Poemas neste tema
Outros
Nelson Motta
barato zen
louco de fumo diante da tv
contemplo a tela iluminada e penso
na ânsia de criar, de ir adiante
que tantome consome e angustia
e sinto que a vida não se faz
somente pela ação e movimento
enquantome abrigo em meu silêncio
e deixo que a tv me hipnotize
nesse momento tonto e inativo
nada é urgente, nada é necessário
além de aceitar serenamente
a hora de não ser
e de ser nada.
não tendo mais
tempo nem saco
para tanto papo
o príncipe de saudades
do tempo em que era sapo.
contemplo a tela iluminada e penso
na ânsia de criar, de ir adiante
que tantome consome e angustia
e sinto que a vida não se faz
somente pela ação e movimento
enquantome abrigo em meu silêncio
e deixo que a tv me hipnotize
nesse momento tonto e inativo
nada é urgente, nada é necessário
além de aceitar serenamente
a hora de não ser
e de ser nada.
não tendo mais
tempo nem saco
para tanto papo
o príncipe de saudades
do tempo em que era sapo.
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1
Tobias Pinheiro
Inconformismo
Fui cair nos teus braços, Poesia,
apenas como um anjo inconformado,
que anda no ócio do sonho noite e dia,
para a doce tortura do pecado.
Quem me viu pelos campos não diria
que o destino da criança foi traçado
e eu plasmaria a dor e a fantasia,
sendo por elas próprias torturado.
Não pensei nestas ânsias de infinito
e hoje, crente de que ninguém me escuta,
ignoro as causas por que vivo aflito.
Sou descrente de tudo a que me apego,
menos de fé, que me impulsiona à luta,
embora eu seja vacilante e cego.
apenas como um anjo inconformado,
que anda no ócio do sonho noite e dia,
para a doce tortura do pecado.
Quem me viu pelos campos não diria
que o destino da criança foi traçado
e eu plasmaria a dor e a fantasia,
sendo por elas próprias torturado.
Não pensei nestas ânsias de infinito
e hoje, crente de que ninguém me escuta,
ignoro as causas por que vivo aflito.
Sou descrente de tudo a que me apego,
menos de fé, que me impulsiona à luta,
embora eu seja vacilante e cego.
1 043
1
Tobias Pinheiro
Inconformismo
Fui cair nos teus braços, Poesia,
apenas como um anjo inconformado,
que anda no ócio do sonho noite e dia,
para a doce tortura do pecado.
Quem me viu pelos campos não diria
que o destino da criança foi traçado
e eu plasmaria a dor e a fantasia,
sendo por elas próprias torturado.
Não pensei nestas ânsias de infinito
e hoje, crente de que ninguém me escuta,
ignoro as causas por que vivo aflito.
Sou descrente de tudo a que me apego,
menos de fé, que me impulsiona à luta,
embora eu seja vacilante e cego.
apenas como um anjo inconformado,
que anda no ócio do sonho noite e dia,
para a doce tortura do pecado.
Quem me viu pelos campos não diria
que o destino da criança foi traçado
e eu plasmaria a dor e a fantasia,
sendo por elas próprias torturado.
Não pensei nestas ânsias de infinito
e hoje, crente de que ninguém me escuta,
ignoro as causas por que vivo aflito.
Sou descrente de tudo a que me apego,
menos de fé, que me impulsiona à luta,
embora eu seja vacilante e cego.
1 043
1
Tobias Pinheiro
Inconformismo
Fui cair nos teus braços, Poesia,
apenas como um anjo inconformado,
que anda no ócio do sonho noite e dia,
para a doce tortura do pecado.
Quem me viu pelos campos não diria
que o destino da criança foi traçado
e eu plasmaria a dor e a fantasia,
sendo por elas próprias torturado.
Não pensei nestas ânsias de infinito
e hoje, crente de que ninguém me escuta,
ignoro as causas por que vivo aflito.
Sou descrente de tudo a que me apego,
menos de fé, que me impulsiona à luta,
embora eu seja vacilante e cego.
apenas como um anjo inconformado,
que anda no ócio do sonho noite e dia,
para a doce tortura do pecado.
Quem me viu pelos campos não diria
que o destino da criança foi traçado
e eu plasmaria a dor e a fantasia,
sendo por elas próprias torturado.
Não pensei nestas ânsias de infinito
e hoje, crente de que ninguém me escuta,
ignoro as causas por que vivo aflito.
Sou descrente de tudo a que me apego,
menos de fé, que me impulsiona à luta,
embora eu seja vacilante e cego.
1 043
1
Reinaldo Ferreira
Pietá
Já lívido repousa em seu regaço.
Já não escuta, não vê, não ri, não fala.
Aquele que foi Seu filho, Ela o embala
Morto, alheia a tempo e espaço.
O mistério parou no limiar dos assombros.
Dos irados profetas, das rígidas escrituras
Sobra um Deus morto; e os únicos escombros
São a atónita aflição das criaturas.
Eles choram, vários, como vários são
Sua revolta e sua dor. Absorto,
O olhar da Mãe escorre, inútil, no chão.
Ela, o que chora? O Deus parado - ou o filho morto?
Já não escuta, não vê, não ri, não fala.
Aquele que foi Seu filho, Ela o embala
Morto, alheia a tempo e espaço.
O mistério parou no limiar dos assombros.
Dos irados profetas, das rígidas escrituras
Sobra um Deus morto; e os únicos escombros
São a atónita aflição das criaturas.
Eles choram, vários, como vários são
Sua revolta e sua dor. Absorto,
O olhar da Mãe escorre, inútil, no chão.
Ela, o que chora? O Deus parado - ou o filho morto?
3 233
1
Rogaciano Leite Filho
Relógio
No tic-tac do tempo
o mundo passa.
Presa entre cordas
e correntes,
a mente se cala.
E a vida passa.
Sofrendo e morrendo
entre canhões e balas
o sangue se coalha.
E o tempo vai.
Correndo com fome
entre muros altos e duros
o homem se perde.
Mas, a vida passa.
o mundo passa.
Presa entre cordas
e correntes,
a mente se cala.
E a vida passa.
Sofrendo e morrendo
entre canhões e balas
o sangue se coalha.
E o tempo vai.
Correndo com fome
entre muros altos e duros
o homem se perde.
Mas, a vida passa.
1 219
1
R. Petit
Deixem!
Deixem que eu viva ao léu como um rochedo
Sobre a praia sem fim: ermo, esquecido,
Frio, imóvel, tristonho, adormecido,
Como se fosse a imagem de um segredo.
Deixem que viva assim como o arvoredo
Da margem de uma estrada, aos céus erguido,
Que o viandante ao passar, fere, sem medo,
Rouba um galho! e se afasta distraído.
Que eu seja a sombra humilde dos ascetas.
Deixem que eu sofra!... A dor em que me inundo,
Trila na voz da lira dos Poetas.
Se eu vivo entre emoções e fantasias,
Pois deixem que eu me acabe pelo mundo,
Em soluços, em preces e harmonias...
Sobre a praia sem fim: ermo, esquecido,
Frio, imóvel, tristonho, adormecido,
Como se fosse a imagem de um segredo.
Deixem que viva assim como o arvoredo
Da margem de uma estrada, aos céus erguido,
Que o viandante ao passar, fere, sem medo,
Rouba um galho! e se afasta distraído.
Que eu seja a sombra humilde dos ascetas.
Deixem que eu sofra!... A dor em que me inundo,
Trila na voz da lira dos Poetas.
Se eu vivo entre emoções e fantasias,
Pois deixem que eu me acabe pelo mundo,
Em soluços, em preces e harmonias...
933
1
Soares Bulcão
Parêmias
Quem muito quer do futuro
vê tudo através do verde;
Mais vale o pouco seguro:
— Quem muito quer, tudo perde.
A desgraça no mais forte
Mais robustece a esperança;
Nunca descreias da sorte;
—Quem espera sempre alcança.
Nunca motejes do pobre
Nem dos defeitos que vês;
Por igual o céu nos cobre:
— Cada qual como Deus fez.
Como a boca, a pena explica
Reservas do pensamento;
A letra da pena fica,
—Palavras, leva-as o vento.
Quem o bem fez bem espere,
E o mal também, se é devido:
Porque — Quem com ferro fere
Com o ferro será ferido.
Vai com jeito e paciência,
Se do melhor queres tu;
Bem nos mostra a experiência:
— Quem se vexa come cru.
Muita coisa que vidrilha
Parece ser um tesouro...
Não te iludas com o que brilha:
—Nem tudo que brilha é ouro...
vê tudo através do verde;
Mais vale o pouco seguro:
— Quem muito quer, tudo perde.
A desgraça no mais forte
Mais robustece a esperança;
Nunca descreias da sorte;
—Quem espera sempre alcança.
Nunca motejes do pobre
Nem dos defeitos que vês;
Por igual o céu nos cobre:
— Cada qual como Deus fez.
Como a boca, a pena explica
Reservas do pensamento;
A letra da pena fica,
—Palavras, leva-as o vento.
Quem o bem fez bem espere,
E o mal também, se é devido:
Porque — Quem com ferro fere
Com o ferro será ferido.
Vai com jeito e paciência,
Se do melhor queres tu;
Bem nos mostra a experiência:
— Quem se vexa come cru.
Muita coisa que vidrilha
Parece ser um tesouro...
Não te iludas com o que brilha:
—Nem tudo que brilha é ouro...
1 325
1
Soares Bulcão
Parêmias
Quem muito quer do futuro
vê tudo através do verde;
Mais vale o pouco seguro:
— Quem muito quer, tudo perde.
A desgraça no mais forte
Mais robustece a esperança;
Nunca descreias da sorte;
—Quem espera sempre alcança.
Nunca motejes do pobre
Nem dos defeitos que vês;
Por igual o céu nos cobre:
— Cada qual como Deus fez.
Como a boca, a pena explica
Reservas do pensamento;
A letra da pena fica,
—Palavras, leva-as o vento.
Quem o bem fez bem espere,
E o mal também, se é devido:
Porque — Quem com ferro fere
Com o ferro será ferido.
Vai com jeito e paciência,
Se do melhor queres tu;
Bem nos mostra a experiência:
— Quem se vexa come cru.
Muita coisa que vidrilha
Parece ser um tesouro...
Não te iludas com o que brilha:
—Nem tudo que brilha é ouro...
vê tudo através do verde;
Mais vale o pouco seguro:
— Quem muito quer, tudo perde.
A desgraça no mais forte
Mais robustece a esperança;
Nunca descreias da sorte;
—Quem espera sempre alcança.
Nunca motejes do pobre
Nem dos defeitos que vês;
Por igual o céu nos cobre:
— Cada qual como Deus fez.
Como a boca, a pena explica
Reservas do pensamento;
A letra da pena fica,
—Palavras, leva-as o vento.
Quem o bem fez bem espere,
E o mal também, se é devido:
Porque — Quem com ferro fere
Com o ferro será ferido.
Vai com jeito e paciência,
Se do melhor queres tu;
Bem nos mostra a experiência:
— Quem se vexa come cru.
Muita coisa que vidrilha
Parece ser um tesouro...
Não te iludas com o que brilha:
—Nem tudo que brilha é ouro...
1 325
1
César William
Sufocação
Uns me afogam
inundam-me de fantasias.
Outros me cortam o sorriso,
Rompendo-me os dias.
E assim vou balbuciando
Com meus versos pródigos.
Sinto o que os outros sentem
O que não me deixaram sentir
E assim vou levando a vida
Sem deixar me permitir...
Outros me sepultam
Sem antes deixar que eu nasça
E assim vou levando (a vida)
— No cemitério ou na praça —
inundam-me de fantasias.
Outros me cortam o sorriso,
Rompendo-me os dias.
E assim vou balbuciando
Com meus versos pródigos.
Sinto o que os outros sentem
O que não me deixaram sentir
E assim vou levando a vida
Sem deixar me permitir...
Outros me sepultam
Sem antes deixar que eu nasça
E assim vou levando (a vida)
— No cemitério ou na praça —
805
1
R. Petit
Papagaios de Papel
Quando eu era pequeno, venturoso,
Meus lindos papagaios empinando,
Dizia: — Não há nada mais pomposo
Que um papagaio de papel voando.
Cresci!...
Hoje, tristonho, pesaroso
Esses brinquedos de papel, olhando,
Logo descubro o vulto carunchoso
Dos que sobem a tudo se apegando.
Tipos que sobem de alma feita em trapos,
Mostrando ao mundo, despreocupados,
Uma cauda nojenta de farrapos...
Tipos de nulidade tão cruel!
Que só sabem subir encabrestados
Como esses papagaios de papel.
Meus lindos papagaios empinando,
Dizia: — Não há nada mais pomposo
Que um papagaio de papel voando.
Cresci!...
Hoje, tristonho, pesaroso
Esses brinquedos de papel, olhando,
Logo descubro o vulto carunchoso
Dos que sobem a tudo se apegando.
Tipos que sobem de alma feita em trapos,
Mostrando ao mundo, despreocupados,
Uma cauda nojenta de farrapos...
Tipos de nulidade tão cruel!
Que só sabem subir encabrestados
Como esses papagaios de papel.
1 228
1
Reinaldo Ferreira
O Ponto
Mínimo sou,
Mas quando ao Nada empresto
A minha elementar realidade,
O Nada é só o resto.
Mas quando ao Nada empresto
A minha elementar realidade,
O Nada é só o resto.
4 911
1
Reinaldo Ferreira
Que culpa terão as ondas
...Que culpa terão as ondas
Dos movimentos que façam?
São os ventos que as impelem
E sulcos profundos traçam.
Aos ventos quem lhes ordena
Que rasguem rugas no mar?
São as nuvens inquietas
Que os não deixam sossegar.
E as nuvens, almas de névoa,
Porque não param, coitadas?
É que as asas das gaivotas
As trazem desafiadas.
Mas as asas das gaivotas
O cansaço há-de detê-las!
Juraram buscar descanso
Nas pupilas das estrelas.
E como as estrelas estão altas
E não tombam nem se alcançam,
As asas das pobrezinhas
Baldamente se cansam
Baldamente se cansam,
Baldamente palpitam!
As nuvens, por fatalismo,
Logo com elas se agitam;
Os impulsos que elas dão
Arrastam as ventanias;
As vagas arfam nos mares
Em macabras fantasias
Assim as almas inquietas
Prisioneiras de ansiedades,
Mal que se erguem da terra,
Naufragam nas tempestades!
Dos movimentos que façam?
São os ventos que as impelem
E sulcos profundos traçam.
Aos ventos quem lhes ordena
Que rasguem rugas no mar?
São as nuvens inquietas
Que os não deixam sossegar.
E as nuvens, almas de névoa,
Porque não param, coitadas?
É que as asas das gaivotas
As trazem desafiadas.
Mas as asas das gaivotas
O cansaço há-de detê-las!
Juraram buscar descanso
Nas pupilas das estrelas.
E como as estrelas estão altas
E não tombam nem se alcançam,
As asas das pobrezinhas
Baldamente se cansam
Baldamente se cansam,
Baldamente palpitam!
As nuvens, por fatalismo,
Logo com elas se agitam;
Os impulsos que elas dão
Arrastam as ventanias;
As vagas arfam nos mares
Em macabras fantasias
Assim as almas inquietas
Prisioneiras de ansiedades,
Mal que se erguem da terra,
Naufragam nas tempestades!
1 831
1
Reinaldo Ferreira
Não ponho esperança em mais nada
Não ponho esperança em mais nada.
E se puser
Há-de ser ambição tão desmedida
Que não me caiba sequer
No que me resta de vida.
Ambição tão irreal,
Tão paranóica, tamanha
Como a grandeza de Espanha
Com Granada e o Escurial.
Porque esta esperança que ponho
Em ver-te sair um dia
Da verdade para o sonho,
É como ser-se feitor
Dalguma herdade cansada:
À terra, dá-se o melhor,
A terra não nos dá nada.
E se puser
Há-de ser ambição tão desmedida
Que não me caiba sequer
No que me resta de vida.
Ambição tão irreal,
Tão paranóica, tamanha
Como a grandeza de Espanha
Com Granada e o Escurial.
Porque esta esperança que ponho
Em ver-te sair um dia
Da verdade para o sonho,
É como ser-se feitor
Dalguma herdade cansada:
À terra, dá-se o melhor,
A terra não nos dá nada.
1 984
1
Reinaldo Ferreira
Chopinesque
Oh! taciturno
E esquivo
Motivo
Todo nocturno
Polpas macias
De dedos leves
Cintados por ametistas,
São organistas
Dos meus ditongos
Longos
E breves
Como contraste,
Para desgaste
Dos sons, veludo sobre cetim,
Vogais gritantes,
Tamborilantes,
Decapitantes,
Sons oxidantes
Como em clarim
E o taciturno
E esquivo
Motivo
Todo nocturno,
Sonha a palavra
Com arabescos
Da sua lavra.
Sonha a palavra,
Detesta a frase,
Sabe o encanto
Do que é só quase.
Por isso tende
Mas não atinge,
Porque transcende
Para a imagem
Visualizada
Duma paisagem
Subjectivada
Que nos dilata
Mas nos compreende,
Onde gravitam
Coisas errantes,
Em translacções
De percepções
Centrifugantes.
E são imensas
Por não sofrerem
Nem o tamanho
Nem dimensão;
E são intensas,
Porque não passam
Duma evasão
Das inconsciências
Que me contenho.
Tudo incoerências
Coisificadas;
Prelúdios, restos,
Rastos de gestos
Que nunca foram
Mais que eminências
Balbuciadas
E esquivo
Motivo
Todo nocturno
Polpas macias
De dedos leves
Cintados por ametistas,
São organistas
Dos meus ditongos
Longos
E breves
Como contraste,
Para desgaste
Dos sons, veludo sobre cetim,
Vogais gritantes,
Tamborilantes,
Decapitantes,
Sons oxidantes
Como em clarim
E o taciturno
E esquivo
Motivo
Todo nocturno,
Sonha a palavra
Com arabescos
Da sua lavra.
Sonha a palavra,
Detesta a frase,
Sabe o encanto
Do que é só quase.
Por isso tende
Mas não atinge,
Porque transcende
Para a imagem
Visualizada
Duma paisagem
Subjectivada
Que nos dilata
Mas nos compreende,
Onde gravitam
Coisas errantes,
Em translacções
De percepções
Centrifugantes.
E são imensas
Por não sofrerem
Nem o tamanho
Nem dimensão;
E são intensas,
Porque não passam
Duma evasão
Das inconsciências
Que me contenho.
Tudo incoerências
Coisificadas;
Prelúdios, restos,
Rastos de gestos
Que nunca foram
Mais que eminências
Balbuciadas
1 458
1
Reinaldo Ferreira
Chopinesque
Oh! taciturno
E esquivo
Motivo
Todo nocturno
Polpas macias
De dedos leves
Cintados por ametistas,
São organistas
Dos meus ditongos
Longos
E breves
Como contraste,
Para desgaste
Dos sons, veludo sobre cetim,
Vogais gritantes,
Tamborilantes,
Decapitantes,
Sons oxidantes
Como em clarim
E o taciturno
E esquivo
Motivo
Todo nocturno,
Sonha a palavra
Com arabescos
Da sua lavra.
Sonha a palavra,
Detesta a frase,
Sabe o encanto
Do que é só quase.
Por isso tende
Mas não atinge,
Porque transcende
Para a imagem
Visualizada
Duma paisagem
Subjectivada
Que nos dilata
Mas nos compreende,
Onde gravitam
Coisas errantes,
Em translacções
De percepções
Centrifugantes.
E são imensas
Por não sofrerem
Nem o tamanho
Nem dimensão;
E são intensas,
Porque não passam
Duma evasão
Das inconsciências
Que me contenho.
Tudo incoerências
Coisificadas;
Prelúdios, restos,
Rastos de gestos
Que nunca foram
Mais que eminências
Balbuciadas
E esquivo
Motivo
Todo nocturno
Polpas macias
De dedos leves
Cintados por ametistas,
São organistas
Dos meus ditongos
Longos
E breves
Como contraste,
Para desgaste
Dos sons, veludo sobre cetim,
Vogais gritantes,
Tamborilantes,
Decapitantes,
Sons oxidantes
Como em clarim
E o taciturno
E esquivo
Motivo
Todo nocturno,
Sonha a palavra
Com arabescos
Da sua lavra.
Sonha a palavra,
Detesta a frase,
Sabe o encanto
Do que é só quase.
Por isso tende
Mas não atinge,
Porque transcende
Para a imagem
Visualizada
Duma paisagem
Subjectivada
Que nos dilata
Mas nos compreende,
Onde gravitam
Coisas errantes,
Em translacções
De percepções
Centrifugantes.
E são imensas
Por não sofrerem
Nem o tamanho
Nem dimensão;
E são intensas,
Porque não passam
Duma evasão
Das inconsciências
Que me contenho.
Tudo incoerências
Coisificadas;
Prelúdios, restos,
Rastos de gestos
Que nunca foram
Mais que eminências
Balbuciadas
1 458
1
Reinaldo Ferreira
Chopinesque
Oh! taciturno
E esquivo
Motivo
Todo nocturno
Polpas macias
De dedos leves
Cintados por ametistas,
São organistas
Dos meus ditongos
Longos
E breves
Como contraste,
Para desgaste
Dos sons, veludo sobre cetim,
Vogais gritantes,
Tamborilantes,
Decapitantes,
Sons oxidantes
Como em clarim
E o taciturno
E esquivo
Motivo
Todo nocturno,
Sonha a palavra
Com arabescos
Da sua lavra.
Sonha a palavra,
Detesta a frase,
Sabe o encanto
Do que é só quase.
Por isso tende
Mas não atinge,
Porque transcende
Para a imagem
Visualizada
Duma paisagem
Subjectivada
Que nos dilata
Mas nos compreende,
Onde gravitam
Coisas errantes,
Em translacções
De percepções
Centrifugantes.
E são imensas
Por não sofrerem
Nem o tamanho
Nem dimensão;
E são intensas,
Porque não passam
Duma evasão
Das inconsciências
Que me contenho.
Tudo incoerências
Coisificadas;
Prelúdios, restos,
Rastos de gestos
Que nunca foram
Mais que eminências
Balbuciadas
E esquivo
Motivo
Todo nocturno
Polpas macias
De dedos leves
Cintados por ametistas,
São organistas
Dos meus ditongos
Longos
E breves
Como contraste,
Para desgaste
Dos sons, veludo sobre cetim,
Vogais gritantes,
Tamborilantes,
Decapitantes,
Sons oxidantes
Como em clarim
E o taciturno
E esquivo
Motivo
Todo nocturno,
Sonha a palavra
Com arabescos
Da sua lavra.
Sonha a palavra,
Detesta a frase,
Sabe o encanto
Do que é só quase.
Por isso tende
Mas não atinge,
Porque transcende
Para a imagem
Visualizada
Duma paisagem
Subjectivada
Que nos dilata
Mas nos compreende,
Onde gravitam
Coisas errantes,
Em translacções
De percepções
Centrifugantes.
E são imensas
Por não sofrerem
Nem o tamanho
Nem dimensão;
E são intensas,
Porque não passam
Duma evasão
Das inconsciências
Que me contenho.
Tudo incoerências
Coisificadas;
Prelúdios, restos,
Rastos de gestos
Que nunca foram
Mais que eminências
Balbuciadas
1 458
1
Xavier de Carvalho
Noivas Mortas
Essas que assim se vão, fugindo prestes,
De ao pé dos noivos, carregando-os nalma,
Amortalhadas de capela e palma
Em demanda dos páramos celestes;
Essas que, sob o horror que a morte espalma,
Vão dormitar à sombra dos ciprestes
Em demanda dos páramos celestes
Amortalhadas de capela e palma;
Essas irão aos céus, de olhos risonhos,
Por entre os Anjos, pelas mãos dos Sonhos,
De asas flaflando em trêmulos arrancos,
De Alvas Grinaldas pelas tranças frouxas,
De olhos pisados e de olheiras roxas,
Todas cobertas de Pecados Brancos.
De ao pé dos noivos, carregando-os nalma,
Amortalhadas de capela e palma
Em demanda dos páramos celestes;
Essas que, sob o horror que a morte espalma,
Vão dormitar à sombra dos ciprestes
Em demanda dos páramos celestes
Amortalhadas de capela e palma;
Essas irão aos céus, de olhos risonhos,
Por entre os Anjos, pelas mãos dos Sonhos,
De asas flaflando em trêmulos arrancos,
De Alvas Grinaldas pelas tranças frouxas,
De olhos pisados e de olheiras roxas,
Todas cobertas de Pecados Brancos.
1 192
1
Alcenor Candeira Filho
Carga
Carrego uma carteira de identidade
e mais outra de motorista
um titulo de eleitor
um certificado de reservista
um cartão de C.P.F.
uma certidão de nascimento
e outra de casamento
um diploma de bacharel
um seguro de vida
(em todos eles ALCENOR RODRIGUES CANDEIRA FILHO)
carrego uma calça
(uns trocados no bolso)
uma camisa
uma cueca
um sapato
muitas chaves
um automóvel
e um relógio
— e mais o peso abstrato da existência.
e mais outra de motorista
um titulo de eleitor
um certificado de reservista
um cartão de C.P.F.
uma certidão de nascimento
e outra de casamento
um diploma de bacharel
um seguro de vida
(em todos eles ALCENOR RODRIGUES CANDEIRA FILHO)
carrego uma calça
(uns trocados no bolso)
uma camisa
uma cueca
um sapato
muitas chaves
um automóvel
e um relógio
— e mais o peso abstrato da existência.
1 136
1
Afonso Lopes de Almeida
Vida
Mal nasce a filha, eis morre o pai...
E ouviu, do leito, o teu ouvido,
Num mesmo som da que nascia
O flébil, trêmulo vagido,
Bem como o último gemido
Da agonia
Do que morria...
Vida que vem, vida que vai.
Tu eras o traço de união
Daquelas vidas,
Dentro em ti mesma reunidas
No coração.
Eras o Mar. Eles, as ondas:
Uma onda a filha, outra onda o pai.
Onda que vem, onda que vai...
E outras virão, e outras irão,
E umas das outras surgirão...
Na mesma força indefinida,
Túrgidas, grossas e redondas,
Hão de crescer, hão de acabar.
Mas a água é a mesma, é o mesmo o Mar,
É o mesmo o amor, é a mesma a Vida...
A onda que desapareceu
Fez surgir
A que nasceu
Desta, cem outras hão de vir,
Em que mil outras se contenham
E estas farão com que outras venham ...
Onda que vem, onda que vai,
Esta se apruma, aquela cái,
Água do Mar, que agora flui,
Logo reflui...
O pai não viu a filha sua.
E a filha não verá seu pai.
É a vida, enfim, que continua:
Vida que vem... Vida que vai.
E ouviu, do leito, o teu ouvido,
Num mesmo som da que nascia
O flébil, trêmulo vagido,
Bem como o último gemido
Da agonia
Do que morria...
Vida que vem, vida que vai.
Tu eras o traço de união
Daquelas vidas,
Dentro em ti mesma reunidas
No coração.
Eras o Mar. Eles, as ondas:
Uma onda a filha, outra onda o pai.
Onda que vem, onda que vai...
E outras virão, e outras irão,
E umas das outras surgirão...
Na mesma força indefinida,
Túrgidas, grossas e redondas,
Hão de crescer, hão de acabar.
Mas a água é a mesma, é o mesmo o Mar,
É o mesmo o amor, é a mesma a Vida...
A onda que desapareceu
Fez surgir
A que nasceu
Desta, cem outras hão de vir,
Em que mil outras se contenham
E estas farão com que outras venham ...
Onda que vem, onda que vai,
Esta se apruma, aquela cái,
Água do Mar, que agora flui,
Logo reflui...
O pai não viu a filha sua.
E a filha não verá seu pai.
É a vida, enfim, que continua:
Vida que vem... Vida que vai.
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Antônio Chaves
A Vida
Dizem que a vida é um favo bem pequeno
Que às vezes tem dulçor e às vezes, travo...
Se assim é, sorve o teu com espírito sereno,
Sim, o teu, que é de mel,
Sem ao menos pensar que desse favo
Possa a última gota ter veneno
E amargar com fel.
A vida é triste, minha amiga! A vida,
Em sendo, como é, uma noite comprida,
E também a assassina da ilusão...
Não há quem, no melhor dos seus caminhos
Não encontre o pior de todos os espinhos...
Mas, não te importes, não!
Goza-a, sem procurares, todavia,
Tenta saber se, porventura, um dia,
Ela venha sangrar teu coração.
Goza-a, crendo no amor! E se em teu peito
Um sonho, pálido e desfeito,
Cair ferido pelo sofrimento,
Reage com o fulgor da tua graça,
Sê forte para que não se desfaça
O belo encantamento.
Encara a vida como se ela fosse
Eternamente doce,
Como um beijo do Céu que te bendiz;
A vida tem odor? Aspira-o se puderes,
Sê a mais otimista das mulheres
E serás sempre feliz.
Que às vezes tem dulçor e às vezes, travo...
Se assim é, sorve o teu com espírito sereno,
Sim, o teu, que é de mel,
Sem ao menos pensar que desse favo
Possa a última gota ter veneno
E amargar com fel.
A vida é triste, minha amiga! A vida,
Em sendo, como é, uma noite comprida,
E também a assassina da ilusão...
Não há quem, no melhor dos seus caminhos
Não encontre o pior de todos os espinhos...
Mas, não te importes, não!
Goza-a, sem procurares, todavia,
Tenta saber se, porventura, um dia,
Ela venha sangrar teu coração.
Goza-a, crendo no amor! E se em teu peito
Um sonho, pálido e desfeito,
Cair ferido pelo sofrimento,
Reage com o fulgor da tua graça,
Sê forte para que não se desfaça
O belo encantamento.
Encara a vida como se ela fosse
Eternamente doce,
Como um beijo do Céu que te bendiz;
A vida tem odor? Aspira-o se puderes,
Sê a mais otimista das mulheres
E serás sempre feliz.
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Bocage
Não lamentes, oh Nize, o teu estado
Não lamentes, oh Nize, o teu estado;
Puta tem sido muita gente boa;
Putíssimas fidalgas tem Lisboa,
Milhões de vezes putas têm reinado:
Dido foi puta, e puta dum soldado;
Cleópatra por puta alcança a croa;
Tu, Lucrécia, com toda a tua proa,
O teu cono não passa por honrado:
Essa da Rússia imperatriz famosa,
Que inda há pouco morreu (diz a Gazeta)
Entre mil porras expirou vaidosa:
Todas no mundo dão a sua greta:
Não fiques, pois, oh Nize, duvidosa
Que isso de virgo e honra é tudo peta.
Puta tem sido muita gente boa;
Putíssimas fidalgas tem Lisboa,
Milhões de vezes putas têm reinado:
Dido foi puta, e puta dum soldado;
Cleópatra por puta alcança a croa;
Tu, Lucrécia, com toda a tua proa,
O teu cono não passa por honrado:
Essa da Rússia imperatriz famosa,
Que inda há pouco morreu (diz a Gazeta)
Entre mil porras expirou vaidosa:
Todas no mundo dão a sua greta:
Não fiques, pois, oh Nize, duvidosa
Que isso de virgo e honra é tudo peta.
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Ana Maria Ramiro
Esperanças
A ânsia do ser humano
consiste em poder calar
do coração, as mágoas vividas
as traições, os desamores, as feridas
que por toda a vida, ano após ano,
insistem em latejar.
E a cada novo ciclo
Mais se aprende, à novas cores:
Renovam-se as esperanças,
Esvaem-se as lembranças,
Conquistam-se novos amores.
Ontem, as folhas de outono
Hoje, o sol de verão,
e meu coração embarcação,
também mudou de rumo.
Segue a brisa sem destino
Vagando, procurando um caminho,
persegue o futuro.
Ansiando lá no fundo
Por terra firme, ancoradouro
E porto seguro.
consiste em poder calar
do coração, as mágoas vividas
as traições, os desamores, as feridas
que por toda a vida, ano após ano,
insistem em latejar.
E a cada novo ciclo
Mais se aprende, à novas cores:
Renovam-se as esperanças,
Esvaem-se as lembranças,
Conquistam-se novos amores.
Ontem, as folhas de outono
Hoje, o sol de verão,
e meu coração embarcação,
também mudou de rumo.
Segue a brisa sem destino
Vagando, procurando um caminho,
persegue o futuro.
Ansiando lá no fundo
Por terra firme, ancoradouro
E porto seguro.
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Viriato Gaspar
Índice
O homem é a matéria do meu canto
qualquer que seja a cor do que ele sente,
e não importa o motivo de seu pranto,
é um homem, meu irmão, e estou doente
de sua dor, e é meu o seu espanto
do mundo e desta hora incongruentes.
na trincheira do verbo me levanto
contra o que contra o homem se intente.
O homem é o objeto e o objetivo
de quanto sei cantar, e o canto é tudo
que pode me explicar porque estou vivo.
às vezes sou ateu, noutras sou crente,
em outras sou rebelde, em algumas mudo,
sou homem, e canto o homem no presente.
qualquer que seja a cor do que ele sente,
e não importa o motivo de seu pranto,
é um homem, meu irmão, e estou doente
de sua dor, e é meu o seu espanto
do mundo e desta hora incongruentes.
na trincheira do verbo me levanto
contra o que contra o homem se intente.
O homem é o objeto e o objetivo
de quanto sei cantar, e o canto é tudo
que pode me explicar porque estou vivo.
às vezes sou ateu, noutras sou crente,
em outras sou rebelde, em algumas mudo,
sou homem, e canto o homem no presente.
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