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Paulo Setúbal

Paulo Setúbal

À Beira do Caminho

Por essas tardes plácidas do campo,
— Tardes azuis de firmamento escampo,
Eu vou, través de longos carreadores,
Sentar-me num barranco, ermo e distante,
Sentindo o fresco aroma penetrante
Que vem da madressilva aberta em flores.

Tudo me entrista e punge nestas terras!
Os mesmos cafezais. As mesmas serras.
A mesma casa antiga da fazenda,
Que outrora viu, quando éramos meninos,
Nossos amores, nossos desatinos,
— Toda essa história descorada em lenda!

Quanta saudade! De manhã bem cedo,
Saíamos os dois pelo arvoredo,
De alma contente e exclamações na voz.
Como éramos apenas namorados,
E andássemos, a rir, de braços dados,
Os camponeses riam-se de nós!

Era dezembro. Florescia o milho,
Verde e glorioso como o nosso idílio.
Que lindas roças! Que estação aquela!
Toda a velha fazenda parecia,
Com sua larga e rústica alegria,
Mais cheia de aves, mais ruidosa e bela!

Ainda guardo, intata, na memória,
Aquela ingênua e deliciosa história,
Que foi o meu e o teu primeiro amor.
E ai! que recordação, que duro travo,
Lembrar que eu fui o teu rei o teu escravo,
Saber que fui eu teu servo e teu senhor!

E cismo... Cismo... A tarde vai tombando.
De lado a lado, claras, azulando,
Destacam-se as colinas no horizonte.
Tristonha, a várzea na amplidão se perde.
Lá em baixo um bambual sombrio e verde.
Um fio dágua. Uma arruinada ponte.

Assim, ao pôr do sol, triste e sozinho,
Sentado num barranco do caminho,
Sem que ninguém meu coração compreenda,
Olho a mata, olho os campos, olho a estrada
Ouvindo a melancólica toada
Que chora, ao longe, o piano da fazenda...


Publicado no livro Alma Cabocla (1920). Poema integrante da série Moita de Rosas.

In: SETÚBAL, Paulo. Alma cabocla: poesias. 8. ed. São Paulo: Saraiva, 196
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Joaquim Manuel de Macedo

Joaquim Manuel de Macedo

Eu me curvo ao destino de meu sexo; (Ato II, Cena I)

(...)

Eu me curvo ao destino de meu sexo;
É preciso viver no nosso mundo;
Receber como leis suas cadeias;
Ter o riso no rosto, e o pranto n'alma,
E dizer — sou feliz!... — Que sorte iníqua!
É a mulher excepcional vivente,
Que tem alma, e não querem que ela sinta!
Tem coração, e ordenam que não ame!...
A mulher sempre é vítima no mundo.
Sujeita des que nasce até que morre,
De pai passa a tutor, irmão, marido...
Sempre um senhor... (O nome é que se muda);
Sempre a seu lado um homem se levanta
Para pensar e desejar por ela;
Criança, junto a quem sempre vigiam;
Cego, que sempre pela mão se leva;
Eis a mulher!... eis o que eu sou, e todas!...
E ao muito se consegue ser amada;
É escrava, que num altar se prende,
Divindade, que em ferros se conserva.
E a quem se chama (Oh! irrisão!!!) SENHORA!
E portanto, eu serei como mil outras
Mártires nobres. Ver-me-ão passando
(Como essas tantas) Silenciosa... pálida
Sorrindo com o sorrir que esconde as mágoas:
Talvez digam ao ver-me — ela é ditosa!
Sim, que eu hei de saber (como outras fazem)
Abafar meus suspiros e gemidos,
E esconder os tormentos de minh'alma
Desse mundo egoísta, e sem piedade,
Que faz do homem "senhor" da mulher "mártir"

(...)


Publicado no livro O cego: drama em cinco atos em verso (1851).

In: MACEDO, Joaquim Manuel de. Teatro completo. Apres. Orlando Miranda de Carvalho. Introd. Márcio Jabur Yunes. Rio de Janeiro: Serviço Nacional de Teatro, 1979. v.1, p.253. (Clássicos do teatro brasileiro, 3
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Juvenal Galeno

Juvenal Galeno

As Formas de Governo

Logo após a indepêndencia
De minha pátria nação,
Sobre as formas de governo
Versou forte discussão:
Um queria monarquia
Sujeita à Constituição,
Outro — um rei absoluto,
E outro mais resoluto
Pedia a — federação!

Então, então
Não podia eu, como agora,
Dizer minha opinião!

Palavra puxa palavra...
Té que se escuta o canhão;
As balas voam ferinas...
De mortos cobrem-se o chão!
Quando o brado da vitória
Solta uma forte facção...
E gemidos consternados
A prole dos fuzilados
Aos olhos da multidão!

Então, então
Não podia eu, como agora,
Dizer minha opinião!

Como infante, a minha pátria
Não sabia o que escolher;
Era nóvel — só por isso
Ninguém devera morrer;
Pois é próprio das crianças
O querer e não querer;
Hoje, não — mestra exp'riência
Nos mostra a conveniência
Do que devemos fazer!
(...)
Assim pois com toda a calma,
Após muito meditar,
Vejamos qual dos governos
É o mais fácil de aturar:
A república?... Excelente!
Só ela vem-nos salvar!
Mas... se o chefe, ou presidente,
Como o Lopes, é ingente
No despotismo sem par?...

Então, então...
Já não sou republicano...
Já mudei de opinião!

O governo absoluto,
o rei não sendo cruel,
Sendo das letras esteio
Do povo amigo fiel...
Este sim... é excelente!
Mas, se como a cascavel,
Mau se torna e desumano...
E também fero tirano
Ódio todo... e todo fel?...

Então, então
Eu não quero tal governo,
Já mudei de opinião!

(...)


In: GALENO, Juvenal. Lendas e canções populares, 1859/1865. Introd. F. Alves de Andrade. 4.ed. Fortaleza: Casa de Juvenal Galeno, 197
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