Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Chico Buarque
Mar e lua
Amaram o amor urgente
As bocas salgadas pela maresia
As costas lanhadas pela tempestade
Naquela cidade
Distante do mar
Amaram o amor serenado
Das noturnas praias
Levantavam as saias
E se enluaravam de felicidade
Naquela cidade
Que não tem luar
Amavam o amor proibido
Pois hoje é sabido
Todo mundo conta
Que uma andava tonta
Grávida de lua
E outra andava nua
Ávida de mar
E foram ficando marcadas
Ouvindo risadas, sentindo arrepios
Olhando pro rio tão cheio de lua
E que continua
Correndo pro mar
E foram correnteza abaixo
Rolando no leito
Engolindo água
Boiando com as algas
Arrastando folhas
Carregando flores
E a se desmanchar
E foram virando peixes
Virando conchas
Virando seixos
Virando areia
Prateada areia
Com lua cheia
e à beira-mar
As bocas salgadas pela maresia
As costas lanhadas pela tempestade
Naquela cidade
Distante do mar
Amaram o amor serenado
Das noturnas praias
Levantavam as saias
E se enluaravam de felicidade
Naquela cidade
Que não tem luar
Amavam o amor proibido
Pois hoje é sabido
Todo mundo conta
Que uma andava tonta
Grávida de lua
E outra andava nua
Ávida de mar
E foram ficando marcadas
Ouvindo risadas, sentindo arrepios
Olhando pro rio tão cheio de lua
E que continua
Correndo pro mar
E foram correnteza abaixo
Rolando no leito
Engolindo água
Boiando com as algas
Arrastando folhas
Carregando flores
E a se desmanchar
E foram virando peixes
Virando conchas
Virando seixos
Virando areia
Prateada areia
Com lua cheia
e à beira-mar
1 994
Flávio Villa-Lobos
Passeio público
Esguio, um corpo flutua
acima do bem e do mal
em noites de lua
cheia, roçando a pele morena
no vestido molhado
em tafetá.
Balançando vagarosamente
a favor do vento
- a favor de tudo que transcende a natureza
do belo -
caminha em direção
à praça Visconde de Irajá,
num andar cadenciado
que ateia fogo em apaixonadas
retinas,
inspira poetas instantâneos
- rimadores de ocasião -
ao mesmo tempo em que desapruma
olhares enfeitiçados
num gozo coletivo
que vai
explodindo em surdina.
O calor da noite evapora
sonhos
e desejos
assim que o doce
bailar da menina
desaparece sob uma chuva de pálpebras
se fechando,
- ulular de machos
inquietos -
rastreando
o cheiro da fêmea
que indiferente ao movimento
vai-se embora,
sumindo por aquela impassível
esquina.
acima do bem e do mal
em noites de lua
cheia, roçando a pele morena
no vestido molhado
em tafetá.
Balançando vagarosamente
a favor do vento
- a favor de tudo que transcende a natureza
do belo -
caminha em direção
à praça Visconde de Irajá,
num andar cadenciado
que ateia fogo em apaixonadas
retinas,
inspira poetas instantâneos
- rimadores de ocasião -
ao mesmo tempo em que desapruma
olhares enfeitiçados
num gozo coletivo
que vai
explodindo em surdina.
O calor da noite evapora
sonhos
e desejos
assim que o doce
bailar da menina
desaparece sob uma chuva de pálpebras
se fechando,
- ulular de machos
inquietos -
rastreando
o cheiro da fêmea
que indiferente ao movimento
vai-se embora,
sumindo por aquela impassível
esquina.
737
Leonardo Fróes
O apanhador no campo
Fruta e mulher no mesmo pé de caqui
no qual espantando os passarinhos eu trepo
para apanhar como um garoto a fruta
e apreciar, comendo-a lá no alto, a mulher
que ficou lá embaixo me esperando subir
e agora vejo se mexendo entre as folhas,
com seus olhos de mel, seus ombros secos,
enquanto me contorciono todo subindo
entre línguas de sol, roçar de galhos,
para alcançar e arremessar para ela,
no ponto mais extremo, o caqui mais doce.
no qual espantando os passarinhos eu trepo
para apanhar como um garoto a fruta
e apreciar, comendo-a lá no alto, a mulher
que ficou lá embaixo me esperando subir
e agora vejo se mexendo entre as folhas,
com seus olhos de mel, seus ombros secos,
enquanto me contorciono todo subindo
entre línguas de sol, roçar de galhos,
para alcançar e arremessar para ela,
no ponto mais extremo, o caqui mais doce.
1 367
Hilda Hilst
Araras versáteis
Araras versáteis. Prato de anêmonas.
O efebo passou entre as meninas trêfegas.
O rombudo bastão luzia na mornura das calças e do dia.
Ela abriu as coxas de esmalte, louça e umedecida laca
E vergastou a cona com minúsculo açoite.
O moço ajoelhou-se esfuçando-lhe os meios
E uma língua de agulha, de fogo, de molusco
Empapou-se de mel nos refolhos robustos.
Ela gritava um êxtase de gosmas e de lírios
Quando no instante alguém
Numa manobra ágil de jovem marinheiro
Arrancou do efebo as luzidias calças
Suspendeu-lhe o traseiro e aaaaaiiiii...
E gozaram os três entre os pios dos pássaros
Das araras versáteis e das meninas trêfegas.
O efebo passou entre as meninas trêfegas.
O rombudo bastão luzia na mornura das calças e do dia.
Ela abriu as coxas de esmalte, louça e umedecida laca
E vergastou a cona com minúsculo açoite.
O moço ajoelhou-se esfuçando-lhe os meios
E uma língua de agulha, de fogo, de molusco
Empapou-se de mel nos refolhos robustos.
Ela gritava um êxtase de gosmas e de lírios
Quando no instante alguém
Numa manobra ágil de jovem marinheiro
Arrancou do efebo as luzidias calças
Suspendeu-lhe o traseiro e aaaaaiiiii...
E gozaram os três entre os pios dos pássaros
Das araras versáteis e das meninas trêfegas.
2 820
Arsenii Tarkovskii
O Verão
partiu
E nunca devia ter vindo.
Será quente o sol
Mas não pode ser só isto.
Tudo veio
para partir,
Nas minhas mãos tudo caiu,
Corola de cinco pétalas,
Mas não pode ser só isto.
Nenhum mal
se perdeu,
Nenhum bem foi em vão,
À luz clara tudo arde
Mas não pode ser só isto.
Agarra-me
a vida
Sob a sua asa intacto,
Sempre a sorte do meu lado,
Mas não pode ser só isto.
Nem uma folha
se consumiu
Nem uma vara quebrada
Vidro límpido é o dia,
Mas não pode ser só isto
E nunca devia ter vindo.
Será quente o sol
Mas não pode ser só isto.
Tudo veio
para partir,
Nas minhas mãos tudo caiu,
Corola de cinco pétalas,
Mas não pode ser só isto.
Nenhum mal
se perdeu,
Nenhum bem foi em vão,
À luz clara tudo arde
Mas não pode ser só isto.
Agarra-me
a vida
Sob a sua asa intacto,
Sempre a sorte do meu lado,
Mas não pode ser só isto.
Nem uma folha
se consumiu
Nem uma vara quebrada
Vidro límpido é o dia,
Mas não pode ser só isto
1 095
Vicente Franz Cecim
Permissão para salgar o mármore
Porque se erguem da terra
e em toda a terra
ainda não se ouve o rumor negro da colheita,
é que esperam a tua sombra no crepúsculo
quando já passaste na manhã
a paciente,
a pedra
e a impaciente semente
Estás passando na amizade das coisas pelas coisas,
estás seguindo
e a luz é terrível
Paisagens
onde a infância doou seu fruto às Sombras
Serás azul
só na noite
em que partirem as tuas crinas
e o sol que semeamos ao redor da tua fronte,
com pensamentos de terra,
para dar ao ar
idéias
e os seus movimentos de nuvens
que às vezes formam a Lenta: A cabeça de um cavalo
Não há beijo
que console quem vê estrelas cadentes
Não há sede que apague esses fogos sobre nós
Aquilo
te deu mãos para cobrires teus olhos,
mas porque não são tuas mãos,
pára e colhe sem mágoa as lágrimas e a nossa água
Teus passos ainda são a fonte
Tu sempre estarás aqui,
pois em ti
se ergue o monte
Para que talhar nos lábios o espírito das ruínas?
As mãos são formas perdidas
e toda pedra torturada encontrada no caminho
já é a imagem de um deus
e em toda a terra
ainda não se ouve o rumor negro da colheita,
é que esperam a tua sombra no crepúsculo
quando já passaste na manhã
a paciente,
a pedra
e a impaciente semente
Estás passando na amizade das coisas pelas coisas,
estás seguindo
e a luz é terrível
Paisagens
onde a infância doou seu fruto às Sombras
Serás azul
só na noite
em que partirem as tuas crinas
e o sol que semeamos ao redor da tua fronte,
com pensamentos de terra,
para dar ao ar
idéias
e os seus movimentos de nuvens
que às vezes formam a Lenta: A cabeça de um cavalo
Não há beijo
que console quem vê estrelas cadentes
Não há sede que apague esses fogos sobre nós
Aquilo
te deu mãos para cobrires teus olhos,
mas porque não são tuas mãos,
pára e colhe sem mágoa as lágrimas e a nossa água
Teus passos ainda são a fonte
Tu sempre estarás aqui,
pois em ti
se ergue o monte
Para que talhar nos lábios o espírito das ruínas?
As mãos são formas perdidas
e toda pedra torturada encontrada no caminho
já é a imagem de um deus
1 055
Vicente Franz Cecim
Permissão para salgar o mármore
Porque se erguem da terra
e em toda a terra
ainda não se ouve o rumor negro da colheita,
é que esperam a tua sombra no crepúsculo
quando já passaste na manhã
a paciente,
a pedra
e a impaciente semente
Estás passando na amizade das coisas pelas coisas,
estás seguindo
e a luz é terrível
Paisagens
onde a infância doou seu fruto às Sombras
Serás azul
só na noite
em que partirem as tuas crinas
e o sol que semeamos ao redor da tua fronte,
com pensamentos de terra,
para dar ao ar
idéias
e os seus movimentos de nuvens
que às vezes formam a Lenta: A cabeça de um cavalo
Não há beijo
que console quem vê estrelas cadentes
Não há sede que apague esses fogos sobre nós
Aquilo
te deu mãos para cobrires teus olhos,
mas porque não são tuas mãos,
pára e colhe sem mágoa as lágrimas e a nossa água
Teus passos ainda são a fonte
Tu sempre estarás aqui,
pois em ti
se ergue o monte
Para que talhar nos lábios o espírito das ruínas?
As mãos são formas perdidas
e toda pedra torturada encontrada no caminho
já é a imagem de um deus
e em toda a terra
ainda não se ouve o rumor negro da colheita,
é que esperam a tua sombra no crepúsculo
quando já passaste na manhã
a paciente,
a pedra
e a impaciente semente
Estás passando na amizade das coisas pelas coisas,
estás seguindo
e a luz é terrível
Paisagens
onde a infância doou seu fruto às Sombras
Serás azul
só na noite
em que partirem as tuas crinas
e o sol que semeamos ao redor da tua fronte,
com pensamentos de terra,
para dar ao ar
idéias
e os seus movimentos de nuvens
que às vezes formam a Lenta: A cabeça de um cavalo
Não há beijo
que console quem vê estrelas cadentes
Não há sede que apague esses fogos sobre nós
Aquilo
te deu mãos para cobrires teus olhos,
mas porque não são tuas mãos,
pára e colhe sem mágoa as lágrimas e a nossa água
Teus passos ainda são a fonte
Tu sempre estarás aqui,
pois em ti
se ergue o monte
Para que talhar nos lábios o espírito das ruínas?
As mãos são formas perdidas
e toda pedra torturada encontrada no caminho
já é a imagem de um deus
1 055
Vicente Franz Cecim
Permissão para salgar o mármore
Porque se erguem da terra
e em toda a terra
ainda não se ouve o rumor negro da colheita,
é que esperam a tua sombra no crepúsculo
quando já passaste na manhã
a paciente,
a pedra
e a impaciente semente
Estás passando na amizade das coisas pelas coisas,
estás seguindo
e a luz é terrível
Paisagens
onde a infância doou seu fruto às Sombras
Serás azul
só na noite
em que partirem as tuas crinas
e o sol que semeamos ao redor da tua fronte,
com pensamentos de terra,
para dar ao ar
idéias
e os seus movimentos de nuvens
que às vezes formam a Lenta: A cabeça de um cavalo
Não há beijo
que console quem vê estrelas cadentes
Não há sede que apague esses fogos sobre nós
Aquilo
te deu mãos para cobrires teus olhos,
mas porque não são tuas mãos,
pára e colhe sem mágoa as lágrimas e a nossa água
Teus passos ainda são a fonte
Tu sempre estarás aqui,
pois em ti
se ergue o monte
Para que talhar nos lábios o espírito das ruínas?
As mãos são formas perdidas
e toda pedra torturada encontrada no caminho
já é a imagem de um deus
e em toda a terra
ainda não se ouve o rumor negro da colheita,
é que esperam a tua sombra no crepúsculo
quando já passaste na manhã
a paciente,
a pedra
e a impaciente semente
Estás passando na amizade das coisas pelas coisas,
estás seguindo
e a luz é terrível
Paisagens
onde a infância doou seu fruto às Sombras
Serás azul
só na noite
em que partirem as tuas crinas
e o sol que semeamos ao redor da tua fronte,
com pensamentos de terra,
para dar ao ar
idéias
e os seus movimentos de nuvens
que às vezes formam a Lenta: A cabeça de um cavalo
Não há beijo
que console quem vê estrelas cadentes
Não há sede que apague esses fogos sobre nós
Aquilo
te deu mãos para cobrires teus olhos,
mas porque não são tuas mãos,
pára e colhe sem mágoa as lágrimas e a nossa água
Teus passos ainda são a fonte
Tu sempre estarás aqui,
pois em ti
se ergue o monte
Para que talhar nos lábios o espírito das ruínas?
As mãos são formas perdidas
e toda pedra torturada encontrada no caminho
já é a imagem de um deus
1 055
Paul Celan
Elogio
da distância
Na fonte dos teus olhos
vivem os fios dos pescadores do lago da loucura.
Na fonte dos teus olhos
o mar cumpre a sua promessa.
Aqui,coração
que andou entre os homens,arranco
do corpo as vestes e o brilho de uma jura:
Mais negro no negro,estou mais nu.
Só quando sou falso sou fiel.
Sou tu quando sou eu.
Na fonte dos teus olhos
ando à deriva sonhando o rapto.
Um fio apanhou um fio:
separamo-nos enlaçados.
Na fonte dos teus olhos
um enforcado estragula o baraço.
Na fonte dos teus olhos
vivem os fios dos pescadores do lago da loucura.
Na fonte dos teus olhos
o mar cumpre a sua promessa.
Aqui,coração
que andou entre os homens,arranco
do corpo as vestes e o brilho de uma jura:
Mais negro no negro,estou mais nu.
Só quando sou falso sou fiel.
Sou tu quando sou eu.
Na fonte dos teus olhos
ando à deriva sonhando o rapto.
Um fio apanhou um fio:
separamo-nos enlaçados.
Na fonte dos teus olhos
um enforcado estragula o baraço.
1 155
José Tolentino Mendonça
Reconhecimento dos laços
aos meus pais
por todas as razões
agora as tuas mãos estranhas ao medo
procuram um brilho mais puro, o lume
agora o tempo se mede por búzios
e os nomes flutuam mais leves que
as algas
podia abrigar duas formigas
e contar-te a história do mundo
desde que foi criado
podia se deixasses
escrever aquela história
da filha louca dos Matildes
a falar horas seguidas
da lucidez assustadora
deste poema
tudo podia
já que
os anjos do vento desenham na água
o fulgor inesperado
do teu gesto
por todas as razões
agora as tuas mãos estranhas ao medo
procuram um brilho mais puro, o lume
agora o tempo se mede por búzios
e os nomes flutuam mais leves que
as algas
podia abrigar duas formigas
e contar-te a história do mundo
desde que foi criado
podia se deixasses
escrever aquela história
da filha louca dos Matildes
a falar horas seguidas
da lucidez assustadora
deste poema
tudo podia
já que
os anjos do vento desenham na água
o fulgor inesperado
do teu gesto
1 834
José Tolentino Mendonça
Reconhecimento dos laços
aos meus pais
por todas as razões
agora as tuas mãos estranhas ao medo
procuram um brilho mais puro, o lume
agora o tempo se mede por búzios
e os nomes flutuam mais leves que
as algas
podia abrigar duas formigas
e contar-te a história do mundo
desde que foi criado
podia se deixasses
escrever aquela história
da filha louca dos Matildes
a falar horas seguidas
da lucidez assustadora
deste poema
tudo podia
já que
os anjos do vento desenham na água
o fulgor inesperado
do teu gesto
por todas as razões
agora as tuas mãos estranhas ao medo
procuram um brilho mais puro, o lume
agora o tempo se mede por búzios
e os nomes flutuam mais leves que
as algas
podia abrigar duas formigas
e contar-te a história do mundo
desde que foi criado
podia se deixasses
escrever aquela história
da filha louca dos Matildes
a falar horas seguidas
da lucidez assustadora
deste poema
tudo podia
já que
os anjos do vento desenham na água
o fulgor inesperado
do teu gesto
1 834
Jorge Melícias
Empurram-se dos olhos,
dividem-se pela casa.
Como grandes câmaras vazias sonham
ou enloquecem por detrás dos cântaros.
Cantam as mãos que cozem junto ao barro,
o azeite dormindo nas talhas.
Cantam o outono nos olhos húmidos dos cães.
de A Luz nos Pulmões(2000)
Como grandes câmaras vazias sonham
ou enloquecem por detrás dos cântaros.
Cantam as mãos que cozem junto ao barro,
o azeite dormindo nas talhas.
Cantam o outono nos olhos húmidos dos cães.
de A Luz nos Pulmões(2000)
916
Luiza Neto Jorge
Venho de dentro,abriu-se a porta
Venho
de dentro,abriu-se a porta:nem todas as horas do
dia e da noiteme darão para olhar de
nascentea poente e pelo meio as ilhas.Há um jogo de
relâmpagos sobre o mundode só imaginá-la a luz
fulmina-me,na outra face ainda é sombraBanhos de
solnas primeiras areias da manhãMansidões na pele e
do labirinto sóa convulsa circunvolução do
corpo.
de dentro,abriu-se a porta:nem todas as horas do
dia e da noiteme darão para olhar de
nascentea poente e pelo meio as ilhas.Há um jogo de
relâmpagos sobre o mundode só imaginá-la a luz
fulmina-me,na outra face ainda é sombraBanhos de
solnas primeiras areias da manhãMansidões na pele e
do labirinto sóa convulsa circunvolução do
corpo.
1 516
Luiza Neto Jorge
Do Medo I
Do Medo I
É de ti que eu sou irmã
por ti fui trocada em criança
quando as estrelas semearam a noite
(Ficávamos chorando de medo
se o laço branco da trança não desse
para a escuridão toda do quarto)
Tenho os silêncios que me emprestaste
e na cidade que levantámos há pouco
(não destruiremos nunca)
habitam os pais
com os não irmãos mortos à nascença
que o eco de um flauta eternizou
no cais dos barcos pequenos de papel
somos irmãos de ninguém
ancorámos com amarras de dúvida
é nosso irmão o medo do poente
a porta azul da morte
Em redor em redor de nós
a solidão voou borboleta negra de metal
caiu enforcado público na gravata verde
(a mesma solidão que cega
os arcos concêntricos das pupilas)
desde a rua ao bolor dos corpos poetas
da porta esquecida sem número
à mulher vendida aos ventos da noite
sem nevoeiros asfixiamos nítidos
nos passeios nos fatos nas cadeiras
nas cúpulas nos clarins
e sentes contigo os corpos das mulheres
de bruços sobre o dia
renascidos maduros os limites da carne
Há nebulosas de anos sem sentido
que vimos aprendendo o amor
há um embrião de veia
há uma veia atávica vermelha
nos mil séculos anteriores ao homem
Quando nos será possível um suicídio exacto
em casas impossíveis
em ondas impossíveis
em (integralmente areia) desertos impossíveis?
Nasceu o sol na erva a erva nos degraus
os degraus desceram ao horizonte
de Quarta Dimensão
É de ti que eu sou irmã
por ti fui trocada em criança
quando as estrelas semearam a noite
(Ficávamos chorando de medo
se o laço branco da trança não desse
para a escuridão toda do quarto)
Tenho os silêncios que me emprestaste
e na cidade que levantámos há pouco
(não destruiremos nunca)
habitam os pais
com os não irmãos mortos à nascença
que o eco de um flauta eternizou
no cais dos barcos pequenos de papel
somos irmãos de ninguém
ancorámos com amarras de dúvida
é nosso irmão o medo do poente
a porta azul da morte
Em redor em redor de nós
a solidão voou borboleta negra de metal
caiu enforcado público na gravata verde
(a mesma solidão que cega
os arcos concêntricos das pupilas)
desde a rua ao bolor dos corpos poetas
da porta esquecida sem número
à mulher vendida aos ventos da noite
sem nevoeiros asfixiamos nítidos
nos passeios nos fatos nas cadeiras
nas cúpulas nos clarins
e sentes contigo os corpos das mulheres
de bruços sobre o dia
renascidos maduros os limites da carne
Há nebulosas de anos sem sentido
que vimos aprendendo o amor
há um embrião de veia
há uma veia atávica vermelha
nos mil séculos anteriores ao homem
Quando nos será possível um suicídio exacto
em casas impossíveis
em ondas impossíveis
em (integralmente areia) desertos impossíveis?
Nasceu o sol na erva a erva nos degraus
os degraus desceram ao horizonte
de Quarta Dimensão
1 906
José Tolentino Mendonça
A infância de Herberto Helder
A infância de Herberto Helder
No princípio era a ilha
embora se diga
o Espírito de Deus
abraçava as águas
Nesse tempo
estendia-me na terra
para olhar as estrelas
e não pensava
que esses corpos de fogo
pudessem ser perigosos
Nesse tempo
marcava a latitude das estrelas
ordenando berlindes
sobre a erva
Não sabia que todo o poema
é um tumulto
que pode abalar
a ordem do universo agora
acredito
Eu era quase um anjo
escrevi relatórios
precisos
acerca do silêncio
Nesse tempo
ainda era possível
encontrar Deus
pelos baldios
Isso foi antes
de aprender a álgebra
No princípio era a ilha
embora se diga
o Espírito de Deus
abraçava as águas
Nesse tempo
estendia-me na terra
para olhar as estrelas
e não pensava
que esses corpos de fogo
pudessem ser perigosos
Nesse tempo
marcava a latitude das estrelas
ordenando berlindes
sobre a erva
Não sabia que todo o poema
é um tumulto
que pode abalar
a ordem do universo agora
acredito
Eu era quase um anjo
escrevi relatórios
precisos
acerca do silêncio
Nesse tempo
ainda era possível
encontrar Deus
pelos baldios
Isso foi antes
de aprender a álgebra
3 798
Natália Correia
Violentámos a natureza
Violentámos a natureza quando matámos as nossas feras
Os homens copiavam os anjos;
Os anjos copiavam os homens;
Ambos copiavam a inocência;
A inocência copiava as feras.
As feras devoraram os homens;
Os anjos devoraram as feras.
A inocência vestiu-se de roxo
Pelo luto das futuras eras.
de Dimensão Encontrada(1957)
Os homens copiavam os anjos;
Os anjos copiavam os homens;
Ambos copiavam a inocência;
A inocência copiava as feras.
As feras devoraram os homens;
Os anjos devoraram as feras.
A inocência vestiu-se de roxo
Pelo luto das futuras eras.
de Dimensão Encontrada(1957)
2 581
Luís Miguel Nava
Retrato
A pele era o que de mais solitário havia no seu corpo.
Há quem, tendo--a metida
num cofre até às mais fundas raízes,
simule não ter pele, quando
de facto ela não está
senão um pouco atrasada em relação ao coração.
Com ele porém não era assim.
A pele ia imitando o céu como podia.
Pequena, solitária, era uma pele metida
consigo mesma e que servia
de poço, onde além de água ele procurara protecção.
Há quem, tendo--a metida
num cofre até às mais fundas raízes,
simule não ter pele, quando
de facto ela não está
senão um pouco atrasada em relação ao coração.
Com ele porém não era assim.
A pele ia imitando o céu como podia.
Pequena, solitária, era uma pele metida
consigo mesma e que servia
de poço, onde além de água ele procurara protecção.
2 081
Luís Miguel Nava
A noite
A noite veio de dentro, começou a
surgir do interior de cada um dos objectos e a
envolvê--los no seu halo negro. Não tardou que as trevas
irradiassem das nossas próprias entranhas, quase que
assobiavam ao cruzar--nos os poros. Seriam uam duas ou três
da tarde e nós sentíamo--las crescendo a toda a
nossa volta. Qualquer que fosse a perspectiva, as
trevas bifurcavam--na: daí a sensação de que, apesar de
a noite também se desprender das coisas, havia nela
algo de essencialmente humano, visceral. Como
instantes exteriores que procurassem integrar--se na trama
do tempo, sucediam--se os relâmpagos: era a luz da
tarde, num estertor, a emergir intermitentemente à
superfície das coisas. Foi nessa altura que a visão se
começou a fazer pelas raízes. As imagens eram sugadas a
partir do que dentro de cada objecto ainda não se
indiferenciara da luz e, após complicadíssimos processos,
imprimiam--se nos olhos. Unidos aos relâmpagos, rompíamos então
a custo a treva nasalada.
surgir do interior de cada um dos objectos e a
envolvê--los no seu halo negro. Não tardou que as trevas
irradiassem das nossas próprias entranhas, quase que
assobiavam ao cruzar--nos os poros. Seriam uam duas ou três
da tarde e nós sentíamo--las crescendo a toda a
nossa volta. Qualquer que fosse a perspectiva, as
trevas bifurcavam--na: daí a sensação de que, apesar de
a noite também se desprender das coisas, havia nela
algo de essencialmente humano, visceral. Como
instantes exteriores que procurassem integrar--se na trama
do tempo, sucediam--se os relâmpagos: era a luz da
tarde, num estertor, a emergir intermitentemente à
superfície das coisas. Foi nessa altura que a visão se
começou a fazer pelas raízes. As imagens eram sugadas a
partir do que dentro de cada objecto ainda não se
indiferenciara da luz e, após complicadíssimos processos,
imprimiam--se nos olhos. Unidos aos relâmpagos, rompíamos então
a custo a treva nasalada.
1 522
Luís Miguel Nava
A noite
A noite veio de dentro, começou a
surgir do interior de cada um dos objectos e a
envolvê--los no seu halo negro. Não tardou que as trevas
irradiassem das nossas próprias entranhas, quase que
assobiavam ao cruzar--nos os poros. Seriam uam duas ou três
da tarde e nós sentíamo--las crescendo a toda a
nossa volta. Qualquer que fosse a perspectiva, as
trevas bifurcavam--na: daí a sensação de que, apesar de
a noite também se desprender das coisas, havia nela
algo de essencialmente humano, visceral. Como
instantes exteriores que procurassem integrar--se na trama
do tempo, sucediam--se os relâmpagos: era a luz da
tarde, num estertor, a emergir intermitentemente à
superfície das coisas. Foi nessa altura que a visão se
começou a fazer pelas raízes. As imagens eram sugadas a
partir do que dentro de cada objecto ainda não se
indiferenciara da luz e, após complicadíssimos processos,
imprimiam--se nos olhos. Unidos aos relâmpagos, rompíamos então
a custo a treva nasalada.
surgir do interior de cada um dos objectos e a
envolvê--los no seu halo negro. Não tardou que as trevas
irradiassem das nossas próprias entranhas, quase que
assobiavam ao cruzar--nos os poros. Seriam uam duas ou três
da tarde e nós sentíamo--las crescendo a toda a
nossa volta. Qualquer que fosse a perspectiva, as
trevas bifurcavam--na: daí a sensação de que, apesar de
a noite também se desprender das coisas, havia nela
algo de essencialmente humano, visceral. Como
instantes exteriores que procurassem integrar--se na trama
do tempo, sucediam--se os relâmpagos: era a luz da
tarde, num estertor, a emergir intermitentemente à
superfície das coisas. Foi nessa altura que a visão se
começou a fazer pelas raízes. As imagens eram sugadas a
partir do que dentro de cada objecto ainda não se
indiferenciara da luz e, após complicadíssimos processos,
imprimiam--se nos olhos. Unidos aos relâmpagos, rompíamos então
a custo a treva nasalada.
1 522
José Tolentino Mendonça
Compaixão
Vi pela primeira vez o mar
era muito difícil frente a mim
compreender esse território absoluto
falámos só de coisas inúteis
e o mundo inteiro se escondia
somos novos. Lemos nos olhos fechados
precauções,derrotas,recusas
quando a intimidade sugere
a maior compaixão
era muito difícil frente a mim
compreender esse território absoluto
falámos só de coisas inúteis
e o mundo inteiro se escondia
somos novos. Lemos nos olhos fechados
precauções,derrotas,recusas
quando a intimidade sugere
a maior compaixão
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Luiza Neto Jorge
As casas
I
As casas vieram de noite
De manhã são casas
À noite estendem os braços para o alto
fumegam vão partir
Fecham os olhos
percorrem grandes distâncias
como nuvens ou navios
As casas fluem de noite
sob a maré dos rios
São altamente mais dóceis
que as crianças
Dentro do estuque se fecham
pensativas
Tentam falar bem claro
no silêncio
com sua voz de telhas inclinadas
de Terra Imóvel
As casas vieram de noite
De manhã são casas
À noite estendem os braços para o alto
fumegam vão partir
Fecham os olhos
percorrem grandes distâncias
como nuvens ou navios
As casas fluem de noite
sob a maré dos rios
São altamente mais dóceis
que as crianças
Dentro do estuque se fecham
pensativas
Tentam falar bem claro
no silêncio
com sua voz de telhas inclinadas
de Terra Imóvel
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Luiza Neto Jorge
A porta aporta
a porta roda ao invés da lua
a porta roda bússula enterrada ao invés dos olhos
a porta geme é um cão nocturno
a porta geme extinta na trela da noite
a porta areia
a porta caruncho pária de mar
a porta maré que vem e que vai que bate e que fecha
a porta com máscara de morte
a porta sem sorte
a porta joelho na alma das portas
a porta mulher da casa de passe
a porta manchou a manhã com o grito de porta
a porta enforcada no mastro da casa
a porta por asa
a porta roda
a porta sexo a vida toda
a porta tosca da madrugada pregos são estrelas mortas
a porta pregada
a porta leilão
a porta batente a porta aranha por coração
a porta tu
a porta eu
a porta ninguém na terra pequena
a porta roda
a porta geme
a porta facho
a porta leme
de Quarta Dimensão
a porta roda bússula enterrada ao invés dos olhos
a porta geme é um cão nocturno
a porta geme extinta na trela da noite
a porta areia
a porta caruncho pária de mar
a porta maré que vem e que vai que bate e que fecha
a porta com máscara de morte
a porta sem sorte
a porta joelho na alma das portas
a porta mulher da casa de passe
a porta manchou a manhã com o grito de porta
a porta enforcada no mastro da casa
a porta por asa
a porta roda
a porta sexo a vida toda
a porta tosca da madrugada pregos são estrelas mortas
a porta pregada
a porta leilão
a porta batente a porta aranha por coração
a porta tu
a porta eu
a porta ninguém na terra pequena
a porta roda
a porta geme
a porta facho
a porta leme
de Quarta Dimensão
2 197
Luiza Neto Jorge
A porta aporta
a porta roda ao invés da lua
a porta roda bússula enterrada ao invés dos olhos
a porta geme é um cão nocturno
a porta geme extinta na trela da noite
a porta areia
a porta caruncho pária de mar
a porta maré que vem e que vai que bate e que fecha
a porta com máscara de morte
a porta sem sorte
a porta joelho na alma das portas
a porta mulher da casa de passe
a porta manchou a manhã com o grito de porta
a porta enforcada no mastro da casa
a porta por asa
a porta roda
a porta sexo a vida toda
a porta tosca da madrugada pregos são estrelas mortas
a porta pregada
a porta leilão
a porta batente a porta aranha por coração
a porta tu
a porta eu
a porta ninguém na terra pequena
a porta roda
a porta geme
a porta facho
a porta leme
de Quarta Dimensão
a porta roda bússula enterrada ao invés dos olhos
a porta geme é um cão nocturno
a porta geme extinta na trela da noite
a porta areia
a porta caruncho pária de mar
a porta maré que vem e que vai que bate e que fecha
a porta com máscara de morte
a porta sem sorte
a porta joelho na alma das portas
a porta mulher da casa de passe
a porta manchou a manhã com o grito de porta
a porta enforcada no mastro da casa
a porta por asa
a porta roda
a porta sexo a vida toda
a porta tosca da madrugada pregos são estrelas mortas
a porta pregada
a porta leilão
a porta batente a porta aranha por coração
a porta tu
a porta eu
a porta ninguém na terra pequena
a porta roda
a porta geme
a porta facho
a porta leme
de Quarta Dimensão
2 197
Giacomo Leopardi
Infinito
Infinito
Sempre cara me foi esta colina
Erma esta sebe, que de extensa parte
Dos confins do horizonte o olhar me oculta.
Mas, se me sento a olhar, intermináveis
Espaços para além, e sobre-humanos
Silêncios e quietudes profundíssimas,
Na mente vou sonhando, de tal forma
Que quase o coração me aflige. E, ouvindo
O vento sussurrar por entre as plantas,
O silêncio infinito à sua voz
Comparo: é quando me visita o eterno
E as estações já mortas e a presente
E viva com os seus cantos. Assim, nessa
Imensidão se afoga o pensamento:
E doce é naufragar-me nesses mares.
Sempre cara me foi esta colina
Erma esta sebe, que de extensa parte
Dos confins do horizonte o olhar me oculta.
Mas, se me sento a olhar, intermináveis
Espaços para além, e sobre-humanos
Silêncios e quietudes profundíssimas,
Na mente vou sonhando, de tal forma
Que quase o coração me aflige. E, ouvindo
O vento sussurrar por entre as plantas,
O silêncio infinito à sua voz
Comparo: é quando me visita o eterno
E as estações já mortas e a presente
E viva com os seus cantos. Assim, nessa
Imensidão se afoga o pensamento:
E doce é naufragar-me nesses mares.
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