Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Paul Celan
Elogio
da distância
Na fonte dos teus olhos
vivem os fios dos pescadores do lago da loucura.
Na fonte dos teus olhos
o mar cumpre a sua promessa.
Aqui,coração
que andou entre os homens,arranco
do corpo as vestes e o brilho de uma jura:
Mais negro no negro,estou mais nu.
Só quando sou falso sou fiel.
Sou tu quando sou eu.
Na fonte dos teus olhos
ando à deriva sonhando o rapto.
Um fio apanhou um fio:
separamo-nos enlaçados.
Na fonte dos teus olhos
um enforcado estragula o baraço.
Na fonte dos teus olhos
vivem os fios dos pescadores do lago da loucura.
Na fonte dos teus olhos
o mar cumpre a sua promessa.
Aqui,coração
que andou entre os homens,arranco
do corpo as vestes e o brilho de uma jura:
Mais negro no negro,estou mais nu.
Só quando sou falso sou fiel.
Sou tu quando sou eu.
Na fonte dos teus olhos
ando à deriva sonhando o rapto.
Um fio apanhou um fio:
separamo-nos enlaçados.
Na fonte dos teus olhos
um enforcado estragula o baraço.
1 175
Arsenii Tarkovskii
O Verão
partiu
E nunca devia ter vindo.
Será quente o sol
Mas não pode ser só isto.
Tudo veio
para partir,
Nas minhas mãos tudo caiu,
Corola de cinco pétalas,
Mas não pode ser só isto.
Nenhum mal
se perdeu,
Nenhum bem foi em vão,
À luz clara tudo arde
Mas não pode ser só isto.
Agarra-me
a vida
Sob a sua asa intacto,
Sempre a sorte do meu lado,
Mas não pode ser só isto.
Nem uma folha
se consumiu
Nem uma vara quebrada…
Vidro límpido é o dia,
Mas não pode ser só isto
E nunca devia ter vindo.
Será quente o sol
Mas não pode ser só isto.
Tudo veio
para partir,
Nas minhas mãos tudo caiu,
Corola de cinco pétalas,
Mas não pode ser só isto.
Nenhum mal
se perdeu,
Nenhum bem foi em vão,
À luz clara tudo arde
Mas não pode ser só isto.
Agarra-me
a vida
Sob a sua asa intacto,
Sempre a sorte do meu lado,
Mas não pode ser só isto.
Nem uma folha
se consumiu
Nem uma vara quebrada…
Vidro límpido é o dia,
Mas não pode ser só isto
1 112
Vicente Franz Cecim
Permissão para salgar o mármore
Porque se erguem da terra
e em toda a terra
ainda não se ouve o rumor negro da colheita,
é que esperam a tua sombra no crepúsculo
quando já passaste na manhã
a paciente,
a pedra
e a impaciente semente
Estás passando na amizade das coisas pelas coisas,
estás seguindo
e a luz é terrível
Paisagens
onde a infância doou seu fruto às Sombras
Serás azul
só na noite
em que partirem as tuas crinas
e o sol que semeamos ao redor da tua fronte,
com pensamentos de terra,
para dar ao ar
idéias
e os seus movimentos de nuvens
que às vezes formam a Lenta: A cabeça de um cavalo
Não há beijo
que console quem vê estrelas cadentes
Não há sede que apague esses fogos sobre nós
Aquilo
te deu mãos para cobrires teus olhos,
mas porque não são tuas mãos,
pára e colhe sem mágoa as lágrimas e a nossa água
Teus passos ainda são a fonte
Tu sempre estarás aqui,
pois em ti
se ergue o monte
Para que talhar nos lábios o espírito das ruínas?
As mãos são formas perdidas
e toda pedra torturada encontrada no caminho
já é a imagem de um deus
e em toda a terra
ainda não se ouve o rumor negro da colheita,
é que esperam a tua sombra no crepúsculo
quando já passaste na manhã
a paciente,
a pedra
e a impaciente semente
Estás passando na amizade das coisas pelas coisas,
estás seguindo
e a luz é terrível
Paisagens
onde a infância doou seu fruto às Sombras
Serás azul
só na noite
em que partirem as tuas crinas
e o sol que semeamos ao redor da tua fronte,
com pensamentos de terra,
para dar ao ar
idéias
e os seus movimentos de nuvens
que às vezes formam a Lenta: A cabeça de um cavalo
Não há beijo
que console quem vê estrelas cadentes
Não há sede que apague esses fogos sobre nós
Aquilo
te deu mãos para cobrires teus olhos,
mas porque não são tuas mãos,
pára e colhe sem mágoa as lágrimas e a nossa água
Teus passos ainda são a fonte
Tu sempre estarás aqui,
pois em ti
se ergue o monte
Para que talhar nos lábios o espírito das ruínas?
As mãos são formas perdidas
e toda pedra torturada encontrada no caminho
já é a imagem de um deus
1 069
Vicente Franz Cecim
Permissão para salgar o mármore
Porque se erguem da terra
e em toda a terra
ainda não se ouve o rumor negro da colheita,
é que esperam a tua sombra no crepúsculo
quando já passaste na manhã
a paciente,
a pedra
e a impaciente semente
Estás passando na amizade das coisas pelas coisas,
estás seguindo
e a luz é terrível
Paisagens
onde a infância doou seu fruto às Sombras
Serás azul
só na noite
em que partirem as tuas crinas
e o sol que semeamos ao redor da tua fronte,
com pensamentos de terra,
para dar ao ar
idéias
e os seus movimentos de nuvens
que às vezes formam a Lenta: A cabeça de um cavalo
Não há beijo
que console quem vê estrelas cadentes
Não há sede que apague esses fogos sobre nós
Aquilo
te deu mãos para cobrires teus olhos,
mas porque não são tuas mãos,
pára e colhe sem mágoa as lágrimas e a nossa água
Teus passos ainda são a fonte
Tu sempre estarás aqui,
pois em ti
se ergue o monte
Para que talhar nos lábios o espírito das ruínas?
As mãos são formas perdidas
e toda pedra torturada encontrada no caminho
já é a imagem de um deus
e em toda a terra
ainda não se ouve o rumor negro da colheita,
é que esperam a tua sombra no crepúsculo
quando já passaste na manhã
a paciente,
a pedra
e a impaciente semente
Estás passando na amizade das coisas pelas coisas,
estás seguindo
e a luz é terrível
Paisagens
onde a infância doou seu fruto às Sombras
Serás azul
só na noite
em que partirem as tuas crinas
e o sol que semeamos ao redor da tua fronte,
com pensamentos de terra,
para dar ao ar
idéias
e os seus movimentos de nuvens
que às vezes formam a Lenta: A cabeça de um cavalo
Não há beijo
que console quem vê estrelas cadentes
Não há sede que apague esses fogos sobre nós
Aquilo
te deu mãos para cobrires teus olhos,
mas porque não são tuas mãos,
pára e colhe sem mágoa as lágrimas e a nossa água
Teus passos ainda são a fonte
Tu sempre estarás aqui,
pois em ti
se ergue o monte
Para que talhar nos lábios o espírito das ruínas?
As mãos são formas perdidas
e toda pedra torturada encontrada no caminho
já é a imagem de um deus
1 069
Vicente Franz Cecim
Permissão para salgar o mármore
Porque se erguem da terra
e em toda a terra
ainda não se ouve o rumor negro da colheita,
é que esperam a tua sombra no crepúsculo
quando já passaste na manhã
a paciente,
a pedra
e a impaciente semente
Estás passando na amizade das coisas pelas coisas,
estás seguindo
e a luz é terrível
Paisagens
onde a infância doou seu fruto às Sombras
Serás azul
só na noite
em que partirem as tuas crinas
e o sol que semeamos ao redor da tua fronte,
com pensamentos de terra,
para dar ao ar
idéias
e os seus movimentos de nuvens
que às vezes formam a Lenta: A cabeça de um cavalo
Não há beijo
que console quem vê estrelas cadentes
Não há sede que apague esses fogos sobre nós
Aquilo
te deu mãos para cobrires teus olhos,
mas porque não são tuas mãos,
pára e colhe sem mágoa as lágrimas e a nossa água
Teus passos ainda são a fonte
Tu sempre estarás aqui,
pois em ti
se ergue o monte
Para que talhar nos lábios o espírito das ruínas?
As mãos são formas perdidas
e toda pedra torturada encontrada no caminho
já é a imagem de um deus
e em toda a terra
ainda não se ouve o rumor negro da colheita,
é que esperam a tua sombra no crepúsculo
quando já passaste na manhã
a paciente,
a pedra
e a impaciente semente
Estás passando na amizade das coisas pelas coisas,
estás seguindo
e a luz é terrível
Paisagens
onde a infância doou seu fruto às Sombras
Serás azul
só na noite
em que partirem as tuas crinas
e o sol que semeamos ao redor da tua fronte,
com pensamentos de terra,
para dar ao ar
idéias
e os seus movimentos de nuvens
que às vezes formam a Lenta: A cabeça de um cavalo
Não há beijo
que console quem vê estrelas cadentes
Não há sede que apague esses fogos sobre nós
Aquilo
te deu mãos para cobrires teus olhos,
mas porque não são tuas mãos,
pára e colhe sem mágoa as lágrimas e a nossa água
Teus passos ainda são a fonte
Tu sempre estarás aqui,
pois em ti
se ergue o monte
Para que talhar nos lábios o espírito das ruínas?
As mãos são formas perdidas
e toda pedra torturada encontrada no caminho
já é a imagem de um deus
1 069
Giacomo Leopardi
Infinito
Infinito
Sempre cara me foi esta colina
Erma esta sebe, que de extensa parte
Dos confins do horizonte o olhar me oculta.
Mas, se me sento a olhar, intermináveis
Espaços para além, e sobre-humanos
Silêncios e quietudes profundíssimas,
Na mente vou sonhando, de tal forma
Que quase o coração me aflige. E, ouvindo
O vento sussurrar por entre as plantas,
O silêncio infinito à sua voz
Comparo: é quando me visita o eterno
E as estações já mortas e a presente
E viva com os seus cantos. Assim, nessa
Imensidão se afoga o pensamento:
E doce é naufragar-me nesses mares.
Sempre cara me foi esta colina
Erma esta sebe, que de extensa parte
Dos confins do horizonte o olhar me oculta.
Mas, se me sento a olhar, intermináveis
Espaços para além, e sobre-humanos
Silêncios e quietudes profundíssimas,
Na mente vou sonhando, de tal forma
Que quase o coração me aflige. E, ouvindo
O vento sussurrar por entre as plantas,
O silêncio infinito à sua voz
Comparo: é quando me visita o eterno
E as estações já mortas e a presente
E viva com os seus cantos. Assim, nessa
Imensidão se afoga o pensamento:
E doce é naufragar-me nesses mares.
2 715
Giacomo Leopardi
Infinito
Infinito
Sempre cara me foi esta colina
Erma esta sebe, que de extensa parte
Dos confins do horizonte o olhar me oculta.
Mas, se me sento a olhar, intermináveis
Espaços para além, e sobre-humanos
Silêncios e quietudes profundíssimas,
Na mente vou sonhando, de tal forma
Que quase o coração me aflige. E, ouvindo
O vento sussurrar por entre as plantas,
O silêncio infinito à sua voz
Comparo: é quando me visita o eterno
E as estações já mortas e a presente
E viva com os seus cantos. Assim, nessa
Imensidão se afoga o pensamento:
E doce é naufragar-me nesses mares.
Sempre cara me foi esta colina
Erma esta sebe, que de extensa parte
Dos confins do horizonte o olhar me oculta.
Mas, se me sento a olhar, intermináveis
Espaços para além, e sobre-humanos
Silêncios e quietudes profundíssimas,
Na mente vou sonhando, de tal forma
Que quase o coração me aflige. E, ouvindo
O vento sussurrar por entre as plantas,
O silêncio infinito à sua voz
Comparo: é quando me visita o eterno
E as estações já mortas e a presente
E viva com os seus cantos. Assim, nessa
Imensidão se afoga o pensamento:
E doce é naufragar-me nesses mares.
2 715
Giacomo Leopardi
Infinito
Infinito
Sempre cara me foi esta colina
Erma esta sebe, que de extensa parte
Dos confins do horizonte o olhar me oculta.
Mas, se me sento a olhar, intermináveis
Espaços para além, e sobre-humanos
Silêncios e quietudes profundíssimas,
Na mente vou sonhando, de tal forma
Que quase o coração me aflige. E, ouvindo
O vento sussurrar por entre as plantas,
O silêncio infinito à sua voz
Comparo: é quando me visita o eterno
E as estações já mortas e a presente
E viva com os seus cantos. Assim, nessa
Imensidão se afoga o pensamento:
E doce é naufragar-me nesses mares.
Sempre cara me foi esta colina
Erma esta sebe, que de extensa parte
Dos confins do horizonte o olhar me oculta.
Mas, se me sento a olhar, intermináveis
Espaços para além, e sobre-humanos
Silêncios e quietudes profundíssimas,
Na mente vou sonhando, de tal forma
Que quase o coração me aflige. E, ouvindo
O vento sussurrar por entre as plantas,
O silêncio infinito à sua voz
Comparo: é quando me visita o eterno
E as estações já mortas e a presente
E viva com os seus cantos. Assim, nessa
Imensidão se afoga o pensamento:
E doce é naufragar-me nesses mares.
2 715
Luís Miguel Nava
Retrato
A pele era o que de mais solitário havia no seu corpo.
Há quem, tendo--a metida
num cofre até às mais fundas raízes,
simule não ter pele, quando
de facto ela não está
senão um pouco atrasada em relação ao coração.
Com ele porém não era assim.
A pele ia imitando o céu como podia.
Pequena, solitária, era uma pele metida
consigo mesma e que servia
de poço, onde além de água ele procurara protecção.
Há quem, tendo--a metida
num cofre até às mais fundas raízes,
simule não ter pele, quando
de facto ela não está
senão um pouco atrasada em relação ao coração.
Com ele porém não era assim.
A pele ia imitando o céu como podia.
Pequena, solitária, era uma pele metida
consigo mesma e que servia
de poço, onde além de água ele procurara protecção.
2 098
Jorge Melícias
Empurram-se dos olhos,
dividem-se pela casa.
Como grandes câmaras vazias sonham
ou enloquecem por detrás dos cântaros.
Cantam as mãos que cozem junto ao barro,
o azeite dormindo nas talhas.
Cantam o outono nos olhos húmidos dos cães.
de A Luz nos Pulmões(2000)
Como grandes câmaras vazias sonham
ou enloquecem por detrás dos cântaros.
Cantam as mãos que cozem junto ao barro,
o azeite dormindo nas talhas.
Cantam o outono nos olhos húmidos dos cães.
de A Luz nos Pulmões(2000)
919
Murillo Mendes
A Cadeira Elétrica
Uma noite – talvez avisem no jornal –
Apertarei um botão no rochedo de carne,
O mar jorrará assim, aos borbotões,
Das minhas veias onde desliza modesto e manso, sem fazer barulho.
Alguém oferecerá o socorro das padiolas
Da terra vermelha, talvez não atenderei.
Várias figueiras murcharão de inveja,
Os clarins das vitrolas anunciarão inutilmente
Que estou morre não morre, ninguém escutará.
As árvores – noivas que eu nunca amei dia nenhum
Torcerão a cabeleira, as filhas do relâmpago
Virão me buscar – o noivo está chegando –,
Mas eu preferia que num canto anônimo do mundo
Alguma menina meiga e pensativa
Desfolhasse um malmequer em minha intenção.
Apertarei um botão no rochedo de carne,
O mar jorrará assim, aos borbotões,
Das minhas veias onde desliza modesto e manso, sem fazer barulho.
Alguém oferecerá o socorro das padiolas
Da terra vermelha, talvez não atenderei.
Várias figueiras murcharão de inveja,
Os clarins das vitrolas anunciarão inutilmente
Que estou morre não morre, ninguém escutará.
As árvores – noivas que eu nunca amei dia nenhum
Torcerão a cabeleira, as filhas do relâmpago
Virão me buscar – o noivo está chegando –,
Mas eu preferia que num canto anônimo do mundo
Alguma menina meiga e pensativa
Desfolhasse um malmequer em minha intenção.
1 057
Luiza Neto Jorge
As casas
I
As casas vieram de noite
De manhã são casas
À noite estendem os braços para o alto
fumegam vão partir
Fecham os olhos
percorrem grandes distâncias
como nuvens ou navios
As casas fluem de noite
sob a maré dos rios
São altamente mais dóceis
que as crianças
Dentro do estuque se fecham
pensativas
Tentam falar bem claro
no silêncio
com sua voz de telhas inclinadas
de Terra Imóvel
As casas vieram de noite
De manhã são casas
À noite estendem os braços para o alto
fumegam vão partir
Fecham os olhos
percorrem grandes distâncias
como nuvens ou navios
As casas fluem de noite
sob a maré dos rios
São altamente mais dóceis
que as crianças
Dentro do estuque se fecham
pensativas
Tentam falar bem claro
no silêncio
com sua voz de telhas inclinadas
de Terra Imóvel
3 801
Luiza Neto Jorge
E do Espanto II
consagraram-me
ao espanto
que de minúsculo há
no mar
e ímpar sobre a pele
criança
circuncidada a fogo e morte
(no céu da boca a memória absurda
das abóbadas)
mais
que na cidade
a matriz
dos arranha-céus líquidos
muito mais
que nos cartões
as clandestinas chagas
digitais
o espanto permanece
por frestas e
por ombros
qualquer
onde e
quando
de Quarta Dimensão
ao espanto
que de minúsculo há
no mar
e ímpar sobre a pele
criança
circuncidada a fogo e morte
(no céu da boca a memória absurda
das abóbadas)
mais
que na cidade
a matriz
dos arranha-céus líquidos
muito mais
que nos cartões
as clandestinas chagas
digitais
o espanto permanece
por frestas e
por ombros
qualquer
onde e
quando
de Quarta Dimensão
1 517
José Tolentino Mendonça
Reconhecimento dos laços
aos meus pais
por todas as razões
agora as tuas mãos estranhas ao medo
procuram um brilho mais puro, o lume
agora o tempo se mede por búzios
e os nomes flutuam mais leves que
as algas
podia abrigar duas formigas
e contar-te a história do mundo
desde que foi criado
podia se deixasses
escrever aquela história
da filha louca dos Matildes
a falar horas seguidas
da lucidez assustadora
deste poema
tudo podia
já que
os anjos do vento desenham na água
o fulgor inesperado
do teu gesto
por todas as razões
agora as tuas mãos estranhas ao medo
procuram um brilho mais puro, o lume
agora o tempo se mede por búzios
e os nomes flutuam mais leves que
as algas
podia abrigar duas formigas
e contar-te a história do mundo
desde que foi criado
podia se deixasses
escrever aquela história
da filha louca dos Matildes
a falar horas seguidas
da lucidez assustadora
deste poema
tudo podia
já que
os anjos do vento desenham na água
o fulgor inesperado
do teu gesto
1 852
José Tolentino Mendonça
Reconhecimento dos laços
aos meus pais
por todas as razões
agora as tuas mãos estranhas ao medo
procuram um brilho mais puro, o lume
agora o tempo se mede por búzios
e os nomes flutuam mais leves que
as algas
podia abrigar duas formigas
e contar-te a história do mundo
desde que foi criado
podia se deixasses
escrever aquela história
da filha louca dos Matildes
a falar horas seguidas
da lucidez assustadora
deste poema
tudo podia
já que
os anjos do vento desenham na água
o fulgor inesperado
do teu gesto
por todas as razões
agora as tuas mãos estranhas ao medo
procuram um brilho mais puro, o lume
agora o tempo se mede por búzios
e os nomes flutuam mais leves que
as algas
podia abrigar duas formigas
e contar-te a história do mundo
desde que foi criado
podia se deixasses
escrever aquela história
da filha louca dos Matildes
a falar horas seguidas
da lucidez assustadora
deste poema
tudo podia
já que
os anjos do vento desenham na água
o fulgor inesperado
do teu gesto
1 852
Luís Miguel Nava
A noite
A noite veio de dentro, começou a
surgir do interior de cada um dos objectos e a
envolvê--los no seu halo negro. Não tardou que as trevas
irradiassem das nossas próprias entranhas, quase que
assobiavam ao cruzar--nos os poros. Seriam uam duas ou três
da tarde e nós sentíamo--las crescendo a toda a
nossa volta. Qualquer que fosse a perspectiva, as
trevas bifurcavam--na: daí a sensação de que, apesar de
a noite também se desprender das coisas, havia nela
algo de essencialmente humano, visceral. Como
instantes exteriores que procurassem integrar--se na trama
do tempo, sucediam--se os relâmpagos: era a luz da
tarde, num estertor, a emergir intermitentemente à
superfície das coisas. Foi nessa altura que a visão se
começou a fazer pelas raízes. As imagens eram sugadas a
partir do que dentro de cada objecto ainda não se
indiferenciara da luz e, após complicadíssimos processos,
imprimiam--se nos olhos. Unidos aos relâmpagos, rompíamos então
a custo a treva nasalada.
surgir do interior de cada um dos objectos e a
envolvê--los no seu halo negro. Não tardou que as trevas
irradiassem das nossas próprias entranhas, quase que
assobiavam ao cruzar--nos os poros. Seriam uam duas ou três
da tarde e nós sentíamo--las crescendo a toda a
nossa volta. Qualquer que fosse a perspectiva, as
trevas bifurcavam--na: daí a sensação de que, apesar de
a noite também se desprender das coisas, havia nela
algo de essencialmente humano, visceral. Como
instantes exteriores que procurassem integrar--se na trama
do tempo, sucediam--se os relâmpagos: era a luz da
tarde, num estertor, a emergir intermitentemente à
superfície das coisas. Foi nessa altura que a visão se
começou a fazer pelas raízes. As imagens eram sugadas a
partir do que dentro de cada objecto ainda não se
indiferenciara da luz e, após complicadíssimos processos,
imprimiam--se nos olhos. Unidos aos relâmpagos, rompíamos então
a custo a treva nasalada.
1 541
Luís Miguel Nava
A noite
A noite veio de dentro, começou a
surgir do interior de cada um dos objectos e a
envolvê--los no seu halo negro. Não tardou que as trevas
irradiassem das nossas próprias entranhas, quase que
assobiavam ao cruzar--nos os poros. Seriam uam duas ou três
da tarde e nós sentíamo--las crescendo a toda a
nossa volta. Qualquer que fosse a perspectiva, as
trevas bifurcavam--na: daí a sensação de que, apesar de
a noite também se desprender das coisas, havia nela
algo de essencialmente humano, visceral. Como
instantes exteriores que procurassem integrar--se na trama
do tempo, sucediam--se os relâmpagos: era a luz da
tarde, num estertor, a emergir intermitentemente à
superfície das coisas. Foi nessa altura que a visão se
começou a fazer pelas raízes. As imagens eram sugadas a
partir do que dentro de cada objecto ainda não se
indiferenciara da luz e, após complicadíssimos processos,
imprimiam--se nos olhos. Unidos aos relâmpagos, rompíamos então
a custo a treva nasalada.
surgir do interior de cada um dos objectos e a
envolvê--los no seu halo negro. Não tardou que as trevas
irradiassem das nossas próprias entranhas, quase que
assobiavam ao cruzar--nos os poros. Seriam uam duas ou três
da tarde e nós sentíamo--las crescendo a toda a
nossa volta. Qualquer que fosse a perspectiva, as
trevas bifurcavam--na: daí a sensação de que, apesar de
a noite também se desprender das coisas, havia nela
algo de essencialmente humano, visceral. Como
instantes exteriores que procurassem integrar--se na trama
do tempo, sucediam--se os relâmpagos: era a luz da
tarde, num estertor, a emergir intermitentemente à
superfície das coisas. Foi nessa altura que a visão se
começou a fazer pelas raízes. As imagens eram sugadas a
partir do que dentro de cada objecto ainda não se
indiferenciara da luz e, após complicadíssimos processos,
imprimiam--se nos olhos. Unidos aos relâmpagos, rompíamos então
a custo a treva nasalada.
1 541
Luiza Neto Jorge
Do Medo I
Do Medo I
É de ti que eu sou irmã
por ti fui trocada em criança
quando as estrelas semearam a noite
(Ficávamos chorando de medo
se o laço branco da trança não desse
para a escuridão toda do quarto)
Tenho os silêncios que me emprestaste
e na cidade que levantámos há pouco
(não destruiremos nunca)
habitam os pais
com os não irmãos mortos à nascença
que o eco de um flauta eternizou
no cais dos barcos pequenos de papel
somos irmãos de ninguém
ancorámos com amarras de dúvida
é nosso irmão o medo do poente
a porta azul da morte
Em redor em redor de nós
a solidão voou borboleta negra de metal
caiu enforcado público na gravata verde
(a mesma solidão que cega
os arcos concêntricos das pupilas)
desde a rua ao bolor dos corpos poetas
da porta esquecida sem número
à mulher vendida aos ventos da noite
sem nevoeiros asfixiamos nítidos
nos passeios nos fatos nas cadeiras
nas cúpulas nos clarins
e sentes contigo os corpos das mulheres
de bruços sobre o dia
renascidos maduros os limites da carne
Há nebulosas de anos sem sentido
que vimos aprendendo o amor
há um embrião de veia
há uma veia atávica vermelha
nos mil séculos anteriores ao homem
Quando nos será possível um suicídio exacto
em casas impossíveis
em ondas impossíveis
em (integralmente areia) desertos impossíveis?
Nasceu o sol na erva a erva nos degraus
os degraus desceram ao horizonte
de Quarta Dimensão
É de ti que eu sou irmã
por ti fui trocada em criança
quando as estrelas semearam a noite
(Ficávamos chorando de medo
se o laço branco da trança não desse
para a escuridão toda do quarto)
Tenho os silêncios que me emprestaste
e na cidade que levantámos há pouco
(não destruiremos nunca)
habitam os pais
com os não irmãos mortos à nascença
que o eco de um flauta eternizou
no cais dos barcos pequenos de papel
somos irmãos de ninguém
ancorámos com amarras de dúvida
é nosso irmão o medo do poente
a porta azul da morte
Em redor em redor de nós
a solidão voou borboleta negra de metal
caiu enforcado público na gravata verde
(a mesma solidão que cega
os arcos concêntricos das pupilas)
desde a rua ao bolor dos corpos poetas
da porta esquecida sem número
à mulher vendida aos ventos da noite
sem nevoeiros asfixiamos nítidos
nos passeios nos fatos nas cadeiras
nas cúpulas nos clarins
e sentes contigo os corpos das mulheres
de bruços sobre o dia
renascidos maduros os limites da carne
Há nebulosas de anos sem sentido
que vimos aprendendo o amor
há um embrião de veia
há uma veia atávica vermelha
nos mil séculos anteriores ao homem
Quando nos será possível um suicídio exacto
em casas impossíveis
em ondas impossíveis
em (integralmente areia) desertos impossíveis?
Nasceu o sol na erva a erva nos degraus
os degraus desceram ao horizonte
de Quarta Dimensão
1 923
Luís Miguel Nava
O tímpano e a pupila
Num dos pratos o mar, no outro um rio, agora
que o tempo se desossa,
que as pedras
que piso se me enterram na memória e os caminhos
se me aguçam na alma como lâminas, o pão
molhado nas feridas,
o pão
ele próprio já também uma ferida, agora
que o tempo, que já tanto
compararam a um rio, mais
não é do que uma leve exsudação nos muros,
nas mãos, agora
que o céu se encrespa e que pedaços
de mundo arremessados
com toda a força aos olhos revolteiam
na treva antes de se extinguirem,
mais magro do que a neve
caminho, a alma aberta como uma ferida,
ao longo da memória, onde se fundem
o tímpano e a pupila.
que o tempo se desossa,
que as pedras
que piso se me enterram na memória e os caminhos
se me aguçam na alma como lâminas, o pão
molhado nas feridas,
o pão
ele próprio já também uma ferida, agora
que o tempo, que já tanto
compararam a um rio, mais
não é do que uma leve exsudação nos muros,
nas mãos, agora
que o céu se encrespa e que pedaços
de mundo arremessados
com toda a força aos olhos revolteiam
na treva antes de se extinguirem,
mais magro do que a neve
caminho, a alma aberta como uma ferida,
ao longo da memória, onde se fundem
o tímpano e a pupila.
1 841
Luiza Neto Jorge
Venho de dentro,abriu-se a porta
Venho
de dentro,abriu-se a porta:nem todas as horas do
dia e da noiteme darão para olhar de
nascentea poente e pelo meio as ilhas.Há um jogo de
relâmpagos sobre o mundode só imaginá-la a luz
fulmina-me,na outra face ainda é sombraBanhos de
solnas primeiras areias da manhãMansidões na pele e
do labirinto sóa convulsa circunvolução do
corpo.
de dentro,abriu-se a porta:nem todas as horas do
dia e da noiteme darão para olhar de
nascentea poente e pelo meio as ilhas.Há um jogo de
relâmpagos sobre o mundode só imaginá-la a luz
fulmina-me,na outra face ainda é sombraBanhos de
solnas primeiras areias da manhãMansidões na pele e
do labirinto sóa convulsa circunvolução do
corpo.
1 531
José Augusto Seabra
Sangria
"Como grandes lágrimas de sangue escorrem folhas dos ramos" (George Bacovia)
A árvore dessangra, assim, lágrima a lágrima, crucificando os ramos entre as folhas,
tão magra como a neve pingando seus últimos coágulos
A árvore dessangra, assim, lágrima a lágrima, crucificando os ramos entre as folhas,
tão magra como a neve pingando seus últimos coágulos
1 094
Luís Miguel Nava
Um Prego
Cravava cuidadosamente um prego na parede, quando pressentiu que, como água dum cano que se rompesse, o futuro poderia jorrar de súbito na cal, uma substância na aparência cristalina mas em cujo seio as formas do presente se diluiriam todas, como se, com os seus contornos, igualmente se perdesse o seu sentido, e um sol se deslocasse, por pouco que fosse, do presente para o futuro, se esvaziasse então no céu, deixando atrás de si uma cicatriz imensa.
1 771
Murillo Mendes
Estudo para um Caos
O último anjo derramou seu cálice no ar.
Os sonhos caem na cabeça do homem,
As crianças são expelidas do ventre materno,
As estrelas se despregam do firmamento.
Uma tocha enorme pega fogo no fogo,
A água dos rios e dos mares jorra cadáveres.
Os vulcões vomitam cometas em furor
E as mil pernas da Grande dançarina
Fazem cair sobre a terra uma chuva de lodo.
Rachou-se o teto do mar em quatro partes:
Intintivamente eu me agarro no abismo.
Procurei meu rosto, não o achei.
Depois a treva foi ajuntada à própria treva.
Os sonhos caem na cabeça do homem,
As crianças são expelidas do ventre materno,
As estrelas se despregam do firmamento.
Uma tocha enorme pega fogo no fogo,
A água dos rios e dos mares jorra cadáveres.
Os vulcões vomitam cometas em furor
E as mil pernas da Grande dançarina
Fazem cair sobre a terra uma chuva de lodo.
Rachou-se o teto do mar em quatro partes:
Intintivamente eu me agarro no abismo.
Procurei meu rosto, não o achei.
Depois a treva foi ajuntada à própria treva.
1 963
Natália Correia
Violentámos a natureza
Violentámos a natureza quando matámos as nossas feras
Os homens copiavam os anjos;
Os anjos copiavam os homens;
Ambos copiavam a inocência;
A inocência copiava as feras.
As feras devoraram os homens;
Os anjos devoraram as feras.
A inocência vestiu-se de roxo
Pelo luto das futuras eras.
de Dimensão Encontrada(1957)
Os homens copiavam os anjos;
Os anjos copiavam os homens;
Ambos copiavam a inocência;
A inocência copiava as feras.
As feras devoraram os homens;
Os anjos devoraram as feras.
A inocência vestiu-se de roxo
Pelo luto das futuras eras.
de Dimensão Encontrada(1957)
2 603