Poemas neste tema
Outros
Luci Collin
DE SOMBREAÇÃO
quando eu vivia na casa da rua anis
os cômodos e os exemplos eram imensos
calor abatumado na água-furtada
os insetos tergiversavam
e as rãs e os sorrisos eram de cristal holoédrico
uma mão regia os contratempos
os cometas eram inexplicáveis
as uvas de cera eram jacobinas
o amuo era sustado com água vegetomineral
elogio à lerdeza e à pantofagia
baralhando as notícias do jornal
um quelônio às vezes emergia da horta
para surpresa dos anões estáticos
para desespero da tia-avó manquitola
para a emoção do mamoneiro
quando viviam todos na casa e ainda eu
os genuflexórios levavam a alturas máximas
e eram temíveis as quedas e as vertigens súbitas
e eram temíveis as asas enferrujadas
e eram temíveis os olhos búricos
os sapatos haviam conhecido todas as ruas
as sacolas haviam carregado curiosos pesos
os compassos haviam desenhado todos os círculos
os ombros haviam acumulado elegias
eu dançava para que as acácias brotassem
eu dançava para que o doce desse ponto
eu dançava para que os vértices coincidissem
eu dançava pela alma dos afogados
me impressionavam as hagiografias
me impressionavam as vidas das criadas
a prataria escurecendo me impressionava
as joias na caixa me impressionavam muito
os dentes podres
a tabuada era um tratado de versificação
os espelhos tinham valsas embutidas
o tule sinonimizava voto e desejo
os desvãos do corpo eram grandezas incertas
e grudada nos rostos e colada às mãos e à pele
e às vozes mais delicadas mais desaplaudidas
ia insistia afincava
a aula magna do tempo
os cômodos e os exemplos eram imensos
calor abatumado na água-furtada
os insetos tergiversavam
e as rãs e os sorrisos eram de cristal holoédrico
uma mão regia os contratempos
os cometas eram inexplicáveis
as uvas de cera eram jacobinas
o amuo era sustado com água vegetomineral
elogio à lerdeza e à pantofagia
baralhando as notícias do jornal
um quelônio às vezes emergia da horta
para surpresa dos anões estáticos
para desespero da tia-avó manquitola
para a emoção do mamoneiro
quando viviam todos na casa e ainda eu
os genuflexórios levavam a alturas máximas
e eram temíveis as quedas e as vertigens súbitas
e eram temíveis as asas enferrujadas
e eram temíveis os olhos búricos
os sapatos haviam conhecido todas as ruas
as sacolas haviam carregado curiosos pesos
os compassos haviam desenhado todos os círculos
os ombros haviam acumulado elegias
eu dançava para que as acácias brotassem
eu dançava para que o doce desse ponto
eu dançava para que os vértices coincidissem
eu dançava pela alma dos afogados
me impressionavam as hagiografias
me impressionavam as vidas das criadas
a prataria escurecendo me impressionava
as joias na caixa me impressionavam muito
os dentes podres
a tabuada era um tratado de versificação
os espelhos tinham valsas embutidas
o tule sinonimizava voto e desejo
os desvãos do corpo eram grandezas incertas
e grudada nos rostos e colada às mãos e à pele
e às vozes mais delicadas mais desaplaudidas
ia insistia afincava
a aula magna do tempo
714
Luci Collin
Uma tarde que cai
Quando o vemos está sentado no banco da praça
Ela está em casa presa à trama silenciosa
Na praça pássaros e flores são sinceros
Na janela pássaros são fantasmagóricos
Com o lenço do bolso ele seca o suor da testa
Ela enxuga os olhos com a manga
Ele rosna mas só por dentro
Ela supura mas nunca aos domingos
Ele lastima porque o pão é azul
Ela suspira e a tarde muda se avelhanta
Ele pergunta se as janelas são sinceras
Ela pensa em se atirar nalguma água
São fantasmagóricos os azuis que saem dos olhos
A gangrena e a borra são absolutos
Quando o vemos está em frente à TV imaterial
Ela está de costas de bruços de borco
Ele está palitando os dentes à espera
Ela vazia
Ele está entardecente e flama
Ela boia sobre a água azulíssima
Ele tosse cospe resmunga lanceia vage
Ela fez as unhas e o bolo simples
A previsão do tempo anuncia chuva
Ela toca a pedra friíssima
Ele se ofende
Ela se ofélia
Ela está em casa presa à trama silenciosa
Na praça pássaros e flores são sinceros
Na janela pássaros são fantasmagóricos
Com o lenço do bolso ele seca o suor da testa
Ela enxuga os olhos com a manga
Ele rosna mas só por dentro
Ela supura mas nunca aos domingos
Ele lastima porque o pão é azul
Ela suspira e a tarde muda se avelhanta
Ele pergunta se as janelas são sinceras
Ela pensa em se atirar nalguma água
São fantasmagóricos os azuis que saem dos olhos
A gangrena e a borra são absolutos
Quando o vemos está em frente à TV imaterial
Ela está de costas de bruços de borco
Ele está palitando os dentes à espera
Ela vazia
Ele está entardecente e flama
Ela boia sobre a água azulíssima
Ele tosse cospe resmunga lanceia vage
Ela fez as unhas e o bolo simples
A previsão do tempo anuncia chuva
Ela toca a pedra friíssima
Ele se ofende
Ela se ofélia
702
Marília Garcia
estereofonia
ESTEREOFONIA
nunca falei tão sério, disse e olhei
para cima: seu rosto no meio das gotas,
o guarda-chuva preto como uma moldura redonda
e você parado, cantando, virado para o vidro
do carro, sem ouvir mais nada
só a voz
a voz cantando no meio da chuva
e o eco no vidro do carro.
essa poderia ser a descrição
completa, mas o caminho mais rápido,
de um ponto a outro, ele respondeu,
eu podia ter ido embora na hora
os cílios partidos e aquela voz
cantando - mas o caminho mais rápido,
ele diz, e eu olho pra cima de novo
e lembro da cor malva
e dele dizendo que é quase
malva, tem um pingo que torna tudo
malva, mas a única cor que lembro
era o nublado daquele dia
a única cor era o
chumbo daquela vez:
eu olhei pra cima e você ia embora
pelas escadas. no último degrau
não se vira mais.
- esse poema contém 12 passos, ele diz,
e eu saio contando a distância
enquanto caminho dizendo o poema de cor,
mas daquele dia só me lembro
da cor de chumbo e a voz
em eco no vidro do carro.
olho para cima outra vez
e vejo sempre o mesmo
guarda-chuva preto, moldura para
descongelar cada um dos degraus,
para descongelar a ordem
do verso seguinte:
panorâmica, golpe e caixa-preta.
você vai sempre pelo som?
- que som?
nunca falei tão sério, disse e olhei
para cima: seu rosto no meio das gotas,
o guarda-chuva preto como uma moldura redonda
e você parado, cantando, virado para o vidro
do carro, sem ouvir mais nada
só a voz
a voz cantando no meio da chuva
e o eco no vidro do carro.
essa poderia ser a descrição
completa, mas o caminho mais rápido,
de um ponto a outro, ele respondeu,
eu podia ter ido embora na hora
os cílios partidos e aquela voz
cantando - mas o caminho mais rápido,
ele diz, e eu olho pra cima de novo
e lembro da cor malva
e dele dizendo que é quase
malva, tem um pingo que torna tudo
malva, mas a única cor que lembro
era o nublado daquele dia
a única cor era o
chumbo daquela vez:
eu olhei pra cima e você ia embora
pelas escadas. no último degrau
não se vira mais.
- esse poema contém 12 passos, ele diz,
e eu saio contando a distância
enquanto caminho dizendo o poema de cor,
mas daquele dia só me lembro
da cor de chumbo e a voz
em eco no vidro do carro.
olho para cima outra vez
e vejo sempre o mesmo
guarda-chuva preto, moldura para
descongelar cada um dos degraus,
para descongelar a ordem
do verso seguinte:
panorâmica, golpe e caixa-preta.
você vai sempre pelo som?
- que som?
650
Marília Garcia
estereofonia
ESTEREOFONIA
nunca falei tão sério, disse e olhei
para cima: seu rosto no meio das gotas,
o guarda-chuva preto como uma moldura redonda
e você parado, cantando, virado para o vidro
do carro, sem ouvir mais nada
só a voz
a voz cantando no meio da chuva
e o eco no vidro do carro.
essa poderia ser a descrição
completa, mas o caminho mais rápido,
de um ponto a outro, ele respondeu,
eu podia ter ido embora na hora
os cílios partidos e aquela voz
cantando - mas o caminho mais rápido,
ele diz, e eu olho pra cima de novo
e lembro da cor malva
e dele dizendo que é quase
malva, tem um pingo que torna tudo
malva, mas a única cor que lembro
era o nublado daquele dia
a única cor era o
chumbo daquela vez:
eu olhei pra cima e você ia embora
pelas escadas. no último degrau
não se vira mais.
- esse poema contém 12 passos, ele diz,
e eu saio contando a distância
enquanto caminho dizendo o poema de cor,
mas daquele dia só me lembro
da cor de chumbo e a voz
em eco no vidro do carro.
olho para cima outra vez
e vejo sempre o mesmo
guarda-chuva preto, moldura para
descongelar cada um dos degraus,
para descongelar a ordem
do verso seguinte:
panorâmica, golpe e caixa-preta.
você vai sempre pelo som?
- que som?
nunca falei tão sério, disse e olhei
para cima: seu rosto no meio das gotas,
o guarda-chuva preto como uma moldura redonda
e você parado, cantando, virado para o vidro
do carro, sem ouvir mais nada
só a voz
a voz cantando no meio da chuva
e o eco no vidro do carro.
essa poderia ser a descrição
completa, mas o caminho mais rápido,
de um ponto a outro, ele respondeu,
eu podia ter ido embora na hora
os cílios partidos e aquela voz
cantando - mas o caminho mais rápido,
ele diz, e eu olho pra cima de novo
e lembro da cor malva
e dele dizendo que é quase
malva, tem um pingo que torna tudo
malva, mas a única cor que lembro
era o nublado daquele dia
a única cor era o
chumbo daquela vez:
eu olhei pra cima e você ia embora
pelas escadas. no último degrau
não se vira mais.
- esse poema contém 12 passos, ele diz,
e eu saio contando a distância
enquanto caminho dizendo o poema de cor,
mas daquele dia só me lembro
da cor de chumbo e a voz
em eco no vidro do carro.
olho para cima outra vez
e vejo sempre o mesmo
guarda-chuva preto, moldura para
descongelar cada um dos degraus,
para descongelar a ordem
do verso seguinte:
panorâmica, golpe e caixa-preta.
você vai sempre pelo som?
- que som?
650
Ricardo Aleixo
E rir à solta e não morrer
Poder morrer
Ainda no ventre
da mulher
que me pariu.
E não ter
morrido lá.
Poder morrer
de algum veneno
que alguém
insuflou num fruto
que eu menino
colheria enquanto
brincava sozinho.
E não morrer.
Poder morrer
Adolescente sob
as patas distraídas
de uma esquina
de domingo.
E rir à solta e
não morrer.
Poder morrer
num dia quente,
tudo já seco
por dentro, e a
cidade e o mundo
alheios. Não morri
num dia assim.
Poder morrer
de tantas formas
e não ter morrido
nunca nenhum
desses tantos anos
que eu vivo
aqui entre
os humanos.
Ainda no ventre
da mulher
que me pariu.
E não ter
morrido lá.
Poder morrer
de algum veneno
que alguém
insuflou num fruto
que eu menino
colheria enquanto
brincava sozinho.
E não morrer.
Poder morrer
Adolescente sob
as patas distraídas
de uma esquina
de domingo.
E rir à solta e
não morrer.
Poder morrer
num dia quente,
tudo já seco
por dentro, e a
cidade e o mundo
alheios. Não morri
num dia assim.
Poder morrer
de tantas formas
e não ter morrido
nunca nenhum
desses tantos anos
que eu vivo
aqui entre
os humanos.
735
Marília Garcia
terremoto
um terremoto replicando
por vários dias,
à noite as luzes de néon paradas
e, na manhã seguinte,
a tremedeira outra vez.
você pensa que o futuro
ainda não chegou, mas
de repente o terremoto
replicando faz tremer a língua
os dentes e tudo o que é
matéria.
por mais que use as palmas
para cobrir os ouvidos,
a ternura — o que você quer dizer? —
aliás, a tremura chega
arrastando tudo.
era como um país virando mar
um terremoto replicando
sem parar. se as réplicas consistem
em tremedeiras, e se uma língua é desenhada
fora das linhas,
como conciliar o
inconciliável?, pergunto
no momento de maior
desligamento e
ele responde:
— agora o seu wasabi
tem radioatividade.
essa cor brilhante,
de um verde quase prata,
era como a luz batendo no mar
bem na hora em que o chão —
e tudo recomeça.
quero pedir
silêncio, mas não sei lidar
com o imponderável.
um dia acordo
e não espero
mais resposta.
por vários dias,
à noite as luzes de néon paradas
e, na manhã seguinte,
a tremedeira outra vez.
você pensa que o futuro
ainda não chegou, mas
de repente o terremoto
replicando faz tremer a língua
os dentes e tudo o que é
matéria.
por mais que use as palmas
para cobrir os ouvidos,
a ternura — o que você quer dizer? —
aliás, a tremura chega
arrastando tudo.
era como um país virando mar
um terremoto replicando
sem parar. se as réplicas consistem
em tremedeiras, e se uma língua é desenhada
fora das linhas,
como conciliar o
inconciliável?, pergunto
no momento de maior
desligamento e
ele responde:
— agora o seu wasabi
tem radioatividade.
essa cor brilhante,
de um verde quase prata,
era como a luz batendo no mar
bem na hora em que o chão —
e tudo recomeça.
quero pedir
silêncio, mas não sei lidar
com o imponderável.
um dia acordo
e não espero
mais resposta.
995
Marília Garcia
terremoto
um terremoto replicando
por vários dias,
à noite as luzes de néon paradas
e, na manhã seguinte,
a tremedeira outra vez.
você pensa que o futuro
ainda não chegou, mas
de repente o terremoto
replicando faz tremer a língua
os dentes e tudo o que é
matéria.
por mais que use as palmas
para cobrir os ouvidos,
a ternura — o que você quer dizer? —
aliás, a tremura chega
arrastando tudo.
era como um país virando mar
um terremoto replicando
sem parar. se as réplicas consistem
em tremedeiras, e se uma língua é desenhada
fora das linhas,
como conciliar o
inconciliável?, pergunto
no momento de maior
desligamento e
ele responde:
— agora o seu wasabi
tem radioatividade.
essa cor brilhante,
de um verde quase prata,
era como a luz batendo no mar
bem na hora em que o chão —
e tudo recomeça.
quero pedir
silêncio, mas não sei lidar
com o imponderável.
um dia acordo
e não espero
mais resposta.
por vários dias,
à noite as luzes de néon paradas
e, na manhã seguinte,
a tremedeira outra vez.
você pensa que o futuro
ainda não chegou, mas
de repente o terremoto
replicando faz tremer a língua
os dentes e tudo o que é
matéria.
por mais que use as palmas
para cobrir os ouvidos,
a ternura — o que você quer dizer? —
aliás, a tremura chega
arrastando tudo.
era como um país virando mar
um terremoto replicando
sem parar. se as réplicas consistem
em tremedeiras, e se uma língua é desenhada
fora das linhas,
como conciliar o
inconciliável?, pergunto
no momento de maior
desligamento e
ele responde:
— agora o seu wasabi
tem radioatividade.
essa cor brilhante,
de um verde quase prata,
era como a luz batendo no mar
bem na hora em que o chão —
e tudo recomeça.
quero pedir
silêncio, mas não sei lidar
com o imponderável.
um dia acordo
e não espero
mais resposta.
995
Marília Garcia
uma mulher que se afoga
coloco a mão sobre o seu joelho
e você me olha de frente
mas depois vira de lado ajeitando o
retrovisor por causa da chuva e eu quero dizer que aquela
frase era de uma canção, a mesma que você tinha usado
em outro lugar, então de novo você me olha
de frente
e sorri interrogando
minha expressão sempre confusa
e eu queria dizer que na viagem fraquejei
que tenho medo de enlouquecer
que tenho medo do que está
por vir mas acabo contando a história
do homem que perguntava
você me ama?
depois de anos casado com a mesma mulher
e ela dizia
não
e ele com aquela música repetindo na cabeça
aquela música sem parar tocando
ao fundo ecoando
e ela
não
e ele perguntava
será que eu sou louco?
perguntava depois que o barco na enseada
ela indo embora, fugindo
eu sou louco?
perguntava depois do acidente, do barco apagando
bajo la lluvia, 24 vezes a mesma carta enviada com o nome dela
e o telefone chamando
na bolsa
hoje ela me viu na rua e veio contar
o que tinha acontecido: vontade de gritar
vai embora daqui
não quero mais ouvir essa voz
e ela falando sem parar e eu
coloco a mão sobre seu joelho e você
me olha na hora e ela dizendo na rua que
não tinha me reconhecido
antes
por que então veio falar comigo?
mas não digo só penso e aquele silêncio
e ela dizendo que foi
por acaso
tudo bem
de agora em diante
e eu pensando não me lembro o que dizer
nessas horas, não suporto, será que um dia?,
e você coloca a mão sobre o meu joelho e eu
olho para você de frente, ainda ouvindo canção
pergunta gritos de
afogamento
será que eu sou louco?
e digo que você é uma das poucas
pessoas que quero que fiquem aqui
e você me responde
nunca sonhei em conhecer alguém
como você
e eu olho de volta e digo
você sabe que ninguém nunca
segurou minha mão assim?
você vira de lado ajeitando
o retrovisor e se projeta pra ultrapassar
o carro da frente.
e você me olha de frente
mas depois vira de lado ajeitando o
retrovisor por causa da chuva e eu quero dizer que aquela
frase era de uma canção, a mesma que você tinha usado
em outro lugar, então de novo você me olha
de frente
e sorri interrogando
minha expressão sempre confusa
e eu queria dizer que na viagem fraquejei
que tenho medo de enlouquecer
que tenho medo do que está
por vir mas acabo contando a história
do homem que perguntava
você me ama?
depois de anos casado com a mesma mulher
e ela dizia
não
e ele com aquela música repetindo na cabeça
aquela música sem parar tocando
ao fundo ecoando
e ela
não
e ele perguntava
será que eu sou louco?
perguntava depois que o barco na enseada
ela indo embora, fugindo
eu sou louco?
perguntava depois do acidente, do barco apagando
bajo la lluvia, 24 vezes a mesma carta enviada com o nome dela
e o telefone chamando
na bolsa
hoje ela me viu na rua e veio contar
o que tinha acontecido: vontade de gritar
vai embora daqui
não quero mais ouvir essa voz
e ela falando sem parar e eu
coloco a mão sobre seu joelho e você
me olha na hora e ela dizendo na rua que
não tinha me reconhecido
antes
por que então veio falar comigo?
mas não digo só penso e aquele silêncio
e ela dizendo que foi
por acaso
tudo bem
de agora em diante
e eu pensando não me lembro o que dizer
nessas horas, não suporto, será que um dia?,
e você coloca a mão sobre o meu joelho e eu
olho para você de frente, ainda ouvindo canção
pergunta gritos de
afogamento
será que eu sou louco?
e digo que você é uma das poucas
pessoas que quero que fiquem aqui
e você me responde
nunca sonhei em conhecer alguém
como você
e eu olho de volta e digo
você sabe que ninguém nunca
segurou minha mão assim?
você vira de lado ajeitando
o retrovisor e se projeta pra ultrapassar
o carro da frente.
731
Marília Garcia
uma mulher que se afoga
coloco a mão sobre o seu joelho
e você me olha de frente
mas depois vira de lado ajeitando o
retrovisor por causa da chuva e eu quero dizer que aquela
frase era de uma canção, a mesma que você tinha usado
em outro lugar, então de novo você me olha
de frente
e sorri interrogando
minha expressão sempre confusa
e eu queria dizer que na viagem fraquejei
que tenho medo de enlouquecer
que tenho medo do que está
por vir mas acabo contando a história
do homem que perguntava
você me ama?
depois de anos casado com a mesma mulher
e ela dizia
não
e ele com aquela música repetindo na cabeça
aquela música sem parar tocando
ao fundo ecoando
e ela
não
e ele perguntava
será que eu sou louco?
perguntava depois que o barco na enseada
ela indo embora, fugindo
eu sou louco?
perguntava depois do acidente, do barco apagando
bajo la lluvia, 24 vezes a mesma carta enviada com o nome dela
e o telefone chamando
na bolsa
hoje ela me viu na rua e veio contar
o que tinha acontecido: vontade de gritar
vai embora daqui
não quero mais ouvir essa voz
e ela falando sem parar e eu
coloco a mão sobre seu joelho e você
me olha na hora e ela dizendo na rua que
não tinha me reconhecido
antes
por que então veio falar comigo?
mas não digo só penso e aquele silêncio
e ela dizendo que foi
por acaso
tudo bem
de agora em diante
e eu pensando não me lembro o que dizer
nessas horas, não suporto, será que um dia?,
e você coloca a mão sobre o meu joelho e eu
olho para você de frente, ainda ouvindo canção
pergunta gritos de
afogamento
será que eu sou louco?
e digo que você é uma das poucas
pessoas que quero que fiquem aqui
e você me responde
nunca sonhei em conhecer alguém
como você
e eu olho de volta e digo
você sabe que ninguém nunca
segurou minha mão assim?
você vira de lado ajeitando
o retrovisor e se projeta pra ultrapassar
o carro da frente.
e você me olha de frente
mas depois vira de lado ajeitando o
retrovisor por causa da chuva e eu quero dizer que aquela
frase era de uma canção, a mesma que você tinha usado
em outro lugar, então de novo você me olha
de frente
e sorri interrogando
minha expressão sempre confusa
e eu queria dizer que na viagem fraquejei
que tenho medo de enlouquecer
que tenho medo do que está
por vir mas acabo contando a história
do homem que perguntava
você me ama?
depois de anos casado com a mesma mulher
e ela dizia
não
e ele com aquela música repetindo na cabeça
aquela música sem parar tocando
ao fundo ecoando
e ela
não
e ele perguntava
será que eu sou louco?
perguntava depois que o barco na enseada
ela indo embora, fugindo
eu sou louco?
perguntava depois do acidente, do barco apagando
bajo la lluvia, 24 vezes a mesma carta enviada com o nome dela
e o telefone chamando
na bolsa
hoje ela me viu na rua e veio contar
o que tinha acontecido: vontade de gritar
vai embora daqui
não quero mais ouvir essa voz
e ela falando sem parar e eu
coloco a mão sobre seu joelho e você
me olha na hora e ela dizendo na rua que
não tinha me reconhecido
antes
por que então veio falar comigo?
mas não digo só penso e aquele silêncio
e ela dizendo que foi
por acaso
tudo bem
de agora em diante
e eu pensando não me lembro o que dizer
nessas horas, não suporto, será que um dia?,
e você coloca a mão sobre o meu joelho e eu
olho para você de frente, ainda ouvindo canção
pergunta gritos de
afogamento
será que eu sou louco?
e digo que você é uma das poucas
pessoas que quero que fiquem aqui
e você me responde
nunca sonhei em conhecer alguém
como você
e eu olho de volta e digo
você sabe que ninguém nunca
segurou minha mão assim?
você vira de lado ajeitando
o retrovisor e se projeta pra ultrapassar
o carro da frente.
731
Marília Garcia
plano b
hola, spleen, disse. nos cruzamos em
uma lagoa de atol. sentada no banco de trás
olhava pelo vidro azul cobalto
a 3000 quilômetros do ponto em
que o deixara.
hola, spleen, disse. você ainda vai me ver
três vezes antes do fim. uma linha esconde
outra linha, a voz esconde o que pré-
existe entre os dois. pensava na carta sem remetente
em alguma maneira de dizer pensava nas
esculturas sonoras (não havia
um plano c? para onde
seguia)
era como descobrir o sulco
fechado de um disco e ficar
rodando no loop daquela melodia
circular. precisa de uma língua
que defina isso
hola, spleen, disse.
mas não falava da latitude
no mapa, eram peixes
no fundo do oceano com a cartilagem
luminosa derretendo nos olhos
e a única preocupação quando
entrou era o som por detrás da voz dela:
saber se está triste há um ano
ou há 24 horas.
(na volta, passa a colecionar
objetos. a vingança começa num
aquário:
é como furar a realidade
com a realidade, ele dizia, ficar no quarto
medindo o nível do mar
para descobrir onde pôr
os peixes)
uma lagoa de atol. sentada no banco de trás
olhava pelo vidro azul cobalto
a 3000 quilômetros do ponto em
que o deixara.
hola, spleen, disse. você ainda vai me ver
três vezes antes do fim. uma linha esconde
outra linha, a voz esconde o que pré-
existe entre os dois. pensava na carta sem remetente
em alguma maneira de dizer pensava nas
esculturas sonoras (não havia
um plano c? para onde
seguia)
era como descobrir o sulco
fechado de um disco e ficar
rodando no loop daquela melodia
circular. precisa de uma língua
que defina isso
hola, spleen, disse.
mas não falava da latitude
no mapa, eram peixes
no fundo do oceano com a cartilagem
luminosa derretendo nos olhos
e a única preocupação quando
entrou era o som por detrás da voz dela:
saber se está triste há um ano
ou há 24 horas.
(na volta, passa a colecionar
objetos. a vingança começa num
aquário:
é como furar a realidade
com a realidade, ele dizia, ficar no quarto
medindo o nível do mar
para descobrir onde pôr
os peixes)
638
Ricardo Aleixo
Paupéria revisitada
Putas, como os deuses,
vendem quando dão.
Poetas, não.
Policiais e pistoleiros
vendem segurança
(isto é, vingança ou proteção).
Poetas se gabam do limbo, do veto
do censor, do exílio, da vaia
e do dinheiro não).
Poesia é pão (para
o espírito, se diz), mas atenção:
o padeiro da esquina balofa
vive do que faz; o mais
fino poeta, não.
Poetas dão de graça
o ar de sua graça
(e ainda troçam
na companhia das traças
de tal “nobre condição”).
Pastores e padres vendem
lotes no céu
à prestação.
Políticos compram &
(se) vendem
na primeira ocasião.
Poetas (posto que vivem
de brisa) fazem do No, thanks
seu refrão.
vendem quando dão.
Poetas, não.
Policiais e pistoleiros
vendem segurança
(isto é, vingança ou proteção).
Poetas se gabam do limbo, do veto
do censor, do exílio, da vaia
e do dinheiro não).
Poesia é pão (para
o espírito, se diz), mas atenção:
o padeiro da esquina balofa
vive do que faz; o mais
fino poeta, não.
Poetas dão de graça
o ar de sua graça
(e ainda troçam
na companhia das traças
de tal “nobre condição”).
Pastores e padres vendem
lotes no céu
à prestação.
Políticos compram &
(se) vendem
na primeira ocasião.
Poetas (posto que vivem
de brisa) fazem do No, thanks
seu refrão.
860
Ricardo Aleixo
As metades do corpo
Marianne
Moore
apreciava animais
e atletas
em igual
escala. Motivo: o
"estilo"
das duas
espécies citadas
"é, prova
-velmente,
desleixado"; uns e
outros, dis
-se Miss
Moore numa entre
-vista,
alcançam a
"exatidão" devido
à prática
que "as
metades do corpo",
neles (nos
animais
e nos atletas que
possuem
um estilo),
adquiriram
"para se
contra
-balançarem".
Moore
apreciava animais
e atletas
em igual
escala. Motivo: o
"estilo"
das duas
espécies citadas
"é, prova
-velmente,
desleixado"; uns e
outros, dis
-se Miss
Moore numa entre
-vista,
alcançam a
"exatidão" devido
à prática
que "as
metades do corpo",
neles (nos
animais
e nos atletas que
possuem
um estilo),
adquiriram
"para se
contra
-balançarem".
435
Ricardo Aleixo
OIÁ
Repito o que
recita o vento:
que as coisas vem
a seu tempo,
que elas sabem
qual tempo é o delas,
que esse tempo
quase nunca
é o dos viventes mas
que, assim sendo,
forca é render-se
á forca delas
movendo-se folha
ao vento, rasgacéus,
deusa ciosa das coisas
que lhe ofertem
e de cada corpo quando
dance na festa
em seu nome ao vento
veja-a: resplendente
aqui, já recontando
ali-epa, Oiá-Ó!
recita o vento:
que as coisas vem
a seu tempo,
que elas sabem
qual tempo é o delas,
que esse tempo
quase nunca
é o dos viventes mas
que, assim sendo,
forca é render-se
á forca delas
movendo-se folha
ao vento, rasgacéus,
deusa ciosa das coisas
que lhe ofertem
e de cada corpo quando
dance na festa
em seu nome ao vento
veja-a: resplendente
aqui, já recontando
ali-epa, Oiá-Ó!
870
Ricardo Aleixo
Misturam-se ao rumor do mar
Misturam-se ao rumor do mar,
mas são e serão sempre o que são:
ecos de tentativas de conversa
em línguas estranhas entre elas,
dentro dos tumbeiros, a caminho
de novos sucessivos desastres.
Como ouvi-las sem tentar inter-
pretá-las, dada a total impossibi-
lidade de ignorar suas cadências,
suas inflexões, o granulado dos
seus timbres, seu quê de coisa e de
água fluindo em meio a água e mais
água e um nunca se acabar de água?
mas são e serão sempre o que são:
ecos de tentativas de conversa
em línguas estranhas entre elas,
dentro dos tumbeiros, a caminho
de novos sucessivos desastres.
Como ouvi-las sem tentar inter-
pretá-las, dada a total impossibi-
lidade de ignorar suas cadências,
suas inflexões, o granulado dos
seus timbres, seu quê de coisa e de
água fluindo em meio a água e mais
água e um nunca se acabar de água?
716
Ricardo Aleixo
Elsie sings the
Elsie Houston
morre no fim:
pílulas para dor-
mir. Mas a voz
dela escapa do
corpo sem vida
dela na forma
de um som
de cor tão cla-
rescura e rara
(Uirapuru no
breu da jângal
– ou sereia
no fundo do
mar – cantan-
do só para nin-
guém ouvir)
que ouvi-la
agora será per-
correr com
ela uma longa
trilha ao revés
(e de reveses
) até a gar-
ganta da qual
naquele vinte
do dois de mil
novecentos e
quarenta e três
ela escapará
morre no fim:
pílulas para dor-
mir. Mas a voz
dela escapa do
corpo sem vida
dela na forma
de um som
de cor tão cla-
rescura e rara
(Uirapuru no
breu da jângal
– ou sereia
no fundo do
mar – cantan-
do só para nin-
guém ouvir)
que ouvi-la
agora será per-
correr com
ela uma longa
trilha ao revés
(e de reveses
) até a gar-
ganta da qual
naquele vinte
do dois de mil
novecentos e
quarenta e três
ela escapará
718
Ricardo Aleixo
Elsie sings the
Elsie Houston
morre no fim:
pílulas para dor-
mir. Mas a voz
dela escapa do
corpo sem vida
dela na forma
de um som
de cor tão cla-
rescura e rara
(Uirapuru no
breu da jângal
– ou sereia
no fundo do
mar – cantan-
do só para nin-
guém ouvir)
que ouvi-la
agora será per-
correr com
ela uma longa
trilha ao revés
(e de reveses
) até a gar-
ganta da qual
naquele vinte
do dois de mil
novecentos e
quarenta e três
ela escapará
morre no fim:
pílulas para dor-
mir. Mas a voz
dela escapa do
corpo sem vida
dela na forma
de um som
de cor tão cla-
rescura e rara
(Uirapuru no
breu da jângal
– ou sereia
no fundo do
mar – cantan-
do só para nin-
guém ouvir)
que ouvi-la
agora será per-
correr com
ela uma longa
trilha ao revés
(e de reveses
) até a gar-
ganta da qual
naquele vinte
do dois de mil
novecentos e
quarenta e três
ela escapará
718
Renato Rezende
Recordo
Cada desejo do teu coração
Eu quero responder.
Te levo à Ibéria,
Te faço bela.
Te beijo por dentro e por fora.
(Teu corpo não tem nome)
És uma massa esparramada
Doce amor perdido.
Eu quero responder.
Te levo à Ibéria,
Te faço bela.
Te beijo por dentro e por fora.
(Teu corpo não tem nome)
És uma massa esparramada
Doce amor perdido.
1 007
Renato Rezende
Ato
O pintor avança
A mão na madeira:
Pinta uma rosa.
O poeta escreve:
Rosa vermelha,
Rosa branca.
A rosa é um símbolo
Ou pode ser um símbolo
Ou uma rosa.
O pintor se cansa
De se misturar ao mito
Ao criar.
Reflete na arte,
Com o lápis preto
Risca a rosa pintada.
O poeta pesquisa
Sua palavra na arte,
Na história.
Depois recomeçam,
O coração em pânico,
Para o desconhecido.
A mão na madeira:
Pinta uma rosa.
O poeta escreve:
Rosa vermelha,
Rosa branca.
A rosa é um símbolo
Ou pode ser um símbolo
Ou uma rosa.
O pintor se cansa
De se misturar ao mito
Ao criar.
Reflete na arte,
Com o lápis preto
Risca a rosa pintada.
O poeta pesquisa
Sua palavra na arte,
Na história.
Depois recomeçam,
O coração em pânico,
Para o desconhecido.
1 118
Renato Rezende
Ato
O pintor avança
A mão na madeira:
Pinta uma rosa.
O poeta escreve:
Rosa vermelha,
Rosa branca.
A rosa é um símbolo
Ou pode ser um símbolo
Ou uma rosa.
O pintor se cansa
De se misturar ao mito
Ao criar.
Reflete na arte,
Com o lápis preto
Risca a rosa pintada.
O poeta pesquisa
Sua palavra na arte,
Na história.
Depois recomeçam,
O coração em pânico,
Para o desconhecido.
A mão na madeira:
Pinta uma rosa.
O poeta escreve:
Rosa vermelha,
Rosa branca.
A rosa é um símbolo
Ou pode ser um símbolo
Ou uma rosa.
O pintor se cansa
De se misturar ao mito
Ao criar.
Reflete na arte,
Com o lápis preto
Risca a rosa pintada.
O poeta pesquisa
Sua palavra na arte,
Na história.
Depois recomeçam,
O coração em pânico,
Para o desconhecido.
1 118
Renato Rezende
Ato
O pintor avança
A mão na madeira:
Pinta uma rosa.
O poeta escreve:
Rosa vermelha,
Rosa branca.
A rosa é um símbolo
Ou pode ser um símbolo
Ou uma rosa.
O pintor se cansa
De se misturar ao mito
Ao criar.
Reflete na arte,
Com o lápis preto
Risca a rosa pintada.
O poeta pesquisa
Sua palavra na arte,
Na história.
Depois recomeçam,
O coração em pânico,
Para o desconhecido.
A mão na madeira:
Pinta uma rosa.
O poeta escreve:
Rosa vermelha,
Rosa branca.
A rosa é um símbolo
Ou pode ser um símbolo
Ou uma rosa.
O pintor se cansa
De se misturar ao mito
Ao criar.
Reflete na arte,
Com o lápis preto
Risca a rosa pintada.
O poeta pesquisa
Sua palavra na arte,
Na história.
Depois recomeçam,
O coração em pânico,
Para o desconhecido.
1 118
Luci Collin
READILHO
isto que é uma coisa obsoleta
o conteúdo não salvo
a alvura do tempo presente
isto diacrônico e de origem obscura
envelhecido aos doze anos
aos treze sangrando
a voz mais oca nas conversações de inocência
uma fruta incluindo meus braços
incluindo as falhas que manifesto
isto que é alagadiço e eufórico
nesta nova temporada
as palavras repousam sobre os cílios
quem vem são camaleões e votos fuscos
estes homens grandes têm passos que valem
ouros
isto é a cidade da tela que é apenas luzes e umidades
é combinação de suspiros amarfanhados
numa grande angular o tabuleiro vira a pista molhada
acusações e controvérsias não cabem
num copo
os que querem por primeiro
são os favoritos da tia rose
mas suas músicas desapareceram das jukeboxes
e os dias líquidos e enfileirados não param de rir
os remendos lutam com suas vozes de banheiro
como é possível conspirar contra o concreto
as pontes têm esta precisão encomendada
as emancipadas linhas e o subir escadarias
este chacoalhar do metrô e esta guerra
são o último gole
já em si
o conteúdo não salvo
a alvura do tempo presente
isto diacrônico e de origem obscura
envelhecido aos doze anos
aos treze sangrando
a voz mais oca nas conversações de inocência
uma fruta incluindo meus braços
incluindo as falhas que manifesto
isto que é alagadiço e eufórico
nesta nova temporada
as palavras repousam sobre os cílios
quem vem são camaleões e votos fuscos
estes homens grandes têm passos que valem
ouros
isto é a cidade da tela que é apenas luzes e umidades
é combinação de suspiros amarfanhados
numa grande angular o tabuleiro vira a pista molhada
acusações e controvérsias não cabem
num copo
os que querem por primeiro
são os favoritos da tia rose
mas suas músicas desapareceram das jukeboxes
e os dias líquidos e enfileirados não param de rir
os remendos lutam com suas vozes de banheiro
como é possível conspirar contra o concreto
as pontes têm esta precisão encomendada
as emancipadas linhas e o subir escadarias
este chacoalhar do metrô e esta guerra
são o último gole
já em si
604
Ricardo Aleixo
Cabeça de serpente
a serpente morde a própria cauda. a serpente pensa que morde a própria cauda. a serpente apenas pensa que morde a própria cauda. a serpente morde a própria cauda que pensa. a serpente morde a própria cauda suspensa. a serpente pensa que a própria cauda morde. a serpente pensa com a própria cabeça. a serpente sonha que simula o próprio silvo. a serpente sonha ser outra serpente que simula o próprio sonho e silva. a serpente pensa e silva selva adentro. a serpente sonha que pensa e no sonho pensa que as serpentes sonham. a serpente pensa que sonha e no sonho pensa o que as serpentes pensam. a serpente morde sem pensar no que pode. a serpente pensa que morde a própria causa. a serpente pensa e morde em causa própria. a serpente pensa e morde apenas o que pensa. a serpente pensa que pensa e morde o que pensa. a serpente morde o que pensa e o que morde. a serpente pensa o que pensa a serpente. a serpente se pensa enquanto serpente. a serpente se pensa enquanto ser que pensa. a serpente pensa o que pensam as serpentes. a serpente morde o que pensa a serpente. a serpente morde o que mordem as serpentes. a serpente morde o que pode. a serpente pensa em se morder. a serpente morde sem pensar o que pode. a serpente morde sem pensar o que morde o que pode. a serpente morde o que morde. a serpente morde enquanto pode. a serpente pensa sem palavras. a serpente só não pensa a palavra serpente. a serpente só não morde a palavra serpente. a serpente pode o que pode sem palavras. a serpente morde o que pode sem medir palavras. a serpente mede de cabo a rabo a própria cabeça. a serpente emite a própria sentença. a serpente morde a própria cabeça.
848
Ricardo Aleixo
Cabeça de serpente
a serpente morde a própria cauda. a serpente pensa que morde a própria cauda. a serpente apenas pensa que morde a própria cauda. a serpente morde a própria cauda que pensa. a serpente morde a própria cauda suspensa. a serpente pensa que a própria cauda morde. a serpente pensa com a própria cabeça. a serpente sonha que simula o próprio silvo. a serpente sonha ser outra serpente que simula o próprio sonho e silva. a serpente pensa e silva selva adentro. a serpente sonha que pensa e no sonho pensa que as serpentes sonham. a serpente pensa que sonha e no sonho pensa o que as serpentes pensam. a serpente morde sem pensar no que pode. a serpente pensa que morde a própria causa. a serpente pensa e morde em causa própria. a serpente pensa e morde apenas o que pensa. a serpente pensa que pensa e morde o que pensa. a serpente morde o que pensa e o que morde. a serpente pensa o que pensa a serpente. a serpente se pensa enquanto serpente. a serpente se pensa enquanto ser que pensa. a serpente pensa o que pensam as serpentes. a serpente morde o que pensa a serpente. a serpente morde o que mordem as serpentes. a serpente morde o que pode. a serpente pensa em se morder. a serpente morde sem pensar o que pode. a serpente morde sem pensar o que morde o que pode. a serpente morde o que morde. a serpente morde enquanto pode. a serpente pensa sem palavras. a serpente só não pensa a palavra serpente. a serpente só não morde a palavra serpente. a serpente pode o que pode sem palavras. a serpente morde o que pode sem medir palavras. a serpente mede de cabo a rabo a própria cabeça. a serpente emite a própria sentença. a serpente morde a própria cabeça.
848
Reynaldo Jardim
Brilhos
A palavra brilha
(repentina brilha)
onde repentina
fulgurante brilha?
Na boca do estômago,
na garganta seca,
no ar respirado,
na vulva, na teta.
Onde dá o bote
e sacode o guizo?
Na fronte, na mente,
lábios ou juízo?
É a castanhola?
Cascavel safada?
— Crótalo!
E a sua faca
já está cravada.
(repentina brilha)
onde repentina
fulgurante brilha?
Na boca do estômago,
na garganta seca,
no ar respirado,
na vulva, na teta.
Onde dá o bote
e sacode o guizo?
Na fronte, na mente,
lábios ou juízo?
É a castanhola?
Cascavel safada?
— Crótalo!
E a sua faca
já está cravada.
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