Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Lígia Diniz
Meus Filhos
Fechei a porta
Finalmente o vento parou de bater
O monstro alado parou de lutar
Fechei a porta no último minuto
Nem precisei usar força
Talvez nem mesmo a tenha fechado
Ela se fechou sozinha
Como quando o vento muda de direção.
Saí para ver o céu
Finalmente a chuva parou de cair
As gotas grossas pararam de me machucar
Saí para ver o céu no último dia
Nem precisei esperar
Talvez nem mesmo tenha saído
O céu entrou em mim
Como quando fechamos os olhos e ainda vemos a luz.
Finalmente o vento parou de bater
O monstro alado parou de lutar
Fechei a porta no último minuto
Nem precisei usar força
Talvez nem mesmo a tenha fechado
Ela se fechou sozinha
Como quando o vento muda de direção.
Saí para ver o céu
Finalmente a chuva parou de cair
As gotas grossas pararam de me machucar
Saí para ver o céu no último dia
Nem precisei esperar
Talvez nem mesmo tenha saído
O céu entrou em mim
Como quando fechamos os olhos e ainda vemos a luz.
980
Lêdo Ivo
Advertência a um Gavião
O gavião sobrevoa
a plantação de tomate.
Meu irmão gavião,
eu não aceito a morte.
Na partilha do mundo
não estarei ao teu lado.
Jamais admitirei
a usurparão do dia.
Só sei enfileirar-me
no cortejo da vida.
Meu caminho me leva
a floresta onde fluem
as fontes escondidas.
Mesmo longe adivinho
uma árvore que tenha
frescor de fruto ou ninho.
Gavião! Gavião!
embaixador do não,
o céu não pode ser
sepultura de pássaros.
a plantação de tomate.
Meu irmão gavião,
eu não aceito a morte.
Na partilha do mundo
não estarei ao teu lado.
Jamais admitirei
a usurparão do dia.
Só sei enfileirar-me
no cortejo da vida.
Meu caminho me leva
a floresta onde fluem
as fontes escondidas.
Mesmo longe adivinho
uma árvore que tenha
frescor de fruto ou ninho.
Gavião! Gavião!
embaixador do não,
o céu não pode ser
sepultura de pássaros.
1 044
Lêdo Ivo
A Recompensa
Eis a dádiva da noite:
fenda, cova, gruta, porta
casto pássaro sem canto
cisterna oculta no bosque
concha perdida na praia
viva natureza-morta.
Um corredor de coral
matriz e canal de mangue
trilha, sebe, valva, furna
voluta cheia de adornos
desfiladeiro da tarde
tumba de sol e corola
sereno da madrugada.
Manga madura da infância
que cai num chão de mentira
sol de lábios e camélias
esconderijo dos sonhos
caminho do descaminho
brancura negra da carne
pousada em seu próprio ninho
abertura pura e escura
entre-fechado botão
ou entreaberta rosa
na noite misteriosa.
fenda, cova, gruta, porta
casto pássaro sem canto
cisterna oculta no bosque
concha perdida na praia
viva natureza-morta.
Um corredor de coral
matriz e canal de mangue
trilha, sebe, valva, furna
voluta cheia de adornos
desfiladeiro da tarde
tumba de sol e corola
sereno da madrugada.
Manga madura da infância
que cai num chão de mentira
sol de lábios e camélias
esconderijo dos sonhos
caminho do descaminho
brancura negra da carne
pousada em seu próprio ninho
abertura pura e escura
entre-fechado botão
ou entreaberta rosa
na noite misteriosa.
1 331
Luiz Ademir Souza
Pilões 1
Não há de ser breve
o encontro que terei com o rio
A palavra-chave é a sépia
da sua cor
da sua voz latina
Não vou dizer que toda água
corre para o mar;
o oceano não há de ser rápido
-o seu murmúrio a encenar movimento
perigo
se expande com a luz tão fria da manhã
No silêncio da foz e do brilho
a corrida do homem pode livrar
água de pau e pedra
seja de líquido manso ou forte
de ventura ou encanto.
o encontro que terei com o rio
A palavra-chave é a sépia
da sua cor
da sua voz latina
Não vou dizer que toda água
corre para o mar;
o oceano não há de ser rápido
-o seu murmúrio a encenar movimento
perigo
se expande com a luz tão fria da manhã
No silêncio da foz e do brilho
a corrida do homem pode livrar
água de pau e pedra
seja de líquido manso ou forte
de ventura ou encanto.
1 059
Luiz Ademir Souza
Pilões 1
Não há de ser breve
o encontro que terei com o rio
A palavra-chave é a sépia
da sua cor
da sua voz latina
Não vou dizer que toda água
corre para o mar;
o oceano não há de ser rápido
-o seu murmúrio a encenar movimento
perigo
se expande com a luz tão fria da manhã
No silêncio da foz e do brilho
a corrida do homem pode livrar
água de pau e pedra
seja de líquido manso ou forte
de ventura ou encanto.
o encontro que terei com o rio
A palavra-chave é a sépia
da sua cor
da sua voz latina
Não vou dizer que toda água
corre para o mar;
o oceano não há de ser rápido
-o seu murmúrio a encenar movimento
perigo
se expande com a luz tão fria da manhã
No silêncio da foz e do brilho
a corrida do homem pode livrar
água de pau e pedra
seja de líquido manso ou forte
de ventura ou encanto.
1 059
Leda Costa Lima
Integração
Pisei na noite,
diluí-me em bruma...
galguei montanhas,
transmutei-me em neve...
joguei-me ao mar,
e dissolvi-me em espuma...
lancei-me ao mar
e transformei-me em nuvem...
voando ao cosmos,
integrei-me ao TODO!
diluí-me em bruma...
galguei montanhas,
transmutei-me em neve...
joguei-me ao mar,
e dissolvi-me em espuma...
lancei-me ao mar
e transformei-me em nuvem...
voando ao cosmos,
integrei-me ao TODO!
882
Laura Amélia Damous
Torres da Sé
Garças altivas beliscam
o céu
sangram estrelas
que se desfazem em luz
noites azuis
de maré alta
orquestram hinos e preces
minha cidade faz
o sinal da cruz
adormece
o céu
sangram estrelas
que se desfazem em luz
noites azuis
de maré alta
orquestram hinos e preces
minha cidade faz
o sinal da cruz
adormece
1 034
Laura Amélia Damous
Torres da Sé
Garças altivas beliscam
o céu
sangram estrelas
que se desfazem em luz
noites azuis
de maré alta
orquestram hinos e preces
minha cidade faz
o sinal da cruz
adormece
o céu
sangram estrelas
que se desfazem em luz
noites azuis
de maré alta
orquestram hinos e preces
minha cidade faz
o sinal da cruz
adormece
1 034
Laura Amélia Damous
São Luís
Cidade
cujas noites enxugam o suor
da desumana lida
que me obriga a maldizer
de ti
Não fosse esse teu céu
onde estrelas brincam
de se tornarem humanas
de tão perto que ficam destas mãos
eu viajaria de ti
cujas noites enxugam o suor
da desumana lida
que me obriga a maldizer
de ti
Não fosse esse teu céu
onde estrelas brincam
de se tornarem humanas
de tão perto que ficam destas mãos
eu viajaria de ti
1 007
Valéry Larbaud
Vôo
Ave a voar sem rumo, tempo acima;
Céu a fluir sem tempo, mero azul;
Livre cor sem sujeito, só de luz;
Luz de luz, voz de estrelas em surdina.
E voz apenas voz, palavra, rima,
Superfície de som, plana e vazia,
Deserto do sentido, sol sem dia,
Com pássaro não-ser planando em cima.
Céu a fluir sem tempo, mero azul;
Livre cor sem sujeito, só de luz;
Luz de luz, voz de estrelas em surdina.
E voz apenas voz, palavra, rima,
Superfície de som, plana e vazia,
Deserto do sentido, sol sem dia,
Com pássaro não-ser planando em cima.
943
Lago Burnett
A Última Canção da Ilha
Trarei sempre verde
gaivotas e sal:
a lembrança não perde
a ilha inicial
Nem descuido as brisas
o mar de imundícies
(minhas pesquisas
bóiam às superfícies)
A obsessão do cerco
por ínvias águas
é o em que me perco
entre — agora — mágoas
Autêntico Atlântico
aleou-me todo
quanto de romântico
mergulhou-me em lodo
Oh! velas belas
ao ritmo transeunte
vosso, belas velas
que eu me unte
Trago-me à retina
de mastros e quilhas
cheia a sina
de todas as ilhas
Código pressago
de pássaro marítimo
na alma trago
canto e ritmo
Que é quanto me sobre
por ter-me feliz
ao sol que encobre
minha São Luís
Onde era só
com hábil engenho
quanto virou pó
tudo que não tenho
Idéias descalças
desfiando saias
longas como valsas
pelas praias
A primeira estância
ao céu abstrato
coisas como infância
ritmando com mato
Outros poucos casos
como águas insípidas
Nos olhos rasos
saudades liquidas
(Os Elementos do Mito / l953)
gaivotas e sal:
a lembrança não perde
a ilha inicial
Nem descuido as brisas
o mar de imundícies
(minhas pesquisas
bóiam às superfícies)
A obsessão do cerco
por ínvias águas
é o em que me perco
entre — agora — mágoas
Autêntico Atlântico
aleou-me todo
quanto de romântico
mergulhou-me em lodo
Oh! velas belas
ao ritmo transeunte
vosso, belas velas
que eu me unte
Trago-me à retina
de mastros e quilhas
cheia a sina
de todas as ilhas
Código pressago
de pássaro marítimo
na alma trago
canto e ritmo
Que é quanto me sobre
por ter-me feliz
ao sol que encobre
minha São Luís
Onde era só
com hábil engenho
quanto virou pó
tudo que não tenho
Idéias descalças
desfiando saias
longas como valsas
pelas praias
A primeira estância
ao céu abstrato
coisas como infância
ritmando com mato
Outros poucos casos
como águas insípidas
Nos olhos rasos
saudades liquidas
(Os Elementos do Mito / l953)
967
Luiz Augusto Kehl
Tintim
Entre a noite e a aurora, nalguma hora em que vaga a mente
e vê o que foi sem ter sido,
noutras noites, a bordo daquele cargueiro rangente,
na Filipina distante, ou nalgum porto, no Pacífico imenso,
pedras do calçamento molhado rebrilhantes à luz da lua,
meandros de ruas e casas à fraca vela dos postes,
ninhos de putas às portas dos bares em que nunca estivemos,
sombras e luzes e o girar lento das palmeiras e das pás de vento
pendentes no teto descansando, banhando-se nas fímbrias e nas
réstias
de luz por entre cortinados de bambu, e a fumaça
de milhares de cigarros vagabundos misturando-se
aos perfumes molhados da selva e das veredas tropicais sob as
estrelas;
e embarcávamos resolutos
nalgum navio de ferro e homens suados em que não fomos
tatuados de amor e morte entre calados sábios papagaios,
sinais de rádio e de telégrafo, carcaça balouçante entre as ondas
e o praguejar do cozinheiro, relâmpagos e trovões oceânicos
rugentes
sobre os lamentos cavos das vagas a nos tragar
e a nos vomitar um dia nas calmarias e no sal do mar, a nós
inebriados do sal lambido dos sovacos das cadelas das bairas dos
cais
a naufragar-nos dentro da goela macia da baleia, entranhas
de mobydick e matahari, sexo dos contrabandistas e dos piratas
e nada além de uma página de pergaminho virada encharcada
coberta de nada, e significando tudo.
e vê o que foi sem ter sido,
noutras noites, a bordo daquele cargueiro rangente,
na Filipina distante, ou nalgum porto, no Pacífico imenso,
pedras do calçamento molhado rebrilhantes à luz da lua,
meandros de ruas e casas à fraca vela dos postes,
ninhos de putas às portas dos bares em que nunca estivemos,
sombras e luzes e o girar lento das palmeiras e das pás de vento
pendentes no teto descansando, banhando-se nas fímbrias e nas
réstias
de luz por entre cortinados de bambu, e a fumaça
de milhares de cigarros vagabundos misturando-se
aos perfumes molhados da selva e das veredas tropicais sob as
estrelas;
e embarcávamos resolutos
nalgum navio de ferro e homens suados em que não fomos
tatuados de amor e morte entre calados sábios papagaios,
sinais de rádio e de telégrafo, carcaça balouçante entre as ondas
e o praguejar do cozinheiro, relâmpagos e trovões oceânicos
rugentes
sobre os lamentos cavos das vagas a nos tragar
e a nos vomitar um dia nas calmarias e no sal do mar, a nós
inebriados do sal lambido dos sovacos das cadelas das bairas dos
cais
a naufragar-nos dentro da goela macia da baleia, entranhas
de mobydick e matahari, sexo dos contrabandistas e dos piratas
e nada além de uma página de pergaminho virada encharcada
coberta de nada, e significando tudo.
513
Valéry Larbaud
Motociclistas
Felizes,
sentamo-nos e pedimos ovos.
Pendia um sol vermelho
do rosto do garçom.
Aproveitando a graça esplêndida do crepúsculo,
pedimos também livros, mulheres, vinhos,
Músicas, Júbilos,
Ah! Essências, Éteres, Qüididades,
VIDA ETERNA!!!
De manhãzinha,
acompanhamos com os dedos erguidos
os últimos cometas que se despediam.
- Tchau... Tchau...
sentamo-nos e pedimos ovos.
Pendia um sol vermelho
do rosto do garçom.
Aproveitando a graça esplêndida do crepúsculo,
pedimos também livros, mulheres, vinhos,
Músicas, Júbilos,
Ah! Essências, Éteres, Qüididades,
VIDA ETERNA!!!
De manhãzinha,
acompanhamos com os dedos erguidos
os últimos cometas que se despediam.
- Tchau... Tchau...
937
Lêdo Ivo
Planta de Maceió
O vento do mar rói as casas e os homens.
Do nascimento à morte, os que moram aqui
andam sempre cobertos por leve mortalha
de mormaço e salsugem. Os dentes do mar
mordem, dia e noite, os que não procuram
esconder-se no ventre dos navios
e se deixam sugar por um sol de areia.
Penetrada nas pedras, a maresia
cresta o pêlo dos ratos perdulários
que, nos esgotos, ouvem o vômito escuro
do oceano esvaído em bolsões de mangue
e sonham os celeiros dos porões dos cargueiros.
Foi aqui que nasci, onde a luz do farol
cega a noite dos homens e desbota as corujas.
A ventania lambe as dragas podres,
entra pelas persianas das casas sufocadas
e escalavra as dunas mortuárias
onde os beiços dos mortos bebem o mar.
Mesmo os que se amam nesta terra de ódios
são sempre separados pela brisa
que semeia a insônia nas lacraias
e adultera a fretagem dos navios.
Este é o meu lugar, entranhado em meu sangue
como a lama no fundo da noite lacustre.
E por mais que me afaste, estarei sempre aqui
e serei este vento e a luz do farol,
e minha morte vive na cioba encurralada.
Do nascimento à morte, os que moram aqui
andam sempre cobertos por leve mortalha
de mormaço e salsugem. Os dentes do mar
mordem, dia e noite, os que não procuram
esconder-se no ventre dos navios
e se deixam sugar por um sol de areia.
Penetrada nas pedras, a maresia
cresta o pêlo dos ratos perdulários
que, nos esgotos, ouvem o vômito escuro
do oceano esvaído em bolsões de mangue
e sonham os celeiros dos porões dos cargueiros.
Foi aqui que nasci, onde a luz do farol
cega a noite dos homens e desbota as corujas.
A ventania lambe as dragas podres,
entra pelas persianas das casas sufocadas
e escalavra as dunas mortuárias
onde os beiços dos mortos bebem o mar.
Mesmo os que se amam nesta terra de ódios
são sempre separados pela brisa
que semeia a insônia nas lacraias
e adultera a fretagem dos navios.
Este é o meu lugar, entranhado em meu sangue
como a lama no fundo da noite lacustre.
E por mais que me afaste, estarei sempre aqui
e serei este vento e a luz do farol,
e minha morte vive na cioba encurralada.
3 420
Lago Burnett
O copo dágua
O copo dágua. Insípido
entre o pássaro e a lâmpada.
Lúcido e líquido.
Listras de sol passeiam-lhe a superfície
sem excessos matinais de azul-desperto.
Luz flutuante, o mundo transparente,
o copo dágua resiste.
Sólida contextura, as
firmes paredes de vidro unânimes, eternas,
equilibram o milagre.
O copo dágua. insípido
na antenoite sonora. Simples,
lúcido e líquido.
(Os Elementos do Mito / l953)
entre o pássaro e a lâmpada.
Lúcido e líquido.
Listras de sol passeiam-lhe a superfície
sem excessos matinais de azul-desperto.
Luz flutuante, o mundo transparente,
o copo dágua resiste.
Sólida contextura, as
firmes paredes de vidro unânimes, eternas,
equilibram o milagre.
O copo dágua. insípido
na antenoite sonora. Simples,
lúcido e líquido.
(Os Elementos do Mito / l953)
1 173
Valéry Larbaud
Noturno
Os teus noturnos lábios débeis pedem
Satisfações exangues aos motéis.
Na aurora fogem magros menestréis
Cantando por Sodoma um novo Édem.
O espaço singra, as borboletas medem,
Nos ares cantam teus azuis pincéis,
Estrelas giram como carrosséis
De brinquedos de sol que os Fados cedem.
Os teus verdes-vermelhos lábios bebo
E, atrás, a Lua grávida percebo
A festejar meus ócios estivais.
A Cruz nos fere como agudo açoite
No brilho de funéreos carnavais
Ao vento frio e roxo desta noite.
Satisfações exangues aos motéis.
Na aurora fogem magros menestréis
Cantando por Sodoma um novo Édem.
O espaço singra, as borboletas medem,
Nos ares cantam teus azuis pincéis,
Estrelas giram como carrosséis
De brinquedos de sol que os Fados cedem.
Os teus verdes-vermelhos lábios bebo
E, atrás, a Lua grávida percebo
A festejar meus ócios estivais.
A Cruz nos fere como agudo açoite
No brilho de funéreos carnavais
Ao vento frio e roxo desta noite.
1 008
Valéry Larbaud
Noturno
Os teus noturnos lábios débeis pedem
Satisfações exangues aos motéis.
Na aurora fogem magros menestréis
Cantando por Sodoma um novo Édem.
O espaço singra, as borboletas medem,
Nos ares cantam teus azuis pincéis,
Estrelas giram como carrosséis
De brinquedos de sol que os Fados cedem.
Os teus verdes-vermelhos lábios bebo
E, atrás, a Lua grávida percebo
A festejar meus ócios estivais.
A Cruz nos fere como agudo açoite
No brilho de funéreos carnavais
Ao vento frio e roxo desta noite.
Satisfações exangues aos motéis.
Na aurora fogem magros menestréis
Cantando por Sodoma um novo Édem.
O espaço singra, as borboletas medem,
Nos ares cantam teus azuis pincéis,
Estrelas giram como carrosséis
De brinquedos de sol que os Fados cedem.
Os teus verdes-vermelhos lábios bebo
E, atrás, a Lua grávida percebo
A festejar meus ócios estivais.
A Cruz nos fere como agudo açoite
No brilho de funéreos carnavais
Ao vento frio e roxo desta noite.
1 008
Lígia Diniz
O que foi amor (não é mais)
Hoje preciso me lembrar de mim para penar em ti
E nunca me lembro de mim
Me esqueço de ti
Estás sempre lá e não.
Não te vejo, não te procuro
Só te encontro quando me abro pela porta do jardim
Mas me abro sempre pela porta da sala.
Eu não te encontro mas estás lá.
E quando te vejo não sorris
Quando te encontro foges de mim
Me perdoe por pensar em ti
E me perdoe por não pensar em mim
Prefiro continuar assim, forte
Quero passear no jardim. E voltar.
E nunca me lembro de mim
Me esqueço de ti
Estás sempre lá e não.
Não te vejo, não te procuro
Só te encontro quando me abro pela porta do jardim
Mas me abro sempre pela porta da sala.
Eu não te encontro mas estás lá.
E quando te vejo não sorris
Quando te encontro foges de mim
Me perdoe por pensar em ti
E me perdoe por não pensar em mim
Prefiro continuar assim, forte
Quero passear no jardim. E voltar.
1 065
Luís Canelo de Noronha
Décimas
Nascer o Sol no Ocidente,
quem jamais tal coisa viu,
se na oposição caiu
ser Sol posto, e Sol oriente?
Mas bem caiu, que um luzente
e mais gigante farol,
mostrando novo arrebol
quando aquele Sol caía,
Sol mais claro então se erguia
para ser o Sol do Sol.
Pôr o Oriente no Ocaso,
fazer do morrer nascer,
inui maior poder,
e faz assombroso o caso;
faz divina e não acaso
esta empresa, pois que assombra,
que se um Sol ao Sol assombra,
e o Sol uma Sombra fica,
em que seja sombra rica
é do Sol o Sol a Sombra.
quem jamais tal coisa viu,
se na oposição caiu
ser Sol posto, e Sol oriente?
Mas bem caiu, que um luzente
e mais gigante farol,
mostrando novo arrebol
quando aquele Sol caía,
Sol mais claro então se erguia
para ser o Sol do Sol.
Pôr o Oriente no Ocaso,
fazer do morrer nascer,
inui maior poder,
e faz assombroso o caso;
faz divina e não acaso
esta empresa, pois que assombra,
que se um Sol ao Sol assombra,
e o Sol uma Sombra fica,
em que seja sombra rica
é do Sol o Sol a Sombra.
1 002
Luís António Cajazeira Ramos
Entre o Sono e a Vigília
(soneto sonolento, ao dormir)
Na indolência do tempo, as horas morrem,
a madrugada avança seu crepúsculo,
um silêncio selvagem rasga o mundo,
e a vigília se abriga sob as pálpebras.
Um frio silente e aflito, quase um susto,
tão lépido quão lívido, perpassa,
que a imensidão do instante se revela,
e os abraços desfazem-se inconclusos.
Entre luzes e sombras vacilantes,
o assombro de mil séculos desvai-se,
e o espírito gazeia e se dissipa.
No espasmo mais recôndito do sonho,
o pássaro se furta da gaiola,
e o gato esconde o pulo entre almofadas.
Na indolência do tempo, as horas morrem,
a madrugada avança seu crepúsculo,
um silêncio selvagem rasga o mundo,
e a vigília se abriga sob as pálpebras.
Um frio silente e aflito, quase um susto,
tão lépido quão lívido, perpassa,
que a imensidão do instante se revela,
e os abraços desfazem-se inconclusos.
Entre luzes e sombras vacilantes,
o assombro de mil séculos desvai-se,
e o espírito gazeia e se dissipa.
No espasmo mais recôndito do sonho,
o pássaro se furta da gaiola,
e o gato esconde o pulo entre almofadas.
1 137
José de Oliveira Falcon
Prelúdio
os galos na madrugada
cobrindo as éguas do alerta
os atalaias do alarme
na grande praça deserta
os galos rubros de guerra
espora crista e fanfarra
rasgando ao quebrar da barra
a gema de sol na serra
o heroísmo dos galos
com o levante na garganta
o galopar dos seus gritos
na luz que livre alevanta
madruga aurora madura
rompe a fanfarra na serra
brasão triunfo e estandarte
dos galos rubros de guerra
cobrindo as éguas do alerta
os atalaias do alarme
na grande praça deserta
os galos rubros de guerra
espora crista e fanfarra
rasgando ao quebrar da barra
a gema de sol na serra
o heroísmo dos galos
com o levante na garganta
o galopar dos seus gritos
na luz que livre alevanta
madruga aurora madura
rompe a fanfarra na serra
brasão triunfo e estandarte
dos galos rubros de guerra
906
José de Oliveira Falcon
Prelúdio
os galos na madrugada
cobrindo as éguas do alerta
os atalaias do alarme
na grande praça deserta
os galos rubros de guerra
espora crista e fanfarra
rasgando ao quebrar da barra
a gema de sol na serra
o heroísmo dos galos
com o levante na garganta
o galopar dos seus gritos
na luz que livre alevanta
madruga aurora madura
rompe a fanfarra na serra
brasão triunfo e estandarte
dos galos rubros de guerra
cobrindo as éguas do alerta
os atalaias do alarme
na grande praça deserta
os galos rubros de guerra
espora crista e fanfarra
rasgando ao quebrar da barra
a gema de sol na serra
o heroísmo dos galos
com o levante na garganta
o galopar dos seus gritos
na luz que livre alevanta
madruga aurora madura
rompe a fanfarra na serra
brasão triunfo e estandarte
dos galos rubros de guerra
906
Luís António Cajazeira Ramos
Luz e Breu
(soneto sonolento, ao acordar)
Quando a luz da manhã penetra pelas fímbrias
da cortina, eu percebo a escuridão de tudo
sumindo pouco a pouco; em pouco tempo, o mundo
invade a solidão e rouba ao sonho a vida.
Quando a sombra de tudo assoma e expõe o corpo
e a mente ao modo cru, entre o sono e a vigília,
não há nada a versar, pois que já testa a língua
o amargo amanhecer para um poema roto.
Na sombra-e-luz do dia, a escuridão se abriga
sob os meus olhos, livre e plena de sentidos,
embora nem eu saiba o que isto significa.
À luz do dia, fecho os olhos, sonho e vejo:
se este verso pudesse, enfim, levar-me além
de mim, a escuridão saciaria o desejo.
Quando a luz da manhã penetra pelas fímbrias
da cortina, eu percebo a escuridão de tudo
sumindo pouco a pouco; em pouco tempo, o mundo
invade a solidão e rouba ao sonho a vida.
Quando a sombra de tudo assoma e expõe o corpo
e a mente ao modo cru, entre o sono e a vigília,
não há nada a versar, pois que já testa a língua
o amargo amanhecer para um poema roto.
Na sombra-e-luz do dia, a escuridão se abriga
sob os meus olhos, livre e plena de sentidos,
embora nem eu saiba o que isto significa.
À luz do dia, fecho os olhos, sonho e vejo:
se este verso pudesse, enfim, levar-me além
de mim, a escuridão saciaria o desejo.
924
João Rui de Sousa
Poema Contíguo ao Ódio
Que gelado sopro nos agita
do lado de dentro das ruas?
Que rápida vertigem nos domina
nesta agudíssima manhã?
Este vento que nos queimaestas veias mais quentes
Estes longos minutos que sacodem o rosto
Estes ponteiros gigantes que nos marcam os séculos
Estes rios de sal que abrem sulcos nos ossos
Esta raiva que nos corta estas lâminas nos lábios
Estes vidros de silêncio que nos enchem a boca
Estes deuses que sorriem estas lágrimas mais puras
Estes grandes traços negros de trânsito impedido
do lado de dentro das ruas?
Que rápida vertigem nos domina
nesta agudíssima manhã?
Este vento que nos queimaestas veias mais quentes
Estes longos minutos que sacodem o rosto
Estes ponteiros gigantes que nos marcam os séculos
Estes rios de sal que abrem sulcos nos ossos
Esta raiva que nos corta estas lâminas nos lábios
Estes vidros de silêncio que nos enchem a boca
Estes deuses que sorriem estas lágrimas mais puras
Estes grandes traços negros de trânsito impedido
1 230