Lista de Poemas

Noite

O menino viu
sair da boca

da mulher, talvez
sua mãe, uma voz

estrídula e lábil, que
logo desandou,

em cadência
de sonho, a quê?

– A enumerar desas-
tres já ocorridos

e por ocorrer,
a fecundar

harpias, a frisar
as marcas

da passagem
da pantera pelo quarto,

a aturdir relógios,
a enegrecer o sol

e outras mais
de tais proezas.
420

Máquina zero

Quarto dia: entendo que o q
ue preciso, se q

uero mesmo continuar a p
erambular com alguma chance de êxito p

or uma cidade ( duas ) como Berlim, é
de sapatos de largo fôlego. Caminho ( penso e

nquanto caminho ), permeável a t
udo: ao frio sol cortante, às crianças t

urcas com seu comércio informal de b
rinquedos usados, à b

eleza sem rumo da adolescente que ( longas p
ernas abertas sobre um p

rosaico selim de bicicleta ) c
avalga o c

omeço da tarde, aos grafites que “d
ariam belas fotos”, à Topografia d

o Terror, às ruínas, ao r
asta que me saúda ( “R

asta!” ) na Wilhelmstrasse, às l
ascas do Muro na vitrine da pequena l

oja, ao a
marelo-zoom do metrô a

pontando na curva a
ntes do teatro, à
 
História,
573

Estrondo para Maria Esther Maciel

Naquele entrecho
mais lento dos
dias, aqui, onde,

não importa o
modo como os pés
pisem as folhas

ao caminhar, o
barulho quebradiço
da sombra deles

(espraiada entre
a calçada e as
pedras-escombros

da casa) bem poderia,
se ouvido por
uma detalhista

como você, ser
chamado de troar,
estouro, estrondo.
662

Dedicatória

Prefiro a paciente
proeza das traças,

meu caquético rapaz,
aos versinhos

bem traçados
dos quais

te mostras capaz
(assépticos e sérios

como os de
ninguém mais).

Ah! Ler-te é
penetrar na paz

dos cemitérios.
Pelo modo como caminhas,

nota-se que ainda
respiras, mas

já entreleio,
junto aos títulos

dos teus livros,
os dois precisos

vocábulos
("Aqui jaz")

com que, um dia,
te saudarão os vivos.
481

Labirinto

Conheço a cidade
como a sola do meu pé.

Espírito e corpo prontos
para evitar

outros humanos polícias
carros ônibus buracos

e dejetos na calçada,
incorporo hoje o Sombra amanhã

o Homem In
visível sexta à noite

o perigoso Ninguém
e sigo.

Como os cegos
conheço o labirinto

por pisá-lo
por tê-lo

de cor na ponta dos pés
à maneira também do que

fazem uns poucos
com a bola

num futebol descalço
qualquer. Conheço a

cidade toda (a
mínima dobra retas cada borda

curvas) e nela – à
custa de me

perder – me
reconheço.
954

NUMA FESTA

Creio ter ouvido certo.
Alguém do grupo junto

à janela pronunciou,
enquanto eu observava,

apenas por fastio,
o deslizar de um peixe

amarelo no aquário, sozinho,
a palavra sodomita.

Nunca a ouvira antes.
Pareceu-me grave — naquele

lugar,
naquele instante e nos dias

seguintes —,
bíblica.


561

Elsie sings the

Elsie  Houston
morre no fim:
pílulas para dor-
mir. Mas a voz
dela escapa do

corpo sem vida
dela na forma
de um som
de cor tão cla-
rescura e rara

(Uirapuru no
breu da jângal
– ou sereia
no fundo do
mar – cantan-

do só para nin-
guém ouvir)
que ouvi-la
agora será per-
correr com

ela uma longa
trilha ao revés
(e de reveses
) até a gar-
ganta da qual

naquele vinte
do dois de mil
novecentos e
quarenta e três
ela escapará
690

Paupéria revisitada

Putas, como os deuses,
vendem quando dão.
Poetas, não.
Policiais e pistoleiros
vendem segurança
(isto é, vingança ou proteção).
Poetas se gabam do limbo, do veto
do censor, do exílio, da vaia
e do dinheiro não).
Poesia é pão (para
o espírito, se diz), mas atenção:
o padeiro da esquina balofa
vive do que faz; o mais
fino poeta, não.
Poetas dão de graça
o ar de sua graça
(e ainda troçam
na companhia das traças
de tal “nobre condição”).
Pastores e padres vendem
lotes no céu
à prestação.
Políticos compram &
(se) vendem
na primeira ocasião.
Poetas (posto que vivem
de brisa) fazem do No, thanks
seu refrão.
821

BISPO DO ROSÁRIO

quem fez e refez
cem vezes o

caminho do mundo
até antes

cem vezes na
cabeça o longo

trecho entre o
mar e o

céu
quem re fez o

caminho da perda
com seu manto

de
ver deus filho.
701

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Identificação e contexto básico

Ricardo Aleixo é um poeta, performer e artista visual brasileiro, nascido em Belo Horizonte. É conhecido por sua atuação na vanguarda da poesia experimental, explorando as relações entre linguagem, corpo, tecnologia e performance. Sua nacionalidade é brasileira e a língua principal de sua obra é o português.

Infância e formação

Pouca informação pública detalhada sobre sua infância e formação inicial está disponível. No entanto, é notório o seu percurso autodidata e a profunda imersão em estudos sobre linguagem, arte e tecnologia, que moldaram sua visão artística.

Percurso literário

Ricardo Aleixo iniciou sua trajetória explorando a poesia de forma experimental, logo se destacando pela originalidade de sua proposta. Seu percurso literário é intrinsecamente ligado à sua prática artística, onde a palavra é levada para além do suporte do livro, em performances e instalações. É um dos nomes mais relevantes da poesia contemporânea brasileira, com atuação internacional.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Ricardo Aleixo caracteriza-se pela experimentação radical com a linguagem poética. Ele frequentemente desconstrói a palavra, o som e o corpo, utilizando-os como matéria-prima para performances, instalações sonoras e textos. Temas como a memória, a identidade, a tecnologia, o corpo e as relações sociais são recorrentes. Seu estilo é marcado pela hibridização de mídias e pela busca de novas formas de percepção e cognição. A relação com a tradição poética é de ruptura e reinvenção, inserindo-se no contexto da poesia contemporânea expandida e da arte conceitual.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Aleixo atua em um contexto cultural marcado pela globalização, pela revolução digital e pelas transformações sociais e políticas do Brasil e do mundo. Sua obra dialoga com as questões da contemporaneidade, refletindo sobre o impacto da tecnologia nas relações humanas e na produção de sentido. Ele se insere em um movimento de renovação da poesia brasileira, que busca superar as fronteiras entre as artes.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de Ricardo Aleixo é mantida com discrição, mas sua dedicação à arte é evidente em sua trajetória. A intensidade de sua pesquisa artística e sua presença marcante em performances sugerem uma profunda imersão em seu trabalho.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Ricardo Aleixo é amplamente reconhecido no meio artístico e literário, tanto no Brasil quanto internacionalmente. Sua obra tem sido objeto de exposições, performances e estudos em diversas instituições culturais e acadêmicas. É considerado um dos poetas mais inovadores de sua geração.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Embora seja difícil apontar influências específicas de forma conclusiva, sua obra dialoga com tradições da poesia concreta, da poesia experimental, da arte conceitual e da performance. Seu legado reside na redefinição dos limites da poesia e na sua capacidade de pensar e propor novas formas de expressão na era digital, inspirando artistas e poetas a explorarem a materialidade da linguagem e do corpo.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Aleixo convida a múltiplas interpretações, desafiando o espectador/leitor a repensar a relação entre forma e conteúdo, som e silêncio, corpo e linguagem. Críticos destacam sua capacidade de criar experiências sensoriais e intelectuais complexas, que levantam questões sobre a condição humana na contemporaneidade.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Sua metodologia de trabalho envolve pesquisa aprofundada em áreas diversas, muitas vezes não diretamente ligadas à literatura, o que enriquece sua produção com perspectivas inesperadas. A constante experimentação com diferentes suportes e tecnologias é um traço marcante.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Até o presente momento, Ricardo Aleixo encontra-se vivo e ativo em sua produção artística e literária.