabre as suas plumas
E acende as barras.
Quando a luz de verão
Do solão rubro
Na árvore do mar
Abre o seu fruto,
O canto, vela aberta
No mar de fora,
Inventa outra manhã
Dentro da aurora.
Quando o ouriço do sol
Rosa-dos-ventos
Remoinha no mar
Seus cataventos,
O canto, asa de garça,
Espuma branca,
Debruça sobre a praia
Sua varanda.
Aprendido-aprendiz
O canto escuta
A máquina do mar
Formando as lutas
As sirenes dos búzios
Os altos ventos
A voz-sempre do mar
E outros silêncios.
O canto, agulha e linha
Tecendo a rede
Com seu fio mais lógico,
Malha de peixe,
Calculando os espaços
No metro igual
Preciso e matemático
De João Cabral.
O canto, lente aquática
Que sabe as cores
Do arco-íris do sol,
Das antiflores,
Do oceano da América
E outras lembranças
Que debruçam Drummond
No mar da infância.
O canto, anzol de pesca,
Manuel Bandeira,
Arpão-fisga-espinhel,
Fruta praieira,
Flor-de-coral, cal-virgem,
Peixes marinhos,
Covos do mar, gaiolas
Sem passarinhos.
O canto, ondas diversas,
Jorge de Lima,
Piso do céu, maralto
Chovido em cima,
Vento, boca-de-barra
Que chama os rios,
Mar que devora os portos
E os seus navios
(...)
Poema integrante da série Feira de Pássaros - Canto III.
In: ACCIOLY, Marcus. Nordestinados. 2.ed. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro; Brasília: INL, 1978. p.140-142. (Tempoesia, 18)
NOTA: Poema composto de 3 partes, indicadas pelo sinal de parágrafo (§), todas compostas de 4 oitavas. Referência ao poema "América", do livro A ROSA DO POVO (1945), de Carlos Drummond de Andrad
1 597
Menotti del Picchia
Germinal - 1
Nuvens voam pelo ar como bandos de garças.
Artista boêmio, o sol, mescla na cordilheira pinceladas esparsas
de ouro fosco. Num mastro apruma-se a bandeira
de S. João desfraldando o seu alvo losango.
Juca Mulato cisma. A sonolência vence-o.
Vem na tarde que expira e na voz de um curiango
o narcótico do ar parado, esse veneno
que há no ventre da treva e na alma do silêncio.
Um sorriso ilumina o seu rosto moreno.
No piquete relincha um poldro; um galo álacre
tatala a asa triunfal, ergue a crista de lacre,
clarina a recolher entre varas de cerdos
mexem-se ruivos bois processionais e lerdos
e num magote escuro a manada se abisma
na treva.
Anoiteceu.
Juca Mulato cisma.
Publicado no livro Juca Mulato (1917).
In: DEL PICCHIA, Menotti. Juca Mulato. Introd. Osmar Barbosa. Il. Tarsila do Amaral, Mozinha e Autor. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d. p.17. (Prestígio
Artista boêmio, o sol, mescla na cordilheira pinceladas esparsas
de ouro fosco. Num mastro apruma-se a bandeira
de S. João desfraldando o seu alvo losango.
Juca Mulato cisma. A sonolência vence-o.
Vem na tarde que expira e na voz de um curiango
o narcótico do ar parado, esse veneno
que há no ventre da treva e na alma do silêncio.
Um sorriso ilumina o seu rosto moreno.
No piquete relincha um poldro; um galo álacre
tatala a asa triunfal, ergue a crista de lacre,
clarina a recolher entre varas de cerdos
mexem-se ruivos bois processionais e lerdos
e num magote escuro a manada se abisma
na treva.
Anoiteceu.
Juca Mulato cisma.
Publicado no livro Juca Mulato (1917).
In: DEL PICCHIA, Menotti. Juca Mulato. Introd. Osmar Barbosa. Il. Tarsila do Amaral, Mozinha e Autor. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d. p.17. (Prestígio
1 638
Menotti del Picchia
Germinal - 1
Nuvens voam pelo ar como bandos de garças.
Artista boêmio, o sol, mescla na cordilheira pinceladas esparsas
de ouro fosco. Num mastro apruma-se a bandeira
de S. João desfraldando o seu alvo losango.
Juca Mulato cisma. A sonolência vence-o.
Vem na tarde que expira e na voz de um curiango
o narcótico do ar parado, esse veneno
que há no ventre da treva e na alma do silêncio.
Um sorriso ilumina o seu rosto moreno.
No piquete relincha um poldro; um galo álacre
tatala a asa triunfal, ergue a crista de lacre,
clarina a recolher entre varas de cerdos
mexem-se ruivos bois processionais e lerdos
e num magote escuro a manada se abisma
na treva.
Anoiteceu.
Juca Mulato cisma.
Publicado no livro Juca Mulato (1917).
In: DEL PICCHIA, Menotti. Juca Mulato. Introd. Osmar Barbosa. Il. Tarsila do Amaral, Mozinha e Autor. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d. p.17. (Prestígio
Artista boêmio, o sol, mescla na cordilheira pinceladas esparsas
de ouro fosco. Num mastro apruma-se a bandeira
de S. João desfraldando o seu alvo losango.
Juca Mulato cisma. A sonolência vence-o.
Vem na tarde que expira e na voz de um curiango
o narcótico do ar parado, esse veneno
que há no ventre da treva e na alma do silêncio.
Um sorriso ilumina o seu rosto moreno.
No piquete relincha um poldro; um galo álacre
tatala a asa triunfal, ergue a crista de lacre,
clarina a recolher entre varas de cerdos
mexem-se ruivos bois processionais e lerdos
e num magote escuro a manada se abisma
na treva.
Anoiteceu.
Juca Mulato cisma.
Publicado no livro Juca Mulato (1917).
In: DEL PICCHIA, Menotti. Juca Mulato. Introd. Osmar Barbosa. Il. Tarsila do Amaral, Mozinha e Autor. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d. p.17. (Prestígio
1 638
Lila Ripoll
Neve
A neve desce
fria e fina.
A neve cresce
e há neblina.
Neva na rua,
neva em meu peito.
Cai neve da lua
no mar,
e em meu leito.
A neve gela
meu pensamento.
Cai neve, neve
nos fios do vento.
A neve desce
pelo meu leito.
A neve cresce
sobre meu peito.
Cai neve, neve
cai e se adensa.
Cai neve, leve,
sobre quem pensa.
Publicado no livro Poemas e Canções (1957)
In: RIPOLL, Lila. Ilha difícil: antologia poética. Sel. e apres. Maria da Glória Bordini. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1987. p.5
fria e fina.
A neve cresce
e há neblina.
Neva na rua,
neva em meu peito.
Cai neve da lua
no mar,
e em meu leito.
A neve gela
meu pensamento.
Cai neve, neve
nos fios do vento.
A neve desce
pelo meu leito.
A neve cresce
sobre meu peito.
Cai neve, neve
cai e se adensa.
Cai neve, leve,
sobre quem pensa.
Publicado no livro Poemas e Canções (1957)
In: RIPOLL, Lila. Ilha difícil: antologia poética. Sel. e apres. Maria da Glória Bordini. Porto Alegre: Ed. da Universidade/UFRGS, 1987. p.5
1 630
da Costa e Silva
O Sapo
Feio e fátuo a fingir de grande, gordo e guapo;
Hediondo e humilde a inchar de empáfia e ocioso orgulho,
Viscoso de vaidade, entronado no entulho,
Cisma na solidão, sorno e soturno, o sapo.
Os bugalhos em brasa, a palpitar o papo,
Acocorado, absorto, ao mínimo barulho
Que o sossego lhe suste, em súbito mergulho
Se atasca no atascal; e ei-lo escondido e escapo.
Patriarca do paul, pelo pântano parco
De água, a arfar e a imergir no lodo liso e imundo,
O batráquio bubuia, o corpo curvo em arco...
E sobe à superfície o rei das rãs, rotundo,
Glabro e inchado, a coaxar no lamaçal do charco,
Como o ser mais soberbo e singular do mundo.
Publicado no livro Zodíaco (1917). Poema integrante da série Poemas da Fauna.
In: SILVA, Da Costa e. Poesias completas. Org. Alberto da Costa e Silva. 3.ed. rev. e anot. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; Brasília: INL, 1985. p.16
Hediondo e humilde a inchar de empáfia e ocioso orgulho,
Viscoso de vaidade, entronado no entulho,
Cisma na solidão, sorno e soturno, o sapo.
Os bugalhos em brasa, a palpitar o papo,
Acocorado, absorto, ao mínimo barulho
Que o sossego lhe suste, em súbito mergulho
Se atasca no atascal; e ei-lo escondido e escapo.
Patriarca do paul, pelo pântano parco
De água, a arfar e a imergir no lodo liso e imundo,
O batráquio bubuia, o corpo curvo em arco...
E sobe à superfície o rei das rãs, rotundo,
Glabro e inchado, a coaxar no lamaçal do charco,
Como o ser mais soberbo e singular do mundo.
Publicado no livro Zodíaco (1917). Poema integrante da série Poemas da Fauna.
In: SILVA, Da Costa e. Poesias completas. Org. Alberto da Costa e Silva. 3.ed. rev. e anot. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; Brasília: INL, 1985. p.16
2 371
Ronald de Carvalho
Écloga Tropical
Entre a chuva de ouro das carambolas
e o veludo polido das jabuticabas,
sobre o gramado morno,
onde voam borboletas e besouros,
sobre o gramado lustroso
onde pulam gafanhotos de asas verdes e vermelhas,
Salta uma ronda de crianças!
O ar é todo perfume,
perfume tépido de ervas, raízes e folhagens.
O ar cheira a mel de abelhas...
E há nos olhos castanhos das crianças
a doçura e o travor das resinas selvagens,
e há nas suas vozes agudas e dissonantes
um áureo rumor de flautas, de trilos, de zumbidos
e de águas buliçosas...
Publicado no livro Epigramas Irônicos e Sentimentais (1922).
In: CARVALHO, Ronald de. O espelho de Ariel e poemas escolhidos. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Nova Aguilar; Brasília: INL, 1976. p.167. (Manancial, 44
e o veludo polido das jabuticabas,
sobre o gramado morno,
onde voam borboletas e besouros,
sobre o gramado lustroso
onde pulam gafanhotos de asas verdes e vermelhas,
Salta uma ronda de crianças!
O ar é todo perfume,
perfume tépido de ervas, raízes e folhagens.
O ar cheira a mel de abelhas...
E há nos olhos castanhos das crianças
a doçura e o travor das resinas selvagens,
e há nas suas vozes agudas e dissonantes
um áureo rumor de flautas, de trilos, de zumbidos
e de águas buliçosas...
Publicado no livro Epigramas Irônicos e Sentimentais (1922).
In: CARVALHO, Ronald de. O espelho de Ariel e poemas escolhidos. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Nova Aguilar; Brasília: INL, 1976. p.167. (Manancial, 44
2 355
Ronald de Carvalho
Écloga Tropical
Entre a chuva de ouro das carambolas
e o veludo polido das jabuticabas,
sobre o gramado morno,
onde voam borboletas e besouros,
sobre o gramado lustroso
onde pulam gafanhotos de asas verdes e vermelhas,
Salta uma ronda de crianças!
O ar é todo perfume,
perfume tépido de ervas, raízes e folhagens.
O ar cheira a mel de abelhas...
E há nos olhos castanhos das crianças
a doçura e o travor das resinas selvagens,
e há nas suas vozes agudas e dissonantes
um áureo rumor de flautas, de trilos, de zumbidos
e de águas buliçosas...
Publicado no livro Epigramas Irônicos e Sentimentais (1922).
In: CARVALHO, Ronald de. O espelho de Ariel e poemas escolhidos. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Nova Aguilar; Brasília: INL, 1976. p.167. (Manancial, 44
e o veludo polido das jabuticabas,
sobre o gramado morno,
onde voam borboletas e besouros,
sobre o gramado lustroso
onde pulam gafanhotos de asas verdes e vermelhas,
Salta uma ronda de crianças!
O ar é todo perfume,
perfume tépido de ervas, raízes e folhagens.
O ar cheira a mel de abelhas...
E há nos olhos castanhos das crianças
a doçura e o travor das resinas selvagens,
e há nas suas vozes agudas e dissonantes
um áureo rumor de flautas, de trilos, de zumbidos
e de águas buliçosas...
Publicado no livro Epigramas Irônicos e Sentimentais (1922).
In: CARVALHO, Ronald de. O espelho de Ariel e poemas escolhidos. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Nova Aguilar; Brasília: INL, 1976. p.167. (Manancial, 44
2 355
Álvaro Moreyra
Elegia da Bruma
Réquiem do Pôr-do-Sol... A Tarde ajoelha e canta,
num mistério augural de cinza e de ouro vivo...
E o hospital, sob a Tarde, entre Árvores, levanta
o seu vulto de pedra, estranho e pensativo...
Ao incenso do Ocaso, a Paisagem parece
movimentar-se, orando, em gestos musicais...
É o silêncio que entoa harmonias de Prece
com a ignota orquestração dos mudos Vegetais...
Passos batem a estrada... E pela estrada, agora,
seguem ranchos buscando o sossego das casas...
Desaparecem... Vão... E ao misticismo da hora,
no ar silente, em quietude, andam saudades de Asas...
A escuridão aumenta... E há vozes... algazarras...
Das águas-verdes cresce um rouco cantochão...
Trilam grilos... E ao alto, as primeiras cigarras
despertam, respondendo... Aumenta a escuridão...
Súbito, em derredor, tudo se cala... E adiante,
ermo, queda o hospital como quem está ouvindo...
O Plenilúnio surge, em êxtase, distante,
branco, a Terra a abençoar... Vai subindo... subindo...
E à alva bênção da Luz, os contornos avultam
na precisão da Linha — hartos, a destacar...
Começa a Noite... E o Sono... E os Sonhos que sepultam
a Tristeza-da-Vida aos que podem sonhar...
E quando a claridade, em chapa, de repente,
cai sobre a frontaria, e a asperge, e a envolve, ondeando,
geme um órgão lá dentro, enevoado, dolente,
como se fora o Luar que estivesse tocando...
A Alma da Terra fala à vibração da Terra...
Espasmos de sofrer!... A Dor a sete tons!...
E ascende... e afunda... e ecoa... e pelos longes erra
um ritmo nebuloso, onde há sombras de sons...
Publicado no livro Legenda da luz e da vida (1911).
In: ZILBERMAN, Regina. Álvaro Moreyra. 2.ed. Porto Alegre: IEL, 1990. p.22-23. (Letras rio-grandenses
num mistério augural de cinza e de ouro vivo...
E o hospital, sob a Tarde, entre Árvores, levanta
o seu vulto de pedra, estranho e pensativo...
Ao incenso do Ocaso, a Paisagem parece
movimentar-se, orando, em gestos musicais...
É o silêncio que entoa harmonias de Prece
com a ignota orquestração dos mudos Vegetais...
Passos batem a estrada... E pela estrada, agora,
seguem ranchos buscando o sossego das casas...
Desaparecem... Vão... E ao misticismo da hora,
no ar silente, em quietude, andam saudades de Asas...
A escuridão aumenta... E há vozes... algazarras...
Das águas-verdes cresce um rouco cantochão...
Trilam grilos... E ao alto, as primeiras cigarras
despertam, respondendo... Aumenta a escuridão...
Súbito, em derredor, tudo se cala... E adiante,
ermo, queda o hospital como quem está ouvindo...
O Plenilúnio surge, em êxtase, distante,
branco, a Terra a abençoar... Vai subindo... subindo...
E à alva bênção da Luz, os contornos avultam
na precisão da Linha — hartos, a destacar...
Começa a Noite... E o Sono... E os Sonhos que sepultam
a Tristeza-da-Vida aos que podem sonhar...
E quando a claridade, em chapa, de repente,
cai sobre a frontaria, e a asperge, e a envolve, ondeando,
geme um órgão lá dentro, enevoado, dolente,
como se fora o Luar que estivesse tocando...
A Alma da Terra fala à vibração da Terra...
Espasmos de sofrer!... A Dor a sete tons!...
E ascende... e afunda... e ecoa... e pelos longes erra
um ritmo nebuloso, onde há sombras de sons...
Publicado no livro Legenda da luz e da vida (1911).
In: ZILBERMAN, Regina. Álvaro Moreyra. 2.ed. Porto Alegre: IEL, 1990. p.22-23. (Letras rio-grandenses
2 023
Álvaro Moreyra
Elegia da Bruma
Réquiem do Pôr-do-Sol... A Tarde ajoelha e canta,
num mistério augural de cinza e de ouro vivo...
E o hospital, sob a Tarde, entre Árvores, levanta
o seu vulto de pedra, estranho e pensativo...
Ao incenso do Ocaso, a Paisagem parece
movimentar-se, orando, em gestos musicais...
É o silêncio que entoa harmonias de Prece
com a ignota orquestração dos mudos Vegetais...
Passos batem a estrada... E pela estrada, agora,
seguem ranchos buscando o sossego das casas...
Desaparecem... Vão... E ao misticismo da hora,
no ar silente, em quietude, andam saudades de Asas...
A escuridão aumenta... E há vozes... algazarras...
Das águas-verdes cresce um rouco cantochão...
Trilam grilos... E ao alto, as primeiras cigarras
despertam, respondendo... Aumenta a escuridão...
Súbito, em derredor, tudo se cala... E adiante,
ermo, queda o hospital como quem está ouvindo...
O Plenilúnio surge, em êxtase, distante,
branco, a Terra a abençoar... Vai subindo... subindo...
E à alva bênção da Luz, os contornos avultam
na precisão da Linha — hartos, a destacar...
Começa a Noite... E o Sono... E os Sonhos que sepultam
a Tristeza-da-Vida aos que podem sonhar...
E quando a claridade, em chapa, de repente,
cai sobre a frontaria, e a asperge, e a envolve, ondeando,
geme um órgão lá dentro, enevoado, dolente,
como se fora o Luar que estivesse tocando...
A Alma da Terra fala à vibração da Terra...
Espasmos de sofrer!... A Dor a sete tons!...
E ascende... e afunda... e ecoa... e pelos longes erra
um ritmo nebuloso, onde há sombras de sons...
Publicado no livro Legenda da luz e da vida (1911).
In: ZILBERMAN, Regina. Álvaro Moreyra. 2.ed. Porto Alegre: IEL, 1990. p.22-23. (Letras rio-grandenses
num mistério augural de cinza e de ouro vivo...
E o hospital, sob a Tarde, entre Árvores, levanta
o seu vulto de pedra, estranho e pensativo...
Ao incenso do Ocaso, a Paisagem parece
movimentar-se, orando, em gestos musicais...
É o silêncio que entoa harmonias de Prece
com a ignota orquestração dos mudos Vegetais...
Passos batem a estrada... E pela estrada, agora,
seguem ranchos buscando o sossego das casas...
Desaparecem... Vão... E ao misticismo da hora,
no ar silente, em quietude, andam saudades de Asas...
A escuridão aumenta... E há vozes... algazarras...
Das águas-verdes cresce um rouco cantochão...
Trilam grilos... E ao alto, as primeiras cigarras
despertam, respondendo... Aumenta a escuridão...
Súbito, em derredor, tudo se cala... E adiante,
ermo, queda o hospital como quem está ouvindo...
O Plenilúnio surge, em êxtase, distante,
branco, a Terra a abençoar... Vai subindo... subindo...
E à alva bênção da Luz, os contornos avultam
na precisão da Linha — hartos, a destacar...
Começa a Noite... E o Sono... E os Sonhos que sepultam
a Tristeza-da-Vida aos que podem sonhar...
E quando a claridade, em chapa, de repente,
cai sobre a frontaria, e a asperge, e a envolve, ondeando,
geme um órgão lá dentro, enevoado, dolente,
como se fora o Luar que estivesse tocando...
A Alma da Terra fala à vibração da Terra...
Espasmos de sofrer!... A Dor a sete tons!...
E ascende... e afunda... e ecoa... e pelos longes erra
um ritmo nebuloso, onde há sombras de sons...
Publicado no livro Legenda da luz e da vida (1911).
In: ZILBERMAN, Regina. Álvaro Moreyra. 2.ed. Porto Alegre: IEL, 1990. p.22-23. (Letras rio-grandenses
2 023
Fontoura Xavier
Revolta do Túmulo
A TERRA (ao aproximar-se um cadáver)
E ter de abrir minhas entranhas
Para guardar este tirano!...
Ah! que eu não possa, acesa em sanhas,
Num grande esforço soberano,
Erguê-lo acima das montanhas
E arremessá-lo no aceano!...
O OCEANO (à parte)
Tão pronto caia
Sobre meu dorso,
Que eu, sem esforço,
Cuspo-o na praia.
In: XAVIER, Fontoura. Opalas. Apres. Regina Zilberman. 5.ed. Porto Alegre: Centro de Pesquisas Literárias - PUCRS, 1984. p.39-40. Poema integrante da série Musa Livre
E ter de abrir minhas entranhas
Para guardar este tirano!...
Ah! que eu não possa, acesa em sanhas,
Num grande esforço soberano,
Erguê-lo acima das montanhas
E arremessá-lo no aceano!...
O OCEANO (à parte)
Tão pronto caia
Sobre meu dorso,
Que eu, sem esforço,
Cuspo-o na praia.
In: XAVIER, Fontoura. Opalas. Apres. Regina Zilberman. 5.ed. Porto Alegre: Centro de Pesquisas Literárias - PUCRS, 1984. p.39-40. Poema integrante da série Musa Livre
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Fontoura Xavier
Revolta do Túmulo
A TERRA (ao aproximar-se um cadáver)
E ter de abrir minhas entranhas
Para guardar este tirano!...
Ah! que eu não possa, acesa em sanhas,
Num grande esforço soberano,
Erguê-lo acima das montanhas
E arremessá-lo no aceano!...
O OCEANO (à parte)
Tão pronto caia
Sobre meu dorso,
Que eu, sem esforço,
Cuspo-o na praia.
In: XAVIER, Fontoura. Opalas. Apres. Regina Zilberman. 5.ed. Porto Alegre: Centro de Pesquisas Literárias - PUCRS, 1984. p.39-40. Poema integrante da série Musa Livre
E ter de abrir minhas entranhas
Para guardar este tirano!...
Ah! que eu não possa, acesa em sanhas,
Num grande esforço soberano,
Erguê-lo acima das montanhas
E arremessá-lo no aceano!...
O OCEANO (à parte)
Tão pronto caia
Sobre meu dorso,
Que eu, sem esforço,
Cuspo-o na praia.
In: XAVIER, Fontoura. Opalas. Apres. Regina Zilberman. 5.ed. Porto Alegre: Centro de Pesquisas Literárias - PUCRS, 1984. p.39-40. Poema integrante da série Musa Livre
1 161
Amadeu Amaral
2 - A um Manancial de Água Pura
No alto da escarpa, além, escorre e brilha
um leve, pequenino manancial:
é, entre rochas, uma fina estilha
de prata com sonidos de cristal.
Filha do morro, a fonte, boa filha,
agarra-se teimosa ao chão natal,
à trama das raízes, à escumilha
das ervas, aos farpões do pedregal.
Doce água! Aquele que a tomasse à fonte,
após lenta ascensão por duro monte,
esse a pudera bem julgar, enfim;
mas, não merece tanto esforço: escorre
abandonada e no abandono morre...
Dentro de nós há mananciais assim.
16 de junho de 1921
Publicado no livro Lâmpada antiga: versos (1924). Poema integrante da série Um Punhado de Sonetos.
In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.246. (Obras de Amadeu Amaral
um leve, pequenino manancial:
é, entre rochas, uma fina estilha
de prata com sonidos de cristal.
Filha do morro, a fonte, boa filha,
agarra-se teimosa ao chão natal,
à trama das raízes, à escumilha
das ervas, aos farpões do pedregal.
Doce água! Aquele que a tomasse à fonte,
após lenta ascensão por duro monte,
esse a pudera bem julgar, enfim;
mas, não merece tanto esforço: escorre
abandonada e no abandono morre...
Dentro de nós há mananciais assim.
16 de junho de 1921
Publicado no livro Lâmpada antiga: versos (1924). Poema integrante da série Um Punhado de Sonetos.
In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.246. (Obras de Amadeu Amaral
1 729
Amadeu Amaral
2 - A um Manancial de Água Pura
No alto da escarpa, além, escorre e brilha
um leve, pequenino manancial:
é, entre rochas, uma fina estilha
de prata com sonidos de cristal.
Filha do morro, a fonte, boa filha,
agarra-se teimosa ao chão natal,
à trama das raízes, à escumilha
das ervas, aos farpões do pedregal.
Doce água! Aquele que a tomasse à fonte,
após lenta ascensão por duro monte,
esse a pudera bem julgar, enfim;
mas, não merece tanto esforço: escorre
abandonada e no abandono morre...
Dentro de nós há mananciais assim.
16 de junho de 1921
Publicado no livro Lâmpada antiga: versos (1924). Poema integrante da série Um Punhado de Sonetos.
In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.246. (Obras de Amadeu Amaral
um leve, pequenino manancial:
é, entre rochas, uma fina estilha
de prata com sonidos de cristal.
Filha do morro, a fonte, boa filha,
agarra-se teimosa ao chão natal,
à trama das raízes, à escumilha
das ervas, aos farpões do pedregal.
Doce água! Aquele que a tomasse à fonte,
após lenta ascensão por duro monte,
esse a pudera bem julgar, enfim;
mas, não merece tanto esforço: escorre
abandonada e no abandono morre...
Dentro de nós há mananciais assim.
16 de junho de 1921
Publicado no livro Lâmpada antiga: versos (1924). Poema integrante da série Um Punhado de Sonetos.
In: Poesias completas. São Paulo: HUCITEC: Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado, 1977. p.246. (Obras de Amadeu Amaral
1 729
Ronald de Carvalho
Anoitece
Anoitece...
Venho sofrer contigo a hora dolente que erra,
Sob a lâmpada amiga, entre um vaso com rosas,
Um festão de jasmins, e a penumbra que desce...
Hora em que há mais distância e mágoa pela terra;
Quando, sobre os chorões e as águas silenciosas,
Redonda, a lua calma e sutil, aparece...
O rumor de uma voz sobe no espaço, ecoando,
Mais um dia se foi, menos uma ilusão!
E assim corre, igualmente, a ampulheta da vida.
Senhor! depois de mim, como folhas em bando,
Num crepúsculo triste, outros homens virão
Para recomeçar a rota interrompida,
E a amargura sem fim de um mesmo sonho vão...
Nos dormentes jardins bolem asas incautas,
Sobre os campos a bruma ondeia, devagar.
Estremecem no céu estrelas sonolentas
E os rebanhos, que vão na neblina lunar,
Agitam molemente, ao longe, as curvas lentas
Das estradas de esmalte, ao rudo som das frautas.
Anoitece...
Tremula ainda, no poente, a luz de alguns clarões,
E, enquanto sobre o meu teu olhar adormece,
Entre o perfil sombrio e vago dos chorões,
Redonda, a lua calma e distante, aparece...
Publicado no livro Poemas e Sonetos (1919).
In: MURICY, Andrade. Panorama do movimento simbolista brasileiro. 2.ed. Brasília: INL, 1973. v.2, p.1056. (Literatura brasileira, 12
Venho sofrer contigo a hora dolente que erra,
Sob a lâmpada amiga, entre um vaso com rosas,
Um festão de jasmins, e a penumbra que desce...
Hora em que há mais distância e mágoa pela terra;
Quando, sobre os chorões e as águas silenciosas,
Redonda, a lua calma e sutil, aparece...
O rumor de uma voz sobe no espaço, ecoando,
Mais um dia se foi, menos uma ilusão!
E assim corre, igualmente, a ampulheta da vida.
Senhor! depois de mim, como folhas em bando,
Num crepúsculo triste, outros homens virão
Para recomeçar a rota interrompida,
E a amargura sem fim de um mesmo sonho vão...
Nos dormentes jardins bolem asas incautas,
Sobre os campos a bruma ondeia, devagar.
Estremecem no céu estrelas sonolentas
E os rebanhos, que vão na neblina lunar,
Agitam molemente, ao longe, as curvas lentas
Das estradas de esmalte, ao rudo som das frautas.
Anoitece...
Tremula ainda, no poente, a luz de alguns clarões,
E, enquanto sobre o meu teu olhar adormece,
Entre o perfil sombrio e vago dos chorões,
Redonda, a lua calma e distante, aparece...
Publicado no livro Poemas e Sonetos (1919).
In: MURICY, Andrade. Panorama do movimento simbolista brasileiro. 2.ed. Brasília: INL, 1973. v.2, p.1056. (Literatura brasileira, 12
2 034
Ronald de Carvalho
Anoitece
Anoitece...
Venho sofrer contigo a hora dolente que erra,
Sob a lâmpada amiga, entre um vaso com rosas,
Um festão de jasmins, e a penumbra que desce...
Hora em que há mais distância e mágoa pela terra;
Quando, sobre os chorões e as águas silenciosas,
Redonda, a lua calma e sutil, aparece...
O rumor de uma voz sobe no espaço, ecoando,
Mais um dia se foi, menos uma ilusão!
E assim corre, igualmente, a ampulheta da vida.
Senhor! depois de mim, como folhas em bando,
Num crepúsculo triste, outros homens virão
Para recomeçar a rota interrompida,
E a amargura sem fim de um mesmo sonho vão...
Nos dormentes jardins bolem asas incautas,
Sobre os campos a bruma ondeia, devagar.
Estremecem no céu estrelas sonolentas
E os rebanhos, que vão na neblina lunar,
Agitam molemente, ao longe, as curvas lentas
Das estradas de esmalte, ao rudo som das frautas.
Anoitece...
Tremula ainda, no poente, a luz de alguns clarões,
E, enquanto sobre o meu teu olhar adormece,
Entre o perfil sombrio e vago dos chorões,
Redonda, a lua calma e distante, aparece...
Publicado no livro Poemas e Sonetos (1919).
In: MURICY, Andrade. Panorama do movimento simbolista brasileiro. 2.ed. Brasília: INL, 1973. v.2, p.1056. (Literatura brasileira, 12
Venho sofrer contigo a hora dolente que erra,
Sob a lâmpada amiga, entre um vaso com rosas,
Um festão de jasmins, e a penumbra que desce...
Hora em que há mais distância e mágoa pela terra;
Quando, sobre os chorões e as águas silenciosas,
Redonda, a lua calma e sutil, aparece...
O rumor de uma voz sobe no espaço, ecoando,
Mais um dia se foi, menos uma ilusão!
E assim corre, igualmente, a ampulheta da vida.
Senhor! depois de mim, como folhas em bando,
Num crepúsculo triste, outros homens virão
Para recomeçar a rota interrompida,
E a amargura sem fim de um mesmo sonho vão...
Nos dormentes jardins bolem asas incautas,
Sobre os campos a bruma ondeia, devagar.
Estremecem no céu estrelas sonolentas
E os rebanhos, que vão na neblina lunar,
Agitam molemente, ao longe, as curvas lentas
Das estradas de esmalte, ao rudo som das frautas.
Anoitece...
Tremula ainda, no poente, a luz de alguns clarões,
E, enquanto sobre o meu teu olhar adormece,
Entre o perfil sombrio e vago dos chorões,
Redonda, a lua calma e distante, aparece...
Publicado no livro Poemas e Sonetos (1919).
In: MURICY, Andrade. Panorama do movimento simbolista brasileiro. 2.ed. Brasília: INL, 1973. v.2, p.1056. (Literatura brasileira, 12
2 034
Lila Ripoll
Primavera
Setembro entrou pela janela adentro,
com um puro frescor de primavera.
Inunda-se de luz toda a paisagem
e o meu canto transborda à tua espera.
A doçura da tarde é uma carícia.
Entreabrem-se flores docemente.
As nuvens estão nítidas e imóveis
no céu azul aberto à minha frente.
Há murmúrios e vozes pela rua.
Frescos risos distraem meus ouvidos
e ficam borbulhando como fonte
ou como choque de cristais partidos.
A ternura contida de meu peito
ameaça transbordar dentro da tarde.
como um rio fugindo de seu leito.
Minha pobre ternura ignorada,
minha heróica ternura impressentida,
teima em mostrar-se como a primavera,
pensa em tocar de leve a tua vida.
É difícil ser poeta e ser mulher.
É difícil cantar sem revelar.
Pode o poeta contar o seu segredo,
mas a mulher o seu deve guardar.
A ternura contida de meu peito
ameaça transbordar dentro da tarde,
como um rio fugindo de seu leito.
Fecharei a janela à primavera
e calarei o poeta nesta tarde,
para que o sonho em nada me perturbe,
nem meu canto transborde à tua espera.
In: RIPOLL, Lila. Poemas e Canções. Porto Alegre: Horizonte, 1957. (Cadernos da Horizonte)
com um puro frescor de primavera.
Inunda-se de luz toda a paisagem
e o meu canto transborda à tua espera.
A doçura da tarde é uma carícia.
Entreabrem-se flores docemente.
As nuvens estão nítidas e imóveis
no céu azul aberto à minha frente.
Há murmúrios e vozes pela rua.
Frescos risos distraem meus ouvidos
e ficam borbulhando como fonte
ou como choque de cristais partidos.
A ternura contida de meu peito
ameaça transbordar dentro da tarde.
como um rio fugindo de seu leito.
Minha pobre ternura ignorada,
minha heróica ternura impressentida,
teima em mostrar-se como a primavera,
pensa em tocar de leve a tua vida.
É difícil ser poeta e ser mulher.
É difícil cantar sem revelar.
Pode o poeta contar o seu segredo,
mas a mulher o seu deve guardar.
A ternura contida de meu peito
ameaça transbordar dentro da tarde,
como um rio fugindo de seu leito.
Fecharei a janela à primavera
e calarei o poeta nesta tarde,
para que o sonho em nada me perturbe,
nem meu canto transborde à tua espera.
In: RIPOLL, Lila. Poemas e Canções. Porto Alegre: Horizonte, 1957. (Cadernos da Horizonte)
1 930
Régis Bonvicino
Num Zoológico de Letras
ummmmmmmmmmmma centopéia
árápóngá
borbolllleta
raTTo
aa aa aa aa aa belhas
eLEFANTe
micõ-leãõ
Girafas
buRRo
Yena
flámíngó
pbombpa espelho
lobo-coke
môscâ
eMa
lontra
raPOSa utópica
sabiá-exílio
g"t"s
co++lho
Lêãô
m:rc:g:
p'p'f'rm'g's
v,c,
rato anapéstico
m*ripos*
VntV
z=br=
c)ng(r(
homens-em-extinção
;A;U
j]g]]t]r]c]
f.o.r.m.i.g.a.
e uma ]nç] p]nt]d]
In: BONVICINO, Régis. Num zoológico de letras. Il. Guto Lacaz. São Paulo: Maltec, 1994.
NOTA: Referência à "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dias. Publicado na Folhinha de S. Paulo (30 ago. 1987) e no livro 33 POEMAS (1990
árápóngá
borbolllleta
raTTo
aa aa aa aa aa belhas
eLEFANTe
micõ-leãõ
Girafas
buRRo
Yena
flámíngó
pbombpa espelho
lobo-coke
môscâ
eMa
lontra
raPOSa utópica
sabiá-exílio
g"t"s
co++lho
Lêãô
m:rc:g:
p'p'f'rm'g's
v,c,
rato anapéstico
m*ripos*
VntV
z=br=
c)ng(r(
homens-em-extinção
;A;U
j]g]]t]r]c]
f.o.r.m.i.g.a.
e uma ]nç] p]nt]d]
In: BONVICINO, Régis. Num zoológico de letras. Il. Guto Lacaz. São Paulo: Maltec, 1994.
NOTA: Referência à "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dias. Publicado na Folhinha de S. Paulo (30 ago. 1987) e no livro 33 POEMAS (1990
1 752
Armando Freitas Filho
O primeiro arranha-céu
O primeiro arranha-céu
foi a pedra
do Pão de Açúcar:
monumento onde o mar
se amarra
o mato cresce no pedestal
e o abraço da baía
completa o cenário
— o lugar-comum —
o que já estava escrito
pelos cronistas lapidares
e por mim
quase com as mesmas palavras.
In: FREITAS FILHO, Armando. 3x4, 1981/1983. Pref. Flora Sussekind. Posfácio Silviano Santiago. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série Depois
foi a pedra
do Pão de Açúcar:
monumento onde o mar
se amarra
o mato cresce no pedestal
e o abraço da baía
completa o cenário
— o lugar-comum —
o que já estava escrito
pelos cronistas lapidares
e por mim
quase com as mesmas palavras.
In: FREITAS FILHO, Armando. 3x4, 1981/1983. Pref. Flora Sussekind. Posfácio Silviano Santiago. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. (Poesia brasileira). Poema integrante da série Depois
1 080
Rubens Rodrigues Torres Filho
Circunflexo
O vôo circunflexo de uma ave,
ponto de exclamação e convergência
de um olhar mais que nítido: vazado.
(— E, transpassada por um vento externo e interno,
a praça, com janelas para a praça.)
Deixamos de esperar que alguma dança
perdoe nosso espaço alucinado.
O desenho dos gestos se extravia,
a dor se agrava, grava em nós seu mapa.
Pouco faltou para que nosso invento
tivesse sopro, fosse além do traço:
navegação, mais rápida que a barca,
ia tecendo sua própria água.
As linhas, uma a uma, caem mortas
diante desta manhã, trava, aguçada
pelas doces palavras
desarmadas.
In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. O vôo circunflexo: poesia. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. p.1
ponto de exclamação e convergência
de um olhar mais que nítido: vazado.
(— E, transpassada por um vento externo e interno,
a praça, com janelas para a praça.)
Deixamos de esperar que alguma dança
perdoe nosso espaço alucinado.
O desenho dos gestos se extravia,
a dor se agrava, grava em nós seu mapa.
Pouco faltou para que nosso invento
tivesse sopro, fosse além do traço:
navegação, mais rápida que a barca,
ia tecendo sua própria água.
As linhas, uma a uma, caem mortas
diante desta manhã, trava, aguçada
pelas doces palavras
desarmadas.
In: TORRES FILHO, Rubens Rodrigues. O vôo circunflexo: poesia. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. p.1
1 750
Luís Delfino
O Lago
Mulher, és como um lago em flor, que se ilumina
Ao sol, e como a flor abre o seio esplendente;
Eu me banhava em ti desassombradamente,
Água, flor da manhã, branca flor da campina.
Dos pássaros em torno a canção matutina
Fazia rir de gozo e arfar de amor o ambiente;
Cantava pelo espaço a primavera olente,
Cantava a aura do céu, cantava a luz divina.
Mármore unido, que veia azul brando apenas,
Parecias ouvir, cismando, as cantilenas,
Que enchiam toda a veiga, abrasada de aurora.
O! lago, eu me banhava em ti; mas de improviso
Fui ao fundo, e no fundo achei o paraíso:
E onde o paraíso está, eu sei agora...
Publicado no livro Íntimas e Aspásias (1935). Poema integrante da série Íntimas.
In: DELFINO, Luiz. Os melhores poemas. Sel. Lauro Junkes. São Paulo: Global, 1991. p.94. (Os Melhores poemas, 23
Ao sol, e como a flor abre o seio esplendente;
Eu me banhava em ti desassombradamente,
Água, flor da manhã, branca flor da campina.
Dos pássaros em torno a canção matutina
Fazia rir de gozo e arfar de amor o ambiente;
Cantava pelo espaço a primavera olente,
Cantava a aura do céu, cantava a luz divina.
Mármore unido, que veia azul brando apenas,
Parecias ouvir, cismando, as cantilenas,
Que enchiam toda a veiga, abrasada de aurora.
O! lago, eu me banhava em ti; mas de improviso
Fui ao fundo, e no fundo achei o paraíso:
E onde o paraíso está, eu sei agora...
Publicado no livro Íntimas e Aspásias (1935). Poema integrante da série Íntimas.
In: DELFINO, Luiz. Os melhores poemas. Sel. Lauro Junkes. São Paulo: Global, 1991. p.94. (Os Melhores poemas, 23
2 338
Cacaso
Há uma Gota de Sangue no Cartão Postal
eu sou manhoso eu sou brasileiro
finjo que vou mas não vou minha janela é
a moldura do luar do sertão
a verde mata nos olhos verdes da mulata
sou brasileiro e manhoso por isso dentro
da noite e de meu quarto fico cismando na beira de um rio
na imensa solidão de latidos e araras
lívido
de medo e de amor
In: CACASO. Beijo na boca e outros poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985. p.84.
NOTA: Referências ao livro HÁ UMA GOTA DE SANGUE EM CADA POEMA, de Mário de Andrade; às canções "Luar do Sertão", de Catullo da PaixãoCearense e "Tropicália", de Caetano Veloso; à "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dias e ao poema "Amor e Medo", do livro AS PRIMAVERAS (1859), de Casimiro de Abre
finjo que vou mas não vou minha janela é
a moldura do luar do sertão
a verde mata nos olhos verdes da mulata
sou brasileiro e manhoso por isso dentro
da noite e de meu quarto fico cismando na beira de um rio
na imensa solidão de latidos e araras
lívido
de medo e de amor
In: CACASO. Beijo na boca e outros poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985. p.84.
NOTA: Referências ao livro HÁ UMA GOTA DE SANGUE EM CADA POEMA, de Mário de Andrade; às canções "Luar do Sertão", de Catullo da PaixãoCearense e "Tropicália", de Caetano Veloso; à "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dias e ao poema "Amor e Medo", do livro AS PRIMAVERAS (1859), de Casimiro de Abre
7 299
Cacaso
Há uma Gota de Sangue no Cartão Postal
eu sou manhoso eu sou brasileiro
finjo que vou mas não vou minha janela é
a moldura do luar do sertão
a verde mata nos olhos verdes da mulata
sou brasileiro e manhoso por isso dentro
da noite e de meu quarto fico cismando na beira de um rio
na imensa solidão de latidos e araras
lívido
de medo e de amor
In: CACASO. Beijo na boca e outros poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985. p.84.
NOTA: Referências ao livro HÁ UMA GOTA DE SANGUE EM CADA POEMA, de Mário de Andrade; às canções "Luar do Sertão", de Catullo da PaixãoCearense e "Tropicália", de Caetano Veloso; à "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dias e ao poema "Amor e Medo", do livro AS PRIMAVERAS (1859), de Casimiro de Abre
finjo que vou mas não vou minha janela é
a moldura do luar do sertão
a verde mata nos olhos verdes da mulata
sou brasileiro e manhoso por isso dentro
da noite e de meu quarto fico cismando na beira de um rio
na imensa solidão de latidos e araras
lívido
de medo e de amor
In: CACASO. Beijo na boca e outros poemas. São Paulo: Brasiliense, 1985. p.84.
NOTA: Referências ao livro HÁ UMA GOTA DE SANGUE EM CADA POEMA, de Mário de Andrade; às canções "Luar do Sertão", de Catullo da PaixãoCearense e "Tropicália", de Caetano Veloso; à "Canção do Exílio", do livro PRIMEIROS CANTOS (1846), de Gonçalves Dias e ao poema "Amor e Medo", do livro AS PRIMAVERAS (1859), de Casimiro de Abre
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