Poemas neste tema
Outros
José Terra
Insegurança
Tenho medo de ti, ó meu irmão,
Dessas palavras mansas tenho medo,
Se até as pedras ouvem o segredo
Guardado nos confins do coração ...
Tenho receio, amor, dessa canção
Que tu me cantas, desse teu enredo
Será teu corpo a nau para o degredo.
Teus braços nus a grade da prisão?
Minha mãe! minha mãe! não te confio
O meu destino e é vão esse teu pranto!
Não trairás acaso o filho amado?
Não me conheço nessa voz que rio,
Espreitam-me os assassinos, e, no entanto,
É um criminoso o que ficar calado!
Dessas palavras mansas tenho medo,
Se até as pedras ouvem o segredo
Guardado nos confins do coração ...
Tenho receio, amor, dessa canção
Que tu me cantas, desse teu enredo
Será teu corpo a nau para o degredo.
Teus braços nus a grade da prisão?
Minha mãe! minha mãe! não te confio
O meu destino e é vão esse teu pranto!
Não trairás acaso o filho amado?
Não me conheço nessa voz que rio,
Espreitam-me os assassinos, e, no entanto,
É um criminoso o que ficar calado!
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Linhares Filho
Das Coisas
Meus cabelos captam a voz das coisas
do espaço e do inespaço.
As coisas: fungíveis e infungíveis,
móveis, imóveis e semoventes,
operam o fenômeno ou são o númeno.
Queiramos ou não,
as coisas nos cercam, nos integram,
ou são presença na nossa memória.
E nos espreitam com o enigma
de seu olho plurimático.
Aonde ninguém vai,
aí penetra o olhar de alguma coisas.
Testemunhas de virtudes e munditudes,
de todas as nossas contradições,
do sem-saber-para-onde-ir.
Levam a marca dos nossos
usos e abusos.
Sofrem conosco? Riem conosco? ou de nós?
Confidentes na solidão,
inconfidentes para a perícia.
As coisas nos encantam e desencantam.
Umas coisas, talvez,
nos libertem algum dia,
e outras decerto dependurada
trazem a morte consigo.
As coisas nos mandam e desmandam,
formam, deformam,
informam, transformam.
As coisas nos assaltam e improvisam.
Com o xadrez de situações elaboram
mais a surpresa do que a expectativa.
As coisas nos precederam e nos sucederão.
(É preciso reagir contra certas coisas.)
Sentimo-nos sós no meio das coisas.
do espaço e do inespaço.
As coisas: fungíveis e infungíveis,
móveis, imóveis e semoventes,
operam o fenômeno ou são o númeno.
Queiramos ou não,
as coisas nos cercam, nos integram,
ou são presença na nossa memória.
E nos espreitam com o enigma
de seu olho plurimático.
Aonde ninguém vai,
aí penetra o olhar de alguma coisas.
Testemunhas de virtudes e munditudes,
de todas as nossas contradições,
do sem-saber-para-onde-ir.
Levam a marca dos nossos
usos e abusos.
Sofrem conosco? Riem conosco? ou de nós?
Confidentes na solidão,
inconfidentes para a perícia.
As coisas nos encantam e desencantam.
Umas coisas, talvez,
nos libertem algum dia,
e outras decerto dependurada
trazem a morte consigo.
As coisas nos mandam e desmandam,
formam, deformam,
informam, transformam.
As coisas nos assaltam e improvisam.
Com o xadrez de situações elaboram
mais a surpresa do que a expectativa.
As coisas nos precederam e nos sucederão.
(É preciso reagir contra certas coisas.)
Sentimo-nos sós no meio das coisas.
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Antero de Quental
Nihil
Homem!
Homem! Mendigo do Infinito!
Abres a boca e estendes os teus braços
A ver se os astros caem dos espaços
A encher o vácuo imenso do finito!
Porque sobes à rocha de granito?
Porque é que dás no ar tantos abraços?
E cuidas amarrar com férreos laços
Um reflexo da sombra de um espírito?
Vê que o céu, por escárnio, a luz nos lança!
Que, à tua voz, a voz da imensidão
Responde com imensa gargalhada!
A ideia fechou a porta à esperança
Quando lhe foi pedir agasalho e pão....
Deixou-a cara a cara com o Nada!! ..
Homem! Mendigo do Infinito!
Abres a boca e estendes os teus braços
A ver se os astros caem dos espaços
A encher o vácuo imenso do finito!
Porque sobes à rocha de granito?
Porque é que dás no ar tantos abraços?
E cuidas amarrar com férreos laços
Um reflexo da sombra de um espírito?
Vê que o céu, por escárnio, a luz nos lança!
Que, à tua voz, a voz da imensidão
Responde com imensa gargalhada!
A ideia fechou a porta à esperança
Quando lhe foi pedir agasalho e pão....
Deixou-a cara a cara com o Nada!! ..
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1
Luís Delfino
Altar sem Deus
Inda não voltas? — Como a vida salta
Destes quadros de esplêndidas molduras!
Mulheres nuas, raras formosuras...
Só a tua nudez entre elas falta ...
Pede-te o espelho de armação tão alta,
Onde revias tuas formas puras;
Pedem-te as cegas, lúbricas alvuras
Do linho, que a Paixão no leito exalta.
Pedem-te os vasos cheios de perfume
Os dunquerques, as rendas, as cortinas,
Tudo quanto a mulher de bom resume,
Escolhido por tuas mãos divinas...
E sai do teu altar vazio, ó nume,
A tristeza indizível das ruínas ...
Destes quadros de esplêndidas molduras!
Mulheres nuas, raras formosuras...
Só a tua nudez entre elas falta ...
Pede-te o espelho de armação tão alta,
Onde revias tuas formas puras;
Pedem-te as cegas, lúbricas alvuras
Do linho, que a Paixão no leito exalta.
Pedem-te os vasos cheios de perfume
Os dunquerques, as rendas, as cortinas,
Tudo quanto a mulher de bom resume,
Escolhido por tuas mãos divinas...
E sai do teu altar vazio, ó nume,
A tristeza indizível das ruínas ...
1 624
1
João Ferry
Não Se Pode
Quando eu era menino andava em voga
A história da "Não se Pode",
Uma mulher esguia, que de toga
Como um fantasma, à toa, de pagode
Altas horas da noite então vagava.
E quando alguém seu nome perguntava
Invariavelmente respondia,
Com a voz cava e cheia de agonia:
"Não se Pode!" "Não se Pode!"
Era um fantasma esquisito e feio
De estatura comum, mas que crescia
Toda vez que cigarros acendia
Nos lampiões das esquinas e do passeio.
Escaveirada, de carão ossudo,
olhos sem brilho, sem nenhum clarão,
A "Não se Pode" era um duende mudo
Alma penada pela solidão.
Soldados de patrulha da cidade
Uma noite entenderam de segui-la.
Mas a "Não se Pode", como um cão de fila,
Evitava qualquer intimidade.
Suas pegadas no chão jamais se viu
E do velho quartel para o mercado,
Seus pontos preferidos,
Era como um vulto malfadado
Dos mistérios do além, desconhecidos...
E quando uma noite fugia pelo espaço
"Não se Pode" também no seu regaço
Em fumaças de pós se desfazia...
A minha alma também é assim
Se alguém sacode
Os sofrimentos que meu peito esconde
Pressurosa e bem triste ela responde:
"Não se Pode!" "Não se Pode!"
A história da "Não se Pode",
Uma mulher esguia, que de toga
Como um fantasma, à toa, de pagode
Altas horas da noite então vagava.
E quando alguém seu nome perguntava
Invariavelmente respondia,
Com a voz cava e cheia de agonia:
"Não se Pode!" "Não se Pode!"
Era um fantasma esquisito e feio
De estatura comum, mas que crescia
Toda vez que cigarros acendia
Nos lampiões das esquinas e do passeio.
Escaveirada, de carão ossudo,
olhos sem brilho, sem nenhum clarão,
A "Não se Pode" era um duende mudo
Alma penada pela solidão.
Soldados de patrulha da cidade
Uma noite entenderam de segui-la.
Mas a "Não se Pode", como um cão de fila,
Evitava qualquer intimidade.
Suas pegadas no chão jamais se viu
E do velho quartel para o mercado,
Seus pontos preferidos,
Era como um vulto malfadado
Dos mistérios do além, desconhecidos...
E quando uma noite fugia pelo espaço
"Não se Pode" também no seu regaço
Em fumaças de pós se desfazia...
A minha alma também é assim
Se alguém sacode
Os sofrimentos que meu peito esconde
Pressurosa e bem triste ela responde:
"Não se Pode!" "Não se Pode!"
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1
Luís Marcelino
Sol Português
Tardes frias
Noites quentes
Ondas do mar turbulentas
Tantos dias
Sempre ausentes
Histórias de vida cinzentas
Luzes caladas
Estrelas sem vida
Num acordar tempestade
Bocas beijadas
Noite perdida
Neste mar sem idade
Os ventos do norte
Voaram p’ra sul
E eu aqui já nascido
Pintei a minha sorte
No ouro sobre azul
Deste mundo fingido.
Noites quentes
Ondas do mar turbulentas
Tantos dias
Sempre ausentes
Histórias de vida cinzentas
Luzes caladas
Estrelas sem vida
Num acordar tempestade
Bocas beijadas
Noite perdida
Neste mar sem idade
Os ventos do norte
Voaram p’ra sul
E eu aqui já nascido
Pintei a minha sorte
No ouro sobre azul
Deste mundo fingido.
927
1
José de Paula Ramos Jr.
A um Poeta
para Frederico Barbosa
Agudo pensamento, coração preclaro,
o poeta
cata um grão esconso
no labirinto nada.
O poeta
a palavra vela
e o signo rala
na linha vasa:
muda geometria.
Eis, súbito, um projétil,
que não falha,
a língua tesa prepara.
O poeta,
zarabatana calada,
no silêncio do rigor,
raro artefato dispara.
Agudo pensamento, coração preclaro,
o poeta
cata um grão esconso
no labirinto nada.
O poeta
a palavra vela
e o signo rala
na linha vasa:
muda geometria.
Eis, súbito, um projétil,
que não falha,
a língua tesa prepara.
O poeta,
zarabatana calada,
no silêncio do rigor,
raro artefato dispara.
891
1
José de Paula Ramos Jr.
A um Poeta
para Frederico Barbosa
Agudo pensamento, coração preclaro,
o poeta
cata um grão esconso
no labirinto nada.
O poeta
a palavra vela
e o signo rala
na linha vasa:
muda geometria.
Eis, súbito, um projétil,
que não falha,
a língua tesa prepara.
O poeta,
zarabatana calada,
no silêncio do rigor,
raro artefato dispara.
Agudo pensamento, coração preclaro,
o poeta
cata um grão esconso
no labirinto nada.
O poeta
a palavra vela
e o signo rala
na linha vasa:
muda geometria.
Eis, súbito, um projétil,
que não falha,
a língua tesa prepara.
O poeta,
zarabatana calada,
no silêncio do rigor,
raro artefato dispara.
891
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José de Paula Ramos Jr.
A um Poeta
para Frederico Barbosa
Agudo pensamento, coração preclaro,
o poeta
cata um grão esconso
no labirinto nada.
O poeta
a palavra vela
e o signo rala
na linha vasa:
muda geometria.
Eis, súbito, um projétil,
que não falha,
a língua tesa prepara.
O poeta,
zarabatana calada,
no silêncio do rigor,
raro artefato dispara.
Agudo pensamento, coração preclaro,
o poeta
cata um grão esconso
no labirinto nada.
O poeta
a palavra vela
e o signo rala
na linha vasa:
muda geometria.
Eis, súbito, um projétil,
que não falha,
a língua tesa prepara.
O poeta,
zarabatana calada,
no silêncio do rigor,
raro artefato dispara.
891
1
José de Paula Ramos Jr.
A um Poeta
para Frederico Barbosa
Agudo pensamento, coração preclaro,
o poeta
cata um grão esconso
no labirinto nada.
O poeta
a palavra vela
e o signo rala
na linha vasa:
muda geometria.
Eis, súbito, um projétil,
que não falha,
a língua tesa prepara.
O poeta,
zarabatana calada,
no silêncio do rigor,
raro artefato dispara.
Agudo pensamento, coração preclaro,
o poeta
cata um grão esconso
no labirinto nada.
O poeta
a palavra vela
e o signo rala
na linha vasa:
muda geometria.
Eis, súbito, um projétil,
que não falha,
a língua tesa prepara.
O poeta,
zarabatana calada,
no silêncio do rigor,
raro artefato dispara.
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1
José Chagas
O Apito do Passado
O Mearim derrama na distância
uma água que em sonhos nos invade,
como fio invisível que se lance a
separar em duas a cidade.
E essa água vem banhar sem que se canse a
vida inteira que no rio nade,
porquanto água de amor que lava infância
lava também velhice e mocidade.
Mearim — rio velho e rio novo,
alegria e aflição de um mesmo povo —
um mar se afoga nos mistérios teus.
Mas preservas em ti, para Pedreiras,
vibrando no ar, o apito das primeiras
lanchas que nos deixaram seu adeus.
uma água que em sonhos nos invade,
como fio invisível que se lance a
separar em duas a cidade.
E essa água vem banhar sem que se canse a
vida inteira que no rio nade,
porquanto água de amor que lava infância
lava também velhice e mocidade.
Mearim — rio velho e rio novo,
alegria e aflição de um mesmo povo —
um mar se afoga nos mistérios teus.
Mas preservas em ti, para Pedreiras,
vibrando no ar, o apito das primeiras
lanchas que nos deixaram seu adeus.
1 471
1
Lêdo Ivo
Verdade e Mentira
Truth And Falsehood
O mar às avessas:
as constelações
são navios.
A poesia é uma mentira.
As estrelas não são navios.
O céu é uma ilusão.
A verdade está na terra,
nos navios ancorados
ao longo do cais.
The sea topsy-turvy:
the constellations
are ships.
Poetry is a lie.
The stars arent ships.
The sky is an illusion.
The truths on earth —
the ships anchored
along the docks.
O mar às avessas:
as constelações
são navios.
A poesia é uma mentira.
As estrelas não são navios.
O céu é uma ilusão.
A verdade está na terra,
nos navios ancorados
ao longo do cais.
The sea topsy-turvy:
the constellations
are ships.
Poetry is a lie.
The stars arent ships.
The sky is an illusion.
The truths on earth —
the ships anchored
along the docks.
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1
Lêdo Ivo
Verdade e Mentira
Truth And Falsehood
O mar às avessas:
as constelações
são navios.
A poesia é uma mentira.
As estrelas não são navios.
O céu é uma ilusão.
A verdade está na terra,
nos navios ancorados
ao longo do cais.
The sea topsy-turvy:
the constellations
are ships.
Poetry is a lie.
The stars arent ships.
The sky is an illusion.
The truths on earth —
the ships anchored
along the docks.
O mar às avessas:
as constelações
são navios.
A poesia é uma mentira.
As estrelas não são navios.
O céu é uma ilusão.
A verdade está na terra,
nos navios ancorados
ao longo do cais.
The sea topsy-turvy:
the constellations
are ships.
Poetry is a lie.
The stars arent ships.
The sky is an illusion.
The truths on earth —
the ships anchored
along the docks.
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1
Washington Queiroz
Sei que não me Amas
No entanto continuo azul,
Prússio: urso no horizonte
e violinos no coração.
Prússio: urso no horizonte
e violinos no coração.
1 015
1
Jorge de Lima
Essa Infanta
Essa infanta boreal era a defunta
em noturna pavana sempre ungida,
colorida de galos silenciosos,
extrema-ungida de óleos renovados.
Hoje é rosa distante prenunciada,
cujos cabelos de Altair são dela;
dela é a visão dos homens subterrâneos,
consolo como chuva desejada.
Tendo-a a insônia dos tempos despertado,
ontem houve enforcados, hoje guerras,
amanhã surgirão campos mais mortos.
Ó antípodas, ó pólos, somos trégua,
reconciliemo-nos na noite dessa
eterna infanta para sempre amada.
em noturna pavana sempre ungida,
colorida de galos silenciosos,
extrema-ungida de óleos renovados.
Hoje é rosa distante prenunciada,
cujos cabelos de Altair são dela;
dela é a visão dos homens subterrâneos,
consolo como chuva desejada.
Tendo-a a insônia dos tempos despertado,
ontem houve enforcados, hoje guerras,
amanhã surgirão campos mais mortos.
Ó antípodas, ó pólos, somos trégua,
reconciliemo-nos na noite dessa
eterna infanta para sempre amada.
4 715
1
Lígia Diniz
Por Isso
Por não me dares nada
Quando quero tudo
Por te dar tudo
Quando não pedes nada
Por isto
e por mil outras coisas
Mais ainda
por estas mil outras coisas
Pelos teus olhos de criança crescida
Teu jeito de adulto imaturo
Tua risada rascante
Tua maneira de te importar
não te importando
Por aquele sábado
E aqueles treze dias infinitos
E estes dias que não passam quando não estás perto
Pelos que quase não vejo, por estar ao teu lado
Pelos meus olhos que choram (às vezes)
como os de uma criança sozinha
Pelos meus olhos que sorriem quando te vêem
Pelas nossas bocas
E mais, por esta saudade infinita
das coisas que ainda estão por vir
E pelo medo de que elas não venham
Porque eu te amo tanto que meu peito dói
E a alma inteira estremece
Por ser completamente tua,
Só te peço uma coisa: seja verdadeiramente meu.
Quando quero tudo
Por te dar tudo
Quando não pedes nada
Por isto
e por mil outras coisas
Mais ainda
por estas mil outras coisas
Pelos teus olhos de criança crescida
Teu jeito de adulto imaturo
Tua risada rascante
Tua maneira de te importar
não te importando
Por aquele sábado
E aqueles treze dias infinitos
E estes dias que não passam quando não estás perto
Pelos que quase não vejo, por estar ao teu lado
Pelos meus olhos que choram (às vezes)
como os de uma criança sozinha
Pelos meus olhos que sorriem quando te vêem
Pelas nossas bocas
E mais, por esta saudade infinita
das coisas que ainda estão por vir
E pelo medo de que elas não venham
Porque eu te amo tanto que meu peito dói
E a alma inteira estremece
Por ser completamente tua,
Só te peço uma coisa: seja verdadeiramente meu.
895
1
Gláucia Lemos
Poemas da Distância
Como se fosses chegar
na hora seguinte.
Estendo os meus olhos
para lá da poeira
mas meus olhos imergem
nas águas do mar...
Se eu sei que,
cortando a enchente
que cresceu e venceu o alto do muro
e alagou o caminho,
não virás ainda,
se eu sei que
os trilhos que os pneus
traçaram paralelos nesta estrada de areia,
nem sabem de ti,
entendo quanto é louco
este olhar que te espera
esperando um milagre.
Se me lembro
de que vieste na noite de ontem
à hora da estrela,
e quando eu colhia o diamante de Vésper
te tinha comigo,
sei,
como é louco este olhar que te espera
esperando o milagre!
na hora seguinte.
Estendo os meus olhos
para lá da poeira
mas meus olhos imergem
nas águas do mar...
Se eu sei que,
cortando a enchente
que cresceu e venceu o alto do muro
e alagou o caminho,
não virás ainda,
se eu sei que
os trilhos que os pneus
traçaram paralelos nesta estrada de areia,
nem sabem de ti,
entendo quanto é louco
este olhar que te espera
esperando um milagre.
Se me lembro
de que vieste na noite de ontem
à hora da estrela,
e quando eu colhia o diamante de Vésper
te tinha comigo,
sei,
como é louco este olhar que te espera
esperando o milagre!
1 045
1
Gláucia Lemos
Poema do Apelo
Eu sei que à insônia desta noite
bem poderias vir.
A tua febre aqueceria o mundo.
Da minha febre renasceria a vida.
... e me olhas com este olhar atento
que não sei se não me quer ou não me entende.
Eu sei que esvaziarias este apelo
e que eu te guardaria como um feto
e plenificarias meu vazio.
...mas me olhas com este olhar estranho
que eu não sei se me entende e não me quer...
Eu sei que é como quem beija, que me calo.
E poderíamos arder no mesmo gozo
para morrer depois no mesmo sono.
...mas me olhas com este olhar profano
que eu não sei se não me entende, ou se me espera.
Eu sei. Mas sei que não vale saber.
Se continuas com este olhar estranho
que eu não entendo. Mesmo assim te espero.
(07.06.96)
bem poderias vir.
A tua febre aqueceria o mundo.
Da minha febre renasceria a vida.
... e me olhas com este olhar atento
que não sei se não me quer ou não me entende.
Eu sei que esvaziarias este apelo
e que eu te guardaria como um feto
e plenificarias meu vazio.
...mas me olhas com este olhar estranho
que eu não sei se me entende e não me quer...
Eu sei que é como quem beija, que me calo.
E poderíamos arder no mesmo gozo
para morrer depois no mesmo sono.
...mas me olhas com este olhar profano
que eu não sei se não me entende, ou se me espera.
Eu sei. Mas sei que não vale saber.
Se continuas com este olhar estranho
que eu não entendo. Mesmo assim te espero.
(07.06.96)
1 225
1
José de Paula Ramos Jr.
Canção de Anquises
Não reflete o bronze polido
a imagem dos passados anos:
a fronte sem marca de cãs,
sem rugas, braços vigorosos,
luz no olhar, aprumado dorso,
o viço na pele rosada,
pernas firmes. Oh, juventude!
Um dia, no passado esplêndido,
subi ao leito de Afrodite.
Agora, vejo a decadente
massa deformada insinuar,
na comissura de meus lábios
pensos, a pena iniludível,
que aguarda a todo ser humano.
Ao pé das muralhas de Tróia
devastada, deponho a lança
inútil, que vibrou outrora.
a imagem dos passados anos:
a fronte sem marca de cãs,
sem rugas, braços vigorosos,
luz no olhar, aprumado dorso,
o viço na pele rosada,
pernas firmes. Oh, juventude!
Um dia, no passado esplêndido,
subi ao leito de Afrodite.
Agora, vejo a decadente
massa deformada insinuar,
na comissura de meus lábios
pensos, a pena iniludível,
que aguarda a todo ser humano.
Ao pé das muralhas de Tróia
devastada, deponho a lança
inútil, que vibrou outrora.
934
1
Nelson Ascher
O purgatório do Boca do Inferno
Mistérios gregorianos
Desde sua morte, há prováveis 300 anos, até os dias de hoje, a pessoa e a poesia de Gregório de Matos são objeto de uma polêmica ininterrupta Gregório de Matos e Guerra, cujo tricentenário da morte ocorre provavelmente no presente ano, é geralmente considerado a figura literária mais relevante do Brasil colonial. Ainda assim, o Boca do Inferno encontra-se há cerca de 150 anos num purgatório crítico, depois de ter passado outros tantos numa espécie de limbo. Tão ou mais célebre do que o satirista barroco é a ininterrupta polêmica que, por século e meio, mas, de certa forma, há já, pelo menos, três séculos, tem posto em questão tudo que diz respeito à sua pessoa, obra, reputação, época etc.
Nascido em Salvador, talvez em 1636, ou seja, há 360 anos, ele teria estudado na Bahia e em Portugal (Coimbra), e vivido dos dois lados do Atlântico, numa trajetória que incluiria um exílio em Angola, algo que, segundo a lenda, decorreria de uma reação de autoridades ofendidas pela virulência de suas sátiras. Julga-se que, já de retorno ao Brasil, teria morrido no Recife em 1696 ou 1695 (a segunda hipótese é defendida pelo historiador Fernando da Rocha Peres em texto nesta página).
A primeira "biografia" foi escrita um século depois. Acerca de sua vida há, portanto, pouquíssimos fatos, bastante conjetura e muito mais ignorância.
Os mistérios que cercam sua obra são ainda maiores, pois, enquanto vivia o provável autor, seus poemas — jamais recolhidos por ele mesmo num volume autógrafo — circularam em folhas soltas, copiados e recopiados à mão, e seu texto se alterava de versão em versão. Como discutir então suas intenções originais? Virtualmente "desaparecida" depois de sua morte, a obra volta realmente a circular aos poucos apenas em 1850. E, embora o poeta já tivesse sido atacado em vida enquanto imitador, foi só com a publicação de meados do século passado que principiou de verdade a "questão gregoriana".
Como se poderia esperar, essa polêmica dizia amiúde menos respeito ao poeta ou aos poemas do que às preocupações dos polemistas e de seu tempo. Num primeiro momento, que cobre cerca de cem anos, há sem dúvida textos sérios, mas o que se discute em geral é menos a qualidade dos textos, seu contexto histórico e outras tantas coisas do gênero, do que seu "caráter":
Gregório é autor original ou mero plagiário? Trata-se de um grande poeta que torna grande a poesia brasileira desde seus primórdios ou será ele, alternativamente, um português ou um mulato sem relevância. Ufanemo-nos dele e do nosso país ou não?
A mudança qualitativa da querela vem na segunda metade dos anos 40, primeiro com a publicação, por parte de Segismundo Spina, de uma antologia comentada e prefaciada por um minucioso estudo favorável ao poeta, tudo isso realizado segundo critérios de discussão mais congeniais aos dias que correm. Em seguida, a posição contrária também se renova por meio de alguns estudos de Paulo Rónai, que não tanto repete os velhos argumentos quanto os modifica ao repô-los em bases filológicas e estilísticas mais seguras.
Uma observação contundente, porém, que João Carlos Teixeira Gomes faz em seu "Gregório de Matos - O Boca-de-Brasa", é a de que nem uma vez sequer usa Rónai, para se referir ao poeta, o termo "barroco". Pode-se argumentar que o crítico húngaro formou-se num país e num período quando esse nome era sinônimo de decadência não só literária, mas social, econômica, nacional. Isso talvez ajude a explicar a posição de Rónai que, defensor de primeira hora de Drummond e de Guimarães Rosa, não pode ser qualificado de literato conservador.
Em todo caso, a omissão de Rónai demarca o signo sob o qual a polêmica viria a continuar e segue se travando: o da importância do barroco. A reavaliação do barroco, efetuada sobretudo nos anos 20, por gente como T.S. Eliot na Inglaterra, García Lorca na Espanha e Walter Benjamin na Alemanha, foi mais do que uma discussão meramente erudita e resumia, à sua maneira, muitos dos pontos programáticos do modernismo internacional. A partir dos anos 50, a "questão gregoriana" que inicialmente pouco tinha a ver com isso tudo, revestiu-se também desse significado que no Brasil parece agora ser o central. Esse é seguramente o tema principal do estudo de Haroldo de Campos, como se pode ver até mesmo em seu título —"O Sequestro do Barroco".
Ser hoje contra ou a favor de Gregório implica principalmente tomar partido num debate sobre o barroco, seu significado e sua relevância para a literatura moderna. É claro que há outras discussões paralelas como, segundo o gosto de nosso tempo, sobre o sentido político da obra de Gregório, se suas sátiras são, de acordo com os padrões de sua época ou da nossa, anticolonialistas, progressistas, talvez revolucionárias, ou conformistas, reacionárias e mesmo racistas. É justo que estas e outras questões sejam esmiuçadas e é provável que encontrem tão pouca resolução, ou pelo menos consenso, quanto as mais antigas. Para todos os efeitos, quanto mais "sub judice", mais presente a obra contestada de Gregório se torna na literatura brasileira, embora sua presença se configure sob a forma do paradoxo —provavelmente perpétuo.
Original e revolucionário.
(in Caderno Mais!, Folha de São Paulo, 20/10/96)
Leia obra poética de Nelson Ascher
Desde sua morte, há prováveis 300 anos, até os dias de hoje, a pessoa e a poesia de Gregório de Matos são objeto de uma polêmica ininterrupta Gregório de Matos e Guerra, cujo tricentenário da morte ocorre provavelmente no presente ano, é geralmente considerado a figura literária mais relevante do Brasil colonial. Ainda assim, o Boca do Inferno encontra-se há cerca de 150 anos num purgatório crítico, depois de ter passado outros tantos numa espécie de limbo. Tão ou mais célebre do que o satirista barroco é a ininterrupta polêmica que, por século e meio, mas, de certa forma, há já, pelo menos, três séculos, tem posto em questão tudo que diz respeito à sua pessoa, obra, reputação, época etc.
Nascido em Salvador, talvez em 1636, ou seja, há 360 anos, ele teria estudado na Bahia e em Portugal (Coimbra), e vivido dos dois lados do Atlântico, numa trajetória que incluiria um exílio em Angola, algo que, segundo a lenda, decorreria de uma reação de autoridades ofendidas pela virulência de suas sátiras. Julga-se que, já de retorno ao Brasil, teria morrido no Recife em 1696 ou 1695 (a segunda hipótese é defendida pelo historiador Fernando da Rocha Peres em texto nesta página).
A primeira "biografia" foi escrita um século depois. Acerca de sua vida há, portanto, pouquíssimos fatos, bastante conjetura e muito mais ignorância.
Os mistérios que cercam sua obra são ainda maiores, pois, enquanto vivia o provável autor, seus poemas — jamais recolhidos por ele mesmo num volume autógrafo — circularam em folhas soltas, copiados e recopiados à mão, e seu texto se alterava de versão em versão. Como discutir então suas intenções originais? Virtualmente "desaparecida" depois de sua morte, a obra volta realmente a circular aos poucos apenas em 1850. E, embora o poeta já tivesse sido atacado em vida enquanto imitador, foi só com a publicação de meados do século passado que principiou de verdade a "questão gregoriana".
Como se poderia esperar, essa polêmica dizia amiúde menos respeito ao poeta ou aos poemas do que às preocupações dos polemistas e de seu tempo. Num primeiro momento, que cobre cerca de cem anos, há sem dúvida textos sérios, mas o que se discute em geral é menos a qualidade dos textos, seu contexto histórico e outras tantas coisas do gênero, do que seu "caráter":
Gregório é autor original ou mero plagiário? Trata-se de um grande poeta que torna grande a poesia brasileira desde seus primórdios ou será ele, alternativamente, um português ou um mulato sem relevância. Ufanemo-nos dele e do nosso país ou não?
A mudança qualitativa da querela vem na segunda metade dos anos 40, primeiro com a publicação, por parte de Segismundo Spina, de uma antologia comentada e prefaciada por um minucioso estudo favorável ao poeta, tudo isso realizado segundo critérios de discussão mais congeniais aos dias que correm. Em seguida, a posição contrária também se renova por meio de alguns estudos de Paulo Rónai, que não tanto repete os velhos argumentos quanto os modifica ao repô-los em bases filológicas e estilísticas mais seguras.
Uma observação contundente, porém, que João Carlos Teixeira Gomes faz em seu "Gregório de Matos - O Boca-de-Brasa", é a de que nem uma vez sequer usa Rónai, para se referir ao poeta, o termo "barroco". Pode-se argumentar que o crítico húngaro formou-se num país e num período quando esse nome era sinônimo de decadência não só literária, mas social, econômica, nacional. Isso talvez ajude a explicar a posição de Rónai que, defensor de primeira hora de Drummond e de Guimarães Rosa, não pode ser qualificado de literato conservador.
Em todo caso, a omissão de Rónai demarca o signo sob o qual a polêmica viria a continuar e segue se travando: o da importância do barroco. A reavaliação do barroco, efetuada sobretudo nos anos 20, por gente como T.S. Eliot na Inglaterra, García Lorca na Espanha e Walter Benjamin na Alemanha, foi mais do que uma discussão meramente erudita e resumia, à sua maneira, muitos dos pontos programáticos do modernismo internacional. A partir dos anos 50, a "questão gregoriana" que inicialmente pouco tinha a ver com isso tudo, revestiu-se também desse significado que no Brasil parece agora ser o central. Esse é seguramente o tema principal do estudo de Haroldo de Campos, como se pode ver até mesmo em seu título —"O Sequestro do Barroco".
Ser hoje contra ou a favor de Gregório implica principalmente tomar partido num debate sobre o barroco, seu significado e sua relevância para a literatura moderna. É claro que há outras discussões paralelas como, segundo o gosto de nosso tempo, sobre o sentido político da obra de Gregório, se suas sátiras são, de acordo com os padrões de sua época ou da nossa, anticolonialistas, progressistas, talvez revolucionárias, ou conformistas, reacionárias e mesmo racistas. É justo que estas e outras questões sejam esmiuçadas e é provável que encontrem tão pouca resolução, ou pelo menos consenso, quanto as mais antigas. Para todos os efeitos, quanto mais "sub judice", mais presente a obra contestada de Gregório se torna na literatura brasileira, embora sua presença se configure sob a forma do paradoxo —provavelmente perpétuo.
Original e revolucionário.
(in Caderno Mais!, Folha de São Paulo, 20/10/96)
Leia obra poética de Nelson Ascher
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1
Nelson Ascher
O purgatório do Boca do Inferno
Mistérios gregorianos
Desde sua morte, há prováveis 300 anos, até os dias de hoje, a pessoa e a poesia de Gregório de Matos são objeto de uma polêmica ininterrupta Gregório de Matos e Guerra, cujo tricentenário da morte ocorre provavelmente no presente ano, é geralmente considerado a figura literária mais relevante do Brasil colonial. Ainda assim, o Boca do Inferno encontra-se há cerca de 150 anos num purgatório crítico, depois de ter passado outros tantos numa espécie de limbo. Tão ou mais célebre do que o satirista barroco é a ininterrupta polêmica que, por século e meio, mas, de certa forma, há já, pelo menos, três séculos, tem posto em questão tudo que diz respeito à sua pessoa, obra, reputação, época etc.
Nascido em Salvador, talvez em 1636, ou seja, há 360 anos, ele teria estudado na Bahia e em Portugal (Coimbra), e vivido dos dois lados do Atlântico, numa trajetória que incluiria um exílio em Angola, algo que, segundo a lenda, decorreria de uma reação de autoridades ofendidas pela virulência de suas sátiras. Julga-se que, já de retorno ao Brasil, teria morrido no Recife em 1696 ou 1695 (a segunda hipótese é defendida pelo historiador Fernando da Rocha Peres em texto nesta página).
A primeira "biografia" foi escrita um século depois. Acerca de sua vida há, portanto, pouquíssimos fatos, bastante conjetura e muito mais ignorância.
Os mistérios que cercam sua obra são ainda maiores, pois, enquanto vivia o provável autor, seus poemas — jamais recolhidos por ele mesmo num volume autógrafo — circularam em folhas soltas, copiados e recopiados à mão, e seu texto se alterava de versão em versão. Como discutir então suas intenções originais? Virtualmente "desaparecida" depois de sua morte, a obra volta realmente a circular aos poucos apenas em 1850. E, embora o poeta já tivesse sido atacado em vida enquanto imitador, foi só com a publicação de meados do século passado que principiou de verdade a "questão gregoriana".
Como se poderia esperar, essa polêmica dizia amiúde menos respeito ao poeta ou aos poemas do que às preocupações dos polemistas e de seu tempo. Num primeiro momento, que cobre cerca de cem anos, há sem dúvida textos sérios, mas o que se discute em geral é menos a qualidade dos textos, seu contexto histórico e outras tantas coisas do gênero, do que seu "caráter":
Gregório é autor original ou mero plagiário? Trata-se de um grande poeta que torna grande a poesia brasileira desde seus primórdios ou será ele, alternativamente, um português ou um mulato sem relevância. Ufanemo-nos dele e do nosso país ou não?
A mudança qualitativa da querela vem na segunda metade dos anos 40, primeiro com a publicação, por parte de Segismundo Spina, de uma antologia comentada e prefaciada por um minucioso estudo favorável ao poeta, tudo isso realizado segundo critérios de discussão mais congeniais aos dias que correm. Em seguida, a posição contrária também se renova por meio de alguns estudos de Paulo Rónai, que não tanto repete os velhos argumentos quanto os modifica ao repô-los em bases filológicas e estilísticas mais seguras.
Uma observação contundente, porém, que João Carlos Teixeira Gomes faz em seu "Gregório de Matos - O Boca-de-Brasa", é a de que nem uma vez sequer usa Rónai, para se referir ao poeta, o termo "barroco". Pode-se argumentar que o crítico húngaro formou-se num país e num período quando esse nome era sinônimo de decadência não só literária, mas social, econômica, nacional. Isso talvez ajude a explicar a posição de Rónai que, defensor de primeira hora de Drummond e de Guimarães Rosa, não pode ser qualificado de literato conservador.
Em todo caso, a omissão de Rónai demarca o signo sob o qual a polêmica viria a continuar e segue se travando: o da importância do barroco. A reavaliação do barroco, efetuada sobretudo nos anos 20, por gente como T.S. Eliot na Inglaterra, García Lorca na Espanha e Walter Benjamin na Alemanha, foi mais do que uma discussão meramente erudita e resumia, à sua maneira, muitos dos pontos programáticos do modernismo internacional. A partir dos anos 50, a "questão gregoriana" que inicialmente pouco tinha a ver com isso tudo, revestiu-se também desse significado que no Brasil parece agora ser o central. Esse é seguramente o tema principal do estudo de Haroldo de Campos, como se pode ver até mesmo em seu título —"O Sequestro do Barroco".
Ser hoje contra ou a favor de Gregório implica principalmente tomar partido num debate sobre o barroco, seu significado e sua relevância para a literatura moderna. É claro que há outras discussões paralelas como, segundo o gosto de nosso tempo, sobre o sentido político da obra de Gregório, se suas sátiras são, de acordo com os padrões de sua época ou da nossa, anticolonialistas, progressistas, talvez revolucionárias, ou conformistas, reacionárias e mesmo racistas. É justo que estas e outras questões sejam esmiuçadas e é provável que encontrem tão pouca resolução, ou pelo menos consenso, quanto as mais antigas. Para todos os efeitos, quanto mais "sub judice", mais presente a obra contestada de Gregório se torna na literatura brasileira, embora sua presença se configure sob a forma do paradoxo —provavelmente perpétuo.
Original e revolucionário.
(in Caderno Mais!, Folha de São Paulo, 20/10/96)
Leia obra poética de Nelson Ascher
Desde sua morte, há prováveis 300 anos, até os dias de hoje, a pessoa e a poesia de Gregório de Matos são objeto de uma polêmica ininterrupta Gregório de Matos e Guerra, cujo tricentenário da morte ocorre provavelmente no presente ano, é geralmente considerado a figura literária mais relevante do Brasil colonial. Ainda assim, o Boca do Inferno encontra-se há cerca de 150 anos num purgatório crítico, depois de ter passado outros tantos numa espécie de limbo. Tão ou mais célebre do que o satirista barroco é a ininterrupta polêmica que, por século e meio, mas, de certa forma, há já, pelo menos, três séculos, tem posto em questão tudo que diz respeito à sua pessoa, obra, reputação, época etc.
Nascido em Salvador, talvez em 1636, ou seja, há 360 anos, ele teria estudado na Bahia e em Portugal (Coimbra), e vivido dos dois lados do Atlântico, numa trajetória que incluiria um exílio em Angola, algo que, segundo a lenda, decorreria de uma reação de autoridades ofendidas pela virulência de suas sátiras. Julga-se que, já de retorno ao Brasil, teria morrido no Recife em 1696 ou 1695 (a segunda hipótese é defendida pelo historiador Fernando da Rocha Peres em texto nesta página).
A primeira "biografia" foi escrita um século depois. Acerca de sua vida há, portanto, pouquíssimos fatos, bastante conjetura e muito mais ignorância.
Os mistérios que cercam sua obra são ainda maiores, pois, enquanto vivia o provável autor, seus poemas — jamais recolhidos por ele mesmo num volume autógrafo — circularam em folhas soltas, copiados e recopiados à mão, e seu texto se alterava de versão em versão. Como discutir então suas intenções originais? Virtualmente "desaparecida" depois de sua morte, a obra volta realmente a circular aos poucos apenas em 1850. E, embora o poeta já tivesse sido atacado em vida enquanto imitador, foi só com a publicação de meados do século passado que principiou de verdade a "questão gregoriana".
Como se poderia esperar, essa polêmica dizia amiúde menos respeito ao poeta ou aos poemas do que às preocupações dos polemistas e de seu tempo. Num primeiro momento, que cobre cerca de cem anos, há sem dúvida textos sérios, mas o que se discute em geral é menos a qualidade dos textos, seu contexto histórico e outras tantas coisas do gênero, do que seu "caráter":
Gregório é autor original ou mero plagiário? Trata-se de um grande poeta que torna grande a poesia brasileira desde seus primórdios ou será ele, alternativamente, um português ou um mulato sem relevância. Ufanemo-nos dele e do nosso país ou não?
A mudança qualitativa da querela vem na segunda metade dos anos 40, primeiro com a publicação, por parte de Segismundo Spina, de uma antologia comentada e prefaciada por um minucioso estudo favorável ao poeta, tudo isso realizado segundo critérios de discussão mais congeniais aos dias que correm. Em seguida, a posição contrária também se renova por meio de alguns estudos de Paulo Rónai, que não tanto repete os velhos argumentos quanto os modifica ao repô-los em bases filológicas e estilísticas mais seguras.
Uma observação contundente, porém, que João Carlos Teixeira Gomes faz em seu "Gregório de Matos - O Boca-de-Brasa", é a de que nem uma vez sequer usa Rónai, para se referir ao poeta, o termo "barroco". Pode-se argumentar que o crítico húngaro formou-se num país e num período quando esse nome era sinônimo de decadência não só literária, mas social, econômica, nacional. Isso talvez ajude a explicar a posição de Rónai que, defensor de primeira hora de Drummond e de Guimarães Rosa, não pode ser qualificado de literato conservador.
Em todo caso, a omissão de Rónai demarca o signo sob o qual a polêmica viria a continuar e segue se travando: o da importância do barroco. A reavaliação do barroco, efetuada sobretudo nos anos 20, por gente como T.S. Eliot na Inglaterra, García Lorca na Espanha e Walter Benjamin na Alemanha, foi mais do que uma discussão meramente erudita e resumia, à sua maneira, muitos dos pontos programáticos do modernismo internacional. A partir dos anos 50, a "questão gregoriana" que inicialmente pouco tinha a ver com isso tudo, revestiu-se também desse significado que no Brasil parece agora ser o central. Esse é seguramente o tema principal do estudo de Haroldo de Campos, como se pode ver até mesmo em seu título —"O Sequestro do Barroco".
Ser hoje contra ou a favor de Gregório implica principalmente tomar partido num debate sobre o barroco, seu significado e sua relevância para a literatura moderna. É claro que há outras discussões paralelas como, segundo o gosto de nosso tempo, sobre o sentido político da obra de Gregório, se suas sátiras são, de acordo com os padrões de sua época ou da nossa, anticolonialistas, progressistas, talvez revolucionárias, ou conformistas, reacionárias e mesmo racistas. É justo que estas e outras questões sejam esmiuçadas e é provável que encontrem tão pouca resolução, ou pelo menos consenso, quanto as mais antigas. Para todos os efeitos, quanto mais "sub judice", mais presente a obra contestada de Gregório se torna na literatura brasileira, embora sua presença se configure sob a forma do paradoxo —provavelmente perpétuo.
Original e revolucionário.
(in Caderno Mais!, Folha de São Paulo, 20/10/96)
Leia obra poética de Nelson Ascher
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Ildásio Tavares
Canto do Homem Cotidiano
Eu canto o homem vulgar, desconhecido
Da imprensa, do sucesso, da evidência
O herói da rotina,
O rei do pijama,
O magnata
Do décimo terceiro mês,
O play-boy das mariposas
O imperador da contabilidade.
Esse que passa por mim
Que nunca vi outro assim.
Esse que toma cerveja
E cheira mal quando beija.
Esse que nunca é elegante
E fede a desodorante.
Esse que compra fiado
E paga sempre atrasado.
Esse que joga no bicho
E atira a pule no lixo.
Esse que sai no jornal
Por atropelo fatal.
Esse que vai ao cinema
Para esquecer seu problema.
Esse que tem aventuras
Dentro do beco às escuras.
Esse que ensina na escola
E sempre sofre da bola.
Esse que joga pelada
E é craque da canelada.
Esse que luta e se humilha
Pra casar bem sua filha.
Esse que agüenta o rojão
Pro filho ter instrução.
Esse que só se aposenta
Quando tem mais de setenta.
Esse que vejo na rua
Falando da ida a lua.
Eu canto esse mesmo, exatamente
Esse que sonhou em, mas nunca vai
Ser:
Acrobata,
Magnata,
Psiquiatra,
Diplomata,
Astronauta,
Aristocrata.
(É simplesmente democrata)
Almirante,
Traficante,
Viajante,
Caçador de
Elefante
(Vive só como aspirante)
Pintor, compositor
Senador, sabotador
Escritor ou Diretor
(É apenas sonhador)
Pistoleiro,
Costureiro,
Terrorista,
Vigarista
Delegado,
Deputado,
Galã na tela
Ou mesmo em telenovela,
Marechal,
Industrial,
Presidente,
Onipotente,
(Ele é simplesmente gente)
E, inconsciente marcha pela vida
buscando no seu bairro
Na cidade lá do interior,
No escritório, consultório
No ginásio,
Na repartição,
Na rua, no mercado, em toda a parte
Somente uma razão
Para poder dormir com a esperança
E de manhã, na hora do encontro
Com o espelho, ao fazer a barba,
Ver o reflexo do campeão,
Mas que, na frustração cotidiana,
Vai encontrando aos poucos sua glória
Por isso eu canto a luta sem memória
Desse homem que perde, e não se ufana
De no rosário de derrotas várias
E de omissões, e condições precárias
Poder contar com uma só vitória
Que não se exprime nas mentiras tantas
Espirradas sem medo das gargantas
Mas sim no que ele vence sem saber
E não se orgulha, campeão na história
Da eterna luta de sobreviver.
Da imprensa, do sucesso, da evidência
O herói da rotina,
O rei do pijama,
O magnata
Do décimo terceiro mês,
O play-boy das mariposas
O imperador da contabilidade.
Esse que passa por mim
Que nunca vi outro assim.
Esse que toma cerveja
E cheira mal quando beija.
Esse que nunca é elegante
E fede a desodorante.
Esse que compra fiado
E paga sempre atrasado.
Esse que joga no bicho
E atira a pule no lixo.
Esse que sai no jornal
Por atropelo fatal.
Esse que vai ao cinema
Para esquecer seu problema.
Esse que tem aventuras
Dentro do beco às escuras.
Esse que ensina na escola
E sempre sofre da bola.
Esse que joga pelada
E é craque da canelada.
Esse que luta e se humilha
Pra casar bem sua filha.
Esse que agüenta o rojão
Pro filho ter instrução.
Esse que só se aposenta
Quando tem mais de setenta.
Esse que vejo na rua
Falando da ida a lua.
Eu canto esse mesmo, exatamente
Esse que sonhou em, mas nunca vai
Ser:
Acrobata,
Magnata,
Psiquiatra,
Diplomata,
Astronauta,
Aristocrata.
(É simplesmente democrata)
Almirante,
Traficante,
Viajante,
Caçador de
Elefante
(Vive só como aspirante)
Pintor, compositor
Senador, sabotador
Escritor ou Diretor
(É apenas sonhador)
Pistoleiro,
Costureiro,
Terrorista,
Vigarista
Delegado,
Deputado,
Galã na tela
Ou mesmo em telenovela,
Marechal,
Industrial,
Presidente,
Onipotente,
(Ele é simplesmente gente)
E, inconsciente marcha pela vida
buscando no seu bairro
Na cidade lá do interior,
No escritório, consultório
No ginásio,
Na repartição,
Na rua, no mercado, em toda a parte
Somente uma razão
Para poder dormir com a esperança
E de manhã, na hora do encontro
Com o espelho, ao fazer a barba,
Ver o reflexo do campeão,
Mas que, na frustração cotidiana,
Vai encontrando aos poucos sua glória
Por isso eu canto a luta sem memória
Desse homem que perde, e não se ufana
De no rosário de derrotas várias
E de omissões, e condições precárias
Poder contar com uma só vitória
Que não se exprime nas mentiras tantas
Espirradas sem medo das gargantas
Mas sim no que ele vence sem saber
E não se orgulha, campeão na história
Da eterna luta de sobreviver.
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Ildásio Tavares
Partida ao Vento
Soltei meus braços ao vento
Numa noite ventivosa;
Esperei, sem ver o tempo,
Partir sem busca de volta.
Difíceis são as raízes,
Essas que sempre sugam,
Que se penetram nos mitos
Consolidados sem luta.
O vento, ventando força
Pelos tendões dos meus braços,
Irrompeu de muito arrojo,
Invadiu meu corpo, alçando.
Da partida, de repente,
Me senti no certo arranco,
As asas me deu o vento e
Se esfuracou vendavando.
Mas mil anos de raízes
Ficando ficaram surdas
Esmiuçando seus cílios
Na profundeza do inculto.
Numa noite ventivosa;
Esperei, sem ver o tempo,
Partir sem busca de volta.
Difíceis são as raízes,
Essas que sempre sugam,
Que se penetram nos mitos
Consolidados sem luta.
O vento, ventando força
Pelos tendões dos meus braços,
Irrompeu de muito arrojo,
Invadiu meu corpo, alçando.
Da partida, de repente,
Me senti no certo arranco,
As asas me deu o vento e
Se esfuracou vendavando.
Mas mil anos de raízes
Ficando ficaram surdas
Esmiuçando seus cílios
Na profundeza do inculto.
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Capinan
Navegação Didática
Quis conhecer o rio, habituei-me às navegações.
(Se à curva não propões o barco, a preferência reta
vai dar em margens de flor ou pedra,
paralisando o curso.
Ao vôo se necessita consciência de muros.
Anterior a ser livre é experimentar limites
e daí ser projeto que se auto-edificasse
em corpo bomba que os destruísse
ou se descendo um rio, corpo sensível
que os evitasse) .
Viajando assim, vai surgir, limpa e forte,
a cidade, como nasce um dente: inevitável.
(Se à curva não propões o barco, a preferência reta
vai dar em margens de flor ou pedra,
paralisando o curso.
Ao vôo se necessita consciência de muros.
Anterior a ser livre é experimentar limites
e daí ser projeto que se auto-edificasse
em corpo bomba que os destruísse
ou se descendo um rio, corpo sensível
que os evitasse) .
Viajando assim, vai surgir, limpa e forte,
a cidade, como nasce um dente: inevitável.
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