Poemas neste tema
Outros
Odylo Costa Filho
Paz de Amor
Calemos esta paz como um segredo
de amor feliz. Não seja este silêncio
ponto final em nosso terno enredo:
não nos encerre o amor, antes condense-o.
Olhemo-nos nos olhos face a face.
sem recuar surpresos como o amigo
que de repente no outro deparasse
apenas o lembrar do tempo antigo.
Não. Sempre em nós renascerão searas.
novas chuvas trarão nova colheita.
folhas novas, translúcidas e raras.
E brotará da tua mão direita
água súbita e casta do rochedo
um novo amor, que vença a morte e o medo.
de amor feliz. Não seja este silêncio
ponto final em nosso terno enredo:
não nos encerre o amor, antes condense-o.
Olhemo-nos nos olhos face a face.
sem recuar surpresos como o amigo
que de repente no outro deparasse
apenas o lembrar do tempo antigo.
Não. Sempre em nós renascerão searas.
novas chuvas trarão nova colheita.
folhas novas, translúcidas e raras.
E brotará da tua mão direita
água súbita e casta do rochedo
um novo amor, que vença a morte e o medo.
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Odylo Costa Filho
Paz de Amor
Calemos esta paz como um segredo
de amor feliz. Não seja este silêncio
ponto final em nosso terno enredo:
não nos encerre o amor, antes condense-o.
Olhemo-nos nos olhos face a face.
sem recuar surpresos como o amigo
que de repente no outro deparasse
apenas o lembrar do tempo antigo.
Não. Sempre em nós renascerão searas.
novas chuvas trarão nova colheita.
folhas novas, translúcidas e raras.
E brotará da tua mão direita
água súbita e casta do rochedo
um novo amor, que vença a morte e o medo.
de amor feliz. Não seja este silêncio
ponto final em nosso terno enredo:
não nos encerre o amor, antes condense-o.
Olhemo-nos nos olhos face a face.
sem recuar surpresos como o amigo
que de repente no outro deparasse
apenas o lembrar do tempo antigo.
Não. Sempre em nós renascerão searas.
novas chuvas trarão nova colheita.
folhas novas, translúcidas e raras.
E brotará da tua mão direita
água súbita e casta do rochedo
um novo amor, que vença a morte e o medo.
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Fernando Tavares Rodrigues
As Time Goes By
Como o
tempo passa
Enquanto ficamos sós...
Passamos nós pelo tempo
Ou passa o tempo por nós?
Bebamos os dois á taça
O que afinal sou eu só
- ambígua raiva, duelo,
dualidade num só.
tempo passa
Enquanto ficamos sós...
Passamos nós pelo tempo
Ou passa o tempo por nós?
Bebamos os dois á taça
O que afinal sou eu só
- ambígua raiva, duelo,
dualidade num só.
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Reinaldo Ferreira
Tu, Baby, ao leres um dia
Tu, Baby, ao leres um dia
Meus versos - e hás-de lê-los
Se durar esta poesia
Mais que o sol nos teus cabelos -
Mal saberás quanto neste
Morto momento que passa,
Porque sorrias, me encheste,
Sorrindo, da tua graça.
Pudesses pura ficar!
Nem que, criança também,
Houvesses sempre que andar
Ao colo de tua mãe!
Meus versos - e hás-de lê-los
Se durar esta poesia
Mais que o sol nos teus cabelos -
Mal saberás quanto neste
Morto momento que passa,
Porque sorrias, me encheste,
Sorrindo, da tua graça.
Pudesses pura ficar!
Nem que, criança também,
Houvesses sempre que andar
Ao colo de tua mãe!
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1
Ferreira Gullar
Infinito Silêncio
Houve
(há)
um enorme silencio
anterior ao nascimento das estrelas
antes da luz
a matéria da matéria
de onde tudo vem incessante e onde
tudo se apaga
eternamente
esse silencio
grita sob a nossa vida
e de ponta a ponta
a atravessa
estridente.
(há)
um enorme silencio
anterior ao nascimento das estrelas
antes da luz
a matéria da matéria
de onde tudo vem incessante e onde
tudo se apaga
eternamente
esse silencio
grita sob a nossa vida
e de ponta a ponta
a atravessa
estridente.
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Ferreira Gullar
Infinito Silêncio
Houve
(há)
um enorme silencio
anterior ao nascimento das estrelas
antes da luz
a matéria da matéria
de onde tudo vem incessante e onde
tudo se apaga
eternamente
esse silencio
grita sob a nossa vida
e de ponta a ponta
a atravessa
estridente.
(há)
um enorme silencio
anterior ao nascimento das estrelas
antes da luz
a matéria da matéria
de onde tudo vem incessante e onde
tudo se apaga
eternamente
esse silencio
grita sob a nossa vida
e de ponta a ponta
a atravessa
estridente.
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1
Reinaldo Ferreira
Acordes gastos
Acordes gastos
De velhos cantos
Doutras deidades,
Riem, nefastos
Das novidades.
Zombam?... Quem sabe
Qual o sentido,
Oculto ou expresso,
Que tem a Esfinge?
Ai quantas vezes
O riso rido
É dor que finge
Ter-se sorrido;
Ou azedume
De ser excedido.
Talvez apenas
Serenidade;
Olhos que fitem,
Desnecessários,
A eternidade.
Nós é que, toscos
De ter sentido
Sua atentatória
Supremacia,
Nos esquecemos
Que os Deuses mortos
Não têm memória
Nem simpatia.
De velhos cantos
Doutras deidades,
Riem, nefastos
Das novidades.
Zombam?... Quem sabe
Qual o sentido,
Oculto ou expresso,
Que tem a Esfinge?
Ai quantas vezes
O riso rido
É dor que finge
Ter-se sorrido;
Ou azedume
De ser excedido.
Talvez apenas
Serenidade;
Olhos que fitem,
Desnecessários,
A eternidade.
Nós é que, toscos
De ter sentido
Sua atentatória
Supremacia,
Nos esquecemos
Que os Deuses mortos
Não têm memória
Nem simpatia.
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Reinaldo Ferreira
Acordes gastos
Acordes gastos
De velhos cantos
Doutras deidades,
Riem, nefastos
Das novidades.
Zombam?... Quem sabe
Qual o sentido,
Oculto ou expresso,
Que tem a Esfinge?
Ai quantas vezes
O riso rido
É dor que finge
Ter-se sorrido;
Ou azedume
De ser excedido.
Talvez apenas
Serenidade;
Olhos que fitem,
Desnecessários,
A eternidade.
Nós é que, toscos
De ter sentido
Sua atentatória
Supremacia,
Nos esquecemos
Que os Deuses mortos
Não têm memória
Nem simpatia.
De velhos cantos
Doutras deidades,
Riem, nefastos
Das novidades.
Zombam?... Quem sabe
Qual o sentido,
Oculto ou expresso,
Que tem a Esfinge?
Ai quantas vezes
O riso rido
É dor que finge
Ter-se sorrido;
Ou azedume
De ser excedido.
Talvez apenas
Serenidade;
Olhos que fitem,
Desnecessários,
A eternidade.
Nós é que, toscos
De ter sentido
Sua atentatória
Supremacia,
Nos esquecemos
Que os Deuses mortos
Não têm memória
Nem simpatia.
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1
Giselle del Pino
Desperta
Desperta,
amor, das plácidas
Margens de meus braços.
Desperta do gozo pleno
Dos meus e dos teus ais.
O tempo corre pra longe
E dormes a noite que te prometi.
Se afago teu corpo, insaciável,
É que careço do tempo que perdi.
Desperta, amor,
Já vem tão logo outro dia,
E distante reviverei teus apelos,
E por amor tecerei nossos dias,
Que passados,
Tem pressa do futuro.
Desperta, amor,
Amanhã não estarei dentro de ti.
E se me levo longe,
Eu sei que ainda estarei por perto,
E por certo ainda,
Habitarás em mim.
amor, das plácidas
Margens de meus braços.
Desperta do gozo pleno
Dos meus e dos teus ais.
O tempo corre pra longe
E dormes a noite que te prometi.
Se afago teu corpo, insaciável,
É que careço do tempo que perdi.
Desperta, amor,
Já vem tão logo outro dia,
E distante reviverei teus apelos,
E por amor tecerei nossos dias,
Que passados,
Tem pressa do futuro.
Desperta, amor,
Amanhã não estarei dentro de ti.
E se me levo longe,
Eu sei que ainda estarei por perto,
E por certo ainda,
Habitarás em mim.
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João Cabral de Melo Neto
Serventia das idéias fixas
Para Vinícius de Morais
Assim como uma bala
enterrada no corpo,
fazendo mais espesso
um dos lados do morto;
assim como uma bala
do chumbo mais pesado,
no músculo de um homem
pesando-o mais de um lado;
qual bala que tivesse
um vivo mecanismo,
bala que possuísse
um coração ativo
igual ao de um relógio
submerso em algum corpo,
ao de um relógio vivo
e também revoltoso,
relógio que tivesse
o gume de uma faca
e toda a impiedade
de lâmina azulada;
assim como uma faca
que sem bolso ou bainha
se transformasse em parte
de vossa anatomia;
qual uma faca íntima
ou faca de uso interno,
habitando num corpo
como o próprio esqueleto
de um homem que o tivesse,
e sempre, doloroso
de homem que se ferisse
contra seus próprios ossos.
A
Seja bala, relógio,
ou a lâmina colérica,
é contudo uma ausência
o que esse homem leva.
Mas o que não está
nele está como bala:
tem o ferro do chumbo,
mesma fibra compacta.
Isso que não está
nele é como um relógio
pulsando em sua gaiola,
sem fadiga, sem ócios.
Isso que não está
nele está como a ciosa
presença de uma faca,
de qualquer faca nova.
Por isso é que o melhor
dos símbolos usados
é a lâmina cruel
(melhor se de Pasmado):
porque nenhum indica
essa ausência tão ávida
como a imagem da faca
que só tivesse lâmina,
nenhum melhor indica
aquela ausência sôfrega
que a imagem de uma faca
reduzido à sua boca;
que a imagem de uma faca
entregue inteiramente
à fome pelas coisas
que nas facas se sente.
B
Das mais surpreendentes
é a vida de tal faca:
faca, ou qualquer metáfora,
pode ser cultivada.
E mais surpreendente
ainda é a sua cultura:
medra não do que come
porém do que jejua.
Podes abandoná-la
essa faca intestina:
jamais a encontrarás
com a boca vazia.
Do nada ela destila
a azia e o vinagre
e mais estratagemas
privativos dos sabres.
E como faca que é,
fervorosa e energética,
sem ajuda dispara
sua máquina perversa:
a lâmina despida
que cresce ao se gastar,
que menos dorme
quanto menos sono há,
cujo muito cortar
lhe aumenta mais o corte
e se vive a se parir
em outras, como fonte.
(Que a vida dessa fac
se mede pelo avesso:
seja relógio ou bala,
ou seja faca mesmo.)
C
Cuidado com o objeto,
com o objeto cuidado,
mesmo sendo uma bala
desse chumbo ferrado,
porque seus dentes já
a bala os traz rombudos
e com facilidade
se em botam mais no músculo.
Mais cuidado porém
quando for um relógio
com o seu coração
aceso e espasmódico.
É preciso cuidado
por que não se acompasse
o pulso do relógio
com o pulso do sangue,
e seu cobre tão nítido
não confunda a passada
com o sangue que bate
já sem morder mais nada.
Então se for faca,
maior seja o cuidado:
a bainha do corpo
pode absorver o aço.
Também seu corte às vezes
tende a tornar-se rouco
e há casos em que ferros
degeneram em couro.
O importante é que a faca
o seu ardor não perca
e tampouco a corrompa
o cabo de madeira.
D
Pois essa faca às vezes
por si mesma se apaga.
É a isso que se chama
maré baixa da faca.
Talvez que não se apague
e somente adormeça.
Se a imagem é relógio,
a sua abelha cessa.
Mas quer durma ou se apague:
ao calar tl motor,
a alma inteira se torna
de um alcalino teor
bem semelhante à neutra
substância, quase feltro,
que é a das almas que não
têm facas-esqueleto.
E a espada dessa lâmina,
sua chama antes acesa,
e o relógio nervoso
e a tal bala indigesta,
tudo segue o processo
de lâmina que cega:
faz-se faca, relógio
ou bala de madeira,
bala de couro ou pano,
ou relógio de breu,
faz-se faca sem vértebras,
faca de argila ou mel.
(Porém quando a maré
já nem se espera mais,
eis que a faca ressurge
com todos seus cristais.)
E
Forçoso é conservar
a faca bem oculta
pois na umidade pouco
seu relâmpago dura
(na umidade que criam
salivas de conversas,
tanto mais pegajosas
quanto mais confidências).
Forçoso é esse cuidado
mesmo se não é faca
a brasa que te habita
e sim relógio ou bala.
Não suportam também
todas as atmosferas:
sua carne selvagem
quer câmaras severas.
Mas se deves sacá-los
para melhor sofrê-los,
que seja algum páramo
ou agreste de ar aberto.
Mas nunca seja ao ar
que pássaros habitem.
Deve ser a um ar duro,
sem sombra e sem vertigem.
E nunca seja à noite,
que estas têm as mãos férteis,
Aos ácidos do sol
seja, ao sol do Nordeste,
à febre desse sol
que faz de arame as ervas,
que faz de esponja o vento
e faz de sede a terra.
F
Quer seja aquela bala
ou outra qualquer imagem,
seja esmo um relógio
a ferida que guarde,
ou ainda uma faca
que só tivesse lâmina,
de todas as imagens
a mais voraz e gráfica,
ninguém do próprio corpo
poderá retirá-la,
não importa se é bala
nem se é relógio ou faca,
nem importa qual seja
a raça dessa lâmina:
faca mansa de mesa,
feroz pernambucana.
E se não a retira
quem sofre sua rapina,
menos pode arrancá-la
nenhuma mão vizinha.
Não pode contra ela
a inteira medicina
de facas numerais
e aritméticas pinças.
Nem ainda a polícia
com seus cirurgiões
e até nem mesmo o tempo
como os seus algodões.
E nem a mão de quem
sem o saber plantou
bala, relógio ou faca,
imagens de furor.
G
Essa bala que um homem
leva às vezes na carne
faz menos rarefeito
todo aquele que a guarde
O que um relógio implica
por indócil e inseto,
encerrado no corpo
faz este mais desperto.
E se é faca a metáfora
do que leva no músculo,
facas dentro de um homem
dão-lhe maior impulso.
O fio de uma faca
mordendo o corpo humano,
de outro corpo ou punhal
tal corpo vai armando,
pois lhe mantendo vivas
todas as molas da alma
dá-lhes ímpeto de lâmina
e cio de arma branca,
além de ter o corpo
que a guarda crispado,
insolúvel no sono
e em tudo quanto é vago,
como naquela história
por alguém referida
de um homem que se fez
memória tão ativa
que pôde conservar
treze anos na palma
o peso de uma mão,
feminina, apertada.
H
Quando aquele que os sofre
trabalha com palavras,
são úteis o relógio,
a bala e, mais, a faca.
Os homens que em geral
lidam nessa oficina
têm no almoxarifado
só palavras extintas:
umas que se asfixiam
por debaixo do pó
outras despercebidas
em meio a grandes nós;
palavras que perderam
no uso todo o metal
e a areia que detém
a atenção que lê mal.
Pois somente essa fraca
dará a tal operário
olhos mais frescos para
o seu vocabulário
e somente essa faca
e o exemplo de seu dente
lhe ensinará a obter
de um material doente
o que em todas as facas é
Assim como uma bala
enterrada no corpo,
fazendo mais espesso
um dos lados do morto;
assim como uma bala
do chumbo mais pesado,
no músculo de um homem
pesando-o mais de um lado;
qual bala que tivesse
um vivo mecanismo,
bala que possuísse
um coração ativo
igual ao de um relógio
submerso em algum corpo,
ao de um relógio vivo
e também revoltoso,
relógio que tivesse
o gume de uma faca
e toda a impiedade
de lâmina azulada;
assim como uma faca
que sem bolso ou bainha
se transformasse em parte
de vossa anatomia;
qual uma faca íntima
ou faca de uso interno,
habitando num corpo
como o próprio esqueleto
de um homem que o tivesse,
e sempre, doloroso
de homem que se ferisse
contra seus próprios ossos.
A
Seja bala, relógio,
ou a lâmina colérica,
é contudo uma ausência
o que esse homem leva.
Mas o que não está
nele está como bala:
tem o ferro do chumbo,
mesma fibra compacta.
Isso que não está
nele é como um relógio
pulsando em sua gaiola,
sem fadiga, sem ócios.
Isso que não está
nele está como a ciosa
presença de uma faca,
de qualquer faca nova.
Por isso é que o melhor
dos símbolos usados
é a lâmina cruel
(melhor se de Pasmado):
porque nenhum indica
essa ausência tão ávida
como a imagem da faca
que só tivesse lâmina,
nenhum melhor indica
aquela ausência sôfrega
que a imagem de uma faca
reduzido à sua boca;
que a imagem de uma faca
entregue inteiramente
à fome pelas coisas
que nas facas se sente.
B
Das mais surpreendentes
é a vida de tal faca:
faca, ou qualquer metáfora,
pode ser cultivada.
E mais surpreendente
ainda é a sua cultura:
medra não do que come
porém do que jejua.
Podes abandoná-la
essa faca intestina:
jamais a encontrarás
com a boca vazia.
Do nada ela destila
a azia e o vinagre
e mais estratagemas
privativos dos sabres.
E como faca que é,
fervorosa e energética,
sem ajuda dispara
sua máquina perversa:
a lâmina despida
que cresce ao se gastar,
que menos dorme
quanto menos sono há,
cujo muito cortar
lhe aumenta mais o corte
e se vive a se parir
em outras, como fonte.
(Que a vida dessa fac
se mede pelo avesso:
seja relógio ou bala,
ou seja faca mesmo.)
C
Cuidado com o objeto,
com o objeto cuidado,
mesmo sendo uma bala
desse chumbo ferrado,
porque seus dentes já
a bala os traz rombudos
e com facilidade
se em botam mais no músculo.
Mais cuidado porém
quando for um relógio
com o seu coração
aceso e espasmódico.
É preciso cuidado
por que não se acompasse
o pulso do relógio
com o pulso do sangue,
e seu cobre tão nítido
não confunda a passada
com o sangue que bate
já sem morder mais nada.
Então se for faca,
maior seja o cuidado:
a bainha do corpo
pode absorver o aço.
Também seu corte às vezes
tende a tornar-se rouco
e há casos em que ferros
degeneram em couro.
O importante é que a faca
o seu ardor não perca
e tampouco a corrompa
o cabo de madeira.
D
Pois essa faca às vezes
por si mesma se apaga.
É a isso que se chama
maré baixa da faca.
Talvez que não se apague
e somente adormeça.
Se a imagem é relógio,
a sua abelha cessa.
Mas quer durma ou se apague:
ao calar tl motor,
a alma inteira se torna
de um alcalino teor
bem semelhante à neutra
substância, quase feltro,
que é a das almas que não
têm facas-esqueleto.
E a espada dessa lâmina,
sua chama antes acesa,
e o relógio nervoso
e a tal bala indigesta,
tudo segue o processo
de lâmina que cega:
faz-se faca, relógio
ou bala de madeira,
bala de couro ou pano,
ou relógio de breu,
faz-se faca sem vértebras,
faca de argila ou mel.
(Porém quando a maré
já nem se espera mais,
eis que a faca ressurge
com todos seus cristais.)
E
Forçoso é conservar
a faca bem oculta
pois na umidade pouco
seu relâmpago dura
(na umidade que criam
salivas de conversas,
tanto mais pegajosas
quanto mais confidências).
Forçoso é esse cuidado
mesmo se não é faca
a brasa que te habita
e sim relógio ou bala.
Não suportam também
todas as atmosferas:
sua carne selvagem
quer câmaras severas.
Mas se deves sacá-los
para melhor sofrê-los,
que seja algum páramo
ou agreste de ar aberto.
Mas nunca seja ao ar
que pássaros habitem.
Deve ser a um ar duro,
sem sombra e sem vertigem.
E nunca seja à noite,
que estas têm as mãos férteis,
Aos ácidos do sol
seja, ao sol do Nordeste,
à febre desse sol
que faz de arame as ervas,
que faz de esponja o vento
e faz de sede a terra.
F
Quer seja aquela bala
ou outra qualquer imagem,
seja esmo um relógio
a ferida que guarde,
ou ainda uma faca
que só tivesse lâmina,
de todas as imagens
a mais voraz e gráfica,
ninguém do próprio corpo
poderá retirá-la,
não importa se é bala
nem se é relógio ou faca,
nem importa qual seja
a raça dessa lâmina:
faca mansa de mesa,
feroz pernambucana.
E se não a retira
quem sofre sua rapina,
menos pode arrancá-la
nenhuma mão vizinha.
Não pode contra ela
a inteira medicina
de facas numerais
e aritméticas pinças.
Nem ainda a polícia
com seus cirurgiões
e até nem mesmo o tempo
como os seus algodões.
E nem a mão de quem
sem o saber plantou
bala, relógio ou faca,
imagens de furor.
G
Essa bala que um homem
leva às vezes na carne
faz menos rarefeito
todo aquele que a guarde
O que um relógio implica
por indócil e inseto,
encerrado no corpo
faz este mais desperto.
E se é faca a metáfora
do que leva no músculo,
facas dentro de um homem
dão-lhe maior impulso.
O fio de uma faca
mordendo o corpo humano,
de outro corpo ou punhal
tal corpo vai armando,
pois lhe mantendo vivas
todas as molas da alma
dá-lhes ímpeto de lâmina
e cio de arma branca,
além de ter o corpo
que a guarda crispado,
insolúvel no sono
e em tudo quanto é vago,
como naquela história
por alguém referida
de um homem que se fez
memória tão ativa
que pôde conservar
treze anos na palma
o peso de uma mão,
feminina, apertada.
H
Quando aquele que os sofre
trabalha com palavras,
são úteis o relógio,
a bala e, mais, a faca.
Os homens que em geral
lidam nessa oficina
têm no almoxarifado
só palavras extintas:
umas que se asfixiam
por debaixo do pó
outras despercebidas
em meio a grandes nós;
palavras que perderam
no uso todo o metal
e a areia que detém
a atenção que lê mal.
Pois somente essa fraca
dará a tal operário
olhos mais frescos para
o seu vocabulário
e somente essa faca
e o exemplo de seu dente
lhe ensinará a obter
de um material doente
o que em todas as facas é
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1
João Cabral de Melo Neto
Serventia das idéias fixas
Para Vinícius de Morais
Assim como uma bala
enterrada no corpo,
fazendo mais espesso
um dos lados do morto;
assim como uma bala
do chumbo mais pesado,
no músculo de um homem
pesando-o mais de um lado;
qual bala que tivesse
um vivo mecanismo,
bala que possuísse
um coração ativo
igual ao de um relógio
submerso em algum corpo,
ao de um relógio vivo
e também revoltoso,
relógio que tivesse
o gume de uma faca
e toda a impiedade
de lâmina azulada;
assim como uma faca
que sem bolso ou bainha
se transformasse em parte
de vossa anatomia;
qual uma faca íntima
ou faca de uso interno,
habitando num corpo
como o próprio esqueleto
de um homem que o tivesse,
e sempre, doloroso
de homem que se ferisse
contra seus próprios ossos.
A
Seja bala, relógio,
ou a lâmina colérica,
é contudo uma ausência
o que esse homem leva.
Mas o que não está
nele está como bala:
tem o ferro do chumbo,
mesma fibra compacta.
Isso que não está
nele é como um relógio
pulsando em sua gaiola,
sem fadiga, sem ócios.
Isso que não está
nele está como a ciosa
presença de uma faca,
de qualquer faca nova.
Por isso é que o melhor
dos símbolos usados
é a lâmina cruel
(melhor se de Pasmado):
porque nenhum indica
essa ausência tão ávida
como a imagem da faca
que só tivesse lâmina,
nenhum melhor indica
aquela ausência sôfrega
que a imagem de uma faca
reduzido à sua boca;
que a imagem de uma faca
entregue inteiramente
à fome pelas coisas
que nas facas se sente.
B
Das mais surpreendentes
é a vida de tal faca:
faca, ou qualquer metáfora,
pode ser cultivada.
E mais surpreendente
ainda é a sua cultura:
medra não do que come
porém do que jejua.
Podes abandoná-la
essa faca intestina:
jamais a encontrarás
com a boca vazia.
Do nada ela destila
a azia e o vinagre
e mais estratagemas
privativos dos sabres.
E como faca que é,
fervorosa e energética,
sem ajuda dispara
sua máquina perversa:
a lâmina despida
que cresce ao se gastar,
que menos dorme
quanto menos sono há,
cujo muito cortar
lhe aumenta mais o corte
e se vive a se parir
em outras, como fonte.
(Que a vida dessa fac
se mede pelo avesso:
seja relógio ou bala,
ou seja faca mesmo.)
C
Cuidado com o objeto,
com o objeto cuidado,
mesmo sendo uma bala
desse chumbo ferrado,
porque seus dentes já
a bala os traz rombudos
e com facilidade
se em botam mais no músculo.
Mais cuidado porém
quando for um relógio
com o seu coração
aceso e espasmódico.
É preciso cuidado
por que não se acompasse
o pulso do relógio
com o pulso do sangue,
e seu cobre tão nítido
não confunda a passada
com o sangue que bate
já sem morder mais nada.
Então se for faca,
maior seja o cuidado:
a bainha do corpo
pode absorver o aço.
Também seu corte às vezes
tende a tornar-se rouco
e há casos em que ferros
degeneram em couro.
O importante é que a faca
o seu ardor não perca
e tampouco a corrompa
o cabo de madeira.
D
Pois essa faca às vezes
por si mesma se apaga.
É a isso que se chama
maré baixa da faca.
Talvez que não se apague
e somente adormeça.
Se a imagem é relógio,
a sua abelha cessa.
Mas quer durma ou se apague:
ao calar tl motor,
a alma inteira se torna
de um alcalino teor
bem semelhante à neutra
substância, quase feltro,
que é a das almas que não
têm facas-esqueleto.
E a espada dessa lâmina,
sua chama antes acesa,
e o relógio nervoso
e a tal bala indigesta,
tudo segue o processo
de lâmina que cega:
faz-se faca, relógio
ou bala de madeira,
bala de couro ou pano,
ou relógio de breu,
faz-se faca sem vértebras,
faca de argila ou mel.
(Porém quando a maré
já nem se espera mais,
eis que a faca ressurge
com todos seus cristais.)
E
Forçoso é conservar
a faca bem oculta
pois na umidade pouco
seu relâmpago dura
(na umidade que criam
salivas de conversas,
tanto mais pegajosas
quanto mais confidências).
Forçoso é esse cuidado
mesmo se não é faca
a brasa que te habita
e sim relógio ou bala.
Não suportam também
todas as atmosferas:
sua carne selvagem
quer câmaras severas.
Mas se deves sacá-los
para melhor sofrê-los,
que seja algum páramo
ou agreste de ar aberto.
Mas nunca seja ao ar
que pássaros habitem.
Deve ser a um ar duro,
sem sombra e sem vertigem.
E nunca seja à noite,
que estas têm as mãos férteis,
Aos ácidos do sol
seja, ao sol do Nordeste,
à febre desse sol
que faz de arame as ervas,
que faz de esponja o vento
e faz de sede a terra.
F
Quer seja aquela bala
ou outra qualquer imagem,
seja esmo um relógio
a ferida que guarde,
ou ainda uma faca
que só tivesse lâmina,
de todas as imagens
a mais voraz e gráfica,
ninguém do próprio corpo
poderá retirá-la,
não importa se é bala
nem se é relógio ou faca,
nem importa qual seja
a raça dessa lâmina:
faca mansa de mesa,
feroz pernambucana.
E se não a retira
quem sofre sua rapina,
menos pode arrancá-la
nenhuma mão vizinha.
Não pode contra ela
a inteira medicina
de facas numerais
e aritméticas pinças.
Nem ainda a polícia
com seus cirurgiões
e até nem mesmo o tempo
como os seus algodões.
E nem a mão de quem
sem o saber plantou
bala, relógio ou faca,
imagens de furor.
G
Essa bala que um homem
leva às vezes na carne
faz menos rarefeito
todo aquele que a guarde
O que um relógio implica
por indócil e inseto,
encerrado no corpo
faz este mais desperto.
E se é faca a metáfora
do que leva no músculo,
facas dentro de um homem
dão-lhe maior impulso.
O fio de uma faca
mordendo o corpo humano,
de outro corpo ou punhal
tal corpo vai armando,
pois lhe mantendo vivas
todas as molas da alma
dá-lhes ímpeto de lâmina
e cio de arma branca,
além de ter o corpo
que a guarda crispado,
insolúvel no sono
e em tudo quanto é vago,
como naquela história
por alguém referida
de um homem que se fez
memória tão ativa
que pôde conservar
treze anos na palma
o peso de uma mão,
feminina, apertada.
H
Quando aquele que os sofre
trabalha com palavras,
são úteis o relógio,
a bala e, mais, a faca.
Os homens que em geral
lidam nessa oficina
têm no almoxarifado
só palavras extintas:
umas que se asfixiam
por debaixo do pó
outras despercebidas
em meio a grandes nós;
palavras que perderam
no uso todo o metal
e a areia que detém
a atenção que lê mal.
Pois somente essa fraca
dará a tal operário
olhos mais frescos para
o seu vocabulário
e somente essa faca
e o exemplo de seu dente
lhe ensinará a obter
de um material doente
o que em todas as facas é
Assim como uma bala
enterrada no corpo,
fazendo mais espesso
um dos lados do morto;
assim como uma bala
do chumbo mais pesado,
no músculo de um homem
pesando-o mais de um lado;
qual bala que tivesse
um vivo mecanismo,
bala que possuísse
um coração ativo
igual ao de um relógio
submerso em algum corpo,
ao de um relógio vivo
e também revoltoso,
relógio que tivesse
o gume de uma faca
e toda a impiedade
de lâmina azulada;
assim como uma faca
que sem bolso ou bainha
se transformasse em parte
de vossa anatomia;
qual uma faca íntima
ou faca de uso interno,
habitando num corpo
como o próprio esqueleto
de um homem que o tivesse,
e sempre, doloroso
de homem que se ferisse
contra seus próprios ossos.
A
Seja bala, relógio,
ou a lâmina colérica,
é contudo uma ausência
o que esse homem leva.
Mas o que não está
nele está como bala:
tem o ferro do chumbo,
mesma fibra compacta.
Isso que não está
nele é como um relógio
pulsando em sua gaiola,
sem fadiga, sem ócios.
Isso que não está
nele está como a ciosa
presença de uma faca,
de qualquer faca nova.
Por isso é que o melhor
dos símbolos usados
é a lâmina cruel
(melhor se de Pasmado):
porque nenhum indica
essa ausência tão ávida
como a imagem da faca
que só tivesse lâmina,
nenhum melhor indica
aquela ausência sôfrega
que a imagem de uma faca
reduzido à sua boca;
que a imagem de uma faca
entregue inteiramente
à fome pelas coisas
que nas facas se sente.
B
Das mais surpreendentes
é a vida de tal faca:
faca, ou qualquer metáfora,
pode ser cultivada.
E mais surpreendente
ainda é a sua cultura:
medra não do que come
porém do que jejua.
Podes abandoná-la
essa faca intestina:
jamais a encontrarás
com a boca vazia.
Do nada ela destila
a azia e o vinagre
e mais estratagemas
privativos dos sabres.
E como faca que é,
fervorosa e energética,
sem ajuda dispara
sua máquina perversa:
a lâmina despida
que cresce ao se gastar,
que menos dorme
quanto menos sono há,
cujo muito cortar
lhe aumenta mais o corte
e se vive a se parir
em outras, como fonte.
(Que a vida dessa fac
se mede pelo avesso:
seja relógio ou bala,
ou seja faca mesmo.)
C
Cuidado com o objeto,
com o objeto cuidado,
mesmo sendo uma bala
desse chumbo ferrado,
porque seus dentes já
a bala os traz rombudos
e com facilidade
se em botam mais no músculo.
Mais cuidado porém
quando for um relógio
com o seu coração
aceso e espasmódico.
É preciso cuidado
por que não se acompasse
o pulso do relógio
com o pulso do sangue,
e seu cobre tão nítido
não confunda a passada
com o sangue que bate
já sem morder mais nada.
Então se for faca,
maior seja o cuidado:
a bainha do corpo
pode absorver o aço.
Também seu corte às vezes
tende a tornar-se rouco
e há casos em que ferros
degeneram em couro.
O importante é que a faca
o seu ardor não perca
e tampouco a corrompa
o cabo de madeira.
D
Pois essa faca às vezes
por si mesma se apaga.
É a isso que se chama
maré baixa da faca.
Talvez que não se apague
e somente adormeça.
Se a imagem é relógio,
a sua abelha cessa.
Mas quer durma ou se apague:
ao calar tl motor,
a alma inteira se torna
de um alcalino teor
bem semelhante à neutra
substância, quase feltro,
que é a das almas que não
têm facas-esqueleto.
E a espada dessa lâmina,
sua chama antes acesa,
e o relógio nervoso
e a tal bala indigesta,
tudo segue o processo
de lâmina que cega:
faz-se faca, relógio
ou bala de madeira,
bala de couro ou pano,
ou relógio de breu,
faz-se faca sem vértebras,
faca de argila ou mel.
(Porém quando a maré
já nem se espera mais,
eis que a faca ressurge
com todos seus cristais.)
E
Forçoso é conservar
a faca bem oculta
pois na umidade pouco
seu relâmpago dura
(na umidade que criam
salivas de conversas,
tanto mais pegajosas
quanto mais confidências).
Forçoso é esse cuidado
mesmo se não é faca
a brasa que te habita
e sim relógio ou bala.
Não suportam também
todas as atmosferas:
sua carne selvagem
quer câmaras severas.
Mas se deves sacá-los
para melhor sofrê-los,
que seja algum páramo
ou agreste de ar aberto.
Mas nunca seja ao ar
que pássaros habitem.
Deve ser a um ar duro,
sem sombra e sem vertigem.
E nunca seja à noite,
que estas têm as mãos férteis,
Aos ácidos do sol
seja, ao sol do Nordeste,
à febre desse sol
que faz de arame as ervas,
que faz de esponja o vento
e faz de sede a terra.
F
Quer seja aquela bala
ou outra qualquer imagem,
seja esmo um relógio
a ferida que guarde,
ou ainda uma faca
que só tivesse lâmina,
de todas as imagens
a mais voraz e gráfica,
ninguém do próprio corpo
poderá retirá-la,
não importa se é bala
nem se é relógio ou faca,
nem importa qual seja
a raça dessa lâmina:
faca mansa de mesa,
feroz pernambucana.
E se não a retira
quem sofre sua rapina,
menos pode arrancá-la
nenhuma mão vizinha.
Não pode contra ela
a inteira medicina
de facas numerais
e aritméticas pinças.
Nem ainda a polícia
com seus cirurgiões
e até nem mesmo o tempo
como os seus algodões.
E nem a mão de quem
sem o saber plantou
bala, relógio ou faca,
imagens de furor.
G
Essa bala que um homem
leva às vezes na carne
faz menos rarefeito
todo aquele que a guarde
O que um relógio implica
por indócil e inseto,
encerrado no corpo
faz este mais desperto.
E se é faca a metáfora
do que leva no músculo,
facas dentro de um homem
dão-lhe maior impulso.
O fio de uma faca
mordendo o corpo humano,
de outro corpo ou punhal
tal corpo vai armando,
pois lhe mantendo vivas
todas as molas da alma
dá-lhes ímpeto de lâmina
e cio de arma branca,
além de ter o corpo
que a guarda crispado,
insolúvel no sono
e em tudo quanto é vago,
como naquela história
por alguém referida
de um homem que se fez
memória tão ativa
que pôde conservar
treze anos na palma
o peso de uma mão,
feminina, apertada.
H
Quando aquele que os sofre
trabalha com palavras,
são úteis o relógio,
a bala e, mais, a faca.
Os homens que em geral
lidam nessa oficina
têm no almoxarifado
só palavras extintas:
umas que se asfixiam
por debaixo do pó
outras despercebidas
em meio a grandes nós;
palavras que perderam
no uso todo o metal
e a areia que detém
a atenção que lê mal.
Pois somente essa fraca
dará a tal operário
olhos mais frescos para
o seu vocabulário
e somente essa faca
e o exemplo de seu dente
lhe ensinará a obter
de um material doente
o que em todas as facas é
3 313
1
Reinaldo Ferreira
A emoção é como um pássaro
A emoção é como um pássaro:
Quando se prende já não canta.
Mas se a gente a liberta,
Qualquer janela aberta
Lhe serve para fugir.
O poeta é aquele que numa praça
S. Marcos de Veneza transcendente,
E de todas as praças, praça ainda,
Aguarda na manhã que se insinua
Ou na tarde que finda
O voo que há-de vir.
Ele estende a mão,
Abre-a espalmada
Ao céu,
Que à anunciação de tudo ou nada
A emoção virá ou não
- Sem emoção, toda a poesia é nada -
Fiel à Anunciação que está marcada
Na sua condição.
Quando se prende já não canta.
Mas se a gente a liberta,
Qualquer janela aberta
Lhe serve para fugir.
O poeta é aquele que numa praça
S. Marcos de Veneza transcendente,
E de todas as praças, praça ainda,
Aguarda na manhã que se insinua
Ou na tarde que finda
O voo que há-de vir.
Ele estende a mão,
Abre-a espalmada
Ao céu,
Que à anunciação de tudo ou nada
A emoção virá ou não
- Sem emoção, toda a poesia é nada -
Fiel à Anunciação que está marcada
Na sua condição.
2 409
1
Reinaldo Ferreira
A emoção é como um pássaro
A emoção é como um pássaro:
Quando se prende já não canta.
Mas se a gente a liberta,
Qualquer janela aberta
Lhe serve para fugir.
O poeta é aquele que numa praça
S. Marcos de Veneza transcendente,
E de todas as praças, praça ainda,
Aguarda na manhã que se insinua
Ou na tarde que finda
O voo que há-de vir.
Ele estende a mão,
Abre-a espalmada
Ao céu,
Que à anunciação de tudo ou nada
A emoção virá ou não
- Sem emoção, toda a poesia é nada -
Fiel à Anunciação que está marcada
Na sua condição.
Quando se prende já não canta.
Mas se a gente a liberta,
Qualquer janela aberta
Lhe serve para fugir.
O poeta é aquele que numa praça
S. Marcos de Veneza transcendente,
E de todas as praças, praça ainda,
Aguarda na manhã que se insinua
Ou na tarde que finda
O voo que há-de vir.
Ele estende a mão,
Abre-a espalmada
Ao céu,
Que à anunciação de tudo ou nada
A emoção virá ou não
- Sem emoção, toda a poesia é nada -
Fiel à Anunciação que está marcada
Na sua condição.
2 409
1
Reinaldo Ferreira
A emoção é como um pássaro
A emoção é como um pássaro:
Quando se prende já não canta.
Mas se a gente a liberta,
Qualquer janela aberta
Lhe serve para fugir.
O poeta é aquele que numa praça
S. Marcos de Veneza transcendente,
E de todas as praças, praça ainda,
Aguarda na manhã que se insinua
Ou na tarde que finda
O voo que há-de vir.
Ele estende a mão,
Abre-a espalmada
Ao céu,
Que à anunciação de tudo ou nada
A emoção virá ou não
- Sem emoção, toda a poesia é nada -
Fiel à Anunciação que está marcada
Na sua condição.
Quando se prende já não canta.
Mas se a gente a liberta,
Qualquer janela aberta
Lhe serve para fugir.
O poeta é aquele que numa praça
S. Marcos de Veneza transcendente,
E de todas as praças, praça ainda,
Aguarda na manhã que se insinua
Ou na tarde que finda
O voo que há-de vir.
Ele estende a mão,
Abre-a espalmada
Ao céu,
Que à anunciação de tudo ou nada
A emoção virá ou não
- Sem emoção, toda a poesia é nada -
Fiel à Anunciação que está marcada
Na sua condição.
2 409
1
Susana Pestana
Huila
África
adormecida
nas pétalas capturadas da vida.
Sonho com o vermelho da terra
Nas cores de um planalto esquecido.
Mãe minha, mostra-me paz
nunca tocada e muita vez prometida.
Afasta essa mão branca
deixa-me dormir
nesta noite violada.
adormecida
nas pétalas capturadas da vida.
Sonho com o vermelho da terra
Nas cores de um planalto esquecido.
Mãe minha, mostra-me paz
nunca tocada e muita vez prometida.
Afasta essa mão branca
deixa-me dormir
nesta noite violada.
974
1
Hilda Hilst
IV
E por que,
também não doloso e penitente?
Dolo pode ser punhal. E astúcia, logro.
E isso sem nome, o despedir-se sempre
Tem muito de sedução, armadilhas, minúcias
Isso sem nome fere e faz feridas.
Penitente e algoz:
Como se só na morte abraçasses a vida.
É
pomposo e pungente. Com ares de santidade
Odores de cortesã, pode ser carmelita
ou Catarina, ser menina ou malsã.
Penitente
e doloso
Pode ser o sumo de um instante.
Pode ser tu-outro pretendido, teu adeus, tua sorte.
Fêmea-rapaz, ISSO sem nome pode ser um todo
Que só se ajusta ao Nunca. Ao Nunca Mais.
também não doloso e penitente?
Dolo pode ser punhal. E astúcia, logro.
E isso sem nome, o despedir-se sempre
Tem muito de sedução, armadilhas, minúcias
Isso sem nome fere e faz feridas.
Penitente e algoz:
Como se só na morte abraçasses a vida.
É
pomposo e pungente. Com ares de santidade
Odores de cortesã, pode ser carmelita
ou Catarina, ser menina ou malsã.
Penitente
e doloso
Pode ser o sumo de um instante.
Pode ser tu-outro pretendido, teu adeus, tua sorte.
Fêmea-rapaz, ISSO sem nome pode ser um todo
Que só se ajusta ao Nunca. Ao Nunca Mais.
1 589
1
Ana Cristina Cesar
Protuberância
Este sorriso
que muitos chamam de boca
É antes um chafariz, uma coisa louca
Sou amativa antes de tudo
Embora o mundo me condene
Devo falar em nariz(as pontas rimam por dentro)
Se nos determos amanhã
Pelo menos não haverá necessidades frugais nos espreitando
Quem me emprestar seu peito ma madrugada
E me consolar, talvez tal vez me ensine um assobio
Não sei se me querem, escondo-me sem impasses
E repitamos a amadora sou
Armadora decerto atrás das portas
Não abro para ninguém, e se a pena é lépida, nada me detém
É sem dúvida inútil o chuvisco de meus olhos
O círculo se abre em circunferências concêntricas que se
Fecham sobre si mesmas
No ano 2001 terei (2001-1952=) 49 anos e serei uma rainha
Rainha de quem, quê, não importa
E se eu morrer antes disso
Não verei a lua mais de perto
Talvez me irrite pisar no impisável
E a morte deve ser muito mais gostosa
Recheada com marchemélou
Uma lâmpada queimada me contempla
Eu dentro do templo chuto o tempo
Um palavra me delineia
VORAZ
E em breve a sombra se dilui,
Se perde o anjo.
que muitos chamam de boca
É antes um chafariz, uma coisa louca
Sou amativa antes de tudo
Embora o mundo me condene
Devo falar em nariz(as pontas rimam por dentro)
Se nos determos amanhã
Pelo menos não haverá necessidades frugais nos espreitando
Quem me emprestar seu peito ma madrugada
E me consolar, talvez tal vez me ensine um assobio
Não sei se me querem, escondo-me sem impasses
E repitamos a amadora sou
Armadora decerto atrás das portas
Não abro para ninguém, e se a pena é lépida, nada me detém
É sem dúvida inútil o chuvisco de meus olhos
O círculo se abre em circunferências concêntricas que se
Fecham sobre si mesmas
No ano 2001 terei (2001-1952=) 49 anos e serei uma rainha
Rainha de quem, quê, não importa
E se eu morrer antes disso
Não verei a lua mais de perto
Talvez me irrite pisar no impisável
E a morte deve ser muito mais gostosa
Recheada com marchemélou
Uma lâmpada queimada me contempla
Eu dentro do templo chuto o tempo
Um palavra me delineia
VORAZ
E em breve a sombra se dilui,
Se perde o anjo.
2 927
1
Reinaldo Ferreira
Café de cais
Café de cais,
Onde se juntam,
Anónimos de iguais,
Os ratos dos porões,
Babel de todos os calões,
Rio de fumo e de incontido cio,
Sexuado rio
Que busca, único mar,
Mulheres de pernoitar,
Unge-te a nojo, não Anfritite,
Fina ficção marinha,
Mas nauseabundo
E tutelar,
O vulto familiar
Da Virgem Vício
Nossa Senhora do Baixo Mundo.
Onde se juntam,
Anónimos de iguais,
Os ratos dos porões,
Babel de todos os calões,
Rio de fumo e de incontido cio,
Sexuado rio
Que busca, único mar,
Mulheres de pernoitar,
Unge-te a nojo, não Anfritite,
Fina ficção marinha,
Mas nauseabundo
E tutelar,
O vulto familiar
Da Virgem Vício
Nossa Senhora do Baixo Mundo.
1 514
1
Hilda Hilst
VIII
Aquela
que não te pertence por mais queira
(Porque ser pertencente
É entregar a alma a uma Cara, a de áspide
Escura e clara, negra e transparente), Ai!
Saber-se pertencente é ter mais nada.
É ter tudo também.
É como ter o rio, aquele que deságua
Nas infinitas águas de um sem-fim de ninguéns.
Aquela que não te pertence não tem corpo.
Porque corpo é um conceito suposto de matéria
E finito. E aquela é luz. E etérea.
Pertencente
é não ter rosto. É ser amante
De um Outro que nem nome tem. Não é Deus nem Satã.
Não tem ilharga ou osso. Fende sem ofender.
É vida e ferida ao mesmo tempo, "Esse"
Que bem me sabe inteira pertencida.
que não te pertence por mais queira
(Porque ser pertencente
É entregar a alma a uma Cara, a de áspide
Escura e clara, negra e transparente), Ai!
Saber-se pertencente é ter mais nada.
É ter tudo também.
É como ter o rio, aquele que deságua
Nas infinitas águas de um sem-fim de ninguéns.
Aquela que não te pertence não tem corpo.
Porque corpo é um conceito suposto de matéria
E finito. E aquela é luz. E etérea.
Pertencente
é não ter rosto. É ser amante
De um Outro que nem nome tem. Não é Deus nem Satã.
Não tem ilharga ou osso. Fende sem ofender.
É vida e ferida ao mesmo tempo, "Esse"
Que bem me sabe inteira pertencida.
1 458
1
Silvaney Paes
Enchente
Quisera
Deus Chovesse...
Para não ser solitário riacho
Ser rio turvo
Incauto
Revolto e bravo
Capaz de apenas com um trago
Arrasta-la em meus braços
Buscando o antigo regaço
Quisera Deus Chovesse...
E já sendo o rio turvo
Incauto
Revolto e bravo
Ao contrario do triste riacho
Abrir caminho, espaço.
Para encontrar nesse corpo
O deleite do abraço
Quisera Deus Chovesse...
E sendo rio turvo
Incauto
Revolto e bravo
Ao contrário do tímido Riacho
Fugir contigo nos braços
Para num longínquo destino
Perder-me em teu lácio.
Quisera Deus só chovesse...
Para fingir ser rio turvo
Incauto
Revolto e Bravo.
Até conquistar os teus beijos,
Para num remanso tranqüilo
Deleitando-me no abraço
Ser de novo teu manso Riacho.
Chorarei por ti meninas,
Pássaros presos nas matas.
Lamentarei por mim meninas,
Sou a que mata,
Fria águia.
Chorarei por vós meninas,
Ratos revirando as latas.
Lamentarei por mim meninas,
Sou a Gata,
A que caça nas latas.
Chorarei por vós meninas,
Prostitutas das praças.
Lamentarei por mim meninas,
Sou muitas praças,
Aquela que paga.
Chorei por vós meninas,
Escravas de suas casas.
Lamentarei por mim meninas,
Sou a dona da casa,
Senhora de Escravas.
Chorarei por vós meninas,
Mais só chorarei.
Diante de vós sou Fraca,
Sociedade parca,
Sou vossa Mãe Pátria.
Deus Chovesse...
Para não ser solitário riacho
Ser rio turvo
Incauto
Revolto e bravo
Capaz de apenas com um trago
Arrasta-la em meus braços
Buscando o antigo regaço
Quisera Deus Chovesse...
E já sendo o rio turvo
Incauto
Revolto e bravo
Ao contrario do triste riacho
Abrir caminho, espaço.
Para encontrar nesse corpo
O deleite do abraço
Quisera Deus Chovesse...
E sendo rio turvo
Incauto
Revolto e bravo
Ao contrário do tímido Riacho
Fugir contigo nos braços
Para num longínquo destino
Perder-me em teu lácio.
Quisera Deus só chovesse...
Para fingir ser rio turvo
Incauto
Revolto e Bravo.
Até conquistar os teus beijos,
Para num remanso tranqüilo
Deleitando-me no abraço
Ser de novo teu manso Riacho.
Chorarei por ti meninas,
Pássaros presos nas matas.
Lamentarei por mim meninas,
Sou a que mata,
Fria águia.
Chorarei por vós meninas,
Ratos revirando as latas.
Lamentarei por mim meninas,
Sou a Gata,
A que caça nas latas.
Chorarei por vós meninas,
Prostitutas das praças.
Lamentarei por mim meninas,
Sou muitas praças,
Aquela que paga.
Chorei por vós meninas,
Escravas de suas casas.
Lamentarei por mim meninas,
Sou a dona da casa,
Senhora de Escravas.
Chorarei por vós meninas,
Mais só chorarei.
Diante de vós sou Fraca,
Sociedade parca,
Sou vossa Mãe Pátria.
1 376
1
Silvaney Paes
Letargia
Já que vais partir...
Faças como o vento ao cair da tarde
Anunciando negra noite de tempestade,
Mas leva este meu coração contigo,
Pois ele nunca amou este abrigo
E por ti, levou-me ao engano,
Renegando ser parte de mim ao me trair.
.
Irei prantear mas não morrerei,
Murmurarei como o pinheiral,
Curvar-me-ei, mas levantarei
Depois que passares
E ante teus ruidosos festejos,
Verão outros, neles, teus enganos,
Pois não foste capaz de arrebentar a fibra
Desta minh’alma que embora triste,
Além de ti, resiste e vive.
Mas vendo que partiste por completo,
Haverei de dormir meu sono letárgico,
Amofinado pela minha dor
E parecerá infindo meu negro crepúsculo ,
Onde d’outros olhos, busco ocultar vida
Recobrindo-me sob completa apatia,
Para suportar o meu mais fustigado inverno.
Perderei folha por folha,
Vez que, serão elas fragmentos d’alma,
Mas serão também as mágoas
E recordações lavadas com lágrimas,
Para voltando-se os olhares, n’outro dia,
Na direção desta alma d’antes declarada finda,
Vejam-se espantados com minha nova aurora,
Que clamará por novo amor em outra primavera.
Faças como o vento ao cair da tarde
Anunciando negra noite de tempestade,
Mas leva este meu coração contigo,
Pois ele nunca amou este abrigo
E por ti, levou-me ao engano,
Renegando ser parte de mim ao me trair.
.
Irei prantear mas não morrerei,
Murmurarei como o pinheiral,
Curvar-me-ei, mas levantarei
Depois que passares
E ante teus ruidosos festejos,
Verão outros, neles, teus enganos,
Pois não foste capaz de arrebentar a fibra
Desta minh’alma que embora triste,
Além de ti, resiste e vive.
Mas vendo que partiste por completo,
Haverei de dormir meu sono letárgico,
Amofinado pela minha dor
E parecerá infindo meu negro crepúsculo ,
Onde d’outros olhos, busco ocultar vida
Recobrindo-me sob completa apatia,
Para suportar o meu mais fustigado inverno.
Perderei folha por folha,
Vez que, serão elas fragmentos d’alma,
Mas serão também as mágoas
E recordações lavadas com lágrimas,
Para voltando-se os olhares, n’outro dia,
Na direção desta alma d’antes declarada finda,
Vejam-se espantados com minha nova aurora,
Que clamará por novo amor em outra primavera.
929
1
Silvaney Paes
Amor de Amigo
Amigo,
Parece que algo lhe sobra no peito!
Creio careças de meu abraço
Sei que não devo,
Mais haverei de faze-lo
Amigo
Reparaste se há alguém olhando?
Pois parece que estás chorando!
Vem, esconde-se aqui em meu ombro
Embora acho que também não devo.
Amigo,
Chega! Enxuga esse pranto nos panos.
Não podem vê-lo deitado em meu ombro.
Verão isso com assombro
E acharão que nós somos...
Amigo,
Sei que viestes buscando um colo,
Lamento muito, mais também não posso,
Mais eu porei minha mão em teu ombro
E veja nela o afago e o colo.
Amigo,
Terei que falar bem baixinho.
Pois não posso ouvir o teu pranto
E que ninguém nos ouça pelos cantos,
Mais quero que saibas que te amo
Amigo
Parece que algo lhe sobra no peito!
Creio careças de meu abraço
Sei que não devo,
Mais haverei de faze-lo
Amigo
Reparaste se há alguém olhando?
Pois parece que estás chorando!
Vem, esconde-se aqui em meu ombro
Embora acho que também não devo.
Amigo,
Chega! Enxuga esse pranto nos panos.
Não podem vê-lo deitado em meu ombro.
Verão isso com assombro
E acharão que nós somos...
Amigo,
Sei que viestes buscando um colo,
Lamento muito, mais também não posso,
Mais eu porei minha mão em teu ombro
E veja nela o afago e o colo.
Amigo,
Terei que falar bem baixinho.
Pois não posso ouvir o teu pranto
E que ninguém nos ouça pelos cantos,
Mais quero que saibas que te amo
Amigo
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Silvaney Paes
Segredo
Tenho que lhe contar um segredo,
Vivo algo estranho e novo,
Que de tão grande já não me cabe no peito,
Sobra-me muito e dividir parece o único jeito,
Contudo, psiu... Escute bem baixinho,
Mesmo quando parecer estar aos gritos
Este segredo só contigo eu divido.
- Não vai acreditar...
Acho que estou apaixonado,
E esse meu amor é somente uma criança
No melhor viço de seus anos,
Ainda não vi o seu rosto, nunca a toquei,
Ou provei do seu gosto,
Tudo que tenho é a melodia de uma voz,
Que vez por outra, ouço.
Não fique chocado...
Ela não freqüentou muito o colégio,
Não sabe nada de prosa ou verso
De literatura, de teatro ou de outras artes,
E assim mesmo ela pinta quadros,
Fala de seus sonhos com tanta naturalidade,
E o que espera da vida para ser feliz
É de uma simplicidade que neste mundo não cabe.
- Acredite...
Quando ela me fala,
Sinto em suas palavras tanto verdade
Que acho poder vislumbrar sua alma,
E nisso carrega tanta graça, que toca,
Quando declara querer vestir de meu abraço,
Comer de meus afagos
E saciar sua sede em meus beijos,
Embora, nunca perguntou de minha boca.
- Às vezes fico confuso...
O meu amor tem muitos medos,
Dúvidas, receios,
Mas noutro dia declarou uma certeza:
A de um amor que faz de todo o medo, nada.
E em sua simplicidade me fala tantas coisas,
Que estou desnorteado, perdido,
Enfeitiçado, acho...
- Fiquei espantado...
Sabe o que noutro dia também me falou?
Que essa coisa de idade, de afinidades da carne,
De libido, desejo mesmo como ela falou,
Tudo não passa de uma grande bobagem.
Que ficaria comigo de qualquer jeito
Mesmo que fosse só para fazer afagos,
Beijar o rosto, cercar de cuidados,
Ficar abraçados e colocar nisso tanto afeto
Que nunca mais poderíamos sair de perto.
- Será?...
Eu não como mais direito,
Vivo com um aperto no peito,
Um desejo incontido de está perto,
Cercado de estranhas sensações,
Como a de se está irremediavelmente preso
Mas de não querer de nenhum modo ser liberto,
E por nunca ter vivido algo desse jeito
Acabo tendo que consulta-lo:
"-Será que estou apaixonado?..."
Vivo algo estranho e novo,
Que de tão grande já não me cabe no peito,
Sobra-me muito e dividir parece o único jeito,
Contudo, psiu... Escute bem baixinho,
Mesmo quando parecer estar aos gritos
Este segredo só contigo eu divido.
- Não vai acreditar...
Acho que estou apaixonado,
E esse meu amor é somente uma criança
No melhor viço de seus anos,
Ainda não vi o seu rosto, nunca a toquei,
Ou provei do seu gosto,
Tudo que tenho é a melodia de uma voz,
Que vez por outra, ouço.
Não fique chocado...
Ela não freqüentou muito o colégio,
Não sabe nada de prosa ou verso
De literatura, de teatro ou de outras artes,
E assim mesmo ela pinta quadros,
Fala de seus sonhos com tanta naturalidade,
E o que espera da vida para ser feliz
É de uma simplicidade que neste mundo não cabe.
- Acredite...
Quando ela me fala,
Sinto em suas palavras tanto verdade
Que acho poder vislumbrar sua alma,
E nisso carrega tanta graça, que toca,
Quando declara querer vestir de meu abraço,
Comer de meus afagos
E saciar sua sede em meus beijos,
Embora, nunca perguntou de minha boca.
- Às vezes fico confuso...
O meu amor tem muitos medos,
Dúvidas, receios,
Mas noutro dia declarou uma certeza:
A de um amor que faz de todo o medo, nada.
E em sua simplicidade me fala tantas coisas,
Que estou desnorteado, perdido,
Enfeitiçado, acho...
- Fiquei espantado...
Sabe o que noutro dia também me falou?
Que essa coisa de idade, de afinidades da carne,
De libido, desejo mesmo como ela falou,
Tudo não passa de uma grande bobagem.
Que ficaria comigo de qualquer jeito
Mesmo que fosse só para fazer afagos,
Beijar o rosto, cercar de cuidados,
Ficar abraçados e colocar nisso tanto afeto
Que nunca mais poderíamos sair de perto.
- Será?...
Eu não como mais direito,
Vivo com um aperto no peito,
Um desejo incontido de está perto,
Cercado de estranhas sensações,
Como a de se está irremediavelmente preso
Mas de não querer de nenhum modo ser liberto,
E por nunca ter vivido algo desse jeito
Acabo tendo que consulta-lo:
"-Será que estou apaixonado?..."
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Silvaney Paes
Segredo
Tenho que lhe contar um segredo,
Vivo algo estranho e novo,
Que de tão grande já não me cabe no peito,
Sobra-me muito e dividir parece o único jeito,
Contudo, psiu... Escute bem baixinho,
Mesmo quando parecer estar aos gritos
Este segredo só contigo eu divido.
- Não vai acreditar...
Acho que estou apaixonado,
E esse meu amor é somente uma criança
No melhor viço de seus anos,
Ainda não vi o seu rosto, nunca a toquei,
Ou provei do seu gosto,
Tudo que tenho é a melodia de uma voz,
Que vez por outra, ouço.
Não fique chocado...
Ela não freqüentou muito o colégio,
Não sabe nada de prosa ou verso
De literatura, de teatro ou de outras artes,
E assim mesmo ela pinta quadros,
Fala de seus sonhos com tanta naturalidade,
E o que espera da vida para ser feliz
É de uma simplicidade que neste mundo não cabe.
- Acredite...
Quando ela me fala,
Sinto em suas palavras tanto verdade
Que acho poder vislumbrar sua alma,
E nisso carrega tanta graça, que toca,
Quando declara querer vestir de meu abraço,
Comer de meus afagos
E saciar sua sede em meus beijos,
Embora, nunca perguntou de minha boca.
- Às vezes fico confuso...
O meu amor tem muitos medos,
Dúvidas, receios,
Mas noutro dia declarou uma certeza:
A de um amor que faz de todo o medo, nada.
E em sua simplicidade me fala tantas coisas,
Que estou desnorteado, perdido,
Enfeitiçado, acho...
- Fiquei espantado...
Sabe o que noutro dia também me falou?
Que essa coisa de idade, de afinidades da carne,
De libido, desejo mesmo como ela falou,
Tudo não passa de uma grande bobagem.
Que ficaria comigo de qualquer jeito
Mesmo que fosse só para fazer afagos,
Beijar o rosto, cercar de cuidados,
Ficar abraçados e colocar nisso tanto afeto
Que nunca mais poderíamos sair de perto.
- Será?...
Eu não como mais direito,
Vivo com um aperto no peito,
Um desejo incontido de está perto,
Cercado de estranhas sensações,
Como a de se está irremediavelmente preso
Mas de não querer de nenhum modo ser liberto,
E por nunca ter vivido algo desse jeito
Acabo tendo que consulta-lo:
"-Será que estou apaixonado?..."
Vivo algo estranho e novo,
Que de tão grande já não me cabe no peito,
Sobra-me muito e dividir parece o único jeito,
Contudo, psiu... Escute bem baixinho,
Mesmo quando parecer estar aos gritos
Este segredo só contigo eu divido.
- Não vai acreditar...
Acho que estou apaixonado,
E esse meu amor é somente uma criança
No melhor viço de seus anos,
Ainda não vi o seu rosto, nunca a toquei,
Ou provei do seu gosto,
Tudo que tenho é a melodia de uma voz,
Que vez por outra, ouço.
Não fique chocado...
Ela não freqüentou muito o colégio,
Não sabe nada de prosa ou verso
De literatura, de teatro ou de outras artes,
E assim mesmo ela pinta quadros,
Fala de seus sonhos com tanta naturalidade,
E o que espera da vida para ser feliz
É de uma simplicidade que neste mundo não cabe.
- Acredite...
Quando ela me fala,
Sinto em suas palavras tanto verdade
Que acho poder vislumbrar sua alma,
E nisso carrega tanta graça, que toca,
Quando declara querer vestir de meu abraço,
Comer de meus afagos
E saciar sua sede em meus beijos,
Embora, nunca perguntou de minha boca.
- Às vezes fico confuso...
O meu amor tem muitos medos,
Dúvidas, receios,
Mas noutro dia declarou uma certeza:
A de um amor que faz de todo o medo, nada.
E em sua simplicidade me fala tantas coisas,
Que estou desnorteado, perdido,
Enfeitiçado, acho...
- Fiquei espantado...
Sabe o que noutro dia também me falou?
Que essa coisa de idade, de afinidades da carne,
De libido, desejo mesmo como ela falou,
Tudo não passa de uma grande bobagem.
Que ficaria comigo de qualquer jeito
Mesmo que fosse só para fazer afagos,
Beijar o rosto, cercar de cuidados,
Ficar abraçados e colocar nisso tanto afeto
Que nunca mais poderíamos sair de perto.
- Será?...
Eu não como mais direito,
Vivo com um aperto no peito,
Um desejo incontido de está perto,
Cercado de estranhas sensações,
Como a de se está irremediavelmente preso
Mas de não querer de nenhum modo ser liberto,
E por nunca ter vivido algo desse jeito
Acabo tendo que consulta-lo:
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