Ricardo Aleixo

Ricardo Aleixo

n. 1960 BR BR

Ricardo Aleixo é um poeta e artista visual brasileiro conhecido pela sua exploração das intersecções entre linguagem, corpo e tecnologia. Sua obra transcende os limites da poesia tradicional, incorporando elementos de performance, instalação e arte sonora. Aleixo é reconhecido por sua abordagem experimental e crítica, questionando as estruturas sociais e as formas de comunicação na contemporaneidade. Sua produção poética é marcada pela desconstrução da palavra e pela busca de novas materialidades para a expressão.

n. 1960-09-14, Belo Horizonte

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Homens

Leonilson
pintava
e
bordava.

Bispo do Rosário
colecionava
delírios
e bordava.

Lampião
tocava o terror
no sertão
e bordava.

João Cândido
punha a República
no curé
e bordava.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Ricardo Aleixo é um poeta, performer e artista visual brasileiro, nascido em Belo Horizonte. É conhecido por sua atuação na vanguarda da poesia experimental, explorando as relações entre linguagem, corpo, tecnologia e performance. Sua nacionalidade é brasileira e a língua principal de sua obra é o português.

Infância e formação

Pouca informação pública detalhada sobre sua infância e formação inicial está disponível. No entanto, é notório o seu percurso autodidata e a profunda imersão em estudos sobre linguagem, arte e tecnologia, que moldaram sua visão artística.

Percurso literário

Ricardo Aleixo iniciou sua trajetória explorando a poesia de forma experimental, logo se destacando pela originalidade de sua proposta. Seu percurso literário é intrinsecamente ligado à sua prática artística, onde a palavra é levada para além do suporte do livro, em performances e instalações. É um dos nomes mais relevantes da poesia contemporânea brasileira, com atuação internacional.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Ricardo Aleixo caracteriza-se pela experimentação radical com a linguagem poética. Ele frequentemente desconstrói a palavra, o som e o corpo, utilizando-os como matéria-prima para performances, instalações sonoras e textos. Temas como a memória, a identidade, a tecnologia, o corpo e as relações sociais são recorrentes. Seu estilo é marcado pela hibridização de mídias e pela busca de novas formas de percepção e cognição. A relação com a tradição poética é de ruptura e reinvenção, inserindo-se no contexto da poesia contemporânea expandida e da arte conceitual.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Aleixo atua em um contexto cultural marcado pela globalização, pela revolução digital e pelas transformações sociais e políticas do Brasil e do mundo. Sua obra dialoga com as questões da contemporaneidade, refletindo sobre o impacto da tecnologia nas relações humanas e na produção de sentido. Ele se insere em um movimento de renovação da poesia brasileira, que busca superar as fronteiras entre as artes.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de Ricardo Aleixo é mantida com discrição, mas sua dedicação à arte é evidente em sua trajetória. A intensidade de sua pesquisa artística e sua presença marcante em performances sugerem uma profunda imersão em seu trabalho.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Ricardo Aleixo é amplamente reconhecido no meio artístico e literário, tanto no Brasil quanto internacionalmente. Sua obra tem sido objeto de exposições, performances e estudos em diversas instituições culturais e acadêmicas. É considerado um dos poetas mais inovadores de sua geração.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Embora seja difícil apontar influências específicas de forma conclusiva, sua obra dialoga com tradições da poesia concreta, da poesia experimental, da arte conceitual e da performance. Seu legado reside na redefinição dos limites da poesia e na sua capacidade de pensar e propor novas formas de expressão na era digital, inspirando artistas e poetas a explorarem a materialidade da linguagem e do corpo.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Aleixo convida a múltiplas interpretações, desafiando o espectador/leitor a repensar a relação entre forma e conteúdo, som e silêncio, corpo e linguagem. Críticos destacam sua capacidade de criar experiências sensoriais e intelectuais complexas, que levantam questões sobre a condição humana na contemporaneidade.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Sua metodologia de trabalho envolve pesquisa aprofundada em áreas diversas, muitas vezes não diretamente ligadas à literatura, o que enriquece sua produção com perspectivas inesperadas. A constante experimentação com diferentes suportes e tecnologias é um traço marcante.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Até o presente momento, Ricardo Aleixo encontra-se vivo e ativo em sua produção artística e literária.

Poemas

29

Brancos

eles que são brancos e os que não são eles
que são machos e os que não são eles que
são adultos e os que não são eles que são
cristãos e os que não são eles que são ricos
e os que não são eles que são sãos e os que
não são todos os que são mas não acham
que são como os outros que se entendam
que se expliquem que se cuidem que se

1 061

UMA ALEGRIA

jamais minas gerais
vibrou dentro de mim

o rumor de seu invisível mar
e o ouro puro de seu tambor

transatlântico negro
como naquele breve maio

ensolarado de alegrias
quando eu deambulava

pelos becos e ladeiras
de Coimbra e descobri

em meio aos graves portugais
os timbres de pequenas

áfricas utópicas
ali em meio aos portugais
661

TEOFAGIA

Aqui, eu —
consumada falha
de papai e mamãe:
meia ¾ (acho
que de menina),
uma palma
e uma folha
de papel na mão,
minutos depois
de deglutir
Deus, à guisa
de primeira
comunhão.
663

Paupéria revisitada

Putas, como os deuses,
vendem quando dão.
Poetas, não.
Policiais e pistoleiros
vendem segurança
(isto é, vingança ou proteção).
Poetas se gabam do limbo, do veto
do censor, do exílio, da vaia
e do dinheiro não).
Poesia é pão (para
o espírito, se diz), mas atenção:
o padeiro da esquina balofa
vive do que faz; o mais
fino poeta, não.
Poetas dão de graça
o ar de sua graça
(e ainda troçam
na companhia das traças
de tal “nobre condição”).
Pastores e padres vendem
lotes no céu
à prestação.
Políticos compram &
(se) vendem
na primeira ocasião.
Poetas (posto que vivem
de brisa) fazem do No, thanks
seu refrão.
844

Labirinto

Conheço a cidade
como a sola do meu pé.

Espírito e corpo prontos
para evitar

outros humanos polícias
carros ônibus buracos

e dejetos na calçada,
incorporo hoje o Sombra amanhã

o Homem In
visível sexta à noite

o perigoso Ninguém
e sigo.

Como os cegos
conheço o labirinto

por pisá-lo
por tê-lo

de cor na ponta dos pés
à maneira também do que

fazem uns poucos
com a bola

num futebol descalço
qualquer. Conheço a

cidade toda (a
mínima dobra retas cada borda

curvas) e nela – à
custa de me

perder – me
reconheço.
986

Dedicatória

Prefiro a paciente
proeza das traças,

meu caquético rapaz,
aos versinhos

bem traçados
dos quais

te mostras capaz
(assépticos e sérios

como os de
ninguém mais).

Ah! Ler-te é
penetrar na paz

dos cemitérios.
Pelo modo como caminhas,

nota-se que ainda
respiras, mas

já entreleio,
junto aos títulos

dos teus livros,
os dois precisos

vocábulos
("Aqui jaz")

com que, um dia,
te saudarão os vivos.
499

Misturam-se ao rumor do mar

Misturam-se ao rumor do mar,

mas são e serão sempre o que são:
ecos de tentativas de conversa

               em línguas estranhas entre elas,

dentro dos tumbeiros, a caminho
de novos sucessivos desastres.

                Como ouvi-las sem tentar inter-

pretá-las, dada a total impossibi-
lidade de ignorar suas cadências,

                suas inflexões, o granulado dos

seus timbres, seu quê de coisa e de
água fluindo em meio a água e mais

                água e um nunca se acabar de água?
704

E rir à solta e não morrer

Poder morrer
Ainda no ventre

da mulher
que me pariu.

E não ter
morrido lá.

Poder morrer
de algum veneno

que alguém
insuflou num fruto

que eu menino
colheria enquanto

brincava sozinho.
E não morrer.

Poder morrer
Adolescente sob

as patas distraídas
de uma esquina

de domingo.
E rir à solta e

não morrer.
Poder morrer

num dia quente,
tudo já seco

por dentro, e a
cidade e o mundo

alheios. Não morri
num dia assim.

Poder morrer
de tantas formas

e não ter morrido
nunca nenhum

desses tantos anos
que eu vivo

aqui entre
os humanos.
708

Alheio

escolho ouvir,
sei muito bem que o risco não é pequeno, meio

adormecido no banco do
ônibus, a não ser que ela voltasse a cabeça, não

pensamos palavras,
mas a cada novo

ângulo descortinado, sempre a ponto
de cair, é

quando o sujeito retorna, escolho
não falar, não

considero prudente
falar, ela insiste,

a imagem fixa na retina,
rastros na areia, chega

um momento em que já não se pode
recuar, um garoto sonha e ri muito

alto, guardar sigilo,
uma página em branco,


o pensamento um corte,
animais de corpos cilíndricos,

imaginar o que há
dentro de uma árvore,

escolho olhar o fogo, ainda ontem, o todo inacabado,
dois seixos na beira do lago, falava alheio,

uma sequência de desvios, ouvia sem entender,
estou só, aqui, escrito
761

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