Homens
Leonilson
pintava
e
bordava.
Bispo do Rosário
colecionava
delírios
e bordava.
Lampião
tocava o terror
no sertão
e bordava.
João Cândido
punha a República
no curé
e bordava.
As metades do corpo
Marianne
Moore
apreciava animais
e atletas
em igual
escala. Motivo: o
"estilo"
das duas
espécies citadas
"é, prova
-velmente,
desleixado"; uns e
outros, dis
-se Miss
Moore numa entre
-vista,
alcançam a
"exatidão" devido
à prática
que "as
metades do corpo",
neles (nos
animais
e nos atletas que
possuem
um estilo),
adquiriram
"para se
contra
-balançarem".
OIÁ
Repito o que
recita o vento:
que as coisas vem
a seu tempo,
que elas sabem
qual tempo é o delas,
que esse tempo
quase nunca
é o dos viventes mas
que, assim sendo,
forca é render-se
á forca delas
movendo-se folha
ao vento, rasgacéus,
deusa ciosa das coisas
que lhe ofertem
e de cada corpo quando
dance na festa
em seu nome ao vento
veja-a: resplendente
aqui, já recontando
ali-epa, Oiá-Ó!
Máquina zero
Quarto dia: entendo que o q
ue preciso, se q
uero mesmo continuar a p
erambular com alguma chance de êxito p
or uma cidade ( duas ) como Berlim, é
de sapatos de largo fôlego. Caminho ( penso e
nquanto caminho ), permeável a t
udo: ao frio sol cortante, às crianças t
urcas com seu comércio informal de b
rinquedos usados, à b
eleza sem rumo da adolescente que ( longas p
ernas abertas sobre um p
rosaico selim de bicicleta ) c
avalga o c
omeço da tarde, aos grafites que “d
ariam belas fotos”, à Topografia d
o Terror, às ruínas, ao r
asta que me saúda ( “R
asta!” ) na Wilhelmstrasse, às l
ascas do Muro na vitrine da pequena l
oja, ao a
marelo-zoom do metrô a
pontando na curva a
ntes do teatro, à
História,
UMA ALEGRIA
jamais minas gerais
vibrou dentro de mim
o rumor de seu invisível mar
e o ouro puro de seu tambor
transatlântico negro
como naquele breve maio
ensolarado de alegrias
quando eu deambulava
pelos becos e ladeiras
de Coimbra e descobri
em meio aos graves portugais
os timbres de pequenas
áfricas utópicas
ali em meio aos portugais
Qualquer voz
Agora, ali, era muito antes. Consegue
imaginar a voz da moça de outro dia,
caída na rua, mas ainda respirando? Coisas
postam-se entre elas mesmas, interrompidas.
Onde começa e onde termina o olhar?
Outro verbo sem presente: morrer. Eu não
disse lembrar — imaginar foi o que eu disse.
Consegue? A voz dela, alguma voz que
você nunca ouviu, qualquer voz. Antes de
alguma coisa, ali. O olhar talvez comece
antes das pálpebras se abrirem. E acaba?
Não acaba.
Labirinto
Conheço a cidade
como a sola do meu pé.
Espírito e corpo prontos
para evitar
outros humanos polícias
carros ônibus buracos
e dejetos na calçada,
incorporo hoje o Sombra amanhã
o Homem In
visível sexta à noite
o perigoso Ninguém
e sigo.
Como os cegos
conheço o labirinto
por pisá-lo
por tê-lo
de cor na ponta dos pés
à maneira também do que
fazem uns poucos
com a bola
num futebol descalço
qualquer. Conheço a
cidade toda (a
mínima dobra retas cada borda
curvas) e nela – à
custa de me
perder – me
reconheço.
NUMA FESTA
Creio ter ouvido certo.
Alguém do grupo junto
à janela pronunciou,
enquanto eu observava,
apenas por fastio,
o deslizar de um peixe
amarelo no aquário, sozinho,
a palavra sodomita.
Nunca a ouvira antes.
Pareceu-me grave — naquele
lugar,
naquele instante e nos dias
seguintes —,
bíblica.
Paupéria revisitada
Putas, como os deuses,
vendem quando dão.
Poetas, não.
Policiais e pistoleiros
vendem segurança
(isto é, vingança ou proteção).
Poetas se gabam do limbo, do veto
do censor, do exílio, da vaia
e do dinheiro não).
Poesia é pão (para
o espírito, se diz), mas atenção:
o padeiro da esquina balofa
vive do que faz; o mais
fino poeta, não.
Poetas dão de graça
o ar de sua graça
(e ainda troçam
na companhia das traças
de tal “nobre condição”).
Pastores e padres vendem
lotes no céu
à prestação.
Políticos compram &
(se) vendem
na primeira ocasião.
Poetas (posto que vivem
de brisa) fazem do No, thanks
seu refrão.
Brancos
eles que são brancos e os que não são eles
que são machos e os que não são eles que
são adultos e os que não são eles que são
cristãos e os que não são eles que são ricos
e os que não são eles que são sãos e os que
não são todos os que são mas não acham
que são como os outros que se entendam
que se expliquem que se cuidem que se