Poemas neste tema
Outros
Cida Pedrosa
Urbe
hoje na minha boca
não cabem girassóis
cabe um poemapodre
cheiro de mangue capibaribe
um poemaponte
galeria esgoto chuvas de abril
um poemacidade
fumaça ferrugem fuligem
hoje na minha boca
cabe apenas o poema
o poema hóspede da agonia
não cabem girassóis
cabe um poemapodre
cheiro de mangue capibaribe
um poemaponte
galeria esgoto chuvas de abril
um poemacidade
fumaça ferrugem fuligem
hoje na minha boca
cabe apenas o poema
o poema hóspede da agonia
901
1
Matilde Campilho
We’Ve Changed, Honey Boo
Como estava previsto nos registos, agora você é muito mais dada à astrologia e eu ao estudo dos cafés servidos nas beiras de estrada. A polícia não nos procura mais. O tribunal dos seiscentos dias resolveu que a misturada que fizemos com os nomes dos pássaros já não é uma questão para a segurança interna. Mensagens encriptadas na bula dos medicamentos, aromas desleais enfiados à socapa nos pacotinhos de sorvete, assobio nos ouvidos do sinaleiro- tudo parou. Quase nos prendiam por tráfico de influências, mas agora as urbanizações andam muito sossegadas. Daniel, entretanto, está morto. Walter emudeceu no caminho da composição e os jornais usam datas estranhas em seus cabeçalhos. Junto àquelas figuras de aviões e homens fardados aparece o nome do décimo sexto mês. Mudou tudo, honey, e a distância entre nós não foi certamente a causa para toda a explosão. Existem mais de trinca e nove marcas diferentes de café, isso sem contar as misturas solúveis. As professoras de Westbridge preferem-no forte. Os astronautas fora de missão bebem cafezinho claro, não vá acontecer uma emergência qualquer — quem entende de gravidade está muito consciente da ligação entre leveza e sono. Antes do horóscopo e dos mapas você prestava alguma atenção ao despertar do soldado. Acho que tinha qualquer coisa a ver com luz ou com melancolia, tinha certamente tudo a ver com crença. Quero dizer, tu trabalhavas na tipografia e eu ainda guardo a revista onde plantaste o retrato do barcalhão fazendo a vênia à alvorada. Falávamos muito de príncipes nessa época, e os príncipes pertencem às manhãs. Cada motel serve um café diferente, raios. Distingo os ares da China do vento do Cazaquistão num minuto. We’ve changed, honey boo, mas os climogramas permanecem.
1 092
1
D. Dinis
Amigo, Queredes-Vos Ir?
- Amigo, queredes-vos ir?
- Si, mia senhor, ca nom poss'al
fazer, ca seria meu mal
e vosso; por end'a partir
mi convém daqueste logar;
mais que gram coita d'endurar
mi será, pois me sem vós vir!
- Amig', e de mim que será?
- Bem, senhor bõa e de prez;
e, pois m'eu for daquesta vez,
o vosso mui bem se passará;
mais morte m'é de m'alongar
de vós e ir-m'alhur morar,
mais pass'o voss'ũa vez já.
- Amig', eu sem vós morrerei.
- Nom querrá Deus esso, senhor;
mais, pois u vós fordes nom for,
o que morrerá eu serei;
mais quer'eu ant'o meu passar
ca assi do voss'aventurar;
ca eu sem vós de morrer hei!
- Queredes-mi, amigo, matar?
- Nom, mia senhor; mais, por guardar
vós, mato-mi, que mi o busquei.
- Si, mia senhor, ca nom poss'al
fazer, ca seria meu mal
e vosso; por end'a partir
mi convém daqueste logar;
mais que gram coita d'endurar
mi será, pois me sem vós vir!
- Amig', e de mim que será?
- Bem, senhor bõa e de prez;
e, pois m'eu for daquesta vez,
o vosso mui bem se passará;
mais morte m'é de m'alongar
de vós e ir-m'alhur morar,
mais pass'o voss'ũa vez já.
- Amig', eu sem vós morrerei.
- Nom querrá Deus esso, senhor;
mais, pois u vós fordes nom for,
o que morrerá eu serei;
mais quer'eu ant'o meu passar
ca assi do voss'aventurar;
ca eu sem vós de morrer hei!
- Queredes-mi, amigo, matar?
- Nom, mia senhor; mais, por guardar
vós, mato-mi, que mi o busquei.
981
1
Hélia Correia
Esmola
I
Lançai‑me
uma palavra, como alguns
atiram côdea aos cães.
Uma palavra
que, embrulhada nesse cuspo
que vos escorre pelos queixos,
brilha
e desconcerta a própria
repugnância.
Sacudi‑a
de vós, tal como alguém
sacode a lama seca do sapato
sem perceber sequer que lama é
porque não tira os pés
do alcatrão.
Essa palavra abandonada à porta,
eu a recolherei, como se houvesse
nela um pedido,
a súplica de um órfão,
de uma cria deixada para
morrer.
Eu pegarei nessa palavra ao colo
e, não sabendo onde encontrar abrigo
nem alimento,
dormirei com ela,
ouvindo‑a
murmurar,
enquanto os bosques
vão crepitando e a cinza
nos recobre.
II
Mas entregai uma qualquer palavra,
dessas que tanto desprezais,
ao meu cuidado.
Uma palavra, por exemplo,
sobre a qual
ninguém se incline já
porque a confunde
com uma pedra do caminho
ou um excremento,
tão insignificante
se tornou.
Oh, que estranho é pensar que elas tiveram,
até, reis como servos, as palavras.
Pensar que elas passavam pelos séculos
com o seu corpo musical, tão frágil
e tão convocador de tempestades.
Essas pequenas criaturas transparentes,
sem peso, com alguma vocação
para a malignidade, pois não têm
nem sombra nem reflexo,
e dos seus dedos
desce a grande beleza do terrível
e a grande redenção
que há no poema
III
Pequenas, misteriosas criaturas
que não nascem do mundo natural,
que são obra dos homens,
sendo os homens a obra delas,
vejo‑as
hoje mais do que escorraçadas:
submetidas.
Elas que eram solenes e risonhas,
tanto mais necessárias quanto inúteis,
e tanto mais inúteis quanto pura
exaltação do texto, essas palavras
rolam humildemente pelo chão.
Deixai, deixai cair uma palavra,
e outra, e outra,
os ossos do banquete,
para que me roje e as apanhe com a boca,
sendo eu menos
do que mendiga,
menos do que cadela,
sendo eu menos do que um bicho
com fome:
sendo a fome.
Lançai‑me
uma palavra, como alguns
atiram côdea aos cães.
Uma palavra
que, embrulhada nesse cuspo
que vos escorre pelos queixos,
brilha
e desconcerta a própria
repugnância.
Sacudi‑a
de vós, tal como alguém
sacode a lama seca do sapato
sem perceber sequer que lama é
porque não tira os pés
do alcatrão.
Essa palavra abandonada à porta,
eu a recolherei, como se houvesse
nela um pedido,
a súplica de um órfão,
de uma cria deixada para
morrer.
Eu pegarei nessa palavra ao colo
e, não sabendo onde encontrar abrigo
nem alimento,
dormirei com ela,
ouvindo‑a
murmurar,
enquanto os bosques
vão crepitando e a cinza
nos recobre.
II
Mas entregai uma qualquer palavra,
dessas que tanto desprezais,
ao meu cuidado.
Uma palavra, por exemplo,
sobre a qual
ninguém se incline já
porque a confunde
com uma pedra do caminho
ou um excremento,
tão insignificante
se tornou.
Oh, que estranho é pensar que elas tiveram,
até, reis como servos, as palavras.
Pensar que elas passavam pelos séculos
com o seu corpo musical, tão frágil
e tão convocador de tempestades.
Essas pequenas criaturas transparentes,
sem peso, com alguma vocação
para a malignidade, pois não têm
nem sombra nem reflexo,
e dos seus dedos
desce a grande beleza do terrível
e a grande redenção
que há no poema
III
Pequenas, misteriosas criaturas
que não nascem do mundo natural,
que são obra dos homens,
sendo os homens a obra delas,
vejo‑as
hoje mais do que escorraçadas:
submetidas.
Elas que eram solenes e risonhas,
tanto mais necessárias quanto inúteis,
e tanto mais inúteis quanto pura
exaltação do texto, essas palavras
rolam humildemente pelo chão.
Deixai, deixai cair uma palavra,
e outra, e outra,
os ossos do banquete,
para que me roje e as apanhe com a boca,
sendo eu menos
do que mendiga,
menos do que cadela,
sendo eu menos do que um bicho
com fome:
sendo a fome.
1 350
1
Hélia Correia
Esmola
I
Lançai‑me
uma palavra, como alguns
atiram côdea aos cães.
Uma palavra
que, embrulhada nesse cuspo
que vos escorre pelos queixos,
brilha
e desconcerta a própria
repugnância.
Sacudi‑a
de vós, tal como alguém
sacode a lama seca do sapato
sem perceber sequer que lama é
porque não tira os pés
do alcatrão.
Essa palavra abandonada à porta,
eu a recolherei, como se houvesse
nela um pedido,
a súplica de um órfão,
de uma cria deixada para
morrer.
Eu pegarei nessa palavra ao colo
e, não sabendo onde encontrar abrigo
nem alimento,
dormirei com ela,
ouvindo‑a
murmurar,
enquanto os bosques
vão crepitando e a cinza
nos recobre.
II
Mas entregai uma qualquer palavra,
dessas que tanto desprezais,
ao meu cuidado.
Uma palavra, por exemplo,
sobre a qual
ninguém se incline já
porque a confunde
com uma pedra do caminho
ou um excremento,
tão insignificante
se tornou.
Oh, que estranho é pensar que elas tiveram,
até, reis como servos, as palavras.
Pensar que elas passavam pelos séculos
com o seu corpo musical, tão frágil
e tão convocador de tempestades.
Essas pequenas criaturas transparentes,
sem peso, com alguma vocação
para a malignidade, pois não têm
nem sombra nem reflexo,
e dos seus dedos
desce a grande beleza do terrível
e a grande redenção
que há no poema
III
Pequenas, misteriosas criaturas
que não nascem do mundo natural,
que são obra dos homens,
sendo os homens a obra delas,
vejo‑as
hoje mais do que escorraçadas:
submetidas.
Elas que eram solenes e risonhas,
tanto mais necessárias quanto inúteis,
e tanto mais inúteis quanto pura
exaltação do texto, essas palavras
rolam humildemente pelo chão.
Deixai, deixai cair uma palavra,
e outra, e outra,
os ossos do banquete,
para que me roje e as apanhe com a boca,
sendo eu menos
do que mendiga,
menos do que cadela,
sendo eu menos do que um bicho
com fome:
sendo a fome.
Lançai‑me
uma palavra, como alguns
atiram côdea aos cães.
Uma palavra
que, embrulhada nesse cuspo
que vos escorre pelos queixos,
brilha
e desconcerta a própria
repugnância.
Sacudi‑a
de vós, tal como alguém
sacode a lama seca do sapato
sem perceber sequer que lama é
porque não tira os pés
do alcatrão.
Essa palavra abandonada à porta,
eu a recolherei, como se houvesse
nela um pedido,
a súplica de um órfão,
de uma cria deixada para
morrer.
Eu pegarei nessa palavra ao colo
e, não sabendo onde encontrar abrigo
nem alimento,
dormirei com ela,
ouvindo‑a
murmurar,
enquanto os bosques
vão crepitando e a cinza
nos recobre.
II
Mas entregai uma qualquer palavra,
dessas que tanto desprezais,
ao meu cuidado.
Uma palavra, por exemplo,
sobre a qual
ninguém se incline já
porque a confunde
com uma pedra do caminho
ou um excremento,
tão insignificante
se tornou.
Oh, que estranho é pensar que elas tiveram,
até, reis como servos, as palavras.
Pensar que elas passavam pelos séculos
com o seu corpo musical, tão frágil
e tão convocador de tempestades.
Essas pequenas criaturas transparentes,
sem peso, com alguma vocação
para a malignidade, pois não têm
nem sombra nem reflexo,
e dos seus dedos
desce a grande beleza do terrível
e a grande redenção
que há no poema
III
Pequenas, misteriosas criaturas
que não nascem do mundo natural,
que são obra dos homens,
sendo os homens a obra delas,
vejo‑as
hoje mais do que escorraçadas:
submetidas.
Elas que eram solenes e risonhas,
tanto mais necessárias quanto inúteis,
e tanto mais inúteis quanto pura
exaltação do texto, essas palavras
rolam humildemente pelo chão.
Deixai, deixai cair uma palavra,
e outra, e outra,
os ossos do banquete,
para que me roje e as apanhe com a boca,
sendo eu menos
do que mendiga,
menos do que cadela,
sendo eu menos do que um bicho
com fome:
sendo a fome.
1 350
1
Hélia Correia
Esmola
I
Lançai‑me
uma palavra, como alguns
atiram côdea aos cães.
Uma palavra
que, embrulhada nesse cuspo
que vos escorre pelos queixos,
brilha
e desconcerta a própria
repugnância.
Sacudi‑a
de vós, tal como alguém
sacode a lama seca do sapato
sem perceber sequer que lama é
porque não tira os pés
do alcatrão.
Essa palavra abandonada à porta,
eu a recolherei, como se houvesse
nela um pedido,
a súplica de um órfão,
de uma cria deixada para
morrer.
Eu pegarei nessa palavra ao colo
e, não sabendo onde encontrar abrigo
nem alimento,
dormirei com ela,
ouvindo‑a
murmurar,
enquanto os bosques
vão crepitando e a cinza
nos recobre.
II
Mas entregai uma qualquer palavra,
dessas que tanto desprezais,
ao meu cuidado.
Uma palavra, por exemplo,
sobre a qual
ninguém se incline já
porque a confunde
com uma pedra do caminho
ou um excremento,
tão insignificante
se tornou.
Oh, que estranho é pensar que elas tiveram,
até, reis como servos, as palavras.
Pensar que elas passavam pelos séculos
com o seu corpo musical, tão frágil
e tão convocador de tempestades.
Essas pequenas criaturas transparentes,
sem peso, com alguma vocação
para a malignidade, pois não têm
nem sombra nem reflexo,
e dos seus dedos
desce a grande beleza do terrível
e a grande redenção
que há no poema
III
Pequenas, misteriosas criaturas
que não nascem do mundo natural,
que são obra dos homens,
sendo os homens a obra delas,
vejo‑as
hoje mais do que escorraçadas:
submetidas.
Elas que eram solenes e risonhas,
tanto mais necessárias quanto inúteis,
e tanto mais inúteis quanto pura
exaltação do texto, essas palavras
rolam humildemente pelo chão.
Deixai, deixai cair uma palavra,
e outra, e outra,
os ossos do banquete,
para que me roje e as apanhe com a boca,
sendo eu menos
do que mendiga,
menos do que cadela,
sendo eu menos do que um bicho
com fome:
sendo a fome.
Lançai‑me
uma palavra, como alguns
atiram côdea aos cães.
Uma palavra
que, embrulhada nesse cuspo
que vos escorre pelos queixos,
brilha
e desconcerta a própria
repugnância.
Sacudi‑a
de vós, tal como alguém
sacode a lama seca do sapato
sem perceber sequer que lama é
porque não tira os pés
do alcatrão.
Essa palavra abandonada à porta,
eu a recolherei, como se houvesse
nela um pedido,
a súplica de um órfão,
de uma cria deixada para
morrer.
Eu pegarei nessa palavra ao colo
e, não sabendo onde encontrar abrigo
nem alimento,
dormirei com ela,
ouvindo‑a
murmurar,
enquanto os bosques
vão crepitando e a cinza
nos recobre.
II
Mas entregai uma qualquer palavra,
dessas que tanto desprezais,
ao meu cuidado.
Uma palavra, por exemplo,
sobre a qual
ninguém se incline já
porque a confunde
com uma pedra do caminho
ou um excremento,
tão insignificante
se tornou.
Oh, que estranho é pensar que elas tiveram,
até, reis como servos, as palavras.
Pensar que elas passavam pelos séculos
com o seu corpo musical, tão frágil
e tão convocador de tempestades.
Essas pequenas criaturas transparentes,
sem peso, com alguma vocação
para a malignidade, pois não têm
nem sombra nem reflexo,
e dos seus dedos
desce a grande beleza do terrível
e a grande redenção
que há no poema
III
Pequenas, misteriosas criaturas
que não nascem do mundo natural,
que são obra dos homens,
sendo os homens a obra delas,
vejo‑as
hoje mais do que escorraçadas:
submetidas.
Elas que eram solenes e risonhas,
tanto mais necessárias quanto inúteis,
e tanto mais inúteis quanto pura
exaltação do texto, essas palavras
rolam humildemente pelo chão.
Deixai, deixai cair uma palavra,
e outra, e outra,
os ossos do banquete,
para que me roje e as apanhe com a boca,
sendo eu menos
do que mendiga,
menos do que cadela,
sendo eu menos do que um bicho
com fome:
sendo a fome.
1 350
1
Hélia Correia
Esmola
I
Lançai‑me
uma palavra, como alguns
atiram côdea aos cães.
Uma palavra
que, embrulhada nesse cuspo
que vos escorre pelos queixos,
brilha
e desconcerta a própria
repugnância.
Sacudi‑a
de vós, tal como alguém
sacode a lama seca do sapato
sem perceber sequer que lama é
porque não tira os pés
do alcatrão.
Essa palavra abandonada à porta,
eu a recolherei, como se houvesse
nela um pedido,
a súplica de um órfão,
de uma cria deixada para
morrer.
Eu pegarei nessa palavra ao colo
e, não sabendo onde encontrar abrigo
nem alimento,
dormirei com ela,
ouvindo‑a
murmurar,
enquanto os bosques
vão crepitando e a cinza
nos recobre.
II
Mas entregai uma qualquer palavra,
dessas que tanto desprezais,
ao meu cuidado.
Uma palavra, por exemplo,
sobre a qual
ninguém se incline já
porque a confunde
com uma pedra do caminho
ou um excremento,
tão insignificante
se tornou.
Oh, que estranho é pensar que elas tiveram,
até, reis como servos, as palavras.
Pensar que elas passavam pelos séculos
com o seu corpo musical, tão frágil
e tão convocador de tempestades.
Essas pequenas criaturas transparentes,
sem peso, com alguma vocação
para a malignidade, pois não têm
nem sombra nem reflexo,
e dos seus dedos
desce a grande beleza do terrível
e a grande redenção
que há no poema
III
Pequenas, misteriosas criaturas
que não nascem do mundo natural,
que são obra dos homens,
sendo os homens a obra delas,
vejo‑as
hoje mais do que escorraçadas:
submetidas.
Elas que eram solenes e risonhas,
tanto mais necessárias quanto inúteis,
e tanto mais inúteis quanto pura
exaltação do texto, essas palavras
rolam humildemente pelo chão.
Deixai, deixai cair uma palavra,
e outra, e outra,
os ossos do banquete,
para que me roje e as apanhe com a boca,
sendo eu menos
do que mendiga,
menos do que cadela,
sendo eu menos do que um bicho
com fome:
sendo a fome.
Lançai‑me
uma palavra, como alguns
atiram côdea aos cães.
Uma palavra
que, embrulhada nesse cuspo
que vos escorre pelos queixos,
brilha
e desconcerta a própria
repugnância.
Sacudi‑a
de vós, tal como alguém
sacode a lama seca do sapato
sem perceber sequer que lama é
porque não tira os pés
do alcatrão.
Essa palavra abandonada à porta,
eu a recolherei, como se houvesse
nela um pedido,
a súplica de um órfão,
de uma cria deixada para
morrer.
Eu pegarei nessa palavra ao colo
e, não sabendo onde encontrar abrigo
nem alimento,
dormirei com ela,
ouvindo‑a
murmurar,
enquanto os bosques
vão crepitando e a cinza
nos recobre.
II
Mas entregai uma qualquer palavra,
dessas que tanto desprezais,
ao meu cuidado.
Uma palavra, por exemplo,
sobre a qual
ninguém se incline já
porque a confunde
com uma pedra do caminho
ou um excremento,
tão insignificante
se tornou.
Oh, que estranho é pensar que elas tiveram,
até, reis como servos, as palavras.
Pensar que elas passavam pelos séculos
com o seu corpo musical, tão frágil
e tão convocador de tempestades.
Essas pequenas criaturas transparentes,
sem peso, com alguma vocação
para a malignidade, pois não têm
nem sombra nem reflexo,
e dos seus dedos
desce a grande beleza do terrível
e a grande redenção
que há no poema
III
Pequenas, misteriosas criaturas
que não nascem do mundo natural,
que são obra dos homens,
sendo os homens a obra delas,
vejo‑as
hoje mais do que escorraçadas:
submetidas.
Elas que eram solenes e risonhas,
tanto mais necessárias quanto inúteis,
e tanto mais inúteis quanto pura
exaltação do texto, essas palavras
rolam humildemente pelo chão.
Deixai, deixai cair uma palavra,
e outra, e outra,
os ossos do banquete,
para que me roje e as apanhe com a boca,
sendo eu menos
do que mendiga,
menos do que cadela,
sendo eu menos do que um bicho
com fome:
sendo a fome.
1 350
1
Francesca Angiolillo
A última boa ação
A última boa ação do ano
foi para o escaravelho.
Gordo, preto e luzidio, mas nada
o descrevia melhor do que desajeitado
— assim costumam ser.
Tenazmente desajeitado pois
recusava-se a entender a oferta
que ali se lhe fazia, a ponta
suave do dedo, a pinça natural
do galho que por sorte estava
à mão para reassentar no lugar certo
sua carapaça rebolando de revés
no meio da estrada — a morte
era certa, era questão de tempo, atropelado ou num pisão.
Foi preciso paciência.
Quantos de nós em determinado tempo não
nos agarramos ao não, a negar
a ajuda, a mão aberta,
a ponte improvisada.
foi para o escaravelho.
Gordo, preto e luzidio, mas nada
o descrevia melhor do que desajeitado
— assim costumam ser.
Tenazmente desajeitado pois
recusava-se a entender a oferta
que ali se lhe fazia, a ponta
suave do dedo, a pinça natural
do galho que por sorte estava
à mão para reassentar no lugar certo
sua carapaça rebolando de revés
no meio da estrada — a morte
era certa, era questão de tempo, atropelado ou num pisão.
Foi preciso paciência.
Quantos de nós em determinado tempo não
nos agarramos ao não, a negar
a ajuda, a mão aberta,
a ponte improvisada.
793
1
Yi Sáng
Poema n. 7
Nesta terra de remoto exílio um ramo • no ramo floresce uma
flora brilhante • peculiar árvore florida de abril • trinta voltas •
espelho claro nos dois lados pré pós trinta voltas • a lua cheia
que decai agora em direção ao horizonte alegrerridente feito
um broto novo • em meio ao ímpeto do riacho límpido do vale a
lua cheia toda estropiada que derrui penalizada com o nariz
decepado • uma carta vinda de casa atravessa essa terra de
exílio • eu de mal em mal protegi-me de louvores • broto da lua
esmaecido • o longínquo da camada atmosférica cobrindo esta
quietude • esta grande caverna oca de um ano e quatro meses
em meio à grandiosa miséria • astros coxeiam tropeçam e por
ruelas mortiças de astros milestilhaçados a grandiosa
neventania foge • cai nevasca • pedrassal tingida de vermelho-
sangue pulverizando-se • com o meu cérebro como pára-raio,
restos mortais encharcados de luz transbordantes de luz vão
sendo transportados • eu, uma cobra venenosa em exílio na
torre, acabei plantado no horizonte e nunca mais pude mover-
me • até que desça a graça dos céus.
flora brilhante • peculiar árvore florida de abril • trinta voltas •
espelho claro nos dois lados pré pós trinta voltas • a lua cheia
que decai agora em direção ao horizonte alegrerridente feito
um broto novo • em meio ao ímpeto do riacho límpido do vale a
lua cheia toda estropiada que derrui penalizada com o nariz
decepado • uma carta vinda de casa atravessa essa terra de
exílio • eu de mal em mal protegi-me de louvores • broto da lua
esmaecido • o longínquo da camada atmosférica cobrindo esta
quietude • esta grande caverna oca de um ano e quatro meses
em meio à grandiosa miséria • astros coxeiam tropeçam e por
ruelas mortiças de astros milestilhaçados a grandiosa
neventania foge • cai nevasca • pedrassal tingida de vermelho-
sangue pulverizando-se • com o meu cérebro como pára-raio,
restos mortais encharcados de luz transbordantes de luz vão
sendo transportados • eu, uma cobra venenosa em exílio na
torre, acabei plantado no horizonte e nunca mais pude mover-
me • até que desça a graça dos céus.
716
1
Salgado Maranhão
Sentença
faz muito tempo que eu venho
nos currais deste comício,
dando mingau de farinha
pra mesma dor que me alinha
ao lamaçal do hospício.
e quem me cansa as canelas
é que me rouba a cadeira,
eu sou quem pula a traseira
e ainda paga a passagem,
eu sou um número ímpar
só pra sobrar na contagem.
por outro lado, em meu corpo,
há uma parte que insiste,
feito um caju que apodrece
mas a castanha resiste,
eu tenho os olhos na espreita
e os bolsos cheios de pedras,
eu sou quem não se conforma
com a sentença ou desfeita,
eu sou quem bagunça a norma,
eu sou quem morre e não deita.
nos currais deste comício,
dando mingau de farinha
pra mesma dor que me alinha
ao lamaçal do hospício.
e quem me cansa as canelas
é que me rouba a cadeira,
eu sou quem pula a traseira
e ainda paga a passagem,
eu sou um número ímpar
só pra sobrar na contagem.
por outro lado, em meu corpo,
há uma parte que insiste,
feito um caju que apodrece
mas a castanha resiste,
eu tenho os olhos na espreita
e os bolsos cheios de pedras,
eu sou quem não se conforma
com a sentença ou desfeita,
eu sou quem bagunça a norma,
eu sou quem morre e não deita.
880
1
José Paulo Paes
MADRIGAL
Meu amor é simples, Dora,
como água e o pão.
Como o céu refletido
Nas pupilas de um cão.
como água e o pão.
Como o céu refletido
Nas pupilas de um cão.
1 203
1
Charles Bukowski
Sozinho Com Todo Mundo
a carne cobre os ossos
e eles colocam uma mente
ali dentro e
algumas vezes uma alma,
e as mulheres quebram
vasos contra as paredes
e os homens bebem
demais
e ninguém encontra o
par ideal
mas seguem na
procura
rastejando para dentro e para fora
dos leitos.
a carne cobre
os ossos e a
carne busca
muito mais do que mera
carne.
de fato, não há qualquer
chance:
estamos todos presos
a um destino
singular.
ninguém nunca encontra
o par ideal.
as lixeiras da cidade se completam
os ferros-velhos se completam
os hospícios se completam
as sepulturas se completam
nada mais
se completa.
Eu tinha cinquenta anos e há quatro não ia para cama com mulher nenhuma. Não tinha amigas. Olhava-as passarem pelas ruas ou em qualquer lugar que as visse, mas as olhava sem desejo e com uma sensação de futilidade. Eu me masturbava regularmente, mas a ideia de ter uma relação com uma mulher – mesmo em termos não-sexuais – estava além da minha imaginação. Eu tinha uma filha ilegítima de seis anos. Vivia com a mãe e eu pagava pensão alimentícia. Antes disso, aos 35, eu tinha me casado. O casamento durou dois anos e meio. Minha mulher pediu o divórcio. Só estive apaixonado uma vez. Ela morreu de alcoolismo agudo. Tinha 48 quando eu tinha 38. Minha mulher era doze anos mais jovem que eu. A esta altura deve estar morta também, embora eu não tenha certeza. Escrevia-me uma longa carta todo Natal, nos primeiros seis anos depois do divórcio. Nunca as respondi...
Não tenho bem certeza de quando vi Lydia Vance pela primeira vez. Foi cerca de seis anos atrás, eu tinha acabado de largar um emprego de doze anos como funcionário dos Correios tentando viver como escritor. Eu estava apavorado e bebia mais do que nunca. Tentava escrever meu primeiro romance. Bebia meio litro de uísque e uma dúzia de cervejas, todas as noites, enquanto escrevia. Fumava charutos baratos e datilografava e bebia e escutava música clássica no rádio até de madrugada. Fixei como objetivo uma média de dez páginas por noite, mas nunca sabia antes da manhã seguinte quantas páginas tinha escrito. Levantava de manhã, vomitava, então ia até a sala e dava uma olhada no sofá para ver quantas páginas havia ali. Excediam sempre as minhas dez. Às vezes eram 17, 18, 23, 25 páginas. Claro, o trabalho de cada noite precisava ser revisado, e o que não prestava, jogado fora. Foram necessárias 21 noites para escrever meu primeiro romance.
Os proprietários do condomínio onde eu morava então viviam nos fundos e achavam que eu era louco. Todas as manhãs, ao acordar, havia um enorme saco de papel pardo na minha porta. O conteúdo variava, mas, na maior parte das vezes, eram tomates, rabanetes, laranjas, cebolinhas, latas de sopa, cebolas roxas. Em certas noites eu bebia cerveja com eles até as quatro ou cinco da manhã. O velho apagava, e a velha e eu ficávamos de mãos dadas, e eu a beijava de vez em quando. Sempre dava um dos caprichados na hora da despedida. Era terrivelmente enrugada, mas o que ela podia fazer? Era católica e ficava uma gracinha quando botava seu chapéu cor-de-rosa e saía para ir à igreja domingo de manhã.
Acho que conheci Lydia Vance na minha primeira leitura de poesia. Foi numa livraria da Avenida Kenmore, chamada The Drawbridge. Mais uma vez eu estava apavorado. Mantive um ar superior, mas estava apavorado. Quando entrei, só tinha lugar de pé. Peter, que dirigia a livraria e vivia com uma garota negra, tinha uma pilha de dinheiro à sua frente.
– Porra – ele me disse –, se eu conseguisse juntar sempre esse pessoal todo, teria dinheiro suficiente pra fazer outra viagem à Índia!
Entrei e eles começaram a aplaudir. No que dizia respeito a leituras de poesia, eu estava prestes a perder o cabaço.
Li por trinta minutos, então pedi um intervalo. Ainda estava sóbrio e podia sentir os olhos me encarando da escuridão. Algumas pessoas chegaram e falaram comigo. Então, durante uma brecha, Lydia Vance se aproximou. Eu estava sentado numa mesa, bebendo cerveja. Ela apoiou as duas mãos na beirada da mesa, debruçou-se, e me encarou. Tinha cabelos longos e castanhos, muito longos, um nariz proeminente, e um olho que não combinava muito bem com o outro. Mas emanava vitalidade – era impossível não notá-la. Podia sentir as vibrações circulando entre a gente. Algumas das vibrações eram confusas, não eram boas, mas também estavam lá. Ela me olhou, e eu respondi seu olhar. Lydia Vance estava com uma jaqueta de camurça, ao estilo cowgirl, com uma franja ao redor do pescoço. Tinha uns peitos legais. Eu lhe disse:
– Gostaria de arrancar essa franja da sua jaqueta, a gente podia começar por aí!
Lydia se afastou. Que fracasso. Nunca soube o que dizer às mulheres. Mas seu rabo era maravilhoso. Fiquei olhando aquele rabo enquanto ela se afastava. A parte traseira do jeans o envolvia, e eu fiquei olhando aquilo tudo enquanto ela se afastava.
Acabei a segunda parte do recital e esqueci de Lydia, assim como eu esquecia das mulheres com quem cruzava nas calçadas. Peguei meu dinheiro, autografei alguns guardanapos, alguns pedaços de papel, depois saí, guiando de volta para casa.
– Mulheres
e eles colocam uma mente
ali dentro e
algumas vezes uma alma,
e as mulheres quebram
vasos contra as paredes
e os homens bebem
demais
e ninguém encontra o
par ideal
mas seguem na
procura
rastejando para dentro e para fora
dos leitos.
a carne cobre
os ossos e a
carne busca
muito mais do que mera
carne.
de fato, não há qualquer
chance:
estamos todos presos
a um destino
singular.
ninguém nunca encontra
o par ideal.
as lixeiras da cidade se completam
os ferros-velhos se completam
os hospícios se completam
as sepulturas se completam
nada mais
se completa.
Eu tinha cinquenta anos e há quatro não ia para cama com mulher nenhuma. Não tinha amigas. Olhava-as passarem pelas ruas ou em qualquer lugar que as visse, mas as olhava sem desejo e com uma sensação de futilidade. Eu me masturbava regularmente, mas a ideia de ter uma relação com uma mulher – mesmo em termos não-sexuais – estava além da minha imaginação. Eu tinha uma filha ilegítima de seis anos. Vivia com a mãe e eu pagava pensão alimentícia. Antes disso, aos 35, eu tinha me casado. O casamento durou dois anos e meio. Minha mulher pediu o divórcio. Só estive apaixonado uma vez. Ela morreu de alcoolismo agudo. Tinha 48 quando eu tinha 38. Minha mulher era doze anos mais jovem que eu. A esta altura deve estar morta também, embora eu não tenha certeza. Escrevia-me uma longa carta todo Natal, nos primeiros seis anos depois do divórcio. Nunca as respondi...
Não tenho bem certeza de quando vi Lydia Vance pela primeira vez. Foi cerca de seis anos atrás, eu tinha acabado de largar um emprego de doze anos como funcionário dos Correios tentando viver como escritor. Eu estava apavorado e bebia mais do que nunca. Tentava escrever meu primeiro romance. Bebia meio litro de uísque e uma dúzia de cervejas, todas as noites, enquanto escrevia. Fumava charutos baratos e datilografava e bebia e escutava música clássica no rádio até de madrugada. Fixei como objetivo uma média de dez páginas por noite, mas nunca sabia antes da manhã seguinte quantas páginas tinha escrito. Levantava de manhã, vomitava, então ia até a sala e dava uma olhada no sofá para ver quantas páginas havia ali. Excediam sempre as minhas dez. Às vezes eram 17, 18, 23, 25 páginas. Claro, o trabalho de cada noite precisava ser revisado, e o que não prestava, jogado fora. Foram necessárias 21 noites para escrever meu primeiro romance.
Os proprietários do condomínio onde eu morava então viviam nos fundos e achavam que eu era louco. Todas as manhãs, ao acordar, havia um enorme saco de papel pardo na minha porta. O conteúdo variava, mas, na maior parte das vezes, eram tomates, rabanetes, laranjas, cebolinhas, latas de sopa, cebolas roxas. Em certas noites eu bebia cerveja com eles até as quatro ou cinco da manhã. O velho apagava, e a velha e eu ficávamos de mãos dadas, e eu a beijava de vez em quando. Sempre dava um dos caprichados na hora da despedida. Era terrivelmente enrugada, mas o que ela podia fazer? Era católica e ficava uma gracinha quando botava seu chapéu cor-de-rosa e saía para ir à igreja domingo de manhã.
Acho que conheci Lydia Vance na minha primeira leitura de poesia. Foi numa livraria da Avenida Kenmore, chamada The Drawbridge. Mais uma vez eu estava apavorado. Mantive um ar superior, mas estava apavorado. Quando entrei, só tinha lugar de pé. Peter, que dirigia a livraria e vivia com uma garota negra, tinha uma pilha de dinheiro à sua frente.
– Porra – ele me disse –, se eu conseguisse juntar sempre esse pessoal todo, teria dinheiro suficiente pra fazer outra viagem à Índia!
Entrei e eles começaram a aplaudir. No que dizia respeito a leituras de poesia, eu estava prestes a perder o cabaço.
Li por trinta minutos, então pedi um intervalo. Ainda estava sóbrio e podia sentir os olhos me encarando da escuridão. Algumas pessoas chegaram e falaram comigo. Então, durante uma brecha, Lydia Vance se aproximou. Eu estava sentado numa mesa, bebendo cerveja. Ela apoiou as duas mãos na beirada da mesa, debruçou-se, e me encarou. Tinha cabelos longos e castanhos, muito longos, um nariz proeminente, e um olho que não combinava muito bem com o outro. Mas emanava vitalidade – era impossível não notá-la. Podia sentir as vibrações circulando entre a gente. Algumas das vibrações eram confusas, não eram boas, mas também estavam lá. Ela me olhou, e eu respondi seu olhar. Lydia Vance estava com uma jaqueta de camurça, ao estilo cowgirl, com uma franja ao redor do pescoço. Tinha uns peitos legais. Eu lhe disse:
– Gostaria de arrancar essa franja da sua jaqueta, a gente podia começar por aí!
Lydia se afastou. Que fracasso. Nunca soube o que dizer às mulheres. Mas seu rabo era maravilhoso. Fiquei olhando aquele rabo enquanto ela se afastava. A parte traseira do jeans o envolvia, e eu fiquei olhando aquilo tudo enquanto ela se afastava.
Acabei a segunda parte do recital e esqueci de Lydia, assim como eu esquecia das mulheres com quem cruzava nas calçadas. Peguei meu dinheiro, autografei alguns guardanapos, alguns pedaços de papel, depois saí, guiando de volta para casa.
– Mulheres
2 132
1
José Paulo Paes
Dicionário
A
Aulas: período de interrupção das férias.
B
Berro: o somproduzido pelo martelo quando bate no dedo da gente.
C
Caveira: a cara da gente quando a gente não for mais gente.
D
Dedo: parte do corpo que não deve ter muita intimidade com o nariz.
E
Excelente: lente muito boa.
F
Forro: o lado de fora do lado de dentro.
G
Girafa: bicho que, quando tem dor de garganta,
é um deus-nos-acuda.
H
Hoje: o ontem de amanhã ou o amanhã de ontem.
I
Isca: cavalo de Tróia para peixe.
J
Janela: porta de ladrão.
L
Luz: coisa que se apaga, mas não com borracha.
M
Minhoca: cobra no jardim-de-infância.
N
Nuvem: algodão que chove.
O
Ovo: filho da galinha que foi mãe dela.
P
Pulo: esporte inventado pelos buracos.
Q
Queixo: parte do corpo que depois de um soco vira queixa.
R
Rei: cara que ganhou coroa.
S
Sopapo: o que acontece quando só papo não adianta.
T
Tombo: o que acontece entre o escorregão e o palavrão.
U
Urgente: gente com pressa
V
Vagalume: besouro guarda-noturno.
X
Xará: um outro que sou eu.
Z
Zebra: bicho que toma sol atrás das grades.
Aulas: período de interrupção das férias.
B
Berro: o somproduzido pelo martelo quando bate no dedo da gente.
C
Caveira: a cara da gente quando a gente não for mais gente.
D
Dedo: parte do corpo que não deve ter muita intimidade com o nariz.
E
Excelente: lente muito boa.
F
Forro: o lado de fora do lado de dentro.
G
Girafa: bicho que, quando tem dor de garganta,
é um deus-nos-acuda.
H
Hoje: o ontem de amanhã ou o amanhã de ontem.
I
Isca: cavalo de Tróia para peixe.
J
Janela: porta de ladrão.
L
Luz: coisa que se apaga, mas não com borracha.
M
Minhoca: cobra no jardim-de-infância.
N
Nuvem: algodão que chove.
O
Ovo: filho da galinha que foi mãe dela.
P
Pulo: esporte inventado pelos buracos.
Q
Queixo: parte do corpo que depois de um soco vira queixa.
R
Rei: cara que ganhou coroa.
S
Sopapo: o que acontece quando só papo não adianta.
T
Tombo: o que acontece entre o escorregão e o palavrão.
U
Urgente: gente com pressa
V
Vagalume: besouro guarda-noturno.
X
Xará: um outro que sou eu.
Z
Zebra: bicho que toma sol atrás das grades.
3 692
1
José Paulo Paes
Dicionário
A
Aulas: período de interrupção das férias.
B
Berro: o somproduzido pelo martelo quando bate no dedo da gente.
C
Caveira: a cara da gente quando a gente não for mais gente.
D
Dedo: parte do corpo que não deve ter muita intimidade com o nariz.
E
Excelente: lente muito boa.
F
Forro: o lado de fora do lado de dentro.
G
Girafa: bicho que, quando tem dor de garganta,
é um deus-nos-acuda.
H
Hoje: o ontem de amanhã ou o amanhã de ontem.
I
Isca: cavalo de Tróia para peixe.
J
Janela: porta de ladrão.
L
Luz: coisa que se apaga, mas não com borracha.
M
Minhoca: cobra no jardim-de-infância.
N
Nuvem: algodão que chove.
O
Ovo: filho da galinha que foi mãe dela.
P
Pulo: esporte inventado pelos buracos.
Q
Queixo: parte do corpo que depois de um soco vira queixa.
R
Rei: cara que ganhou coroa.
S
Sopapo: o que acontece quando só papo não adianta.
T
Tombo: o que acontece entre o escorregão e o palavrão.
U
Urgente: gente com pressa
V
Vagalume: besouro guarda-noturno.
X
Xará: um outro que sou eu.
Z
Zebra: bicho que toma sol atrás das grades.
Aulas: período de interrupção das férias.
B
Berro: o somproduzido pelo martelo quando bate no dedo da gente.
C
Caveira: a cara da gente quando a gente não for mais gente.
D
Dedo: parte do corpo que não deve ter muita intimidade com o nariz.
E
Excelente: lente muito boa.
F
Forro: o lado de fora do lado de dentro.
G
Girafa: bicho que, quando tem dor de garganta,
é um deus-nos-acuda.
H
Hoje: o ontem de amanhã ou o amanhã de ontem.
I
Isca: cavalo de Tróia para peixe.
J
Janela: porta de ladrão.
L
Luz: coisa que se apaga, mas não com borracha.
M
Minhoca: cobra no jardim-de-infância.
N
Nuvem: algodão que chove.
O
Ovo: filho da galinha que foi mãe dela.
P
Pulo: esporte inventado pelos buracos.
Q
Queixo: parte do corpo que depois de um soco vira queixa.
R
Rei: cara que ganhou coroa.
S
Sopapo: o que acontece quando só papo não adianta.
T
Tombo: o que acontece entre o escorregão e o palavrão.
U
Urgente: gente com pressa
V
Vagalume: besouro guarda-noturno.
X
Xará: um outro que sou eu.
Z
Zebra: bicho que toma sol atrás das grades.
3 692
1
José Paulo Paes
Letra Mágica
Que pode fazer você
para o elefante
tão deselegante
ficar elegante?
Ora, troque o f por g!
Mas se trocar, no rato,
o r por g,
transforma-o você
(veja que perigo!)
no seu pior inimigo:
o gato.
para o elefante
tão deselegante
ficar elegante?
Ora, troque o f por g!
Mas se trocar, no rato,
o r por g,
transforma-o você
(veja que perigo!)
no seu pior inimigo:
o gato.
1 917
1
Charles Bukowski
Conselho Amigável Para Muitos Jovens
Vá para o Tibet.
Monte em um camelo.
Leia a bíblia.
Pinte seus sapatos de azul.
Deixe a barba crescer.
Dê a volta ao mundo numa canoa de papel.
Assine The Saturday Evening Post.
Mastigue apenas com o lado esquerdo da boca.
Case-se com uma perneta e se barbeie com uma navalha.
E entalhe seu nome no braço dela.
Escove os dentes com gasolina.
Durma o dia inteiro e suba em árvores à noite.
Seja um monge e beba chumbo grosso e cerveja.
Mantenha sua cabeça dentro d’água e toque violino.
Faça uma dança do ventre diante de velas cor-de-rosa.
Mate seu cachorro.
Concorra à prefeitura.
Viva num barril.
Rompa sua cabeça com uma machadinha.
Plante tulipas sob a chuva.
Mas não escreva poesia.
Para acalmar Lydia, concordei em ir até Muleshead, Utah. Sua irmã estava acampando nas montanhas. As irmãs eram na verdade donas de boa parte daquelas terras. Haviam-nas herdado do pai. Glendoline, uma das irmãs, tinha uma barraca montada na floresta. Ela estava escrevendo um romance, A mulher selvagem das montanhas. As outras irmãs chegariam qualquer dia desses. Lydia e eu chegamos primeiro. Tínhamos uma barraca pequena. Arrastamo-nos para dentro dela, seguidos pelos mosquitos. Foi um negócio pavoroso.
Na manhã seguinte nos sentamos ao redor da fogueira. Glendoline e Lydia esquentaram o café da manhã. Eu tinha gastado quarenta pratas em mercadorias que incluíam uma quantidade razoável de garrafas de cerveja. Mantinha-as geladas numa fonte da montanha. Terminamos o café. Ajudei com os pratos e então Glendoline trouxe sua novela e começou a lê-la para nós. Não era de todo má, mas estava longe de ser um texto profissional e precisava de muito polimento. Glendoline supunha que os leitores estivessem tão fascinados quanto ela por sua própria vida – o que era um erro fatal. Os outros erros de mesma natureza que ela cometera eram numerosos demais para mencionar.
Caminhei até a fonte e voltei com três garrafas de cerveja. As garotas disseram não, não queriam beber. Eram bastante contrárias à cerveja. Discutimos o romance de Glendoline. Me dei conta de que qualquer pessoa capaz de ler seu romance em voz alta para outras devia ser posta sob suspeita. Se aquilo não era o velho beijo da morte, não sei mais o que poderia ser.
A conversa mudou de rumo, e as garotas passaram a falar sobre homens, festas, dança, e sexo. Glendoline tinha uma voz alta e esganiçada e ria de um modo nervoso e constante. Ela já ia na metade dos quarenta, era gorducha e um tanto sebosa. Além disso, assim como eu, ela era simplesmente feia.
Glendoline deve ter falado por mais de uma hora sem parar, exclusivamente sobre sexo. Comecei a ficar tonto. Ela gesticulava com os braços acima da cabeça:
– SOU A MULHER SELVAGEM DAS MONTANHAS! Ó, ONDE ESTÁ O HOMEM, Ó, ONDE ESTÁ O HOMEM, O HOMEM DE VERDADE QUE TERÁ CORAGEM DE ME PEGAR?
Bem, ele certamente não estaria por aqui, pensei.
Olhei para Lydia.
– Vamos dar uma caminhada.
– Não – ela disse –, quero ler este livro. – Chamava-se Amor e orgasmo: um guia revolucionário para a realização sexual.
– Tudo bem – eu disse –, vou dar uma caminhada então.
Caminhei até a fonte da montanha. Apanhei mais uma cerveja, abri a tampinha e me sentei por ali, bebendo. Eu estava preso no meio das montanhas e da floresta com duas mulheres loucas. Elas esvaziavam toda alegria que havia numa trepada por não falarem de outra coisa o tempo todo. Eu também gostava de foder, mas não fazia disso minha religião. Havia uma série de coisas ridículas e ao mesmo trágicas sobre o assunto. As pessoas pareciam ser incapazes de lidar com isso. Então transformaram o negócio num passatempo. Um passatempo capaz de destruir pessoas.
O principal a fazer, decidi, era encontrar a mulher certa. Mas como? Tinha um caderninho vermelho comigo e uma caneta. Rabisquei um poema meditativo numa das folhas. Então caminhei em direção ao lago. Vance Pastures era o nome do lugar. As irmãs eram donas de quase toda a terra. Eu precisava dar uma cagada. Baixei as calças e me acocorei no meio do mato, cercado por moscas e mosquitos. Como seria bom poder contar com os confortos da cidade. Tive que me limpar com umas folhas. Caminhei até o lago e meti um pé na água. Estava fria como gelo.
Seja homem, seu velho. Entre.
Minha pele era branca como marfim. Me senti decrépito, muito flácido. Entrei na água gelada. Fui submergindo até a cintura, então tomei bastante fôlego e me lancei para frente. Eu tinha mergulhado por inteiro! A lama se ergueu do fundo do lago e entrou em meus ouvidos, na minha boca, grudou nos meus cabelos. Fiquei ali, em meio à água lamacenta, os dentes batendo.
Esperei por muito tempo até que a água voltasse a ficar limpa. Então retornei. Vesti minhas roupas e percorri o caminho ao longo do lago. Quando cheguei ao fim da margem, escutei um som que parecia o de uma cachoeira. Entrei na floresta, seguindo na direção do som. Tive que vencer algumas pedras através de um córrego. O som se tornava cada vez mais vivo. As moscas e os mosquitos fervilhavam ao meu redor. As moscas eram maiores e furiosas e famintas, muito maiores do que as moscas da cidade, além de saber reconhecer uma refeição quando avistavam uma.
Embrenhei-me na mata, avancei, e então lá estava: minha primeira cachoeira de verdade. A água simplesmente brotava da montanha e corria sobre uma saliência na pedra. Era uma coisa linda. A água não parava de correr. Vinha de algum lugar. E corria para algum lugar. Havia três ou quatro córregos que era bem provável que desaguassem no lago.
Por fim, cansei de olhar a cachoeira e decidi voltar. Decidi, também, tomar um caminho diferente, um atalho. Abri caminho na direção oposta ao lago, para chegar mais rápido ao acampamento. Eu tinha noção de onde ele ficava. Trazia ainda comigo o meu caderninho vermelho. Parei e escrevi outro poema, menos meditativo, e então prossegui. Continuei caminhando. Nada do acampamento. Caminhei um pouco mais. Olhei em volta à procura do lago. Não conseguia encontrá-lo, não sabia mais onde ele estava. De súbito, percebi: eu estava PERDIDO. Aquelas vadias taradas tinham me deixado louco e agora eu estava PERDIDO. Olhei em volta. Dava para ver as montanhas no horizonte e ao meu redor árvores e mato. Não havia nenhum centro, nenhum ponto de partida, nenhuma conexão entre nada. Senti medo, medo de verdade. Por que fui deixar que elas me tirassem da minha cidade, da minha Los Angeles querida? Lá um homem poderia chamar um táxi, dar um telefonema. Havia soluções razoáveis para problemas razoáveis.
Vance Pastures se estendia à minha volta por quilômetros e quilômetros. Joguei longe meu caderninho. Que modo para um escritor morrer! Já podia ver a notícia no jornal:
HENRY CHINASKI, POETA MENOR,
ENCONTRADO MORTO NAS MATAS DE UTAH
Henry Chinaski, ex-funcionário dos Correios que virou escritor, foi encontrado em estado de decomposição na tarde de ontem pelo guarda florestal W. K. Brooks Jr. Perto de seu corpo também foi encontrado um pequeno caderno vermelho, que continha evidentemente os últimos escritos do sr. Chinaski.
Segui caminhando. Eu estava numa área pantanosa. A todo momento, uma de minhas pernas afundava até o joelho no lodaçal, e eu tinha que dar um jeito de libertá-la.
Acabei topando com uma cerca de arames farpados. Soube de imediato que eu não devia pular aquela cerca. Sabia que era a coisa errada a fazer, mas parecia não haver alternativa. Escalei a cerca e fiquei parado lá em cima, fiz uma concha com minhas mãos ao redor da boca e gritei:
– LYDIA!
Não houve resposta.
Tentei novamente:
– LYDIA!
Minha voz soou bastante chorosa. A voz de um covarde.
Prossegui. Seria bom, pensei, estar de novo com as irmãs, ouvindo-as falar sobre sexo e homens e sair pra dançar e festas. Seria bom ouvir a voz de Glendoline. Seria bom passar minha mão pelos longos cabelos de Lydia. De coração, eu a levaria a todas as festas da cidade. Chegaria mesmo a dançar com todas as mulheres e faria piadas maravilhosas sobre todo e qualquer assunto. Suportaria toda a bobajada que escorre das bocas com um sorriso. Quase podia me ouvir:
– Ei, essa música é ótima para dançar! Quem está querendo ir embora? Quem quer botar pra quebrar na pista de dança?
Segui caminhando através do lodo. Finalmente cheguei à terra seca. Depois, encontrei uma estrada. Não era mais que uma estrada velha e suja, mas parecia boa. Dava pra ver algumas marcas de pneu e de cascos de animais. Havia até mesmo alguns postes que levavam eletricidade para algum lugar. Tudo o que eu tinha a fazer era seguir esses fios. Caminhei ao longo da estrada. O sol ia alto no céu, devia ser perto de meio-dia. Continuei me arrastando, sentindo-me um otário.
Mais adiante avistei um portão do outro lado da estrada que estava trancado. O que significava aquilo? Havia uma pequena entrada lateral. Era evidente que o portão era de uma propriedade de gado. Mas onde estavam os animais? Onde estava o dono da fazenda? Talvez ele só aparecesse a cada seis meses.
O topo da minha cabeça começou a doer. Levei uma das mãos até ali e senti o local onde trinta anos antes, num bar da Filadélfia, eu havia tomado uma cacetada. A cicatriz nunca desapareceu por completo. Agora, tostada ao sol, a cicatriz havia inchado. Parecia um pequeno chifre. Arranquei um pedaço do tecido que a cobria e joguei na estrada.
Caminhei por mais uma hora, então decidi voltar. Isso significava ter que refazer todo o caminho percorrido, mas ainda assim me pareceu a coisa certa a fazer. Tirei minha camisa e a enrolei na cabeça. De vez em quando dava uma parada para gritar:
– LYDIA!
Não havia resposta.
Algum tempo depois cheguei de novo ao portão. Tudo o que eu precisava fazer era contorná-lo, mas havia alguma coisa no caminho. Ficava na frente do portão, a uns cinco metros de onde eu estava. Era um pequeno veado, uma gazela, algo assim.
Movi-me devagar em sua direção. O bicho não saiu do lugar. Será que me deixaria passar? Não parecia ter medo de mim. Supus que ele tivesse percebido minha confusão, minha covardia. Aproximei-me mais e mais. Ele não iria sair do caminho. Tinha olhos grandes e castanhos, olhos mais belos do que os de qualquer mulher que eu já tenha visto. Era inacreditável. Estávamos a um metro de distância, e eu prestes a recuar, quando ele se afastou. Correu para a mata além da estrada. Estava em ótima forma; era capaz de correr de verdade.
Enquanto seguia caminhando pela margem da estrada ouvi o som de água corrente. Eu precisava de água. Não se podia viver por muito tempo sem água. Abandonei a estrada e segui na direção do som da água corrente. Havia um pequeno monte coberto de grama e, assim que o venci, lá estava: água corrente, jorrando de canos de cimento para dentro de uma represa e então para um tipo de reservatório. Sentei-me à beira do reservatório e tirei meus sapatos e minhas meias, arregacei as calças e enfiei minhas pernas na água. Então despejei água sobre minha cabeça. Depois a bebi – mas não muito ou muito depressa –, do mesmo modo como vi fazerem nos filmes.
Depois de me recuperar um pouco, reparei num píer que se projetava sobre o reservatório. Caminhei até ali e me deparei com uma grande caixa de metal, fixada num dos lados do píer. Estava trancada com um cadeado. Era bem provável que houvesse um telefone ali dentro! Eu podia ligar e pedir ajuda!
Fui em busca de uma pedra de bom tamanho e comecei a golpear o cadeado com ela. A tranca não cedia. O que Jack London faria? O que Hemingway faria? Jean Genet?
Continuei golpeando o cadeado com a pedra. Às vezes eu errava o golpe e minha mão atingia o cadeado ou a própria caixa de metal. A pele lacerada, o sangue escorrendo. Reuni minhas forças e disparei um último golpe. O cadeado abriu. Retirei-o e abri a caixa. Não tinha nenhum telefone lá dentro. Havia uma série de comandos e alguns cabos de grosso calibre. Pus minha mão ali, toquei num dos fios e levei um choque terrível. Então acionei um dos comandos. Escutei o rugir das águas. De três ou quatro buracos que estavam na face de concreto da represa jorraram jatos brancos e gigantescos de água. Puxei outro dos comandos. Mais três ou quatro buracos se abriram, liberando toneladas de água. Puxei um terceiro comando, e a represa inteira começou a soltar água. Fiquei ali parado, assistindo a água se espalhar. Talvez eu pudesse dar início a uma inundação, de modo que os caubóis em seus cavalos ou em suas pequenas e robustas picapes viessem me resgatar. Já podia ver a manchete:
HENRY CHINASKI, POETA MENOR, PROVOCA ALAGAMENTO NO INTERIOR DE UTAH PARA SALVAR SEU DELICADO RABO DE HOMEM DA CIDADE GRANDE.
Decidi que isso estava mal. Reverti todos os comandos para a posição normal, fechei a caixa de metal e coloquei o cadeado rompido de volta no seu lugar.
Deixei o reservatório e encontrei outra estrada pelo caminho, que passei a seguir. Esta, porém, parecia ser mais utilizada que a anterior. Avancei por ali. Nunca antes me sentira tão cansado. Eu já não enxergava mais nada. De repente uma garotinha de cinco anos caminhava em minha direção. Trazia um vestidinho azul e sapatos brancos. Pareceu se assustar ao me ver. Tentei, enquanto me aproximava dela cada vez mais, parecer alguém agradável e digno de confiança.
– Não fuja, garotinha. Não vou machucar você. ESTOU PERDIDO! Onde estão seus pais? Garotinha, me leve até seus pais!
A garotinha apontou numa direção. Vi um trailer e um carro estacionados logo à frente.
– EI, ESTOU PERDIDO! – gritei. – POR DEUS, QUE ALEGRIA VER VOCÊ.
Lydia contornou o trailer. Seu cabelo estava cheio de bobes vermelhos.
– Vamos lá, garoto da cidade – ela disse. – Me siga até em casa.
– Estou tão feliz em ver você, baby, me beija!
– Não. Me siga.
Lydia disparou correndo, uns dez metros na minha frente. Era difícil acompanhá-la.
– Perguntei pro pessoal aí se eles tinham visto um garoto da cidade nas redondezas – ela gritou, por sobre o ombro. – E eles disseram: não.
– Lydia, eu te amo!
– Vamos, você parece uma lesma!
– Espere, Lydia, espere!
Ela pulou uma cerca de arames farpados. Eu não consegui. Fiquei preso. Não podia me mover. Era como uma vaca presa.
– LYDIA!
Ela retornou com seus bobes vermelhos e me ajudou a me livrar dos arames farpados.
– Eu segui você. Encontrei o seu caderninho vermelho. Você se perdeu de propósito só porque estava puto da cara.
– Não, eu me perdi por causa da minha ignorância, do meu medo. Não sou uma pessoa completa: sou uma dessas pessoas incapazes da cidade. Sou mais ou menos como um monte de merda fracassada, não tenho absolutamente nada a oferecer.
– Jesus – ela disse –, você acha, por acaso, que eu não sei disso?
Libertou-me do último arame. Lancei-me atrás dela. Eu estava outra vez com Lydia.
– Mulheres
Monte em um camelo.
Leia a bíblia.
Pinte seus sapatos de azul.
Deixe a barba crescer.
Dê a volta ao mundo numa canoa de papel.
Assine The Saturday Evening Post.
Mastigue apenas com o lado esquerdo da boca.
Case-se com uma perneta e se barbeie com uma navalha.
E entalhe seu nome no braço dela.
Escove os dentes com gasolina.
Durma o dia inteiro e suba em árvores à noite.
Seja um monge e beba chumbo grosso e cerveja.
Mantenha sua cabeça dentro d’água e toque violino.
Faça uma dança do ventre diante de velas cor-de-rosa.
Mate seu cachorro.
Concorra à prefeitura.
Viva num barril.
Rompa sua cabeça com uma machadinha.
Plante tulipas sob a chuva.
Mas não escreva poesia.
Para acalmar Lydia, concordei em ir até Muleshead, Utah. Sua irmã estava acampando nas montanhas. As irmãs eram na verdade donas de boa parte daquelas terras. Haviam-nas herdado do pai. Glendoline, uma das irmãs, tinha uma barraca montada na floresta. Ela estava escrevendo um romance, A mulher selvagem das montanhas. As outras irmãs chegariam qualquer dia desses. Lydia e eu chegamos primeiro. Tínhamos uma barraca pequena. Arrastamo-nos para dentro dela, seguidos pelos mosquitos. Foi um negócio pavoroso.
Na manhã seguinte nos sentamos ao redor da fogueira. Glendoline e Lydia esquentaram o café da manhã. Eu tinha gastado quarenta pratas em mercadorias que incluíam uma quantidade razoável de garrafas de cerveja. Mantinha-as geladas numa fonte da montanha. Terminamos o café. Ajudei com os pratos e então Glendoline trouxe sua novela e começou a lê-la para nós. Não era de todo má, mas estava longe de ser um texto profissional e precisava de muito polimento. Glendoline supunha que os leitores estivessem tão fascinados quanto ela por sua própria vida – o que era um erro fatal. Os outros erros de mesma natureza que ela cometera eram numerosos demais para mencionar.
Caminhei até a fonte e voltei com três garrafas de cerveja. As garotas disseram não, não queriam beber. Eram bastante contrárias à cerveja. Discutimos o romance de Glendoline. Me dei conta de que qualquer pessoa capaz de ler seu romance em voz alta para outras devia ser posta sob suspeita. Se aquilo não era o velho beijo da morte, não sei mais o que poderia ser.
A conversa mudou de rumo, e as garotas passaram a falar sobre homens, festas, dança, e sexo. Glendoline tinha uma voz alta e esganiçada e ria de um modo nervoso e constante. Ela já ia na metade dos quarenta, era gorducha e um tanto sebosa. Além disso, assim como eu, ela era simplesmente feia.
Glendoline deve ter falado por mais de uma hora sem parar, exclusivamente sobre sexo. Comecei a ficar tonto. Ela gesticulava com os braços acima da cabeça:
– SOU A MULHER SELVAGEM DAS MONTANHAS! Ó, ONDE ESTÁ O HOMEM, Ó, ONDE ESTÁ O HOMEM, O HOMEM DE VERDADE QUE TERÁ CORAGEM DE ME PEGAR?
Bem, ele certamente não estaria por aqui, pensei.
Olhei para Lydia.
– Vamos dar uma caminhada.
– Não – ela disse –, quero ler este livro. – Chamava-se Amor e orgasmo: um guia revolucionário para a realização sexual.
– Tudo bem – eu disse –, vou dar uma caminhada então.
Caminhei até a fonte da montanha. Apanhei mais uma cerveja, abri a tampinha e me sentei por ali, bebendo. Eu estava preso no meio das montanhas e da floresta com duas mulheres loucas. Elas esvaziavam toda alegria que havia numa trepada por não falarem de outra coisa o tempo todo. Eu também gostava de foder, mas não fazia disso minha religião. Havia uma série de coisas ridículas e ao mesmo trágicas sobre o assunto. As pessoas pareciam ser incapazes de lidar com isso. Então transformaram o negócio num passatempo. Um passatempo capaz de destruir pessoas.
O principal a fazer, decidi, era encontrar a mulher certa. Mas como? Tinha um caderninho vermelho comigo e uma caneta. Rabisquei um poema meditativo numa das folhas. Então caminhei em direção ao lago. Vance Pastures era o nome do lugar. As irmãs eram donas de quase toda a terra. Eu precisava dar uma cagada. Baixei as calças e me acocorei no meio do mato, cercado por moscas e mosquitos. Como seria bom poder contar com os confortos da cidade. Tive que me limpar com umas folhas. Caminhei até o lago e meti um pé na água. Estava fria como gelo.
Seja homem, seu velho. Entre.
Minha pele era branca como marfim. Me senti decrépito, muito flácido. Entrei na água gelada. Fui submergindo até a cintura, então tomei bastante fôlego e me lancei para frente. Eu tinha mergulhado por inteiro! A lama se ergueu do fundo do lago e entrou em meus ouvidos, na minha boca, grudou nos meus cabelos. Fiquei ali, em meio à água lamacenta, os dentes batendo.
Esperei por muito tempo até que a água voltasse a ficar limpa. Então retornei. Vesti minhas roupas e percorri o caminho ao longo do lago. Quando cheguei ao fim da margem, escutei um som que parecia o de uma cachoeira. Entrei na floresta, seguindo na direção do som. Tive que vencer algumas pedras através de um córrego. O som se tornava cada vez mais vivo. As moscas e os mosquitos fervilhavam ao meu redor. As moscas eram maiores e furiosas e famintas, muito maiores do que as moscas da cidade, além de saber reconhecer uma refeição quando avistavam uma.
Embrenhei-me na mata, avancei, e então lá estava: minha primeira cachoeira de verdade. A água simplesmente brotava da montanha e corria sobre uma saliência na pedra. Era uma coisa linda. A água não parava de correr. Vinha de algum lugar. E corria para algum lugar. Havia três ou quatro córregos que era bem provável que desaguassem no lago.
Por fim, cansei de olhar a cachoeira e decidi voltar. Decidi, também, tomar um caminho diferente, um atalho. Abri caminho na direção oposta ao lago, para chegar mais rápido ao acampamento. Eu tinha noção de onde ele ficava. Trazia ainda comigo o meu caderninho vermelho. Parei e escrevi outro poema, menos meditativo, e então prossegui. Continuei caminhando. Nada do acampamento. Caminhei um pouco mais. Olhei em volta à procura do lago. Não conseguia encontrá-lo, não sabia mais onde ele estava. De súbito, percebi: eu estava PERDIDO. Aquelas vadias taradas tinham me deixado louco e agora eu estava PERDIDO. Olhei em volta. Dava para ver as montanhas no horizonte e ao meu redor árvores e mato. Não havia nenhum centro, nenhum ponto de partida, nenhuma conexão entre nada. Senti medo, medo de verdade. Por que fui deixar que elas me tirassem da minha cidade, da minha Los Angeles querida? Lá um homem poderia chamar um táxi, dar um telefonema. Havia soluções razoáveis para problemas razoáveis.
Vance Pastures se estendia à minha volta por quilômetros e quilômetros. Joguei longe meu caderninho. Que modo para um escritor morrer! Já podia ver a notícia no jornal:
HENRY CHINASKI, POETA MENOR,
ENCONTRADO MORTO NAS MATAS DE UTAH
Henry Chinaski, ex-funcionário dos Correios que virou escritor, foi encontrado em estado de decomposição na tarde de ontem pelo guarda florestal W. K. Brooks Jr. Perto de seu corpo também foi encontrado um pequeno caderno vermelho, que continha evidentemente os últimos escritos do sr. Chinaski.
Segui caminhando. Eu estava numa área pantanosa. A todo momento, uma de minhas pernas afundava até o joelho no lodaçal, e eu tinha que dar um jeito de libertá-la.
Acabei topando com uma cerca de arames farpados. Soube de imediato que eu não devia pular aquela cerca. Sabia que era a coisa errada a fazer, mas parecia não haver alternativa. Escalei a cerca e fiquei parado lá em cima, fiz uma concha com minhas mãos ao redor da boca e gritei:
– LYDIA!
Não houve resposta.
Tentei novamente:
– LYDIA!
Minha voz soou bastante chorosa. A voz de um covarde.
Prossegui. Seria bom, pensei, estar de novo com as irmãs, ouvindo-as falar sobre sexo e homens e sair pra dançar e festas. Seria bom ouvir a voz de Glendoline. Seria bom passar minha mão pelos longos cabelos de Lydia. De coração, eu a levaria a todas as festas da cidade. Chegaria mesmo a dançar com todas as mulheres e faria piadas maravilhosas sobre todo e qualquer assunto. Suportaria toda a bobajada que escorre das bocas com um sorriso. Quase podia me ouvir:
– Ei, essa música é ótima para dançar! Quem está querendo ir embora? Quem quer botar pra quebrar na pista de dança?
Segui caminhando através do lodo. Finalmente cheguei à terra seca. Depois, encontrei uma estrada. Não era mais que uma estrada velha e suja, mas parecia boa. Dava pra ver algumas marcas de pneu e de cascos de animais. Havia até mesmo alguns postes que levavam eletricidade para algum lugar. Tudo o que eu tinha a fazer era seguir esses fios. Caminhei ao longo da estrada. O sol ia alto no céu, devia ser perto de meio-dia. Continuei me arrastando, sentindo-me um otário.
Mais adiante avistei um portão do outro lado da estrada que estava trancado. O que significava aquilo? Havia uma pequena entrada lateral. Era evidente que o portão era de uma propriedade de gado. Mas onde estavam os animais? Onde estava o dono da fazenda? Talvez ele só aparecesse a cada seis meses.
O topo da minha cabeça começou a doer. Levei uma das mãos até ali e senti o local onde trinta anos antes, num bar da Filadélfia, eu havia tomado uma cacetada. A cicatriz nunca desapareceu por completo. Agora, tostada ao sol, a cicatriz havia inchado. Parecia um pequeno chifre. Arranquei um pedaço do tecido que a cobria e joguei na estrada.
Caminhei por mais uma hora, então decidi voltar. Isso significava ter que refazer todo o caminho percorrido, mas ainda assim me pareceu a coisa certa a fazer. Tirei minha camisa e a enrolei na cabeça. De vez em quando dava uma parada para gritar:
– LYDIA!
Não havia resposta.
Algum tempo depois cheguei de novo ao portão. Tudo o que eu precisava fazer era contorná-lo, mas havia alguma coisa no caminho. Ficava na frente do portão, a uns cinco metros de onde eu estava. Era um pequeno veado, uma gazela, algo assim.
Movi-me devagar em sua direção. O bicho não saiu do lugar. Será que me deixaria passar? Não parecia ter medo de mim. Supus que ele tivesse percebido minha confusão, minha covardia. Aproximei-me mais e mais. Ele não iria sair do caminho. Tinha olhos grandes e castanhos, olhos mais belos do que os de qualquer mulher que eu já tenha visto. Era inacreditável. Estávamos a um metro de distância, e eu prestes a recuar, quando ele se afastou. Correu para a mata além da estrada. Estava em ótima forma; era capaz de correr de verdade.
Enquanto seguia caminhando pela margem da estrada ouvi o som de água corrente. Eu precisava de água. Não se podia viver por muito tempo sem água. Abandonei a estrada e segui na direção do som da água corrente. Havia um pequeno monte coberto de grama e, assim que o venci, lá estava: água corrente, jorrando de canos de cimento para dentro de uma represa e então para um tipo de reservatório. Sentei-me à beira do reservatório e tirei meus sapatos e minhas meias, arregacei as calças e enfiei minhas pernas na água. Então despejei água sobre minha cabeça. Depois a bebi – mas não muito ou muito depressa –, do mesmo modo como vi fazerem nos filmes.
Depois de me recuperar um pouco, reparei num píer que se projetava sobre o reservatório. Caminhei até ali e me deparei com uma grande caixa de metal, fixada num dos lados do píer. Estava trancada com um cadeado. Era bem provável que houvesse um telefone ali dentro! Eu podia ligar e pedir ajuda!
Fui em busca de uma pedra de bom tamanho e comecei a golpear o cadeado com ela. A tranca não cedia. O que Jack London faria? O que Hemingway faria? Jean Genet?
Continuei golpeando o cadeado com a pedra. Às vezes eu errava o golpe e minha mão atingia o cadeado ou a própria caixa de metal. A pele lacerada, o sangue escorrendo. Reuni minhas forças e disparei um último golpe. O cadeado abriu. Retirei-o e abri a caixa. Não tinha nenhum telefone lá dentro. Havia uma série de comandos e alguns cabos de grosso calibre. Pus minha mão ali, toquei num dos fios e levei um choque terrível. Então acionei um dos comandos. Escutei o rugir das águas. De três ou quatro buracos que estavam na face de concreto da represa jorraram jatos brancos e gigantescos de água. Puxei outro dos comandos. Mais três ou quatro buracos se abriram, liberando toneladas de água. Puxei um terceiro comando, e a represa inteira começou a soltar água. Fiquei ali parado, assistindo a água se espalhar. Talvez eu pudesse dar início a uma inundação, de modo que os caubóis em seus cavalos ou em suas pequenas e robustas picapes viessem me resgatar. Já podia ver a manchete:
HENRY CHINASKI, POETA MENOR, PROVOCA ALAGAMENTO NO INTERIOR DE UTAH PARA SALVAR SEU DELICADO RABO DE HOMEM DA CIDADE GRANDE.
Decidi que isso estava mal. Reverti todos os comandos para a posição normal, fechei a caixa de metal e coloquei o cadeado rompido de volta no seu lugar.
Deixei o reservatório e encontrei outra estrada pelo caminho, que passei a seguir. Esta, porém, parecia ser mais utilizada que a anterior. Avancei por ali. Nunca antes me sentira tão cansado. Eu já não enxergava mais nada. De repente uma garotinha de cinco anos caminhava em minha direção. Trazia um vestidinho azul e sapatos brancos. Pareceu se assustar ao me ver. Tentei, enquanto me aproximava dela cada vez mais, parecer alguém agradável e digno de confiança.
– Não fuja, garotinha. Não vou machucar você. ESTOU PERDIDO! Onde estão seus pais? Garotinha, me leve até seus pais!
A garotinha apontou numa direção. Vi um trailer e um carro estacionados logo à frente.
– EI, ESTOU PERDIDO! – gritei. – POR DEUS, QUE ALEGRIA VER VOCÊ.
Lydia contornou o trailer. Seu cabelo estava cheio de bobes vermelhos.
– Vamos lá, garoto da cidade – ela disse. – Me siga até em casa.
– Estou tão feliz em ver você, baby, me beija!
– Não. Me siga.
Lydia disparou correndo, uns dez metros na minha frente. Era difícil acompanhá-la.
– Perguntei pro pessoal aí se eles tinham visto um garoto da cidade nas redondezas – ela gritou, por sobre o ombro. – E eles disseram: não.
– Lydia, eu te amo!
– Vamos, você parece uma lesma!
– Espere, Lydia, espere!
Ela pulou uma cerca de arames farpados. Eu não consegui. Fiquei preso. Não podia me mover. Era como uma vaca presa.
– LYDIA!
Ela retornou com seus bobes vermelhos e me ajudou a me livrar dos arames farpados.
– Eu segui você. Encontrei o seu caderninho vermelho. Você se perdeu de propósito só porque estava puto da cara.
– Não, eu me perdi por causa da minha ignorância, do meu medo. Não sou uma pessoa completa: sou uma dessas pessoas incapazes da cidade. Sou mais ou menos como um monte de merda fracassada, não tenho absolutamente nada a oferecer.
– Jesus – ela disse –, você acha, por acaso, que eu não sei disso?
Libertou-me do último arame. Lancei-me atrás dela. Eu estava outra vez com Lydia.
– Mulheres
1 739
1
João Filho
MEDIDA
e falho, e falho sempre, dom sem fim,
faço da falha a dança que não sei,
o meu lirismo é falhar assim
como quem perde tudo de uma vez
e perco, e perco sempre sem fingir,
na falta me desdobro no que errei,
aos que amo dou motivos de motim,
náufrago nu entrego a minha tez
e entrego, entrego sempre sem medir
o que não ganho, pois não ganharei,
faço da perda um cofre de marfim
para guardar as falhas como um rei
faço da falha a dança que não sei,
o meu lirismo é falhar assim
como quem perde tudo de uma vez
e perco, e perco sempre sem fingir,
na falta me desdobro no que errei,
aos que amo dou motivos de motim,
náufrago nu entrego a minha tez
e entrego, entrego sempre sem medir
o que não ganho, pois não ganharei,
faço da perda um cofre de marfim
para guardar as falhas como um rei
814
1
Charles Bukowski
Enfeitiçado em Nova York
a senhora foi a mais infiel e terrível que eu jamais havia
encontrado e eu sabia disso e ela sabia disso e ela era
as duas coisas, feia e linda ao mesmo tempo e as
duas dela estavam sentadas ali no peitoril
daquela janela aberta no hotel
em Nova York em
um dos dias mais quentes de todos os tempos, sem
ar-condicionado, sem ventilador, suávamos e sofríamos e esperávamos
algo
acontecer.
eu estava bêbado, ela estava nas drogas, havíamos acabado
de concluir uma copulação
rapidinha e logo depois ela disse, "seu filho da
puta, nós estamos encalhados aqui no inferno!"
"bom", eu disse.
então eu a vi cair da janela, estávamos
no quarto andar, eu escutei o grito,
seu corpo se havia ido.
então estava de volta, ela sentada no
peitoril da janela outra vez. "você viu isso?", ela
perguntou. "eu caí da janela!"
"bom", eu disse.
"mas de algum modo eu me empurrei de volta para dentro!", ela
disse.
"bom", eu disse.
"isso é tudo o que você sabe dizer?", ela perguntou.
"bom???"
"eu consigo dizer que acho você uma bruxa ou um demônio
e que seu ato na janela agora só prova
isso."
eu senti que por cair para fora ela havia melhorado meu
humor e que ela o havia estragado de propósito
ao subir de volta
para dentro.
"então eu sou uma bruxa ou um demônio, é? bem, então chega de
bunda para você!"
"bom", eu disse.
às vezes você vive e fica com uma mulher e não tem ideia
real do porquê.
com ela eu sabia: era o simples, fascinante,
inexorável mistério e terror
de ela ser assim.
encontrado e eu sabia disso e ela sabia disso e ela era
as duas coisas, feia e linda ao mesmo tempo e as
duas dela estavam sentadas ali no peitoril
daquela janela aberta no hotel
em Nova York em
um dos dias mais quentes de todos os tempos, sem
ar-condicionado, sem ventilador, suávamos e sofríamos e esperávamos
algo
acontecer.
eu estava bêbado, ela estava nas drogas, havíamos acabado
de concluir uma copulação
rapidinha e logo depois ela disse, "seu filho da
puta, nós estamos encalhados aqui no inferno!"
"bom", eu disse.
então eu a vi cair da janela, estávamos
no quarto andar, eu escutei o grito,
seu corpo se havia ido.
então estava de volta, ela sentada no
peitoril da janela outra vez. "você viu isso?", ela
perguntou. "eu caí da janela!"
"bom", eu disse.
"mas de algum modo eu me empurrei de volta para dentro!", ela
disse.
"bom", eu disse.
"isso é tudo o que você sabe dizer?", ela perguntou.
"bom???"
"eu consigo dizer que acho você uma bruxa ou um demônio
e que seu ato na janela agora só prova
isso."
eu senti que por cair para fora ela havia melhorado meu
humor e que ela o havia estragado de propósito
ao subir de volta
para dentro.
"então eu sou uma bruxa ou um demônio, é? bem, então chega de
bunda para você!"
"bom", eu disse.
às vezes você vive e fica com uma mulher e não tem ideia
real do porquê.
com ela eu sabia: era o simples, fascinante,
inexorável mistério e terror
de ela ser assim.
1 136
1
Manuel Gusmão
g: Livre é o dom
Livre é o dom nas mãos do mundo: a alegria.
Nunca saberás dizer como se move sobre as águas a verdade
- a verdade que dança no teu corpo - e no seu teatro
sopra as almas como o vento as telas.
Mas para que uma última vez possas dançar
podemos, sim, pôr aqui o fogo
e a árvore da música: a vibração da sua haste
comunica-se; E o mundo estremece: a vibração
do mundo; quando não estamos a olhar.
Nunca saberás dizer como se move sobre as águas a verdade
- a verdade que dança no teu corpo - e no seu teatro
sopra as almas como o vento as telas.
Mas para que uma última vez possas dançar
podemos, sim, pôr aqui o fogo
e a árvore da música: a vibração da sua haste
comunica-se; E o mundo estremece: a vibração
do mundo; quando não estamos a olhar.
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1
Manuel Gusmão
g: Livre é o dom
Livre é o dom nas mãos do mundo: a alegria.
Nunca saberás dizer como se move sobre as águas a verdade
- a verdade que dança no teu corpo - e no seu teatro
sopra as almas como o vento as telas.
Mas para que uma última vez possas dançar
podemos, sim, pôr aqui o fogo
e a árvore da música: a vibração da sua haste
comunica-se; E o mundo estremece: a vibração
do mundo; quando não estamos a olhar.
Nunca saberás dizer como se move sobre as águas a verdade
- a verdade que dança no teu corpo - e no seu teatro
sopra as almas como o vento as telas.
Mas para que uma última vez possas dançar
podemos, sim, pôr aqui o fogo
e a árvore da música: a vibração da sua haste
comunica-se; E o mundo estremece: a vibração
do mundo; quando não estamos a olhar.
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Manuel Gusmão
g: Livre é o dom
Livre é o dom nas mãos do mundo: a alegria.
Nunca saberás dizer como se move sobre as águas a verdade
- a verdade que dança no teu corpo - e no seu teatro
sopra as almas como o vento as telas.
Mas para que uma última vez possas dançar
podemos, sim, pôr aqui o fogo
e a árvore da música: a vibração da sua haste
comunica-se; E o mundo estremece: a vibração
do mundo; quando não estamos a olhar.
Nunca saberás dizer como se move sobre as águas a verdade
- a verdade que dança no teu corpo - e no seu teatro
sopra as almas como o vento as telas.
Mas para que uma última vez possas dançar
podemos, sim, pôr aqui o fogo
e a árvore da música: a vibração da sua haste
comunica-se; E o mundo estremece: a vibração
do mundo; quando não estamos a olhar.
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Manuel Gusmão
g: Livre é o dom
Livre é o dom nas mãos do mundo: a alegria.
Nunca saberás dizer como se move sobre as águas a verdade
- a verdade que dança no teu corpo - e no seu teatro
sopra as almas como o vento as telas.
Mas para que uma última vez possas dançar
podemos, sim, pôr aqui o fogo
e a árvore da música: a vibração da sua haste
comunica-se; E o mundo estremece: a vibração
do mundo; quando não estamos a olhar.
Nunca saberás dizer como se move sobre as águas a verdade
- a verdade que dança no teu corpo - e no seu teatro
sopra as almas como o vento as telas.
Mas para que uma última vez possas dançar
podemos, sim, pôr aqui o fogo
e a árvore da música: a vibração da sua haste
comunica-se; E o mundo estremece: a vibração
do mundo; quando não estamos a olhar.
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Paio Soares de Taveirós
Cantiga de amor
Como morreu quem nunca amar
se faz pela coisa que mais amou,
e quanto dela receou
sofreu, morrendo de pesar,
ai, minha senhora, assim morro eu.
Como morreu quem foi amar
quem nunca bem lhe quis fazer,
e de quem Deus lhe fez saber
que a morte havia de alcançar,
ai, minha senhora, assim morro eu.
Igual ao homem que endoideceu
com a grande mágoa que sentiu,
senhora, e nunca mais dormiu,
perdeu a paz, depois morreu,
ai, minha senhora, assim morro eu.
Como morreu quem amou tal
mulher que nunca lhe quis bem
e a viu levada por alguém
que a não valia nem a vale,
ai, minha senhora, assim morro eu.
Português antigo
Como morreu quen nunca ben
houve da ren que máis amou,
e quen viu quanto receou
dela, e foi morto por én:
ai mia senhor, assí moir'eu!
Como morreu quen foi amar
quen lhe nunca quis ben fazer,
e de quen lhe fez Deus veer
de que foi morto con pesar:
ai mia senhor, assí moir'eu!
Com'home que ensandeceu,
senhor, con gran pesar que viu,
e non foi ledo nen dormiu
depois, mia senhor, e morreu:
ai mia senhor, assí moir'eu!
Como morreu quen amou tal
dona que lhe nunca fez ben,
e quen a viu levar a quen
a non valía, nen a val:
ai mia senhor, assí moir'eu!
se faz pela coisa que mais amou,
e quanto dela receou
sofreu, morrendo de pesar,
ai, minha senhora, assim morro eu.
Como morreu quem foi amar
quem nunca bem lhe quis fazer,
e de quem Deus lhe fez saber
que a morte havia de alcançar,
ai, minha senhora, assim morro eu.
Igual ao homem que endoideceu
com a grande mágoa que sentiu,
senhora, e nunca mais dormiu,
perdeu a paz, depois morreu,
ai, minha senhora, assim morro eu.
Como morreu quem amou tal
mulher que nunca lhe quis bem
e a viu levada por alguém
que a não valia nem a vale,
ai, minha senhora, assim morro eu.
Português antigo
Como morreu quen nunca ben
houve da ren que máis amou,
e quen viu quanto receou
dela, e foi morto por én:
ai mia senhor, assí moir'eu!
Como morreu quen foi amar
quen lhe nunca quis ben fazer,
e de quen lhe fez Deus veer
de que foi morto con pesar:
ai mia senhor, assí moir'eu!
Com'home que ensandeceu,
senhor, con gran pesar que viu,
e non foi ledo nen dormiu
depois, mia senhor, e morreu:
ai mia senhor, assí moir'eu!
Como morreu quen amou tal
dona que lhe nunca fez ben,
e quen a viu levar a quen
a non valía, nen a val:
ai mia senhor, assí moir'eu!
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Eucanaã Ferraz
VIDA E OBRA
Repare, Cicero, que os copos se tornam
mais leves quando cheios de vinho.
E, você há de concordar comigo, a cada copo
essa impressão cresce. Deuses, vazio,
canções, vinho: este é um poema sobre poemas
e amizade.
Repare que o mesmo se dá conosco: o peso
faz-se leve em nós se um verso nos acontece.
mais leves quando cheios de vinho.
E, você há de concordar comigo, a cada copo
essa impressão cresce. Deuses, vazio,
canções, vinho: este é um poema sobre poemas
e amizade.
Repare que o mesmo se dá conosco: o peso
faz-se leve em nós se um verso nos acontece.
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